Volume 4

Capítulo 6: A Proposta da Família Tōjō

   O sol da manhã brilhava intensamente.

   O céu azul sem nuvens, um começo perfeito para um dia maravilhoso, era de um azul claro e infinito.

   Era o tipo de clima perfeito que permitia começar o dia com o coração alegre. E ainda assim, o estudante do ensino médio caminhando sob aquele agradável céu azul, Akagi Tomoya, exalava um ar de completo desânimo. Ele soltou um enorme bocejo e virou o olhar para Haruto, que caminhava ao seu lado.

“Ei, Haru-san.”

“O que foi, Tomoya-san?”

“Por que você está indo para a escola comigo?”

   Diante da pergunta de Tomoya, a sobrancelha de Haruto se contraiu levemente.

“...Isso quer dizer que você está infeliz de ir para a escola comigo? Achei que você fosse meu melhor amigo, Tomoya. Isso é triste... Ainda mais depois de eu ter te ajudado tanto com a lição de casa ontem.”

“Não é isso. O que eu quero dizer é, você não deveria estar indo para a escola com a Tōjō-san?”

   Depois de observar um estudante do sexo masculino que estava passando se afastar, Tomoya lançou um olhar inexpressivo para Haruto. Ao ouvir a palavra “Tōjō”, ele achou que viu as costas do estudante que passava tremerem levemente. Vendo isso, Haruto baixou a voz e respondeu de forma apagada.

“Ah... bem.”

“O que foi essa resposta vaga? E isso depois de você finalmente ter conseguido uma namorada super bonita nas férias de verão.”

   Diante da resposta ambígua do melhor amigo, uma expressão de exasperação surgiu no rosto de Tomoya.

   Haruto esperou até que o estudante à frente estivesse completamente fora do alcance de ouvir, então franziu levemente os lábios.

“Eu preferiria muito mais estar indo para a escola com a minha namorada do que com algum cara seboso, sabia?”

“Ei, ‘seboso’ foi desnecessário,  não foi? Meu coração é tão delicado quanto vidro, então é melhor você lidar com ele com mais cuidado.”

“Ouvi dizer que o vidro à prova de balas moderno consegue até parar disparos de rifle.”

“Haru-san, às vezes as palavras também são como disparos de rifle, sabia?”

   Os dois trocaram suas costumeiras brincadeiras enquanto iam para a escola.

   Tomoya pressionou o melhor amigo sobre o motivo de ele estar caminhando ao seu lado, e não ao lado da namorada.

“Se você tivesse a chance de ir para a escola com a Tōjō-san, o cara padrão acharia tudo bem mesmo que o mundo acabasse amanhã, certo?”

“Que parte disso é ‘padrão’?”

   Dessa vez, foi a vez de Haruto olhar para Tomoya com exasperação diante de sua forma exagerada de se expressar, embora ele tenha murmurado: “Bem, acho que não posso dizer que não entendo como você se sente...”

“Por várias circunstâncias, decidimos manter em segredo o fato de que estamos namorando na escola.”

“Hã? Por que isso? Não me diga que você arregou porque está com medo de todos os outros caras ficarem com ciúmes?”

   Diante das palavras de Haruto, Tomoya lançou-lhe um olhar de reprovação, dizendo coisas como: “Você está arregando de novo?”

“Não é isso. Quer dizer, eu admito que tenho medo do ciúme dos outros caras, mas esse não é o motivo.”

“Então qual é o motivo?”

   Os dois pararam diante de um semáforo vermelho.

   Haruto desviou o olhar de Tomoya e respondeu enquanto encarava o sinal vermelho.

“É sobre as amizades da Ayaka. Pelo visto, no ensino fundamental, um garoto se declarou para ela, e isso acabou causando problemas com uma amiga, e no fim elas se afastaram.”

“Hoh.”

“E isso acabou se tornando um tipo de trauma para ela. A postura de ‘não tenho absolutamente nenhum interesse em romance’ que a Ayaka assume na escola é para evitar que o que aconteceu no fundamental se repita.”

   Após terminar sua explicação, Haruto lançou um olhar para o sinal, agora verde, e atravessou a rua. Caminhando ao seu lado, Tomoya assentiu levemente, como se tivesse entendido mais ou menos.

“Entendo. Então, em outras palavras, se surgisse outra garota que gostasse de você, Haru, a Tōjō-san acabaria sendo ressentida por essa garota, e ela tem medo disso. É isso, né?”

“Sim, é isso mesmo.”

   Diante da confirmação de Haruto, Tomoya disse “Hmm” e esfregou o queixo, olhando para baixo pensativo. Então, depois de organizar seus pensamentos, virou-se abruptamente para o melhor amigo e abriu a boca.

“A Tōjō-san não está pensando demais nisso?”

“Eu também acho, mas me irrita quando é você quem diz isso.”

   Haruto deu um leve soco no ombro do melhor amigo, que silenciosamente lhe dizia: “Você não é tão popular assim com as garotas.”

“Ai! Sou contra a violência!”

   Tomoya reagiu de forma dramática. Haruto o ignorou e soltou um pequeno suspiro. Vendo isso, Tomoya entrelaçou as mãos atrás da cabeça e perguntou.

“Você está bem com isso, Haru? Vai manter seu relacionamento com a Tōjō-san em segredo para sempre?”

“Eu não estou bem com isso. Nem um pouco, mas não faço ideia do que fazer a respeito.”

   Com uma expressão preocupada, Haruto suspirou novamente em silêncio.

“Bom, relacionamentos entre garotas realmente parecem complicados e problemáticos...”

   Tomoya lançou um olhar para um grupo de garotas caminhando um pouco à frente.

   Ele não conseguia ouvir sobre o que o grupo conversava, mas elas pareciam estar tendo uma conversa muito agradável a caminho da escola com as amigas.

   Haruto também olhou em direção ao grupo de garotas.

“Se fosse apenas um problema meu, eu só teria que me decidir, mas quando envolve afetar as amizades da Ayaka...”

“Verdade. Eu não me importo se você acabar sendo espancado atrás do ginásio ou algo assim, Haru, mas partiria meu coração ver a Tōjō-san sofrer bullying.”

“Ei, meu melhor amigo. Você deveria se preocupar comigo nessa parte.”

   Haruto desferiu um segundo soco no ombro de Tomoya por causa de seu comentário casual e despreocupado.

   Seu melhor amigo apenas riu alto antes de fazer uma sugestão.

“Se todos os estudantes da escola aceitassem você como o namorado da Tōjō-san, isso não resolveria tudo?”

“Falar é fácil. Além disso, como eu faria eles aceitarem isso?”

   Se, como Tomoya dizia, todo o corpo estudantil aceitasse o relacionamento entre Haruto e Ayaka, não haveria necessidade de mantê-lo em segredo.

