Volume 1

Capítulo 4: Novos Sentimentos, Um Coração em Conflito

 Ōtsuki Haruto

 

   No dia seguinte à assinatura do contrato regular de serviços domésticos com a família Tōjō.

   Uma manhã no início do verão, quando o céu apenas começava a clarear.

   Sentindo a brisa suave que entrava pela janela, Haruto abriu um livro de referência sobre a escrivaninha e passou a caneta pelo caderno. Mesmo nos dias de verão em que o sol castigava sem piedade, aquele horário da manhã ainda era um pouco fresco, e Haruto — cujo ar-condicionado estava com defeito — costumava estudar nesse período.

   Ele estudava com vigor sob o céu que despertava em silêncio, seu olhar sério concentrado no conteúdo. Mas o súbito chilrear de um pássaro fez com que desviasse o olhar para fora da janela.

“Acabei assinando um contrato regular, hein...”

   O que passou por sua mente foram os acontecimentos do dia anterior na casa dos Tōjō.

   Ikue, radiante ao ver a casa arrumada. Shūichi e Ryōta saboreando a comida com gosto. E Ayaka, dizendo timidamente: “Conto com você, Ōtsuki-kun”, com uma expressão suave e um leve ar de felicidade.

   Lembrando-se das reações satisfeitas da família Tōjō ao ver seu trabalho doméstico, o rosto de Haruto relaxou naturalmente em um sorriso.

“Serviço de limpeza... é realmente gratificante.”

   Erguendo os olhos da janela para o céu, onde a cortina da noite era empurrada pela luz do horizonte, Haruto murmurou para si mesmo.

   Depois disso, enquanto estudava com afinco, ele percebeu passos vindo do andar de baixo, parou de escrever e fechou o livro de referência.

“Será que a vovó já acordou também? Acho melhor começar a preparar o café da manhã.”

   Colocando a caneta de lado, esticou-se com um longo “Uuugh~” e saiu do quarto, seguindo para a cozinha no térreo.

“Bom dia, Haruto.”

“Bom dia, vovó.”

   Na cozinha, sua avó já estava preparando tamagoyaki. Haruto se posicionou ao lado dela e aqueceu o caldo dashi que havia deixado pronto no dia anterior.

“Você estava estudando de novo essa manhã?”, perguntou a avó enquanto passava o tamagoyaki pronto para um prato.

“Sim. Afinal, a principal responsabilidade de um estudante é estudar.”

“Mas não se esforce demais.”

“Eu estou bem”, respondeu Haruto, adicionando cebolinha picada ao dashi.

   Em seguida, ele abriu o compartimento de verduras da geladeira.

“Vovó, posso usar esse espinafre?”

“Claro.”

   Com a permissão dela, Haruto pegou dois espinafres e também um pouco de tofu. Enquanto a água fervia na chaleira elétrica, ele cortou o tofu, colocou no dashi e, quando começou a ferver levemente, desligou o fogo e misturou o miso.

“A propósito, Haruto, como vai o seu trabalho de meio período? Está indo bem?”

“Está indo perfeitamente. Graças a tudo o que você me ensinou, vovó.”

“Oh, é mesmo? Que maravilha.”

   Sorrindo calorosamente, sua avó despejou a água fervente da chaleira em uma panela, colocou-a no fogão e deu uma leve escaldada no espinafre.

“No meu primeiro dia de trabalho, fiz o hambúrguer com a sua receita secreta, e eles elogiaram tanto... disseram que parecia comida de restaurante chique.”

   Haruto contou, um pouco orgulhoso, enquanto servia o arroz recém-cozido em tigelas.

“Mas que coisa boa.”

“É tudo graças a você, vovó. Ah, vou esfriar o espinafre.”

   Haruto passou o espinafre escaldado para uma peneira e o resfriou com água fria. Enquanto isso, sua avó serviu a sopa de miso nas tigelas e levou o arroz e os acompanhamentos em uma bandeja até a mesa da sala. Haruto espremeu bem a água do espinafre, cortou-o, despejou um pouco de dashi branco por cima e finalizou com katsuobushi e gergelim moído.

“Pronto, o café da manhã está feito.”

   Ele colocou o ohitashi em um pratinho, levou-o até a mesa da sala e se sentou.

“Então, vamos comer?”

“Sim, itadakimasu.”

   Os dois juntaram as mãos e começaram a tomar o café da manhã.

   Haruto foi primeiro ao tamagoyaki que sua avó havia preparado.

“O tamagoyaki da vovó é tão delicioso. Por que é tão bom assim? O que tem de diferente do meu?”

“O seu também é bem gostoso, Haruto.”

“Não, não... o meu tamagoyaki ainda está muito longe do seu nível, vó...”

   Haruto refletiu, encarando seriamente o tamagoyaki depois de dar uma mordida. Vendo seu neto daquele jeito, os olhos da avó suavizaram, e um sorriso gentil surgiu em seu rosto.

“Falando nisso, Haruto, você ainda não tem namorada?”

“Huh—!? Ah, uh... é, isso mesmo, não.”

   Com a pergunta repentina, Haruto quase deixou cair o tamagoyaki que segurava com os hashis.

“É mesmo...? Haruto, você já está no segundo ano do ensino médio, não está? Não é normal ter uma namorada ou algo assim nessa idade?”

“N-não, não, não! Isso não é normal, okay!? Na minha escola tem muito mais caras sem namorada do que com!”

“É mesmo...?”

   Diante das palavras de Haruto, sua avó fez uma expressão levemente preocupada. Vendo aquilo, Haruto sentiu uma tristeza apertar o peito.

   Ultimamente, as costas da avó vinham piorando. E agora ela estava preocupada com o fato de Haruto não ter namorada. Adivinhando o motivo, ele engoliu a sensação de aperto no peito e forçou um sorriso.

“É assim mesmo! Os tempos da vovó e os de agora são completamente diferentes, sabe?”

   Deliberadamente tentando manter o tom alegre, Haruto continuou:

“Além disso, mesmo que eu arrumasse uma namorada agora, não quer dizer que eu vá casar com ela. Eu ainda tenho só dezessete anos, né?”

“Bem, isso é verdade...”

“Pois é! ...Então não se preocupe, vovó. Um dia vou te apresentar uma namorada incrivelmente bonita, pode acreditar!”

   Haruto declarou isso para a avó — sua única família — com uma confiança absoluta.

“É mesmo? Então vou esperar ansiosa.”

   Diante da declaração do neto, a avó sorriu docemente.

 

✦ ✦ ✦

 

   O sol começava a subir, insinuando que mais um dia escaldante estava por vir, mas ainda era uma manhã de verão com temperatura agradável.

   Enquanto observava pessoas saindo para correr, dedicadas à saúde, Haruto caminhava devagar por um bairro residencial silencioso.

“Namorada, hein...”

   Haruto lembrou da conversa que tivera com a avó no café da manhã.

   Considerando a idade dela e quanto tempo de vida ainda lhe restava, era natural que se preocupasse com várias coisas sobre o neto que um dia deixaria para trás. Entendendo isso, Haruto soltou um suspiro curto:

Fuu.”

   Se pudesse apresentá-la a uma namorada, sua avó certamente ficaria muito feliz. Haruto também queria vê-la sorrir e deixá-la tranquila.

“Mas mesmo assim...”

   No momento, ele não conseguia imaginar sua rotina tendo uma namorada.

   Além disso, sua vida atual era tomada pelos estudos, pelo trabalho de meio período como faxineiro e pelo dojo de karatê, o que fazia seus dias serem ocupados e cheios.

“Eu não tenho tempo pra arrumar namorada mesmo...”

   Enquanto murmurava isso, o sorriso de uma certa garota surgiu em sua mente. O sorriso da garota considerada a mais bonita de toda a escola que Haruto frequentava.

