Volume 2
Capítulo 4: Mentiras e Seus Verdadeiros Sentimentos
Ōtsuki Haruto
Em quarto no hospital geral. Haruto estava diante de um médico de jaleco branco.
“É insolação.”
“...Haa, insolação, huh?” Ouvindo o diagnóstico, Haruto deixou escapar um pequeno suspiro de alívio.
“Tem estado extremamente quente nos últimos dias.”
“Um... Há algum outro problema?”
“Nenhum em particular por enquanto. Ela já recobrou a consciência, então acho que ficará bem. Porém, como sua avó é idosa, para garantir, vamos deixá-la internada por um dia amanhã.”
“Sim, por favor.”
Depois disso, Haruto recebeu várias explicações, fez uma reverência ao médico e deixou a sala de consulta. Em seguida, dirigiu-se ao quarto de hospital de sua avó.
“Vó, a senhora está bem?” Haruto perguntou, sentando-se na cadeira redonda ao lado da cama onde sua avó estava deitada. Ela olhou para Haruto com uma expressão de desculpas.
“Desculpe, Haruto, eu fiz você se preocupar.”
“Poxa, Vó. Honestamente, achei que meu coração fosse parar.”
“Desculpe.” Depois de acompanhar Ayaka até em casa e voltar, Haruto encontrou sua avó caída na cozinha e, em total pânico, chamou uma ambulância. Na ambulância, durante o transporte de emergência, Haruto, tomado pela ansiedade, segurava a mão da avó e desesperadamente continuava a rezar por sua segurança.
“A senhora é a única família que me resta, Vovó.” Os olhos de Haruto, ao dizer isso, tremiam de ansiedade. Sentindo o coração do neto, sua avó apertou suavemente a mão dele.
“Está tudo bem, ainda estou cheia de energia.”
“Mesmo?”
“Com certeza. Eu não vou deixar o Haruto sozinho ainda.”
“Tá...” Às palavras da avó, a expressão de Haruto era uma mistura de alegria e tristeza.
“Que tipo de cara é essa?” Sua avó riu, aprofundando as rugas no rosto. “Se eu deixasse o Haruto sozinho agora, seu pai e sua mãe, e também seu avô, ficariam bravos comigo no outro mundo.” A avó colocou a outra mão sobre a mão de Haruto que estava segurando e continuou, acariciando-a gentilmente. “Além disso, você mesmo disse antes, não disse? Que me apresentaria uma namorada extremamente fofa. Até eu ver essa garota, eu não poderia descansar em paz nem mesmo se morresse.”
“Vó...” O coração de Haruto foi profundamente abalado ao ver sua avó acreditando e esperando pelas palavras que ele havia dito de brincadeira, logo após as férias de verão começarem. Para Haruto, que tinha perdido os pais quando era pequeno e o avô quando entrou no ensino fundamental II, sua avó era sua única família. Ele queria tranquilizá-la. Queria fazê-la feliz. Queria atender às suas expectativas.
Com esse sentimento tão forte, a boca de Haruto se abriu e palavras saíram por conta própria.
“Na verdade... Eu... Eu arrumei uma namorada...” Pensando demais em sua avó, uma mentira escapou de seus lábios.
“Hoje, na verdade... eu estava... saindo com essa namorada.” As mentiras de Haruto, que ele não conseguia parar mesmo se quisesse. Contudo, sua avó não duvidou que o neto estivesse mentindo e seu rosto se iluminou instantaneamente.
“Oh meu Deus! É mesmo?! Seria a garota com quem você foi ver um filme antes?”
“Eh? ...Ah, ah, sim. Isso... mesmo. É ela.”
“É mesmo, é mesmo! E? Que tipo de garota é a namorada do Haruto?” Para sua avó, que perguntava com grande interesse, a imagem de uma certa garota surgiu na mente de Haruto.
“Um... bem, ela é uma garota realmente fofa. Honestamente, ela é boa demais para mim. Ela tem cabelo comprido que brilha num tom de linho quando pega a luz do sol. E o sorriso dela é realmente maravilhoso, e sua personalidade é um pouco naturalmente atrapalhada, mas ela é gentil e carinhosa com o irmão...”
A garota que surgiu na mente de Haruto foi Ayaka Tōjō. Haruto usou Ayaka como modelo e contou à avó que ela era sua namorada. Sua avó, por sua vez, acreditou nas palavras de Haruto e sorriu calorosamente.
“Entendo. Você encontrou uma garota maravilhosa.” Ao ouvir sua avó falar com tamanha felicidade genuína, Haruto, que havia dito uma mentira, sentiu uma dor no peito. Porém, ao mesmo tempo, sentia também um alívio por ter visto a expressão feliz de sua avó.
“Ela realmente é uma garota com muito charme.” Essas palavras não eram uma mentira. Para Haruto agora, Ayaka Tōjō era uma garota muito charmosa e fofa. E justamente por isso ele se sentia culpado com a situação atual, por tê-la transformado em sua namorada fictícia diante da avó.
Sua avó, sem perceber os sentimentos do neto, disse gentilmente com um sorriso.
“Você realmente encontrou uma boa namorada, não foi?”
“U-uh...”
“Haruto, você está profundamente, verdadeiramente apaixonado por sua namorada, não está?”
“Eh!?”
Haruto não pôde deixar de soltar um grito de surpresa às palavras da avó, ditas com profunda convicção. Sua avó sorriu calorosamente diante da reação dele.
“Eu posso ver o quanto você gosta da sua namorada só de olhar para o seu rosto.”
“C-claro... que eu gosto dela! Nós estamos namorando, afinal.” O olhar da avó parecia capaz de enxergar através dele. Incapaz de suportar, Haruto desviou o olhar e respondeu um pouco rude, coçando a bochecha. Vendo a reação de Haruto, sua avó deu uma risadinha suave.
“É isso mesmo. Bom, então estou ansiosa para conhecer sua fofa namorada.”
“Ah, hum... Como nós começamos a namorar faz pouco tempo, eu vou apresentá-la à senhora um pouco mais tarde, Vó.” Sua avó assentiu, ainda sorrindo, para Haruto, que lançava olhares discretos ao redor.
“Está bem, está bem, vou esperar pacientemente.”
“E-e também! Vai continuar quente, e seria um problema se você tivesse insolação de novo, então vou deixar o ar-condicionado um pouco mais forte.” Haruto continuou falando desesperadamente, mudando de assunto à força.
“Aparentemente, insolação dentro de casa também tem aumentado hoje em dia. Mesmo com o ar-condicionado ligado, dizem que o calor do fogão na cozinha pode se acumular e causar insolação. Então, Vó, tome cuidado também.”
“Está bem, está bem, eu entendi. Vou tomar cuidado a partir de agora.”
“Promete? A senhora não é mais jovem, Vó. Desta vez fomos rápidos, então não foi grave, mas o médico disse que, se o tratamento da insolação for atrasado, pode ser fatal.” Desta vez, a causa da insolação da avó foi o fogão da cozinha. Atingida pelo calor dele, sua avó sofreu insolação e desmaiou. Depois que ela caiu, o fogo parou automaticamente graças ao dispositivo de segurança, mas se por acaso a chama tivesse continuado acesa, a casa deles já estaria em chamas agora. Nesse caso, sua avó não estaria deitada nessa cama de hospital.
