Volume 2

Capítulo 6: Praticando Ser Namorados

Ōtsuki Haruto

 

   Um grito poderoso ecoou pelo dojo.

   Pés descalços deslizavam pelo chão de madeira, misturando-se com sons de rangido, intercalados pelo baque pesado de chutes e socos bloqueados, e pelo estalo seco de golpes.

   Haruto se defendia desesperadamente contra a investida feroz de chutes e socos de seu parceiro de sparring, Ishikura.

   Haruto e Ishikura têm habilidades equivalentes, ambos atuando como instrutores assistentes no Dojima Dojo. Normalmente, seus treinos envolveriam rápidas trocas entre ataque e defesa. No entanto, naquele dia, Haruto estava sem foco e completamente na defensiva.

   Percebendo isso, Ishikura desferiu seu característico chute alto a curta distância.

   O Haruto de sempre teria facilmente evitado o chute alto de Ishikura inclinando-se para trás ou com movimentos semelhantes. Mas naquele dia, sem concentração, sua reação foi lenta, obrigando-o a levantar o braço para se defender.

   Com um baque surdo, o chute pesado de Ishikura acertou em cheio o braço de Haruto.

   Mesmo Haruto, defendendo apenas com um braço por conta da reação atrasada, não conseguiu suportar totalmente o chute. Ele cambaleou um pouco, depois recuou alguns passos no lugar.

“Ei, Haruto. Você está lento hoje, não é?” Ishikura disse, mantendo a postura após o chute alto.

“Desculpa, Kazu-senpai. Minha mente estava um pouco distraída pensando em algo.” Haruto respondeu com um sorriso torto, balançando levemente o braço que havia recebido o golpe.

“Você vai se machucar se ficar se distraindo demais, sabia?”

“Sim, senhor. Vou me concentrar.” Haruto exalou brevemente e voltou seu foco.

   Vendo o olhar sério de Haruto, Ishikura também retomou sua postura, e o sparring continuou.

   Depois de suar bastante treinando com Ishikura, Haruto terminou sua prática no dojo e sentou-se no chão para alongar e esfriar o corpo.

   Ishikura aproximou-se, enxugando o suor do pescoço com uma toalha.

“Haruto, algo está te incomodando?” Ishikura perguntou casualmente, sentando-se ao lado de Haruto.

“Você disse que estava pensando em algo durante o sparring também.”

“Ah... não é bem algo que ‘incomoda’, mas...” Haruto parou de se alongar por um momento, hesitando com um tom um tanto desconfortável.

“É tipo... bem... não chega a ser amizade íntima, mas... qual você acha que é a distância apropriada com uma garota assim?”

“Hã? O que isso se supõe significar?” Ishikura pareceu um pouco surpreso com as palavras totalmente inesperadas de Haruto.

“A coisa em que você estava pensando era relacionada a romance?”

“Ah... bem... eu acho? Sei lá?”

“Sei lá? Não pergunta isso pra mim,” Ishikura respondeu exasperado. De trás dele, Shizuku apareceu de repente.

“O que foi? Vocês dois estão tendo uma conversa de garotas?”

“Uwaa?! Ei, Shizuku! Não aparece atrás de mim do nada! Vai me dar um ataque do coração!” Ishikura se virou num pulo, e Shizuku lhe lançou um olhar neutro, porém avaliador.

“Kazu-senpai, aqui é onde você deveria ter dito: ‘Não fique atrás de mim. Você pode se machucar,’ com um sorriso maligno e um sussurro. Que desperdício.”

“Quem é que tem cara de maligno?! E o que quer dizer com ‘desperdício’? Não entendi.”

“Quero dizer que foi uma chance de aumentar o Índice de Infâmia de Ishikura Kazuaki. Mais importante, Haru-senpai, você se apaixonou por alguém?” Shizuku simplesmente ignorou Ishikura, que resmungava “Não inventa uns índices estranhos!”, e encarou Haruto fixamente.

“Ah... bem...” Haruto coçou a cabeça com uma das mãos, desviando do olhar de Shizuku.

   Shizuku deu um passo à frente.

“Haru-senpai, se você precisa de conselho amoroso, acho que posso te ajudar um bilhão de vezes mais do que o Kazu-senpai.”

“Ei, isso é exagero, né?”

“Porque Kazu-senpai, você consegue falar com uma mulher por mais de três minutos sem fazê-la chorar?”

“Eu estou falando com você há mais de três minutos agora!”

“Eu sei que o Kazu-senpai é uma donzela escondida, então isso não conta.” Diante das palavras de Shizuku, Ishikura pareceu um pouco exausto: “Donzela escondida? Quem?”

“Então, Haru-senpai, de quem você gosta? Sou eu? Tudo bem, vamos namorar.”

“Heh heh... Obrigado, Shizuku. Vou pedir seu conselho de novo algum dia.” Haruto sorriu para Shizuku, que continuava brincando.

“Eu vou indo. Até mais.” Haruto terminou de se alongar e foi sozinho para o vestiário.

“Ei, Shizuku. Você acha mesmo que ele está gostando de alguém?”

“Não sei... mas... acho que seria uma coisa boa... se o Haru-senpai arrumasse uma namorada.” Shizuku murmurou baixinho, e Ishikura olhou para ela.

   No entanto, ele não conseguiu ler nenhuma emoção em seu rosto, ainda mais inexpressivo que o normal.

 

✦ ✦ ✦

 

   Haruto sentiu o suor se acumular nas palmas das mãos enquanto seguia Ayaka escada acima.

“Este é o meu quarto.” Ayaka disse, abrindo a porta.

“...Com licença por incomodar.” Haruto inclinou ligeiramente a cabeça antes de entrar no quarto de Ayaka.

   O quarto da “Idol da Escola”, considerada a garota mais bonita da escola.

   Seu quarto era apenas um quarto comum de garota.

   Se tivesse que apontar algo característico, seria que o quarto era um pouco maior que o de Haruto, e a parede estava forrada com estantes abarrotadas de mangás e romances.

“É um quarto muito bonito e bem arrumado.”

“Hehe, obrigada. Vou pegar algo para beber agora. Por favor, espere e sente-se naquela almofada ali.” Dizendo isso, Ayaka deixou o quarto por um momento.

   Sozinho no ambiente, Haruto olhou ao redor de forma inquieta.

   O quarto de uma colega de classe.

   Só isso já era suficiente para deixá-lo nervoso. Somando isso aos sentimentos que tinha por Ayaka e à situação do relacionamento falso, Haruto mudava de posição inúmeras vezes sobre a almofada.

   A cada respiração, um aroma suave e agradável acariciava seu nariz, fazendo seu coração bater mais rápido.

   O olhar de Haruto percorreu o quarto, impregnado do mesmo perfume que às vezes vinha do cabelo de Ayaka.

   Então, seus olhos caíram sobre a almofada em que estava sentado. Ele então olhou para a almofada colocada logo ao lado.

