SESSÃO 2

43 - Falando Como um Casal

 

   O dojo ecoava com gritos entusiasmados.

   O rangido dos pés descalços contra o piso de madeira, o som grave de chutes e socos sendo absorvidos, e o estalo agudo das batidas se misturavam.

   Haruto mirou um chute baixo em seu parceiro de sparring, Ishikura.

   Ishikura desviou habilmente ao puxar uma perna para trás e então avançar rapidamente, alternando os punhos em sucessão rápida, mirando no peito de Haruto.

   Haruto bloqueou os socos afiados desviando-os com o braço. Mas de repente, fora de seu campo de visão, o chute de Ishikura estava prestes a atingir sua têmpora.

   Normalmente, Haruto teria reagido rapidamente a um chute alto, desviando com facilidade ao inclinar o corpo para trás. Mas hoje, ele não conseguia se concentrar na luta e, como resultado, reagiu tarde demais, tendo que erguer o braço para se defender.

   Com um baque surdo, o chute pesado de Ishikura atingiu o braço de Haruto.

   Mesmo para Haruto, o bloqueio atrasado com um braço só não foi suficiente, fazendo-o cambalear levemente antes de recuperar o equilíbrio.

"Ei, Haruto, você está um pouco lento hoje, não está?" Ishikura perguntou, ainda no movimento final de seu chute alto.

"Desculpa, Kaz-senpai. Minha mente estava divagando um pouco," Haruto respondeu, balançando levemente o braço onde havia recebido o golpe, oferecendo um sorriso sem graça.

"Você vai se machucar se continuar viajando assim."

"É. Vou focar," Haruto exalou profundamente, recuperando a compostura.

   Vendo a nova determinação de Haruto, Ishikura também retomou sua postura, e eles continuaram o sparring.

   Depois de suar com Ishikura, Haruto sentou no chão do dojo para alongar e esfriar o corpo. Ishikura se aproximou, enxugando o suor do pescoço com uma toalha.

"Haruto, tem algo na sua cabeça?" Ishikura perguntou casualmente enquanto se sentava ao lado de Haruto.

   Ambos eram instrutores naquele dojo, e suas habilidades eram equivalentes. Normalmente, as sessões de sparring eram intensas, com ataques e defesas alternando rapidamente. Mas hoje, Haruto havia ficado praticamente só na defensiva.

"Durante a luta, você mencionou que estava com muita coisa na cabeça."

"É, então... não diria que é exatamente um problema..." Haruto respondeu, fechando as pernas após o alongamento, parecendo hesitante.

"O que você faz quando sente que está prestes a perder o controle das emoções com uma garota de quem gosta muito?" Haruto perguntou.

"Hã? Que tipo de pergunta é essa?" Ishikura respondeu, pego de surpresa pela pergunta inesperada.

"Estamos falando de romance?"

"Uh... talvez? Acho que sim?" Haruto disse, incerto.

"Bem, não pergunta pra mim, eu não faço ideia," Ishikura disse, um pouco exasperado.

   De repente, atrás de Ishikura, Shizuku apareceu do nada.

"O que é isso? Uma conversa de garotos sobre sentimentos?" ela provocou.

"Uah! Shizuku! Não chega assim por trás! Quase me matou do coração!" Ishikura gritou ao girar para encará-la.

   Shizuku o encarou com sua típica expressão sem emoção.

"Kaz-senpai, essa era a sua chance de dizer: ‘Não fique atrás de mim se não quiser se machucar’, com um sorriso maldoso. Que desperdício."

"Quem disse qualquer coisa sobre sorriso maldoso? E o que você quer dizer com desperdício? Isso nem faz sentido!"

"Era uma oportunidade de aumentar seu ‘índice de infâmia Kazuaki Ishikura’. Enfim, Haru-senpai, você encontrou alguém de quem gosta?" Shizuku perguntou, ignorando totalmente o protesto de Ishikura enquanto fixava o olhar em Haruto.

"Ah... não..." Haruto murmurou, coçando a cabeça enquanto desviava o olhar.

   Ignorando-o, Shizuku se aproximou e insistiu: "Haru-senpai, se for sobre romance, eu posso ajudar bem mais que o Kaz-senpai, tipo um milhão de vezes mais."

"Isso já é exagero, não acha?"

"Você consegue conversar com uma garota por mais de três minutos sem fazê-la chorar?" Shizuku perguntou sem hesitar.

"Eu tô conversando com você agora, não tô?"

"Você não conta, Kaz-senpai. Eu sei que você é um fofo escondido."