Ao imaginar aquele momento, o corpo de Haruto tremeu de medo. Agora, sua avó estava segura. Era preciso ser grato por isso. Haruto, afastando pensamentos desnecessários, levantou-se da cadeira.
“Então, Vó. O horário de visitas acabou, então vou para casa.”
“Está bem, Haruto, volte com cuidado.”
“Sim, Vó, descanse bastante hoje e amanhã também. Até mais, estou indo.” Haruto acenou para a avó e saiu do quarto do hospital.
Haruto, saindo pela entrada noturna do hospital, começou a caminhar para casa na noite tropical abafada e úmida. Sob o céu completamente escuro, ele recordou a conversa que acabara de ter com sua avó.
“Haa~ Isso é ruim...” Haruto soltou um grande suspiro.
“Por que eu falei uma mentira dessas...” Naquele momento, ele estava tão preocupado com a avó que havia perdido um pouco da compostura.
No entanto, pensando agora, tendo recuperado a calma enquanto caminhava pelas ruas noturnas, ele havia contado uma mentira bem terrível.
“Além disso, eu transformei unilateralmente a Tōjō-san em minha namorada...” Ele não apenas mentiu para a avó, como também havia usado Ayaka como modelo para essa namorada fictícia.
“Eu realmente deveria conversar com a Vó direito amanhã.”
Afinal, mentir não é algo bom. Além disso, era um tipo de mentira que poderia causar problemas para Ayaka. Provavelmente seria melhor confessar o mais rápido possível à sua avó que era uma mentira. E talvez ele também precisasse se desculpar com Ayaka. Pensando nisso, Haruto sentiu ansiedade ao imaginar qual reação Ayaka teria se ele contasse isso a ela.
“Será que ela vai dizer que eu sou nojento...? Bom, eu meio que fiz por merecer...” Embora ele tenha dito isso, imaginar a possibilidade de ela genuinamente passar a odiá-lo fez seu peito doer mais do que ele esperava.
Haruto se lembrou das palavras que sua avó acabara de dizer a ele.
‘Haruto, você está profundamente, verdadeiramente apaixonado por sua namorada, não está?’
Quando sua avó disse isso, Haruto sentiu o rosto corar de vergonha e, ao mesmo tempo, teve a sensação de que algo se encaixava dentro dele.
“Eu estou... apaixonado pela Tōjō-san...?” Haruto murmurou para si mesmo.
“Eu... não quero ser odiado.” Um único pensamento passou pela mente de Haruto ao dizer essas palavras. Era o pensamento de tornar a mentira realidade. Se ele confessasse para Ayaka e eles começassem a namorar, ele poderia contar isso com orgulho à sua avó e apresentá-la como sua namorada. Contudo, Haruto balançou a cabeça e descartou esse pensamento. Confessar apenas para justificar sua própria mentira era, antes de ser coisa de homem, a coisa mais baixa que alguém poderia fazer. Fazer uma confissão dessas seria extremamente desrespeitoso com Ayaka. Uma confissão deve ser feita com sinceridade e de todo o coração, não com motivos impuros. Haruto, que acreditava nisso, sentiu até um pouco de repulsa de si mesmo pelo pensamento que havia acabado de ter.
“Talvez eu esteja esquisito hoje...” Durante o dia, ele havia feito algo próximo de assédio com Ayaka, e havia contado uma mentira terrível à sua avó. E agora, estava até pensando em como encobrir essa mentira de alguma forma.
“Talvez eu esteja cansado...” Pensando isso, seu corpo de repente pareceu pesado e sua cabeça estava turva e um pouco dolorida. Hoje tinha parecido extremamente longo para Haruto. Tomar café da manhã com os pais de Ayaka na casa dos Tōjō parecia coisa de muito tempo atrás.
“É melhor eu ir para casa e dormir logo.” Normalmente, por mais cansado que estivesse, Haruto nunca deixava de estudar antes de dormir, mas hoje ele simplesmente não conseguia. Com passos um pouco vacilantes, Haruto apressou-se para casa.
“Hahaha, talvez... talvez eu esteja com algum tipo de doença do amor...” Com um sorriso levemente autodepreciativo e pressionando as têmporas com o polegar para aliviar a dor de cabeça, Haruto continuou caminhando pela noite tropical.
✦ ✦ ✦
“Que doença do amor o quê... isso é uma doença de verdade...” Haruto, que havia erguido o tronco do futon em seu quarto, desanimou ao ver o número no termômetro. 38,7 graus Celsius. Sem dúvida, estava com um resfriado.
“Haah...” Haruto soltou um suspiro quente e voltou a deitar no futon. Mesmo deitado, sentia como se seu corpo estivesse balançando intensamente, e sua cabeça doía e sentia náuseas.
“Isso pode ser ruim...” Sentindo-se completamente esgotado, Haruto estendeu a mão para o smartphone em seu travesseiro. O horário era pouco depois das sete da manhã. Ele operou o smartphone enquanto suportava a dor de cabeça.
“É uma sorte eu ter folga do trabalho de meio período hoje...” Nesse estado, ele não conseguiria nem sair de casa, muito menos fazer serviços domésticos.
“Ah, mas eu deveria ir ao dojo hoje... Tenho que avisar o Kazu-senpai e a Shizuku...” Sentindo um cansaço que tornava operar o smartphone cansativo, Haruto enviou mensagens para seus amigos do dojo, Ishikura e Shizuku.
[Desculpa. Peguei um resfriado. Não vou conseguir ir ao dojo hoje.]
Haruto, junto com Ishikura e Shizuku, seus amigos de infância do dojo, estavam em um grupo de bate-papo em um aplicativo de mensagens. Cerca de dez minutos se passaram e a notificação do celular tocou.
(Ishikura) [Você tá bem?]
Primeiro, chegou uma mensagem de Ishikura. Logo depois, a mensagem de Shizuku também foi postada.
(Shizuku) [Um resfriado é raro para o Haru-senpai.]
(Haruto) [Fazia tempo que eu não pegava um resfriado. Está bem difícil.]
(Ishikura) [Resfriado de verão, huh. Você vacilou, Haruto.]
(Haruto) [Pois é.]
(Ishikura) [Quer que eu vá te visitar?]
(Haruto) [Não, é só um resfriado, se eu dormir eu fico bem. Não precisa visitar.]
(Ishikura) [Certo, então me avise se piorar de verdade. Eu cuido de você.]
Haruto sorriu um pouco diante da mensagem direta, porém gentil, de Ishikura.
Aliás, Shizuku não respondeu desde a primeira mensagem. Parece que ela viu a conversa, já que o número ao lado de “lido” era dois.
(Haruto) [Obrigado, Kazu-senpai.]
(Ishikura) [Yep.]
Sem resposta de Shizuku, mas tendo terminado a conversa por ora, Haruto então enviou uma mensagem para seu melhor amigo, Tomoya.
