Volume 5
Capítulo 2: O Privilégio de Namorado
Ōtsuki Haruto
Depois de voltar para casa, Haruto fez uma última verificação da bagagem que levaria para a residência dos Tōjō.
O incidente de mais cedo provavelmente vai causar todo tipo de mal-entendido, mas a partir de agora vou morar com ela. Posso simplesmente explicar tudo direito então. Com isso em mente, Haruto conferiu sua bagagem, item por item.
“Troca de roupas, carregador, materiais de estudo e... certo, isso deve ser tudo.”
Confirmando que não faltava nada em sua bolsa de viagem, Haruto colocou a mochila nas costas, trancou sua casa e seguiu em direção à residência dos Tōjō. Sua avó já havia ido para lá por volta do meio-dia para começar seu trabalho como empregada doméstica da família.
Haruto caminhava sentindo gratidão pela família Tōjō por terem dado à sua avó um novo lugar para trabalhar.
Ele parou por um momento diante da magnífica mansão.
Antes de tocar a campainha, tirou o smartphone do bolso para verificar se havia alguma mensagem. Ele soltou um pequeno suspiro ao ver que não havia nenhuma.
Na mente de Haruto, a imagem dos olhos de Ayaka arregalados em choque ao vê-lo ser levado por Shizuku estava vívida. Ele esperava completamente que ela lhe perguntasse sobre isso por mensagem, mas, ao contrário de suas expectativas, não houve nenhuma reação por parte de Ayaka.
“Bom, vamos nos ver pessoalmente em breve, então eu falo com ela.”
Murmurando para si mesmo, Haruto tocou a campainha da casa dos Tōjō.
“Sim, alô?”
“Aqui é o Ōtsuki.”
“Oh, Ōtsuki-kun! Vou abrir a porta agora.”
Alguns segundos depois da voz animada de Ikue ser ouvida, a porta da frente se abriu, e ela apareceu.
“Bem-vindo de volta, Ōtsuki-kun.”
“Ah, sim. Com licença pela intromissão.”
Ikue recebeu Haruto com um sorriso radiante. Sentindo-se um pouco envergonhado com o “bem-vindo de volta”, ele fez uma leve reverência e entrou.
“Ōtsuki-kun, você não deve dizer ‘com licença pela intromissão’. Você deve dizer ‘cheguei’.”
“Ah, certo. Sim.”
Haruto deu um sorriso sem graça e constrangido para Ikue, que continuava sorrindo amplamente.
“‘Cheguei’ não é algo que você diz apenas a um lugar, sabia? É o que você diz quando volta para as pessoas que estão esperando por você.”
“Sim... cheguei.”
“Ufufu, bem-vindo de volta.”
O sorriso gentil de Ikue fez Haruto sentir uma espécie de um constrangimento incômodo. Mas, ao mesmo tempo, ele podia sentir um calor se espalhando em seu peito.
Com esses sentimentos, Haruto entrou na sala de estar e encontrou Ayaka brincando com Ryōta.
Ayaka, que estava enfrentando Ryōta com uma espada de plástico, sorriu ao vê-lo.
“Oh, Haruto-kun. Bem-vindo de volta.”
“Ah, sim. Cheguei.”
Sendo recebido pelo sorriso radiante de Ayaka, Haruto sentiu uma alegria um pouco diferente daquela que sentira momentos antes com Ikue.
“Ayaka, hum... sobre o que aconteceu na escola hoje...”
Haruto tentou explicar sobre Shizuku, mas foi interrompido por Ryōta, que estava sorrindo de orelha a orelha.
“Onii-chan, bem-viiindo de volta!!”
Ryōta jogou a espada de plástico que estava em sua mão de lado e correu em direção a Haruto.
“Ei, calma aí. Cheguei, Ryōta-kun.”
Haruto se abaixou para pegar Ryōta.
“Você vai morar com a gente a partir de hoje, né, Onii-chan?”
“Isso mesmo. Vai ser legal morar com você.”
“É!! Vai ser super legal!!”
Os olhos de Ryōta brilhavam enquanto ele sorria para Haruto com a expressão mais feliz imaginável, e o rosto de Haruto também suavizou em resposta. Nesse momento, sua avó, que estava preparando o jantar na cozinha, viu os dois e seus olhos se estreitaram em um sorriso.
“Bem-vindo de volta, Haruto.”
“Cheguei, Vó.”
Era a troca de palavras habitual entre Haruto e sua avó no momento em que ele chegava em casa.
Ter essa conversa não em sua própria casa, mas na dos Tōjō, parecia um pouco estranho para Haruto.
Sua avó estava preparando coxas de frango em uma tigela grande. Ao que parecia, o jantar daquela noite seria karaage. Vendo isso, Haruto falou com a avó como sempre fazia.
“Vovó, quer que eu ajude em alguma coisa?”
“Não, hoje está tudo bem. Mais importante, vá guardar suas coisas e brincar com o Ryōta-kun.”
Normalmente, Haruto cozinhava ao lado da avó, tentando aprender suas habilidades culinárias. Mas, como aquele era seu primeiro dia na residência dos Tōjō, ela disse para ele ir brincar com Ryōta.
Ele assentiu e então colocou gentilmente a mão na cabeça de Ryōta.
“Ryōta-kun, depois que eu guardar minhas coisas, quer brincar até a hora do jantar?”
“Oba!!”
Haruto sorriu diante da explosão de alegria de Ryōta. Nesse momento, Ayaka falou.
“Haruto-kun, eu te ajudo a carregar suas coisas.”
Enquanto falava, ela estendeu a mão para a bolsa de viagem que Haruto havia trazido.
“Ah, essa aqui é pesada, então você poderia levar a mochila?”
“Entendi. Certo, Ryōta, vamos guardar as coisas do Haruto-kun, então você pode esperar só um pouquinho?” Ayaka perguntou ao irmão enquanto pegava a mochila de Haruto.
Nesse momento, Ikue, que havia voltado para a sala de estar, falou com Ryōta.
“Vamos brincar com a mamãe até o seu Onii-chan e sua Nee-chan voltarem.”
“Hmm... tá bom!”
Ryōta olhou para Haruto e Ayaka antes de concordar com as palavras da mãe.
Ayaka pareceu um pouco surpresa com a facilidade com que o irmão concordou, talvez esperando que ele reclamasse um pouco mais. Vendo a expressão da irmã, Ryōta pareceu orgulhoso.
