Vol 2

Capítulo 14

O Chefe Oculto Vai à Capital Real

Fazia menos de dois meses que havíamos começado a trabalhar no desenvolvimento da nova vila, mas os preparativos já estavam quase concluídos. Os campos ainda não haviam sido cultivados, mas isso ficaria a cargo dos moradores. Como a terra seria deles, não deveriam ter qualquer receio em assumir essa tarefa.

Ainda havia um problema a resolver em relação aos moradores da aldeia devastada que se mudariam para cá: eu precisava convencer meu vizinho, o Visconde Cottoness, a concordar com meu plano. Eu queria resolver as coisas da maneira mais amigável possível.

Imaginei que, se eu pressionasse o visconde sobre sua falta de administração, ele provavelmente não teria muito a dizer para me contradizer — afinal, o motivo pelo qual seus aldeões haviam se voltado para o roubo era porque ele decidira negar-lhes ajuda, mesmo depois de eles o terem informado de que estavam passando por dificuldades após serem atacados por monstros. Ele os havia abandonado praticamente à própria sorte antes disso também, o que significava que a aldeia não poderia estar localizada em uma área tão importante para o visconde. Por fim, era provável que a aldeia estivesse no vermelho há vários anos, talvez até algumas décadas, se a situação estivesse realmente ruim — tecnicamente, eu assumir o controle da aldeia seria um bom negócio para ambos os territórios. Ou pelo menos, era o que eu pensava.

O plano era que eu viajasse para falar com o visconde junto com Patrick. Ele parecia querer viajar comigo sempre que eu ia a algum lugar a trabalho.

Ah, Patrick, que bobinho! Isso não é um encontro, sabia?

Independentemente disso, ele insistiu: “Não posso te perder de vista.”

Em resposta, perguntei a ele: “Isso significa que você está completamente apaixonado por mim?”

{ Del: Se ela tivesse perguntado isso no começo do volume lá na capital… }

Mas ele apenas revirou os olhos. “Significa que eu não sei que tipo de problema você poderia causar sozinha”, esclareceu.

Eu aqui pensando que nossa história era sobre uma garota encantadora e um garoto apaixonado, mas na verdade era sobre uma garota delinquente e seu supervisor, que a acompanhava o tempo todo! Fiz beicinho por dentro. Ora, Patrick, nosso relacionamento deveria ser mais amoroso do que o de uma prisioneira com seu guarda!

Enfim, íamos visitar o Visconde Cottoness, que era apenas mais um aristocrata provinciano… ou pelo menos, era o que eu pensava. Segundo a pesquisa preliminar que fiz recentemente, ele tendia para o lado radical do espectro político e, na verdade, acabou ficando bastante rico apesar de seu território provinciano, graças ao algodão que sua família cultivava há várias gerações. Aparentemente, culturas comerciais como o algodão valiam muito dinheiro.

O atual visconde de Cottoness usou essa riqueza para se aproximar o máximo possível do duque Hillrose e de seu grupo de amigos, numa clara tentativa de obter poder. Como sempre, esse tipo específico de pensamento era um completo mistério para mim.

Ele não é tão ruim quanto meus pais, que deixaram seu território rumo à capital real e nunca se arrependeram, mas o visconde é claramente um homem bastante ambicioso. Refleti. Consigo imaginá-lo me pedindo algo em troca de eu ficar com a aldeia — terei que abordar essas negociações com a mente clara.

Nesse instante, chegamos à mansão do visconde, que ficava na cidade central de seu território e era um pouco menor que minha própria propriedade no Condado de Dolkness. Fomos rapidamente conduzidos à sala de estar, onde o visconde nos aguardava.

“Faz tempo, Visconde Cottoness”, cumprimentei o homem.

O visconde, um homem esguio na casa dos quarenta anos que parecia tão frágil que poderia ser levado por um vento forte, assentiu com a cabeça. “Estávamos aguardando sua visita.”

Eu já havia encontrado o visconde uma vez antes, quando me tornei condessa e estava viajando para cumprimentar meus vizinhos. Aquela visita tinha sido apenas de cortesia, então este era basicamente nosso primeiro encontro de verdade. O próprio visconde pareceu um tanto satisfeito com a minha visita, o que foi um pouco estranho, já que eu havia mencionado que estava ali para discutir algo importante.

Olhei ao redor da sala em que estávamos, cujas paredes estavam decoradas com várias pinturas e peças de armadura. A decoração aqui é um pouco exagerada. Pensei, dando um gole no chá que nos haviam trazido.

“Vim aqui hoje para—”

“Sim, eu sei”, interrompeu o visconde. “Parece que os rumores são verdadeiros.”

Fiz uma pausa, olhando para o homem com confusão. Seria natural que ele descobrisse que estávamos enviando comida para uma das suas vilas sem permissão, mas havia uma estranha vertigem em seu tom que me fez pensar que o visconde estava se referindo a algo completamente diferente.

“Se você vai se associar ao duque”, continuou o visconde com um sorriso presunçoso, “então o plano ficará ainda mais sólido”.

Pisquei, assimilando lentamente aquelas palavras. Mas eu jamais mudaria de aliança para me juntar ao duque… e, aliás, que plano é esse de que você está falando?

Abri a boca para fazer essa pergunta, mas Patrick me cutucou na costela, me interrompendo. Você quase me fez soltar um som estranho! pensei na direção dele, lançando-lhe um olhar que declarava minha intenção de jamais perdoá-lo. Infelizmente, ele não deu a mínima.

“Na verdade, viemos perguntar sobre o plano”, declarou Patrick. “Não conseguimos visitar a Capital Real há algum tempo devido a certas circunstâncias, e as cartas podem ser comprometidas. Por isso, gostaríamos de pedir que compartilhasse os detalhes do plano conosco.”

“Espere, você não sabe absolutamente nada sobre o plano…?” perguntou o visconde.