   Se os estudantes do sexo masculino julgassem Haruto como um namorado digno de Ayaka, e as estudantes também achassem que Haruto e Ayaka formavam um bom casal.

   Se ele conseguisse fazê-los pensar assim, então, mesmo que o relacionamento fosse revelado, as amizades da Ayaka não sofreriam. Na verdade, algumas pessoas poderiam até parabenizá-los e apoiá-los.

   Mas sua parceira era uma pessoa admirada por todos os estudantes.

   Ela era uma garota que era até chamada de “a idol da escola”.

   O que, afinal, ele poderia fazer para ser considerado o igual dela? Haruto não fazia a menor ideia. Tomoya parecia estar no mesmo barco, pois fez uma sugestão aleatória.

“Para começar, se você virasse presidente do conselho ou algo assim, ninguém reclamaria, né?”

“Você deveria parar de dizer coisas assim, isso só faz você soar como um completo idiota.”

   Diante da resposta ríspida de Haruto, Tomoya fingiu pensar novamente e então, como se tivesse sido atingido por uma ideia repentina, abriu um sorriso radiante para o melhor amigo.

“Seja o vocalista da minha banda no festival escolar!!”

“...Como você chegou nisso?”

   Haruto lançou um olhar cético para Tomoya, enquanto o amigo sorria com uma expressão que praticamente gritava: “Tive uma ideia genial!”

“Bandas são populares, né? São legais, né? Se você fizer todo o corpo estudantil desmaiar com sua linda voz, Haru, é vitória nossa, certo?”

“Não, duvido que funcione tão bem assim.”

“Claro que vai funcionar! Vai, entra na banda comigo! Vai? Por favor?”

   Enquanto Tomoya o encarava com olhos brilhantes e cheios de expectativa, Haruto pareceu um pouco surpreso. No entanto, as palavras do melhor amigo, “É pelo bem da Tōjō-san também!”, fizeram sua determinação vacilar bastante.

“...Bom, eu vou pensar a respeito.”

“Beleza! Vou ficar esperando uma resposta positiva!”

   Por conhecê-lo há anos, Tomoya percebeu pela reação de Haruto que as coisas estavam indo bem, e abriu um enorme sorriso acompanhado de um joinha.

   Enquanto caminhavam tendo essa conversa, quando perceberam, já estavam em frente ao portão da escola.

   Olhando para o prédio escolar pela primeira vez em cerca de um mês, Haruto se lembrou da mensagem que Ayaka lhe enviara naquela manhã. A mensagem era um simples “Bom dia” acompanhado de “Estou indo para a escola agora!”

   Como a mensagem havia chegado pouco antes de Haruto sair de casa, Ayaka provavelmente já estava na escola.

   Enquanto pensava vagamente nisso e atravessava o portão da escola, Tomoya, ao seu lado, soltou um “Hm?”

“Tem algum tipo de aglomeração na frente da entrada?”

   Ao ouvir isso, Haruto também olhou em direção à entrada dos estudantes, e, como Tomoya dissera, realmente havia uma multidão.

“O que é isso? Fiscalização do uniforme depois das férias?”

“Não. Se fosse isso, fariam na frente do portão da escola como sempre, não na entrada dos alunos, certo?”

“Verdade.”

   Os dois se aproximaram da multidão, sentindo-se confusos.

   Então, ouviram a voz de um estudante vindo do centro dela.

“Tōjō Ayaka-san! Eu realmente estou apaixonado por você!”

   No instante em que ouviu essas palavras, Haruto abriu caminho entre os estudantes que se aglomeravam na entrada e apressou-se em direção ao centro da multidão.

   Tomoya o seguiu logo atrás.

   Depois de finalmente conseguir passar pelo meio da multidão, Haruto avistou dois estudantes.

   Uma era Ayaka, sua amada namorada das recentes férias de verão.

   E, em frente a ela, estava um estudante do sexo masculino com uma expressão séria.

“Esse é...”

   Encarando a pessoa à frente de Ayaka, Haruto vasculhou sua memória para descobrir quem era aquele estudante. Sentia que já o tinha visto em algum lugar antes, mas não conseguia se lembrar exatamente.

   Nesse momento, Tomoya, que o havia seguido por trás, olhou para o estudante e murmurou.

“Esse é... o Kaitō-senpai do terceiro ano, não é?”

“Kaitō...”

   Ao ouvir esse nome, algo se encaixou na memória de Haruto.

“É aquele cara que se declarou para a Ayaka antes das férias de verão...”

“Isso, isso. É ele.”

   Kaitō-senpai. Ele era o veterano corajoso, porém maluco, que antes das férias de verão havia chamado Ayaka pelo sistema de som da escola e se declarado para ela, com direito até a um anel de noivado.

   Esse mesmo Kaitō-senpai encarava Ayaka com um olhar incrivelmente sério e disse em voz alta.

“Nestas férias de verão, não houve um único dia em que eu não tenha pensado em você!”

“Ah, hum... eu...”

“Mas antes das férias, eu estava pensando apenas em mim mesmo e não considerei nem um pouco os seus sentimentos! Sinto muito por ter te envergonhado na frente de toda a escola!”

“S-Sim. Hum...”

“Desde então, eu refleti sobre minhas ações e fiquei pensando constantemente em como poderia me aproximar de você! E finalmente encontrei a resposta!”

   Kaitō-senpai declarou seus pensamentos em um tom claro e firme. Dominada pela pressão, Ayaka lutava para conseguir dizer alguma coisa, com uma expressão preocupada no rosto.

   No entanto, Kaitō-senpai não percebeu a expressão dela e continuou falando com um olhar confiante.

“Tōjō Ayaka-san! Partindo do princípio de que nos tornaremos um casal, eu quero que você seja minha amiga primeiro! Por favor!!”

   Após sua declaração em voz alta, Kaitō-senpai abaixou profundamente a cabeça e, ao mesmo tempo, estendeu com força a mão direita em direção a Ayaka.

   Diante da ação enérgica de Kaitō-senpai, um murmúrio de “““Ooooh””” percorreu a multidão ao redor. Em seguida, todos voltaram seus olhares curiosos para Ayaka de uma só vez, esperando para ver qual seria sua reação.

   Talvez percebendo isso, o rosto de Ayaka ficou vermelho como um tomate enquanto ela encarava fixamente a mão direita que lhe era oferecida.

   Ver sua namorada sendo cortejada por outro rapaz. Ao presenciar aquela cena, um sentimento que ele nunca havia experimentado antes surgiu no coração de Haruto, fazendo seu pulso acelerar de forma desagradável.

   Ayaka encarou silenciosamente a mão de Kaitō-senpai por um momento, antes de abaixar levemente a cabeça.

“Desculpa!”

   No instante em que aquela única palavra foi pronunciada, a mão de Kaitō-senpai tremeu violentamente.

“Hum, eu... eu fico muito feliz com seus sentimentos, senpai, mas não posso aceitá-los.”

