Trauma Longínquo
Capítulo 93: Aceite a Dor
[8 Anos Atrás]
Envolta em completa escuridão, não havia visão, sabor ou tato, Incis estava... morta.
A última coisa que seus olhos dourados visualizaram foi a silhueta de uma figura cruel e ao mesmo tempo solitária trajando um grande sobretudo que balançava atrás de seus joelhos.
“Storlyx, o homem que me matou.”, foi o que ela pensou, mas... se ela estava morta como ainda sequer tinha consciência?
Antes que a jovem pudesse sequer entender o que Storlyx planejava fazer ele perfurou o crânio de Incis não com uma lâmina, mas com um estranho e pontiagudo espinho com uma boca na ponta.
Dentes afiados que devoraram uma parte de seu cérebro, aquela espada bizarra se assemelhou a um tentáculo enquanto pulsava devorando o cérebro de Incis quando seu corpo finalmente caiu e sua visão se esvaiu.
“Aquilo era uma espada? Uma espada que se transforma num tipo de tentáculo ou...”, uma dor excruciante quebrou os pensamentos de Incis.
A visão de seu próprio corpo caído sob um campo de flores murchas pulsou diante dela no que seus olhos abriram novamente.
— Sinais vitais recuperados, os efeitos colaterais podem ser apenas uma pequena perda de memória e nada mais.
— Storlyx perfurou a região responsável por guardar memórias, o Hipocampo, assim as memórias dela foram parcialmente apagadas. Me pergunto que tipo de instrumento pode perfurar o cérebro de alguém sem causar morte instantânea, aquele homem é assustador.
Uma luz ofuscante banhava o rosto de Incis quando suas pálpebras abriram lentamente.
“O que sequer está havendo?”, sua consciência lutou pra tentar compreender a situação em conjunto ao seu corpo ainda fraco.
Ela abriu a boca. — Q-Quem são vocês?
Os responsáveis pelo tratamento médico de Zykron eram pessoas com máscaras e vestes escuras, seus olhos eram cobertos por estranhos apetrechos de visão com lentes de alto grau contendo fortes luzes Neon somadas a carcaças de metal.
Uma sala com paredes metálicas e uma iluminação forte vinda de cristais prateados no teto.
O cheiro de ferrugem preencheu as narinas de Incis, ela se sentiu como uma criança que acabara de vir ao mundo. Foi então que uma sombra quadrada cobriu o rosto dela.
— Se recorda de seu seu nome? — Foi o que indagou um dos médicos trazendo uma tela negra diante da face dela.
A tela escura lentamente criou uma imagem da face de Incis, um verdadeiro espelho digital.
— Ugh... e-eu sou Incis Katulis. Por que tudo isso? Ti-tira esse espelho da minha ca... — Sua voz fraca se enroscou em sua garganta quando ela subiu os olhos sob o espelho pra dar de cara com uma grande cicatriz no centro de sua testa.
Era como se sua pele tivesse sido queimada.
A cicatriz se assemelhava a rachaduras em uma pedra rígida, um pouco de sangue fresco ainda escorrendo da região enquanto suas pupilas douradas diminuíram em choque.
— O que fizeram comigo?! Como eu vim parar aqui?!
Desespero a consumiu no que seu corpo começo a se debater sob a cama bruscamente.
— Segurem-na!
Mãos com luvas negras tentaram conter Incis sob a cama fria que já até mesmo limitava quaisquer movimentos vindos dela com cintos de força.
“Eu morri, eu lembro que morri e de algum modo voltei a vida, aquele homem me matou. Storlyx me matou... Onde eu estou? O que me levou até toda essa situação, a minha memória... eles mexeram na minha cabeça e tiraram alguma coisa de mim, eu estou sendo feita de cobaia em algum experimento ou coisas assim?!”, Incis se debateu com todas as forças enquanto seus gritos de desespero ecoaram e lágrimas escorriam de seus olhos.
— Droga! O sistema nervoso está se agitando.
