SESSÃO 3

53 - O Sermão da Shizuku?

 

   No dia seguinte a participar do churrasco oferecido pela família Tojo, Haruto chama Shizuku após o treino no dojo.

"Shizuku, posso falar com você um momento?"

"O que foi, Haru-senpai? Vai me pedir em casamento? Tudo bem, vamos nos casar."

"Você já decidiu o que vai comer no almoço hoje?"

   Haruto ignora as brincadeiras de Shizuku, tão bobas como sempre, e pergunta sobre seu almoço.

"Não, não decidi ainda. Tinha um pouco de natto e bananas na geladeira, então eu ia colocar numa fatia de pão e comer isso no almoço."

"...Essa é uma combinação bem incomum. Natto e bananas combinam?"

"Você quer comer, Haru-senpai? Vamos almoçar juntos?"

   Shizuku diz, com a expressão vazia de sempre: "Eu vou te dar um mimo."

"Não, agradeço. Mas, se você não se importa, posso te pagar o almoço?"

"Hã? Por que está se confessando pra mim de repente?"

"Eu só te convidei para almoçar."

   Nessa conversa de vai e vem, Shizuku às vezes lançava umas bolas curvas absurdas. Vendo isso, Haruto só conseguia dar um sorriso torto.

"Você foi cuidar de mim quando eu estava doente, né? Considere isso como agradecimento."

"Ah, não precisa se preocupar. Eu vim porque quis."

"Entendi... Você diz isso, mas já está procurando um lugar para comer."

   Mesmo enquanto falava educadamente, ela já estava procurando rapidamente um lugar para almoçar no smartphone que estava segurando.

   Shizuku deslizou o polegar com agilidade pela tela, pesquisando opções de restaurante, e Haruto sorriu diante da atitude habitual dela.

   Nesse momento, Ishikura, já trocado do uniforme de judô para roupas casuais, se aproximou dos dois.

"Ei, do que vocês estão flertando aí?"

"Haru-senpai e eu estamos sempre grudados. Kazu-senpai é tão inconveniente."

"Eu ia pagar o almoço dela como agradecimento por ter cuidado de mim outro dia. Quer vir também, Kazu-senpai?"

   Ignorando as palavras impassíveis de Shizuku, que olhava para o celular e inclinava um pouco o corpo para perto de Haruto, ele convidou Ishikura também.

"Ah, vou passar."

   Ishikura acenou para recusar o convite.

"Tem algum compromisso?"

"Kazu-senpai é tão inconveniente."

"Eu estava pensando em fazer doces à tarde."

   Ishikura tinha uma aparência bem intimidadora.

   Mas, ao contrário disso, seu hobby era fazer doces. E mais: era muito habilidoso, e a torta de frutas que ele fez da última vez tinha qualidade de confeitaria.

"Hmm, o que vai fazer hoje?"

"Kazu-senpai é inconveniente."

   Haruto perguntou por curiosidade, e Ishikura respondeu parecendo até feliz.

"Comprei uma manteiga muito boa outro dia, então pensei em tentar fazer financiers."

"Financiers? Parece ótimo."

"Eu gostaria de ter um pouco para o treino de amanhã. Além disso, Kazu-senpai é inconveniente."

"Ei, Shizuku. Você fica repetindo inconveniente sem parar, mas agora está bem ousada, hein? Pedindo para eu trazer doces."

   Shizuku, que vinha encaixando “inconveniente” na conversa de Haruto e Ishikura, abriu os olhos ligeiramente ao ouvir “financier”.

   As têmporas de Ishikura tremeram.

"Kazu-senpai é incrível, legal, bife, intimidador. Pronto, te elogiei, então traga amanhã."

"Isso foi totalmente arbitrário! E dizer que sou intimidador não é elogio!"

   Ishikura reclamou diante das palavras preguiçosas de Shizuku.

   Shizuku respondeu: "Kazu-senpai, que egoísta."

"Você realmente tem uma personalidade única."

"Não, nem tanto."

"Eu não estava te elogiando! Enfim, é isso. Vocês dois vão almoçar. Estou indo pra casa. Até mais."

   Ishikura, parecendo um pouco cansado da troca com Shizuku, acenou e saiu do dojo.

   Shizuku observou suas costas e murmurou, com expressão vazia:

"Eu me pergunto o quanto ele quer que sua lacuna de imagem aumente para ficar satisfeito."

"Bem, o Kazu-senpai é a prova viva de que não se deve julgar um livro pela capa."

   Ele era um homem enorme, quase 2 metros de altura, com sobrancelhas finas e olhar penetrante. Tinha cabelo curto com três linhas raspadas na lateral e uma cicatriz antiga que ia da têmpora até a boca.