   Almofadas alinhadas quase sem nenhum espaço entre elas.

   À sua frente havia uma mesa perfeita para estudar.

   Os únicos outros lugares para sentar naquele quarto eram provavelmente a cama ou a cadeira da escrivaninha.

   Haruto olhou mais uma vez para a almofada ao lado, alinhada sem brechas, e a empurrou discretamente para criar um pouco de distância. Nesse momento, Ayaka voltou com bebidas e copos em uma bandeja.

“Obrigada por esperar, Haruto-kun. Pode ser chá de cevada?”

“Ah, sim. Obrigado.” Ayaka colocou a bandeja sobre a mesa à frente de Haruto e então sentou-se naturalmente na almofada ao lado dele.

   Ao se sentar, ela fez questão de empurrar a almofada de volta, eliminando o pequeno espaço que Haruto havia criado.

“...”

“...”

   Haruto e Ayaka ficaram sentados lado a lado, perto o bastante para que seus ombros se tocassem.

“Ah... bem... vou tomar um pouco de chá...”

“Uh, okay. Pode tomar.” Quando Haruto estendeu o braço para pegar o copo na mesa, ele esbarrou em Ayaka ao lado, e seu coração acelerou ainda mais.

   Haruto pretendia tomar apenas um gole, mas quando percebeu, havia tomado mais da metade do chá de cevada.

“Você estava com sede? Quer mais?”

“N-não, estou bem.” Haruto recusou o oferecimento de Ayaka balançando a mão.

   Após um breve silêncio, Ayaka falou timidamente.

“E-Então... devemos... começar a prática de ser um casal?” O peito de Haruto apertou ao ver Ayaka com as bochechas coradas, falando com um pouco de vergonha.

“Sim... Hm, com que tipo de coisa deveríamos... começar?” Lembrando que intimidade física havia sido mencionada na conversa anterior, Haruto perguntou cautelosamente.

“Certo. Primeiro, eu estava pensando que poderíamos mudar a forma como você fala, Haruto-kun. O que acha?”

“A forma como eu falo? O que quer dizer?” Ayaka olhou para Haruto, que inclinou levemente a cabeça, e disse: “Aquele... seu jeito educado demais de falar.”

“Seu jeito de falar é tão educado que parece um pouco distante, ou melhor, solitário.”

“Você quer que eu fale de maneira mais casual?”

“Sim. Somos colegas antes mesmo de fingirmos ser um casal, então quero que você fale comigo de forma mais normal.”

“Entendo...” Haruto levou a mão ao queixo e assentiu.

   A relação deles tinha começado como cliente e funcionário de serviços domésticos, então Haruto naturalmente usava linguagem formal com Ayaka.

   Mas, como ela disse, isso podia parecer um pouco distante.

“Então, devo falar com você como falaria com um amigo próximo?”

“Ah... hm...” Haruto inclinou a cabeça novamente diante da resposta um pouco hesitante de Ayaka.

“Hm? Isso está errado?”

“N-não, não está errado, mas... bem, estamos fingindo ser um casal, certo?”

“Certo.”

“Isso significa que, quando estivermos fingindo ser um casal, eu serei sua, certo?”

“É... É assim que funciona?” Haruto deu uma resposta vaga às palavras dela. Ayaka explicou com um tom levemente caloroso.

“Então, você não deveria falar comigo como falaria com apenas uma amiga. Deveria ser mais como... um pouco mandão? Algo um pouco mais firme e forte deixaria mais realista... eu acho.”

“E-Essa é... é essa sua preferência, Ayaka-san?” Haruto perguntou, um pouco confuso com o pedido.

   Então, com o rosto totalmente corado, Ayaka disparou às pressas:

“N-não é minha preferência nem nada! É só que, geralmente, no mundo, é assim que casais próximos parecem ser! S-só isso!”

“E-entendi...” Haruto forçou um sorriso um pouco tenso diante da explicação de Ayaka, que soava mais como uma desculpa.

   Para que um casal pareça íntimo, o namorado tem que falar de forma mandona.

   Honestamente, Haruto achava que isso não era um conhecimento geral nem de longe, mas ele se sentia hesitante em recusar o pedido dela.

   Essa prática de casal havia nascido da gentileza de Ayaka em acompanhar a mentira dele. Se eu recusasse o pedido dela agora, não estaria desconsiderando a boa vontade dela?

   Enquanto pensava nisso, Ayaka disse, parecendo um pouco ansiosa:

“É algo que você não gosta? Eu não vou te forçar se você não quiser, Haruto-kun.”

“Ah, não... Hum, que tipo de jeito de falar é esse ‘mandão’ que você quer dizer, Ayaka-san?”

   Quando Haruto perguntou isso, a expressão ansiosa de Ayaka mudou completamente, e seus olhos brilharam.

“Bom! Hum, por exemplo... ‘Chega mais perto’, dito de um jeito meio brusco enquanto me puxa pelo ombro, ou ‘Ela é minha’, me apresentando para os outros—”

“Uoa! Espera um minuto! Isso é um pouco repentino demais, ou melhor, é nível avançado... E também é completamente diferente da minha personalidade...”

“É mesmo?”

“Estou começando a me preocupar com a forma como você me vê, Ayaka-san...”

“Haruto-kun, quando estivermos sozinhos, me chame pelo primeiro nome sem honoríficos, okay?” Ayaka apontou o dedo indicador para Haruto, como se dissesse: “Nada disso!”

“Ah... é verdade.”

“Então, para começar, que tal tentar me chamar assim: ‘Ei, Ayaka’?” Parecia decidido na cabeça dela que Haruto adotaria um tom mandão, e ela apenas empurrava a conversa para frente.

“Você vai mesmo fazer isso?”

“Sim!” Vendo os olhos de Ayaka brilhando de expectativa, Haruto perdeu completamente a chance de recusar e abriu a boca, hesitante.

“...Ei, Ayaka.” A tentativa de Haruto em soar mandão saiu um pouco rápida, e Ayaka inclinou a cabeça, dizendo: “Hummm.”

“Talvez um pouco mais assertivo?”

“...Ei, Ayaka.”

“Um pouco mais.”

“Ei, Ayaka.”

“Só mais um pouco.”

“Ei, Ayaka.”

“Mais uma forcinha.”

“Ei! Ayaka!”

“...Okay, talvez.” As bochechas de Ayaka ficaram levemente coradas, e ela sorriu satisfeita.

   Em contraste, Haruto parecia exausto.

“Hum, sobre esse tom mandão, talvez possamos praticar aos poucos? Por agora, podemos começar com o tom casual de amigos próximos?”

“Mas você ficou estiloso agora há pouco, Haruto-kun.”

“...Não, por favor, vamos começar com o tom de amigos próximos.” O coração de Haruto balançou só um pouquinho com o elogio de Ayaka.

   No entanto, Haruto balançou a cabeça, pensando no futuro.