“N-não, não. Impossível, impossível. Não quero me juntar à lista dos caras que se queimaram feio como o Kaitō-senpai.”

   Haruto sacudiu a cabeça, afastando a imagem do sorriso dela.

   Pouco depois, Haruto chegou ao seu destino. No portão à sua frente, havia uma placa de madeira grossa e brilhante com os dizeres:

Dōjima Dōjō — Karatê Kyokushin.

   Haruto passou pelo portão ao estilo japonês e entrou no dojo.

   O chão era de madeira, e as paredes exibiam pergaminhos com princípios como “Shin-Gi-Tai” (Mente–Técnica–Corpo) e “Começa com respeito e termina com respeito.”

   Ao inspirar profundamente, o cheiro de madeira misturado ao leve odor de suor fez o rosto de Haruto suavizar. Para ele — que frequentava aquele dojo desde a infância por insistência de seu avô — aquele lugar era como um segundo lar.

“Bom dia!”

   Haruto entrou, fez uma reverência e foi saudado por um homem grande e alto.

“Ei, Haruto! Bom dia! Resolveu aparecer hoje. Quando você falta, fica um tédio — não tem ninguém pra fazer kumite comigo!”

“Bom dia, Kazu-senpai.”

   O homem que Haruto cumprimentou era enorme, com quase dois metros de altura, cabelo raspado e três linhas raspadas na lateral.

   Seus olhos eram afiados, e as sobrancelhas finas deixavam seu olhar ainda mais intenso. E o detalhe decisivo: uma cicatriz descendo da têmpora até próximo da boca.

   Se alguém que não conhecesse ele o visse, 10 entre 10 pessoas pensariam imediatamente que ele era do submundo.

   Vendo aquela cicatriz, muitos tremeriam, imaginando que ele já havia sobrevivido a batalhas mortais — e até verificariam discretamente se seu dedo mindinho ainda estava lá.

[Del: Faz o L? | Almeranto: Acho que faz referência a Assassin's Creed]

   Mas Haruto sabia da verdade.

   Sabia que o hobby dele era fazer doces, que a cicatriz “temível” viera de brincar com um gato de rua, e que sua preocupação recente era o fato de que, embora adorasse crianças, elas sempre começavam a chorar só de olhar para ele.

   Haruto já tinha passado quase uma hora consolando-o profundamente depois disso.

“Quando é pra fazer kumite, todo mundo foge de mim.”

“Bem, a reputação do Ishigura Kazuaki é famosa na cidade inteira, né?”

“Seu desgraçado, hein! Não fica espalhando por aí que meu nome é sinônimo de terror!”

   Haruto, preso em um mata-leão de Ishigura, pediu desculpas repetidas vezes — “Foi mal, desculpa, foi mal!” — mas sorria enquanto isso.

   Ishigura, aplicando o golpe, também parecia estar se divertindo, esfregando os nós dos dedos na cabeça de Haruto.

   Ishigura, um ano mais velho e parceiro de dojo desde a infância, era como um irmão mais velho para Haruto — e Haruto, um irmão mais novo querido para ele. Os dois eram instrutores-assistentes no dojo e rivais que se impulsionavam mutuamente, já que suas habilidades eram equivalentes.

   Enquanto Ishigura e Haruto brincavam e se empurravam de forma descontraída na entrada do dojo, uma voz monótona soou atrás deles.

“Kazu-senpai, Haru-senpai. Por favor, parem de flertar na entrada. Vocês estão no caminho.”

   Quando os dois viraram o rosto em direção à voz, viram uma garota de expressão completamente neutra parada na entrada do dojo.

“Ei, ei, que foi, Shizuku? Tá com ciúmes porque o seu amado Haru-senpai está sendo roubado de você?”

   Ishigura provocou a garota de forma brincalhona.

“Sim, é ciúme. Então, afastem-se logo, por favor.”

   A garota declarou isso em um tom plano, ainda sem expressão, enquanto lançava um olhar afiado para Ishigura. Diante do olhar dela, Ishigura se afastou imediatamente de Haruto, ergueu as duas mãos e fingiu tremer.

“Oooh, que medo. Como esperado da filha única do Dōjima Dōjō. Você tem uma presença e tanto.”

“Dizer que eu tenho ‘presença’ soa ultrapassado, então eu não gosto. Eu sou uma estudante do ensino médio vibrante e cheia de energia, sabia?”

   Haruto falou com a garota, que dizia esse tipo de coisa brincalhona com o rosto totalmente inexpressivo, soando meio exasperado.

“Que história é essa de você mesma dizer que é ‘vibrante e cheia de energia’?”

   Haruto não pôde deixar de retrucar. A garota voltou o olhar para ele.

“Então, Haru-senpai, como você descreveria essa minha beleza impecável?”

“Não, acho que você mesma dizer ‘beleza impecável’ também é um pouco demais... Bom, vejamos. A beleza da Shizuku é, digamos, mais do estilo japonês. Se eu tivesse que colocar em palavras... talvez ‘Yamato Nadeshiko’?”

   Haruto disse isso depois de dar uma olhada rápida na aparência da garota.

   O nome da garota que, até agora, dizia coisas brincalhonas com a mesma expressão de sempre era Dōjima Shizuku. Ela era a filha única do mestre daquele dojo.

   Ishigura, Haruto e Shizuku eram companheiros de dojo desde a infância, e Shizuku também era caloura de Haruto na mesma escola.

   Na escola onde Haruto estudava, a pessoa de popularidade esmagadora entre os garotos era sua colega de classe, Tōjō Ayaka, com quem ele se envolvera recentemente por causa do trabalho. No entanto, aquela garota diante dele, Dōjima Shizuku, também tinha uma grande popularidade entre os garotos — especialmente entre os alunos do primeiro ano.

   Shizuku, uma bela garota de cabelo preto curto, ergueu levemente uma sobrancelha ao ouvir Haruto chamá-la de Yamato Nadeshiko.

“Dizendo algo assim... Haru-senpai, você está tentando me paquerar? Haa... Fazer o quê. Vou permitir que você me paquere, mesmo que a contragosto. Deveria me agradecer.”

“Não, eu não estava te paquerando nem por um milímetro, tá? E olha, quando contar piadas assim, pelo menos para de ficar com essa cara sem expressão.”

   Disse Haruto suspirando para sua kouhai, que continuava soltando brincadeiras sem mudar o rosto. Então Shizuku, ainda inexpressiva, fez um biquinho.

“Haru-senpai, que maldade~”

“Eu acabei de te dizer pra parar de ficar sem expressão.”

“Hahahaha! Shizuku, essa cara esquisita é a melhor!”

   Haruto levou a mão à cabeça vendo sua kouhai sempre cheia de piadinhas, enquanto Ishigura gargalhava alto com a cena.

   Graças à relação inalterada que tinham desde muito tempo, o leve sentimento de melancolia que havia surgido no coração de Haruto naquela manhã desapareceu completamente.

   Depois disso, Haruto, que treinara até quase o meio-dia, trocou o dōgi por roupas casuais para ir embora. Nesse momento, foi chamado por Ishigura, que também havia terminado de se trocar.

“Haruto, preciso te pedir uma coisa.”

   Na mão dele havia uma caixa branca de papelão, do tipo usado para bolos.

“Hmm? O que foi?”

“É sobre isso aqui. Ah, Shizuku! Vem aqui também.”

   Ishigura chamou Shizuku, que estava passando.

“O que é, Kazu-senpai? Uma declaração de amor? Sinto muito, mas eu sou devotada ao Haru-senpai.”

   Haruto deu um sorriso torto para sua kouhai, que dizia isso com toda a naturalidade do mundo.

“Se falasse isso com um pouquinho de vergonha, eu talvez sentisse alguma coisa. Mas falando assim, desse jeito sério...”