Nossa falta de informações pareceu deixá-lo um pouco desconfiado, então Patrick continuou blefando.

“Nós sabemos o essencial”, explicou meu noivo, “mas passamos por muitos problemas na capital real para conseguir essa informação.”

“Ah, sim, sua família é…”

“Sim, meu pai é marquês. Entendo por que eles seriam cautelosos comigo.”

“Claro que sim; a antipatia do marquês por Lemlaesta é bem conhecida.”

{Moon: Patrick jogando a boa com 1% de chance e funcionando… Meu Goat!}

Nossa, esse cara está até mencionando um dos nossos reinos vizinhos? Pensei. Isso definitivamente é algo ruim… Quero fingir que não ouvi nada e ir para casa. Aliás, informe-se melhor, visconde! É a esposa do marquês que odeia Lemlaesta, não o próprio marquês. Mas acho que isso não importa muito agora.

“A verdade é que eu também não sei muitos detalhes”, continuou o visconde. “Ouvi dizer que vamos receber reforços de Lemlaesta para nos livrarmos da facção do rei, mas não tenho ideia do que exatamente esses reforços envolverão.”

Nossa, ele está se abrindo completamente, pensei. Parece que Patrick fez um bom trabalho em convencê-lo.

“Entendo”, respondeu Patrick pensativo. “Então não somos os únicos que não souberam de muita coisa.”

“Sim”, concordou o visconde. “Parece ser esse o caso, já que o duque está de fato tomando a iniciativa, para variar.”

Eu vinha ouvindo a discussão deles supondo que algumas pessoas não tinham pensado direito e estavam se precipitando, mas ao ouvir isso, fiquei chocada. “O próprio duque de Hillrose?”, perguntei sem pensar.

“Sim, o próprio duque negociou com Lemlaesta.”

Parecia que o pai de Eleanora finalmente estava tomando medidas drásticas. E eu aqui, pensando que ele não queria causar problemas, já que havia dito a Eleanora para ficar longe do Príncipe Edwin. Nem sequer achei o pedido estranho, visto que a família real sempre estivera em conflito com a do duque. Mas, ao contrário do que eu imaginava, o Duque Hillrose era de fato bastante ambicioso.

Suponhamos que eu acreditasse no que o Visconde Cottoness nos contou até agora. Isso significaria que o duque estava fazendo algo tão extremo quanto convidar um país inimigo a assumir o controle de sua terra natal. Não havia como suavizar a situação, isso era um golpe de Estado — um ato irreversível de traição.

De qualquer forma, é melhor irmos embora enquanto o visconde ainda acha que estamos do lado do duque, decidi. Não parece que ele tenha qualquer informação útil para nós, e as coisas vão se complicar se ele descobrir que Patrick está blefando. Firme nessa decisão, dei minha própria cutucada no lado de Patrick, na esperança de sinalizar para ele mudar de assunto. Raaaaawr, sinta a fúria do meu dedo indicador! Isso é a vingança por mais cedo!

“Argh!” resmungou Patrick.

As sobrancelhas do visconde se ergueram. “Aconteceu alguma coisa?”

“Não, nada”, disse Patrick, lançando-me um olhar ressentido. “Na verdade, viemos aqui para discutir outra coisa.”

Me perdoe, Patrick, pensei. Eu não queria usar tanta força…

Então, aproveitei a oportunidade para assumir o controle da conversa. “Eu falarei sobre esta parte”, declarei. Em seguida, focando-me no visconde, comecei: “Há alguns meses, fomos atacados por um bando de ladrões no condado de Dolkness.”

“Oh, céus, espero que você esteja…” O visconde fez uma pausa, quase rindo de si mesmo. “Bem, tenho certeza de que você estava bem, Condessa Dolkness.”

“Sim, saímos completamente ilesos”, concordei. “Só há um problema: os ladrões eram do seu viscondado.”

“Oh…” murmurou o visconde, com o rosto rígido. “M-me desculpe, não sei como compensá-la.”

Enquanto eu observava, o homem à minha frente começou a tremer de medo, provavelmente pensando no que eu exigiria dele para compensar o ataque sofrido por pessoas de seu próprio território.

As negociações correrão bem se ele permanecer nesse estado, pensei alegremente. Tudo o que preciso que ele faça é concordar que os aldeões podem se mudar.

“Conversei com os ladrões e, segundo eles, a aldeia deles era tão desolada que não conseguiam sobreviver. Você conhece alguma aldeia no seu território que fique à sombra de uma montanha, com colheitas escassas?”

“S-Sim! Sim, eu conheço aquela aldeia. Eles nem sequer pagam os impostos e ficam nos incomodando, pedindo ajuda. Eles também têm me causado bastante problemas. Como você gostaria que eu lidasse com eles?”

“Para… ‘lidar’ com eles…?” Uma raiva contida e latente começou a crescer dentro de mim.

Embora, por razões de sua posição, um senhor de terras tivesse que, às vezes, enxergar seu povo como números, a maneira como o Visconde Cottoness se referia a esses aldeões parecia desnecessariamente cruel. Tratá-los com tanto desprezo quando o único problema deles era estarem alojados em um lugar ruim… Agir como se fossem apenas um fardo a ser descartado…

“Ah, mas se você já se vingou, deve haver consideravelmente menos deles agora”, continuou o visconde, divagando em seu pânico. “Obrigado, eu agrade—”

O visconde interrompeu-se com um arrepio quando me levantei sem pensar, completamente louca agora. Patrick nem sequer se mexeu para me impedir, o que foi totalmente inesperado e, na verdade, me acalmou.

Se eu deixar minhas emoções tomarem conta e perder a cabeça, nada vai se resolver, disse a mim mesma com firmeza, respirando fundo. Agora, o mais importante é fazê-lo concordar com os nossos termos.