— Usem a quebra de moléculas Vitalis, rápido!
As vozes dos médicos repletas de tribulação, a pele de Incis esquentou e assim uma luz escarlate subiu ao redor dela.
— ME TIREM DAQUI! — Ela se engasgou com a própria voz pra no fim uma corrente de energia com uma temperatura descomunalmente quente se expandir por dentro de seus ossos emergindo pela sua pele com raios carmesins.
Como se seus órgãos fossem explodir, o estômago borbulhando, o gosto de sangue na língua que ardia sem parar, uma dor de cabeça aguda que dava a sensação de algo rígido ter batido contra seu crânio, os olhos lacrimejando prestes a pularem pra fora.
A mente da garotinha se esvaiu em meio a essa dor eminente e simplesmente se perdeu quando o gosto de sangue preencheu sua boca.
“Dor, comida, sangue, dor, comida, sangue, dor, comida, sangue, dor, comida, sangue, sangue, comida, comida, comida, comida!”
O gatilho principal para o novo DNA fluindo em suas veias, sangue e dor, Incis não era mais a mesma e nunca mais seria.
“Eu quero comida!”, ela gritou internamente suportando toda a dor enquanto seus olhos dourados mudaram drasticamente para um vermelho sangue e seus dentes passaram a ser presas afiadas.
No fim seu corpo apagou novamente.
Quebrada, confusa, assustada, descontrolada, descontroladamente insana.
Dessa vez... Ao invés de estar imersa em uma completa escuridão Incis se viu sozinha no topo de uma grande pilha de flores mortas, tais flores essas que cresciam e desabrochavam sob milhares de cadáveres.
Quem era Incis Katulis agora?
“Eu sou... a dor.”
O primeiro soldado perfeito do projeto Vermiculus Lunae havia sido criado.
A Incis solitária no topo dos cadáveres levantou a voz para a Incis sofrendo em desespero e dor. — Me desculpe, pai... me desculpe Zakio, me desculpe irmãozinho. Eu nunca fui nada se comparada a vocês, sou só uma garotinha inútil que só sabe chorar. Só que agora eu acho que compreendi algo, todos esses problemas e toda essa dor, é contra ela que todos estão lutando só que eu sempre vi tal fato do meu ponto de vista, nunca havia sentido tanta dor... É desesperador, é triste e solitário. É por isso que se em algum lugar vocês estiverem me ouvindo ou pensando em mim eu quero ser a dor, quero sentir ela pra que nem meu pai, nem Zakio, nem meu irmãozinho e nenhum de vocês precisem mais lutar ou sentir dessa mesma dor, porque eu sou uma pessoa gentil assim como o meu pai me ensinou a ser. Eu sou útil agora porque contenho toda essa dor em mim.
As palavras da Incis de pés naquele topo de corpos eram efêmeras como a brisa fresca da primavera, a mesma que batia nas copas das arvores de um pequeno vilarejo que por ventura ela passou sua infância, essa garotinha estava vendo um reflexo distante de si mesma.
Em sua mente dessa vez totalmente fragmentada ela ainda conseguiu se recordar das faces de seus companheiros e deu seu pai.
— Incis, eu vou me tornar tão forte quanto Zakio e assim vou te proteger com minhas próprias mãos. — A voz longínqua e familiar ressoou pelo subconsciente dela.
“Irmãozão, não vou mais precisar disso. Eu vou carregar toda a dor que esse mundo tem comigo, sou a única que precisa ser forte. Eu vou ser útil.”, se Incis pudesse ver seu rosto enquanto pensava isso, ela tinha certeza que estaria sorrindo mesmo que fracamente.
Renard levantou as sobrancelhas com uma face travessa. — Ultime o que? Que nome estranho pra uma espada.
Zink!
O som do metal rigidamente entrando em atrito antes de Storlyx e Renard se separarem.
Ambos derraparam para trás com seus olhares cruzando-se como raios.