“O Onii-chan e a Nee-chan têm que morar juntos e nutrir o amor deles para poderem se tornar uma família de verdade. Eu quero que o Onii-chan se torne parte da nossa família de verdade logo, então eu vou ajudar.”
“O-Ora, é mesmo... obrigada...”
O rosto de Ayaka ficou vermelho de vergonha diante da declaração de ajuda do irmão.
“A propósito, hum... quem te contou sobre ‘nutrir o amor’?”
“O Papai e a Mamãe estavam conversando sobre isso! Então eu vou ajudar para que o Onii-chan e a Nee-chan possam ficar sozinhos juntos!”
Depois de dizer isso, Ryōta olhou para ela com olhos brilhantes e disse: “Faça o seu melhor, Nee-chan!” Em resposta ao irmão, Ayaka conseguiu esboçar um sorriso tenso antes de lançar um olhar afiado para a mãe.
Recebendo o olhar incisivo da filha, Ikue apenas sorriu docemente. “Oh, nossa.”
“Parece que você ouviu nossa conversa.”
“Não é ‘parece que você ouviu’! Nossa... Haruto-kun, vamos.”
Ayaka parecia cansada enquanto puxava levemente o braço de Haruto e o conduzia para fora da sala de estar. Com um sorriso irônico, Haruto se deixou levar escada acima e até o quarto de Ryōta.
Ayaka o conduziu até o quarto de Ryōta — o quarto que ele usaria, bem ao lado do dela. Enquanto Haruto começava a desfazer as malas, ela falou, com uma expressão preocupada e o rosto vermelho.
“Desculpa, Haruto-kun. Meus pais sempre falam coisas estranhas.”
“Não, eu não me importo nem um pouco. Na verdade, fico muito feliz por poder morar com você, Ayaka. E, embora a expressão ‘nutrir nosso amor’ seja um pouco... bem, eu acho que é uma boa oportunidade para a gente se conhecer melhor.”
“S-Sim. Você tem razão... eu também quero te conhecer melhor, Haruto-kun.”
Um rubor de felicidade surgiu nas bochechas de Ayaka diante das palavras de Haruto. Ver a reação feliz dela fez Haruto sorrir também.
“Certo, sobre o que aconteceu na escola hoje.”
“Oh, sim. Hum, Dōjima-san... Era esse o nome?”
Agora que estavam sozinhos, Haruto explicou para Ayaka sobre Shizuku.
“Sim. A Shizuku é filha do mestre do dojo ao qual eu vou. Nós praticamos karatê juntos desde pequenos, então... ela é meio que uma amiga de infância.”
“Ah, entendo. Você e a Dōjima-san pareciam bem próximos, Haruto-kun, mas se vocês são amigos de infância, faz sentido que se deem tão bem.”
Ayaka assentiu em compreensão enquanto escutava.
Haruto olhou nos olhos dela e falou com uma expressão séria.
“É verdade que eu e a Shizuku somos próximos, e ela é uma amiga importante. Mas a pessoa que eu amo é você, Ayaka. Somente você.”
“Sim... obrigada. Isso me deixa feliz.”
Ao ouvir as palavras de Haruto, os cantos da boca de Ayaka se suavizaram. Ela abaixou o olhar, como se tentasse esconder o sorriso aberto dele.
“Na verdade, eu contei para a Shizuku que estou namorando você, e quando falei sobre a situação na escola, ela disse que iria ajudar... foi por isso que ela apareceu na sala de aula hoje, mas...”
Haruto fez uma pausa, lutando para encontrar as palavras certas, antes de continuar.
“A Shizuku é uma pessoa muito boa, e acho que ela está realmente tentando ajudar, mas... me desculpa.”
Com o pedido de desculpas, Haruto baixou a cabeça.
Ayaka, cujo rosto ainda estava vermelho, agitou as mãos freneticamente em resposta.
“P-Por que você está se desculpando, Haruto-kun? Você não fez nada pelo que precise se desculpar.”
“Bem, eu achei que poderia ter te deixado ansiosa”, disse Haruto, lembrando-se da expressão chocada no rosto dela quando estava saindo da sala de aula.
Mas Ayaka apenas balançou a cabeça e respondeu.
“Não, de forma alguma. Eu realmente fiquei surpresa quando uma garota que parecia tão próxima de você apareceu de repente, mas...”
Ayaka lançou um olhar para Haruto e então continuou timidamente, mexendo as mãos.
“Eu... hum... consigo sentir que você realmente se importa comigo, Haruto-kun, então eu não fiquei ansiosa.”
“O-Oh, entendo...”
“Sim...”
Um silêncio, carregado de timidez, caiu entre os dois.
Como se quisesse quebrar o doce silêncio, Ayaka estufou o peito com um exagerado “aham”.
“Então, Haruto-kun? O que você acha? Eu não sou uma boa namorada, sendo tão tolerante com as amigas do meu namorado?”
Ela fez uma expressão fofa e presunçosa, como se quisesse desviar a atenção de suas bochechas coradas.
Haruto sentiu uma onda de carinho crescer em seu peito e puxou Ayaka suavemente para um abraço.
“Você tem razão. Para mim, Ayaka, você é a namorada mais incrível e perfeita que eu poderia desejar.”
Haruto sussurrou suavemente em seu ouvido. Ela se remexeu em seus braços, como se estivesse com cócegas.
Mais tarde, depois de guardar suas coisas no quarto de Ryōta com a ajuda de Ayaka, Haruto desceu para a sala de estar para brincar com o garoto até a hora do jantar. Ao que parecia, Ryōta estava atualmente obcecado em brincar de samurai, então Haruto o enfrentou com uma espada de brinquedo na mão.
“Certo, Ryōta-kun. Vamos ter um duelo honrado.”
“Hehehe, Onii-chan. Veja bem, eu sou um mestre do Niten Ichi-ryū.”
Com um sorriso fofo e destemido, Ryōta ergueu as duas espadas de brinquedo que segurava nas mãos.
Haruto não conseguiu evitar rir de Ryōta, que estava citando a escola de um famoso espadachim que empunhava duas espadas, embora ele não fizesse ideia de onde o garoto havia aprendido aquilo.
“Você é fã do Miyamoto Musashi, Ryōta-kun?”