   As palavras de Ayaka foram claras. Kaitō-senpai ergueu lentamente a cabeça. Sua expressão parecia um pouco abatida, mas ainda havia um resquício de esperança em seus olhos.

“Posso perguntar... o motivo?”

“Sim. Bem... ser amigos tudo bem, mas sob a condição de tornarmos um casal... eu não posso aceitar isso.”

“Por quê... isso?”

“É porque... hum... porque existe alguém de quem eu gosto.”

O quê—!?

   Aquelas palavras, proferidas por Ayaka, ecoaram como um trovão não apenas para Kaitō-senpai, mas para todos os estudantes reunidos ao redor. Tomoya, uma das únicas duas pessoas que não foram atingidas por aquele raio, abriu um sorriso e cutucou o flanco do melhor amigo com o cotovelo.

   Haruto afastou aquilo de forma exagerada, como se tentasse esconder o próprio constrangimento.

   A verdade chocante que Ayaka havia revelado.

   Embora Kaitō-senpai tenha sofrido um golpe com aquelas palavras, ele ainda perguntou, como se restasse alguma esperança.

“E-Essa... essa pessoa de quem você gosta? Quem é?”

   A esperança que ainda restava para Kaitō-senpai era a possibilidade de Ayaka estar mentindo.

   Ela poderia ter inventado um amor fictício para recusar sua proposta.

   Do ponto de vista dele, aquilo ainda era uma situação desesperadora, mas era um pouco melhor do que existir alguém por quem ela realmente estivesse apaixonada.

   Em resposta à pergunta nascida dessa especulação, as bochechas de Ayaka coraram, e ela baixou levemente o olhar, respondendo timidamente.

“Isso é... um segredo.”

“Ghh!!”

   Era como um lírio gracioso balançando na brisa do verão.

   A imagem dela, corando timidamente enquanto os cantos de seus lábios se erguiam em um sorriso feliz. Aquela aparência era verdadeiramente a de uma donzela apaixonada.

   Kaitō-senpai, atingido em cheio pela avassaladora fofura de Ayaka, ficou imóvel, de boca aberta, como se sua própria alma tivesse deixado seu corpo.

   Afinal, quem era o homem capaz de fazer a idol da escola exibir uma expressão como aquela?

   Os estudantes do sexo masculino que haviam se reunido tinham todos a mesma pergunta em suas mentes.

   O primeiro dia de volta depois das férias de verão.

   A idol da escola, Tōjō Ayaka, tinha alguém de quem gostava!

   Essa grande notícia se espalhou por toda a escola mais rápido do que o vento.

 

✦ ✦ ✦

 

   Logo no início do primeiro dia após as férias de verão, a sala de aula estava agitada com um alvoroço como o de uma colmeia mexida.

   De seu lugar no fundo da sala, ao lado da janela, Haruto lançou um olhar em direção ao centro da sala de aula, o epicentro da comoção. Lá, ele viu Ayaka, cercada por um grande grupo de garotas.

   Ela estava rodeada por inúmeras alunas e era bombardeada com perguntas.

“Ei, ei, Tōjō-san! Quem é a pessoa de quem você gosta!?”

“Será que é alguém desta sala?”

“Quando você começou a gostar de alguém? Foi durante as férias de verão, por acaso?”

   As expressões das garotas que faziam as perguntas variavam.

   Algumas observavam felizes, com os olhos brilhando diante da fofoca amorosa da celebridade. Outras faziam perguntas com um sorriso na superfície, mas com um olhar cauteloso nos olhos, como se estivessem sondando informações. E algumas se inclinavam para a frente, perguntando por simples curiosidade.

   De fora desse círculo de garotas, os estudantes do sexo masculino fingiam não estar interessados, mas continuavam lançando olhares furtivos.

   Eles provavelmente estavam forçando os ouvidos, tentando desesperadamente captar as respostas de Ayaka às perguntas.

   Talvez ciente disso, Ayaka continuava dando respostas vagas com um sorriso.

“Não posso dizer quem é, mas ele é uma pessoa maravilhosa.”

“Aaah~! Quem!? Quem é!?”

“É um segredo.”

“Conta pra gente~”

   Esse tipo de conversa vinha se repetindo sem parar já fazia algum tempo.

   Haruto observava toda essa comoção com o rosto apoiado na mão. Ele se perguntava se havia algo que pudesse fazer por sua namorada, que certamente estava no limite, apesar do sorriso. Enquanto nutria esse sentimento frustrante, Tomoya se aproximou pela frente com um sorriso torto.

“Isso é outra coisa, não é?”

“Bem, considerando a popularidade dela, talvez seja de se esperar.”

   Haruto respondeu às palavras de Tomoya com a boca torcida.

   Como hoje era a cerimônia de abertura, não havia aulas regulares, apenas uma assembleia geral da escola e a homeroom.

“É só pela manhã hoje, então tudo bem, mas vai ser difícil a partir de amanhã.”

“Ficar assim o dia inteiro seria deprimente.”

   Ser cercada e bombardeada com perguntas em todo intervalo parecia algo que enlouqueceria qualquer um.

   Enquanto Haruto se preocupava com Ayaka, não havia nada que ele pudesse fazer por enquanto.

   Em seu lugar, uma pessoa maravilhosamente confiável veio em seu socorro.

“Ayaka~ Vamos ao banheiro juntas antes que o professor chegue.”

[Del: Salvadora, mas eu ainda não entendo porque as garotas vão ao banheiro juntas...]

   Quem chamou de forma animada foi sua melhor amiga, Aizawa Saki.

   Saki deu um leve tapinha no ombro de Ayaka com uma expressão alegre. Em resposta, a expressão de Ayaka também relaxou em um sorriso, e ela aceitou o convite da melhor amiga.

“Sim. Vamos.”

   Com isso, Ayaka se levantou e saiu da sala de aula ao lado de Saki.

   Vendo isso, Tomoya elogiou as ações de Saki em voz baixa.

“A Aizawa-san mandou bem. Resgatando a Tōjō-san de um jeito tão natural assim.”

   Com Ayaka e Saki tendo ido ao banheiro de forma tão tranquila, as garotas que haviam perdido seu alvo de perguntas ficaram sem o que fazer e, relutantes, voltaram para seus próprios lugares.

   Depois de lançar um olhar para as garotas se dispersando, Tomoya perguntou a Haruto.

“A Aizawa-san sabe sobre vocês dois?”

“Sim, ela disse que ia contar pra ela, então ela deve saber.”

“Então, os únicos que possuem essa informação secreta somos eu e a Aizawa-san, hein?”

   Tomoya sorriu, e Haruto, ainda com o rosto apoiado na mão, disse:

“A Shizuku também sabe.”

“Oh, a Shizuku-chan também sabe, é?”

