Volume 1

Capítulo 6: Um Filme Inesquecível, Mesmo Sem Lembrar da Trama

Ōtsuki Haruto

 

   No dia seguinte a ter filetado o peixe na residência dos Tōjō, Haruto estava no dōjō de karatê que frequentava.

   Depois de trocar para o seu dōgi, Haruto sentiu um leve peso nos ombros e continuou girando o pescoço. Vendo isso, Ishigura, que também estava trocando para o seu dōgi, chamou por ele.

“O que foi, Haruto? Seus ombros estão rígidos ou algo assim?”

“Um pouco. Eu filetei uns peixes ontem, três bem grandes.”

[Almeranto: (Estava fazendo em call) Obrigado Yoru, por sua culpa, não consigo ler essa parte sem maldade. | Del: Que?! Tinha que ser o Yoru… por outro lado eu tentei, mas não consigo entender a maldade.]

   Se tivesse sido apenas a dourada, teria sido tranquilo, mas o buri e o sawara eram bem grandes, então até Haruto sentiu um pouco de fadiga. O buri, em particular, tinha ossos grossos e resistentes, tornando o trabalho bastante difícil. Se não fosse pela faca deba excepcionalmente afiada e de alta qualidade da família Tōjō, ele estaria ainda mais cansado.

“Que tipo de peixe gigante você comprou pra ainda estar cansado no dia seguinte?”

   Haruto deu um sorriso torto ao tom levemente exasperado de Ishigura.

“Não, eu não comprei. Eu só filetei no meu trabalho de meio período.”

“É mesmo? Que tipo de trabalho de meio período você tem, Haruto? Algum mercado de peixes ou algo assim?”

“Não, é um trabalho de serviço doméstico.”

   Enquanto Haruto respondia à pergunta de Ishigura, uma voz falou repentinamente por trás dele.

“Eu vou contratar o Haru-senpai para a vida toda. Por favor, faça o trabalho da minha casa para sempre.”

“Uwah!? Você me assustou... Não fale comigo por trás assim, Shizuku.”

   Quando Haruto se virou surpreso, viu a única filha do dōjō, Shizuku, parada ali com seu dōgi e sua expressão inexpressiva.

“Se você não consegue nem perceber minha presença, nunca vai alcançar o auge do karatê, Haru-senpai.”

“Não, eu não tenho ambições tão grandiosas.”

“Isso me entristece, como membro do Dōjima Dōjō, que a ambição do Haru-senpai seja tão baixa.”

   Apesar de seu rosto inexpressivo, Shizuku, sempre boa de lábia, fez um ato de choro bem desajeitado, dizendo “Oyoyoyo”.

“Por que você não tenta ser um pouco mais como o Kazu-senpai, Haru-senpai? O Kazu-senpai aperfeiçoou tanto seu rosto demoníaco que está emitindo uma aura maligna pelo corpo inteiro.”

“Ei, Shizuku, para de falar de mim como se eu fosse algum tipo de rei demônio.”

“Kazu-senpai na verdade é de um clã demoníaco, então ele é um oponente que eu, um puro humano, não posso derrotar.”

   Haruto entrou na brincadeira de Shizuku. Ela, por sua vez, assentiu com expressão neutra, como se dissesse “Entendo, isso faz sentido.”

“Ei, Haruto. Espero que você esteja pronto para a sessão de sparring de hoje, tá ouvindo? E Shizuku, pare de concordar com ele!”

“Sim, sim, isso não é importante agora.”

   Shizuku ignorou casualmente o olhar ameaçador de Ishigura e virou seu rosto inexpressivo para Haruto.

“Haru-senpai, seus ombros estão rígidos?”

“Hã? Ah, sim, só um pouco.”

“Então eu vou massageá-los para você.”

   Shizuku estendeu as duas mãos na frente de Haruto, abrindo e fechando as palmas. Ao lado deles, Ishigura resmungou “Dizer que não é importante é tão cruel”, mas ela o ignorou completamente.

“Não é tão grave assim, então estou bem.”

“Não, com estas mãos da “Shizuku Mão de Deus”, o Haru-senpai com certeza vai se sentir bem em um instante.”

   Shizuku disse com confiança, continuando a mexer as palmas das mãos.

“E então, o Haru-senpai vai se tornar incapaz de viver sem mim, e quando a massagem terminar, ele deve estar abraçado a mim e gritando seu amor eterno.”

“Não, isso é assustador! Que tipo de massagem é essa!? Isso é hipnose!”

   Como Haruto não pôde evitar retrucar, Shizuku disse “Agora, agora, só um pouquinho”, e se moveu para trás dele, começando a massagear seus ombros sem seu consentimento.

“E então? Está gostando, né?”

“Bem... até que está bom.”

“Fufun.”

   Às palavras de Haruto, Shizuku bufou orgulhosamente.

“E aí? Agora você não pode mais viver sem mim?”

“Ah, é. Estou acabado sem você, Shizuku.”

   Haruto respondeu casualmente às palavras de Shizuku.

   A massagem dela era melhor do que ele esperava, e Haruto fechou os olhos ligeiramente, apreciando a sensação agradável.

“Haru-senpai.”

“Hm?”

“Você baixou a guarda!!”

   Shizuku repentinamente moveu ambas as mãos dos ombros para as laterais dele e começou a fazer cócegas.

“O quê!? Ei–, Shi-Shizuku! Para, hyahyahya, para!!”

“Oryah-oryah-oryah-oryah-oryah.”

   Acontece que Haruto era extremamente fraco a cócegas. Shizuku, que sabia muito bem disso, atacou de forma precisa e feroz seus pontos fracos.

   Haruto tentou empurrar Shizuku para longe, mas como ela o segurava firmemente por trás, ele não conseguia tirá-la.

“Hahahaha, Ka-Kazu-senpai! Ei– eek, a-ajuda, hahahahahaha!”

“Sorya-sorya-sorya-sorya-soryaaa.”

“Vocês dois se dão bem, hein?”

   Ishigura observava os dois brincando com um olhar exasperado.

   O ataque de cócegas de Shizuku continuou por mais um tempo e, eventualmente, Haruto caiu no chão.

“Aprendeu o poder da minha Mão de Deus, Haru-senpai?”

   Shizuku olhou para o exausto Haruto caído no chão e fez o gesto de limpar o suor da testa com um “ufa”. Sua expressão, apesar de inexpressiva, parecia tão satisfeita quanto se tivesse terminado um trabalho enorme.

“Hah... hah... o que foi isso do nada...”

   Haruto, por outro lado, estava completamente sem fôlego de tanto ser forçado a rir por vários minutos.

“É punição por brincar com o coração puro de uma donzela.”

“Hã? O coração puro de uma donzela? Do que você está falando?”

   Haruto lançou um leve olhar de irritação para Shizuku enquanto cambaleava ao se levantar.

“Hmph.”

   No entanto, Shizuku apenas virou o rosto.

“O que deu nela, sério?”

   Haruto inclinou a cabeça diante do comportamento repentino e misterioso dela. Ao lado dele, Ishigura falou com profundo sentimento.

“Ainda assim, isso deve ser difícil.”

“Nem me diga. E Kazu-senpai, você deveria ter parado a Shizuku antes.”

   Haruto lançou uma expressão levemente descontente para Ishigura.

“Não, não é isso, estou falando do seu serviço doméstico. Não é irritante ter que lidar com tarefas difíceis toda vez?”

“Hã? Ah, não. Não é que eu não goste ou algo assim. É o trabalho de meio período que eu escolhi para mim.”

   Às palavras de Ishigura, Haruto balançou a cabeça.

   Haruto nunca tinha pensado no seu trabalho de limpeza doméstica na residência dos Tōjō como um fardo. Pelo contrário, ele sentia uma grande satisfação pelos sorrisos da família Tōjō enquanto comiam a comida que ele preparava para eles.

   Além disso, havia outro fator que fazia com que ele gostasse do seu trabalho de meio período. Esse fator era a existência da garota conhecida na sua escola como a “Idol da Escola”.

   Antes de começar o serviço de limpeza, ele não tinha contato algum com ela, nenhuma forma de saber que tipo de pessoa ela era, e ele mesmo não tinha tanto interesse. Porém, ao conhecê-la por meio do serviço de limpeza doméstica, ele descobriu um lado dela diferente da “Idol da Escola” que ele via na escola, e começou a sentir um certo afeto por sua fofura e, de um jeito positivo, suas qualidades de garota normal.

“Eu acho que aceitar esse trabalho de limpeza doméstica foi a decisão certa.”

“É mesmo? Bom para você por ter encontrado um bom trabalho.”

   Haruto sentia que tinha sido capaz de construir um bom relacionamento com a família Tōjō. Ser provocado sobre seu relacionamento com Ayaka, como no dia anterior, era um pouco desconfortável e embaraçoso, mas não era desagradável. Na verdade, havia até momentos em que seu coração batia um pouco mais rápido.

“Eu realmente encontrei um bom trabalho.”

   Quando Haruto respondeu com um sorriso natural, Shizuku, que havia desviado o olhar, se aproximou dele novamente.