   Quando Haruto comentou isso suspirando, Shizuku virou levemente o quadril, inclinou a cabeça e fez uma pose olhando para ele.

“E aí? Pegou? Ficou encantado?”

“...Shizuku, antes de pose, você devia treinar os músculos do rosto.”

“Haru-senpai, você não fica satisfeito enquanto não molda as mulheres do jeito que gosta, né? Que problemático.”

“Ei, vocês dois. Parem já com a comédia e escutem meu pedido.”

   Ishigura interrompeu a conversa, parecendo exasperado. Haruto então fez uma expressão séria.

“Se é um pedido do Kazu-senpai, eu faço qualquer coisa. Então, qual gangue vamos esmagar desta vez?”

“Por favor, dê suas ordens, Chefe.”

   Shizuku entrou na brincadeira imediatamente.

   Normalmente, ela é bastante mal-entendida por causa da expressão neutra, mas na verdade tem uma personalidade bem despreocupada e sempre acompanha as piadas de Haruto.

“Vocês dois... sério, dá um tempo.”

   Ishigura lançou um olhar intimidador para seus dois juniors provocadores. Para quem não conhecia a cara severa dele, aquele olhar tinha força suficiente para fazer não só crianças, mas adultos chorarem. Mas Haruto e Shizuku, acostumados desde a infância, ignoraram completamente. Na verdade, Shizuku ainda foi além:

“E aí, Kazu-senpai! Número um do Japão em cara de mau!”

“Quem você tá chamando de cara de mau? Argh... Enfim. Eu quero que vocês dois comam isso.”

   Dizendo isso, Ishigura tirou mini tortas de frutas de dentro da caixa.

“Hã? Podemos comer isso?”

“Kazu-senpai, eu não sou uma mulher barata que se deixa comprar com algo assim, sabia?”

“Pode comer sim... Espera, Shizuku, você já está comendo!? Sua mulher barata!!”

   Enquanto lançava um olhar para Shizuku, que tinha os olhos brilhando enquanto enfiava a tortinha na boca, Haruto também pegou uma e provou.

“Uwow?! Isso é absurdamente gostoso! De que loja você comprou isso?”

   Perguntou Haruto, surpreso com o sabor.

   O creme de baunilha, doce e bem encorpado, espalhava um rico aroma de ovo ao entrar na boca. Em seguida, a acidez suave das frutas limpava a doçura do creme, deixando um final refrescante. A massa crocante do tart dava um toque perfeito. Haruto terminou a dele em instantes.

   Ao olhar ao lado, Shizuku já estava terminando a segunda.

“Tem alguma confeitaria por aqui que vende tortas assim?”

“Ah, não... na verdade, eu que fiz.”

“Huh?”

Guh!!

   Diante da revelação chocante de Ishigura, Haruto ficou boquiaberto e Shizuku engasgou com a terceira torta.

“É sério!? Isso!? Você fez, Kazu-senpai!?”

“Kazu-senpai, com essa cara intimidadora que parece que transforma até açúcar em sal, fez algo assim. Assim…”

“Eu não tenho essa cara intimidadora, e muito menos poderes especiais!!”

   Ishigura gritou diante das reações extremamente rudes dos dois.

“Mas sério, Kazu-senpai, isso está muito bom. É qualidade digna de uma loja.”

“Sério? É mesmo?”

   As palavras de Haruto dissiparam instantaneamente sua irritação.

“De fato, é bom o suficiente para abrir uma loja agora mesmo. E o nome já está decidido: Relâmpago 893 – Confeitaria.”

“Tá bom, Shizuku. Que tal uma rodada de kumite comigo?”

“Ah, lembrei que tenho que ajudar em casa!”

   Fugindo de Ishigura, Shizuku disparou para dentro de casa, que ficava anexa ao dojo.

“Sinceramente, aquela garota... quando está quieta, é uma gracinha. Que desperdício.”

“Ah, mas essa é a Shizuku. Se ela ficasse quieta de repente, sem piadinhas, aí sim seria assustador.”

“É verdade.”

   Ishigura concordou.

“Mas ainda assim, a sua torta estava incrível, Kazu-senpai. Quando você ficou tão bom assim em fazer doces?”

   Haruto sabia que o hobby de Ishigura era confeitaria, e que os doces dele já eram bons, mas aquela torta estava vários níveis acima do habitual.

“Hoje em dia, se você procurar na internet, acha receita pra tudo, né? Então resolvi estudar confeitaria mais a fundo.”

“Uau, que incrível. Me ensina a fazer doces um dia. Eu não tenho muita experiência com sobremesas ocidentais.”

“Claro. Quer tentar fazer um bolo juntos da próxima vez?”

“Parece ótimo. Ah, acho que já está na hora de ir. Tenho que ir para o meu trabalho.”

   Haruto disse ao olhar o relógio na parede do dojo.

   A partir de hoje, começaria o serviço de limpeza na casa dos Tōjō, com quem firmou um contrato fixo.

“Ah, é mesmo. Você começou um trabalho de férias de verão, né?”

“Sim. Então, até mais, Kazu-senpai.”

“Vai lá. Boa sorte no trabalho.”

   Haruto se despediu e deixou o dojo.

   Depois de voltar para casa e se preparar para o serviço, ele seguiu para a residência dos Tōjō. No caminho, lembrava-se da torta que Ishigura fizera.

“O Ryōta-kun ficaria feliz se eu fizesse uma torta pra ele.”

   Haruto sorriu ao imaginar o rosto inocente do garoto.

“Eu estou confiante de que sei fazer chawanmushi ou ohagi direitinho, mas doces ocidentais ainda são meio…”

   Ele sabia o básico, mas também sabia que confeitaria não era algo simples de dominar.

“Mesmo sendo tão doces quando você come…”

   Haruto murmurou isso distraidamente enquanto caminhava até a casa dos Tōjō.

 

✦ ✦ ✦

 

   Quando Haruto chegou em frente à casa dos Tōjō, ele respirou fundo, de leve e profundamente, antes de apertar o interfone. Aquela seria sua terceira visita como faxineiro, mas ele ainda sentia um pouco de nervosismo no começo.

   Uma voz alegre, forte o suficiente para soprar o nervosismo de Haruto até os cantos mais distantes da Terra, ecoou pelo interfone.

“Onii-chan!?”

   Depois que a voz animada de Ryōta foi ouvida, as palavras cautelosas de sua irmã mais velha, Ayaka, vieram em seguida.

“Ei, Ryōta! E se fosse outra pessoa? Primeiro você pergunta ‘Quem é?’ e depois, ‘O que deseja?’. Pergunte direito.”

“Mas eu consigo ver que é o Onii-chan na tela, sabia?”

“Mesmo que você saiba, tem que fazer desse jeito.”

“Tá booom~”

   Haruto, parado em frente à entrada, não conseguiu evitar deixar escapar um sorriso “hehe” ao ouvir a conversa dos irmãos Tōjō saindo pelo interfone. Então, a voz de Ryōta, que havia obedientemente aceitado a advertência de sua irmã, chegou aos seus ouvidos.

“Onii-chan, quem poderia ser você?”

“Hehe... Cof... Aqui é o Ōtsuki.”

   O jeito de Ryōta perguntar atingiu em cheio o senso de humor de Haruto, que disfarçou o riso com uma tosse.

“A faxina do Onii-chan, é esse o seu assunto?”

“Pfff... Sim, eu vim pra faxina de novo hoje.”

   Ryōta tentou seguir a instrução de Ayaka, mas seu japonês acabou ficando estranho, fazendo Haruto mais uma vez segurar o riso com um leve sopro.

“Desculpe, Ōtsuki-kun, vou pedir para o Ryōta abrir a porta agora.”

   Ayaka provavelmente também tentava segurar o riso; sua voz um pouco trêmula saiu pelo interfone.