   Para ele, que se curvava profundamente pedindo por isso, Ayaka aceitou sua solicitação, embora parecesse um pouco decepcionada.

“Tudo bem. Então vamos praticar o tom mandão bem aos poucos, okay? Até lá, vamos usar o tom de amigo.”

   Haruto tinha esperado que o tom mandão fosse completamente esquecido, mas parecia que Ayaka não desistiria.

   Haruto sentiu um leve traço de ansiedade sobre a futura “prática de casal”.

   Mas Ayaka, sem prestar atenção aos sentimentos dele, rapidamente avançou a prática.

“Okay, a próxima coisa é...”

“Sim…?” Haruto sentiu uma leve cautela com o próximo comentário dela, especialmente depois do pedido inicial um tanto agressivo sobre um “tom mandão”.

“Mesmo que a gente tenha se conhecido como colegas de classe inicialmente, não faz tanto tempo assim que começamos a conversar de verdade, né?”

“É verdade.”

“Então, acho que deveríamos nos conhecer melhor primeiro.”

   Haruto suspirou de alívio com a sugestão surpreendentemente razoável.

   De fato, se fossem um casal, seria natural que se conhecessem bem.

“Certo, Ayaka, você está certa.”

“Viu? Então, vamos começar. Que tipo de garotas você gosta, Haruto-kun?” Ayaka se inclinou levemente para frente, parecendo intensamente interessada, e Haruto recuou um pouco.

“Q-Que tipo de garotas eu gosto?”

“Sim. Mesmo que seja só de mentira, vai ser mais fácil para você agir se a namorada estiver um pouquinho mais próxima do seu ideal, certo?”

“Não, você não precisa ir tão longe. Como eu disse antes, Ayaka, você já é muito encantadora.”

   Quando Haruto disse isso, Ayaka aproximou o rosto um pouco e sussurrou:

“Então, posso assumir que eu sou o tipo de garota ideal para você, Haruto-kun?”

“Ah, não... Isso, hum...” Haruto gaguejou e desviou o olhar, atrapalhado pela expressão ativa de Ayaka e seus olhos úmidos.

“M-Mulheres com sorrisos bonitos são encantadoras, eu acho.” Haruto disse, desviando o olhar e falando desesperadamente. Ayaka sorriu levemente e disse: “Hehe.”

“Entendi, Haruto-kun gosta de sorrisos. Aliás, você gosta do meu sorriso?”

“Bom, sim... Acho que o sorriso da Ayaka é encantador para qualquer garoto, não só para mim...”

“Hehe, obrigada.” Ayaka sorriu feliz, e Haruto respondeu de alguma forma, corando.

“H-Hum, que tipo de garotos você gosta, Ayaka?”

“Hã? Eu? Eu...” Depois de pensar um pouco, Ayaka olhou para Haruto suavemente e disse:

“Alguém que sabe fazer tarefas domésticas perfeitamente, ou que cozinha comida deliciosa, isso é um grande ponto positivo para mim.”

“...E-Eu entendo, vou lembrar disso...”

“É. Ah, Haruto-kun, você ainda não mudou seu jeito de falar nem um pouco.” Ayaka fez um biquinho, parecendo um pouco insatisfeita.

“Desculpa, quer dizer... Foi mal. É difícil mudar de repente.”

“Se você continuar falando assim, a sua Vó vai perceber que é mentira, sabia?”

“Desculpa... vou tentar melhorar imediatamente, Ayaka-san.”

“Ah, honoríficos de novo.” Ao ser apontado por Ayaka, Haruto fechou a boca por um instante, exalou levemente e então falou:

“Entendi. A partir de agora, vou tentar falar num tom mais casual.”

   Depois de dizer isso, Haruto levantou de repente o dedo indicador e continuou:

“Mas enquanto eu estiver fazendo tarefas, é trabalho, então vou falar como sempre falei. Pode ser?”

“Sim. É trabalho, então não tem jeito.” Ayaka assentiu, e então mostrou um sorriso muito feliz. Haruto perguntou ao ver a expressão dela:

“Por que você está tão feliz?”

“Hã? Ah, é que ver você falando casualmente é meio novo.” Ayaka tocou a própria bochecha com a mão, parecendo um pouco surpresa, como se não tivesse percebido que havia sorrido inconscientemente.

   Vendo a reação adorável de Ayaka, as bochechas de Haruto também coraram.

“Se você sorrir desse jeito toda vez que eu falar, a minha Vó vai desconfiar.”

“Eu tô sorrindo tanto assim?” Ayaka disse, dando tapinhas nas próprias bochechas com as duas mãos.

   Então, como se lembrasse de algo, Ayaka olhou para Haruto.

“No fim das contas, casais normais ficam sussurrando coisas românticas casualmente um para o outro, né?”

“Hã? Uh... eu não sei? Isso é... normal...?” Haruto negou gentilmente a afirmação dela, já que ela novamente trazia uma ideia nada padrão de como casais funcionavam.

   No entanto, Ayaka ignorou graciosamente a negação de Haruto e continuou:

“Quando um casal diz ‘Eu te amo’, é estranho ficar envergonhado ou corar, certo?”

“Não, isso não é estranho nem um pouco...”

“Mas, mas! A gente nunca sabe que situação pode surgir, então é melhor praticar, né?”

   Sussurrar coisas românticas na frente dos outros.

   Haruto queria desesperadamente evitar algo tão humilhante, mas Ayaka já estava totalmente preparada para praticar.

“E-Então. Eu vou dizer ‘Eu te amo’ para você, Haruto-kun, e você responde com ‘Eu também te amo’. Você não pode ficar envergonhado ou corar quando fizer isso, okay? Apenas diga casualmente, como se fosse parte de uma conversa diária normal entre um casal?”

   Ele acreditava que era importante colocar os sentimentos em palavras e transmiti-los à outra pessoa.

   Haruto não tinha objeções a isso.

   No entanto, dizer isso como se fosse conversa normal faria com que não fossem mais um casal normal, e sim um par de bobinhos grudentos.

   Esses pensamentos enchiam a mente de Haruto, mas antes que ele pudesse transmiti-los a Ayaka, ela já havia começado a prática.

“E-Então... E-Eu vou dizer, okay?” Ayaka disse, olhando para Haruto com olhos úmidos, talvez por vergonha.

   Então, depois de morder levemente o lábio, ela abriu a boca devagar.

“Haruto-kun... eu te amo.”

“!!” Um suspiro escapou dos lábios de Haruto.

   As bochechas coradas.

   Os olhos úmidos.

   A distância em que ele poderia tocá-la se estendesse a mão.

   Ela olhando diretamente para ele de tão perto, olhos fixos nos dele.

   A expressão de Ayaka — tão bonita e adorável que fazia parecer que havia sido esculpida por um deus. A palavra, como uma confissão, formada por seus lábios.

   A intensidade disso fez Haruto sentir, por um momento, como se seu coração tivesse parado.