“Haru-senpai, posso fazer cócegas em você mais uma vez?”

“É claro que não!!”

   Cauteloso com Shizuku, que estava levantando as mãos para atacar, Haruto tomou distância dela.

“Por que você quer fazer cócegas em mim!”

“Porque eu fiquei vagamente irritada. Haru-senpai, você deve aceitar seu destino de ser derrotado por mim em silêncio.”

“Não seja ridícula! Existe alguma razão tão irracional quanto essa?!”

   Até o começo do treino, Haruto teve que ficar em guarda contra Shizuku, que tentava chegar atrás dele a cada oportunidade.

 

✦ ✦ ✦

 

   O contrato regular de serviços de limpeza doméstica que Haruto assinou com a família Tōjō. Os termos eram três vezes por semana, por três horas por dia.

   Neste período de férias de verão, Haruto, que queria ganhar dinheiro enquanto também avançava nos estudos, estava bastante satisfeito com esse contrato bem equilibrado.

“Phew, limpeza do banheiro: concluída.”

   Hoje, a pedido de Ikue, ele estava limpando o banheiro.

   Desde o mofo, é claro, até marcas de água, limo no ralo e poeira na borracha de vedação da porta. Tendo limpado completamente cada pedacinho, Haruto exibiu uma expressão satisfeita ao ver o banheiro, que agora brilhava de tão limpo.

“Certo então, próximo é limpar a pia— uoa!?”

“Kya! Ah... M-me desculpe!”

   Tendo terminado de limpar o banheiro, Haruto se virou para passar à próxima tarefa, a limpeza da pia, mas recuou de forma um pouco exagerada, surpreso por Ayaka, que estava parada bem atrás dele em algum momento.

   Tendo tido uma experiência terrível com Shizuku no outro dia, a cena voltou à sua mente, fazendo Haruto ter uma reação ainda mais exagerada que o normal.

   Ayaka, por sua vez, parecia ter se assustado com o sobressalto de Haruto, e seu corpo tremeu levemente.

“...Hum, precisa de alguma coisa?”

   Haruto perguntou, achando que ela tinha vindo pedir algo relacionado aos serviços da casa. Contudo, os olhos de Ayaka se moviam de um lado para o outro enquanto ela murmurava, sem conseguir falar claramente.

“Ah, hm... sabe? Tem algo que eu quero te dizer, Ōtsuki-kun, ou melhor, te perguntar... se tudo bem... hum... sabe? Fil… Fil… Fil…”

“Fil?”

“Fil… Filme… Tipo sanguíneo... A!?”

“Hã?”

   Haruto a encarou em branco, sem entender o significado da palavra repentina e desconexa que ela havia dito. Em resposta, Ayaka começou a explicar freneticamente.

“C-Certo! Eu estava me perguntando se o seu tipo sanguíneo era A, Ōtsuki-kun. Sabe, já que você é tão limpo e meticuloso com a limpeza e tal...”

[Almeranto: Explicação Cultural no final do capítulo. Se não, aqui fica gigantesco.]

“Ah, meu tipo sanguíneo?”

   Haruto assentiu, finalmente entendendo a explicação acelerada de Ayaka.

   Ela, por sua vez, balançou a cabeça repetidas vezes, dizendo “Uhum, uhum.”

“Não, meu tipo sanguíneo é O. Eu estou fazendo um trabalho cuidadoso agora porque estou limpando como parte do serviço, mas quando se trata de limpar meu próprio quarto, eu sou bem despreocupado.”

“Entendo. Então você é tipo O, Ōtsuki-kun.”

   Ayaka sorriu com uma expressão um tanto feliz e envergonhada para Haruto, que disse com um sorriso: “Eu posso ser bem relaxado, sabe.”

“E quanto a você, Tōjō-san?”

“Eh?”

“Qual é o seu tipo sanguíneo, Tōjō-san?”

“Ah, eu? Sou tipo B.”

“Sério? Isso é um pouco surpreendente.”

   Haruto pareceu levemente surpreso com o tipo sanguíneo de Ayaka.

“Você acha? Qual tipo sanguíneo você achava que eu tinha, Ōtsuki-kun?”

“Bom... nós não interagíamos muito antes, e você tinha um ar misterioso, Tōjō-san, então eu só presumi que fosse AB. Bem, é um estereótipo completo, no entanto.”

“Eu pareço tão misteriosa assim?”

   Ayaka perguntou, inclinando a cabeça às palavras de Haruto.

“Antes de começarmos a interagir assim, você parecia um pouco... misteriosa, ou melhor, um pouco como... uma flor no topo de uma montanha.”

“É mesmo... Mm, e quanto agora? Eu ainda pareço assim agora?”

   Ayaka perguntou com um leve olhar para cima, como se estivesse tentando avaliar a reação de Haruto.

   Achando sua expressão adorável, Haruto desviou um pouco o olhar enquanto respondia.

“Agora é um pouco diferente, é mais como... de um jeito bom, você é uma garota normal. Sinto uma maior familiaridade com você do que antes.”

“Sério!?”

“S-Sim.”

   Ayaka sorriu feliz. Para esconder seu próprio rosto, que provavelmente estava ficando um pouco vermelho, Haruto desviou o olhar e coçou a bochecha.

   Vendo o humor alegre dela, Haruto decidiu trazer à tona o assunto que estava tentando encontrar o momento certo para mencionar desde que chegou à casa dos Tōjō hoje.

“A propósito, um... sobre a ida ao zoológico que conversamos no centro de utilidades domésticas antes.”

“Ah! S-Sim!”

   Ao ouvir “zoológico”, Ayaka reagiu de forma exagerada, inclinando-se ligeiramente para a frente enquanto assentia para Haruto. Com ela inclinada assim, a distância entre eles diminuiu um pouco. Tentando não ficar muito consciente dessa proximidade, Haruto continuou falando, mantendo o máximo de compostura possível.

“Sobre a programação, na próxima semana—”

“Sobre isso! Se estiver tudo bem para você, Ōtsuki-kun—”

“Ōtsuki-kun, você já terminou de limpar o banheiro? Oh? Ayaka?”

   Como se fosse cortar Haruto, Ayaka tentou dizer algo. No entanto, ela foi interrompida por Ikue, que tinha vindo verificar o progresso de Haruto, antes que pudesse terminar. Vendo os dois com os rostos levemente corados, emanando uma atmosfera constrangedora, o rosto de Ikue abriu um grande sorriso.

“Oh? Ora, ora? Parece que estou interrompendo? Me desculpem~”

   Com um sorriso travesso estampado no rosto, Ikue disse: “Não se importem comigo, por favor, aproveitem, vocês jovens~” enquanto tentava deslizar a porta que servia como divisória da área da pia para fechá-la.

   Sua filha rapidamente interrompeu as ações da mãe.

“Ei, mãe! Não diga coisas estranhas!”

   Ayaka deslizou a porta, que estava sendo fechada pela mão de Ikue, de volta para a posição totalmente aberta.

“Oh? Vocês dois não estavam tendo um encontro secreto?”

“Claro que não!”

“É verdade. Se fosse um encontro secreto, vocês fariam do lado de fora, não em casa.”

“Não era isso que eu quis dizer!!”

“Hum... Eu terminei de limpar o banheiro e estava prestes a começar a pia.”

   Haruto se intrometeu timidamente na comunicação já habitual entre mãe e filha.

“Obrigada, Ōtsuki-kun. Você é um salvador. Ah, e desculpe pedir, mas quando terminar aqui, poderia limpar o vaso sanitário também?”

“Sim, entendido.”

“Obrigada. Então, Ayaka, vou indo, assim você pode retomar seu encontro secreto com o Ōtsuki-kun~”

“Eu disse! Não é isso!”

   Ayaka rebateu, mas Ikue a ignorou com um leve “Sim, sim” e foi embora.

   Depois de lançar um olhar ressentido para as costas da mãe por um tempo, Ayaka se virou para Haruto quando Ikue desapareceu completamente.

“Desculpe, Ōtsuki-kun. Minha mãe sempre diz coisas estranhas.”

“De forma alguma, você tem uma mãe muito divertida. Tenho inveja de você, Ayaka-san.”

“Eeh, você acha mesmo?”

“Acho... Só ter uma mãe já é algo especial.”

“...Ōtsuki-kun?”

   Haruto falou sobre mães.

   Sua expressão era passageira, com um ar um tanto triste. Vendo-o daquele jeito, Ayaka não pôde deixar de chamá-lo pelo nome. Haruto então pareceu voltar à realidade e sorriu como se tentasse encobrir.

“Além disso, ver você ficar envergonhada pela provocação da Ikue-san, Tōjō-san, é muito fofo.”

“Fo-!?”

   Pega de surpresa pelo comentário repentino, o rosto de Ayaka ficou vermelho até as orelhas enquanto ela desviava o olhar de forma atrapalhada.

“Pensar que o meu rosto envergonhado é fofo... Você é tão malvado, Ōtsuki-kun...”

“Não, ah... me desculpe.”