{ Yoru: “Eu li e concordo com os Termos e Condições.” | Moon: Resolvendo amigavelmente na base da pressão!}

Recém-composta, eu disse com desdém: “É evidente que você não se importa em perder seus cidadãos se eles não estiverem sendo produtivos para você. Sendo assim, gostaria que permitisse que os moradores da vila de que falamos se mudassem para o meu condado.”

“V-Você quer que eles se mudem?” perguntou o visconde, visivelmente chocado e perturbado.

Nesse momento, eu só queria a aprovação do homem e voltar para o meu condado. Decidi então reforçar minhas palavras.

“É óbvio que você não sabe como lidar com aquela aldeia”, eu disse firmemente. “E eu preciso de mais trabalhadores. Nossos interesses parecem estar alinhados neste assunto. Então, você vai concordar com a minha proposta, correto? Vai deixar os aldeões se mudarem?”

O Visconde Cottoness apenas assentiu com a cabeça em concordância com a minha pergunta. Foi um sim imediato — ele nem sequer perguntou como seu povo seria tratado no meu condado.

 

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Agora que tínhamos a informação de que Duke Hillrose estava colaborando com Lemlaesta para agir contra Valschein, decidi que precisava repassar essa informação às pessoas certas. Ficou claro que a situação era muito grande para lidarmos sozinhos.

Assim, partimos do Condado de Dolkness logo pela manhã e voamos para a Capital Real. Primeiro, fomos para a propriedade de Dolkness, de onde enviei uma carta que havia preparado para o rei, entregue no Palácio Real. Apesar de ser condessa, não era como se eu pudesse simplesmente invadir o palácio e visitar o rei quando quisesse — sua agenda certamente era lotada. Provavelmente levaria mais de uma semana para vê-lo pessoalmente… ou pelo menos era o que eu pensava.

Acontece que a resposta de Sua Majestade foi bastante rápida. Menos de uma hora depois de chegarmos à capital real, um mensageiro do palácio apareceu à nossa porta. Patrick e eu nos dirigimos imediatamente à sala de estar da propriedade, onde encontramos nosso antigo diretor… quer dizer, Ronald, o confidente próximo do rei, à nossa espera. Ele se levantou e inclinou levemente a cabeça em saudação.

“Já faz um tempo”, eu disse.

“Sim, foi. É bom ver você, Yumiella, e você também, Patrick. Uma pergunta rápida: o reino será destruído hoje?”

“O quê?” Olhei para o homem, perplexa. “Como eu vou saber?”

Será que um meteoro vai cair em cima da gente ou algo assim?

“Não”, interrompeu Patrick, poupando-me de ter que elaborar outra resposta. “O nosso problema não é assim tão urgente.”

“Entendo, que bom ouvir isso.” Ronald soltou um suspiro de alívio e praticamente caiu no sofá, como se toda a energia tivesse se esvaído de seu corpo de uma só vez. “Notei que você estava na Capital Real porque vi seu dragão”, continuou ele em tom casual, com seu sorriso habitual ainda estampado no rosto. “Logo depois disso, chegou uma carta endereçada a Sua Majestade informando sobre uma emergência, então imaginei que algo terrível tivesse acontecido.”

“Ainda são más notícias”, disse Patrick, categoricamente.

“Mas você não parece muito em pânico, então provavelmente tudo vai ficar bem, certo?”

Imagino que o golpe de estado do Duque Hillrose não seja algo com que devamos nos preocupar muito, comparado ao surgimento de outro ser semelhante a um Rei Demônio ou a um meteoro gigante que virá para nos aniquilar. Ainda assim, certamente é significativo o suficiente para abalar o reino.

“Pode relaxar”, eu disse a Ronald enquanto me sentava à sua frente. Dado o quanto ele continuava imaginando o pior cenário possível, senti que ele precisava de garantias. “Não é algo que vá causar danos imediatos a ninguém.”

“Vindo de você, isso não é nada tranquilizador”, respondeu Ronald, dando uma risadinha discreta.

Será que sou mesmo tão indigna de confiança? Olhei para Patrick, que estava sentado ao meu lado, e o vi assentindo silenciosamente em concordância.

Deixando de lado minha confiabilidade, eu não tinha certeza se poderíamos simplesmente abordar os detalhes em nossa localização atual. Eu planejava contar a Sua Majestade o que havia descoberto diretamente, para evitar ser ouvido por alguém do lado do duque. Embora Ronald não parecesse um traidor — o rei parecia confiar bastante nele…

Percebendo minha indecisão, Ronald disse: “Aqui, tome uma decisão depois de ler isto”, e me entregou um envelope com o selo de cera da família real. Abri a carta e encontrei uma escrita pelo próprio rei.

Ele deve ter escrito isso às pressas, pensei distraidamente, enquanto lia rapidamente. Não há cumprimentos formais, como costuma haver em cartas, e está basicamente rabiscado.

O conteúdo da carta basicamente pedia que confiássemos em Ronald, que provavelmente estava sentado bem à nossa frente. O rei pediu que disséssemos a Ronald o que desejávamos discutir com ele primeiro, e então uma decisão seria tomada sobre como prosseguiríamos. Assim que terminei de ler a carta, entreguei-a a Patrick para que ele também a lesse.

“Por isso, gostaria que me contasse o que aconteceu”, disse Ronald, acenando com a cabeça em direção à carta. “Mas, se insistir em falar diretamente com Sua Majestade, posso agendar uma reunião para você hoje mesmo.”

“Tudo bem, podemos discutir isso aqui”, eu disse. Virei-me para Patrick, que estava inspecionando o lacre de cera no envelope da carta. “Não tem problema, não é?”

Patrick assentiu com a cabeça em concordância.

Devo contar a Ronald o que está acontecendo, decidi. Afinal, se o rei confia tanto nele, é muito provável que Ronald não esteja em conluio com o duque.