   Logo depois disso, um som de thud-thud-thud veio de trás da porta da frente, e a porta foi aberta com força.

“Onii-chan!!”

“Oi, Ryōta-kun. Olá.”

   Haruto devolveu um sorriso gentil ao ver Ryōta cumprimentá-lo com um sorriso radiante.

   Ryōta parecia estar ansioso pela chegada de Haruto; ele agarrou o braço de Haruto e o puxou com insistência para dentro da casa.

“Onii-chan, você tem um contrato fixo, né? Vai vir pra nossa casa o tempo todo a partir de agora, né?”

“Hum, não o tempo todo, mas vou poder ver o Ryōta-kun durante as férias de verão.”

“O contrato fixo é pelas férias de verão inteiras?”

“Ahaha, isso mesmo.”

   Ryōta também parecia entender um pouco sobre o contrato fixo, repetindo animadamente “contrato fixo” várias vezes.

   O contrato fixo de serviços domésticos que Haruto assinou com a família Tōjō.  Os termos do contrato eram: três dias por semana, por três horas por dia.

   Quando Haruto foi puxado para a sala por Ryōta, viu Ikue-san trabalhando remotamente no laptop na mesa de jantar ao fundo, e Ayaka sentada no sofá.

“Bem-vindo, Ōtsuki-kun. Obrigada pela ajuda novamente hoje.”

   Ikue-san o cumprimentou, levantando o olhar do computador.

“Sim, por favor, deixe-me auxiliá-los.”

   Haruto fez uma reverência profunda uma vez, depois endireitou a postura e se voltou para Ikue-san.

“Obrigado por assinar o contrato fixo ontem. Continuarei me esforçando ao máximo para oferecer um serviço de limpeza satisfatório, então conto com a sua confiança.”

   Ikue-san mostrou uma expressão contente, dizendo “Ora, ora”, enquanto Haruto reverenciava profundamente mais uma vez.

“Você pode ser mais casual, sabe? Assim fica mais fácil pra nós. Não é, Ayaka?”

“Eh? Ah, é... Se o Ōtsuki-kun for tão formal assim, pode deixar um pouco desconfortável.”

“Viu! A Ayaka também acha isso.”

   Ikue-san, tendo conquistado o apoio da filha, sorriu radiante para Haruto.

“Hum... Vou me esforçar para me adaptar.”

   Haruto sorriu sem jeito diante do pedido de Ikue-san.

   Ele estava na casa dos Tōjō estritamente a trabalho. Para Haruto, que tentava manter isso sempre em mente, a solicitação de agir de forma mais casual era algo bastante difícil.

   Isso porque, estando na casa da “idol da escola”, Tōjō Ayaka, e ainda sendo bem recebido por sua família, Haruto, como um garoto adolescente, sentia que poderia acabar interpretando as coisas de forma errada.

   Para evitar isso, ele queria deixar bem clara a relação de cliente e prestador de serviço.

   Entretanto, os membros da família Tōjō pareciam querer interagir com Haruto de maneira amigável.

   Ryōta, o maior defensor dessa interação amigável, puxou novamente o braço de Haruto.

“Ei, ei, Onii-chan. Você vai limpar as janelas de novo?”

“Nós fizemos isso da última vez, então provavelmente não hoje, tudo bem?”

   Ryōta o olhou com olhos cheios de expectativa. Haruto, parecendo um pouco aflito, lançou um olhar para Ikue-san. Ikue-san, vendo Ryōta agarrado a Haruto, deixou escapar um sorriso “Ufufu” e transmitiu as tarefas de faxina de hoje.

“Hoje, quero que você organize o galpão de armazenamento lá fora. Depois disso, poderia cuidar do Ryōta até chegar o horário de começar a preparar o jantar?”

“Entendido.”

   Haruto fez uma reverência a Ikue-san ao aceitar o pedido, depois se agachou para ficar na altura dos olhos de Ryōta.

“Ryōta-kun, depois que eu terminar a limpeza, vamos brincar juntos, tá?”

“De verdade!?”

   Ryōta, cujo ânimo explodiu com as palavras de Haruto, pulou para cima e para baixo de alegria. Ayaka deu um sorriso sem jeito diante das travessuras do irmão.

“Vamos, Ryōta. Enquanto o Ōtsuki-kun estiver limpando, vamos brincar nós dois.”

“Tá!”

   Ayaka pegou a mão de Ryōta e o afastou de Haruto.

“Ikue-san. Onde fica o galpão que precisa ser organizado?”

   Quando Haruto perguntou, Ikue-san fechou seu laptop e se levantou.

“Vou te mostrar. Poderia vir comigo?”

   Ikue-san disse isso e saiu pela porta da frente por um momento. Como a residência dos Tōjō era uma mansão, o terreno também era bastante espaçoso. Em um canto da propriedade, havia um galpão de armazenamento um pouco maior.

“Quero organizar o interior deste galpão. Eu estava querendo pedir isso ao Shūichi-san há um tempo, mas ele anda bem ocupado com o trabalho.”

   Dizendo isso, Ikue-san abriu a porta do galpão.

“Está bem cheio de coisas, não é?”

   Haruto disse, espiando o interior do galpão por trás de Ikue-san.

“Isso mesmo. Eu fui colocando aqui, por enquanto, as coisas que não usava mais, e quando percebi, ficou completamente lotado.”

   Ikue-san colocou a mão no queixo, parecendo incomodada.

   Dentro do galpão, havia um carrinho de bebê que provavelmente não era mais usado, e brinquedos como um monociclo antigo que Ayaka talvez tivesse usado no passado. E ao longo da parede, caixas de armazenamento de roupas estavam empilhadas quase até o teto.

“Como devo organizar o galpão?”

“Vamos ver... Você poderia tirar tudo primeiro? Depois disso, eu vou separar o que precisamos e o que não precisamos.”

“Entendido. Nesse caso, vou começar tirando tudo e alinhando aqui na frente.”

“Certo, por favor, faça isso, Ōtsuki-kun.”

   Ikue-san sorriu alegremente, confiou a organização do galpão a Haruto e voltou para dentro da casa. Depois de vê-la partir, Haruto arregaçou as mangas da camisa e se animou.

“Certo, vamos lá.”

   Haruto começou a tirar os itens do galpão um por um, começando pelos da frente, e os foi colocando para fora. Ele separava os itens por categoria, até certo ponto, para facilitar a triagem depois.

   Carregando um arroz-cooker antigo, Haruto murmurou para si mesmo:

“Guardar algo assim sem jogar fora... será que a família Tōjō é surpreendentemente econômica?”

   Tanto Shūichi-san quanto Ikue-san eram executivos de empresa e provavelmente faziam parte da categoria dos ricos, mas Haruto não sentia nenhum ar de arrogância vindo de nenhum dos dois. Claro, seus filhos, Ayaka e Ryōta, também não mostravam sinais de serem crianças mimadas, como serem egoístas ou arrogantes.

   Na verdade, até Haruto começar a vir à casa dos Tōjō para esse trabalho de faxina, ele não fazia ideia de que Ayaka era uma jovem rica.

“Eu meio que gostaria de ver a Tōjō-san como uma personagem de patricinha, na verdade.”

   Haruto imaginou internamente Ayaka rindo de forma arrogante, “Ohohoho”, e sorriu para si mesmo. De repente, uma voz chamou por ele por trás.

“Ōtsuki-kun.”

“Hã!? T-Tōjō-san, ah, u-uhm, aconteceu alguma coisa?”

   Haruto, que estava imaginando a “personagem” dela momentos antes, sentiu um pouco de culpa pela aparição repentina de Ayaka atrás dele e respondeu de maneira atrapalhada.

“Ah, desculpa. Por falar com você de repente por trás.”

“Não, está tudo bem mesmo.”