“Miyamoto Musashi? Quem é esse?”
[Del: Adendo, este é o samurai do mangá de Vagabond.]
Ryōta inclinou a cabeça, confuso com as palavras de Haruto. Haruto ficou intrigado sobre como Ryōta conhecia o nome “Niten Ichi” sem saber quem era Miyamoto Musashi. Ao ter um vislumbre do mundo misterioso de uma criança do jardim de infância, Haruto só conseguiu inclinar a própria cabeça diante de uma pergunta sem resposta. Vendo isso, Ryōta brandiu as espadas que segurava e declarou com entusiasmo para Haruto.
“Onii-chan! O Niten Ichi-ryū é o mais forte!”
“Entendo. Se você é um mestre do Niten Ichi-ryū, Ryōta-kun, então talvez eu me torne um mestre do Ganryū.”
Enquanto falava, Haruto fez uma pose exagerada com sua espada de brinquedo.
“Ganryū? O que é isso?”
“É a escola do Sasaki Kojirō.”
“Sasaki... não conheço essa pessoa. Mas Ganryū soa legal, então eu quero usar também!”
Haruto deu um sorriso destemido para o menino, cujos olhos brilhavam.
“Então será o duelo de Ganryūjima.”
“Isso! Um duelo!”
Embora ele não parecesse entender o significado, apenas as palavras devem ter tocado algo em seu coração. Ryōta balançou as espadas descontroladamente, com o espírito de luta em chamas. Ayaka, sentada no sofá da sala de estar, lançou um sorriso irônico ao irmão, que estava completamente absorvido na luta de espadas com Haruto, e ofereceu uma advertência.
“Ryōta, se você for muito bruto, vai acabar se machucando.”
“Eu estou bem! Porque eu sou um mestre do Niten Ichi-ryū!”
“Sim, isso não faz o menor sentido.”
Ayaka olhou exasperada para as palavras de Ryōta. Haruto entrou na conversa para apoiá-lo.
“Lutar com duas espadas é o romance de um homem.”
[Del: Bem como pilotar um Tanque.]
“Oh? Então você também admira os espadachins do passado, Haruto-kun?”
“Sim, pode-se dizer que sim.”
“Você entende, Onii-chan!”
Enquanto Haruto conversava com Ayaka, Ryōta atacou sem piedade.
Haruto bloqueou o golpe e então continuou a aparar sem esforço as espadas balançadas de forma desordenada por Ryōta.
Para Haruto, cuja visão cinética havia sido treinada por meio do caratê, desviar dos ataques de Ryōta era fácil. No entanto, isso não seria divertido para Ryōta, então, depois de um tempo, Haruto deliberadamente levou um golpe.
“Gwah! Estou acabado!”
Recebendo um magnífico golpe diagonal do ombro até o quadril, Haruto soltou um grito de dor e caiu de joelhos.
Diante da reação exagerada, Ryōta levantou os braços no ar em triunfo.
“Yay! Eu derrotei o Onii-chan!”
“Você é forte, Ryōta-kun.”
“Heheheh.”
Com o elogio de Haruto, Ryōta exibiu seu rosto mais triunfante e presunçoso.
Ele estava tão adorável que Haruto não conseguiu evitar sorrir com carinho.
Nesse momento, Shūichi chegou em casa e entrou na sala de estar.
“Bem-vindo de volta, Papai!”
“Cheguei, Ryōta. Oh? Você estava tendo uma luta com o Haruto-kun?”
Ryōta correu até o pai para cumprimentá-lo. Shūichi se agachou para ficar na altura de seus olhos e apontou para a espada de brinquedo em sua mão.
“Sim! É o duelo de Ganryūjima, Papai!”
“É mesmo? E quem ganhou?”
“Eu!”
“Então você deve ser o Miyamoto Musashi.”
O rosto de Shūichi se abriu em um grande sorriso diante da explicação sincera do filho.
“Não, Papai! Eu não sou o Miyamoto Musashi, eu sou um mestre do Niten Ichi-ryū!”
“Oh, é mesmo! Ryōta, você é um espadachim da era Reiwa.”
“Isso!! Um espadachim da era Reiwa!”
Empolgado com as palavras do pai, Ryōta fez uma pose, segurando as duas espadas em posição de prontidão.
Depois de afagar a cabeça do filho, Shūichi se levantou e voltou o olhar para Haruto.
“Haruto-kun, obrigado por brincar com o Ryōta.”
“Não foi nada. Fico feliz que ele tenha se divertido.”
Shūichi assentiu satisfeito com a resposta de Haruto e então seguiu em direção à cozinha.
“Kiyoko-san, obrigado por preparar o jantar”, disse Shūichi, fazendo uma reverência educada para a avó de Haruto.
“Eu é que devo agradecer. A partir de hoje, farei o meu máximo para servir como empregada doméstica de vocês.”
Kiyoko também devolveu um agradecimento educado a Shūichi.
“O jantar de hoje é karaage? Parece delicioso, já estou animado por isso.”
Enquanto Shūichi dizia isso, olhando para o karaage que estava começando a ser frito, Kiyoko sorriu suavemente.
“Vai ficar pronto muito em breve.”
“Mmm, mal posso esperar. A propósito, Ayaka, onde está a sua mãe?”
“A mãe está no escritório, trabalhando.”
“Entendo. Então vou avisá-la que o jantar ficará pronto em breve.”
Shūichi saiu da sala de estar com um passo leve e animado.
Ayaka, que o acompanhava com o olhar, chamou Ryōta.
“Ryōta, já está quase na hora do jantar, então guarde seus brinquedos.”
“Tá bom! Onii-chan, vamos ter um duelo de novo!”
“Combinado. Da próxima vez, eu não vou perder.”
“Eu sou um mestre do Niten Ichi-ryū, então eu sou o mais forte.”
Ryōta deu um sorriso presunçoso, como se tivesse a confiança de um verdadeiro campeão, e guardou todos os brinquedos junto com Haruto.
Depois disso, Shūichi voltou para a sala de estar com Ikue e, quando Haruto e os outros se sentaram à mesa de jantar, Kiyoko começou a colocar o jantar pronto sobre a mesa.
“Obrigado por esperarem. Por favor, sirvam-se.”
Sobre a mesa, além do karaage, havia uma salada de tofu com algas, um prato avinagrado de polvo com pepino e sopa de missô.
