VOLUME ÚNICO
Capítulo 10
Qualquer pessoa sensata teria descartado Yuki como fruto da imaginação. Era impossível que ela existisse e, mesmo que existisse, seria melhor não me envolver. Cumprir meu trabalho, deixar a vila, voltar para Tóquio e seguir com minha vida.
Mas…
A lembrança dela não saía da minha cabeça. Uma garota que só existia na floresta, na neve, vestindo um quimono branco. E, então, decidi visitar Yuki novamente. Parte de mim esperava vê-la novamente; parte de mim esperava que ela fosse apenas uma ilusão. De qualquer forma, eu precisava descobrir.
Esperei a tia Reiko sair para uma reunião da vila, saí sorrateiramente pela porta dos fundos e segui para a periferia da vila, a borda da floresta.
Cheguei à entrada da floresta. Nenhum rastro de passos. Apenas planícies de neve intocada.
— Yuki? — chamei — Olá? Yuki? Você está aí? Hm... Bem, eu trouxe outra bebida da máquina comigo.
Passos apareceram quase imediatamente. Como se a menção à “máquina de venda automática” fossem um chamado.
O que é meio patético, se você pensar bem.
Os passos estavam bem na minha frente, mas nenhuma pessoa se materializou.
— Yuki? — perguntei, tirando a bebida do bolso — É leite com chocolate.
É impossível saber se Yuki está feliz ou não, já que eu não consigo vê-la.
Mais passos se aproximaram. Desta vez, vi as marcas surgirem uma a uma na neve. Parecia uma pessoa caminhando pela floresta, só que não havia ninguém deixando os rastros.
Eu a segui. Chegamos à curva onde a encontrei pela primeira vez e então ela apareceu. Ela estava sentada sobre o monte de neve, vestindo um quimono branco e segurando um wagasa vermelho sobre o ombro.
— Você voltou! — disse Yuki.
— Eu queria descobrir se você era real ou não.
— Você não achava que eu era real? — havia um sorriso em sua voz.
— Qualquer pessoa racional pensaria que você era apenas uma ilusão.
— Talvez tudo isso esteja apenas na sua cabeça.
— Quem sabe… Mas é preciso ser uma pessoa irracional para ajudar um espírito irracional de donzela da neve a seguir em frente, comprando-lhe bebidas de máquina automática.
Yuki pareceu refletir sobre isso por um tempo. Então ela disse:
— Você está errado. Ajudar-me não faz de você uma pessoa irracional.
— Então o que?
— Isso faz de você uma pessoa gentil.
Levantei uma sobrancelha e olhei para ela. Ela tinha a cabeça ligeiramente inclinada, os lábios sorrindo. Raios de luz a envolviam em um brilho sobrenatural, fazendo-a parecer um tanto transparente, como se fosse algo entre um ser humano e um fantasma.
Ela colocou o seu wagasa vermelho sobre os ombros e bloqueou a luz do sol. Seu “corpo” se solidificou na sombra.
— Você realmente é um fantasma.
— Não gosto muito da palavra “fantasma”, mas acho que essa é a melhor maneira de descrever minha existência.
Sentei-me ao lado dela. Queria fazer a pergunta “Por que você está aqui?”, mas ela se virou para mim e enfiou a mão no meu bolso.
— Você disse que tem algo para mim?
Ela remexeu no bolso do meu casaco, vasculhando aqui, movendo ali, seus dedos gelados explorando com entusiasmo infantil.
— Vou pegar para você!
Meti a mão no bolso e nossas mãos se tocaram. Um arrepio percorreu meu corpo, mas não deixei transparecer. Tirei a lata.
— Aqui está o seu leite com chocolate.
Yuki pegou a lata e a examinou como se fosse algo de uma época passada. Ela a segurou perto dos olhos, absorvendo cada detalhe. Leu todo o texto impresso na lata — os rótulos, as informações nutricionais, o endereço do fabricante. Acariciou a lata com a mão, sentindo o peso. Cheirou a lata até. Quando terminou, abriu-a e tomou um gole.
— Delicioso! É leite de Hokkaido? É tão cremoso e... e... leitoso!
Parecia que, sempre que segurava uma bebida nas mãos, sua personalidade se transformava na de uma criança. Sempre achei que os espíritos fossem sábios e dignos. Enquanto ela bebia seu leite com chocolate, perguntei:
— Yuki, por que você está aqui?
— Hmm?
— Por que você está presa a esta vida? Por que não consegue se lembrar de nada?
— Eu não te contei da última vez? Assim que experimentar todas as bebidas da máquina de venda automática, talvez eu consiga seguir em frente.
— Sim, eu sei. Mas por quê?
— Por quê... hmm… — Yuki pensou por um tempo. Ela continuou tomando seu gole — Acho que fui morta por aqui. Acho que foi isso que aconteceu.
Então foi um assassinato. Ela não parecia guardar rancor. Mas, se foi um assassinato, então deve ter tido algo a ver com a vila. Não havia nenhuma outra cidade ou vila a menos de uma hora daqui, três horas se nevasse.
Respirei fundo.
—Alguém da vila te matou?
Silêncio.
— Yuki?
Seus olhos estavam voltados para mim, mas o olhar se fixava além de mim, além do caminho branco.
— Alguém está chegando.
— Quem é-
Ela desapareceu. A lata caiu na neve. Ouvi o som da neve estalando sob um par de pés. Os passos se aproximavam de mim.
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