“O motivo de termos vindo à Capital Real é que recebemos informações relacionadas ao Duque Hillrose”, expliquei. “Ele está recebendo reforços de Lemlaesta e planeja eliminar os membros da facção do rei. Recebemos essa informação do visconde de Cottoness.”

“Entendo; parece que ele finalmente está tomando algumas providências”, disse Ronald, assentindo com a cabeça.

Observei-o atentamente para ver se sua expressão mudaria ao menos um pouco, mas permaneceu exatamente a mesma. Não consegui discernir um pingo de surpresa no homem, e seu sorriso estava tão inabalável como sempre.

“Você… por acaso já sabia dessa notícia?”

Ronald balançou a cabeça. “Não, é a primeira vez que ouço falar do envolvimento dos nossos vizinhos. Acho que o rei também não sabe.”

“Hum… Você não deveria estar um pouco mais alarmado…?”

O Ronald que eu conhecia sempre falava de forma bastante informal e encarava as coisas com leveza, mas sempre abordava assuntos sérios com a atitude apropriada. Mas agora, eu não conseguia perceber nenhuma seriedade em seu comportamento.

“De qualquer forma, como estão as coisas no condado? Parece que o delegado continua trabalhando bastante.”

“Temos estado bem”, respondi, e então me repreendi. “Será que realmente deveríamos estar discutindo isso agora?”

Ronald deu de ombros. “Para ser sincero, já superei isso. A questão com o duque vai ficar bem, e não acho que você vá se envolver nisso.”

Algo… não me parece bem, pensei.

Isso era um problema enorme — as famílias aristocráticas que detinham o maior poder além do rei estavam planejando uma revolta contra o reino! Então, por que Ronald estaria reagindo dessa forma…?

Virei-me para Patrick, encarando-o enquanto quebrava a cabeça pensando no que fazer.

“Você ainda quer falar diretamente com o rei?” perguntou Ronald. “A agenda dele está bem cheia hoje, então a reunião teria que ser marcada para depois de amanhã.”

“Não… está tudo bem”, eu disse fracamente. “Se você pudesse avisar Sua Majestade por nós, seria ótimo.”

“Hahaha, tem certeza?” perguntou Ronald, com uma voz estranhamente alegre. “Não é qualquer um que consegue ver o rei em dois dias.”

Patrick me lançou um olhar como se quisesse ter certeza de que eu estava bem com a forma como as coisas estavam acontecendo, mas, honestamente, eu não me importava.

Olha, eu só quero evitar ir ao Palácio Real. Já compartilhei o que precisava, então o Ronald pode cuidar do resto junto com os outros centralistas.

Pelo que eu sabia, se Ronald dizia que estava tudo bem, então era provável que o rei nos desse a mesma resposta. Afinal, o rei depositava muita confiança nele. Mesmo assim… eu não conseguia deixar de me perguntar quem Ronald realmente era. Ele era tão inflexível em não revelar seu sobrenome que era improvável que viesse de uma família plebeia.

Como se lesse meus pensamentos, Ronald me deu um largo sorriso. “Acho que você não vai chegar a lugar nenhum tentando descobrir quem eu sou”, disse ele. “Há até pessoas em posições elevadas no reino que não sabem.”

 

Isso só aumenta minha curiosidade! Pensei, fazendo beicinho por dentro. Ser tão jovem e já ser um confidente próximo do rei… Será que Ronald é filho bastardo do rei? Isso explicaria por que ele não tem sobrenome e por que o rei confia tanto nele a ponto de lhe atribuir esse tipo de trabalho…

“Eu não sou nenhum bastardo nem nada, tá bom?”, disse Ronald, dando uma risadinha. “Mas já estou acostumado com as pessoas pensando isso.”

Eu nem sequer disse nada, e ele já contradisse minha linha de raciocínio!

{ Yoru: Tô começando a suspeitar que esse cara realmente consegue ler mentes… | Moon: Será? }

Tentei deixar minha imaginação correr solta, na esperança de encontrar outra explicação para a confiança do rei em Ronald, mas não consegui chegar a nenhuma conclusão. Suspirando, desisti — parecia, exatamente como Ronald havia me dito, que eu não chegaria a lugar nenhum tentando desvendar o mistério.

Nesse instante, uma comoção começou no corredor — parecia que alguém estava tentando entrar à força enquanto os criados tentavam impedir.

Só conhecia uma pessoa que se convidaria para a minha propriedade na capital real. Patrick e eu nos entreolhamos rapidamente. Ronald, por sua vez, parecia perdido, sem entender o que estava acontecendo. Olhou para a porta com um olhar inquisitivo.

“Parece haver muito barulho aí. Aconteceu alguma coisa?”

Suspirei. “A última vez que isso aconteceu foi quando Sua Alteza veio nos visitar”, disse eu, cansada. “Ela vai dar um jeito de entrar daqui a pouco.”

O barulho se aproximava cada vez mais, exatamente como eu esperava, e então a porta da sala de estar foi aberta com violência. De repente, entrou a filha do homem que foi o centro da nossa conversa mais recente — a senhorita Eleanora Hillrose.

“Vim honrar-vos com a minha presença!”, anunciou ela grandiosamente, irrompendo na sala com toda a intensidade de uma tempestade de verão.

Observando-a, não pude deixar de pensar: Como ela consegue fazer movimentos tão agressivos usando um vestido?

Olhei para o lado para ver como Ronald estava, e o encontrei paralisado ao ver Eleanora. Eu entendia sua surpresa, mas Eleanora também estava com os olhos arregalados ao vê-lo.

“Por que você está visitando a casa da Yumiella, irmão?”

Irmão?! Ronald é o irmão da Eleanora? Então ele é filho do Duque Hillrose?

{ Yoru: É, quem especulou estava certo. | Moon: Adoraria comentar uma cena, mas seria um spoiler grande pra quem não leu o mangá…}

“Ora, olá, senhorita Eleanora”, disse o homem cuja identidade era, naquele momento, incerta. Ele forçou um sorriso. “Não a vejo desde a sua formatura.”