“Mmm, tudo parece delicioso.”
““Obrigado, Kiyoko-san.””
O casal Tōjō agradeceu em uníssono.
“Não foi nada. Por favor, comam antes que esfrie.”
“Então, vamos comer.”
Shūichi juntou as mãos, e todos fizeram o mesmo antes de pegar a comida.
“Onii-chan, esse karaage tem uma cor diferente”, disse Ryōta.
“Aposto que também tem um sabor diferente”, respondeu Haruto a Ryōta, que encarava curioso a montanha de karaage.
“Vovó, quais são os sabores do karaage hoje?”
“Hoje, este aqui é temperado com shōyu e alho, e o que está ao lado é de shio kōji. Este levemente amarelado é sabor curry, e o avermelhado é de ameixa com folha de shiso.”
Kiyoko explicou cada um dos quatro temperos diferentes.
“Então, Ryōta-kun, qual sabor você quer provar primeiro?”
“Sabor curry!”
Haruto sorriu diante da resposta imediata de Ryōta e colocou um pedaço de karaage sabor curry em seu pequeno prato.
Observando essa troca de lado, Shūichi também pegou um karaage com os hashis.
“Acho que vou experimentar o de shōyu com alho.”
“O de ameixa com shiso parece delicioso”, acrescentou Ikue, pegando um pedaço de karaage depois do marido. O casal Tōjō deu uma mordida ao mesmo tempo, e suas expressões se suavizaram.
“Mmm! Está delicioso! O shōyu aromático e o cheiro do alho estão perfeitos!”
“O de ameixa com shiso também está delicioso. É tão suculento, mas tem um sabor refrescante.”
As bochechas de Kiyoko se suavizaram de prazer ao ouvir os elogios dos Tōjō ao seu karaage.
“Mmm, isso... eu realmente preciso... de uma cerveja...”, gemeu Shūichi, encarando o karaage em sua mão como se estivesse resistindo a uma grande tentação.
“Mas... hoje é meu dia sem álcool... mmm...”
“Querido, só um copo, tudo bem?”
“Sério?!”
Com as palavras de Ikue, o rosto de Shūichi se iluminou com pura alegria.
Ayaka lançou um sorriso irônico diante da conversa dos pais e então deu uma mordida no karaage de shio kōji. Seus olhos se arregalaram imediatamente em surpresa.
“Uau... a carne está tão macia.”
Vendo a reação dela, Haruto sorriu enquanto colocava um pedaço de karaage de shōyu com alho no prato de Ryōta.
“Isso é porque o frango foi deixado primeiro em uma solução de salmoura. Não é, vovó?”
“Sim, é isso mesmo.”
“Solução de salmoura?”
Ayaka inclinou a cabeça, olhando alternadamente entre Haruto e a avó dele.
“Uma solução de salmoura é algo que deixa a carne macia e suculenta. Você faz com água, sal e açúcar, e então deixa a carne marinando nela.”
“Hã, eu não fazia ideia de que existia algo assim.”
Ayaka assentiu, impressionada com a explicação de Haruto, e continuou comendo o frango.
Nesse momento, Ikue, que estava comendo alegremente a salada de polvo com pepino, chamou Haruto.
“Oh, é mesmo, Ōtsuki-kun. A partir de agora, tudo bem se eu te chamar de Haruto-kun também?”
Ikue explicou que queria começar a usar o primeiro nome dele, acrescentando: “Já que a Kiyoko-san também está aqui agora.” Para constar, Shūichi já havia mudado de chamá-lo de “Ōtsuki-kun” para “Haruto-kun”.
“Sim, tudo bem.”
“Ótimo. Então, mais uma vez, é um prazer ter você conosco, Haruto-kun.”
Ikue sorriu intensamente. Ela se parecia tanto com Ayaka que Haruto não conseguiu evitar desviar o olhar.
“É-É um prazer estar aqui.”
Em sua mente, ele imaginou que era assim que Ayaka seria quando crescesse, e seus batimentos cardíacos aceleraram por conta própria. Enquanto pensava nisso, Ikue soltou uma risada alegre.
“Ah, minha nossa, Ayaka, seus olhos estão um pouco assustadores.”
“N-Não estão, estão normais!”
“Hm? Bem, não se preocupe. Eu sou devotada ao seu pai.”
“I-Isso não é! Não é isso que eu quis dizer!”
O rosto da filha ficou vermelho enquanto ela discutia com a mãe.
Ignorando a provocação da mãe e o rubor da irmã, Ryōta comeu um pedaço do karaage de ameixa com shiso e sorriu para Haruto.
“Onii-chan, esse aqui é delicioso! Eu gostei!”
“Gostou? Quer mais um?”
“Quero!!”
Kiyoko observava silenciosamente a cena à mesa com um sorriso feliz.
A mesa de jantar da família Tōjō, agora incluindo os Ōtsuki, estava ainda mais animada e iluminada do que o normal.
Depois do jantar, Haruto passou um tempo relaxante brincando novamente com Ryōta e tomando banho. Já tarde da noite, todos se recolheram a seus respectivos quartos para dormir.
Haruto também entrou no quarto de Ryōta e espalhou seus materiais de estudo sobre a escrivaninha.
“Não tenho nada além de gratidão pela família Tōjō...”, murmurou Haruto para si mesmo enquanto se sentava diante da mesa.
Ele havia vivido com os avós desde que perdeu os pais ainda muito jovem. E depois que seu avô faleceu, quando ele entrou no ensino fundamental II, passou a ser apenas ele e sua avó.
Olhando para trás, a vida apenas com sua avó havia sido muito tranquila.
Quando não havia conversa, a casa ficava envolta em silêncio ou preenchida apenas pelo som alto da televisão. Não era que ele particularmente não gostasse disso, nem que se sentisse solitário. Aquele era o ambiente no qual Haruto havia crescido, e aquilo era o normal para a família Ōtsuki. No entanto, vivenciar um dia como o de hoje o fez perceber que uma família animada também era algo maravilhoso. Seu coração parecia leve, seu ânimo elevado.
Haruto abriu um livro didático, sentindo um calor suave se espalhar por seu coração ao pensar na nova vida com a família Tōjō que estava prestes a começar. Depois de se concentrar nos estudos por um tempo, ouviu-se de repente uma batida na porta.