   Ayaka protestou, mexendo-se timidamente, com os lábios levemente franzidos. Por um momento, Haruto sentiu um encanto em seu gesto fofo, como se fosse atraído por ela.

“Hum... então, sobre a programação para o zoológico.”

   Haruto tentou manter a compostura voltando ao assunto. Às suas palavras, Ayaka mais uma vez o interrompeu de forma aflita.

“Ah, c-certo, sobre isso! Você está livre amanhã, Ōtsuki-kun?”

“Hã? Amanhã? Vamos ver, eu estava planejando estudar o dia todo amanhã, então não tenho nenhum plano específico para sair.”

“Entendo, estudar... Hum, sabe. Poderíamos nos encontrar amanhã fora? Poderíamos discutir a programação do zoológico lá? E... já que estaremos lá, hum, p-poderíamos ver um filme ou algo assim... Eu estava pensando, o-o que você acha?”

   Amanhã era um dia em que o serviço de limpeza não estava agendado, e Haruto tinha planejado passar o dia inteiro estudando. Ouvindo isso, Ayaka convidou Haruto com falta de confiança.

“Ahn… um filme?”

“S-Sim... Ontem, completamente por acaso, eu consegui alguns ingressos com desconto de uma amiga...”

“Entendi. Hmm.”

   Enquanto Haruto pensava por um momento, Ayaka começou a juntar palavras rapidamente.

“Ah! Mas estudar também é importante! Você não precisa forçar nada! É só que, sabe... se minha mãe ou meu pai ouvissem a gente falando sobre ir ao zoológico aqui em casa, acabaria virando um grande alvoroço. Então, eu pensei que seria bom se pudéssemos conversar em um café ou algo assim. Mas não é certo fazer você sair só por isso, então, já que eu tenho esses ingressos com desconto de uma amiga, eu pensei que seria legal se pudéssemos assistir a um filme juntos... Mas se você estiver ocupado estudando... você não precisa... hm...”

   A voz de Ayaka foi diminuindo aos poucos, perdendo o ritmo.

   Eventualmente, ela abaixou completamente o olhar.

   Em resposta a ela, Haruto respondeu com um tom animado.

“Não, eu também quero ir. Ao cinema.”

   Assim que Haruto disse isso, o rosto abatido de Ayaka levantou-se.

“...De verdade?”

“Sim, eu só estava pensando em quais filmes estão em cartaz agora.”

“Então, nós podemos... ir ao cinema juntos amanhã?”

“Sim, vamos.”

   Com essas palavras, a expressão antes ansiosa de Ayaka transformou-se em uma extremamente radiante. Vendo sua expressão, Haruto ficou momentaneamente cativado, pensando que era exatamente isso que significava “sorrir como uma flor desabrochando”.

“Certo então, ahm, tem algum filme que você quer ver, Ōtsuki-kun?”

“Vamos ver... posso conferir por um instante?”

   Haruto pediu permissão a Ayaka antes de pegar o smartphone e procurar os filmes atualmente em exibição. Então, ao observar a lista, ele resmungou por dentro: “Nghh”.

   Para ser honesto, não havia nenhum filme em cartaz que o fizesse pensar: “Quero ver esse!”

   Mas Haruto, incapaz de dizer isso diretamente, perguntou a opinião de Ayaka também.

“Tem muitos filmes em exibição, fica difícil escolher. Tem algum que você queira ver, Tōjō-san?”

   Quando Haruto perguntou, Ayaka respondeu com grande entusiasmo.

“Eu sei! É tão difícil escolher! Mas... eu estou um pouco interessada nesse aqui.”

   Dizendo isso, Ayaka mexeu em seu próprio smartphone e mostrou a tela para ele. Exibido ali estava a página promocional de um certo filme.

“...Céu de Verão e Amor.”

[Del: É… ela está atacante.]

   Haruto murmurou o título do filme.

   Era um filme com dois protagonistas, estrelando um jovem ator bonitão atualmente muito popular e uma idol em ascensão — o que se costuma chamar de “filme juvenil de fazer o coração bater”.

   O filme, popular principalmente entre mulheres jovens e apelidado de “Natsukoi”, estava ocupando o topo das bilheterias japonesas de verão.

“Você gosta desse tipo de coisa, Tōjō-san?”

  Tendo visto seu comportamento na escola, Haruto tinha presumido que ela não se interessava por romances e tinha uma atitude mais seca quanto a esse tipo de assunto. Mas talvez Ayaka também fosse apenas uma garota normal do ensino médio que sonhava com um amor romântico.

“Será? Você não está interessado nesse tipo de filme, Ōtsuki-kun?”

  Haruto sorriu suavemente para Ayaka, que o olhava com uma mistura de esperança e ansiedade.

“Não, eu também quero ver esse. Então, vamos assistir ‘Natsukoi’ amanhã?”

“De verdade? Tem certeza desse filme?”

“Sim, estou ansioso por amanhã.”

  Quando Haruto sorriu de volta para Ayaka, que confirmava como se quisesse ter certeza absoluta, ela também abriu um sorriso radiante e brilhante.

“Sim! Estou tão animada!!”

  Diante de seu sorriso exageradamente animado, o próprio coração de Haruto começou a se alegrar e se animar também.

“Certo então, vamos nos encontrar no prédio da estação às dez horas amanhã?”

“Uhum! Parece ótimo!”

   Ayaka, que estava assentindo feliz, recordou algo repentinamente e virou seu smartphone para Haruto.

“Ahm... nossas informações de contato... quer trocar?”

“Ah, verdade.”

   Se eles fossem se encontrar, seria mais fácil se tivessem as informações um do outro.

“Então, você pode escanear minha tela?”

“Okay.”

  Haruto exibiu um código QR com suas informações do app de mensagens em seu smartphone e o mostrou para Ayaka.

“Pronto, peguei. Eu vou te mandar uma mensagem então.”

“Sim, por favor.”

   Logo após suas palavras, um efeito sonoro de “pop” veio do smartphone de Haruto. Ao verificar, ele viu que Ayaka havia enviado um sticker de um coelho levantando as duas mãos em um “banzai”, junto com a mensagem “Ansiosa por isso!”

“Consegui te registrar aqui também.”

“Sim... Estou ansiosa para conversar com você daqui pra frente.”

“Ah, sim. Da mesma forma, por favor cuide de mim.”

“...Bom, então, desculpa por atrapalhar sua limpeza.”

   Após um breve e constrangedor silêncio, Ayaka acenou timidamente — mas feliz — e foi embora.

   Ficando sozinho na área da pia depois que Ayaka saiu, Haruto pensou:

     Hm? Já que trocamos contato, não poderíamos simplesmente discutir a programação do zoológico por mensagem?

  De acordo com a explicação de Ayaka, ela queria se encontrar fora porque não queria que sua família ouvisse a conversa, mas se eles se comunicassem pelo smartphone, não haveria necessidade de sair.

   E ainda assim, Ayaka o convidou para assistir um filme.

“Será que é porque a Tōjō-san é um pouco atrapalhada, ou será que...”

 Uma possibilidade surgiu dentro de Haruto. No momento em que pensou nela, seu coração acelerou naturalmente.

 

✦ ✦ ✦

 

   Depois de terminar seu trabalho de limpeza na residência Tōjō e voltar para casa, Haruto espalhou seus livros de referência sobre a mesa da sala de estar e se dedicou aos estudos.

“Haruto querido, você ainda está estudando?”

   Sua avó, vestida com suas roupas de dormir, perguntou enquanto colocava uma xícara cheia de chá na frente de Haruto.

“Obrigado, vó. Eu também vou dormir logo. Preciso sair amanhã.”

“Oh? É mesmo?”

   O rosto da avó se iluminou com um leve sorriso ao ouvir que seu neto sairia um pouco para variar.

“Sim, eu vou ir ver um filme.”

“Um filme? Isso é raro. Você vai com o Tomoya-kun?”

   O melhor amigo de Haruto, Tomoya, também era seu amigo de infância, então sua avó o conhecia bem.

“Não, não com o Tomoya. Ahm, eu vou com uma colega de classe.”

“Oh céus, oh céus, poderia ser uma garota?”

“Ah, sim, é.”

[Del: Lembrando que o português facilita a identificação de gênero, não é tanto o caso com o japonês ou inglês.]

   Haruto disse com um leve toque de constrangimento, levando a xícara aos lábios como se fosse para esconder sua timidez.

“Entendo, entendo. Então, é um encontro amanhã.”

“Bfft! U-Um encontro?”

   Com as palavras da avó, Haruto involuntariamente cuspiu o chá que estava prestes a beber.

“Vó, você está errada. Não é um encontro. Eu só tenho algo que preciso conversar com ela, e nós decidimos ver um filme de passagem—”

“Haruto.”

“S-Sim.”

   Sua avó chamou seu nome, interrompendo sua frase pela metade. Era um hábito dela desde que ele era pequeno, e Haruto reflexivamente endireitou as costas e respondeu.

