VOLUME ÚNICO

Capítulo 7

Passei uma boa hora simplesmente sentada no meu quarto, com o medo correndo pelas minhas veias. Uma parte de mim sabia que isso iria acontecer desde o momento em que saí de casa. Mas eu também tinha certeza de que, mesmo sabendo que as coisas iriam acabar assim, teria tomado a mesma decisão. Afinal, conheci a Yuki, fosse lá o que ela fosse.

Mas a Yuki não estava exatamente nos meus pensamentos naquele momento. Eu precisava garantir minha própria sobrevivência para não acabar indo para a floresta junto com ela. Fiquei imaginando que punição a tia Reiko iria me dar. Uma marcha da morte na neve? Limpar banheiros até eu alcançar a iluminação? 

 Eram 20h55. Desci as escadas com o coração pesado. O escritório e os aposentos pessoais da tia Reiko ficavam atrás do balcão da recepção. Passei por baixo do balcão e bati na porta da tia Reiko. 

— Entre — disse ela e eu entrei. 

Era um espaço pequeno. Eu conseguia atravessar a sala em quatro passos. Havia um futon, um laptop e uma mesa. Um aquecedor no canto. Uma foto emoldurada de seu falecido marido. Uma tigela de laranjas. Nada mais, nada menos. Um minúsculo universo de disciplina silenciosa. 

Ela estava digitando algo no laptop. 

— Sente-se.

Uma voz com autoridade natural. Eu obedeci. 

— Haruka me contou sobre sua pequena excursão. Ela disse que você se perdeu lá fora. — a tia Reiko parecia calma.

Obrigado, Miyazono! Te devo um bife com uma garrafa de vinho. 

— Eu só queria dar uma volta e ver um pouco da vil-

— Eu te dei permissão para sair?

— Não, ma-

— Você tem noção do transtorno que causou à Haruka e aos outros funcionários?” 

— Hum...

Ela fechou gentilmente o laptop. Soou como um trovão.

— A Haruka disse que você se perdeu lá fora. Você pediu para ela mentir por você?

— Hm...

— Porque não acho que a Haruka seja burra o suficiente para inventar uma desculpa dessas. Ninguém consegue se perder nesta vila.

Engoli em seco. A tia Reiko disse:

— Amanhã não vai ter comida. Café da manhã, almoço e jantar.

— S-sim...

— Você vai trabalhar um turno duplo.

— Sim...

— Vou informar seus pais sobre seu comportamento inaceitável.

Fiquei em silêncio. 

— Você me ouviu?

— Sim...

— Se você fizer algo assim de novo, vou mandá-lo de volta para Tóquio.

Normalmente, nada me daria mais alegria do que essas palavras. Mas se eu fosse mandado de volta para Tóquio agora, especialmente com o relato da tia Reiko, então o inferno me esperaria na cidade. Prefiro ficar neste país nevado e esquecido por Deus. 

— Você pode sair.

— Com licença.

Fiz uma reverência e saí da sala. 

Meu coração batia forte no peito. Deixei-me cair em uma das cadeiras do saguão. Elas ficavam de frente para janelas que iam do chão ao teto, exibindo o jardim japonês em miniatura ao ar livre. Formava uma pequena paisagem branca, com os arbustos criando ondas congeladas de neve. Acima dele havia uma árvore com seus galhos finos e nus carregando lascas de branco. Além do jardim, havia alguns carros, marcas de pneus que seriam preenchidas pela neve durante a noite e placas de rua em japonês e inglês. A neve se agarrava a tudo. Aos telhados, aos galhos das árvores, a todas as superfícies que tocava. 

— Você parece que acabou de ver a morte.

Miyazono se jogou na cadeira à minha frente. Havia um leve sorriso em seus lábios. Seu comportamento sugeria schadenfreude.

[NT: É um termo de origem alemã que define o sentimento de alegria ou satisfação ao observar o infortúnio ou o fracasso de outra pessoa]

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