   Como Tomoya era o melhor amigo e amigo de infância de Haruto, ele conhecia Shizuku razoavelmente bem. Ele perguntou sobre Shizuku com uma expressão um pouco interessada.

“Qual foi a reação dela quando você contou pra Shizuku-chan que tinha uma namorada?”

“Ela disse ‘parabéns’ e ‘espero que todos os casais felizes explodam’, com os lábios fazendo bico.”

“A sempre impassível Shizuku-chan fez bico?”

   Os olhos de Tomoya se arregalaram levemente em surpresa.

“Isso é tão surpreendente assim? A Shizuku faz caretas estranhas com bastante frequência, sabia?”

“Hã, é mesmo é...”

“O que foi esse aceno de cabeça cheio de significado?”

“Ah, não é nada.”

   Assim que Haruto estava prestes a insistir mais sobre essa reação curiosa, o smartphone em seu bolso vibrou suavemente. Ele o tirou e verificou, vendo uma mensagem de Ayaka.

   Haruto rapidamente olhou ao redor, só por precaução, e então conferiu a mensagem.

[Me desculpa, Haruto-kun. Mesmo tendo sido eu quem disse que deveríamos manter isso em segredo, acabei dizendo que tenho alguém de quem gosto.]

   Diante do pedido de desculpas dela, um leve sorriso surgiu nos lábios de Haruto.

   Ayaka era quem estava passando por dificuldades, e mesmo assim estava preocupada com ele.

   Pensando nisso, Haruto respondeu.

[Não é culpa sua, Ayaka. Então você não precisa se desculpar.]

[Obrigada. Sabe, quando eu estava falando com o Kaitō-senpai, eu estava pensando em você, Haruto-kun, e as palavras simplesmente saíram naturalmente…]

“Ugh.”

   A mensagem era tão adorável que Haruto quase abriu um sorriso. Ele tensionou o rosto para conter isso, mas acabou deixando escapar um gemido estranho.

“Ei, Haru. O que é essa cara esquisita?”

“Essa é a minha cara normal. Não chama de esquisita.”

“Não, não. Se uma cara sorridente dessas é a sua cara normal, você é um cara bem estranho, sabia?”

   Pelas palavras de Tomoya, Haruto percebeu que não havia conseguido esconder o sorriso nem um pouco.

   Ele abaixou a cabeça para esconder a expressão do melhor amigo e lançou um olhar para o telefone em sua mão. Outra mensagem de Ayaka havia chegado.

[Você está livre para a gente se encontrar depois da escola hoje?]

   Junto dessa mensagem, foi enviado um sticker de um coelho espiando de trás de uma parede.

[Então, eu vou à sua casa esta tarde, Ayaka.]

[Ebaaaーー!!]

   Ao ver a resposta de Ayaka, a expressão de Haruto naturalmente se transformou em um sorriso.

“Então, Haru-san. Do que você ficou sorrindo esse tempo todo?”

“É um segredo.”

   Haruto se esquivou da pergunta de Tomoya e guardou o telefone de volta no bolso.

 

✦ ✦ ✦

 

   Quando a cerimônia de abertura terminou, Haruto correu para casa.

“Cheguei~”

   Haruto murmurou de forma um tanto apática ao entrar pelo hall de entrada.

   Sua avó estava trabalhando, então a casa deveria estar vazia. Ele planejava fazer um almoço rápido e ir imediatamente para a casa de Ayaka, então entrou na sala de estar.

   Mas ali, inesperadamente, estava sua avó.

“Hã? Vovó?”

   Haruto chamou, um pouco surpreso. Foi só então que sua avó pareceu perceber o retorno dele e lentamente levantou o rosto abatido para olhar para ele.

“Oh, Haruto... bem-vindo de volta.”

“Sim, cheguei. Hoje você está de folga do trabalho?”

“Sim...”

   Sua avó trabalhava em uma lanchonete muito próxima da casa deles.

   A lanchonete, administrada por um velho amigo dela, era um negócio privado, então não era incomum que esses dias de folga repentinos acontecessem.

   Anos atrás, quando ela acolheu Haruto depois que ele perdeu os pais em um acidente de carro, sua avó, que havia sido dona de casa, decidiu começar a trabalhar, sabendo que dinheiro seria necessário no futuro. Parece que esse amigo lhe ofereceu um emprego naquela época. Desde então até hoje, sua avó continuou trabalhando naquela lanchonete.

   Como durante o dia era uma lanchonete e à noite um izakaya, ela frequentemente trabalhava até tarde, mas seu local de trabalho atual era bastante flexível e oferecia boas condições.

   Haruto falou com a avó enquanto se dirigia à cozinha.

“Eu estava pensando em fazer yakisoba para o almoço, tudo bem?”

“...Sim. Tudo bem.”

“Além disso, depois do almoço, eu estava pensando em ir à casa da Ayaka.”

“...Sim. Tudo bem.”

“Eu volto até o jantar.”

“...Sim. Tudo bem.”

“Vovó... está tudo bem com você?”

   As respostas da avó às palavras de Haruto soavam um pouco distraídas.

   Achando isso estranho, ele voltou da cozinha para a sala de estar e olhou para a avó. Então, como se voltasse à realidade, ela olhou para o rosto do neto. E sua expressão retornou à de sempre, gentil.

“Não é nada. Você vai à casa da Ayaka-san, não é? Precisa almoçar rápido e se arrumar.”

   À primeira vista, ela parecia ter voltado ao normal. No entanto, para Haruto, que havia vivido com ela por muito tempo, era impossível não perceber que ela estava escondendo algo e tentando disfarçar.

“Vó. Se algo estiver errado, por favor me conte.”

“...Não é nada. Estou bem.”

“Vó.”

“......”

   Haruto continuou encarando a avó em silêncio.

   Ela desviou o olhar dele com um sorriso gentil por um tempo, mas acabou cedendo ao olhar persistente de Haruto e deixou cair a máscara do sorriso suave.

“Haah... Haruto, me desculpa.”

   Após um grande suspiro, sua avó falou como se estivesse perdida.

“Na verdade, o Kikuchi-san vai... fechar a loja.”

“O quê!? É-sério?”

   Kikuchi-san era o amigo que administrava a lanchonete onde sua avó trabalhava.

“En-Então...”

“Vou ter que procurar um novo emprego...”

   Sua avó murmurou, soando um pouco cansada.

   A pessoa chamada Kikuchi-san, que a havia empregado por muito tempo, já era bastante idoso e recentemente havia ficado doente.

   Aparentemente, não era algo que ameaçasse a vida, mas parecia que ele já não tinha forças físicas para continuar administrando a lanchonete.

   Quando sua avó foi trabalhar hoje, Kikuchi-san aparentemente se ajoelhou diante dela, implorando para que o deixasse fechar a loja. Kikuchi-san, que entendia a situação da avó, também havia tentado encontrar uma maneira de manter a loja funcionando, mas parece que nenhuma boa ideia surgiu.