   Haruto acenou com a mão como se não fosse nada, para Ayaka, que havia pedido desculpas com uma expressão arrependida.

“U-um, sabe... A minha mãe disse que, se for demais fazer tudo de uma vez, só fazer metade hoje já está bom.”

“Ah, mas só tirar tudo para fora não vai demorar tanto, então vou terminar tudo hoje.”

   Ayaka olhou para Haruto com um olhar impressionado quando ele disse isso.

“Ōtsuki-kun, você é forte e tem bastante resistência, né? Será que você faz treino de força regularmente ou algo assim?”

“Não, não, qualquer cara comum seria assim.”

“É mesmo?”

   Ayaka inclinou um pouco a cabeça e o encarou, fazendo Haruto ficar autoconsciente. Ele respondeu com um pequeno “É, sim,” e desviou o olhar dela.

“Ah! Esse monociclo, ele estava guardado aqui.”

   Ayaka avistou o monociclo no depósito, passou por Haruto e entrou. Então, colocou a mão sobre o monociclo e sorriu, como se estivesse lembrando do passado.

“Você brincava bastante com isso quando era pequena?”

“Sim, acho que o pai comprou para mim de presente de aniversário quando eu estava no primeiro ou segundo ano do ensino fundamental.”

   Ayaka disse isso, acariciando o monociclo e murmurando: “Que nostalgia.”

“Será que ainda consigo andar de monociclo? Ei, Ōtsuki-kun. Posso tentar andar um pouco?”

   Haruto, ao ver Ayaka perguntar com uma expressão levemente animada, também sorriu naturalmente e assentiu. Tendo obtido o consentimento dele, Ayaka imediatamente tirou o monociclo do depósito e montou nele.

“Uau, então era assim que um monociclo parecia?”

“Você está bem? Não vai cair?”

“Ah! Ōtsuki-kun, você acabou de zombar de mim, não foi?”

   Ayaka estufou as bochechas com as palavras de Haruto. Haruto riu da reação adorável dela e respondeu: “Desculpa.”

“Na verdade, eu era bem boa em andar de monociclo. Observe.”

   Ayaka disse isso e rapidamente começou a pedalar o monociclo. Abrindo os braços para os lados, ela equilibrava-se com habilidade e circulou ao redor de Haruto.

“Uau, você é realmente boa.”

“Hmph, claro.”

   Ayaka continuou circulando ao redor de Haruto com um olhar orgulhoso no rosto. Mas, nesse momento, provavelmente por ter ficado sem uso por muitos anos, os rolamentos da roda do monociclo devem ter ficado duros.

   Com um rangido, o movimento da roda de repente piorou. Ayaka, que involuntariamente acabou “freando”, perdeu totalmente o equilíbrio e começou a cair.

Kyaa!?”

“Cuidado!!”

   Ayaka soltou um pequeno grito. Haruto imediatamente estendeu o braço e segurou Ayaka pelo lado, impedindo que ela caísse no chão.

“Você está bem?”

   Haruto, aliviado por ter conseguido evitar que Ayaka se machucasse, falou com ela enquanto batia levemente no próprio peito em alívio. Ayaka, por outro lado, olhava surpresa para Haruto, que a estava segurando.

“S-sim. Haah—que susto. Obrigada, Ōtsuki-ku... Huh!?”

   As palavras de Ayaka se interromperam na garganta. Ao mesmo tempo, ela ficou imóvel, encarando fixamente o rosto de Haruto.

“O que houve? Você se machucou em algum lugar?”

“...Não. Eu estou bem...”

“U-um... Ah! Me desculpa!”

   Haruto inclinou a cabeça diante da resposta um tanto distraída de Ayaka, mas logo percebeu que estava segurando-a bem perto e apressadamente se afastou dela.

“Desculpa. Por, uh, abraçar você sem permissão.”

“V-você não precisa se desculpar, Ōtsuki-kun! Se você não tivesse me segurado, eu poderia ter me machucado e, ahm... obrigada, Ōtsuki-kun.”

“Não, ahm... de nada.”

“É...”

   Um clima ligeiramente constrangedor pairou entre os dois. No meio disso, Ayaka começou a falar de forma rígida.

“U-um... E-Eu só vim entregar o recado da mãe! Então... B-bom trabalho com o seu serviço!”

   Ayaka forçou o fim da conversa, então virou nos calcanhares abruptamente e voltou para dentro da casa de forma um tanto apressada.

   Haruto observou a silhueta dela se afastando e murmurou uma única frase.

“Ela era macia...”

[Almeranto: “Ela era macia.” – Ōtsuki Haruto 2025.]

   Levou vários minutos até que ele conseguisse retomar a organização do depósito.

 

✦ ✦ ✦

 

Tōjō Ayaka

 

   Eu pressiono minha mão contra o peito, tentando acalmar o meu coração que batia forte e acelerado, enquanto me apoiava com as costas contra a porta de entrada.

“P-por quê? Por que meu coração está batendo tão forte!?”

   Ōtsuki-kun me segurou e me salvou quando eu quase caí do monociclo. Naquele momento, a força transmitida pelos seus braços firmes. E, tão de perto, a expressão preocupada com que ele me olhou. Só de lembrar disso, meu coração dói como se estivesse sendo revirado por alguma coisa.

   Enquanto eu tentava me acalmar respirando fundo várias vezes ali na entrada, ouvi a voz da mãe vinda da sala de estar.

“Ayaka? Você falou com o Ōtsuki-kun?”

“Ah, falei.”

   Eu respirei fundo mais uma vez antes de seguir para a sala.

     Está tudo bem, meus batimentos cardíacos acalmaram um pouco. Deve ter acelerado só porque eu me assustei quando quase caí, certo? Sim, deve ser isso. Tem que ser isso.

“O que o Ōtsuki-kun disse?”

   Quando entrei na sala de estar, ela me perguntou enquanto trabalhava no laptop.

“Ele disse que não vai levar tanto tempo, então vai terminar tudo hoje.”

“Ah, é mesmo? Como esperado, garotos jovens têm muita energia.”

   Minha mãe elogiou o Ōtsuki-kun com admiração.

   Parece que ela realmente gostou do Ōtsuki-kun. Ela confia completamente nele, que faz a limpeza e a comida perfeitamente.

   A mãe só encontrou o Ōtsuki-kun duas vezes, e ainda assim já gosta tanto dele...

   Ela já viu e interagiu com muitas pessoas como diretoras de empresas, e na verdade é bem rígida ao julgar as pessoas, mas até ela reconhece o Ōtsuki-kun.

     Isso significa que o Ōtsuki-kun é uma pessoa bem excepcional? Mas é verdade, né? Ele também é o número um da nossa série nos estudos. Além disso, é perfeito em trabalhos domésticos, é querido por crianças como o Ryōta, e é gentil... Hã? As habilidades do Ōtsuki-kun não são meio boas demais?

“Ayaka?”

“O que foi, mãe?”

“Seu rosto, ele não está um pouco vermelho? Será que aconteceu alguma coisa com o Ōtsuki-kun? Hmm?”

“Qu-!? N-não aconteceu nada!!”

   O olhar investigativo da mãe era assustador, e eu não pude evitar desviar os olhos. Ela já tinha me provocado antes sobre o Ōtsuki-kun, mas eu queria que ela parasse agora. Se ela me provocasse sobre o Ōtsuki-kun neste momento, sinto que meu coração iria virar um caos completo.

“Ei, ei, Nee-chan. O Onii-chan ainda não terminou de limpar?”

“Hm? Ah, eu acho que ainda vai demorar um pouco.”

“Eu quero brincar com o Onii-chan logo~”

   Ryōta está completamente encantado com o Ōtsuki-kun. Desde que eles limparam juntos ontem, Ryōta abriu completamente o coração e ficou bem apegado a ele.