“Ah, não, Haruto-kun! Não fique envergonhado!”

“Não, não, não! Isso é impossível!” Haruto negou a reclamação de Ayaka com todo o coração.

   Seria estranho não ficar envergonhado com aquilo.

   As palavras de Ayaka agora pareciam tentar forçar um sorriso nos lábios de Haruto, como mágica.

“Além disso, Ayaka, o seu rosto também está vermelho!”

“I-Isso é porque... é... é a primeira vez que eu... digo ‘eu te amo’ para um garoto...”

“Guh...!” Haruto não pôde deixar de soltar uma risada estranha diante da fofura de Ayaka, que olhava para baixo e falava timidamente.

“O-Okay, é a sua vez agora, Haruto-kun!” Ayaka pressionou Haruto, que tentava desesperadamente voltar a ter uma expressão séria.

“Eu tenho mesmo que fazer?”

“S-Sim, tem que fazer! Se você não praticar direito, a mentira vai ser descoberta!” Haruto disse isso, agarrando-se a uma última esperança, mas Ayaka negou imediatamente.

   Mesmo que não fizessem essa prática, era altamente improvável que a mentira sobre o relacionamento fosse descoberta.

   Pelo contrário, Haruto não conseguia tirar da cabeça a sensação de que, se dominassem essa prática, surgiria um casal estranho — especificamente, um casal de bobos extremamente apaixonados.

   Haruto pressionou a mão contra o canto dos lábios, ainda presos num sorriso, e deu uma espiada sutil na expressão de Ayaka.

   Dizer o que ela disse agora deve ter sido bastante embaraçoso para ela também, já que seu rosto estava mais vermelho do que ele já tinha visto.

   Ela foi tão longe para dizer aquilo; ele não podia simplesmente evitar dizer também.

   Decidido, Haruto respirou profundamente algumas vezes, discretamente, depois contraiu os músculos do rosto, forçando uma expressão séria.

   Talvez por estar reprimindo um sorriso o máximo possível, seus olhos naturalmente ficaram intensos.

“...Ayaka.” Quando ele chamou o nome dela, ela pareceu surpresa e o encarou fixamente.

“Eu também amo você, Ayaka.” No momento em que disse isso, Haruto sentiu sua temperatura corporal disparar.

   Talvez este fosse o estado que chamavam de “sentir o rosto pegando fogo”.

   Ele sentia que poderia fritar um ovo na própria testa naquele instante.

   Sofrendo dessa vergonha avassaladora, Haruto ficou ansioso pela completa falta de reação de Ayaka.

   No instante em que ouviu as palavras de Haruto, Ayaka congelou totalmente, olhos escancarados.

“Ayaka? Oi? Ayaka? Ayaka-san?” Haruto chamou o nome dela várias vezes.

“—! O-O que foi, Haruto-kun?” Ayaka piscou várias vezes, voltando à realidade assustada com a voz dele.

“Hum, como foi? Pareceu algo que um casal normal diria, Ayaka?”

“Ah... hum... Desculpa, acho que eu meio que apaguei por um instante.”

“Hã?!... Sério?” Haruto ficou boquiaberto — suas palavras mais embaraçosas de toda a sua vida, ditas com enorme vergonha, aparentemente nem haviam sido lembradas.

“E-Eu sinto muito... Então, hum... você pode dizer de novo?”

“De jeito nenhum, de jeito nenhum, de jeito nenhum! Eu morreria de vergonha se fizesse isso!” Haruto recusou, balançando as mãos. Ayaka juntou as mãos e implorou.

“Por favor! Só mais uma vez! Pode ser?” Ayaka inclinou as mãos unidas levemente, colocou o rosto entre elas e perguntou com um olhar para cima.

“...” Com o gesto adorável dela, Haruto quase assentiu, mas conseguiu se segurar.

   Vendo que Haruto não cederia, Ayaka fez uma sugestão.

“Okay. Se Haruto-kun disser mais uma vez, eu também vou dizer ‘Eu te amo’ mais uma vez. Não é justo se você disser duas vezes e eu só disser uma, né?”

“Não, esse não é o problema...”

“Não é?”

“...Tudo bem... Okay, eu vou dizer mais uma vez, mas ouça direito desta vez, okay?”

“Sim, eu estou ouvindo direitinho.” Ayaka assentiu repetidamente, e Haruto, depois de respirar fundo mais uma vez, falou com determinação.

“Ayaka, eu te amo.”

“Hah...” No momento em que ouviu as palavras de Haruto, um som, como um suspiro ou uma respiração, escapou dos lábios de Ayaka.

   Ela abaixou o rosto com as bochechas completamente vermelhas e, depois de um tempo, levantou o rosto e disse para Haruto com um sorriso envergonhado:

“Eu também te amo muito, Haruto-kun!”

   O processo de pensamento de Haruto foi completamente levado embora no momento em que a declaração de Ayaka foi entregue com uma expressão tímida.

   Em um canto de seu cérebro, que não estava funcionando normalmente, Haruto não pôde deixar de pensar por um momento.

     Talvez ser um casal de bobos apaixonados não seja tão ruim assim.

 

✦ ✦ ✦

 

   No dia seguinte à “prática de casal” de Haruto e Ayaka.

   O céu ainda estava antes do amanhecer, mas Haruto acordou.

   Ele olhou para o relógio ao lado de seu travesseiro e, percebendo que era cedo demais para estar acordado, fechou as pálpebras novamente, tentando voltar a dormir. No entanto, sua mente estava completamente desperta, e ele não sentia que conseguiria dormir de jeito nenhum.

   Resignado, Haruto, que havia acordado em uma hora extremamente cedo, sentou-se à sua escrivaninha para fazer seus estudos matinais de sempre, escrevendo diligentemente com seu lápis mecânico no caderno.

   No entanto, a concentração que ele normalmente mantinha não durou muito hoje; ela se rompeu de forma estranhamente rápida.

"Droga... não consigo me concentrar..." murmurou Haruto, enquanto os acontecimentos de ontem se repetiam em sua mente desde o momento em que acordou.

   As palavras de Ayaka, ditas com um sorriso radiante.

     “Eu também te amo muito, Haruto-kun!”

  Só de se lembrar, Haruto involuntariamente abria um sorriso.

"Droga... ela é fofa demais..." Haruto coçou a cabeça com uma mão, tentando se distrair do coração acelerado.

   Recordando a prática de casal de ontem, em que eles disseram “eu te amo” duas vezes cada, Haruto pensou.

     Aquilo definitivamente não é normal.

   Ayaka havia dito que casais normais trocam expressões de amor de forma natural, mas ele tinha certeza de que apenas casais juntos há mais de meio século, como pássaros do amor, ou casais fictícios, poderiam fazer isso.

   Mesmo que repetissem a prática de ontem todos os dias por um ano, Haruto tinha certeza de que ainda ficaria sorrindo.

"De onde vêm as ideias nada convencionais da Ayaka sobre casais normais?"

   Falar com um tom mandão e sussurrar palavras doces casualmente.

     Se aquilo fosse normal para casais, a maioria dos casais da vida real pareceria distante e fria, não?

"Agora que penso nisso, a estante de livros no quarto da Ayaka..."

   Haruto se lembrou da estante encostada na parede do quarto dela e da forma como os livros estavam organizados.

   Ele não tinha olhado de perto quais livros estavam lá, mas se lembrava de muitas lombadas vermelhas, rosas e de cores claras.

"Talvez... talvez sejam todos romances e mangás shoujo..."

   Então, Haruto se lembrou de Ayaka dizendo que nunca tinha tido um namorado antes.

   Ele não sabia se ela tinha alguma experiência amorosa.

   Mas, se ela nunca teve um namorado, como ela determinava o que era normal para casais?

"Será que ela está baseando isso em romances e mangás?"

   Era possível.

   Pelas interações até agora, Haruto sentia que ela era um pouco ingênua e também bem feminina.

   Dado o jeito de Ayaka, havia uma grande possibilidade de ela estar julgando o que era normal para casais baseada em obras de ficção.

"Se esse for o caso, talvez não seja bom deixar ela tomar a iniciativa na ‘prática de casal’ daqui pra frente..."

   Nesse ritmo, era muito provável que ela pedisse coisas como “kabedon” ou “chin lift.” Ela poderia até sugerir fazer um “abraço por trás” eventualmente.

[Almeranto: “Kabedon” = Pressionar alguém contra a parede com a mão na parede; “Chin lift” = Elevar o queixo de alguém.]

   Essa prática de casal era algo que Ayaka havia sugerido para ir junto com a mentira de Haruto.

   Ele estava muito grato e apreciava que ela fosse tão longe por causa da mentira dele.

   Ele se sentia mal por dar instruções a Ayaka, que estava se esforçando tanto para agir como sua namorada. No entanto, uma prática de casal baseada em ficção era algo que o coração de Haruto simplesmente não conseguia suportar.

"Em primeiro lugar, é pedir demais, tudo isso, de alguém que não é minha namorada de verdade. E praticar ser um casal com um cara que você não gosta deve ser doloroso..."

   Então Haruto se lembrou do sorriso radiante de Ayaka de ontem.

     As mulheres sorriem daquele jeito para caras que elas não gostam?

   Uma pergunta surgiu de repente na mente de Haruto.

   Durante a prática de casal, Ayaka parecia envergonhada, mas não parecia infeliz. Na verdade, ela participava ativamente da prática.

"Alguém vai tão longe por alguém que não gosta... não, talvez a Ayaka iria..."

   Na escola, Ayaka não parecia deixar os garotos se aproximarem, mas ela era muito popular entre as garotas.

   O fato de ela estar sempre cercada por amigas indicava sua boa natureza.

"Ayaka parece ser alguém que não consegue recusar pedidos."

   Talvez ela estivesse apenas tentando ajudar seriamente com a mentira dele.

   Talvez ela estivesse pensando sobre isso à sua própria maneira e tentando encarar a prática de casal por esse motivo.

   Pensando assim, o peito de Haruto doeu por causa da mentira que contou.

"No final das contas, seria melhor apenas ser honesto com a Vó e acabar com essa mentira logo, não seria?" disse Haruto em voz alta.

   No entanto, ele também percebeu que uma parte de seu coração não queria mudar o relacionamento atual com Ayaka.

   Se essa mentira desaparecesse, Ayaka não seria mais sua suposta namorada...

"Ah, sério! Eu sou o pior... O que eu estou pensando..." Haruto passou as duas mãos pelo cabelo em frustração, caindo em autoaversão por sua tolice, sabendo que essa situação de relacionamento falso estava errada, mas ainda assim não querendo mudá-la.

   Ele havia pensado tanto que seus pensamentos ficaram embaralhados. Haruto recostou-se profundamente na cadeira e olhou vagamente pela janela.

   O céu, que estava escuro quando ele acordou, tinha ficado bem claro sem que ele percebesse.

"Haah, hora de fazer o café da manhã..." Já estava quase na hora de sua avó acordar.

   Haruto fechou o livro, no qual não tinha conseguido avançar muito, levantou-se da cadeira, espreguiçou-se e saiu do quarto.

   Depois de terminar o café da manhã com sua avó, Haruto voltou ao quarto para continuar os estudos que não conseguiu fazer naquela manhã.

   No entanto, o ar-condicionado de seu quarto ainda estava com problemas e, com o sol alto e a temperatura subindo, ele achou difícil se concentrar.

   Já estando inquieto por causa de Ayaka, Haruto rapidamente desistiu dos estudos.

   Ele pegou o smartphone que havia largado sobre a mesa, trocou algumas mensagens em um aplicativo de conversa e depois se preparou para sair.

 

✦ ✦ ✦

 

"Caramba, comida paga pelos outros tem o melhor gosto!" O melhor amigo de Haruto, Tomoya Akagi, deu uma grande mordida no enorme hambúrguer que Haruto tinha comprado para ele, com um sorriso radiante.

"É um agradecimento por você ter buscado a minha Vó no hospital. Não se segure, peça o que quiser."

"Sério?! Então posso adicionar uma porção grande de batatas?"

"Vai em frente." Haruto, incapaz de se concentrar por estar preocupado com Ayaka, tinha ido a uma hamburgueria com Tomoya.

   Haruto estava pagando tudo ali como agradecimento a Tomoya, que havia ido buscar sua avó quando Haruto estava de cama com um resfriado.

"Ela estava muito agradecida também. Também disse que quer que você vá lá em casa algum dia e que vai fazer o seu ohagi favorito."

"Ooooh!! Isso me deixa realmente animado!! Eu vou na sua casa de novo algum dia." disse Tomoya, parecendo genuinamente feliz, e tomou um longo gole de seu refrigerante.

   Depois disso, Haruto e Tomoya comeram seus pedidos e trocaram conversas casuais.

   Recentemente, Haruto tinha estado ocupado com o trabalho doméstico na casa dos Tōjō, ido ao cinema com Ayaka e visitado o parque floresta dos animais, então fazia um tempo desde a última vez que ele tinha visto Tomoya.

   Seu melhor amigo olhou para Haruto, que estava comendo um hambúrguer recheado de queijo, com um sorriso malicioso.

"A propósito, senhor Haru. Algum progresso com a Tōjō-san desde então?"

   Ao ouvir as palavras de seu melhor amigo, os ombros de Haruto estremeceram, e ele parou de comer o hambúrguer.

"Hmm? Essa reação é um sinal de progresso? Hmm?"

"Progresso... Não, isso não é progresso... Nada em particular."

[Almeranto: Ele me lembra alguém que começa com I e termina com tsuki. | Del: Sip.]

“É sim! Que reação é essa?! Isso me deixa super curioso!” Tomoya apontou a batata frita que estava prestes a comer para Haruto de forma enfática.