“Entendo... O que devemos fazer?”

   Ao ouvir a explicação, Haruto abaixou o olhar e seus pensamentos começaram a correr.

   Considerando a idade de sua avó, encontrar um novo emprego seria extremamente difícil. Além disso, as dores nas costas dela estavam piorando. Um local de trabalho que exigisse um longo deslocamento era algo a ser evitado.

“...Vó. Acho que vou arrumar um emprego depois que me formar no ensino médio.”

   Se sua avó fosse viver sozinha, ela conseguiria se virar de alguma forma apenas com a aposentadoria. No entanto, somando as despesas de vida de Haruto e as mensalidades escolares, ir para a universidade deixava de ser uma opção realista. Esse era o pensamento por trás de sua afirmação, mas, em resposta, sua avó balançou a cabeça de forma firme e enfática.

“Não, você não pode. Haruto, você vai para a universidade. É por isso que você tem estudado tanto até agora, não é?”

“Isso é verdade. Mas...”

“Não se preocupe, Haruto. Eu vou dar um jeito.”

   Sua avó falou com uma atitude resoluta. Sua postura fez Haruto se preocupar que ela pudesse se esforçar além do limite.

   Sua avó já não estava mais em uma idade em que pudesse forçar o próprio corpo.

“Vó...”

“Vamos, você vai à casa da Ayaka-san, não é? Você finalmente conseguiu uma namorada tão maravilhosa. Tem que valorizá-la.”

   Pressionado pela postura de “não discuta comigo” de sua avó, Haruto não conseguiu dizer mais nada e, obedientemente, preparou e comeu o almoço, sendo então apressado a ir para a casa de Ayaka.

   Haruto, que havia sido praticamente expulso de casa, refletia sobre a conversa anterior com a avó.

   Considerando a idade dela, provavelmente era melhor assumir que conseguir um novo emprego pelos meios normais era impossível.

   Se houvesse alguma possibilidade, seria fazer com que suas habilidades culinárias de alto nível fossem avaliadas e conseguir um emprego dessa forma, mas Haruto não tinha os contatos necessários para isso.

[Del: Bro, como assim não tem os contatos necessários?]

“Eu acho... que não tenho escolha a não ser trabalhar...”

   Sua avó certamente se oporia com todas as forças, mas não havia outra opção.

   Enquanto caminhava pensando nisso, ele percebeu que, sem se dar conta, estava em frente a uma mansão familiar.

   Parecia que seu corpo havia se lembrado automaticamente do caminho até a residência dos Tōjō, graças a ter ido e voltado de lá durante todas as férias de verão.

   Haruto apertou o interfone com uma mão já acostumada.

“Cheguei.”

“Eu estava esperando por você, Haruto-kun. Vou abrir a porta agora.”

   Quando Haruto disse isso brevemente, ouviu a voz alegre e animada de Ayaka pelo interfone.

   A voz dela pareceu aliviar a ansiedade de Haruto, ainda que apenas um pouco.

“Bem-vindo, Haruto-kun!”

   A porta da frente se abriu imediatamente, e Ayaka apareceu com um enorme sorriso. Ela beliscou gentilmente a manga da roupa de Haruto, convidou-o a entrar e os dois foram direto para a sala de estar.

“O Shūichi-san e a Ikue-san estão trabalhando hoje?”

   Haruto perguntou, olhando ao redor da sala de estar vazia.

“Sim. Os dois disseram que vão chegar tarde hoje. Então, mais tarde, eu tenho que ir buscar o Ryōta.”

“Entendo. Então, quer que eu vá com você?”

“Sério? Acho que o Ryōta ficaria muito feliz se você fosse buscá-lo comigo, Haruto-kun!”

   Trocando esse tipo de conversa, os dois se sentaram lado a lado no sofá da sala de estar.

   Assim que se sentou no sofá, Ayaka encostou o corpo bem perto de Haruto e abraçou seu braço com felicidade.

“Finalmente posso recarregar meu Harutonio.”

“Recarregar? Eu não sou um nutriente.”

“Para mim, neste momento, o Harutonio é um dos cinco nutrientes principais.”

   Ayaka disse isso enquanto se aconchegava no braço de Haruto e esfregava o rosto em seu ombro.

   Haruto lançou um olhar para o próprio braço, que estava enterrado no peito dela, e então sorriu de forma irônica.

“Dado o jeito que as coisas estavam na escola hoje, parecia difícil até mesmo se aproximar, não é?”

“Eu sei. É tão difícil não poder falar com você mesmo quando você está bem ali, Haruto-kun...”

   Ayaka disse desanimada, com as sobrancelhas bem desenhadas caídas.

   Haruto acariciou suavemente o cabelo dela. Com isso, Ayaka sorriu, como se estivesse derretendo de prazer, e apoiou ainda mais o peso do corpo nele.

   A expressão dela, cheia de felicidade, também encheu o coração de Haruto.

   No entanto, as preocupações de casa não desapareceram completamente, e, no fundo, uma ansiedade turva continuava girando, deixando-o inquieto.

   Deveria ele forçar sua avó a se esforçar demais, ou deveria desistir da universidade e começar a trabalhar assim que se formasse no ensino médio?

   Sua avó era a única família preciosa que Haruto tinha.

   Forçar alguém tão precioso a se esforçar além do limite também era doloroso para ele.

   Mas, mesmo que Haruto fosse trabalhar, ele acabaria sobrecarregando a avó com a culpa de não conseguir mandar o neto para a universidade.

   O que ele deveria fazer...

“Haah...”

   Perdido em uma ansiedade sem respostas, Haruto deixou escapar inconscientemente um pequeno suspiro.

   Com isso, Ayaka, que estava apoiando a cabeça no ombro de Haruto, levantou o rosto e olhou para ele com olhos preocupados.

“...Haruto-kun?”

“Ah, não. Desculpa, não é nada.”

   Haruto tentou apressadamente disfarçar, forçando um sorriso no rosto.

   No entanto, o olhar de Ayaka continuava preocupado.

“Me desculpa. É porque eu disse algo desnecessário na escola...”

   Ela falou de forma fraca, com uma expressão abatida.

   Percebendo que ela havia entendido mal o motivo de seu suspiro, Haruto puxou gentilmente o ombro dela para mais perto e falou em um tom suave, fazendo o possível para não deixá-la ansiosa.

“Não é isso, Ayaka. Esse suspiro não foi por causa daquilo.”

“É mesmo? Tem outra coisa com a qual você está preocupado?”

   Ayaka perguntou, preocupada com Haruto. Mas Haruto ficou sem saber o que responder.

   Esse era um problema da família Ōtsuki. Se ele contasse a Ayaka, não estaria apenas preocupando-a sem necessidade? Esse pensamento passou pela mente de Haruto.

“Hum... bem, tem um pequeno problema, mas não é nada sério.”

“Mesmo?”

   Ayaka inclinou levemente a cabeça diante da tentativa de Haruto de minimizar a situação e encarou profundamente seus olhos, como se estivesse tentando enxergar dentro deles.

   Ser encarado de tão perto por uma garota tão perfeitamente bonita deixou Haruto inquieto, e ele não conseguiu evitar desviar o olhar.

“...Haruto-kun. Se você não quiser falar sobre isso, eu não vou forçar. Mas, se estiver tudo bem para você me contar, eu gostaria de ouvir sobre as suas preocupações.”

   Depois de demonstrar um momento de hesitação, Ayaka falou, escolhendo cuidadosamente as palavras.

   As palavras dela, demonstrando preocupação com ele, trouxeram uma sensação de felicidade ao coração de Haruto. Mas, ainda assim, a hesitação sobre se ele deveria contar ou não a Ayaka continuava.

   Então, como se fosse para empurrá-lo além do limite, Ayaka acrescentou.

“Agora, Haruto-kun, seus olhos parecem tão cheios de ansiedade. Eu não sei se posso ser de alguma ajuda. Mas, se falar sobre isso puder aliviar sua ansiedade nem que seja um pouquinho, por favor, me conte.”

   Ayaka continuou com palavras carinhosas: “Eu sou sua namorada, Haruto-kun. Eu quero ser de alguma ajuda, nem que seja só um pouco.”

   As palavras atenciosas de Ayaka fizeram o coração de Haruto vacilar intensamente.

   Ir para a universidade no futuro ou começar a trabalhar.

   Qualquer que fosse a escolha, se ele continuasse namorando Ayaka, chegaria o momento em que teria de falar sobre esse problema. A única diferença era se falaria sobre isso mais cedo ou mais tarde. À medida que seus pensamentos se inclinavam nessa direção, Haruto soltou um suspiro e confidenciou suas preocupações a ela.

   Depois de ouvir a história de Haruto, a expressão preocupada de Ayaka se aprofundou.

“Então foi isso que aconteceu...”

“Sim... a universidade custa muito dinheiro, e há um limite para o que dá para administrar apenas com uma bolsa de estudos.”

“Mesmo você tendo as melhores notas do nosso ano, Haruto-kun...”

“Minha avó fica dizendo que eu tenho que ir para a universidade de qualquer jeito. Mas ela já não está em uma idade em que possa se forçar...”

   A imagem de sua avó, que certa vez havia desmaiado por insolação, passou pela mente de Haruto. Naquele instante, ele sentiu um medo que gelou seu corpo até os ossos, e ele estremeceu levemente.

   Vendo o estado dele, Ayaka se aproximou ainda mais.

“Você quer que sua avó permaneça saudável por muito tempo, não é, Haruto-kun?”

“Sim. Ela é minha única família, afinal...”

   Haruto disse em voz baixa, com um leve tom de fraqueza.

   Diante de suas palavras, a expressão de Ayaka ficou triste por um instante, e então ela abraçou o braço de Haruto ainda mais forte do que antes. Ao vê-la se esforçando tanto para encorajá-lo, a expressão de Haruto se iluminou um pouco.

“Obrigado, Ayaka.”

“Não foi nada. Se houver algo que eu possa fazer... ah!”

   De repente, os olhos de Ayaka se arregalaram, como se algo tivesse acabado de lhe ocorrer.

“Ei, está tudo bem se eu conversar com meu pai e minha mãe sobre a situação da sua família, Haruto-kun?”

“Huh? Com o Shūichi-san e a Ikue-san? Não é exatamente algo que eu esteja escondendo, então não tenho problema com isso, mas...”

   Haruto demonstrou sua confusão diante da sugestão repentina dela.

   Ayaka respondeu à resposta dele com um “Obrigada!”, então tirou o smartphone e começou a operá-lo em alta velocidade.

   O que, afinal, Ayaka havia pensado?

   Sem fazer ideia, Haruto continuou a observar o perfil do rosto sério dela enquanto ela mexia no celular.

   Pouco depois, o telefone de Ayaka começou a vibrar. Parecia que uma chamada estava chegando, e ela imediatamente tocou na tela para atender.

“Alô, pai? Sim, é isso mesmo... uh-huh, uh-huh.”

   Parecia que a pessoa do outro lado era Shūichi, e Ayaka assentia levemente enquanto murmurava em concordância.

“Então, eu queria te perguntar, pai... hã? Ah, sim. O Haruto-kun? Ele está bem aqui do meu lado. Sim, entendi.”

  Ayaka afastou o telefone da orelha por um momento e olhou para Haruto, que estava sentado ao lado dela.

“O Pai quer falar com você, tudo bem?”

“Eh? Ah, sim.”

   Haruto, ainda confuso, pegou o telefone das mãos de Ayaka.

“Alô, aqui é o Ōtsuki.”

“Ei, Ōtsuki-kun. Ouvi a história pela Ayaka. Parece que você está passando por muita coisa.”

“Sim... hum, obrigado pela preocupação.”

“De fato. Tenho certeza de que sua família passou por dificuldades que eu nem consigo imaginar. Acho que entendo um pouco melhor agora por que você é mais maduro do que outras crianças da sua idade. Tenho certeza de que seus pais ficariam orgulhosos do excelente jovem que você se tornou.”

“Desculpe-me. Agradeço muito a sua gentileza.”

   Haruto disse isso, curvando a cabeça para Shūichi através do telefone.

“Então. Ōtsuki-kun, você tem algum plano para hoje?”

“Não, nada em particular.”

“Ótimo. Nesse caso, eu estava pensando em voltar para casa um pouco. Você poderia esperar na casa com a Ayaka até eu chegar?”

“O quê!? Mas, Shūichi-san, o senhor não tem trabalho hoje...? A Ayaka acabou de dizer que o senhor chegaria tarde...”

   A confusão de Haruto, que já vinha aumentando, se intensificou com as palavras inesperadas de Shūichi.

“Sim, depois de falar com você, Ōtsuki-kun, eu volto para o escritório.”

“Hã? S-Sobre o que é essa conversa?”

“Hehehe. É sobre negócios, sabe.”

   Shūichi respondeu em um tom significativo.

“Então, estou saindo do escritório agora, então... vamos ver... acho que consigo chegar em casa em trinta ou quarenta minutos. Desculpe, mas você poderia esperar um pouco?”

“S-Sim... entendo.”

   Quando Haruto respondeu, Shūichi encerrou a ligação com um “Até daqui a pouco.”

   Com uma expressão atônita, Haruto devolveu o telefone para Ayaka.

“O que ele disse?”

“Ele disse que está vindo para casa agora, então é para esperar por trinta ou quarenta minutos.”

“Entendi. Certo.”

“...O que você disse ao Shūichi-san?”