[Tomoya, se você estiver livre amanhã, tenho um favor único na vida para te pedir.]
Alguns minutos depois de enviar aquela mensagem, uma resposta veio de Tomoya.
[Oh? O que foi?]
Um sticker de um urso inclinando a cabeça com um ponto de interrogação acima dela também foi enviado.
[Na verdade, minha avó desmaiou de insolação e está no hospital agora.]
[Ela tá bem?!]
[Ela foi para o hospital imediatamente, então sem problemas. Está programada para ter alta amanhã.]
[Entendi, que bom. Então? O que você precisa?]
[Na verdade, eu também estou com um resfriado agora. Se eu não melhorar até amanhã, posso pedir para você buscar minha avó no hospital por mim?]
Haruto, que não tinha mais parentes para confiar, pediu um favor ao seu melhor amigo, Tomoya. Em seguida, Tomoya ligou para ele. Haruto tocou no ícone de telefone exibido na tela de seu smartphone para atender a chamada.
[Você me fez me preparar para nada, dizendo que era um favor único na vida.]
“Não, buscar a vovó no hospital é um favor nível único na vida, não é?”
[Pelo meu melhor amigo, eu iria ao hospital quantas vezes fosse necessário.]
“Isso me deixaria preocupado, pensando que a minha Vó estaria sendo hospitalizada com muita frequência.” Quando Haruto respondeu isso, ele pôde ouvir a risada de Tomoya pelo telefone.
[E como está o seu resfriado?]
“Ah, está difícil porque faz tempo que não pego um, mas vou me recuperar se dormir.”
[Certo, então me diga o hospital onde sua avó está e o número do quarto. Vai ser por volta do meio-dia pra buscá-la?]
“Sim, obrigado.”
[Sem problema.] Haruto agradeceu Tomoya do fundo do coração por aceitar prontamente buscar sua avó e lhe contou o nome do hospital, número do quarto e outros detalhes.
“Então, vou contar com você. Vou compensar isso depois.”
[Beleza! Estou esperando uma recompensa super incrível!!] Haruto se sentiu grato pela forma exagerada de seu melhor amigo e encerrou a ligação.
Se seu resfriado não melhorasse até amanhã, ele teria que entrar em contato com sua avó e informá-la de que Tomoya iria buscá-la em seu lugar. Mas por hoje, ele evitaria dizer à avó que havia pegado um resfriado e deixaria que ela descansasse em paz. Se o resfriado de Haruto não melhorasse até amanhã, outro problema surgiria. Esse era o problema de não poder ir à residência dos Tōjō para a ajuda doméstica.
Ele não sabia o que causou seu resfriado. Foi por causa da fadiga acumulada pelos dias consecutivos de calor extremo, ou foi causado pelo estresse mental da avó ter desmaiado? No entanto, se Haruto dissesse agora para Ayaka que estava resfriado, ela provavelmente pensaria que a causa foi ter trocado de roupa após brincar na água ontem.
“Me oferecer para trocar de roupa e então pegar um resfriado por causa disso... que coisa vergonhosamente patética...” Haruto abaixou o rosto, cobrindo-o com uma mão.
Sendo a pessoa gentil que ela é, talvez ela sentisse culpa, pensando que foi sua responsabilidade ele ter ficado doente. No entanto, seria rude simplesmente faltar à ajuda doméstica na casa dos Tōjō sem dar qualquer notícia.
“Bem, se eu melhorar até amanhã, não tem problema, então por agora, vamos parar de pensar em coisas desnecessárias...” Murmurando isso, Haruto jogou o smartphone no travesseiro e caiu na cama com um baque. Talvez por causa do resfriado, ele não tinha apetite algum e decidiu fechar os olhos e dormir.
A próxima vez que Haruto acordou já era passado do meio-dia. Ao som do interfone tocando na entrada, ele ergueu lentamente suas pálpebras, que pareciam pesadas como chumbo. Será que havia algo para ser entregue hoje? Haruto pensou, sua cabeça ainda latejando com uma forte dor. Estava tão cansado que até levantar da cama era difícil, e por um momento, considerou fingir que não estava em casa. No entanto, a sensação de culpa em relação ao entregador venceu, e ele se levantou devagar e saiu da cama. Então, alcançando de alguma forma a entrada com passos instáveis, Haruto destrancou a porta e abriu.
Ao ver quem estava ali, Haruto ficou surpreso.
“Hã? Shizuku? O que houve?” Haruto, que tinha pensado que fosse um carteiro ou entregador, arregalou um pouco os olhos diante da visitante inesperada.
“Eu vim atacar o Haru-senpai enquanto ele está fraco com um resfriado.” Ela disse com sua indiferença habitual, estendendo as mãos para frente e dizendo “Gao~” sem muita energia.
“Ah, você veio me visitar? Obrigado, Shizuku.” Haruto, acostumado a lidar com Shizuku, ignorou habilmente a piada dela.
“Haru-senpai, você parece realmente acabado. Qual é a sua temperatura?”
“Uh, estava trinta e oito ponto sete hoje de manhã.”
“Humm~ Você definitivamente não deveria estar andando por aí desse jeito. Vá para a cama, rápido.” Shizuku entrou imediatamente na casa e empurrou as costas de Haruto, guiando-o até seu quarto. Shizuku, que conhecia Haruto desde a infância, já tinha estado muitas vezes em sua casa e naturalmente sabia onde ficava seu quarto. Empurrado por Shizuku, Haruto se deitou novamente no futon.
“Falando nisso, o que aconteceu com a sua avó?” Shizuku, que conhecia a situação familiar de Haruto, inclinou a cabeça, estranhando o fato de sua avó não estar em casa.
“Ah, sobre isso, a Vó desmaiou de insolação ontem e está hospitalizada agora.”
“Eh?! Isso é verdade? Ela está bem?” Até mesmo Shizuku, normalmente sem expressão, mostrou um olhar surpreso.
“Ela está bem. Vai ficar internada apenas hoje por precaução, então terá alta amanhã.”
“Entendi. Que bom.” Shizuku soltou um suspiro de alívio e então olhou para o rosto de Haruto.
“Então isso significa que só o Haru-senpai está nesta casa agora?”
“Bem, sim.”
“E você está com um resfriado forte.”
“Chamar de forte é exagero, mas é basicamente isso.”
“O que significa que minha enfermagem, a da grande Shizuku-sama, é necessária.” Shizuku disse, acenando para si mesma com um “Hmm hmm”, enquanto Haruto, deitado no futon, balançava a cabeça levemente.
“Não, tudo bem. Provavelmente vou melhorar se dormir.” Shizuku olhou sem expressão para Haruto, que gentilmente recusava seus cuidados.
“Haru-senpai, você comeu alguma coisa hoje?”
“Eh? Ah~ não, não comi nada.” Haruto, cujo corpo estava pesado e cuja garganta começara a doer, não sentia vontade de comer nada naquele tempo.
“Não estou com apetite. Quando eu me sentir um pouco melhor e conseguir comer, eu mesmo preparo algo.”