   Em resposta, Haruto fez uma expressão problemática, como se estivesse decidindo se contaria ou não.

“Não... Desculpa, eu ainda não organizei direito meus sentimentos... Eu não posso falar sobre isso ainda.”

“Ohh, você é um desses...” Tomoya lentamente levou a batata frita que tinha apontado para Haruto à própria boca, lançando-lhe um olhar escrutinador.

   Como se quisesse escapar do olhar de seu melhor amigo, Haruto mudou o assunto de forma ostensiva.

“Aliás, os ensaios da banda estão indo bem?”

   Vendo que Haruto tinha entrado completamente no modo defensivo, Tomoya suspirou uma vez com um “Haa”, e então respondeu.

“Claro que estão indo bem! ...Ou eu gostaria de dizer isso, mas ei Haru, escuta só...”

   Ele sentiu intuitivamente, pela expressão aflita de Tomoya, que aquilo seria problemático. Olhou para o lado, percebendo que tinha escolhido o tópico errado, e estendeu a mão para pegar as batatas fritas de Tomoya.

“Ei! Não me ignore! Seu melhor amigo está com problemas!”

“Desculpa, Tomoya. Eu não posso te ajudar. Foi mal.”

“Não, eu ainda nem falei nada!” Ignorando seu amigo protestando, Haruto levou as batatas fritas à boca com determinação singular.

   Vendo isso, Tomoya agarrou o saco de batatas e protestou em voz alta: “Você vai acabar com minhas batatas!!”

“Eu fui buscar a sua avó por você, não fui? Você vai ignorar os problemas do seu melhor amigo? Não vai, né? Porque o Haru é meu melhor amigo, certo?”

“...Tá bom! Tá bom! O que está te incomodando?” Encurralado por Tomoya ter acertado um ponto sensível, Haruto cedeu e concordou em ouvir seu problema.

“Você sabe que eu estou em uma banda com caras de outras escolas?”

“Sim.”

“E o cara que é nosso vocalista, ele vai para uma escola particular realmente incrível, mas parece que eles têm regras muito rígidas lá.”

“Hm. Isso é um problema?”

“Problema enorme, enorme mesmo. Aquela escola proíbe atividades de banda como a nossa.” Tomoya disse com um suspiro, os ombros caindo.

“Aparentemente, se o vocalista for pego pela escola, no pior caso, é expulsão.”

“Sério? Expulsão só por estar em uma banda? Isso é rígido demais.” Haruto pareceu um pouco surpreso, e Tomoya suspirou novamente, “Haah.”

“Bandas como a nossa, sabe, são uma presença indesejada para pessoas rígidas. Eles têm essa imagem de que fazemos barulho alto e caótico, fumamos, bebemos e agimos como delinquentes.”

“Não, ninguém pensa assim hoje em dia.”

“Você se surpreenderia.” Dizendo isso, Tomoya terminou a bebida restante com uma expressão melancólica, e então pronunciou uma frase teatral como: “Nosso som sempre foi oprimido ao longo da história.”

“Bom, parece difícil, mas aguenta firme.” Haruto ofereceu palavras de encorajamento de forma casual, e Tomoya olhou para ele de forma afiada.

“Este verão, nossa banda tem trabalhado duro treinando para a apresentação no festival escolar!”

“Oh, uh.” Haruto respondeu, um pouco pressionado pelo tom repentinamente apaixonado de Tomoya.

“E apesar de tudo isso! Você não acha que seria lamentável se não pudéssemos nos apresentar no dia do festival escolar porque o vocalista está ausente?”

“B-Bem, isso é...”

“Então, se o vocalista não estiver lá, então, Haru, eu estou contando com você.” Tomoya sorriu brilhantemente e levantou o polegar para Haruto.

   Haruto lançou ao seu melhor amigo um olhar desanimado.

“...Tudo bem, como último recurso, se realmente não houver outra escolha, então eu vou considerar.”

“Heh heh, Haru, você é tão gentil, não é?” Tomoya sorriu amplamente, e Haruto respondeu brevemente, “Cala a boca,” alcançando novamente as batatas fritas de Tomoya.

   Haruto mastigou lentamente as batatas fritas e então falou casualmente ao seu melhor amigo.

“Ei, Tomoya.”

“Hm?”

“Posso te pedir um conselho também?”

“Oh? O que é?” Os olhos de Tomoya brilharam, e ele se inclinou para a frente. Haruto pensou por um momento e então começou a falar lentamente.

“Hm... Quando você tinha uma namorada... o que vocês faziam quando estavam sozinhos?”

“Hã? O que é isso? O que você quer dizer?” Tomoya olhou confuso com a pergunta de Haruto.

“Não, quero dizer. Você já teve uma namorada antes, certo, Tomoya?”

“Sim.”

“Quando teve, como você interagia com sua namorada?”

“Como eu interagia... Tipo, a gente só saía em encontros?” Sem conseguir entender a intenção da pergunta de Haruto, Tomoya respondeu hesitante.

   Ouvindo as palavras do amigo, Haruto assentiu levemente e disse: “Entendi.”

“Certo, encontros...” De fato, casais saem em encontros.

   Haruto, que estava preocupado que continuar a prática de casal no espaço fechado do quarto de Ayaka certamente os levaria diretamente ao caminho de um casal bobo e meloso, assim, decidiu que convidaria Ayaka para um encontro em breve.

   O perigo estava em fazer a “prática de casal” no espaço fechado do quarto de Ayaka.

   Porém, se eles praticassem ser um casal em um encontro, estariam do lado de fora e cercados por pessoas, então não poderiam fazer nada muito ousado.

   Eles deveriam ser capazes de praticar um relacionamento puro, adequado e modesto.

“Obrigado, Tomoya. Isso foi realmente útil.”

“Oh, uh... De nada? Espera, você está... talvez...” Tomoya lançou um olhar investigativo para ele, e Haruto começou a enfiar batatas fritas na boca de novo, de maneira determinada.

“Para! Você vai acabar com minhas batatas!!” A voz protestante de Tomoya ecoou pelo movimentado restaurante fast-food durante o horário de almoço.

 

✦ ✦ ✦

 

   Era uma tarde de verão, e o forte brilho do sol entrava pelas janelas do quarto. No entanto, embora as janelas deixassem entrar a luz do sol, o calor não era muito sentido.

   Como esperado, talvez as janelas de uma mansão luxuosa fossem de alta performance.

   Haruto pensou tais coisas, olhando para fora com um pouco de escapismo.

   Ayaka, com olhos brilhantes, falou com ele.

“Ei, Haruto-kun? Você está ouvindo?”

“Ah, desculpa... Eu estava pensando em outra coisa. Pode repetir?”

“Casais normais muitas vezes dão travesseiro de colo um para o outro, eu acho.”

