VOLUME ÚNICO
Capítulo 6
Todos na minha família sabiam que a tia Reiko era uma mulher de temperamento forte. Ela tinha um corte de cabelo curto e preto, era severa com os funcionários e gentil com os hóspedes. Era a proprietária e gerente do ryokan Hana no Sato, nesta pequena vila de esqui, mas nem sempre foi dela. Pelo que minha mãe me contou, eu sabia que ela havia abandonado a universidade e decidido praticar esqui. Acabou trabalhando nesse ryokan quando ficou sem dinheiro. Enquanto trabalhava lá, tornou-se namorada do proprietário e depois se casou com ele.
[NT: É uma pousada ou hospedaria tradicional japonesa, com origens no século VIII, focada em oferecer uma imersão profunda na cultura e na hospitalidade (omotenashi) do país]
Foi um casamento breve, pois o marido faleceu apenas cinco anos após e ela herdou a propriedade. Eles nunca tiveram filhos. Minha mãe me contou que a tia Reiko ainda era jovem naquela época, com pouco mais de trinta anos, e, em vez de vender a propriedade e começar uma nova vida, ela cortou o cabelo curto, mudou o guarda-roupa e “tornou-se uma adulta de verdade literalmente da noite para o dia”.
Essa é a pessoa que eu vou ter que encarar depois da minha pequena excursão sem permissão. Yuki desapareceu e fiquei tão chocado que não consegui me mover por um momento.
Será que foi tudo uma alucinação? Minha mente estava enlouquecendo por conta do frio?
Olhei ao redor e os passos dela ainda estavam lá, mas de repente, senti um frio incrível. Meus dedos doíam, meus pés pareciam dois pedaços de gelo, minhas pernas estavam pesadas como chumbo. Forcei-me a andar. O sol estava quase se pondo e a temperatura havia caído como o mercado imobiliário japonês após o estouro da bolha econômica.
— Vou embora agora. Yuki?
Nada.
— Tudo bem... até mais… — disse enfiando as mãos nos bolsos.
O que me esperava na vila não era nada agradável e era basicamente o que eu esperava. Originalmente, eu planejava dar uma escapada por apenas um tempinho e voltar antes do pôr do sol, mas o encontro inesperado com Yuki demorou muito.
A entrada dos funcionários ficava nos fundos do ryokan. Ela levava até o porão, onde os hóspedes guardavam seus esquis e botas.
Tive que subir as escadas para chegar ao térreo. Estava escuro e frio como uma masmorra.
Quando entrei sorrateiramente pela entrada dos funcionários nos fundos, encontrei um bilhete escondido no cubículo onde costumo guardar meus sapatos de rua. Era a letra da tia Reiko. que havia escrito:
“Você está atrasado. Não se preocupe em servir o jantar aos hóspedes. Não haverá jantar para você hoje à noite. Venha ao meu escritório às 21h.”
Quando li o bilhete, fiquei tremendo nas bases. Ela me disse para não me preocupar em servir o jantar aos hóspedes, o que significava que ela via minha ausência como uma perturbação no serviço do ryokan, o que era o maior pecado do mundo. Entretanto, o que realmente me assustou foi a última parte: “Venha ao meu escritório às 21h”.
Talvez eu me junte à Yuki como um fantasma às 9 da noite, no horário local.
Ouvi alguém descendo as escadas e meu coração parou.
Tia Reiko?
— Yamato-kun? É você? — era a voz de uma garota, muito mais jovem do que a da tia Reiko e muito mais gentil.
Uma garota desceu as escadas. Seu nome era Miyazono Haruka. Ela usava jeans azul-escuro simples, uma camiseta verde-escura e tinha o cabelo na altura dos ombros preso em um rabo de cavalo. Ela era um ano mais nova que eu e estava aqui como voluntária. Quando a conheci, há uma semana, ela disse que trabalhava aqui durante as férias de inverno, mas nunca me contou por que viria a este canto do mundo.
Resumindo, ela era a funcionária ideal e a tia Reiko a adorava. Jovem, trabalhadora e sem direito a benefícios porque era menor de idade e trabalhava meio período. Talvez a tia Reiko pudesse até declarar o salário dela como dedução fiscal.
— Voltei. — eu disse.
— Acabamos de servir o jantar. Onde você estava?
A voz dela não revelava nenhuma emoção. Era uma pergunta simples.
— Só dei uma volta por aí. Me perdi e depois encontrei o caminho de volta.
— A tia Reiko está brava, sabia? Melhor, ela está brava com você. Ela vai arrancar sua cabeça. Vá para o seu quarto antes que ela te veja. Vou tentar acalmá-la. Vou dizer a ela que você se perdeu.
Miyazono, você é uma pessoa tão boa!
Eu queria abraçá-la e agradecer, mas duvidava que a desculpa dela fosse funcionar. Na verdade, acho que isso só vai deixar a tia Reiko ainda mais brava. Essa vila era tão pequena que só um verdadeiro idiota se perderia nela. E a tia Reiko sabia que eu não era tão burro assim. Afinal, é preciso bastante inteligência natural para se manter, de forma consistente e proposital, um pouco acima da média.
Segui Miyazono escada acima.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios