VOLUME ÚNICO

Capítulo 8

— Então você foi punida? Sem refeições e um turno duplo?

— Como você sabe disso?

— As paredes são finas.

— Você estava ouvindo a conversa.

— As paredes são finas.

Ela tinha duas latas nas mãos. Colocou uma sobre a mesa e a empurrou na minha direção. Era leite com chocolate. Eu nem sabia que vendiam isso nas máquinas de venda automática daqui. Olhei para Miyazono. Esperei que ela dissesse alguma coisa. Seu cabelo estava solto, caindo sobre os ombros. Ela usava um suéter folgado e calças de moletom. Essas eram suas roupas de folga. 

Ela abriu a lata e bebeu. Eu esperei. 

— Por que você saiu? — ela perguntou — A tia Reiko sempre descobre.

— Não planejava ficar fora por muito tempo.

— Você realmente se perdeu lá fora?

É fácil se perder em Tóquio, mas não nesta pequena vila. Mas eu não podia contar a ela sobre Yuki. Se contasse, pareceria que tinha enlouquecido. Nenhum estudante do ensino médio de 17 anos ainda acreditava em fantasmas. 

Simplesmente disse à ela que tinha perdido a noção do tempo e andado longe demais. Falei em um tom casual e sem pressa para tornar minha história mais crível. Ela pareceu acreditar em mim. Então perguntei se havia alguma história de fantasmas associada a essa vila. Miyazono pousou a bebida e cruzou os braços.

— Histórias de fantasmas? Hmm… — ela pensou por um momento — Por quê? Você viu alguma coisa na floresta?

— Não, mas...

Espere, algo não está certo. Como Miyazono sabia que eu estava na floresta?

— Eu te contei que estava na floresta? — perguntei.

Sua expressão ficou imóvel por um breve momento. Ela tomou seu leite com chocolate.

— Não, mas presumi que você tivesse entrado na floresta. Não há outro lugar para você vagar.

— É verdade… Não vi nada lá. Apenas árvores, neve e céu azul.

Ficamos em silêncio por um tempo. Sentamos ali, cada um perdido em seus próprios pensamentos, como dois adultos sentados em um bar, refletindo sobre os problemas que a vida nos apresenta, preocupando-se sem parar e, no fim, descobrindo que não há solução no fundo de uma garrafa. 

— Não entendo. Se você saiu para dar uma volta, isso significa que não quer estar aqui. Se não quer estar aqui, então por que está aqui? 

Eu trabalhava com ela há uma semana e essa era a primeira vez que conversava com ela sem que fossem frases fragmentadas enquanto passávamos um pelo outro no corredor. Então, contei a ela sobre minha estratégia um pouco acima da média e meu castigo. Eu esperava que ela risse de mim, mas quando terminei, ela assentiu. 

— Isso é impressionante. — disse ela. 

— Obrigado.

— Mas você é muito arrogante.

— Por quê?

— Se você quisesse continuar com sua estratégia, deveria ter mantido isso em segredo. Pense nisso: nenhum pai ficaria feliz com o filho estando um pouco acima da média quando ele poderia entrar na Todai.

Apontei para ela.

— E você? Por que trabalha num emprego de inverno aqui neste lugar gelado? Deve haver empregos melhores por aí que você possa fazer.

Miyazono era, como a tia Reiko disse uma vez, “uma garota que vale pratas”. Naquela época, eu disse que o ditado era “vale o seu peso em ouro”, mas a tia Reiko disse que preferia prata e pronto. Miyazono era, sem dúvida, a pessoa mais trabalhadora daqui. Ela sabia cozinhar, limpar e atender hóspedes com uma maturidade além da sua idade. Já a vi atendendo no balcão da recepção, falando inglês fluentemente com turistas e até mesmo se virando um pouco em chinês. Miyazono disse:

[NT: A expressão na versão inglesa “worth its weight in silver” é algo semelhante ao “x vale ouro”, porém existem expressões com prata apenas para indicar que é algo bom, porém “descartável”.]

— Moro em um lugar a três horas daqui. Sabe, aquele tipo de cidadezinha com um nome que ninguém conhece e muitas terras agrícolas. Sempre adorei as montanhas, mas minha família era pobre demais para viajar. Então, quando encontrei um emprego de meio período nas montanhas que eu poderia fazer durante as férias de inverno, decidi tentar.

— É só frio e deprimente aqui fora.

— Hmm… — ela apoiou o queixo na palma da mão — Talvez seja, mas você não acha que há algo de mágico nas montanhas nevadas? Tudo adormeceu: cada pássaro, cada inseto, os lobos e os ursos, cada folha de grama, cada galho de cada árvore. Toda a vida adormeceu sob este manto de neve e podemos ver o mundo em toda a sua pureza.

Eu não disse nada. O que eu poderia dizer? Essa resposta é muito mais filosófica do que eu esperava. Miyazono ficou olhando pela janela por um tempo, observando a neve cair, as colinas suaves se erguerem, a luz do saguão dando a tudo um brilho sobrenatural. 

Por fim, ela se levantou.

— É melhor irmos dormir. Amanhã vai ser um dia difícil. E acho que a tia Reiko vai me deixar responsável por você.

Sempre quis trabalhar junto com uma garota bonita, mas não com o estômago vazio e não com uma viciada em trabalho como Miyazono. 

Subimos as escadas, demos boa noite e entramos em nossos pequenos quartos adjacentes. Fiquei olhando para o teto, ouvindo o som de tudo adormecendo sob a neve, o suave farfalhar de Miyazono tirando a roupa atrás daquela parede fina, o som dela apagando a luz. Fechei os olhos e torci para que Miyazono fosse gentil comigo.

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