“É... É mesmo?” Seguindo o ritmo da última vez, a ideia não convencional de Ayaka sobre o que era normal para casais estava totalmente em ação novamente hoje.

   Aparentemente, hoje era travesseiro de colo.

   Ele não estava dizendo que não existiam casais que davam travesseiro de colo um ao outro. Provavelmente existiam sim.

   Porém, quanto à frequência, Haruto não conseguia concordar com a opinião de Ayaka.

   Ainda assim, parecia que Ayaka estava convencida de que casais no mundo todo davam travesseiro de colo constantemente.

“Isso mesmo! Então, vamos praticar travesseiro de colo hoje!” Ayaka sugeriu a Haruto, parecendo muito motivada, com um som determinado, mas também contendo bastante constrangimento.

“Hum... se eu puder ser tão ousado em perguntar... isso é prática para garantir que a minha Vó não descubra a mentira, certo?”

“Sim, exatamente.”

“Então, não vamos precisar dar travesseiro de colo na frente da vovó, então eu me sinto mal pedindo para praticar tanto assim...” Haruto tentou conduzir a conversa de forma sutil para evitar a prática.

   No entanto, Ayaka, entendesse ou não sua intenção, tentou forçar a prática do travesseiro de colo.

“Mesmo que não façamos isso na frente da avó, eu acho que existe uma atmosfera de casal que só pode ser alcançada fazendo essas coisas regularmente. Ter isso tornaria tudo mais realista, certo?”

“Bem... Isso... Certamente tornaria mais realista.” Haruto assentiu sem querer diante da explicação de Ayaka.

     Ela é uma perfeccionista?

   Ayaka estava tentando incorporar completamente o papel de namorada de Haruto.

   Talvez ela fosse surpreendentemente boa como atriz.

   Ayaka falou com Haruto, que pensava tais coisas, mexendo-se um pouquinho de forma tímida.

“E-Então... qual de nós vai deitar primeiro?”

“Ah... tudo bem, então eu serei o travesseiro primeiro.” Haruto, que acabou concordando em praticar o travesseiro de colo, escolheu ser o travesseiro primeiro.

   Comparado a deitar a cabeça na coxa de Ayaka, ele sentiu que poderia suportar melhor ser o travesseiro.

   Eventualmente, eles iriam trocar, e ele teria que receber um travesseiro de colo dela, mas ele ainda não estava preparado mentalmente para isso.

“Certo, entendi. Um... Ah, é mais fácil dar travesseiro de colo se você estiver sentado em algo em vez de apenas em almofadas, certo?”

“De fato, mas não há lugares onde possamos sentar juntos...” O quarto de Ayaka não tinha sofá ou algo parecido. Portanto, havia apenas um lugar onde eles podiam se sentar juntos.

   Quando Haruto olhou para aquele lugar, Ayaka olhou para o mesmo ponto.

“Então... deveríamos ir para a cama por um momento?”

“...Certo... Tudo bem.” Haruto assentiu de forma hesitante e então se moveu em direção à cama.

   Ayaka o seguiu em silêncio.

“...”

“...E-Então, travesseiro de colo... vá em frente.” Depois que os dois sentaram lado a lado na cama, Haruto ofereceu sua coxa para Ayaka.

“U-Uh... C-Com licença...” Dizendo isso, Ayaka lentamente e hesitante pousou a cabeça na coxa de Haruto.

“...Como está?” Como Ayaka estava deitada com a cabeça virada para o lado oposto, Haruto só podia ver a parte de trás de sua cabeça e não conseguia ver sua expressão.

“...Pode estar um pouco mais duro do que eu esperava...” Ayaka murmurou suavemente.

“Desculpa. Eu estava tensionando minha perna...” Parecia que sua coxa tinha ficado rígida devido ao nervosismo, então Haruto fez um esforço consciente para relaxá-la.

“Ah, ficou um pouco mais macia.” Dizendo isso, Ayaka moveu a cabeça levemente, esfregando um pouco, procurando um ponto confortável.

   Cada vez que a cabeça de Ayaka se movia sobre sua coxa, Haruto sentia uma estranha sensação de cócegas e olhava para cima.

   Por um tempo, Ayaka moveu a cabeça levemente, mas eventualmente pareceu encontrar um lugar bom e parou.

“Como está? Meu travesseiro de colo.”

“...É. Pode ser bom.” Ele ainda não conseguia ver a expressão de Ayaka enquanto ela respondia, mas podia imaginar seus sentimentos pelo fato de que sua orelha, visível por entre o cabelo, estava vermelha brilhante.

   Haruto, por sua vez, estava agora em um estado em que seu coração batia como um sino acelerado.

   Ele lentamente abaixou o olhar que havia mantido conscientemente voltado para cima.

   E no momento em que viu a cabeça de Ayaka descansando sobre sua coxa em seu campo de visão, foi tomado por um impulso.

     Eu quero acariciar a cabeça dela...

   A cabeça bem-formada de Ayaka.

   Seu cabelo sedoso se espalhava sobre a coxa de Haruto, brilhando em tons de linho sob a luz que entrava pela janela.

   Passar os dedos por aquele cabelo provavelmente seria muito agradável.

“...Ayaka.”

“Hm?”

“...Não, deixa pra lá.”

“Hã? O que foi? Se tiver algo, pode dizer sem hesitar?”

“Bem, hum... Eu posso... acariciar sua cabeça?” Depois de uma pequena pausa, Ayaka respondeu à pergunta de Haruto.

“...Sim, tudo bem.” Tendo recebido permissão, Haruto lentamente estendeu a mão em direção à cabeça de Ayaka.

   No momento em que a mão de Haruto tocou nela, uma leve vibração estremecida foi transmitida para sua coxa.

“Se você não gostar, me avise na hora e eu paro.”

“...Não, tudo bem. Eu não... não desgosto.” O coração de Haruto disparou com a resposta de Ayaka, e ele acariciou sua cabeça gentilmente.

   O cabelo macio e sedoso de Ayaka deslizava suavemente pela palma da mão de Haruto.

   A sensação era extremamente agradável, e Haruto acariciou a cabeça de Ayaka de forma suave e lenta.

“Como é que está?”

“Faz um pouco de... cosquinha... mas... é muito... confortável.” A orelha de Ayaka, visível por entre seu cabelo, estava ainda mais vermelha do que antes de ele começar a acariciar sua cabeça.

   Pelos minutos seguintes, Haruto acariciou a cabeça de Ayaka enquanto ela permanecia deitada em seu colo.

“Haruto-kun... devemos trocar... logo?”

“Ah, sim. Certo.” A sensação de acariciar a cabeça de Ayaka era tão confortável que Haruto havia perdido um pouco a noção do tempo.

   Ayaka, que havia se erguido da coxa de Haruto, olhou para ele ainda com o rosto levemente abaixado.

“Agora, Haruto-kun, você deita.”

   Ao dizer isso, Ayaka estava não apenas com o rosto, mas também com o pescoço completamente corado.