“Isso não vai servir. Mesmo sem apetite, você precisa comer algo nutritivo.” Dizendo isso, Shizuku se levantou rapidamente.
“Vou fazer mingau de arroz. Vou pegar emprestada sua cozinha.”
“Não, está tudo bem. Eu faço isso sozinho.”
“Haru-senpai, apenas fique quieto aí e apodreça.” Shizuku deteve Haruto, que tentava se sentar.
“Se você não descansar direito, nem algo simples você vai conseguir curar. Ou está insatisfeito com o mingau que eu faço?” Haruto desistiu de tentar se levantar quando Shizuku o encarou com os olhos semicerrados.
“Tá bom. Obrigado, Shizuku.”
“Pode deixar comigo. Haru-senpai, apenas fique quieto e espere ansiosamente pelo Mingau Especial da Shizuku.” Dizendo isso, Shizuku saiu do quarto de Haruto.
Depois disso, enquanto sentia uma letargia como se a gravidade da Terra tivesse triplicado e cochilava um pouco, Shizuku voltou com uma pequena panela de barro sobre uma bandeja.
“Desculpe a demora. O Mingau Especial da Shizuku está pronto.” Dizendo isso, ela retirou a tampa da panela. Então, o aroma do mingau se espalhou com o vapor, fazendo cócegas no nariz de Haruto.
“Mingau de ovo, parece delicioso.”
“Consegue comer sozinho? Quer que eu te dê na boca? Eu posso te alimentar, sabia?”
“Não, eu consigo comer sozinho.” Haruto recusou a oferta de Shizuku, pegou o mingau e então o serviu com a concha, soprou levemente e levou à boca. O mingau, com a quantidade certa de sal, era suave e fácil de comer mesmo com a garganta dolorida. Conforme o mingau quente descia para seu estômago, Haruto finalmente sentiu um leve retorno do apetite.
“Esse mingau está realmente delicioso. Obrigado.” Quando Haruto o elogiou sinceramente e agradeceu, Shizuku mostrou uma expressão levemente orgulhosa.
“É o Especial da Shizuku, sabia. Inclusive coloquei um afrodisíaco como ingrediente secreto.”
“Oh~ que tipo de afrodisíaco?” Haruto, sentindo-se bem melhor após o delicioso mingau, teve ânimo para acompanhar a piada de Shizuku.
“Coloquei três gotas da minha saliva.”
“Bleh?! Você!!” Haruto quase cuspiu o mingau que tinha na boca, mas conseguiu segurar no último instante. À sua reação, Shizuku continuava com a expressão sem emoção, mas de alguma forma transbordando satisfação.
“Tô brincando. Eu nunca faria algo assim com alguém doente.”
“...Sério?”
“Sério. Ou você queria que tivesse? A minha saliva.”
“Não, estou bem.”
“Mmm, é meio irritante quando você responde tão rápido assim.” Haruto fez uma expressão abatida para Shizuku, que inflou as bochechas habilmente enquanto mantinha o rosto inexpressivo.
“Colocar saliva na comida é simplesmente errado no geral, não é?”
“Nem mesmo a saliva de uma garota bonita?”
“Não, é errado.”
“Haru-senpai, você continua rígido como sempre.”
“Não, isso é só o normal.” Enquanto conversava assim como de costume, Haruto terminou a papa de arroz que Shizuku havia feito.
“Estava deliciosa, obrigado.”
“De nada. Foi suficiente?”
“Sim, estou bem cheio.”
“É mesmo? Que bom.” Shizuku saiu do quarto por um momento para guardar o potinho vazio. E quando voltou, trouxe um copo e alguns remédios na mão.
“Aqui, Haru-senpai, tome isso e vá dormir.”
“Obrigado, você está ajudando muito.” Haruto pegou o remédio para resfriado de Shizuku e o engoliu com a água do copo.
“Phew.”
“Você está com dor?” Shizuku perguntou a Haruto, que relaxava depois de estar de estômago cheio.
“Sim, ainda um pouco...”
“Quer beber mais alguma coisa?”
“Não, estou bem por enquanto.”
“É mesmo?”
“Ah...”
“Quer que eu te dê um beijo?”
“......Por quê?”
Com a declaração repentina de Shizuku, as pálpebras semicerradas de Haruto se arregalaram de repente.
“Dizem que dá para se livrar de um resfriado passando ele para outra pessoa, certo? Então, o plano é que se eu beijar você, o resfriado passe para mim e Haru-senpai melhore.”
“Um resfriado não necessariamente passa através de um beijo, sabia?”
“Então devemos fazer um beijo francês para aumentar as chances?” Haruto exibiu uma expressão atônita para Shizuku, que dizia esse tipo de piada com a cara mais séria do mundo.
“Não é essa a questão.”
“Não é essa a questão?”
“Não faria sentido você, Shizuku, pegar um resfriado só para curar o meu, faria?” Ao ouvir as palavras de Haruto, Shizuku levou a mão ao queixo e pareceu pensar em algo, então assentiu para si mesma, como se tivesse entendido, e disse:
“Entendi, Haru-senpai, você está tentando me conquistar.”
“Não, como você interpretou o que eu disse dessa forma?” Shizuku percebeu um leve cansaço em Haruto quando ele respondeu isso.
“Senpai, pare de brincar e vá dormir logo.”
“Olha quem fala.” Haruto, que deu uma resposta fraca ao comentário de Shizuku, logo começou a respirar tranquilamente. O remédio para resfriado provavelmente havia começado a fazer efeito. O tom de pele de Haruto, enquanto dormia profundamente, havia melhorado um pouco em comparação a antes.
“Mostrando um rosto adormecido tão indefeso assim, eu posso realmente te atacar enquanto dorme, Haru-senpai.” Shizuku cruzou os braços ao lado do travesseiro de Haruto e apoiou a cabeça ali, olhando para seu rosto enquanto dormia.
“Gao~”, ela sussurrou. A expressão de Shizuku ao dizer isso não era sua expressão vazia de sempre, mas sim um sorriso suave e gentil.


✦ ✦ ✦
Tōjō Ayaka
Desde a manhã, eu estava aflita, encarando meu smartphone. Hoje era o dia em que Ōtsuki-kun deveria vir para ajudar com os serviços domésticos. Mas ele tinha acabado de mandar uma mensagem dizendo que não estava se sentindo bem.
Eu deveria ir visitá-lo, ou seria melhor não ir? Da minha parte, eu queria sair correndo de casa naquele instante e ir cuidar de Ōtsuki-kun. Eu estava tão preocupada com a saúde dele que não conseguia ficar parada. Mas, olhando de novo as mensagens que tinha acabado de trocar com Ōtsuki-kun, hesitei sobre se eu realmente deveria ir visitá-lo.
[Desculpe. Estou me sentindo um pouco indisposto, então gostaria de tirar um dia de folga da ajuda com os serviços domésticos hoje. Peço desculpas.]
[Você está bem?! É um resfriado? Está com febre?]
[Estou bem. Acho que vou melhorar logo se dormir um pouco.]
[Você tomou remédio?]
[Ainda não, vou tomar agora.]