   Por fora, parecia um criminoso.

   Mas por dentro, era alguém gentil, com hobby de confeitaria, e que adorava crianças e pequenos animais.

"Será que ele traz os doces amanhã?"

"Ele traz sim. Mesmo reclamando disso e daquilo. É o jeito dele."

"E Haru-senpai vem amanhã?"

"Desculpa. Amanhã tenho um compromisso e não posso ir."

   Haruto também queria comer os financiers que Ishikura faria, mas havia prometido a Ayaka que passaria o dia procurando um sorvete de edição limitada, então não poderia aparecer no dojo.

   Ao ouvir isso, Shizuku, um pouco decepcionada, mostrou a tela do smartphone.

"Haru-senpai. Quero almoçar aqui."

"Certo."

   Haruto assentiu e foi ao vestiário trocar de roupa.

   Depois de trocar, Haruto e Shizuku foram a uma loja de ramen recém-inaugurada numa avenida perto do dojo.

   O ramen, com macarrão grosso e satisfatório, em um caldo rico de tonkotsu com shoyu, atraía uma fila grande porque já era hora de almoço.

"Uau, esse lugar é bem popular."

   Haruto já tinha interesse nesse restaurante e pensava em chamar Tomoya algum dia.

"Sempre tem fila aqui, e esperar sozinha é entediante, então o convite de Haru-senpai veio na hora certa."

"É verdade, no calor do verão esperar assim é bem difícil."

   Conversando, eles entraram na fila.

   O cheiro do caldo de tonkotsu vindo da coifa do restaurante estimulou o apetite de Haruto, fazendo seu estômago reclamar.

"Depois que você se acostuma com esse cheiro, ele vicia."

"Concordo. No começo eu achei ruim, mas quanto mais come, mais vicia."

   Shizuku concordou.

   Havia outro restaurante semelhante perto dali, tradicional, onde Haruto e os outros — inclusive Ishikura — iam depois do treino.

   Esse também tinha um cheiro forte e peculiar. No começo, Haruto e os outros ficaram chocados, mas o sabor era tão bom que bastaram algumas visitas para se acostumarem — e agora, se não tiver aquele cheiro, nem parece almoço.

"Por enquanto, o cheiro passou no teste. Agora, o sabor?"

   Shizuku falou com seu tom sério habitual, apesar da expressão neutra.

   Ao lado dela, com ares de jurado rigoroso de programa culinário, Haruto também estava sério.

"Também estou curiosa sobre os temperos da mesa. Eu ficaria feliz se tivesse chips de alho."

"E vinagre é obrigatório."

"Sim."

   Os dois cruzaram os braços e assentiram.

   Alguns minutos depois.

   A fila avançou e, pouco antes de entrarem, Shizuku falou repentinamente:

"A propósito, Haru-senpai."

"Hm?"

"Eu perguntei antes, mas... você encontrou alguém de quem goste, Haru-senpai?"

"Eh!?"

   Haruto deixou escapar um grito de surpresa.

"O que foi, Shizuku? Por que perguntou isso do nada..."

"Bem, ouvi você falando com o Kazu-senpai antes. Sobre a lógica de estar com uma mulher que você quer valorizar."

"Ah, você ouviu?"

   Naquela ocasião, quando Ayaka o forçou a “praticar” ser namorado, Haruto começou a perder o controle das próprias emoções e tentou desabafar com Ishikura — mas parece que Shizuku ouviu.

   Mesmo assim, eles não falaram muito sobre isso na hora.

"E então? Como está? Encontrou alguém que gosta?"

"Bem, bem... eu não sei."

   Haruto tinha consciência de seus sentimentos por Ayaka. Mas ainda não tinha organizado isso o suficiente para admitir em voz alta.

   Vendo ele hesitar, Shizuku suspirou profundamente.

“Dizer ‘não sei’ é praticamente a mesma coisa que dizer que sim, né?”

"C-como você pode ter tanta certeza? Você não sabe disso."

"Eu sei."

   Shizuku olhou diretamente nos olhos dele.

"Eu estou te observando desde pequena, é claro que sei."

   As palavras ditas com tanta calma eram estranhamente convincentes, e Haruto não conseguiu negar.

"Eu realmente sou tão fácil de entender...?"

"Não. Eu que sou especial por ser sua amiga há tantos anos."

   Ela disse isso e estufou o peito, orgulhosa.

"Então? Quem é a pessoa de quem Haru-senpai gosta?"

   Shizuku já estava certa de que Haruto gostava de alguém e continuava a conversa nesse ritmo.