   Parecia que receber um colo e ter sua cabeça acariciada havia lhe causado bastante vergonha.

   Sentindo um pouco de culpa, Haruto inclinou a cabeça em direção a Ayaka.

“Desculpa, eu me empolguei e acabei até acariciando sua cabeça.”

“N-Não, está totalmente tudo bem! Além disso, eu vou poder acariciar a cabeça do Haruto-kun também!” Ayaka balançou as mãos vigorosamente, seu rosto vermelho como um tomate. “T-tudo bem… Eu acariciar sua cabeça também?”

“Bem... eu acariciei tanto sua cabeça que agora não posso recusar, né?” Haruto forçou um sorriso torto para esconder a vergonha.

   Com essas palavras, Ayaka sorriu feliz e deu leves batidinhas na própria coxa.

“Sim, vá em frente.” Convidado de maneira inocente por Ayaka, Haruto lançou um rápido olhar para sua coxa.

“Talvez minha cabeça seja pesada demais e suas pernas fiquem dormentes, então talvez seja melhor não—”

“Está totalmente tudo bem. Sim, vá em frente.” Ayaka interrompeu as palavras de Haruto com um sorriso radiante.

   Por trás daquele sorriso gentil, Haruto sentiu claramente a pressão dizendo: “Você não vai escapar.”

“...T-Tudo bem... com licença.”

“Sim, seja bem-vindo.” Haruto se deitou ao lado de Ayaka, depois abaixou lentamente a cabeça e a repousou sobre a coxa dela.

“...Está pesado?” Depois de apoiar a cabeça por um tempo, Haruto perguntou a Ayaka.

“Não... está tudo bem. E você, Haruto-kun?”

“Uh... É bom.” A primeira experiência de colo de Haruto em toda sua vida.

   E ainda por cima, vinda de Ayaka, considerada a garota mais bonita da escola.

   Haruto, um garoto do ensino médio no auge da puberdade, sentia uma mistura de vergonha, mas a maior parte de suas emoções era tomada por algo parecido com felicidade.

   No entanto, embora houvesse sem dúvida felicidade, se perguntassem se o colo em si era confortável, uma pequena dúvida surgia.

“Tem certeza de que não está pesado? Suas pernas não estão ficando dormentes?”

“Nada disso, está totalmente bem.” Haruto se preocupava o tempo todo com as pernas de Ayaka.

   A coxa de Ayaka era, de fato, maravilhosamente macia e convidativa, mas quando ele repousava a cabeça sobre ela, afundava mais do que ele imaginava, deixando-o ansioso sobre bloquear a circulação de sangue dela.

   Ele não sabia quanto peso podia colocar, e ao tentar sustentar a cabeça de forma estranha, seu pescoço começava a doer um pouco.

   Quando Haruto começou a achar que, se continuasse assim, seu pescoço ficaria rígido, Ayaka falou com ele lá de cima.

“Ei... posso acariciar sua cabeça?”

“Ah, sim... Vá em frente.” Quando Haruto respondeu, as pontas dos dedos de Ayaka, levemente frias, se entrelaçaram suavemente em seu cabelo.

“Haruto-kun, seu cabelo é bem macio, né?”

“É mesmo?”

“Sim, acho que acariciar sua cabeça pode virar hábito.”

“...Ter minha cabeça acariciada é meio embaraçoso, então se possível, preferia que não virasse um hábito...”

“Ehhh~”

   Haruto forçou um sorriso torto diante da voz extremamente decepcionada de Ayaka.

   Se ela acariciasse sua cabeça com frequência, ele provavelmente ficaria careca de tanta vergonha.

   Enquanto Haruto pensava nisso, Ayaka colocou suavemente a mão na lateral de sua cabeça e disse:

“Haruto-kun, você não está um pouco tenso?”

“Hã? Ah... eu estava pensando que minha cabeça poderia estar pesada.”

“Como eu disse antes, não está nada pesada, então relaxa, tá? Está tudo bem de verdade. Pode relaxar mais, por favor?”

“E-É mesmo?... Certo... então...” Seguindo as palavras de Ayaka, Haruto, embora hesitante, relaxou seu corpo aos poucos.

   E depois de relaxar completamente e deixar todo o peso da cabeça sobre a coxa de Ayaka, Haruto confirmou outra vez:

“Não está pesado? Você está mesmo bem?”

“Sim. Estou bem.” Quando Haruto disse isso, olhando Ayaka pelo canto dos olhos, ela o fitava com um sorriso caloroso.

   Vista daquele ângulo, a partir de sua coxa, Ayaka parecia ainda mais fofa do que o normal para Haruto, e ele desviou o olhar rapidamente.

   Ayaka soltou uma risadinha suave diante da reação de Haruto.

   E então, ela começou a acariciar sua cabeça novamente.

   Ayaka acariciava sua cabeça repetidamente, com toques gentis.

   A sensação da mão dela era muito agradável e, ao mesmo tempo, uma quantidade igual de autoconsciência aflorava.

   Haruto respirou lenta e profundamente, tentando manter a compostura.

   Então, Ayaka tomou uma atitude que abalou fortemente seu coração.

“Ah, Haruto-kun, você tem orelhas de boa sorte.”

   Dizendo isso, Ayaka moveu a mão que acariciava sua cabeça e beliscou suavemente o lóbulo da orelha de Haruto, apertando de maneira leve como se estivesse apreciando o toque.

“—?!” Tendo quase nenhuma experiência de alguém tocando seu lóbulo da orelha, Haruto estremeceu involuntariamente com a sensação desconhecida.

“Ah, desculpa. Fez cócegas?”

“Não... não fez cócegas, mas...”

“Então, posso tocar mais um pouco?”

“...Tudo bem, mas é tão bom assim de tocar?” Haruto respondeu, tropeçando um pouco nas palavras, à Ayaka, que perguntava quase implorando.

“Sim! É maravilhoso!” Ayaka respondeu com um sorriso extremamente radiante, e Haruto, incapaz de recusar, continuou silenciosamente permitindo que seu lóbulo fosse gentilmente apertado.

   Então, Ayaka, que estava tocando o lóbulo da orelha de Haruto sem demonstrar qualquer sinal de tédio, deixou escapar um comentário súbito.

“De alguma forma... a orelha do Haruto-kun... está começando a parecer deliciosa...”

“...Não morda, tá?”

“Hã? E-Ehm... Eu... eu não iria tão longe ainda...” Um sentimento de alerta tomou conta de Haruto, imaginando se aquele “ainda” significava que ela eventualmente morderia.

   Antes que isso acontecesse, ele precisava corrigir a trajetória dessa prática de casal, tirando-a do caminho de casal meloso e apaixonado e colocando-a de volta no caminho de um casal puro, correto e modesto.

   Enquanto recebia o colo de Ayaka, Haruto gravou esse pensamento profundamente em seu coração.

 

 

 

Traduzido por Moonlight Valley

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