[Você está se hidratando?]
[Sim, estou bem.]
[Posso ir te visitar?]
[Não, não, não é nada sério, eu vou ficar bem.]
[Tem certeza?]
[Sim, obrigado pela preocupação.]
[Se acontecer qualquer coisa, me avise imediatamente.]
[Entendido. Obrigado.]
[Certo.]
Eu reli a tela da conversa com Ōtsuki-kun, que eu já tinha olhado dezenas de vezes.
“Haah~.” E mais uma vez, um grande suspiro escapou de mim.
“Eu deveria ter dito claramente que queria ir visitar ele.”
Sabendo da personalidade de Ōtsuki-kun, mesmo que eu dissesse “Posso ir te visitar?”, ele com certeza responderia “Estou bem” ...Ainda de pijama, desabei pesadamente sobre minha cama. Se ao invés de “Posso ir te visitar?”, eu tivesse dito claramente “Eu vou te visitar, por favor me passe seu endereço”... Enviei meu olhar para a camisa de Ōtsuki-kun, que estava dobrada direitinho em cima da minha escrivaninha.
Dois dias atrás, quando usei a camisa que peguei emprestada dele, eu fui envolvida em um cheiro diferente do habitual, e parecia que Ōtsuki-kun estava me abraçando, o que fez meu coração disparar. Falando nisso, Ōtsuki-kun também me abraçou quando eu caí depois de trombar naquele garoto... Só de lembrar aquele momento, meu rosto esquenta mesmo agora. O corpo de Ōtsuki-kun, me segurando firme e pressionado contra mim, parecia musculoso e muito forte.
“Haah~...” Suspirei novamente.
Aquele dia foi tão divertido. É por isso que eu estou ainda mais solitária hoje, por não poder ver Ōtsuki-kun. Além disso, acho que a razão de ele ter ficado doente provavelmente foi porque ele me deu a troca de roupa dele. Deve ter pego um resfriado por continuar usando a camisa molhada. À minha preocupação e solidão por ele não estar bem, somou-se a culpa em meu coração. Será que tudo bem mandar mensagem para Ōtsuki-kun agora? Seria incômodo se eu perguntasse “Será que eu posso mesmo ir te visitar afinal?” Mas, a doença de Ōtsuki-kun... foi culpa minha? Se for assim, não seria mais rude não ir visitá-lo?
“I-isso mesmo. É minha culpa, então eu preciso ir visitá-lo!” É minha responsabilidade por ter aceitado as roupas secas dele. Aliás, eu é que deveria estar cuidando dele o tempo todo!
Eu vou visitar Ōtsuki-kun! Depois de tomar minha decisão, levantei da cama, lavei o rosto para me animar e troquei de roupa. Então, sentei em seiza sobre minha cama e coloquei meu smartphone na minha frente.
Expirei um pequeno “Fuu~” para me acalmar e digitei a mensagem para Ōtsuki-kun.
[Posso mesmo ir te visitar afinal? Ōtsuki-kun, seu resfriado não é culpa minha?]
Depois de reler as frases algumas vezes, criei coragem e enviei a mensagem. Então, após um tempinho, chegou uma resposta.
[Não é culpa sua, Tōjō-san. Eu só não consegui cuidar bem da minha própria saúde. Tōjō-san não fez nada de errado.]
Como eu esperava, Ōtsuki-kun enviou uma mensagem gentil, mostrando preocupação comigo. Para não cometer o mesmo erro de antes, pensei cuidadosamente no conteúdo antes de enviar a próxima mensagem.
[Mas eu estou preocupada com a saúde de Ōtsuki-kun. Se for incômodo, eu não vou, mas se não for, eu posso ir te visitar?]
Diferente de antes, eu expressei claramente minha intenção de visitá-lo. Uma parte de mim se sentia meio que impondo minhas boas intenções, mas... Depois de enviar a mensagem, esperei pela resposta dele com o coração acelerado.
Cerca de um minuto depois. Uma resposta de Ōtsuki-kun chegou.
Depois de esperar o que pareceu um tempo muito longo, conferi o conteúdo da mensagem de Ōtsuki-kun.
[Desculpe. Então, por favor. Vou te enviar meu endereço.]
Depois da mensagem, o endereço de Ōtsuki-kun também foi enviado. No momento em que o vi, saí disparada do quarto e fui para a sala. Entrei na sala com força considerável, o que fez minha Mãe, que estava em teletrabalho no computador, olhar surpresa.
“O que aconteceu, Ayaka? Por que está com tanta pressa?”
“Hum, Mãe. O Ōtsuki-kun pegou um resfriado, e pediu para tirar folga da ajuda doméstica hoje. E bom, eu vou visitar ele agora.”
“Minha nossa! O Ōtsuki-kun está bem?” Mamãe perguntou com uma expressão preocupada.
“Ele disse que é só um resfriado, mas eu pensei em comprar frutas ou algo assim como presente de recuperação.” Mesmo enquanto eu falava, Ōtsuki-kun podia estar com febre e sofrendo. Pensando nisso, meu corpo ficou inquieto, querendo ir até ele o mais rápido possível. Como se percebesse meus sentimentos, ela abriu um sorriso e falou:
“Está bem. Diga ao Ōtsuki-kun para se cuidar.”
“Okay! Pode deixar!” Respondi para Mãe enquanto corria para a entrada.
Acho que ouvi a risadinha dela atrás de mim, mas não tinha tempo para pensar nisso agora! Depois de sair de casa, fui rapidamente — quase correndo — até o supermercado. Eu precisava comprar frutas para levar ao Ōtsuki-kun! Ao chegar ao supermercado, comecei imediatamente a examinar as frutas.
Dizem que uma maçã por dia mantém o médico distante, então com certeza eu precisava comprar maçãs. E talvez devesse comprar alguns pêssegos também? Ah, uvas ou abacaxi também podem ser bons. Será que Ōtsuki-kun gosta de kiwis?
[Del: Só um alerta, apesar das vantagens do abacaxi, há contraindicações para doenças envolvendo a parte digestiva, afinal, o abacaxi é extremamente ácido.]
Depois de comprar vários tipos de frutas, paguei e comecei a ensacá-las. Então, uma cebola rolou até meus pés.
“Hã? Uma cebola??” Inclinei a cabeça e peguei a cebola, e uma senhora idosa que estava ensacando suas compras um pouco distante veio correndo, curvando-se para mim.
“Me desculpe, a redinha rasgou.” Quando olhei ao redor, como ela disse, havia várias cebolas espalhadas pelo chão.
“Ah, não! Está tudo bem?” Peguei as cebolas que estavam no chão e entreguei à senhora.
“Ah, muito obrigada pela gentileza.” A senhora se curvou educadamente enquanto colocava as cebolas de volta na eco-bag. Ao olhar para aquela eco-bag, inclinei a cabeça. De alguma forma, parecia que eu já tinha visto aquela eco-bag antes... Era uma bolsa de tecido rosa-claro com um bordadinho de urso muito fofo. Era um design bem raro, então acho que não esqueceria facilmente depois de ver...