Eleanora olhou para ele com uma expressão confusa. “Do que você está falando? Nós nos encontramos outro dia.”

“Tenho certeza de que não entendi o que você quis dizer. Um educador e um ex-aluno jamais se encontrariam fora da Academia.”

“Oh!” exclamou Eleanora de repente, levando a mão à testa. “Eu não devia ter contado a ninguém que você é meu irmão, devia?!” Houve um breve silêncio enquanto ela se recompunha, e então cumprimentou Ronald novamente. “Diretor, como vai?”

“Não acredito que você me confundiu com seu irmão, ha ha.”

Vocês sabem que não estão me enganando, né…?

Houve um longo silêncio, e então Eleanora perguntou: “Então, por que você está aqui, irm… quer dizer… Diretor?”

Será que ela está mesmo tentando esconder a identidade dele?!

Lancei um olhar de profunda suspeita aos dois irmãos, ao que Ronald respondeu com as mãos em sinal de êxtase.

“Ah, já chega! Consegui esconder até agora, mas tanto faz…” Uma expressão de profundo desagrado tomou conta do rosto de Ronald, algo bastante incomum para ele. “Você me pegou, eu sou Ronald Hillrose. Estive escondendo meu sobrenome e trabalhando como confidente do rei.”

Fiquei verdadeiramente chocada, e não apenas com a verdadeira identidade de Ronald — como ele e Eleanora conseguiram esconder o relacionamento por tanto tempo? Eu estava particularmente curiosa para saber por que Eleanora manteve tudo em segredo, mas a pergunta mais importante naquele momento era por que Ronald havia escondido seu nome em primeiro lugar.

Ele deve ter saído da casa do duque de Hillrose muito jovem, se ninguém mais sabe que eles são parentes, percebi. Mas o que o duque ganharia com todo esse trabalho?

“Por quê?”, perguntei a Ronald, simplesmente.

“Foi ideia do meu pai, o Duque Hillrose. Segundo ele, eu deveria viver toda a minha vida como alguém sem qualquer ligação com a família Hillrose.”

“Deve haver um motivo”, eu disse.

Ronald assentiu com a cabeça. “Claro que sim. Quando meu pai me contou pela primeira vez, eu não conseguia acreditar, mas agora sou grato por sua perspicácia. Acho que não posso mais zombar de suas previsões…”

Bem, parece que minha pergunta vaga recebeu uma resposta obscura. Pensei. Não me pareceu certo insistir mais sobre o motivo de ele ter escondido seu passado, então deixei para lá.

Deve ter sido insuportável para Ronald crescer em Valschein sem o nome de sua família — na sociedade aristocrática de Valschein, a origem era considerada extremamente importante. Devia haver uma razão muito mais profunda e complexa para ele ter vivido daquela maneira por tanto tempo.

“Entendo”, disse finalmente. “Como o assunto não tem nada a ver comigo, não pedirei mais informações. Também não contarei a mais ninguém.”

“Não é da sua conta, né?” Ronald murmurou. “Bom, isso ajuda, obrigado.”

Por que ele está falando assim? Provavelmente foi algo que aconteceu antes de eu nascer, então como isso poderia me envolver…?

De qualquer forma, isso não era importante agora — deveríamos nos concentrar na questão do Duque Hillrose. Agora que sabíamos que Ronald tinha ligações secretas com o duque, havia uma chance de ele decidir não repassar minhas informações sobre o golpe de estado ao rei.

“Acho que, afinal, gostaria de ver o rei”, decidi.

“Acho que perdi sua confiança”, disse Ronald com leveza. “Desculpe por isso. Se quiser, posso marcar a reunião agora mesmo.”

“É só uma formalidade, então depois de amanhã está ótimo”, eu disse, dando de ombros.

Afinal, Sua Majestade provavelmente já sabia a identidade de Ronald e tinha motivos para ainda confiar nele. Eu não tinha conhecimento desse motivo e, portanto, não me sentia tão segura. Eu só queria lidar com essa situação da maneira mais segura possível.

Aff, mas eu realmente não quero ir ao Palácio Real…

Meu resmungo interno foi interrompido pelo som da porta da sala de estar se abrindo mais uma vez. Virei-me na direção do som e vi Eleanora tentando sair sorrateiramente da sala.

“Eleanora”, disse Ronald, fazendo-a parar abruptamente. “Adoraria conversar com minha adorável irmãzinha — já faz um tempo.”

“Você não está bravo comigo, irmão…?”

“Claro que não, eu nunca fico bravo.”

“Você está mentindo!”, disse ela com veemência. “Você está bravo, mas continua sorrindo! É aterrorizante!”

Isso me fez lembrar da conversa que tive com Eleanora no passado, sobre como ela tinha um irmão cuja expressão nunca mudava. Agora eu entendia o que ela queria dizer — embora Ronald estivesse sorrindo como sempre, havia uma intensidade por trás da expressão que era um pouco assustadora.

Encurralada pelo irmão sorridente e irritado, Eleanora se virou para mim em busca de ajuda. “Tenho planos com a Yumiella agora!”, exclamou, piscando o olho várias vezes, como se estivesse tentando me dar uma piscadela. “Não tenho tempo para você!”

Será que ela está tentando me mandar algum sinal? Eu fiquei pensando, observando as travessuras de Eleanora.

“Senhorita Eleanora, acabei de chegar à Capital Real hoje.”

“S-Sim, mas fizemos alguns planos há algum tempo por meio de nossas cartas! Lembra?”

Minha mente já havia se desviado da conversa. Agora que penso nisso, como ela chegou aqui tão rápido? Só estamos na propriedade há algumas horas.

A resposta a esse pensamento aleatório me foi dada por Ronald. “Ah, você veio aqui porque viu o dragão, não é?”, perguntou ele à irmã. “Você é tão esperta, Eleanora.”