“Escute aqui, Haruto. Quando você sai com uma mulher, só vocês dois, isso é um encontro. Mesmo que a mulher não pense dessa forma, um homem deve tratar isso como um encontro e acompanhá-la com todas as suas forças. Isso é etiqueta adequada, o comportamento de um cavalheiro. Entendeu?”

“Sim.”

   Quando Haruto respondeu obedientemente, sua avó assentiu satisfeita.

“Veja bem, as mulheres dedicam uma quantidade considerável de tempo e esforço quando saem com um homem. Por isso, um homem deve apreciar esse esforço, elogiá-la, cuidar dela e ser gentil. E você deve fazer isso de forma natural, sem se gabar ou fazer alarde.”

“Sim, eu entendo, vó. Amanhã, vou fazer o meu melhor para não ser rude com ela... no nosso encontro.”

“Sim, sim, faça o seu melhor.”

   Sua avó sorriu gentilmente e disse: “Boa noite”, antes de deixar a sala de estar.

   Ficando sozinho, Haruto pensou nas palavras que sua avó acabara de lhe dizer.

“É verdade, como uma questão de cortesia para com as mulheres, acompanhá-la adequadamente é algo básico para um homem.”

   A maneira de pensar da avó podia ser um pouco antiquada nos dias de hoje. Mas Haruto, que desde criança ouvia que deveria “ser gentil com as mulheres”, decidiu que precisava acompanhar Ayaka adequadamente amanhã e colocou uma pausa temporária em seus estudos.

“Eu deveria procurar alguns cafés para depois do filme...”

   Quando ele saía com amigos como Tomoya, geralmente só andava por aí sem nenhum plano específico, mas não podia fazer isso com Ayaka. Ele precisava pesquisar lojas e outros lugares com antecedência.

   Enquanto Haruto pesquisava várias coisas para o dia seguinte, uma notificação de um aplicativo de mensagens apareceu no topo da tela de seu smartphone.

“Oh, é da Tōjō-san.”

   Haruto abriu o aplicativo e verificou o chat.

[Você ainda está acordado?]

   Junto com essa mensagem, veio um sticker de um coelho espiando por trás de uma parede. O horário era pouco antes das 21h. Sua avó já tinha ido dormir, mas para o jovem Haruto, ainda era cedo demais para isso.

[Sim, estou acordado.]

   Junto com sua resposta, Haruto enviou um sticker de um urso ardendo em espírito de luta.

[Estou tão animada para amanhã! Estou preocupada que eu não vá conseguir dormir hoje…]

[Eu também estou animado, só consigo dormir à noite.]

[Isso é só dormir normalmente!!]

   Quando Haruto enviou uma piada, Ayaka mandou de volta uma resposta indignada junto com um sticker de um coelho dando uma bronca feroz em um urso, dizendo “Mas que—!!”

   Ao ver isso, Haruto soltou uma risadinha baixa, “Fufu.”

[Por favor, cuide de mim amanhã.]

[Sim! Eu é que deveria dizer isso!!]

   Pelo conteúdo das mensagens que ela enviava, ele sentia como se Ayaka estivesse sorrindo de orelha a orelha do outro lado da tela, e Haruto se pegou sorrindo naturalmente também.

[Eu realmente não posso me atrasar amanhã, então vamos dormir cedo.]

[Sim, você está certo.]

[Acha que consegue dormir?]

[Eu vou fazer o meu melhor!!]

[Bom, então, boa noite.]

[Boa noite. Até amanhã.]

   A resposta de Ayaka. No fim de sua mensagem final, “Até amanhã”, havia um símbolo de coração, e o coração de Haruto não pôde deixar de saltar um pouco.

“Calma, eu. Isso não tem nenhum significado profundo.”

   Ele tinha ouvido que algumas mulheres usavam corações com frequência simplesmente porque eram fofos. Claro, o símbolo em si não tem significado. Elas só usam porque é fofo.

   Certamente, o coração na mensagem da Ayaka tinha um significado semelhante. Não deveria ter qualquer significado especial.

   Haruto gentilmente colocou a mão sobre o peito, como se quisesse acalmar o coração acelerado que não parecia disposto a se acalmar tão cedo.

 

✦ ✦ ✦

 

   No dia seguinte, depois de terminar seus estudos da manhã cedo, que haviam avançado menos do que o usual, Haruto tomou um banho, se vestiu e arrumou o cabelo com um produto que ele raramente usava. Por fim, ele conferiu seu corpo inteiro em um espelho de corpo inteiro.

“Sim, nada fora do lugar.”

   Haruto assentiu depois de checar sua aparência.

   Como alguém que estaria escoltando uma mulher, uma aparência limpa e arrumada era o mínimo de etiqueta. Haruto, seguindo fielmente os ensinamentos de sua avó, terminou de se arrumar e foi para a entrada.

“Vó, estou saindo.”

“Certo, tome cuidado.”

“Sim.”

   Despedido pela avó, Haruto seguiu em direção ao prédio da estação, o local de encontro com Ayaka. A viagem de trem da cidade onde Haruto morava até o prédio da estação levava cerca de vinte minutos.

   Nos últimos dias, o tempo havia estado continuamente limpo, como se qualquer clima que não fosse ensolarado tivesse sido esquecido. Cansado da onda de calor implacável, Haruto saiu do trem com ar-condicionado e foi até o local onde encontraria Ayaka.

“Hmm, estou cerca de vinte minutos adiantado para o nosso encontro.”

   Ele havia saído de casa com bastante antecedência, mas parecia que tinha saído cedo demais. Pensando nisso, Haruto seguiu para a praça em frente ao prédio da estação. A praça tinha bancos e grandes instalações de arte, e era frequentemente usada como ponto de encontro.

   Hoje também, várias pessoas estavam esperando por alguém, sentadas nos bancos ou encostadas nas obras de arte enquanto mexiam em seus smartphones.

   Haruto percebeu que um canto da praça estava um pouco agitado.

“Hmm? Está acontecendo algo?”

   Às vezes, artistas de rua faziam apresentações nessa praça.

   Como ele tinha tempo para matar até o horário do encontro, Haruto se aproximou da área agitada para assistir a alguma apresentação de rua e passar o tempo. À medida que se aproximava, podia ouvir as vozes das pessoas ao redor, especialmente os homens.

“Ei, aquela garota não é incrível? Ela com certeza é uma celebridade.”

“Você acha que ela está esperando o namorado? Será que a gente tenta a sorte e fala com ela?”

“Não tem como ela ser uma pessoa normal, né? Uma modelo? Uma idol?”

“E o corpo dela é insano, não é?”

   Haruto inclinou a cabeça para o conteúdo das conversas animadas. Não parecia que eles estavam assistindo a uma apresentação de rua. Talvez houvesse uma modelo ou alguém com perfil de idol para um drama ou ensaio de revista, e uma multidão de curiosos havia se reunido.

  Decidindo que também poderia dar uma olhada rápida, Haruto cedeu à curiosidade e abriu levemente a multidão para ver a idol ou modelo em quem todos estavam focados.

   E então, a pessoa no centro das atenções entrou no campo de visão de Haruto.

   Instantaneamente, o calor de verão que ele estava sentindo foi dissipado em um piscar de olhos.

“Tōjō-san!?”

   Haruto deixou o nome escapar. Várias pessoas próximas olharam para ele com expressões confusas.

   Ayaka, talvez consciente de que todos os olhares estavam sobre ela, permanecia imóvel, olhando para baixo desconfortavelmente.

   Sua roupa consistia em uma saia rodada preta na parte inferior e uma blusa branca off-the-shoulder, por cima da qual ela usava um cardigã fino. A blusa off-the-shoulder não era muito reveladora, com um design bastante modesto, e como ela também usava um cardigã, sua aparência era elegante.

   No entanto, sua boa forma ainda conseguia atrair olhares masculinos e, combinada com sua beleza, até mesmo homens que passavam lançavam um ou dois olhares para ela.

   Mais uma vez, Haruto percebeu com clareza o puro poder de Tōjō Ayaka, a “Idol da Escola”.

   Haruto sentiu um leve medo de que, se chamasse por ela agora, seria espancado até virar pó por uma multidão tomada de ciúmes. Mas ele não podia simplesmente deixar de falar com Ayaka. Ele precisava se preparar e ir em frente. Justo quando reuniu coragem, Ayaka por acaso levantou o rosto, e seus olhos se encontraram.

  No mesmo instante, sua expressão desconfortável e ansiosa mudou para um sorriso radiante.

“Ōtsuki-kun!”

  Ao ver o sorriso de Ayaka, que era como o próprio sol, suspiros escaparam de vários homens, e alguns ficaram parados, boquiabertos, atordoados. E um número considerável de pessoas encarou intensamente Haruto, o destinatário daquele sorriso.

   Recebendo todos aqueles olhares, Haruto sorriu para Ayaka, que se aproximava dele com um passo rápido, quase correndo.

“Me desculpe, Tōjō-san. Eu te fiz esperar?”

“Não, de jeito nenhum! Eu também acabei de chegar, então tudo bem!”