   Ishikura, com a expressão ligeiramente cansada, murmurou: "Fofo? Eu?"

"Então, quem é a garota, Haru-senpai? Sou eu? Beleza, tudo bem, eu saio com você."

"Valeu, Shizuku. Eu aceito esse conselho outra hora," Haruto disse com uma risadinha, ignorando a provocação.

"Eu vou nessa. Até depois," Haruto disse, terminando o alongamento e indo para o vestiário.

"Ei, Shizuku, você acha que ele realmente se apaixonou por alguém?" Ishikura perguntou.

"Quem sabe... mas se o Haru-senpai arrumar uma namorada, acho que seria bom," ela sussurrou suavemente.

   Ishikura lançou um olhar para ela. No entanto, seu rosto continuava tão ilegível quanto sempre.

 

****

 

   Haruto sentiu um leve suor nas palmas das mãos enquanto seguia Ayaka escada acima.

"Esse é meu quarto," Ayaka disse, abrindo a porta.

"...Com licença," Haruto disse, inclinando a cabeça antes de entrar no quarto dela.

   Esse era o quarto da “idol da escola”, conhecida como a garota mais fofa do colégio de Haruto.

   O quarto era bem comum para um quarto de menina.

   Se algo chamava atenção, era um pouco mais espaçoso que o de Haruto, e havia uma estante abarrotada de mangás e romances encostada na parede.

"É um quarto bonito e muito agradável," ele elogiou.

"Hehe, obrigada. Vou pegar umas bebidas. Sente-se naquele zabuton e espere um pouquinho," Ayaka disse antes de sair do quarto.

[Almeranto: De forma simples, um zabuton é um almofadão japonês usado para sentar no chão, pra quem não sabe.]

   Ficando sozinho ali, Haruto olhou ao redor nervoso.

   Estar no quarto de uma colega já era o suficiente para deixá-lo tenso. Somado a isso, seus sentimentos por Ayaka e a relação de mentira dos dois o deixavam inquieto no zabuton.

   Cada respiração trazia um perfume suave e agradável que acelerava seu coração.

   O quarto estava cheio da mesma fragrância que às vezes vinha do cabelo de Ayaka, e o olhar de Haruto vagava inquieto.

   Então, ele focou no zabuton onde estava sentado. Ao lado dele havia outro zabuton.

   Eles estavam colocados praticamente sem espaço entre um e outro.

   À sua frente havia uma mesa perfeita para estudar.

   Os únicos outros lugares para sentar ali eram a cama ou a cadeira da escrivaninha.

   Haruto olhou novamente para o zabuton ao lado, então o empurrou suavemente para o lado, criando um pouco de espaço.

   Nesse instante, Ayaka voltou com uma bandeja carregando bebidas e copos.

"Desculpa a demora, Haruto. Chá de cevada tá bom?"

"Ah, sim. Muito obrigado," ele respondeu.

   Ayaka colocou a bandeja na mesa em frente a Haruto e sentou naturalmente no zabuton ao lado dele.

Ao fazer isso, ela fechou perfeitamente o espaço que Haruto acabara de criar.

"......"

"......"

   Haruto e Ayaka sentaram tão próximos que seus ombros se tocavam.

"Um... vou beber o chá agora," Haruto disse.

"T-ta bom. Vai em frente," Ayaka respondeu.

   Quando Haruto estendeu a mão para pegar o copo, acabou esbarrando em Ayaka e sentiu o coração acelerar ainda mais.

   Ele pretendia dar apenas um gole, mas quando percebeu, já tinha tomado mais da metade do copo de uma vez só.

"Você estava mesmo com sede? Quer que eu sirva mais?" Ayaka perguntou.

"Não, tô bem," Haruto respondeu, acenando para recusar.

   Após alguns instantes de silêncio, Ayaka falou.

"Então, um... vamos começar a praticar ser um casal?"

   Com um leve rubor nas bochechas, as palavras de Ayaka pegaram Haruto desprevenido.

"Sim... uh, por onde começamos?" ele perguntou, lembrando da conversa anterior sobre proximidade física.

"Bem, primeiro, eu queria que você mudasse o jeito de falar," Ayaka disse.

"Mudar o jeito de falar? Como assim?" Haruto perguntou, inclinando a cabeça.

   Ayaka olhou para ele e disse: "Seu jeito formal de falar me deixa um pouco distante... até meio solitário."

"Você quer que eu fale de um jeito mais casual?" ele confirmou.

"Sim. Afinal, antes de atuarmos como namorados, somos colegas, então quero que você fale comigo mais normalmente," ela explicou.

