VOLUME ÚNICO

Capítulo 9

O dia seguinte não foi fácil.

Limpei os banheiros, os lavabos e a cozinha. Lavei a louça, encerei o chão e tirei o pó dos abajures em todos os quartos de hóspedes. A tia Reiko entrou para verificar meu trabalho, olhou para as luzes do teto e perguntou se eu também tinha tirado o pó delas. 

— Não, não tirei.

— Faça isso.

— Por quê? Os hóspedes nunca vão saber.

— Mas nós saberemos.

Com isso, a tia Reiko saiu. Limpei o pó das luzes do teto. Não havia poeira nelas. 

À tarde, a tia Reiko saiu para cuidar de alguns assuntos. Miyazono disse que era uma reunião da aldeia, e aproveitei a oportunidade para voltar ao meu quartinho e descansar um pouco. Eu não tinha comido nada e minhas pernas pareciam de borracha. 

Eu ainda tinha a lata de leite com chocolate que Miyazono me deu ontem à noite. Peguei-a e estava prestes a abri-la. Mas então parei. 

Yuki…

Ela disse que precisava experimentar todas as bebidas da máquina de venda automática para poder seguir em frente, mas como a tia Reiko não me pagou, eu não tinha dinheiro para atender a esse pedido. Se estivesse de volta a Tóquio, teria acesso a toda a mesada que economizei. Mas quando se tem renda zero, até mesmo uma simples lata de leite com chocolate de 150 ienes se torna um bem precioso. 

Vou dar esse leite com chocolate para a Yuki como minha segunda oferenda. Pode não ser o suficiente para ela seguir em frente imediatamente, mas será um pequeno passo para um fantasma, um salto gigante para ninguém. 

Alguém abriu a porta do meu quarto. Era Miyazono. Ela não bateu na porta nem disse “com licença”. Será que ela esqueceu as boas maneiras? Talvez ela esteja se tornando uma garota rebelde. 

— Eu sabia que te encontraria aqui.

Não disse nada. 

— Estou fazendo uma pausa. Quer vir comigo?

Levantei-me e a segui escada abaixo até a sala de jantar. Ela me disse para sentar e eu obedeci. Poucos instantes depois, ela saiu da cozinha com duas grandes tigelas de macarrão udon. 

— Come.

— Mas a tia Reiko disse que eu não podia...

— Não se preocupe com isso. Perguntei a ela se poderia preparar algo para você com as sobras e ela disse que tudo bem.

A gratidão tomou conta de mim, e senti um nó na garganta. 

— Obrigado pela comida.

Peguei os hashis e devorei a comida. Quando terminei, Miyazono me encarou com os olhos arregalados. 

— O que foi?

— Nunca vi ninguém comer tão rápido.

Ela começou a comer sua própria tigela. 

Foi a minha vez de ficar impressionado. Ela parecia delicada, mas era capaz de fazer trabalho físico como um homem e comer como duas pessoas. Ela terminou a tigela ainda mais rápido do que eu. Fiquei olhando para ela. 

— Qual foi? — ela desviou o olhar, com as bochechas levemente coradas — Quando se trabalha duro, precisa de mais calorias.

— Sua boca desafia as leis da física.

— Ei! O que isso quer dizer?! Não me inclua nas suas fantasias esquisitas!

— Você nunca esteve nas minhas fantasias.

— Espera aí, você está dizendo que eu não sou atraente?

Nós rimos. 

— Você disse que cresceu em Tóquio, certo? Como é crescer na cidade grande? — perguntou Miyazono. 

— Você nunca foi a Tóquio?

Ela balançou a cabeça horizontalmente.

— Meus pais não se interessam pela cidade grande, então nunca fizemos uma viagem para lá.

— Hmm…

Tive que pensar na minha resposta. Nunca tinha realmente pensado em como descrever Tóquio para alguém que nunca esteve lá. Morei lá a vida toda, então não parecia nada de especial para mim. Miyazono percebeu minha dificuldade e perguntou:

— Comparado a esta vila, como é Tóquio?

Pensei nisso por um momento. 

— Tem muito mais gente. Não tem estradas de terra nem florestas, só ruas por toda parte. O ar é mais poluído, eu acho, mas a comida também é melhor. Mas a maior diferença é que em Tóquio sempre tem algo para fazer. Você pode ir às compras, jogar no fliperama, talvez ir a uma livraria ou conferir as centenas de restaurantes em todas as ruas, ou talvez ir ao karaokê. Sempre tem algo para fazer. Mas aqui... é muito silencioso. É chato.

— E os rapazes? Os rapazes são realmente bonitos em Tóquio?

— Uhhh... eu nunca prestei muita atenção nos rapazes, mas as garotas são bonitas.

Os cantos dos olhos dela se enrugaram como se tivesse pensado em algo travesso e fosse me envolver nisso. 

— Você realmente quer voltar para Tóquio, hmm?

— Sim.

— Tem uma namorada esperando por você?

— N-não.

— Sem namorada... hein?

Se meus pais não tivessem me forçado a vir para cá, talvez eu tivesse arranjado uma namorada nas férias de inverno. Havia aquela garota da minha turma de quem eu gostava há um tempo, mas só recentemente é que consegui o LINE dela. Desde então, a gente tem trocado mensagens e eu ia convidá-la para um encontro no Natal, mas agora estou preso aqui.

[NT: Line é o aplicativo de conversas mais famoso do Japão (semelhante ao WhatsApp para nós) e é disponível para download no Brasil]

Miyazono olhou para o relógio na parede e disse que a tia Reiko voltaria em dez minutos. A gente arrumou a mesa, lavou as tigelas e voltou ao trabalho. 

No dia seguinte, fui procurar a Yuki.

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