Eleanora deu uma risadinha, completamente satisfeita. “Hehe, recebi um elogio do Ronald. Afinal, você tem toda razão! Eu vi o Ryuu e soube que a Yumiella tinha vindo para a Capital Real!”

“Então… você não tinha planos com ela, tinha?”

“Ops.”

Preciso me lembrar de não confiar em Eleanora para transmitir nenhuma informação importante, pensei, observando a cena se desenrolar. Ela é tão atrapalhada, chega a ser preocupante.

“Será que eu poderia usar este cômodo por um instante?”, perguntou Ronald. “Há algo que eu gostaria de discutir a sós com minha querida irmã.”

“Claro, o cômodo é todo seu”, respondi, abandonando Eleanora imediatamente. “Estaremos esperando em outro lugar.”

Hehe, o Patrick veio logo atrás de mim, pensei. Ele agora é totalmente meu cúmplice no abandono.

Livre da sala de estar, caminhamos um pouco pelo corredor. Só parei quando não consegui mais ouvir a voz alta de Eleanora.

“Então, Patrick, o que você acha?”

“Ele parece estar dizendo a verdade”, disse ele lentamente. “Não acho provável que ele esteja envolvido na rebelião e, honestamente, não é tão perigoso assim.”

“Sério? Você também pensa assim?”

Patrick deu de ombros. “Mesmo que Ronald estivesse mentindo, ele seria desmascarado no momento em que tivéssemos uma audiência com o rei.”

Depois disso, Patrick expôs tudo o que havia pensado enquanto observava a conversa. Ele mencionou como Ronald ainda parecia ter a confiança do rei, mesmo que os radicais estivessem tentando persuadir o segundo príncipe a tentar suceder ao trono. Segundo ele, isso significava que não tínhamos motivos para desconfiar de Ronald, pelo menos por enquanto. Isso não significava, porém, que devemos confiar nele.

Parecia que estávamos ambos em sintonia.

“Acho que não preciso visitar o palácio, afinal”, disse eu, aliviada.

Patrick rapidamente desfez essa ilusão. “Não, acho que você ainda deve ir. Eu vou com você.”

Assim, ficou decidido que eu visitaria o palácio dali a dois dias.

Espero não encontrar nenhuma pessoa problemática…

 

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Depois de me despedir de um Ronald sorridente e de uma Eleanora com os olhos marejados, fiquei sem nada para fazer. Minha agenda estava completamente livre para o resto do dia e para o dia seguinte, mas não havia nada em particular que eu quisesse fazer agora que estávamos na capital real.

“O que devemos fazer?”, perguntei a Patrick. “Temos tanto tempo livre agora.”

“Que tal sair para almoçar?”, sugeriu ele. “É um dia agradável para uma caminhada também.”

Que conjunto de ideias excelente! Eu pensei.

Eu tinha me esquecido até agora, mas durante meu tempo na Academia, eu gostava de passear pela Capital Real no meu tempo livre. Explorar áreas da cidade que eu não conhecia pela primeira vez em muito tempo parecia a maneira perfeita de passar o dia. Comecei a ficar animada.

O maior sorriso que eu conseguia dar se estendia pelos meus lábios. Para os outros, mal pareceria um sorriso — talvez nem percebessem o leve movimento dos meus lábios. “Obrigada pela ideia, Patrick! Parece maravilhoso!”

Ele sorriu de volta para mim. “Temos trabalhado muito ultimamente, então é importante tirar um dia de folga de vez em quando.”

“Bem, então, estou indo embora!”

“Hã… o quê?” Patrick me encarou sem expressão enquanto eu saía da mansão em linha reta.

Por que eu não iria agora, já que não tenho nada a preparar? Pensei alegremente. Fico pensando o que Patrick vai fazer no tempo livre.

{ Yoru: força, Patrick, força… }

Adorei as grandes ruas principais da capital real, com todas as lojas enfileiradas umas ao lado das outras, mas, para ser sincera, meus lugares favoritos na cidade eram os becos vazios. Sempre que encontrava uma loja de aparência suspeita vendendo coisas estranhas em um deles, eu ficava super animada.

Naquele momento, eu observava uma dessas lojas do lado de fora. Pude ver que o espaço pouco iluminado estava repleto de prateleiras, mas todas pareciam vazias. A única funcionária parecia ser uma senhora idosa no fundo da loja. Aliás, sem a placa do lado de fora, não havia como saber que aquele lugar era uma loja! A placa era, na verdade, a única coisa normal em todo o local.

Que lugar inquietante e suspeito… pensei. Não tenho outra escolha senão entrar!

Fui saltitando até a porta e coloquei a mão na maçaneta… mas parei por aí. Para falar a verdade, eu não estava me divertindo muito. Eu estava tentando me forçar a ficar animada, mas por algum motivo, simplesmente não estava funcionando. Com um suspiro, decidi não entrar na loja e voltei para a rua principal.

“Eu devia ter trazido o Patrick comigo…” murmurei, as palavras escapando sem que eu percebesse.

Eu nem tinha pensado nisso antes, já que passear pela capital real sempre foi algo que fiz sozinha. Mas agora, não consigo deixar de pensar que, se o tivesse levado comigo, o passeio poderia ter se transformado em um encontro.

Com certeza teríamos nos divertido muito… pensei, fazendo beicinho. Devo tentar de novo amanhã e convidar o Patrick dessa vez. Uau, acho que finalmente tive uma boa ideia! Não acredito que tive uma ideia de encontro que ele ainda não tinha pensado! Será que… eu sou a mais experiente quando o assunto é romance…?

{ Yoru: Eu conto ou vocês contam…? | Del: Força Patrick! | Moon: Coitado…}

Depois de alguns minutos perdida em tais pensamentos enquanto caminhava de volta para as ruas principais, saí para uma via pública que me pareceu familiar. Eu não gostava particularmente de áreas como essa na capital, mas decidi caminhar pela rua e dar uma olhada nas lojas que a ladeavam por um tempo. Eu havia me esquecido de trazer um chapéu hoje, então me destacava bastante.