“Sim, pode entrar”, disse Haruto, levantando os olhos do livro e se dirigindo à porta. A porta se abriu lentamente, de forma hesitante, e o rosto de Ayaka espiou pela fresta.
“...Você vai dormir já já, Haruto-kun?”
“Não, ainda não.”
“...Então, eu posso... ficar no seu quarto por um tempinho?”
“Sim, claro.”
Quando Haruto respondeu, Ayaka entrou no quarto com um sorriso feliz e fechou a porta atrás de si.
Ayaka entrou devagar no quarto, seu olhar recaindo sobre os materiais de estudo espalhados sobre a escrivaninha.
“Você estava estudando.”
“Sim, bem, é uma rotina diária.”
“Entendo. Isso é bem a sua cara, Haruto-kun. Eu preciso seguir o seu exemplo, ainda mais com as provas começando em breve.”
Ayaka parecia um pouco abatida, como se tivesse se lembrado de que as provas após as férias de verão estavam logo ali. Haruto olhou para ela com um olhar gentil.
“Pensando bem, eu recebo uma recompensa se tirar mais de oitenta em todas as matérias, não é?”
“Sim, você se lembrou da nossa promessa.”
“Claro.”
As bochechas de Ayaka se suavizaram de felicidade quando Haruto assentiu.
“Estou ansiosa pela minha recompensa vinda de você, Haruto-kun.”
“Oh? Então já está decidido que você vai tirar mais de oitenta em todas as matérias?” disse Haruto, provocando-a levemente, já que ela estava contando com a recompensa.
“Bom, é para isso que eu tenho me esforçado tanto desta vez. Mas...”
Ela fez uma pausa e então olhou para ele de baixo dos cílios.
“Se eu não conseguir, você vai me consolar?”
“...Tá bom. Eu vou te consolar.”
“Hehe, viva.”
Embora fosse um gesto calculado e manhoso, Haruto ficou completamente encantado e deu um sorriso sem jeito. Nesse momento, ele percebeu que Ayaka estava em pé desde que havia entrado no quarto.
“Desculpa, Ayaka, você ficou em pé esse tempo todo. Vamos sentar—”
Haruto se interrompeu antes de terminar a frase.
O quarto estava destinado a Ryōta no futuro, então, por enquanto, estava praticamente vazio e sem móveis.
Shūichi havia preparado às pressas uma escrivaninha para ele, mas não havia cama nem sequer uma almofada para sentar.
A única coisa no chão naquele momento era o futon que Haruto havia estendido para dormir.
[Del: Já tá melhor que o meu kkkkkk.]
“Não tem onde sentar...”, disse Haruto, olhando ao redor do quarto. Em resposta, Ayaka falou hesitante, com as bochechas ficando vermelhas.
“Então... eu posso sentar em você, Haruto-kun?”
“Hã? Quer dizer... você pode... mas como?”
Haruto, sentado na cadeira em frente à escrivaninha, respondeu confuso.
“Desse jeito...”
Ayaka, com o rosto ainda vermelho, aproximou-se lentamente de Haruto e sentou-se em seu colo, de frente para ele.
“Assim”, disse ela, passando os braços ao redor dos ombros dele e pousando suavemente as mãos sobre eles.


O fechamento repentino da distância, a sensação e o calor transmitidos por suas coxas — Haruto conseguia ouvir claramente as batidas do próprio coração ecoando em seus ouvidos.
“A-Ayaka? Isso não é estar um pouco perto demais?”
“...Você não gosta?”
“Não é que eu não goste, é só que... meu coração está batendo tão forte que até dói um pouco.”
“Está fazendo seu coração bater tanto assim?”
“Bom, sim... se uma garota de quem você gosta chega tão perto assim, o coração de qualquer um começaria a disparar.”
“Fufu, entendo. O meu coração também está batendo forte.”
O olhar de Ayaka se entrelaçou ao dele, seus olhos brilhando.
Mesmo com o rubor subindo até o pescoço, ela se aconchegou ainda mais perto dele. Ao vê-la assim, um pensamento ocorreu a Haruto, e ele baixou o olhar de forma apologética.
“Desculpa, Ayaka. Acho que eu realmente te deixei ansiosa por causa da Shizuku.”
Ao ouvir isso, o corpo de Ayaka deu um leve sobressalto.
“...”
Ela baixou o olhar, em silêncio.
Quando haviam falado sobre Shizuku mais cedo, Ayaka disse que não se importava. Mas talvez, mesmo dizendo aquilo, ela ainda estivesse ansiosa em relação ao relacionamento dele com Shizuku.
Haruto pensou nisso, lembrando-se da expressão chocada que havia visto no rosto dela na escola.
Nesse momento, Ayaka, ainda olhando para baixo, começou a falar em voz baixa.
“...Não, não é que eu estivesse... ansiosa...”, disse Ayaka, então lentamente levantou a cabeça para encontrar os olhos de Haruto.
“Ei, Haruto-kun...”
“Hm?”
“S-só um pouquinho... só por um tempinho, tudo bem se eu for... egoísta?” ela sussurrou, a voz carregada de uma leve culpa enquanto reunia coragem para se mostrar vulnerável diante dele.
Haruto lhe deu um sorriso gentil.
“Sim. Não diga só por um tempinho. Você pode ser egoísta o quanto quiser.”
“...Você é doce demais, Haruto-kun. Se você diz coisas assim, eu só vou ficar cada vez mais gananciosa.”
“Eu não me importo.”
“Meu Deus...”
Ayaka provavelmente queria fazer uma expressão zangada, mas falhou completamente, seu rosto se transformando em um completamente apaixonado. Ela ergueu os braços de seus ombros e entrelaçou as mãos atrás do pescoço dele.
“Sabe, como eu disse antes, eu recebi direitinho seus sentimentos, Haruto-kun, então não estou ansiosa. É só que... eu fiquei com ciúmes.”
“Da Shizuku?”
“...Sim.”
Ayaka assentiu levemente. Ela aproximou um pouco mais o rosto de Haruto enquanto explicava.
“Na escola, quando vi a Dōjima-san falando com você de forma tão aberta, eu simplesmente... fiquei com inveja. Eu estava pensando: ‘Eu nem consigo conversar com o Haruto-kun…’”
“Entendo...”
“Eu sou sua namorada, então por que ela pode falar com você e eu não?”