   Bom, acho que é verdade? Ōtsuki-kun tem um comportamento tão gentil, uma presença calma, e é tão bondoso, então eu entendo porque o Ryōta ficou tão apegado. Quando o Ōtsuki-kun está interagindo com o Ryōta, ele tem aquele ar de um irmão mais velho gentil, e é um pouco... encantador...

   ...De alguma forma, só de lembrar isso meu rosto ficou meio quente. Por quê? O que será que é isso... De um tempo para cá, sempre que penso no Ōtsuki-kun, meu peito aperta e meu rosto esquenta.

     Hã? Será que... eu... sobre o Ōtsuki-kun...

“De jeito nenhum, de jeito nenhum, de jeito nenhum! Com certeza não! Não pode ser isso!!”

   A única resposta que surge na minha cabeça. Eu nego essa resposta com todas as minhas forças.

“Nee-chan? O que foi?”

“N-Nada! Ah! Isso mesmo! Eu estava planejando fazer um monte de lição de casa de verão hoje, então preciso voltar para o meu quarto! Tudo bem, né, Mamãe?”

“Oh, é mesmo? Então Ryōta, vamos brincar só nós dois?”

“Tá!”

   Eu deixo o Ryōta aos cuidados da Mamãe. Depois, saio rapidamente da sala de estar, vou para o meu quarto no segundo andar e me jogo direto na cama.

“Ughh...”

   Eu enfio o rosto no travesseiro e solto um gemido sem sentido.

     Por que eu estou tão agitada?

     De jeito nenhum, certo? Não pode ser, né? Será que eu... gosto do Ōtsuki-kun?

“Espera! Só um pouco! Calma, eu. Vamos nos acalmar primeiro.”

   Eu respiro fundo na cama para acalmar meu coração.

“Pense com calma, eu.”

     Sim, pense com um coração calmo, Ayaka.

   Realmente, o Ōtsuki-kun pode ter alguns aspectos encantadores. Ele tem um comportamento calmo, é educado, não é agressivo, não parece me julgar só pela aparência, o Ryōta gosta muito dele, ele é atencioso e gentil, ele cozinha bem e limpa perfeitamente, e parece que ele se exercita, porque seus músculos são surpreendentemente firmes, ah, e a mãe e o pai também gostam do Ōtsuki-kun.........Hã? Hein? Em vez de dizer que o Ōtsuki-kun tem aspectos encantadores... ele não é um pacote completo de charme?

“Pare! Paaare!! Não tire conclusões precipitadas! Sim, eu preciso pensar com calma, com cuidado!”

     O Ōtsuki-kun é cheio de charme. Eu admito isso. Sim, eu tenho que admitir, né?

   O problema é se eu gosto ou não desse Ōtsuki-kun tão cheio de charme.

   Eu coloco uma mão no peito e penso.

     E então... sobre o Ōtsuki-kun... eu não posso dizer que gosto dele ainda, posso?

   Porque, é pouco tempo demais para me apaixonar, certo? Assim, seria igual ao amor à primeira vista que eu sempre disse que não entendia.

     Eu, me apaixonar pelo Ōtsuki-kun à primeira vista? De jeito nenhum, isso não é! Absolutamente não!!

“...Não é... certo?”

     Aaah! Poxa!! Eu não sei! Eu não entendo meus próprios sentimentos! Estou tão inquieta!!

     Por quê? Por que eu estou assim? É por causa do monociclo mais cedo? Eu me apaixonei pelo Ōtsuki-kun porque ele me segurou?

“Será que é isso? Mas ele só me segurou por um instante, sabe? Além disso, o Ōtsuki-kun só estava tentando me ajudar.”

   Meu jeito ideal de me apaixonar é ir ficando próxima aos poucos, a partir de uma relação onde trocávamos cumprimentos, virar amigos que saem juntos, conhecer melhor um ao outro, e então começar a ficar consciente um do outro.

   Em vez disso, me apaixonar porque ele me abraçou e me salvou quando eu ia cair do monociclo, isso não é como estar em um acidente de trânsito!?

“Se eu for me apaixonar pelo Ōtsuki-kun, primeiro temos que virar amigos. E então, depois de ficarmos próximos, virar namorados. Sim, isso que é um romance saudável.”

   Eu cruzo os braços e aceno para mim mesma, sim, sim.

     Espera, hein? Eu não estou pensando nas coisas como se fosse certo que eu viraria namorada do Ōtsuki-kun?

     Isso significa mesmo que... eu... o Ōtsuki-kun é...

“Auwahhh~~!! Não! Não é isso~!”

     Ainda não! Ainda não é hora!

     Ainda é muito cedo para eu me apaixonar pelo Ōtsuki-kun, e eu sei muito pouco sobre ele. Isso mesmo! Eu ainda não sei nada sobre o Ōtsuki-kun! Então não tem como eu gostar dele! É impossível!

     Porque, sabe? Gostar do Ōtsuki-kun significa que eu quero ser a namorada dele, certo?

     Se o Ōtsuki-kun fosse meu namorado, meu namorado...

“...Minha família gosta dele também, e inesperadamente... talvez... fosse tudo bem?”

   Só de imaginar isso, meu rosto queima intensamente.

   Envergonhada, eu cubro o rosto com as duas mãos e balanço a cabeça de um lado para o outro para espantar os pensamentos. Nesse momento, ouço a risada alegre do Ryōta vindo da sala de estar.

   Ōtsuki-kun provavelmente já terminou de organizar o depósito. Ele deve estar fazendo companhia ao Ryōta agora.

   O Ryōta tem tanta sorte, podendo ser honesto com seus sentimentos. Ele pode simplesmente dizer coisas como “Eu gosto de você, Onii-chan!” exatamente como pensa…

     Espera! O que eu estou pensando!? M-mesmo que eu fosse honesta com os meus sentimentos, eu nunca diria “Eu gosto de você, Ōtsuki-kun!” E, em primeiro lugar, eu nem gosto dele ainda!

     ...Provavelmente…

     Aaaah, sinceramente! Para começo de conversa, o motivo de eu estar tão consciente do Ōtsuki-kun é porque a Saki fica dizendo coisas como “Ayaka e Ōtsuki-kun combinam”, ou a minha mãe perguntando “Você ficou encantada pelo Ōtsuki-kun?”! É por isso que eu acabei ficando tão consciente do Ōtsuki-kun!

[Del: Os surtos internos dela kakakkka. | Almeranto: É o suco do entretenimento pra mim isso daqui kkkkkk.]

   Enquanto penso nessas coisas, os mangás de romance enfiados na minha estante de livros chamam minha atenção de repente. Imediatamente, uma ideia surge na minha mente.

“É isso! Eu só preciso realmente testar os meus próprios sentimentos!”

   Nas histórias de romance, a heroína que se apaixona tem o coração acelerado só de fazer contato visual com o homem que ama, e se sente leve e feliz só de trocar algumas palavras.

   Se eu fizer contato visual com o Ōtsuki-kun agora, ou trocar palavras com ele, será que meu coração vai bater mais rápido ou eu vou me sentir leve como as heroínas dos mangás? Se não houver nenhuma mudança no meu coração então, significa que eu ainda não gosto do Ōtsuki-kun, certo?

     Por outro lado, se eu acabar suspirando pelo Ōtsuki-kun, então... isso significa... é isso, né?

“Se isso acontecer, eu... o que deveria...”

   Eu nunca gostei de ninguém antes, então eu não sei o que fazer.

“...Bem, eu posso pensar nisso quando chegar a hora, certo? Primeiro, preciso confirmar meus próprios sentimentos.”

   O que eu acho do Ōtsuki-kun? Assim que decido descobrir isso, ouço a voz da mãe vindo do andar de baixo.

“Ayaka~. O Ryōta disse que quer ir às compras com o Ōtsuki-kun de novo, então você pode acompanhá-los hoje também?”