Meu cérebro, tentando lembrar de onde conhecia a eco-bag, trouxe repentinamente uma memória. Era a lembrança de quando eu estava comprando óleo de gergelim com desconto junto com Ōtsuki-kun há alguns dias.
“Ah! Essa é a eco-bag do Ōtsuki-kun!” Quando eu disse isso, a senhora reagiu com um “Oh?”
“Por acaso, você é amiga do Haruto?”
“Ah, hum, amiga... bem, sou colega de classe.” Será que eu posso dizer que sou amiga do Ōtsuki-kun? Mas nós fomos ao cinema e ao Parque Floresta dos Animais juntos, então talvez eu já possa dizer que sou amiga dele? Enquanto eu refletia, a senhora fez uma reverência muito educada.
“Entendo. Meu neto Haruto está sempre recebendo sua ajuda. Eu sou a avó do Haruto.”
“Ah, n-não, imagina! Eu é que sempre recebo a ajuda dele! Meu nome é Ayaka Tōjō.”
A avó do Ōtsuki-kun, sério?! Fiquei surpresa, mas rapidamente fiz uma reverência e me apresentei. Quando abaixei a cabeça, a luz do sol entrando pela janela do supermercado me ofuscou um pouco. Ugh, que brilho... Levantei o olhar, semicerrando os olhos, e o rosto da avó do Ōtsuki-kun parecia, de alguma forma, surpreso, mas muito feliz.
“Um, Ayaka-san, você foi ao cinema com o Haruto recentemente?”
“Eh? Ah, sim. Fomos.”
No instante em que respondi, o rosto da vovó se iluminou com um sorriso tão aberto que parecia uma flor desabrochando. Uau, o sorriso da avó do Ōtsuki-kun é tão fofo! E então, uma frase chocante entrou pelos meus ouvidos.
“Poderia ser que você está namorando o Haruto?”
“Eh? Hum... sim.”
Ah... eu respondi “sim” por reflexo... M-minha vontade! Meus sentimentos por Ōtsuki-kun escaparam...
M-mas, mas, mas, mas ele vai sempre à minha casa para ajudar com o serviço doméstico, então nesse sentido, como cliente e funcionário, nós estamos “nos vendo”, então não é mentira, certo? Enquanto eu inventava esse tipo de desculpa na cabeça, a avó de Ōtsuki-kun disse com uma voz muito animada, parecendo extremamente feliz:
“Minha nossa! Minha nossa! Então era verdade afinal!! A descrição combina com o que o Haruto me disse!”
“Eh? Descrição? O que ouviu do Ōtsuki-kun? Eh?”
“Haruto! Encontrar uma namorada tão adorável!”
“Hm, hum... desculpa. Na verdade, eu... Hã? Namorada??”
“Ah, perdão, me empolguei um pouco. Eu só ouvi do Haruto que ele conseguiu uma namorada recentemente, então acabei me animando.”
“Ah, é mesmo...? Espera?!!”
O-o-o-que que isso significa?! Ōtsuki-kun conseguiu uma namorada?! Não pode ser... Ōtsuki-kun tem uma namorada... Então, isso quer dizer que eu... fui rejeitada antes mesmo de começar...? De repente, fui atingida por um vazio enorme, como se tivesse aberto um buraco dentro do meu peito, uma sensação que eu nunca tinha sentido antes. Doeu tanto no peito que eu mal conseguia ficar em pé.
Ōtsuki-kun tem uma namorada... E ela se parece comigo... Hã? Hmm? Se parece comigo...? Hã??
“Obrigada por passar tempo com o Haruto anteontem.”
“Ah... sim... isso?”
Hã? Anteontem? Anteontem foi o dia em que fomos ao Parque, certo? Ōtsuki-kun estava comigo o tempo todo, certo?... Eh?? O que isso significa? Hã? Não pode ser... Será que a namorada do Ōtsuki-kun... sou eu? Eh? Eh?! Eeeeh?!?!
Para mim, que estava completamente em pânico, a avó de Ōtsuki-kun fez outra reverência educada.
“Mais uma vez, obrigada por sempre cuidar do Haruto.”
“Ah, hum... eu que deveria agradecer, por ele cuidar de mim...?”
“Você é realmente tão linda e fofa quanto uma boneca.”
“Ah, ahaha...” A avó do Ōtsuki-kun estava sorrindo feliz o tempo todo. Eu só ri junto por enquanto.
...De algum modo, acabei me tornando a namorada do Ōtsuki-kun? Eba~! Meu primeiro amor se realizou~? Está tudo bem eu simplesmente ficar feliz... será? Ou melhor, hã? O que tudo isso realmente significa? A avó do Ōtsuki-kun não está me confundindo com outra pessoa? Mas ela não parece estar enganada, né? ...Eu não sei!! Eu não entendo nada da situação atual!! O que significa eu ser a namorada dele?! Ei!! O que isso quer dizer, Ōtsuki-kun?!! Minha cabeça está no maior caos da minha vida.
Assim, deixamos o supermercado e seguimos lado a lado por uma rua residencial estreita. Quando contei que estava indo visitar o Ōtsuki-kun, ela disse: “Então, vamos juntas. Eu te guio até a casa.”
Sob o céu refrescante de verão pela manhã, a vovó caminhava ao meu lado, sempre com um sorriso muito feliz no rosto. Influenciada por ela, eu também sorria, mas por dentro eu estava no maior pânico da minha vida. A avó do Ōtsuki-kun, por que ela acha que eu sou a namorada dele? Sério, por quê? Essa pergunta estava rodando na minha cabeça o tempo todo.
“Hu-um... O que o Ōtsuki-kun disse sobre mim?” Pelas histórias anteriores da vovó, parecia que Ōtsuki-kun tinha dito que eu era namorada dele... Ōtsuki-kun, será que ele me considerava como namorada? Se for isso... o que eu deveria fazer...? Ah, eu não conseguia impedir o sorriso que queria escapar. Mas... é estranho, não é? Não parece algo que o Ōtsuki-kun faria. Contar para a avó que eu era namorada dele sem falar nada para mim antes, considerando a personalidade dele até agora, é meio estranho, não é? Bom, é algo que me deixa muito feliz, no entanto.
Enquanto eu pensava nisso, a vovó começou a falar muito alegremente sobre como Ōtsuki-kun tinha falado de mim.
“O Haruto disse que a Ayaka-san é muito fofa. Disse que seu sorriso é especialmente maravilhoso e que você é uma boa Nee-chan, que cuida bem do seu irmãozinho.”
Uau~!! Q-q-q-que vergonha!! Sinto como se meu rosto estivesse pegando fogo!! ...Mas, mas, entendo, o Ōtsuki-kun gosta do meu sorriso... É isso, né... Ehehe.
“Fufufu...”
“Ayaka-san?”
“Ah, n-não é nada. É que eu fiquei muito feliz pelo Ōtsuki-kun ter dito isso.”
Ah, essa foi por pouco. Se eu baixasse a guarda, meu rosto ia se abrir em um sorriso bobo. Eu não posso parecer tão desleixada na frente da avó do Ōtsuki-kun. Tenho que manter a compostura!