Um painel reluzente surgiu diante de Storlyx iluminando seu sobretudo negro e sua face frívola.
Ele tocou o dedo indicador sob um pequeno símbolo de microfone antes de levantar a voz num tom firme e confiante: — Um intruso foi registrado no primeiro andar, não há necessidade alguma de reforços, evitem passar pela entrada principal. Cortando a comunicação.
Num piscar de olhos a silhueta de Renard perfurarou a distância até Storlyx.
— Cortando a comunicação? eu é que vou te cortar!
Esquivando-se calmamente com meio passo para a direita o cabelo loiro de Storlyx balançou levemente em conjunto ao seu sobretudo.
O vulto metálico de antes se duplicou antes de tremer como gelatina, os braços de Renard se transformando em duas armas de fogo no instante em que ele se afastou do seu oponente com um pulo.
— Ou melhor, eu vou te estourar na bala, loirinho! — Gritou Renard com suas pupilas prateadas fixando-se sob Storlyx antes de começar a atirar consecutivamente.
Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang!
A luz dos disparos com energia Vyer emergia da ponta dos fuzis nos braços de Renard de forma caótica.
Os arredores sendo iluminados com leves clarões e o som ensurdecedor somado ao cheiro de energia Vyer queimada.
Apesar da chuva de balas energizadas que poderiam causar explosões massivas ao acertar qualquer coisa, Storlyx se manteu calmo e erguendo sua estranha espada com a lâmina em formato de funil disse: — Ultimessiah Trigger On.
A lâmina escura apontada para o alto ondulou e de forma brusca se expandiu em uma explosão de escarlate tingindo os arredores.
“Mas que droga é essa?! As balas estão sendo absorvidas pela aquela coisa!”, Renard arregalou os olhos.
Os ventos foram quebrados.
Quando Renard piscou os olhos a cortina vermelha que a espada Ultimessiah havia se tornado já não existia mais e Storlyx estava a um passo de distância dele.
A visão de Renard ficou borrada com a velocidade que seu corpo voou para cima depois do chute em sua mandíbula.
— Ughn! — Cuspindo sangue suas pupilas brancas tentaram focar no inimigo, porém ele já não estava mais no chão e agarrou Renard pelo pescoço ainda no ar.
— Acho que lhe superestimei. — A foz fria de Storlyx.
Poeira subiu em conjunto ao som quebradiço.
Uma dor pulsou na espinha de Renard quando ele abriu seus olhos novamente apenas para ver que foi jogado no chão com uma força descomunal, a cabeça latejando quando diante dele o seu oponente caminhou calmamente.
“Esse cara mal usou a espada dele, com apenas dois golpes a curta distância me deixou em tal estado... quem é ele afinal? Ele é rápido demais.”, Ponderou Renard com sua franja bagunçada sob um dos olhos.
— Aqueles que ameaçam os que tem mais poder sempre acabam na pior, devia saber disso já que faz parte de uma guilda de terroristas.
— C-Cala a boca. — Renard levantou as costas do chão apenas para perceber que a estranha espada na mão de Storlyx já estava prestes a perfurar seu peito.
A lâmina esticou e ondulou como um chicote antes de parar centímetros perto do metal da armadura que Renard trajava.
“Isso não é uma espada comum, nunca foi, talvez se eu conseguir...", ele sussurrou internamente antes de varrer seu olhar para o cavaleiro loiro na frente dele trajando o longo sobretudo escuro.
— Tch! Tanto faz, eu não estou aqui pra ouvir discursos de mentirosos como você, nós temos todas as informações sob os planos de Zykron, não só eu como todos da guilda.
As sobrancelhas de Storlyx subiram levemente. — O que quer dizer?
A lâmina estranha pulsou próxima do peito de Renard fazendo suor descer de sua testa.
Seja lá o que fosse essa tal de Ultimessiah não era uma espada comum, talvez fosse uma das novas armas biológicas do império criadas a partir das amostras de DNA vampírico? Bom, Renard mal fazia ideia disso tudo ele apenas deu um tiro no escuro ao lançar tais afirmações sob o cavaleiro Storlyx que com essa poderosa arma biológica mirada sob seu inimigo se sentiu interessado.