   O que, afinal, ela havia enviado em sua mensagem para Shūichi? Curioso, Haruto encontrou o olhar de Ayaka e perguntou. Ela respondeu à pergunta dele com um sorriso um pouco tímido.

“Ainda não sei o que vai acontecer. Mas acho que será algo bom tanto para a sua avó quanto para você, Haruto-kun.”

   Depois de dizer isso, as bochechas de Ayaka ficaram levemente coradas, e ela acrescentou mais uma coisa, com um sorriso tingido de timidez.

“E também é algo bom para mim...”

“Para você também, Ayaka?”

“Sim...”

“O que isso quer dizer...?”

“Acho que o meu pai provavelmente vai explicar.”

“...Entendo.”

   Depois dessa conversa, os dois esperaram a chegada de Shūichi no sofá da sala de estar, trocando poucas palavras. Então, cerca de quarenta minutos após a ligação, o som fraco de um carro pôde ser ouvido do lado de fora da casa.

“Ah, parece que o pai chegou.”

   Após as palavras de Ayaka, ouviu-se o som da porta da frente se abrindo, e logo Shūichi apareceu na sala de estar. Haruto se levantou do sofá onde estava sentado e curvou a cabeça diante de Shūichi.

“Olá, Shūichi-san. Desculpe pela intromissão.”

“Olá, Ōtsuki-kun. Desculpe por fazê-lo esperar.”

   Shūichi disse de forma animada, vestindo um terno elegante e exalando a aura de um executivo de negócios. Haruto achou que ele parecia muito elegante e, ao mesmo tempo, um pensamento passageiro cruzou sua mente: era inevitável que Ayaka, que claramente havia herdado os genes de Shūichi e Ikue, fosse chamada de a garota mais bonita da escola.

   Assim que entrou na sala de estar, Shūichi se sentou no sofá e fez um gesto para que Haruto se sentasse à sua frente.

“Desculpe ir direto ao ponto, mas posso falar um pouco com você? Na verdade, tenho outra reunião importante no escritório depois disso. Não posso ficar muito tempo.”

   Olhando para Haruto sentado à sua frente, Shūichi falou de maneira apologética.

   O que poderia ser tão importante a ponto de ele voltar para casa para discutir, mesmo tendo uma reunião importante da empresa esperando?

   Haruto olhou para Shūichi à sua frente com uma expressão tensa.

“Hum... me desculpe. Mesmo o senhor tendo uma reunião tão importante...”

“Não, não. É verdade que a reunião da empresa é importante, mas o que estou prestes a discutir com você também é muito importante para a família Tōjō.”

“Hum... e qual é esse assunto importante?”

   Diante da pergunta de Haruto, Shūichi olhou para ele com olhos sérios.

   Sua aparência, completamente diferente de sua habitual atmosfera alegre, amigável e um tanto juvenil, agora estava cheia da dignidade de um executivo de empresa, exalando o ar de um adulto autoritário.

“Antes de começar essa conversa, há algo que quero lhe dizer primeiro, Ōtsuki-kun.”

   Ele se inclinou levemente para a frente a partir do encosto do sofá, entrelaçando as mãos de forma relaxada.

   Parecia que ele estava prestes a iniciar uma negociação de negócios.

“A proposta que estou prestes a fazer não é por simpatia por você ou por sua avó. Não se trata de quebrar regras para ajudá-lo por você ser o namorado da Ayaka. É uma proposta que faço puramente porque acredito que trará benefícios para a nossa família, a família Tōjō. Quero que você ouça minha proposta com esse entendimento.”

“Sim, eu entendo.”

“Ótimo. Então, vamos ao assunto. Não é algo muito complicado. Para ser direto, eu gostaria de contratar a sua avó como governanta da nossa família.”

“O-O quê!?”

   Diante das palavras de Shūichi, Haruto não conseguiu evitar soltar um grito de surpresa.

“Minha avó... o senhor quer dizer?”

“Você mencionou antes, não foi, Ōtsuki-kun? Que foi sua avó quem lhe ensinou a cozinhar.”

“S-Sim.”

“As suas habilidades culinárias, Ōtsuki-kun, já foram comprovadas por meio do seu trabalho doméstico. E, se foi sua avó que o ensinou, então não temos absolutamente nenhuma reclamação.”

“É verdade que as habilidades culinárias da minha avó são sólidas, mas...”

   Sem conseguir acompanhar a reviravolta inesperada dos acontecimentos, a mente de Haruto ficou em branco, e ele ficou sem palavras. Nesse momento, Ayaka, sentada ao lado dele, abriu a boca com um sorriso radiante.

“E foi a sua avó que também te ensinou a limpar e tudo mais, não foi, Haruto-kun? Em outras palavras, a qualidade do seu trabalho doméstico é baseada nos padrões da sua avó, certo?”

“Ficamos muito satisfeitos com o seu trabalho durante as férias de verão, Ōtsuki-kun. Se fosse possível, gostaríamos que você tivesse continuado após o recesso, mas não podíamos pedir que um estudante como você priorizasse um trabalho de meio período. E foi justamente nesse momento que surgiu esta história da sua avó.”

   Ao ouvir isso tanto de Shūichi quanto de Ayaka, um grande raio de esperança brilhou no coração de Haruto.

   Haruto sentiu a pesada ansiedade que estava assentada em seu peito se tornar rapidamente mais leve.

   Em meio a tudo isso, um problema ficou preso em sua mente.

“Muito obrigado! Isso é uma ajuda realmente, realmente enorme.”

“Você não precisa me agradecer tanto. Como eu disse antes, esta oferta não é por simpatia ou pena. Na verdade, se você aceitar esta oferta, sou eu quem deveria estar curvando a cabeça.”

   Diante das palavras gentis de Shūichi, Haruto curvou a cabeça profundamente. Então, ao levantar o rosto, contou a Shūichi sobre o problema que sua avó estava enfrentando.

“Estou muito feliz. Eu adoraria aceitar a oferta. Mas, hum... há um pequeno problema. Na verdade, minha avó tem tido alguns problemas nas costas recentemente, e é um pouco difícil para ela caminhar longas distâncias.”

   As casas das famílias Ōtsuki e Tōjō ficavam a cerca de trinta minutos de caminhada uma da outra.

   Para o ainda jovem Haruto, era uma distância que não representava problema algum.

   No entanto, para sua avó idosa, com dores nas costas, fazer esse trajeto com frequência seria bastante difícil.

   Quando ele contou isso a Shūichi, este assentiu profundamente e então olhou para Haruto com um sorriso nos lábios. Sua postura havia perdido um pouco da aura executiva de antes.

“Também ouvi sobre isso pela Ayaka. Então, tenho uma proposta para você, Ōtsuki-kun.”

   Shūichi fez uma breve pausa antes de continuar.

“Seria possível que sua avó trabalhasse como governanta residente?”

“O-O quê!? U-Uma governanta residente!?”