Como eu suspeitava, meu cabelo preto por si só era suficiente para fazer as pessoas me encararem de forma estranha, e algumas até me lançavam olhares de nojo. Na Vila Dolkness, reações como essa haviam se tornado muito mais brandas, talvez porque os moradores tivessem se acostumado comigo, mas o mesmo não se podia dizer do povo da Capital Real.

De repente, perdi a vontade de caminhar. Decidi almoçar.

No fim, comprei pão numa loja qualquer. Teria ficado mais do que feliz em comê-lo enquanto caminhava, mas eu era uma aristocrata, querendo ou não. Tinha que me comportar como uma dama.

Depois de passear um pouco, finalmente encontrei o lugar perfeito para sentar e comer. Era uma grande praça localizada no cruzamento de várias ruas principais, com bancos espalhados por diversos pontos. Escolhi um no canto da praça e me sentei.

Um bardo havia se instalado no centro da área, e eu ouvia sua canção enquanto almoçava devagar. Era uma história sobre um príncipe e seus amigos que lutaram contra um Rei Demônio.

Espera aí, uma das amigas dele não deveria ser uma garota de cabelo preto com um dragão? Fiquei pensando quando a música terminou de repente. Ela nem sequer foi mencionada!

Olhando para o centro da praça, vi que a multidão que se reunira para ouvir a canção do bardo era bastante pequena. E mesmo depois do fim da canção, poucos deles ainda haviam jogado dinheiro em agradecimento pela sua performance.

Me sentindo um pouco irritada, me levantei imediatamente e marchei até o bardo. As pessoas que ainda estavam por perto fugiram rapidamente ao perceberem minha presença, mas o bardo nem notou, pois estava olhando tristemente para seus parcos ganhos.

Joguei algumas moedas de ouro, na esperança de chamar a atenção do homem. “O quê?!” ele gritou. “Moedas de ouro?!”

“Sim”, respondi alegremente. “Gostaria que você cantasse essa música na minha casa.”

O bardo finalmente olhou para mim, radiante. Ele claramente pensava que eu era uma nobre em busca de entretenimento musical.

“Ah, não sabia que você era um aristocrata”, disse ele, encantado. “Eu adoraria…”

O bardo congelou. Parecia que a visão do meu rosto o deixara sem palavras. “Sua canção era sobre um príncipe, uma santa e dois amigos deles… quatro pessoas, certo?”, perguntei com uma voz gentil. “Eu nunca ouvi essa história antes, então gostaria de ouvi-la com mais detalhes.”

E-Eek!!” gritou o bardo. Seu rosto empalideceu e seus dentes começaram a bater.

Você não está um pouco assustado demais? Pensei, um pouco irritada. Eu só tentei te surpreender um pouco.

“Não vou fazer nada com você”, prometi. “Eu só queria ouvir a história da sua parte.”

“Você é real… não é?” perguntou o bardo com a voz rouca.

Olhei para ele com uma expressão confusa. Como assim, eu sou real?

O bardo não se acalmou por um bom tempo depois disso. A essa altura, as pessoas já haviam começado a se reunir novamente na praça vazia.

“Não sei bem o que você quer dizer com ‘real’”, eu disse ao homem, “mas eu sou Yumiella Dolkness, em carne e osso.”

“Claro, peço desculpas”, disse ele, com voz submissa.

“Eu não precisava que você se desculpasse…” suspirei. “Eu só queria saber por que não apareci na sua música.”

Não é que eu tenha qualquer intenção de divulgar minhas conquistas na batalha contra o Rei Demônio, mas parece um pouco problemático que outros estejam agindo como se eu nem estivesse lá, pensei.

Afinal, eu ainda estava trabalhando para alcançar um dos meus principais objetivos: diminuir o ódio direcionado a pessoas de cabelo preto. Eu duvidava que algum dia conseguiria erradicar completamente os sentimentos negativos em relação a pessoas como eu, mas queria fazer uma mudança positiva, mesmo que pequena. Espalhar a notícia de que eu, uma pessoa de cabelo preto, havia ajudado na luta contra o Rei Demônio, sempre fora meu plano. Isso certamente ajudaria a mudar a opinião pública na direção certa.

Eu não precisava que as pessoas soubessem que eu era mais forte que o Rei Demônio. Eu só precisava que elas soubessem que eu estivera lá. Afinal, se soubessem o nível da minha força, as pessoas ficariam com ainda mais medo de mim. Era uma linha tênue a ser trilhada.

“Hum, b-b-bem…” o bardo começou, receoso, lutando para encontrar as palavras. “E-eu não sabia como fazer você aparecer na canção, senhora Condessa. Outros bardos também tiveram dificuldades com isso…”

“É difícil me incluir?”, perguntei, curiosa e confusa ao mesmo tempo. “Como assim?”

“Bem, sua aparência e o elemento que você usa são, hum…” O bardo parou de falar.

Estava tudo bem — eu já tinha entendido a essência do que ele queria dizer. Basicamente, eu passava a impressão de ser a vilã.

Neste mundo, era muito comum que os vilões aparecessem como pessoas de cabelos negros em obras literárias. Esses demônios e bruxas de cabelos escuros se colocavam no caminho do protagonista, usando magia negra para impedi-lo de progredir. Isso significava que, se um bardo me descrevesse em uma de suas versões da história do Rei Demônio, pareceria que a Chapeuzinho Vermelho tinha visitado sua avó de mãos dadas com o Lobo Mau.

Além disso, eu não tinha a personalidade mais afável, o que provavelmente tornava ainda mais difícil me livrar desse estereótipo. No entanto, havia uma vantagem: a presença cativante e adorável, quase como um mascote, que ficava ao meu lado!