   Dado o grupo que havia se formado ao redor dela, “acabei de chegar” provavelmente era uma mentira, mas ele não faria algo tão grosseiro quanto apontar isso.

   Haruto disse com um sorriso ainda no rosto.

“Então, vamos?”

“Sim!”

   Ayaka respondeu de forma animada. Caminhando ao lado dela, Haruto sentia vários olhares de ciúmes, inveja e outros, e teve um pressentimento de que hoje seria um dia muito difícil.

   Mas mesmo enquanto pensava isso, o coração de Haruto batia um pouco mais rápido.

   No entanto, tentando não deixar que essa empolgação aparecesse em seu rosto, ele manteve a compostura e seguiu em direção ao prédio da estação.

“Estou empolgada para o filme de hoje.”

   Ao seu lado, Ayaka caminhava com leveza, sorrindo para ele.

“Sim, eu também estou ansioso.”

  Haruto, sentindo-se ofuscado pelo sorriso encantador e radiante dela, abriu a boca para falar depois de uma breve pausa, tendo tomado sua decisão.

“Você está... muito linda hoje, Tōjō-san.”

“Hã!? V-Você acha?”

   Ayaka estava claramente vestida com suas roupas de “sair” hoje.

   Como uma cortesia para ela, que claramente tinha se arrumado para o dia, Haruto vinha pensando que precisava elogiá-la, mas para um garoto adolescente, dizer isso em voz alta era bastante embaraçoso, e ele só agora conseguiu dizer.

   Com as palavras de Haruto, os ombros de Ayaka estremeceram enquanto ela olhava para ele timidamente.

“Sim, hoje você tem um ar de uma mulher madura, mas também uma sensação de fofura e, hmm... eu acho que você está muito... encantadora.”

   Enquanto Haruto dizia isso, ele sentia seu próprio rosto ficando vermelho.

  Se possível, ele gostaria de elogiar Ayaka de maneira mais natural e tranquila, mas sua timidez falou mais alto e ele não conseguiu dizer do jeito que queria, suas palavras ficando um pouco engasgadas.

“C-Certo... obrigada...”

   Ayaka, por outro lado, agradeceu com uma voz baixa enquanto olhava para baixo.

   Com a reação dela, Haruto começou a se preocupar, imaginando se suas palavras de agora foram melosas demais. Talvez fossem estranhas. Esse sentimento ansioso se espalhou lentamente em seu coração, enquanto ele se perguntava se estava realmente cumprindo a conduta cavalheiresca que sua avó havia lhe dito na noite passada. Foi então que Ayaka, que estava olhando para baixo, levantou o rosto de repente para olhar para Haruto.

“Hum... você também está bonito hoje, Ōtsuki-kun.”

  Ayaka disse isso com um olhar tímido para cima. Seu poder destrutivo dissipou os pensamentos sombrios de Haruto em um instante.

“Você sempre está, Ōtsuki-kun, mas hoje você parece mais, hmm... maduro...”

   Haruto sentiu seu coração acelerar quando Ayaka disse isso, mesmo enquanto corava.

   Ao mesmo tempo, ele entendeu por que os garotos da escola estavam sempre confessando para ela.

   Ele sentiu que tinha conseguido vislumbrar o motivo pelo qual Ayaka era tão popular a ponto de ser chamada de “Idol da Escola”.

   Haruto e Ayaka se elogiaram mutuamente, ambos corando, e chegaram ao andar do cinema, no nível superior do prédio da estação. A iluminação, um pouco mais fraca do que nos outros andares, e o aroma único, semelhante a caramelo, da sala de cinema acariciavam seus narizes.

  Depois de comprar os ingressos que tinham reservado previamente na máquina automática, os dois olharam para o balcão de pipoca, de onde vinha um aroma docemente tentador.

“Quando se assiste filmes, Tōjō-san, você é do tipo que compra pipoca e bebida?”

“Depende da hora, eu acho? Eu não consigo comer muito, então muitas vezes eu divido com amigas.”

“Então, faremos isso desta vez também?”

“Sim, vamos fazer isso.”

“Entendido. Então, vou comprar, por favor espere um momento.”

  Como a área do balcão de pedidos estava cheia de pessoas, Haruto fez Ayaka esperar enquanto ele mesmo entrava na fila. Talvez porque fosse a temporada de férias de verão, havia bastante gente, e três filas tinham se formado na frente do balcão para fazer pedidos.

“Isso vai demorar um pouco.”

   Murmurando isso, Haruto entrou na parte de trás da fila do meio.

“Bem, temos bastante tempo.”

  Como eles tinham chegado antes da hora marcada, havia bastante tempo até o filme começar. Haruto soltou um pequeno suspiro enquanto permanecia na fila que avançava lentamente.

  Estando longe de Ayaka, ele finalmente pôde respirar, sem mais sentir os olhares que estavam constantemente sobre ele até um momento atrás.

“A Tōjō-san passa por esses tipos de olhares toda vez que sai? Isso deve ser difícil.”

  Sentindo pena de Ayaka, Haruto casualmente lançou um olhar para onde ela estava esperando. Lá, ele viu Ayaka com uma expressão perturbada, sendo abordada por três homens com aparência de universitários.

   Vendo aquela cena, Haruto, que estava prestes a fazer seu pedido, saiu da fila e rapidamente voltou para o lado de Ayaka.

“Hum, com licença.”

  Quando Haruto chamou em uma voz um pouco alta, os três homens notaram sua presença e viraram seus rostos em sua direção.

“Oh? Ela tinha namorado?”

   Um homem de cabelo castanho claro e muitos piercings olhou para Haruto com uma expressão um pouco surpresa.

“Entendi, vocês estavam em um encontro. Foi mal então. Desculpa aí~”

   Outro homem, também com cabelo castanho e piercings, levantou levemente a mão para Ayaka em desculpas.

“Ah, não. Hmm, tudo bem.”

   Ayaka disse isso enquanto se aproximava de Haruto, que havia voltado.

   Observando isso, o terceiro homem, um sujeito de cabelo vermelho chamativo e piercings nas pálpebras e lábios, abriu um sorriso e disse em um tom cheio de energia:

“Eh!? Ele é mesmo seu namorado!? Vocês são só amigos, né!? Se for assim, por que nós cinco não saímos juntos? Vamos fazer um karaokê ou jogar dardos!”

“Não, estamos planejando assistir a um filme agora.”

   Haruto mostrou uma atitude resoluta diante do homem de cabelo vermelho um pouco insistente. No entanto, o homem de cabelo vermelho não demonstrou nenhum sinal de recuar e continuou sorrindo.

“É mesmo? Nah, a gente espera de boa, de boa! Na verdade, por que a gente não assiste o filme com vocês? Certo?”

   Quando o homem de cabelo vermelho disse isso aos outros dois, o homem de cabelo castanho que havia se desculpado com Ayaka antes fez um sorriso torto.

“Cara, para de encher. Não é justo com eles. Eles estão em um encontro.”

“Eh? Eles estão mesmo em um encontro? Não pode ser, né? Eles são só amigos, né? Hein?”

   O homem de cabelo vermelho perguntou, espiando Ayaka, que estava meio escondida atrás de Haruto. Irritado com as ações do homem, Haruto estava prestes a abrir a boca para retrucar quando Ayaka, que estava atrás dele, falou antes.

“Ele é meu namorado!! N-Nós estamos namorando! E-E... hmm, estamos em um e-encontro, então! Hmm, se vocês pudessem ir embora...”

   Haruto assumiu depois que a voz de Ayaka enfraqueceu no final.

“...Então, como ela disse, poderiam por favor parar de interferir no nosso encontro?”

  Por um momento, os pensamentos de Haruto congelaram com a afirmação dela. No entanto, ele rapidamente se recuperou e falou de um modo que afastasse o homem de cabelo vermelho.

“É assim? Sério? Então, deixe-me me desculpar, okay? Um pedido de desculpas de verdade. Hein? Um pedido de desculpas serve, certo?”

  Mesmo depois de ouvir tudo aquilo, o homem de cabelo vermelho tentou insistir e estendeu a mão em direção a Ayaka, que estava atrás de Haruto.

   No mesmo instante, Haruto deu meio passo para o lado para bloquear o braço do homem, escondendo completamente Ayaka atrás de suas costas. Ao mesmo tempo, lançou um olhar afiado para o homem de cabelo vermelho.

“Você está sendo um incômodo. Por favor, pare.”

   Haruto declarou calmamente com uma voz mais baixa, seus olhos cheios do tipo de espírito de luta que se vê em uma luta de karatê enquanto encarava o homem de cabelo vermelho.

“Q-Qual é o seu problema? Eu só convidei ela, só isso.”

  O homem de cabelo vermelho finalmente recuou diante da aura de Haruto. Nesse momento, os outros dois homens de cabelo castanho intervieram para pará-lo.

“Cara, sério, para! Não é justo com eles! Vamos embora!”

“Sim, desculpa mesmo por isso~ Aproveitem o encontro~”

“Ei, ei! Para! Não me puxem!”