   Haruto soltou seu segundo grito de surpresa do dia. Shūichi continuou, soando bastante satisfeito.

“Claro, eu entendo que seria difícil para ela ficar nesta casa a semana inteira. Teremos que discutir os detalhes depois, mas como uma ideia, que tal ela morar aqui durante os dias de semana e voltar para casa nos fins de semana?”

“Ah, hum... s-sim, isso. Uh...”

   Diante da proposta inesperada de Shūichi, vários pensamentos surgiam e desapareciam na mente de Haruto, e ele não conseguia organizá-los adequadamente. Nesse momento, Shūichi lançou outra sugestão.

“E, se sua avó morar aqui em casa, você vai ficar sozinho em casa, não vai, Ōtsuki-kun?”

“S-Sim.”

“Isso faria você se sentir solitário, e eu me sentiria mal por isso.”

“N-Não. Para nós, só o fato de o senhor contratar minha avó já é uma ajuda enorme...”

   Quando Haruto respondeu dessa forma, Shūichi balançou levemente a cabeça.

“Ōtsuki-kun. Uma família, sabe. Eu acredito que, quando é possível ficarem juntos, é mais feliz estarem juntos.”

“S-Sim, senhor...”

“Então, isso também é uma proposta, mas...”

   Nesse momento, Shūichi abriu um sorriso muito gentil e luminoso.

“O que acha? Que tal você também morar nesta casa junto com sua avó?”

“O-O quê!?”

   O terceiro grito de surpresa de Haruto no dia.

   É verdade o que dizem: o que acontece duas vezes, acontece uma terceira.

   A terceira surpresa foi a maior de todas, e Haruto ficou congelado, de boca aberta.

   Diante disso, Ayaka perguntou, como se estivesse avaliando a reação de Haruto.

“O que você acha, Haruto-kun? Pessoalmente, acho que seria animado e divertido se todos nós pudéssemos jantar juntos, incluindo você e sua avó...”

“B-Bem, isso pode até ser verdade, mas...”

   Ele disse, confuso, olhando para ela ao seu lado.

   Ayaka não demonstrava surpresa com a proposta de Shūichi, seus olhos brilhavam de expectativa. Provavelmente, essa ideia de acolher a família Ōtsuki em sua casa já havia sido discutida durante a ligação telefônica anterior.

   Shūichi, sentado à frente deles, sorriu alegremente.

   Era surpreendentemente semelhante ao sorriso que ele exibira quando havia sugerido, de forma indireta, que Haruto se casasse com Ayaka enquanto estavam juntos nas fontes termais durante a viagem de acampamento.

“Você provavelmente já sabe disso, Ōtsuki-kun, mas esta casa tem um quarto de hóspedes que normalmente não usamos, então estávamos pensando em deixar sua avó usar esse quarto.”

“Ah, obrigado. Mas, hum... se eu também fosse morar aqui, não faltariam quartos...?”

[Del: Então… eis a questão… que tem uma solução.]

   A casa da família Tōjō, por ser uma mansão, possuía um magnífico quarto de hóspedes.

   Como ele normalmente não era utilizado, não haveria problema algum para sua avó usá-lo. No entanto, se Haruto também fosse ficar na residência dos Tōjō, eles ficariam sem quartos suficientes. A residência dos Tōjō também tinha um cômodo de estilo japonês além da sala de estar, então, se ele o usasse como quarto, não seria impossível morar ali. Quando Haruto fez essa pergunta a Shūichi, ele respondeu imediatamente com o mesmo sorriso radiante.

“Sem problema. Vamos fazer você usar o quarto ao lado do da Ayaka, Ōtsuki-kun.”

“Hã? Mas esse quarto é do Ryōta-kun...”

   O quarto ao lado do de Ayaka era o quarto de Ryōta.

   Se Haruto usasse aquele quarto, Ryōta perderia o seu. No entanto, Shūichi respondeu despreocupadamente: “Não tem problema.”

“O Ryōta ainda dorme no nosso quarto, e normalmente brinca na sala de estar, então aquele quarto é praticamente um quarto vazio. Planejamos torná-lo o quarto do Ryōta no futuro, mas isso ainda está um pouco distante. Então, por enquanto, está completamente bem você usá-lo, Ōtsuki-kun.”

“E-Entendo...”

   Haruto não pôde deixar de se convencer com a explicação de Shūichi.

“Hum, a Ikue-san sabe disso?”

“Claro que contei a ela. A Ikue também disse que receberia vocês dois de braços abertos.”

   Ao ouvir tudo isso, a forte intenção da família Tōjō de acolher a família Ōtsuki tornou-se palpável.

“Muito obrigado. Hum... quanto a mim, eu adoraria aceitar essa oferta, mas gostaria de falar primeiro com minha avó e, depois, hum, lhe dar uma resposta formal, então... poderia me dar um pouco de tempo?”

“Claro! Quero que você converse bem com sua avó e decida com calma.”

   Shūichi assentiu energicamente, então olhou para o relógio de pulso e se levantou do sofá.

“Bem, então, vou voltar para o escritório.”

“Hum, muito obrigado por tirar um tempo da sua agenda tão ocupada.”

   Haruto também se levantou do sofá e curvou-se profundamente em agradecimento.

   Depois disso, Haruto e Ayaka foram até a entrada para se despedirem de Shūichi.

   Shūichi calçou seus sapatos de couro, virou-se e olhou para Haruto.

“Ōtsuki-kun, espero sinceramente que você considere isso de forma positiva.”

   Diante das palavras de Shūichi, Haruto curvou-se profundamente mais uma vez.

   Vendo isso, Shūichi abriu a porta da frente com uma expressão satisfeita e voltou para sua empresa.

   Haruto ficou encarando silenciosamente a porta por onde ele havia saído por alguns segundos, então desviou abruptamente o olhar para Ayaka, que estava ao seu lado.

“Ayaka. Aquela coisa que o Shūichi-san disse agora, sobre eu ficar aqui também... será que...”

“...Eu não consigo ficar com você na escola, então achei que seria bom se pudéssemos ficar bastante juntos em casa. Isso foi... ruim?”

   Com uma expressão misturada de timidez e constrangimento, Ayaka respondeu em voz baixa, evitando o olhar de Haruto.

   Em resposta, Haruto deu uma risadinha e respondeu.

“Como poderia ser ruim? Se eu puder ficar com a garota que eu amo, eu que estaria pedindo isso. É só que aconteceu tudo tão de repente, eu fiquei apenas surpreso, ou talvez não pareça real... achei que fosse um sonho.”

“Sério!? Hehe, ficar em casa com você, Haruto-kun, também parece um sonho para mim!”

   Com um sorriso que parecia prestes a explodir, Ayaka transbordou de alegria e jogou os braços ao redor de Haruto.

 

 

Traduzido por Moonlight Valley

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