Depois de dizer isso, Ayaka mostrou um sorriso meio autoirônico e sem jeito.
“Estou sendo super egoísta e irracional, não é? Quer dizer, fui eu quem disse que deveríamos manter nosso relacionamento em segredo na escola...”, disse ela, com a voz um pouco abatida. Haruto, ainda sorrindo gentilmente, ofereceu palavras de consolo.
“Mas isso é porque você tem um trauma por causa daquele problema no ensino fundamental, certo? Então não tem jeito.”
“...Sim. Mas, sabe, ver a Dōjima-san hoje me fez perceber que eu realmente quero interagir com você de forma normal na escola, Haruto-kun. Mas... eu ainda tenho um pouco de medo...”
“Ayaka...”
Haruto estendeu a mão até Ayaka, que estava sentada em seu colo, e a puxou suavemente para um abraço.
“Você não precisa se forçar tanto. Não podemos ficar juntos na escola, mas podemos ser assim em casa. Podemos ir com calma e pensar juntos sobre a escola.”
“Haruto-kun... obrigada.”
Ayaka sorriu feliz e então puxou os braços em volta do pescoço dele ainda mais para perto, apoiando a bochecha em seu pescoço.
“Eu te amo...”
“Eu também te amo”, respondeu Haruto, acariciando gentilmente o cabelo macio dela.
“Ei, Haruto-kun...”
Ayaka ergueu o rosto do pescoço dele e chamou seu nome com uma voz doce e suplicante.
“O que foi?”
“Posso usar o privilégio de namorada?”
Ela disse isso tão perto que seus narizes quase se tocaram. Haruto inclinou levemente a cabeça.
“Privilégio? Claro, mas...”
No instante em que ouviu essas palavras, Ayaka aproximou ainda mais o rosto de Haruto.
Esperando completamente um beijo, Haruto ergueu levemente o rosto. Mas, contrariando suas expectativas, os lábios de Ayaka não encontraram os dele. Eles passaram pelo lado de sua bochecha.
Haruto mal teve tempo de pensar “Hã?” antes que uma sensação úmida e levemente dolorida fosse registrada em sua orelha esquerda.
“!”
Era uma sensação que Haruto nunca havia experimentado antes. A força em seus braços, que seguravam Ayaka, se intensificou reflexivamente.
“Nn.”
Instantaneamente, a respiração dela fez cócegas em sua orelha esquerda, e o coração de Haruto parecia estar prestes a explodir.
Seu coração batia tão rápido que ele achou que Ayaka, pressionada contra ele, certamente sentiria. Sabendo ou não o que estava acontecendo dentro dele, ela mais uma vez beliscou suavemente o lóbulo de sua orelha esquerda. De novo e de novo, ela mordiscava de leve.
Haruto apertou os olhos, como se estivesse tentando suportar a sensação em sua orelha esquerda.
Depois de saborear seu lóbulo por um tempo, Ayaka finalmente afastou o rosto da orelha esquerda dele e lentamente voltou a encará-lo.
“Eu mordi sua orelha, Haruto-kun”, disse Ayaka com um sorriso travesso, e aos olhos de Haruto, ela parecia incrivelmente sedutora.
“...Eu te disse antes para não me morder.”
Haruto protestou, como se estivesse resistindo a ser engolido pela aura que ela emanava.
“Sim, você disse. Mas não é normal uma namorada morder a orelha do namorado?”
A fofura de Ayaka inclinando a cabeça enquanto dizia isso foi demais para Haruto aguentar, e sua expressão desmoronou.
“Eu penso nisso desde quando estávamos ‘praticando’ ser um casal, mas acho que seus padrões do que um casal faz não são nada normais...”
Ela era uma leitora ávida de mangás e novels românticas. E esses elementos fictícios haviam moldado os padrões de Ayaka sobre o que os casais fazem.
[Almeranto: A última obra que e eu vi mangás japoneses influenciando a heroína principal foi, digamos, tenso… | Del: …]
“Você não gostou de eu ter mordido sua orelha?”
“Não é que eu não tenha gostado, é só que... é uma sensação estranha, eu acho...”
“Então você gostou? Nesse caso, posso morder o seu lóbulo direito também?”
“Ayaka-san, você estava me ouvindo?”
“Sim. Que você não desgostou de eu ter mordido sua orelha.”
Haruto se rendeu ao sorriso radiante de Ayaka, erguendo levemente as mãos.
“Tá bom, tudo bem. Faça o que quiser.”
“Oba.”
Ayaka parecia encantada com o tom levemente resignado de Haruto.
Ao mesmo tempo, ela abraçou com força o pescoço dele.
“Meu lóbulo é realmente tão bom de morder assim?”
“Sim, é o melhor”, Ayaka sussurrou suavemente em seu ouvido e, em seguida, mordeu gentilmente o lóbulo direito dele. Ainda não acostumado à sensação, Haruto suportou em silêncio.
Não era uma sensação desagradável de forma alguma, mas era um estímulo indescritível — coçava, fazia cócegas — e Haruto lutava para manter a compostura.
Assim como a orelha esquerda, o lóbulo direito foi mordiscado por um tempo, até que Ayaka voltou a encará-lo rosto a rosto, com uma expressão satisfeita no rosto.
“Morder seus lóbulos pode virar um hábito, Haruto-kun.”
“Por favor, não deixe isso virar um hábito. Meu coração não aguentaria.”
Haruto deu um sorriso sem jeito e abaixou a cabeça diante de Ayaka, que dizia coisas assustadoras com um sorriso doce.
“Se você tentasse morder um lóbulo também, Haruto-kun, acho que entenderia o apelo.”
Enquanto dizia isso, Ayaka casualmente retirou a mão direita de seu pescoço e colocou o cabelo atrás da orelha.
Vendo esse gesto irresistivelmente atraente de tão perto, o olhar de Haruto foi atraído para a orelha direita de Ayaka.
“Tudo bem, Haruto-kun. Você pode morder meu lóbulo direito.”
Ayaka inclinou levemente a cabeça para a esquerda, como se estivesse oferecendo a orelha direita a ele.
Haruto engoliu em seco, tentando não demonstrar, então reuniu todo o seu autocontrole para falar.
“...Não, acho melhor eu passar.”
“Sério?”
“Sim. Porque eu sinto que... as coisas podem sair do controle.”