   Dizendo essas coisas, os três homens saíram tumultuando, se afastando de Haruto e Ayaka.

   Vendo-os ir embora, Haruto também exalou, liberando a leve tensão em modo-karatê que tinha assumido.

Hah... ele era uma pessoa bem insistente, não era?”

“S-Sim. Foi um pouco assustador. Ainda bem que você voltou, Ōtsuki-kun...”

“Não, foi culpa minha por te deixar sozinha, Tōjō-san. Eu deveria ter previsto que alguém tentaria te abordar. Me desculpe.”

   Haruto abaixou a cabeça, e Ayaka rapidamente balançou a própria cabeça.

“Não! Não é sua culpa, Ōtsuki-kun! E, me desculpe. Por... hmm... dizer que você era meu... namorado.”

   Ayaka disse, olhando para baixo de forma arrependida. Haruto sorriu e respondeu.

“Não, aquele cara era bem insistente, então ele não teria recuado a menos que você dissesse algo desse tipo.”

  Com alguém como aquele homem de cabelo vermelho, era preciso ser um pouco exagerado e direto para que a mensagem fosse compreendida.

“Sim, hmm... você não se incomodou, se incomodou, Ōtsuki-kun? De eu ter dito que estávamos namorando...”

“Claro que não me incomodei. Na verdade, eu fiquei feliz.”

“Mesmo!?”

   Com as palavras de Haruto, a expressão antes ansiosa de Ayaka se transformou em uma brilhante.

“É verdade. Sinta-se livre para me usar como repelente de homens à vontade.”

“E-Então... hmm... bem... não, deixa pra lá.”

   Ayaka começou a dizer algo, mas parou no meio, e Haruto inclinou a cabeça.

“O que foi? Se houver algo, por favor não hesite em dizer.”

“...Está tudo bem?”

“Claro.”

“...Então. Hmm... segurar as... mãos?”

   Ayaka disse isso com uma voz tão baixa que mal podia ser ouvida, seu rosto ficando vermelho até as orelhas.

“Mãos?”

   Haruto não pôde evitar repetir, e Ayaka deu um pequeno aceno.

“Se você não se importar, Ōtsuki-kun... eu pensei que pareceríamos mais um casal assim. E então, algo como o que acabou de acontecer provavelmente não aconteceria de novo...”

“Oh... E-Entendo.”

   O que ela disse fazia sentido.

   Se eles estivessem andando de mãos dadas, seria óbvio para qualquer observador que eles eram um casal. Ninguém ousaria abordá-los como antes.

“Você está bem com isso, Tōjō-san?”

“Eu... estou.”

  Depois de acenar com a cabeça, Ayaka acrescentou, em uma voz extremamente pequena, como uma gotinha caindo em uma poça d’água: “Se for com você, Ōtsuki-kun.”

“Entendi... Então, vamos dar as mãos?”

“S-Sim.”

   Ouvindo a resposta de Ayaka, Haruto estendeu a mão, de forma um tanto desajeitada.

   Ayaka, por sua vez, estendeu sua mão.

  Haruto estendeu cuidadosamente a mão em direção à mão branca e delicada de Ayaka. Quando suas mãos finalmente fizeram um leve contato, ambos estremeceram com um sobressalto nos ombros e afastaram as mãos, mesmo tendo acabado de aproximá-las.

“...”

“...”

   Os dois se olharam em silêncio, e depois desviaram o olhar em silêncio.

  Haruto reuniu coragem, rapidamente estendeu a mão e pegou a mão de Ayaka. No momento em que fez isso, o ombro de Ayaka tremeu da mesma forma que antes, mas desta vez ela não afastou a mão e apertou de leve a mão de Haruto de volta.

“...Ah, a pipoca, deveríamos comprar alguma?”

   Logo depois de pegar a mão de Ayaka, Haruto lembrou que estava no meio de comprar pipoca.

   Haruto disse isso, olhando para as mãos deles entrelaçadas. A área ao redor do balcão de pedidos ainda estava cheia, e parecia que seria um incômodo para os outros ficar na fila de mãos dadas.

“...Está tudo bem. Eu... não quero... soltar... a sua mão.”

   Ayaka respondeu com sua voz ainda quase inaudível.

   Seu rosto agora estava mais vermelho do que jamais estivera.

“...Entendo.”

   Pensando que seu próprio rosto provavelmente também estava vermelho, Haruto puxou suavemente a mão que segurava a dela.

“Bem então... vamos assistir ao filme?”

“...Uhum.”

    Ayaka deixou Haruto guiá-la pela mão de forma obediente.

  Para Haruto, o comportamento adorável dela tornava completamente irrelevantes os olhares de ciúme das pessoas ao redor.

  Os dois entraram no cinema ainda de mãos dadas. Haruto verificou os números dos assentos escritos no ingresso com a mão livre e seguiu para os lugares deles.

   Como haviam entrado no cinema bastante antes do horário de início, havia poucas outras pessoas, e os dois conseguiram chegar aos assentos lado a lado sem precisar soltar as mãos.

“Estes são nossos lugares.”

“Uhum.”

   Desde que começaram a andar de mãos dadas, Ayaka tinha estado muito tímida, e as palavras que dizia eram curtas e sua voz era baixa.

“Então, vamos sentar?”

“Uhum.”

   Para abaixar o assento, que estava levantado, Haruto tentou soltar a mão de Ayaka por um momento. Quando fez isso, ela apertou sua mão com força, como se relutasse em deixá-lo ir.

   Como se dissesse: “Não solte.”

   No entanto, era apenas por um instante, então Haruto soltou a mão dela mesmo assim.

  Os dois se sentaram em silêncio. A ação dela antes de soltar sua mão fez Haruto se sentir um pouco inquieto, e ele colocou sua mão no apoio de braço.

   Então, o dorso da mão dele foi envolvido por uma sensação suave e quente.

  Haruto instintivamente olhou para sua própria mão. Ali, viu a pequena mão branca de Ayaka, timidamente colocada sobre a sua. Quando levantou os olhos, viu que ela olhava para baixo, como se quisesse evitar seu olhar.

    Então, isso significa que ela quer segurar a minha mão de novo? Haruto adivinhou a intenção de Ayaka e, para testar, virou a mão para tocar sua palma na dela. Imediatamente, Ayaka apertou a mão de Haruto com firmeza.

  Haruto, muito curioso sobre a expressão de Ayaka naquele momento, furtivamente lançou um olhar para seu rosto. Então, encontrou os olhos de Ayaka, que sorria pequena e feliz, embora timidamente.

  A expressão dela era tão encantadora que Haruto sentiu uma vontade enorme de continuar olhando para ela para sempre. No entanto, envergonhada ao ter seus olhares cruzados, Ayaka rapidamente virou o rosto para a tela.

   A grande tela à frente deles ainda estava em branco.

   Mas Ayaka a encarava fixamente, como se um filme já estivesse passando.

“Ainda temos bastante tempo.”

“...Uhum.”

“Os trailers nem começaram.”

“...Uhum.”

“O número de pessoas está começando a aumentar um pouco.”

“...Uhum.”

“...”

“...”

  A conversa não ia a lugar algum, e Haruto olhou ao redor, tentando encontrar algo para comentar.

   Então, Ayaka falou com sua habitual voz baixa.

“...O-O clima hoje está muito bom, não está?”

“Eh? Ah, ah, sim. É um dia claro, não é?”

“Sim... um dia claro.”

“Sim... hum...”

[Del: A carta na manga “puxar assunto sobre o clima” foi ativada!]

   A conversa parou. Falar sobre o clima em um cinema escuro e sem janelas era prova de que eles já tinham esgotado os tópicos.

“...Você acha que os trailers vão começar logo?”

“...Parece que estão prestes a começar...”

[Del: Alou~, o zoológico…]

   O número de pessoas no cinema havia aumentado em comparação ao de antes.

  Haruto, sentindo-se um pouco ansioso com a conversa travada, decidiu assumir uma postura firme e tentar seguir em frente com uma atitude relaxada.

“...”

“...”

   Um momento de silêncio passou entre os dois.

   Por causa do silêncio, Haruto ficou ainda mais consciente da mão que segurava a de Ayaka. A palma dela, esguia e branca, que estava um pouco fria quando ele a segurou pela primeira vez, agora estava levemente quente.

   Tōjō Ayaka, considerada a garota mais bonita da escola de Haruto, a “Idol da Escola”. Estar sentado ao lado dela em um cinema, de mãos dadas, fazia o coração de Haruto bater descontroladamente mais rápido.

   Em sua mente, prestes a ser dominada pelo calor transmitido de sua mão esquerda, Haruto pensou.

   Ele podia entender segurar as mãos para afastar homens. Mas não era desnecessário segurar as mãos enquanto assistiam a um filme? Contudo, na situação atual, em que parecia que Ayaka não tinha intenção alguma de soltar, uma interpretação conveniente surgiu na mente de Haruto.

   Ele espiou o estado de Ayaka pelo canto do olho. Como sempre, ela estava olhando fixamente para a tela com as bochechas coradas. Observando seu perfil, Haruto reconsiderou seus pensamentos.