“Okay, entendido! Já estou descendo!”

   Timing perfeito, consegui uma desculpa para sair com o Ōtsuki-kun, e lá eu vou fazer contato visual com ele e confirmar meus sentimentos!

   Com determinação no coração, eu me arrumo para sair, deixo o meu quarto e vou até a entrada. Ōtsuki-kun e Ryōta já estão esperando por mim.

“Onee-chan, você tá atrasada!”

“Quem está impaciente é você, Ryōta.”

   Dou uma resposta casual ao meu irmão, que disse quase a mesma coisa que ontem, enquanto troco de sapatos.

“Ei, Onii-chan. O que é ‘impaciente’?”

“Impaciente, veja bem. Se refere a alguém que tenta fazer tudo com pressa.”

   Ōtsuki-kun responde educadamente à pergunta do Ryōta com um sorriso suave. Meu olhar não consegue evitar deslizar até as mãos deles.

   Hoje, eles estão de mãos dadas antes mesmo de sair de casa.

   Tenho certeza de que o Ōtsuki-kun só está segurando a mão do Ryōta para ele não sair correndo de repente e acabar sendo atropelado ou algo assim. Mas mesmo assim, não sei, meu coração fica um pouco... inquieto.

“Então, vamos?”

   Ōtsuki-kun diz isso, segura a mão do Ryōta e sai. Eu sigo atrás deles. Enquanto sinto ansiedade, expectativa, medo e uma boa dose de empolgação por confirmar meus próprios sentimentos, observo atentamente as costas do Ōtsuki-kun enquanto ele caminha ao lado do Ryōta.

   No caminho para o supermercado, pergunto ao Ōtsuki-kun sobre o jantar de hoje.

“Ōtsuki-kun, o que você está planejando fazer para o jantar hoje?”

“Estou pensando em fazer oden gelado hoje.”

   Ōtsuki-kun responde carregando o Ryōta nos ombros, e eu não consigo evitar fazer uma expressão surpresa.

“Oden pode ser comido assim?”

   Eu achava que oden era normalmente comido bem quente num dia frio. Não consigo imaginar comer ele gelado no meio deste verão tão quente.

“Tenho certeza que vai ficar delicioso, então acho que você vai gostar.”

   Ōtsuki-kun me dá um sorriso.

   Misturado ao sorriso gentil e calmo dele há uma expressão um pouco confiante, orgulhosa, e quando nossos olhos se encontram, meu coração dá um enorme salto. Quê!? E-espera aí!? Meu coração acabou de disparar!? Isso foi o que chamam de ‘momento de coração acelerado’!?

     Ou seja, eu... sobre o Ōtsuki-kun… Não, não, não, não! Espera, eu ainda não sei! Não foi a expressão do Ōtsuki-kun que fez meu coração disparar agora, talvez tenha sido só o nome inesperado do prato, ‘oden gelado’, que me deixou animada! Não, deve ser isso. Sim, essa aceleração foi pelo ‘oden gelado’. Ufaa~, quase entendi errado.

“Onii-chan, vai ter ovo nesse oden também?”

“Sim, vai. Você gosta de ovos, Ryōta-kun?”

“Sim! Eu adoro ovos!”

[Del: Oba, mais um para a gangue apreciadora de ovos. | Almeranto: Sei sobre quem você está falando.]

   Ryōta diz feliz lá de cima da cabeça do Ōtsuki-kun. A atmosfera divertida entre eles me passa uma imagem vaga. Ōtsuki-kun parece que seria um bom pai no futuro...

“Nee-chan? Por que você tá fazendo uma cara estranha?”

“Hã!? E-eu não tô fazendo cara estranha nenhuma! É normal, normal!”

“Não é normal! A Nee-chan tava fazendo uma cara estranha! Era tipo uma cara de ‘dehehe~’!”

“Que tipo de cara é ‘dehehe~’? Sério, Ryōta, se você continuar dizendo essas coisas estranhas, a sua Nee-chan vai ficar brava, viu?”

“Eu não sou estranho! A estranha é a Nee-chan! Onii-chan, você viu também, né? A cara estranha da Nee-chan. Aquela cara de ‘dehehe~’.”

     Ei! Não arrasta o Ōtsuki-kun pra isso!

“Eu talvez não tenha visto. Estamos quase chegando ao supermercado, então que tal descer um pouco, Ryōta-kun?”

   Ōtsuki-kun, tendo a conversa jogada para ele, tira o Ryōta dos ombros como se estivesse mudando de assunto.

     Ótimo, Ōtsuki-kun não viu... M-mas eu deveria confirmar, só por garantia.

“Ōtsuki-kun. Eu não estava fazendo uma cara estranha nem nada, tá?”

“Isso mesmo. Tōjō-san tem traços bem proporcionados, então não consigo imaginar você fazendo uma careta ou algo assim.”

“Hã!?”

     Não é ataque surpresa demais!? Pensando bem, o Ōtsuki-kun disse casualmente que eu era bonita ontem também, não foi? Será que o Ōtsuki-kun é naturalmente despreocupado? Isso precisa de atenção, tenho que tomar cuidado!

“Quais ingredientes você está planejando comprar hoje, Ōtsuki-kun?”

   Pergunto, fingindo tranquilidade enquanto escondo desesperadamente meu tumulto interno.

“Vamos ver. A gente tinha ovos na geladeira, então vamos comprar rabanete daikon, tomates... da última vez compramos uma abóbora inteira, e talvez devêssemos comprar alguns bolinhos de peixe processados como satsuma-age, se tiverem.”

“Tomates no oden?”

“Sim, e talvez pudéssemos adicionar milho também.”

   Os ingredientes que o Ōtsuki-kun lista são tão inesperados que eu não consigo imaginar o oden gelado de jeito nenhum.

“Esse oden gelado é uma receita original sua ou algo assim?”

“Não, não, claro que não. Se você procurar normalmente, vai aparecer um monte de receitas, sabia?”

   Com as palavras dele, pesquiso no meu smartphone, e de fato, várias receitas surgem na hora.

“É verdade. Realmente diz ‘tomates’ na seção de ingredientes.”

“Viu? Surpreendentemente, o caldo do oden combina bem com tomates, sabia?”

“O-oh, é mesmo?”

   Ōtsuki-kun sorri pra mim novamente. Por algum motivo, não consigo olhar diretamente para sua expressão e rapidamente viro o rosto.

     Ei, por que eu tô virando o rosto!? Eu preciso fazer contato visual direito com o Ōtsuki-kun e confirmar meus sentimentos, certo!

“Onii-chan! Tem rabanete daikon!”

“Está 158 ienes hoje, hein...”

“Isso é barato? Caro?”

“Hmm, está barato para essa época do ano, mas provavelmente tem dias em que fica ainda mais barato.”

   Ōtsuki-kun observa atentamente a etiqueta de preço do rabanete daikon. Enquanto o olhar dele está no daikon, eu, também, sentindo meu coração acelerar com a perspectiva de descobrir meus próprios sentimentos, observo fixamente o perfil do Ōtsuki-kun.

     Hmm, e aí? Meu coração está acelerando?

   Coloco a mão no peito para checar meus batimentos.

     Está um pouco mais rápido que o normal... talvez? Mas... não parece exatamente como se eu estivesse apaixonada…

     Não sei. Talvez eu devesse tentar observar o Ōtsuki-kun de um pouco mais perto…

   Enquanto penso nisso, o olhar do Ōtsuki-kun desliza repentinamente da etiqueta de preço do daikon para mim. Imediatamente, eu, que estava encarando fixamente seu perfil, faço contato visual perfeito com o Ōtsuki-kun.

“—!!”

   No momento em que nossos olhos se encontram, meu peito dispara tão forte, TUM!, que pensei que meu coração fosse parar.

“Tōjō-san.”

“Hya—sim!”