“...?”
[Almeranto: A carne sempre cai em prato de vegano kkkkk.]
Ayaka inclinou a cabeça com uma expressão inocente diante das palavras de Haruto.
Tudo o que ele pôde fazer em resposta foi lhe dar mais um sorriso sem jeito.
✦ ✦ ✦
Tōjō Ayaka
Deitada na minha cama, relembro a conversa que tive com o Haruto-kun e coloco a mão sobre meu coração, que ainda batia acelerado.
“Talvez eu tenha ido um pouco longe demais...”, murmuro para mim mesma, sentindo uma pontada de arrependimento.
Sinceramente, eu só pretendia ir falar com ele por um tempinho, mas quando vi o rosto dele, não consegui mais controlar minhas emoções.
Tudo começou hoje na escola. Ver aquela garota, a Dōjima-san, aparecer em nossa sala e agir de forma tão próxima do Haruto-kun... aquilo foi o gatilho.
Haruto-kun disse que ela era uma amiga de infância, e eu não duvido de suas palavras. Na verdade, Haruto-kun é uma pessoa incrivelmente encantadora, então é natural que seja querido por todo tipo de gente, e, como namorada dele, isso me deixa orgulhosa. Mas, mesmo sentindo isso, também é verdade que um sentimento que eu nunca havia experimentado de verdade antes está girando em um canto do meu coração.
“‘O verdadeiro romance começa depois que você começa a namorar’, né... a Saki estava certa...”
Lembro-me das palavras da minha melhor amiga.
Quando contei à Saki que havia me tornado namorada do Haruto-kun, ela disse: “Agora você finalmente chegou à linha de largada do romance”, e eu realmente estou sentindo isso agora.
A maioria dos romances e mangás que li são histórias em que os sentimentos dos personagens são correspondidos, eles ficam juntos e tudo termina em um final feliz.
Mas, na realidade, a vida continua mesmo depois que você começa a namorar.
Antes de me tornar namorada do Haruto-kun, eu pensava muito nele, me preocupava, ficava ansiosa e, por outro lado, me sentia feliz e radiante. Experimentei tantas emoções por causa dele. Mas agora que somos um casal — especialmente agora — sinto que ainda mais emoções estão vindo à tona.
Há alegria e felicidade, mas há muitas outras coisas também.
O sentimento que definitivamente está dentro do meu coração neste momento. Acho que provavelmente é ciúmes.
Eu nunca tinha realmente sentido ciúmes antes.
Já vi casais carinhosos e senti uma pontada de inveja, pensando “que legal”, mas nunca senti ciúmes de verdade. Mas desde que vi o Haruto-kun conversando com a Dōjima-san na escola hoje, um sentimento de ciúmes, tão claro que eu mesma consigo reconhecê-lo, tem transbordado dentro de mim.
Eu quero falar com ele também. Quero segurar o braço dele com força.
Quero tocá-lo. Quero sentir o calor dele… Mesmo na escola... eu quero que ele esteja ao meu lado.
Quero que ele olhe só para mim. Quero que ele sorria apenas para mim, que fale apenas comigo...
Esses sentimentos de ciúme, misturados com uma forte dose de possessividade, se espalharam pelo meu coração em um instante.
Eu tentei reprimir esse sentimento. Porque é culpa minha não conseguir falar com o Haruto-kun na escola. É porque fui eu quem disse que não deveríamos ficar juntos. Então eu tenho plena consciência de que esse ciúme é ridiculamente egoísta.
Tendo isso em mente, tentei desesperadamente controlar meus desejos. Mas quanto mais eu tentava controlá-los, quanto mais tentava contê-los...
O ciúme egoísta dentro de mim começou a sair do controle. Dei por mim desejando o Haruto-kun, de forma impotente.
Não havia mais nada que eu pudesse fazer, então fui ao quarto dele para tentar me distrair conversando com ele por um tempo. Mas, no momento em que estive realmente diante dele, meu coração parou de me obedecer.
Meu coração assumiu completamente o controle do meu corpo e se moveu para buscá-lo.
E, como se fosse para acalmar o ciúme que girava dentro de mim, para satisfazer minha possessividade, eu o abracei, me pressionei contra ele... e o mordi.
Eu queria que ele sentisse minha presença, nem que fosse um pouco mais forte.
Eu queria gravar a minha existência no coração dele...
Mas agora, de volta ao meu próprio quarto, com o coração calmo e os pensamentos um pouco mais claros, fico mortificada com minhas próprias ações e também cheia de arrependimento.
Eu não quero apenas receber do Haruto-kun. Quero ser uma namorada que consiga retribuir a ele. Não quero um relacionamento em que eu seja apenas dependente dele.
Agora mesmo, sinto que estou sendo apenas uma namorada grudenta e problemática.
O Haruto-kun é gentil, então tenho certeza de que ele aceitaria até isso e me mimaria, mas se eu me permitir isso, acabarei me tornando uma pessoa preguiçosa e inútil.
Se... se as coisas continuarem indo bem com o Haruto-kun e acabarmos morando juntos algum dia, eu vou ter que fazer a minha parte nos afazeres domésticos.
Do jeito que estou agora, eu acabaria sendo completamente sustentada por ele...
“Talvez eu devesse pedir para a Kiyoko-san me ensinar a cozinhar...”
Com pensamentos de me tornar uma parceira que pudesse estar em pé de igualdade com o Haruto-kun, fui lentamente pegando no sono.
✦ ✦ ✦
No dia seguinte, caminhei sozinha pelo caminho até a escola.
Haruto-kun tinha saído de casa mais cedo para desencontrarmos os horários de chegada.
“Eu realmente queria que pudéssemos ir juntos, de mãos dadas...”, murmurei, ainda pensando um pouco no dia de ontem.
Como se meu sussurro tivesse sido levado pelo vento para se enrolar ao meu redor, o desejo que havia diminuído ontem voltou a se agitar e ergueu a cabeça em meu coração mais uma vez. Afastei os olhos desse desejo e pensei na manhã feliz.
“O café da manhã da Kiyoko-san estava tão delicioso.”
A comida da Kiyoko-san era tão deliciosa que parecia estar comendo a própria felicidade.
Nesta manhã, tivemos sopa de missô com cebola e tofu, salmão grelhado, omelete enrolada e hijiki cozido com grãos de soja.