Então, depois de andar alguns minutos, conversando ocasionalmente com a vovó, finalmente cheguei à casa do Ōtsuki-kun. Por fora, parecia uma típica casa comum, embora um pouco antiga. Mas para mim, só por ser a casa do Ōtsuki-kun, parecia uma construção muito especial.
“Por favor, entre.” A vovó, que abriu a porta primeiro, trouxe chinelos para mim.
“Ah, obrigada. Com licença por incomodar.” Enfiei os pés nos chinelos e entrei na casa do Ōtsuki-kun.
Ah, eu posso sentir o cheiro do Ōtsuki-kun. Fiz uma pequena inspiração profunda, tentando não deixar a vovó perceber.
“O quarto do Haruto é no segundo andar, por aqui.”
“Ah, sim. Com licença.” A vovó foi na frente e me guiou até o quarto do Ōtsuki-kun. Eu a segui escada acima. A cada passo que eu dava, meu coração batia mais forte. A combinação de estar entrando no quarto do Ōtsuki-kun e a possibilidade de descobrir por que ele disse à avó que eu era namorada dele fazia meu coração disparar sem controle.
✦ ✦ ✦
Ōtsuki Haruto
Haruto estava deitado sozinho em seu futon, soltando um suspiro.
“Haah, eu me pergunto se a Vó está bem.”
No fim, o resfriado de Haruto não melhorou no dia seguinte, então ele teve que pedir ao Tomoya para buscar sua avó no hospital. E assim que ela voltou para casa e viu o neto deitado na cama com um resfriado, ela saiu para comprar ingredientes para preparar algo bom para o corpo dele. Haruto, preocupado com a saúde de sua avó logo após receber alta, tentou impedi-la de sair, mas ela o rebateu logicamente, dizendo: “Não se preocupe comigo, se preocupe com a sua saúde primeiro”, e ele não conseguiu dizer mais nada em resposta.
Ele encarou sem foco o teto de seu quarto, sentindo a lassidão em todo o corpo causada pela febre.
Mais tarde naquele dia, Ayaka viria visitá-lo. Parecia que ela achava que era culpa dela que Haruto tivesse pegado um resfriado. Embora ele se sentisse mal por fazê-la pensar isso, ao mesmo tempo um sentimento de felicidade também brotava dentro dele.
Mas havia algo que ele precisava fazer antes que ela chegasse. Era a mentira que ele tinha contado anteontem. Ele precisava explicar adequadamente para sua avó a mentira de que tinha conseguido uma namorada. Se não fizesse isso, quando Ayaka viesse à casa, sua avó poderia confundi-la com a verdadeira namorada ao vê-la. Se isso acontecesse, seria uma enorme inconveniência para Ayaka. Haruto se preparou, sentindo um frio na espinha diferente do resfriado ao pensar em contar a verdade para sua avó, mas sabendo que era uma cama que ele mesmo tinha arrumado.
Nesse momento, ele ouviu um barulho vindo da entrada.
“Vó, você voltou...”
Haruto se sentiu aliviado por sua avó ter voltado em segurança, sem incidentes. E ao mesmo tempo, sentiu uma pontada de tensão.
O som vindo da entrada se moveu para o corredor, e logo ele ouviu passos subindo as escadas.
“Hmm? Por que tem tantos passos? O Tomoya está aqui também? Eu estou ouvindo vozes.”
Seu melhor amigo, Tomoya, deveria ter voltado imediatamente para casa depois de buscar sua avó, dizendo que tinha planos à tarde. Haruto pensou que precisava agradecer adequadamente ao amigo por ajudá-lo apesar da agenda cheia.
Enquanto pensava nessas coisas, alguém bateu na porta de seu quarto, e a voz de sua avó pôde ser ouvida.
“Haruto, posso entrar?”
“Sim, tudo bem.”
Quando Haruto respondeu, sua avó abriu a porta e entrou. Haruto inclinou a cabeça levemente, achando estranho que ela estivesse muito mais animada do que antes de sair para fazer compras.
“Haruto, eu acabei encontrando sua namorada no supermercado.”
“...Eh? Namorada?”
“Ela comprou muitas frutas para te visitar. Ela é realmente uma boa namorada.”
“Eh? Visitar? Eh?”
Haruto não conseguiu esconder sua agitação diante das palavras da avó. O pior cenário possível surgiu em sua mente. E acabou sendo verdade.
Seguindo sua avó, uma garota apareceu, parecendo confusa.
“O-Ōtsuki-kun. Hm... você está bem?”
“—! T-Tōjō-san.”
Haruto sentiu todo o sangue sumir de seu corpo.
“Haruto, você realmente tem uma namorada tão fofa, não tem?”
“Ah, ah... não, hum, Vó, sobre isso...”
Ele estava com pressa para desfazer o mal-entendido da avó o mais rápido possível. No entanto, pego desprevenido pela situação repentina, seus pensamentos não se alinhavam e sua boca não se movia como ele queria. Nesse momento, Ayaka ofereceu hesitante a sacola que segurava.
“Ōtsuki-kun, aqui. Eu comprei algumas frutas, você consegue comer alguma?”
“Eh? Ah, hum, desculpa. Obrigado por ter vindo até aqui.”
Haruto se virou para Ayaka, achando que também precisava se desculpar com ela. A maior vítima dessa mentira era Ayaka. Ela devia estar desconfortável. Pensando isso, Haruto começou a abrir a boca, mas sua avó voltou a falar antes que ele pudesse.
“Ayaka-san comprou um monte para você, Haruto. Você realmente conseguiu uma ótima namorada.”
“U-uh... ah, não, não é isso, hum...”
Haruto voltou a encarar sua avó, tentando desfazer o mal-entendido. Mas ainda assim, as palavras não saíam direito. Desculpar-se com Ayaka e explicar para a avó. Pensar nessas duas coisas ao mesmo tempo estava deixando seus pensamentos uma bagunça.
Ignorando Haruto, que estava assim totalmente confuso, sua avó olhou para as frutas nas mãos de Ayaka e disse:
“Bem, já que você trouxe tudo isso, que tal eu descascar para você?”
“Não, isso seria pedir demais, se puder me emprestar a cozinha, eu mesma posso fazer.”
“Está tudo bem, tudo bem. Não se preocupe. Já que você veio até aqui, Ayaka-san, por favor, fique à vontade.”
“Hm, então, vou aceitar sua gentileza.”
Ayaka lançou um rápido olhar para Haruto, depois entregou a sacola com as frutas para a avó dele. A avó, ainda com um sorriso alegre, aceitou as frutas e desceu as escadas para descascá-las.
“......”
“......”
Ayaka, que parecia um pouco inquieta, e Haruto, que estava curvado em desalento. Um silêncio extremamente constrangedor pairou pelo quarto onde estavam agora sozinhos.
“Hum, Ōtsuki-kun? Então, como está o seu resfriado?”
“...Está melhorando.”
Haruto respondeu de forma fraca, com uma voz desanimada.