"Entendi..." Haruto assentiu pensativo, levando a mão ao queixo.

   O relacionamento deles havia começado com ele como cliente e ela como funcionária de um serviço de limpeza, então naturalmente ele falava formalmente com Ayaka.

   Mas como ela havia apontado, isso podia criar uma distância desnecessária.

"Então eu deveria interagir com você como se fôssemos apenas amigos?" ele sugeriu.

"Uh... sim..." Ayaka respondeu, meio hesitante.

"Espera, isso não tá certo?" ele perguntou, percebendo a hesitação dela.

"Não, não tá errado, mas... sabe, quando estamos fingindo ser um casal, isso significa que eu vou pertencer a você, Haruto," ela explicou com um pouco de calor na voz.

"Isso é... bom, acho que é verdade?" ele respondeu vagamente.

   Ao ouvir isso, Haruto ficou um pouco inseguro.

   Ayaka continuou, agora com mais confiança: "Então, ao invés de só falar como amigos, eu queria que você fosse mais... assertivo? Um pouco mandão e levemente insistente deixaria a coisa mais real."

"Isso é... sua preferência, Ayaka?" ele perguntou, surpreso.

   Com o rosto ficando vermelho, Ayaka gaguejou: "N-não é só minha preferência! De modo geral, é assim que casais carinhosos interagem!"

"É mesmo...?" Haruto respondeu, tentando esconder a surpresa.

   Ele sentia que a sugestão dela talvez não fosse tão comum. Ainda assim, hesitou em recusar.

   Aquela prática de fingir ser namorados era uma gentileza de Ayaka para ele.

   Se recusasse agora, pareceria que estava desprezando a boa vontade dela.

   Enquanto pensava nisso, Ayaka o olhou com um pouco de ansiedade e perguntou: "É um não? Se você não quiser, eu não vou insistir..."

"Não, não é isso. Então, que tipo de fala assertiva você quer dizer?" ele perguntou.

   Quando ele perguntou, a expressão ansiosa de Ayaka se transformou em pura empolgação.

"Bem! Por exemplo, você poderia dizer algo como: 'Chega mais perto' com um tom mais bruto enquanto passa o braço em volta de mim, ou dizer 'Ela é minha' quando me apresentar a alguém..."

"Espera! Isso é meio repentino e de dificuldade alta... e também é bem diferente do meu jeito..."

"É mesmo?" ela perguntou, inclinando a cabeça.

"Começo a me preocupar com a imagem que você tem de mim, Ayaka-san..."

"Quando estivermos só nós dois, você deve me chamar pelo primeiro nome," Ayaka apontou para ele como se estivesse o repreendendo.

"Ah... é verdade," ele admitiu.

"Então, que tal começarmos com você dizendo 'Ei, Ayaka'?" ela sugeriu, como se já estivesse decidido que ele falaria de forma assertiva.

"Vamos mesmo fazer isso?" ele perguntou.

"Sim!" ela respondeu animada.

   Com o olhar brilhante e cheio de expectativa de Ayaka sobre ele, Haruto não encontrou espaço para recusar e disse, hesitante: "…Ei, Ayaka."

   Seu tom foi um pouco apressado, e Ayaka respondeu com um "Hmm..." pensativo.

"Acho que quero um tom mais assertivo," ela disse.

"…Ei, Ayaka," ele tentou novamente.

"Um pouco mais," ela encorajou.

"Ei, Ayaka," ele repetiu.

"Só mais um pouco," ela insistiu.

"Ei! Ayaka!" ele exclamou.

"...Assim tá bom," ela disse, corando e sorrindo satisfeita.

   Enquanto isso, Haruto estava com uma expressão cansada.

"Um, que tal praticarmos esse tom assertivo depois? Não deveríamos começar com um jeito de falar casual entre amigos?"

"Mas você estava tão legal agora, Haruto!" ela insistiu.

"...Não, vamos começar com o jeito casual, por favor," ele disse, balançando a cabeça.

   Embora parte dele ficasse tentada pelo elogio, ele pensou no futuro e recusou novamente.

   Fazendo uma reverência profunda, ele implorou, e Ayaka aceitou com relutância, ainda um pouco decepcionada.

"Ok. Então vamos praticar o tom assertivo aos poucos, e até lá, ficamos no jeito casual," ela concordou.

   Embora Haruto desejasse abandonar totalmente o tom assertivo, parecia que Ayaka não estava disposta a desistir tão facilmente.

   Restou a ele uma sensação de apreensão sobre a "prática de ser um casal" que estava prestes a começar.

 

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