Não era um cardápio luxuoso ou chamativo, mas o café da manhã simples da Kiyoko-san era uma refeição gentil, de alguma forma reconfortante e calmante.
Comer junto com todos da família, incluindo Haruto-kun e Kiyoko-san, me fez sentir que a família Ōtsuki havia se tornado uma parte verdadeira da nossa família, e isso me deixou muito feliz.
“Um dia, se o Haruto-kun realmente se tornar parte da família... hehehe...”
Acabei dizendo algo meio no estilo do Ryōta e não consegui evitar soltar uma risada ao imaginar esse futuro. E na escola, bem quando eu estava me tornando uma pessoa um pouco suspeita, caminhando com um sorriso bobo no rosto, alguém de repente me chamou.
“Você é a Tōjō-senpai, não é?”
“Huh?”
Quando me virei em direção à voz, vi uma garota de cabelos negros parada ali, com uma expressão difícil de interpretar.
“Ah, hum, Dōjima... -san?”
Era a garota que era amiga de infância do Haruto-kun e também a causa do meu ciúme ontem.
Dōjima-san me encarou diretamente, com a expressão inalterada, e abriu a boca para falar.
“Sim. Prazer em conhecê-la. Eu sou Dōjima Shizuku, do primeiro ano.”
“Hum, eu sou Tōjō Ayaka, do segundo ano.”
Dōjima-san se curvou educadamente ao se apresentar, e eu retribuí a saudação, um pouco atrapalhada.
A Dōjima-san é do tipo de garota que não demonstra muito as emoções?
Ela ficou me encarando com uma expressão neutra o tempo todo.
Mas... ela pode ser realmente fofa.
Os olhos dela são tão grandes, e o cabelo escuro é lindo... Ela é um pouco baixa e tem um corpo pequeno, mas isso só a deixa ainda mais adorável.
Enquanto eu observava Dōjima-san, ela falou comigo, ainda com a expressão vazia.
“O Haru-senpai falou de mim para você, Tōjō-senpai?”
“S-Sim. Ele me explicou as coisas ontem.”
“Entendo. Então você ouviu que eu vou ajudar, certo?”
“Sim, ouvi isso também.”
Quando respondi, Dōjima-san fez um pequeno “hm, hm” e assentiu, então deu um passo mais perto de mim.
“Nesse caso, por favor, torne-se minha melhor amiga, Tōjō-senpai.”
“Melhor... amiga? O quê... o que você quer dizer?”
Fiquei surpresa com a proposta repentina.
Vendo minha reação, a Dōjima-san explicou.
“Você quer ficar com o Haru-senpai na escola também, não é, Tōjō-senpai?”
“Bom, sim.”
“Então precisamos nos tornar melhores amigas. Melhores amigas para a vida toda.”
“Melhores amigas para a vida toda...”
Dōjima-san encarou fixamente meus olhos enquanto minha expressão se contraía levemente.
“Bem, se você realmente não quiser, Tōjō-senpai, eu não vou forçar...”
“Hã? Ah, não... eu só fiquei um pouco surpresa, não é que eu não queira...”
“Então podemos concordar que somos melhores amigas para a vida toda, certo?”
“Eh? Ah, b-bom, isso é meio repentino... e eu não sei nada sobre você, Dōjima-san...”
“Tudo bem. Eu também não sei nada sobre você, Tōjō-senpai, e não estava interessada
até agora”, declarou Dōjima-san, me mostrando um sinal de positivo com o polegar.
Dói um pouco ouvir algo tão direto assim… E eu não faço ideia do que exatamente há de “tudo bem” nisso.
Tornar-se melhor amiga de alguém que você acabou de conhecer parece algo bem impossível...
Ela quer dizer que devemos apenas agir como se fôssemos? Ou a Dōjima-san realmente
quer ser minha melhor amiga...? E além disso, não acho que virar melhores amigas
seja algo que simplesmente acontece porque alguém diz: “Vamos ser melhores
amigas”...
Enquanto eu pensava nisso, Dōjima-san se moveu rapidamente para ficar ao meu lado.
“E então, a partir de agora somos melhores amigas. Portanto, vamos para a escola
juntas. Certo, Aya-senpai?”
“D-Dōjima-san, hum...”
“Por favor, me chame de Shizuku.”
Eu não conseguia esconder minha confusão com o quão repentino tudo era, mas Dōjima-san continuava diminuindo a distância entre nós.
“Vamos, Aya-senpai, se não nos apressarmos, vamos nos atrasar.”
“Ah, espere, Dōjima-san!”
Eu chamei a Dōjima-san quando ela começou a se afastar, e ela se virou para mim com uma expressão difícil de interpretar.
“Por favor, me chame de Shizuku. Somos melhores amigas agora.”
“E-Então... S-Shizuku-chan.”
“Sim, Aya-senpai?”
“Hum, o motivo de precisarmos ser melhores amigas tem a ver com você ajudar… talvez?”
“Claro”, respondeu Dōjima-san à minha pergunta com um aceno imediato de cabeça.
“Por que... você está indo tão longe para ajudar, Shizuku-chan?”
Enquanto eu perguntava isso, a imagem dela e do Haruto-kun agindo de forma tão íntima ontem piscou na minha mente.
“Porque eu quero que o Haru-senpai seja feliz.”
Depois de dizer isso em uma voz baixa e suave, ela me encarou diretamente e falou novamente.
“Você sabe da situação familiar do Haru-senpai, não sabe, Aya-senpai?”
“Sim... eu ouvi falar.”
“Hmm... então você também sabe que o avô dele faleceu quando ele estava começando o ensino fundamental, certo?”
“S-Sim. O Haruto-kun também me contou isso.”
Quando respondi, a Dōjima-san murmurou “Entendo...”, e então, após um breve momento de reflexão, começou a falar lentamente.
“Eu não quero mais ver um Haru-senpai triste. Naquela época... ele parecia que ia se quebrar se alguém o tocasse. Era doloroso de ver. É por isso que eu vou ajudar para que o Haru-senpai possa ficar com você e sorrir, Aya-senpai. Eu só não quero que ele fique triste de novo.”
Depois de terminar, Dōjima-san me olhou com olhos muito sérios e disse: “Então, Aya-senpai, por favor, não faça nada que deixe o Haru-senpai triste, está bem?”
Traduzido por Moonlight Valley
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