“......Ah, h-hum, bem. Então... há pouco, eu encontrei sua avó no supermercado, e... hum, como eu digo... eu, bem, hum... ela disse que, que eu era a, hum… a sua n-namorada—”
“Me desculpa!”
No meio das palavras de Ayaka, Haruto saiu da cama e se ajoelhou no chão, fazendo um dogeza. Os olhos de Ayaka se arregalaram em surpresa com a ação repentina de Haruto.
Ele continuou a se desculpar enquanto permanecia na posição de dogeza.
“Eu sinto muito mesmo por ter mentido sem permissão e te deixado desconfortável Tōjō-san! Eu não sei como pedir desculpas... eu vou contar para minha avó que foi uma mentira eu mesmo, então Tōjō-san—”
“Espera! Ca-calma um pouco!!”
Ayaka interrompeu as desculpas de Haruto.
“Eu não estou brava, e não estou desconfortável. Eu só estou curiosa sobre o motivo pelo qual você, Ōtsuki-kun, bem... contou uma mentira dizendo que eu era sua namorada.”
Ayaka disse com um olhar sério. Haruto, que cruzou os olhos com os dela por um instante, desviou o olhar e abaixou a cabeça de repente.
“Isso é...”
“Deve haver um motivo, certo? Porque, sabe, você não é o tipo de pessoa que contaria uma mentira assim.”
“......”
Ayaka continuou encarando pacientemente Haruto, que permanecia olhando para baixo em silêncio. Então, com uma voz baixa, ele começou a falar hesitante…
✦ ✦ ✦
Tōjō Ayaka
“Na verdade, quando eu era pequeno... eu perdi meus pais em um acidente de carro.”
“Eh?! V-você... perdeu...”
Diante da revelação inesperada e chocante, cobri minha boca com ambas as mãos sem perceber. Ōtsuki-kun continuou falando com uma voz abatida.
“Depois disso, eu fui acolhido e criado pelos meus avós maternos, mas por volta da época em que entrei no ginásio, meu avô também faleceu... Agora eu vivo só com a minha avó.”
Ouvindo a história de Ōtsuki-kun, contada tristemente com a cabeça baixa, senti uma vontade enorme de abraçá-lo apertado.
Eu não consigo nem imaginar. Eu tenho o Pai e a Mãe como se fosse algo garantido, tenho meu irmão Ryota, e sou cercada pela minha família. Pensar que Ōtsuki-kun só tem sua avó como família...
Então, de repente, me lembrei de algo. Antes, quando Mãe me provocou e eu reclamei, Ōtsuki-kun falou sobre como era bom ter gratidão por ter uma mãe, com um tom melancólico. Talvez eu tenha sido insensível diante de Ōtsuki-kun, que não tem seus pais...
Ōtsuki-kun ergueu o olhar, que até então estava abaixado, e continuou falando enquanto me encarava.
“E então, minha avó desmaiou de insolação anteontem.”
“Eh?! E-ela ficou bem?”
“Ah, sim. Felizmente, conseguimos ir ao hospital imediatamente, então não foi grave.”
“E-entendo.”
Realmente tinha sido um dia muito quente anteontem. Mas eu não fazia ideia de que algo assim tinha acontecido naquele dia.
“Mas eu fiquei realmente perturbado com o fato de minha avó ter desmaiado e sido levada para o hospital...” disse Ōtsuki-kun, com fraqueza.
É claro, se a única pessoa da minha família desmaiasse, eu provavelmente entraria em pânico também.
Eu não consigo nem imaginar perder alguém tão importante.
“Assim que chegamos ao hospital, minha avó recobrou a consciência, mas no fluxo da conversa, o assunto sobre eu ter uma namorada surgiu...” Ōtsuki-kun fez uma pausa constrangida, então voltou a falar. “Minha avó vinha perguntando se eu tinha uma namorada já fazia um tempo, e normalmente eu apenas desviava do assunto, mas naquele momento, o desejo de tranquilizá-la ficou muito forte...”
“E então você... hum, disse que eu era sua namorada?”
“Sim, naquele momento, o seu rosto veio à minha mente, e eu simplesmente... disse.”
Ōtsuki-kun falou com o mesmo tom abatido de antes.
Enquanto eu sentia simpatia por sua criação e circunstâncias, ao mesmo tempo um sentimento de alegria também brotou das palavras que acabei de ouvir.
Quando ele pensou em “namorada”, o rosto que veio à mente foi o meu — isso significa...
Na minha cabeça, as palavras de Ōtsuki-kun foram interpretadas da forma mais favorável possível.
Mas se ele não tivesse ao menos algum tipo de afeto por mim, isso não aconteceria, certo?
Lutando para conter os cantos da boca que insistiam em se erguer, eu assenti levemente como se confirmasse minha própria interpretação.
Em contraste comigo, cujo coração estava batendo tão rápido que parecia prestes a sair voando, Ōtsuki-kun continuou a se desculpar do fundo do coração, parecendo realmente arrependido.
“Eu sinto muito de verdade. Mesmo que fosse para tranquilizar minha avó, eu contei uma mentira terrível, a pior coisa que alguém poderia fazer, e causei problemas para a Tōjō-san também...”
Ōtsuki-kun se encolheu, parecendo desanimado.
Vendo ele assim, meu coração apertou na hora. O Ōtsuki-kun normalmente maduro e confiável agora parecia abatido como Ryota quando é repreendido pelo Pai e pela Mãe. O contraste entre isso e o modo como ele normalmente é foi tão grande que me deu vontade de abraçar Ōtsuki-kun contra meu peito, fazer carinho na cabeça dele e dizer: “Está tudo bem.”
“Eu vou contar para minha avó direitinho que eu estava mentindo. Então—”
“Espera!!”
Interrompi as palavras de Ōtsuki-kun com uma voz um pouco mais alta.
Ao mesmo tempo, meu coração começou a bater ainda mais rápido, e meu peito ficou apertado de tensão.
Agora que eu tinha visto um vislumbre dos sentimentos de Ōtsuki-kun, o afeto dele por mim, eu estava certa de que, se eu desejasse... Ōtsuki-kun me aceitaria.
Eu sentia que o relacionamento que eu desejava desde que tomei consciência dos meus sentimentos estava bem diante de mim.
Mas...
Eu... justamente porque aprendi seus sentimentos, suas emoções, queria mais. Eu queria seus sentimentos puros, livres de qualquer inferioridade ou culpa.
Eu tinha ficado gananciosa nesse amor.
Então... eu deliberadamente desviei os olhos do “relacionamento” que estava logo ali ao meu alcance, aquele que talvez eu pudesse ter agarrado se estendesse a mão.
E então, lentamente, abri a boca. Buscando os sentimentos mais puros dele.
“...Tudo bem. Eu vou fingir ser sua namorada. Diante da sua avó, eu serei a namorada do Ōtsuki-kun.”
Diante das minhas palavras, Ōtsuki-kun abriu a boca em surpresa e congelou. Aquela expressão tão diferente dele era estranhamente adorável para mim, e um pequeno sorriso escapou dos meus lábios.
Traduzido por Moonlight Valley
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