     Aaaah! Eu dei uma resposta esquisita! Que vergonha, eu poderia morrer...

“Você acha que esse daikon vale a compra?”

“Ah, hum... Eu acho que vale a compra. Daikon é essencial para o oden, então...”

“Certo?”

   Ōtsuki-kun acena uma vez com a cabeça diante da minha opinião, pega um rabanete daikon da prateleira e coloca no cesto de compras.

   Ufa~... Isso me assustou. E aquela resposta de antes... “Hya-sim!” O que foi aquilo, eu...? Sinto que quero voltar pro meu quarto agora e me jogar na cama.

     Hã? Espera um minuto? Agora há pouco, quando meus olhos encontraram os de Ōtsuki-kun, meu coração fez ‘thump’? Eu me tornei como uma heroína de mangá?

     O que significa que... eu realmente me apaixonei...

     Espera, espera, espera! Eu ainda não sei!

     Agora há pouco, pode ter sido porque nossos olhos se encontraram de repente, e isso apenas me assustou. Não, deve ter sido isso. Meu coração só deu um ‘thump’ porque eu me surpreendi. Só isso.

     Da próxima vez. Se nossos olhos se encontrarem da próxima vez, e meu coração disparar de novo, então... então eu vou julgar meus sentimentos de verdade. Sim, vamos fazer isso.

   Eu solto um “ufa” e acalmo meu coração. Nesse momento, sinto o olhar do Ryōta e viro o rosto; Ryōta, ao lado de Ōtsuki-kun, estava me encarando fixamente.

“Q-que foi, Ryōta?”

“Nada. Nada de nada~”

   Ryōta diz isso e rapidamente desvia o olhar de mim.

     E-eu estava agindo estranho? Eu estava tão suspeita assim a ponto do Ryōta perceber? Ou melhor, estou bem preocupada que o Ryōta possa dizer algo desnecessário para o Ōtsuki-kun...

“Tōjō-san. Vamos ver os produtos de pasta de peixe agora?”

“Ah, u-uhm.”

   Ōtsuki-kun, que tinha acabado de colocar os tomates na cesta de compras, fala comigo olhando na minha direção. Em resposta, eu desvio o olhar apressadamente.

   Essa foi por pouco... Eu quase fiz contato visual com o Ōtsuki-kun. Eu ainda não estou mentalmente preparada, então não posso olhar nos olhos do Ōtsuki-kun agora.

   Porque eu não consigo fazer um julgamento calmo quando meu coração e meus sentimentos estão assim, todos bagunçados. Eu preciso avaliar meus sentimentos com a cabeça fria. Primeiro, eu preciso acalmar essa batida barulhenta do meu coração.

   Pensando nisso, eu segui o Ōtsuki-kun e fizemos as compras, mas no fim, meu coração continuou acelerado o tempo todo em que estive com ele, e voltei para casa sem conseguir confirmar meus sentimentos.

 

✦ ✦ ✦

 

“Então, vou começar a preparar o jantar agora mesmo.”

“Ah... certo. Por favor.”

   Ōtsuki-kun diz isso e leva as compras que fez para a cozinha.

     O que eu faço? Desse jeito, nunca vou conseguir confirmar meus sentimentos…

   Eu pressiono a mão contra o peito, que vem batendo forte desde antes. Nesse momento, minha mãe, que está trabalhando no laptop na mesa de jantar, agradece:

“Obrigada, Ayaka. Por acompanhar eles nas compras ontem e hoje.”

“Ah, não, tudo bem. Não se preocupe com isso.”

“Falando nisso, você tem um monte de lição de casa pra fazer hoje, não é? Eu fico de olho no Ryōta, então você pode voltar pro seu quarto.”

“Hã? Ah... eu já adiantei bastante da lição mais cedo, então estou tranquila por hoje.”

“Ah, é?”

   Se eu voltar para meu quarto agora, não vou conseguir cumprir o objetivo importante de olhar nos olhos de Ōtsuki-kun e confirmar meus sentimentos. Se isso acontecer, eu não vou conseguir dormir hoje à noite, pensando no “será que eu gosto do Ōtsuki-kun ou não”.

   Acho que realmente preciso me firmar e olhar nos olhos do Ōtsuki-kun.

     O-ok! Eu vou fazer isso!

   Eu me aproximo devagar de Ōtsuki-kun, que está na cozinha. A cada passo que dou em sua direção, parece que minha pulsação aumenta um nível.

   Mas, se eu fugir agora, nunca vou conseguir confirmar meus sentimentos! Força, eu! Não fuja, eu!

   Me motivando assim, finalmente chego ao lado de Ōtsuki-kun, que está na cozinha. Ōtsuki-kun está segurando uma faca agora, seu olhar fixo na tábua de corte.

     Ah, a expressão séria dele enquanto cozinha até que pode ser meio bonita... Ei, calma, não entenda errado, okay? Achar algo bonito e gostar de alguém são coisas diferentes, certo? Eu tenho que julgar isso com cuidado.

   Nesse momento, Ōtsuki-kun parece perceber que eu cheguei ao lado dele, e seus olhos, que estavam focados nas mãos, de repente se levantam e encontram os meus.

“...!”

“Hmm? Aconteceu alguma coisa?”

“Ah, ahm... eu pensei que talvez eu pudesse ajudar com alguma coisa.”

“Não, esse é o meu trabalho, então Ayaka-san, por favor, relaxe e descanse.”

   Ōtsuki-kun recusa gentilmente minha oferta. Mas, para confirmar meus próprios sentimentos, eu não posso recuar agora.

“Ahm, sabe. Eu fiquei curiosa sobre como se faz o oden gelado, será que atrapalharia se eu ficasse aqui com você?”

“É mesmo? Não atrapalha nada. Nesse caso, você poderia escaldar os tomates por um momento para tirar a pele?”

“Okay.”

   Eu de algum modo consegui arrumar uma razão para ficar perto do Ōtsuki-kun! E também consegui olhar nos olhos dele e conversar!

     E, meu coração agora está... talvez um pouco acelerado? M-mas não é aquele ‘TUM-TUM!!’ das heroínas de mangá, então isso quer dizer que eu ainda não estou apaixonada, certo? Certo? É isso, né?

   Tendo confirmado meus sentimentos, fico aliviada por enquanto.

   Enquanto escaldo os tomates, que têm pequenos cortes na superfície, seguindo as instruções do Ōtsuki-kun, solto um “ufa” e acalmo meu coração. Nesse momento, dou uma olhada para cima casualmente e vejo a mãe, que estava brincando com o Ryōta na sala, me olhando com uma expressão de quem está segurando o riso.

   Sentindo que ela entendeu tudo errado, eu tento falar com ela, mas ela volta a brincar com o Ryōta antes que eu consiga.

     Aah, isso é exatamente aquele padrão em que serei zoada depois…

   Enquanto penso nisso, ouço uma voz vindo da entrada.

“Cheguei~”

   Parece que o pai voltou do trabalho. A porta da sala se abre imediatamente, e como esperado, meu pai entra.

“Olha só, só de pensar que a comida caseira do Ōtsuki-kun estava me esperando hoje, eu literalmente corri do trabalho pra casa.”

   Dizendo isso, Papai vira o rosto para nós. Então, vendo o Ōtsuki-kun e eu lado a lado na cozinha, ele sorri feliz e diz: “Oh?”

“De algum jeito, vendo vocês dois assim, parecem um casal recém-casado! Hahaha!”

“Ei!! Pai, não fala umas coisas estranhas dessas!!”

   Com o comentário do pai, meu coração começou a bater mais rápido do que nunca, e meu rosto ficou vermelho como um tomate.

[Del: O pai só jogando a bomba~ | Almeranto: Esse pai aí é gente boa demais, te garanto Del.]

 

 

Traduzido por Moonlight Valley

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