   Haruto só havia começado a interagir com Ayaka recentemente. Nesse tempo, ele não havia feito nada que pudesse fazê-la desenvolver sentimentos por ele, pensou, balançando a cabeça levemente.

   Ela não o detestava, mas também não havia nada que a fizesse gostar dele.

   Haruto tentou pensar com a maior calma possível, afastando a interpretação conveniente para si mesmo.

   Enquanto pensava nisso e olhava para ela pelo canto do olho, os olhos de Ayaka, que estavam na tela, de repente viraram para Haruto, e seus olhares se encontraram diretamente.

“!?”

“!?”

  Haruto rapidamente desviou o olhar para a frente, e Ayaka abaixou a cabeça. Justo quando um clima constrangedor estava prestes a retornar, as luzes do cinema diminuíram um pouco no momento perfeito, e anúncios apareceram na tela.

“Os anúncios começaram.”

“Sim, começaram.”

   A conversa ainda era curta, mas com as imagens passando diante deles, o constrangimento foi um pouco aliviado.

   Haruto assistia distraído ao vídeo contra pirataria, que mostrava uma câmera dançando vigorosamente, enquanto pensava na reação de Ayaka.

   Vendo a reação dela agora há pouco, ele não conseguia evitar ter algumas expectativas. No entanto, também tinha uma forte sensação de que poderia ser apenas um mal-entendido.

   Haruto, que ainda tinha uma forte impressão da Ayaka da escola, a via como alguém que não tinha qualquer relação com coisas como amor à primeira vista.

   Depois que os anúncios terminarem, ele estava vagamente assistindo aos trailers de filmes que iriam estrear, enquanto se preocupava com essas coisas, quando o cinema finalmente ficou completamente escuro. Na tela, o logo triangular de uma produtora cinematográfica surgiu entre ondas batendo nas rochas.

“Está começando.”

“Sim... Estou animada.”

“Eu também.”

   Depois dessa curta conversa, o filme começou.

   O filme começa retratando um estudante do ensino médio interpretado por um jovem ator bonitão e uma estudante do ensino médio interpretada por uma idol em ascensão, vivendo suas rotinas na escola antes das férias de verão.

   Haruto ficou aliviado por estar livre da conversa travada e do silêncio constrangedor. Mas isso durou pouco. Outro problema começou a incomodar Haruto.

   O filme que eles estavam assistindo era o que normalmente se chama de “filme juvenil de fazer o coração bater.” Por isso, o filme estava cheio de gestos que faziam o coração acelerar, como “carinho na cabeça”, “abraço por trás”, “puxar pelo braço” e “levantar o queixo”.

   Toda vez que uma dessas cenas aparecia, Ayaka soltava um suspiro como “haa” ou “hou” e encarava a tela com olhos brilhando.

   Se fosse só isso, não haveria problema para Haruto. Ele só pensaria consigo mesmo: Tōjō-san é bem, não, extremamente romântica no coração, e seria só isso.

   No entanto, eles estavam de mãos dadas.

   E, provavelmente sem perceber, ela soltava um suspiro e ao mesmo tempo apertava levemente a palma de Haruto. Toda vez que Ayaka apertava sua mão, o coração de Haruto disparava, e ele olhava de relance para sua expressão, encantado com o rosto dela, iluminado pela fascinação pelo filme.

   Se isso continuasse acontecendo, o conteúdo do filme não entraria na cabeça dele de jeito nenhum.

  Conforme o tempo passava assim, e o filme estava prestes a chegar à metade, Ayaka continuava a apertar inconscientemente sua mão sem piedade, colocando pressão no coração de Haruto. Em resposta a ela, Haruto começou a sentir um senso de rivalidade.

   Tendo uma natureza um tanto competitiva, ele não gostava de ser o único ficando nervoso por causa de Ayaka. Não era que ele detestasse a situação, mas estar sempre apenas recebendo aquilo não combinava com o jeito de Haruto.

   Haruto esperou atentamente pelo momento certo.

   Ele afastou os pensamentos distraídos de sua mente e tentou desesperadamente acalmar seu coração acelerado.

   Ele focou seu olhar na tela e sincronizou seu movimento.

   Eventualmente, a cena em que o protagonista e a heroína, sozinhos em uma sala de aula, se beijam enquanto estão envolvidos por uma cortina, chegou.

  No momento em que viu essa cena, Haruto se preparou, pensando: Agora é minha chance!

   Como esperava, nessa cena, ele ouviu um suspiro de “aa” ao seu lado, e ao mesmo tempo, sua palma foi apertada com força. Nesse instante, Haruto também apertou a palma de Ayaka firmemente.

“Ah!?”

   Ao mesmo tempo, um pequeno grito sem voz foi ouvido ao lado dele.

   Haruto virou o olhar para o lado para verificar a condição de Ayaka. Ela estava com seus olhos grandes, de pálpebras duplas, bem abertos em surpresa, encarando a tela completamente congelada.

   Talvez ela estivesse apenas emocionada demais com a cena anterior.

   Pensando isso, Haruto tentou apertar a palma de Ayaka algumas vezes, “gyu, gyu.” Então, como se um efeito sonoro de “pshuu~” pudesse ser ouvido, Ayaka desviou o olhar da tela e olhou para baixo.

   O fato de a reação de Ayaka ter sido maior do que o esperado deixou Haruto um pouco confuso, pensando: Huh? Eu exagerei um pouco? e ele parou temporariamente de apertar sua palma.

   Então, Ayaka, que estava olhando para baixo, levantou o rosto e olhou para Haruto com um olhar de baixo para cima.

“...Uuu...”

   Como se estivesse protestando contra algo.

   E ainda assim, como se estivesse pedindo algo.

   Com apenas a luz da tela iluminando-a fracamente, a expressão de Ayaka estava de algum modo fantástica e cativante, e Haruto se viu encarando sua expressão.

   Então, com uma força claramente maior do que quando ela havia apertado sua mão inconscientemente antes, a mão de Haruto foi apertada com firmeza. Com Ayaka olhando para ele com aquele olhar de baixo para cima e sua palma sendo apertada com força, desta vez foi a vez de Haruto corar com uma intensidade que parecia produzir um efeito sonoro de “bofun!” Para evitar que sua expressão fosse vista, Haruto apressadamente virou o rosto para a tela.

   Haruto foi esplendidamente contra-atacado.

   Em seu ouvido, ele ouviu suavemente o sorriso de Ayaka, “fufu.” Naquela declaração de vitória, Haruto admitiu honestamente a derrota. Embora fosse competitivo, essa derrota estranhamente não parecia nada desagradável.

   Depois disso, os dois assistiram ao filme em silêncio, ainda de mãos dadas.

   Haruto já estava completamente incapaz de acompanhar o enredo do filme.

   No entanto, para evitar ser contra-atacado por Ayaka novamente, Haruto encarou silenciosamente a tela.

   Eventualmente, o filme chegou à sua cena final.

   Embora ele não tivesse ideia de como aquilo havia acontecido, o protagonista e a heroína, que terminaram felizes juntos, caminhavam lentamente por uma margem de rio iluminada pelo pôr do sol. O filme concluiu com um ângulo de câmera aproximado de suas mãos entrelaçadas, com os dedos unidos em um “segurar de amantes.”

   A música final começou a tocar, e os créditos, junto com a música tema do filme, foram exibidos na tela. Entre o público, algumas pessoas já haviam se levantado e estavam indo para a saída.

     Será que Ayaka é do tipo que assiste até o final? Haruto pensou e virou seu olhar para ela. Então, ele a viu, ainda olhando para a tela onde os créditos rolavam, começar a se mexer com sua palma.

   Haruto pensou que ela queria soltar sua mão e abriu sua própria palma.

   Eles estavam de mãos dadas desde antes de o filme começar. Isso significava que estavam de mãos dadas havia mais de duas horas. Haruto, que também estava preocupado com o suor de sua própria mão, tentou puxar sua palma de volta para aproveitar a oportunidade e limpá-la. Mas isso não aconteceu.

   Ayaka não puxou sua palma para longe da de Haruto, mas, em vez disso, entrelaçou seus dedos e apertou sua mão novamente.

   As palmas de Haruto e Ayaka se encontraram novamente. Dessa vez, não era o aperto semelhante a um aperto de mãos de antes, mas uma versão aprimorada, com seus dedos entrelaçados em um “segurar de amantes.”

“Hum... Tōjō-san?”

   Haruto não conseguiu evitar chamá-la.

“...Ōtsuki-kun, você é do tipo que assiste os créditos finais até o fim?”

“Eh? Ah, sim.”

   Ayaka, que não tocou no assunto do segurar de amantes, deixou Haruto confuso. Para ele, Ayaka disse timidamente, ainda desviando o olhar.

“Então... até o final... vamos assistir juntos?”

   Para a Ayaka que pedia de forma tão adorável, Haruto tinha apenas uma resposta.

“Sim, claro.”

   O filme que ele assistiu hoje provavelmente seria um filme que Haruto jamais esqueceria pelo resto de sua vida, mesmo que ele não tivesse ideia do que se tratava.