Percebendo o leve vacilo Renard continuou. — E-Essa arma, ela não é uma espada comum obviamente... é sobre isso que falo.
Os olhos azuis e sem vida de Storlyx se estreitaram.
As vozes dos dois ecoavam no espaçoso salão de entrada mal iluminado, os balcões de atendimento vazios, as portas de metal firmemente fechadas e um grande elevador logo atrás de Storlyx.
“Ele tem informações de dentro do império... não me parece algo de se impressionar tendo em conta do quanto estrago a guilda R.O.U.N.D.S tem feito pra chamar atenção de Zykron, porém como eles obtiveram informações obre o DNA vampírico? Não, isso é mentira, não há como conseguir informações de projetos tão recentes assim.”
Um silêncio pairou.
Storlyx se viu preso em pensamentos enquanto observou Renard caído a sua frente com a ponta da Ultimessiah pulsando perto de seu peito, um movimento em falso e seu coração seria perfurado.
As poças de sangue dos soldados que Renard matou ainda frescas escorrendo pelo piso de cerâmicas douradas.
— Compreendo. — O cavaleiro de sobretudo recuou a lâmina da Ultimessiah que voltou a sua forma de espada afunilada pulsando e se desmembrando como carne viva. — Imagino que seu objetivo atual invadindo a entrada principal e destruindo o reator de energia esteja atrelado a Incis Katulis.
“Funcionou, ele parece não ter percebido.”, Os lábios de Renard se curvaram em um sorriso perigoso.
— Skill on.
Com um único sussurro ele conseguiu fazer Storlyx se prontificar com sua espada na frente do rosto.
Um vulto negro se curvou no ar semelhante a uma cobra antes de finalmente colidir contra a lâmina afunilada do cavaleiro loiro.
Impacto!
“Eu sabia.”, o sobretudo de Storlyx dançando no que uma boca gigante com presas afiadas afundou seus dentes sob sua espada em formato de funil.
— Agora estamos de igual pra igual. — Foi o que afirmou Renard com um dos seus braços transformado em uma membrana escura que pulsava com veias carmesins. — Minha Skill não copiou tão bem a sua Ultimessiah, mas assim que consegui encostar meu peito levemente na ponta dela pude copiar essa forma de membrana esquisita que até tem essa boca feiosa, sério que espadinha escrota.
O cavaleiro de sobretudo fez uma face séria — Hmph. — e então ele empurrou a Ultimessiah para frente expulsando a membrana negra de Renard com todas as suas forças. — Que golpe baixo, entretanto realmente me parece interessante veremos quem é melhor, a cópia ou o original.
Em conjunto a voz frívola de Storlyx pequenos espinhos surgiram ao redor do punho da Ultimessiah e rapidamente eles se expandiram perfurando o pulso do cavaleiro loiro se enterrando sob sua pele até alcançar seus vasos sanguíneos.
A lâmina pontuda em formato afunilar pulsou mais uma vez com pequenos brilhos reluzindo sob sua superfície como várias veias.
Ploft! Pinga! Pinga!
O som de carne sendo rasgada bramiu quando essa bizarra espada na mão de Storlyx eclodiu ao se transformar em um tentáculo gigante e espinhento que pra completar ainda continha uma boca na ponta.
Um bafo quente soprava pra fora da boca do tentáculo pulsante enquanto suas presas afiadas e amareladas escorriam uma saliva nojenta.
Renard deu um passo incrédulo para trás.
“Essa merda nunca foi uma espada, está mais pra um demônio! Me perdoe por copiar uma aparência tão vil, deusa Afradia.”
Os olhos prateados dele lentamente acompanharam as escamas de carne ondulantes que se moviam lentamente sob o tentáculo escuro que pingava um tipo de sangue negro.
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