   Vendo isso, Haruto desistiu.

"...É uma garota da mesma classe, e tivemos um pouco de contato nas férias de verão. Então..."

"Oh. Então a ladra de gatos que roubou o Haru-senpai de mim é uma colega de classe?"

   Shizuku levou a mão ao queixo. Haruto sorriu amargo ao ouvir "ladra de gatos".

"Agora que penso... a famosa Tojo-senpai está na mesma classe que Haru-senpai, né?"

"Ah... ah. Sim, é."

   Haruto se enrijeceu ao ouvir o nome Tojo sair da boca de Shizuku.

   Ela não perdeu a reação e olhou fixamente para ele.

"Não me diga que a pessoa de quem Haru-senpai gosta é..."

"... Eu invoco meu direito de permanecer calado."

   Incapaz de suportar, ele desviou o rosto.

   Shizuku suspirou de novo:

"Isso é o mesmo que admitir, Haru-senpai?"

"Ugh..."

"Mas logo a Tojo-senpai...? Haru-senpai vai se confessar e ser derrotado, e virar mais um cadáver no monte de homens que tombaram. Coitadinho. Não se preocupe, vou consolar o senpai derrotado. Pode chorar no meu peito."

   Tojo Ayaka, a idol da escola, nunca aceita confissões.

   É famosa por isso.

   Por isso, Shizuku naturalmente presumiu que Haruto seria mais um derrotado.

"Mas não dizem que Tojo-senpai não se interessa por romance? Esse boato rola entre as meninas do primeiro ano, não rola?"

   Mas Haruto — que realmente passou tempo com Ayaka por causa do trabalho — sabia que talvez houvesse uma chance.

"Eu não acho que a Tojo-san não se interesse por romance."

   Alguém não interessado em romance não pediria para praticar ser namorados, nem falaria com o “namorado” de forma mandona.

   Ele respondeu rápido, e Shizuku o encarou com desconfiança.

"Haru-senpai, aconteceu alguma coisa entre você e a Tojo-senpai? Aliás, por que vocês tiveram contato nas férias? Ah, foi por causa de um bico? Foi isso, Haru-senpai?"

   Diante da pressão contínua de Shizuku, Haruto achou que, se tentasse fugir, só complicaria mais, então levantou as mãos em rendição e contou a ela parte do que aconteceu com Ayaka.

   Shizuku ouviu tudo em silêncio e, ao final, disse apenas:

"...Que covarde."

"Hã? O quê?"

   Ela falou tão baixo que Haruto não ouviu.

   Quando perguntou de novo, ela repetiu, agora um pouco irritada — talvez seus olhos normalmente vazios até tenham se estreitado.

"Haru-senpai, você não entende nada do coração de uma mulher. Mesmo que seja fingindo, você ainda é o namorado dela, não é? Ela não faria isso com alguém de quem não gosta. E ficar ‘praticando’ ser namorado? A Tojo-senpai está se esforçando para que Haru-senpai perceba."

   Shizuku balançou a cabeça, exasperada, suspirando pela terceira vez no dia.

"Tojo-senpai é até digna de pena. Ter que lidar com um Haru-senpai insensível, distraído, e cabeça oca."

"Ei, não sou tão ruim assim!"

"É sim. Primeiro, por que você mentiu para sua avó? Isso não tem nada a ver com o Haru-senpai que eu conheço."

   Ela fez um biquinho e murmurou baixinho, quase emburrada: "Eu também teria mentido por você."

"Desculpa, eu realmente estava desesperado. Quando pensei que minha avó fosse morrer... tudo ficou escuro."

   Ao ouvi-lo, o rosto de Shizuku suavizou um pouco e voltou ao neutro habitual.

"Bem, eu entendo o quanto sua avó significa pra você, Haru-senpai."

   Ela olhou para a fila, que andou um pouco, e disse:

"Digo apenas uma coisa."

"Garotas não dizem ‘eu amo você’ para alguém por quem não têm sentimentos."

   E entrou no restaurante.

   Haruto estava prestes a segui-la quando algo o atingiu.

"Como assim Shizuku diz que garotas não dizem ‘eu amo’ sem sentimentos?"

   Toda vez que ele falava com ela, Shizuku brincava dizendo “vamos namorar” ou “vamos nos casar”. O que era aquilo então?

   Ele ficou parado por um instante, pensando, mas como havia uma fila atrás deles, correu para não atrapalhar.

   Bom, Shizuku sempre foi assim. Um pouco especial.

   Com essa conclusão, Haruto escolheu seu pedido na máquina ao lado dela.

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