“Eu entendo por que é difícil para mim aparecer na sua história”, eu disse ao bardo, “mas e se você adicionasse o Ry... quer dizer, um dragão?”

“Bem, os dragões também costumam ficar do lado dos vilões…” disse o bardo, relutantemente. “Eu mesmo vi o dragão negro, e ele era realmente…”

Realmente o quê?! Pensei. Não me venha dizer que um dragão tão fofo possa parecer outra coisa senão um aliado do herói!

Contendo-me, deixei de lado a questão da inclusão do Ryuu. Mais importante, eu precisava pensar em alguma forma de dissipar a noção de que magia negra era usada apenas por vilões. Não era como se o elemento fosse perigoso — não espalhava chamas como a magia de fogo às vezes fazia, nem inundava áreas como a magia da água. Não, o elemento das trevas podia restringir, derreter, perfurar coisas e simplesmente fazer seu alvo desaparecer, sem questionamentos. Causava tão poucos efeitos prejudiciais ao meio ambiente onde era usado que eu diria que era até ecologicamente correto.

{Moon: “E de personalidade afiada, com mágica bem centrada, que ajudava a natureza, Yumiella Dolkness, a quinta guerreira…”  Foi bem fácil, na real!}

Mas, por mais que eu falasse sobre esses pontos, era improvável que eles tivessem qualquer efeito sobre os sentimentos arraigados dos outros. As únicas pessoas que achariam o elemento sombrio legal seriam… bem, alguém como eu fui quando jovem. Meu eu da vida passada, melhor dizendo.

Durante todo o meu ensino fundamental e médio, fui atormentada pelo apelido de “estranha”. Olhando para trás agora, foi um período bastante constrangedor da minha vida. Lembrar de como eu frequentava o ensino médio com um tapa-olho me dá vontade de morrer.

{ Yoru: Chuunibyou referências? | Del: Com absoluta certeza. }

Só consegui recobrar o juízo quando comecei a frequentar a faculdade. Mas, claro, aí morri num acidente, e aqui estou eu.

Hum… pensei. Não gosto muito da ideia de compartilhar as partes sombrias do meu passado, mas talvez ele me surpreenda sendo compreensivo.

Decidi arriscar e tentar me abrir com ele, mesmo estando bastante convencida de que não daria certo.

“Okay, leve isso com uma pitada de sal, mas… e se você pensasse em cabelo preto e magia negra como algo legal?”

“‘Algo legal’…?”

“Hum-hum. Tipo, imagine alguém se voltando para esse tabu, uma fonte odiada de poder para que pudesse ficar forte o suficiente para derrotar seu arqui-inimigo, mas ele precisa lutar para não ser engolido pela magia negra que passou a controlar…”

Minha voz foi sumindo, e eu me encolhi de vergonha. Aqui estou eu, sugerindo isso, e até eu estou envergonhada!

Mas, quando eu estava prestes a sugerir ao bardo que esquecesse tudo o que eu acabara de dizer, vi um brilho surgir em seus olhos.

“Que bom! Que ótimo mesmo! Então a usuária de dragões quase foi dominada pelo seu poder ao enfrentar o Rei Demônio, mas… ela foi salva pelo poder da amizade! E sua magia negra é tão poderosa que nem mesmo o Rei Demônio consegue resistir… Oh, que interessante!”

E-Espere, isso não está se desviando um pouco da história verdadeira? Pensei.

Mas o bardo ignorou meu constrangimento. “Pode haver um poder maligno selado em seu braço direito”, ponderou ele, “mas ela libera esse poder para salvar seus amigos durante uma crise… Caramba, que reviravolta intensa na trama! Preciso escrever isso desde o início!”

“I-Isso parece ótimo…” eu disse fracamente.

Eu não sabia que ser “edgy” podia ser contagioso… Espero que todos que ouvirem a música dele tenham um sistema imunológico forte.

Depois disso, fui para casa e encontrei Patrick imediatamente. Ele parecia um pouco cabisbaixo — aparentemente, ele tinha ficado em casa o tempo todo em que eu estive fora.

“Cheguei, Patrick”, cumprimentei-o. “Gostaria de ir almoçar em algum lugar amanhã?”

“Bem-vinda de volta…” disse ele, sombriamente. “Devo interpretar isso como uma sugestão para eu sair para jantar sozinho?”

Olhei para ele com uma expressão confusa. É óbvio que não vou te mandar sozinho, bobinho. Planejei que fôssemos juntos desde o começo!

“Ah, não”, eu disse a ele. “Nós sairíamos juntos, é claro. Sinceramente, deveríamos ter saído juntos hoje também.”

Vamos lá! Curva-se perante a minha incrível ideia de encontro!

“Você demorou um pouco para perceber isso, mas acho que tudo bem”, disse Patrick com um suspiro. Seus olhos turvos pareceram recuperar a cor, brilhando para mim como esmeraldas.

Olhei para o anel na minha mão esquerda e não pude deixar de sorrir, comparando-o ao olhar do homem à minha frente.

Não vou deixar ninguém atrapalhar nosso passeio amanhã!

 

Resenha do Tradutor e Revisores

Yoru: E assim se inicia a crise chuunibyou no mundo. Agora vão ter várias crianças isoladas na sala da escola por usarem tapa-olho no ensino médio. É complicado, viu… Mas pelo menos teremos uma cena interessante no próximo capítulo. Espero que nada dê errado no encontro deles dois (o que infelizmente é uma possibilidade bem alta). Nos vemos no próximo capítulo! :)

DelValle: A Yumiella simplesmente criando a tendência Edgy no outro mundo kkkkkkkk, e um cado de Chuunibyou também (sabiam que traduzimos a obra no nosso servidor também??)

Moonlak: Falando de Chuu, do absoluto nada, que eu também reviso, me pegou desprevinida! Fiquei realmente feliz ao ver que a Yumiella tinha a mesma tendência akakak. 



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