 

✦ ✦ ✦

 

   Depois de assistir ao filme, os dois foram a um café no andar abaixo do cinema.

   Era um café que Haruto havia pesquisado na noite anterior, um lugar estiloso com uma vista panorâmica da cidade pela janela.

   Eles foram conduzidos a um assento na janela, e Haruto sorriu naturalmente diante de Ayaka, que estava encantada com a vista do andar alto.

“Uau, a vista é linda!”

“Fico feliz que você tenha gostado.”

   Haruto ficou aliviado por sua escolha de loja não ter sido um erro.

“Obrigada por ter procurado a loja.”

“Que isso...”

   Ayaka lhe deu um sorriso encantador sem reservas. Haruto, sentindo-se envergonhado, abriu o menu na frente de seu rosto para escondê-lo.

“Hum, acho que vou querer um café gelado. E você, Tōjō-san?”

“Acho que vou querer um café au lait gelado.”

“Entendido. Vai pedir mais alguma coisa?”

“Não, estou bem.”

“Entendido.”

   Depois que decidiram seus pedidos, Haruto chamou a garçonete.

   Após dizer a ela o pedido dele e de Ayaka, Haruto tomou um gole leve de água.

   Então, Ayaka lhe disse:

“Como foi o filme, Ōtsuki-kun? Foi interessante?”

“Eh? Ah, bem... sim. Acho que se tornou um filme que vou lembrar pelo resto da minha vida.”

   Sem poder dizer que não conseguiu absorver o conteúdo do filme por estar de mãos dadas com Ayaka o tempo todo, Haruto respondeu com uma expressão um pouco ambígua.

“E você, Tōjō-san?”

“Foi muito interessante! Mas...”

“Mas?”

“Hum... da metade em diante, eu meio que... não consegui... entender o conteúdo, eu acho.”

   Aquela metade provavelmente era quando Haruto iniciou seu contra-ataque.

“E-entendo.”

“Sim... mas, acho que também nunca vou esquecer esse filme pelo resto da minha vida.”

   Ayaka disse, corando. Ao ver seu sorriso, o coração de Haruto disparou.

“...O mesmo aqui.”

“É... o mesmo aqui.”

   Depois que os dois disseram isso timidamente, um breve silêncio caiu.

“Hum, aliás, sobre a nossa ida ao zoológico.”

“Ah, sim! Verdade. Precisamos decidir isso.”

   Com as palavras de Haruto, Ayaka assentiu como se tivesse acabado de se lembrar.

   O filme era mais um adicional, e aquele era o assunto principal, mas parecia que ela tinha esquecido até agora. Haruto deu um sorriso torto para aquela Ayaka.

“Tem algum zoológico específico onde você queira ir, Tōjō-san?”

“Acho que eu gostaria de ir a algum lugar onde possamos interagir com os animais.”

“Concordo.”

   Haruto também concordou com a opinião de Ayaka.

   Afinal, esse assunto de ir ao zoológico começou por causa do jeito animado com que Ayaka olhava para um filhote no centro doméstico.

“Hum, é um pouco diferente de um zoológico, mas que tal irmos ao ‘Parque Floresta dos Animais’?”

“Oh, parece bom.”

   Ayaka também concordou com a sugestão de Haruto.

   O ‘Parque Floresta dos Animais’ é um parque vasto com o tema da natureza, e dentro dele, além da área de interação com animais, há uma área com muitos equipamentos de playground, além de uma área de brincadeiras com água, perfeita no calor que não dava trégua.

“Como o Ryōta-kun vai estar com a gente desta vez, eu pensei que seria mais divertido para ele se pudesse brincar de várias formas, para não ficar entediado.”

“Aham! Você está certo!”

“E também tem uma área de gramado ali, então pensei que seria legal levar um bento e comer sentados numa lona na grama.”

“Sim! Essa é uma ótima ideia!”

   Ayaka concordou com uma expressão radiante.

“Então, está decidido que vamos ao ‘Parque Floresta dos Animais’?”

“Sim! Está decidido! Quanto à data, quando você está livre, Ōtsuki-kun?”

“Vamos ver. Não tenho planos específicos além do meu trabalho de meio período, então qualquer dia de folga do trabalho está bom.”

“Ah, entendi.”

   Ao ouvir sobre o trabalho de meio período de Haruto, Ayaka fez uma expressão levemente apologética.

“Está tudo bem para você vir até minha casa no seu dia de folga?”

   O trabalho de meio período de Haruto era o serviço de limpeza na casa da família Tōjō. Então, Ayaka talvez se sentisse um pouco culpada por fazê-lo ir até a casa dela em seu dia de folga.

“Não, não, não tem problema nenhum.”

“Sério? Se você não quiser, por favor, não hesite em dizer.”

“De jeito nenhum! Eu também estou animado para brincar com o Ryōta-kun.”

“Tenho certeza de que o Ryōta vai ficar muito feliz quando eu contar que você disse isso.”

   Imaginando a reação de Ryōta naquela hora, os dois riram: “fufu”.

“Então, está bem se formos ao ‘Parque Floresta dos Animais’ na próxima semana, no meu dia de folga?”

“Sim, está ótimo.”

“Então, nesse dia, eu vou preparar um bento e passar na sua casa de manhã para te buscar.”

   Haruto disse, e Ayaka balançou a cabeça.

“Não é certo deixar você fazer o bento. Você não estará fazendo serviço doméstico naquele dia, Ōtsuki-kun, então eu deveria fazer o bento.”

“Não, tudo bem. Eu não desgosto de cozinhar.”

“Mas...”

   Ayaka parecia arrependida. Depois de pensar um pouco, ela teve uma ideia.

“Então, que tal fazermos o bento juntos de manhã?”

“Oh, isso é uma boa ideia. Vamos fazer assim?”

“Sim!”

   Ayaka assentiu feliz.

   E assim, os dois decidiram fazer o bento juntos pela manhã e ir ao ‘Parque Floresta dos Animais’ com Ryōta.

   Depois disso, os dois conversaram animadamente sobre o que colocar no bento.

   E, quando terminaram mais ou menos a conversa e suas bebidas acabaram, eles deixaram o café.

“Então... vamos voltar?”

“Sim... vamos.”

   Depois de saírem do café, os dois pararam por um momento.

“...Hum...”

   Ayaka parecia querer dizer algo a Haruto, abrindo e fechando as mãos. Vendo isso, Haruto inclinou a cabeça e a observou.

   Recebendo o olhar dele, Ayaka corou timidamente.

“Aconteceu algo?”

“É que... hum...”

   Ayaka começou a dizer alguma coisa, mas fechou a boca de novo como se as palavras tivessem ficado presas. Sua mão direita, enquanto ela se remexia e olhava para baixo, estava repetidamente abrindo e fechando.

   Notando isso, Haruto adivinhou o desejo de Ayaka e estendeu gentilmente sua mão esquerda.

“Quer segurar minha mão?”

“Eh!?”

   Com as palavras de Haruto, Ayaka encarou seu rosto com uma expressão surpresa.

“Hum... seria um problema se você fosse paquerada de novo... se você não se importar, Tōjō-san.”

   Haruto desviou um pouco o olhar de Ayaka e estendeu sua mão esquerda de forma tímida, suas orelhas ficando vermelhas de vergonha.

   Ao ver isso, Ayaka abriu um sorriso de orelha a orelha e, como se agarrasse uma chance, entrelaçou sua mão direita na mão esquerda dele.

“Eu não me importo! Não me importo nem um pouco!”

   Ela disse, apertando firmemente a palma de Haruto.

“E-Então, eu vou te acompanhar até sua casa.”

“Sim, por favor!”

   Ayaka disse a Haruto com um sorriso radiante.

   Os dois partiram para casa de mãos dadas. Para as pessoas que passavam, eles pareciam um casal tão próximo que a ideia de alguém tentar paquerá-la nem chegaria a passar pela cabeça.

 

— Almeranto: No Japão (e também na Coreia e em menor grau em Taiwan), existe uma ideia popular chamada "ketsueki-gata" (血液型) — literalmente “tipo sanguíneo” — que associa personalidade e comportamento ao tipo de sangue da pessoa. Porém, isso não tem base científica, é uma superstição socialmente difundida, muito usada em conversas leves, animes, doramas e até em revistas e sites de relacionamento.

 Tipo A

• Perfeccionista, organizado, responsável;

• Introvertido, reservado, um pouco tímido;

• Gosta de regras e ordem.

Tipo B

• Criativo, emocional, individualista;

• Espontâneo, às vezes imprevisível;

• Pode parecer distraído, mas é sincero com seus sentimentos.

Tipo O

• Sociável, otimista, confiante;

• Líder natural, determinado;

• Também relaxado e despreocupado em alguns aspectos.

Tipo AB

• Intelectual, misterioso, imprevisível;

• Pode parecer frio ou distante, mas é sensível;

• É dito ter “duas personalidades” (mistura de A e B).

 

 

Traduzido por Moonlight Valley

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