YUMETSUNAGARI
Capítulo 3: Mei
YUMETSUNAGARI
Mei
As ruas pareciam vazias naquele dia. A caminhada era longa e eu apenas seguia olhando diretamente para as costas de Kimiko.
— Kimiko, para onde estamos indo mesmo? Acho que já faz vinte minutos que estamos andando.
— Eu tenho uma conhecida que sabe várias coisas sobre vampiros, mesmo sendo humana.
— Você sabe… Eu ficaria satisfeita se fosse você me ajudando.
— A questão é que eu também não sei de tudo, Misaki.
Sinto meus olhos se arregalarem de surpresa com a afirmação.
— Apesar de eu ter um conhecimento extremamente avançado para uma vida humana, ou até para um vampiro, eu sei bem pouco sobre o Shuten Doji.
— E como essa sua conhecida pode nos ajudar?
— Bem, eu sei pouco sobre ela, para ser sincera, mas o conhecimento dela sobre os vampiros primordiais é fascinante.
Apenas aceno e continuo seguindo Kimiko. Era uma parte da cidade que eu nunca tinha visto, perto dos grandes montes e montanhas ao lado da cidade. As casas desse lado pareciam bem mais tradicionais e simples, diferentes das modernas que eu costumo ver.
Caminhamos por mais alguns minutos até que Kimiko para em frente a uma casa peculiar. Era grande, toda fechada na parte interna feita de madeira. Ao lado da porta principal havia um gramado simples com algumas estátuas que eu não reconhecia. O estilo era bem tradicional.
— Chegamos.
— A gente vai chamar ela? Ou… algo do tipo?
— Não precisamos.
Kimiko abre a porta da frente, mostrando que estava destrancada.
— Como ela consegue viver com a porta destrancada? Que medo.
— Ela sempre esquece, mas acaba não se importando muito porque ninguém vem aqui.
Ao redor da casa o gramado era limpo e simples, com algumas árvores de bonsai crescendo. Kimiko me espera já segurando a maçaneta da porta da frente.
— Espero que não seja algum maluco que tente me matar.
Ela empurra a porta e eu me deparo com uma sala bem decorada, cheia de posters, luzes e acessórios coloridos no teto, quadros rosa com personagens de desenhos infantis. As paredes eram de um rosa bem claro, com chão e teto brancos.
— Essa sala é… bem diferente.
— Se acostume, você viu pouco.
Escuto passos vindo dos fundos da casa. Uma garota entra na sala. Usava uma saia preta com um cinto peculiar de estampa de onça, botas de cano alto pretas com uma camada de pelos falsos, combinando com meia-calça branca. Vestia um moletom rosa bem claro com detalhes brancos na manga e gola. O cabelo ondulado prateado era chamativo, combinando com a pele clara, olhos roxo-claros, maquiagem pesada alternativa, unhas extravagantes e um corpo magro. Ela se arrumava enquanto vinha atender, com um lápis de olho em uma mão e um espelhinho na outra. Ao ver Kimiko, um grande sorriso se abre em seu rosto.
— Kimiko! Quanto tempo, e você ainda trouxe convidados!
Ela larga o espelhinho e o lápis, correndo na nossa direção com os braços abertos. Sem tempo para reagir, ela se enfia entre nós e nos abraça.
— Eu estou tão feliz! Faz muito tempo que você não vem aqui me ver.
— Sinto muito não ter vindo nesses últimos tempos. Fiquei ocupada o bastante.
— Compreendo, mas vem aqui mais vezes, ok?
Ela nos solta e olha agora para mim.
— E você? É amiga da Kimiko?
— Ah, bem… Sou sim — respondo um pouco nervosa, desviando o olhar às vezes.
A garota abre um grande sorriso.
— Ah, que bom! A Kimiko não é muito de fazer amigos. E como se chama?
— Misaki Takahashi.
— Que belo nome. Me chamo Fumiko Mei, ao seu dispor — ela se curva levemente como forma de apresentação. — Ah, por favor! Entrem! Eu preparo um chá para vocês.
Ela corre para o fundo do corredor, que já é totalmente diferente da sala rosa e extravagante.
— Vamos ficar no seu quintal, ok?
— Ok! — escuto a resposta um pouco longe.
Kimiko entra no corredor indo na direção oposta de onde Fumiko entrou. Uma porta dupla de madeira escura com detalhes que se assemelham a árvores nos espera. Kimiko segura uma das portas e a abre, revelando perfeitamente o quintal. Era um campo grande, com algumas estátuas, árvores de bonsai e gramado curto. O sol batia contra o verde da grama, e o quintal junto com o estilo da casa lembrava ainda mais uma casa tradicional japonesa.
— Mas que quintal lindo. É bem acolhedor ao meu ver.
— Certamente. A Fumiko tem um ótimo gosto para casa.
Kimiko entra mais e se senta em uma almofada no chão, cruzando as pernas. Eu faço o mesmo, sentando ao lado dela.
— Aqui é bem acolhedor, não é, Misaki?
— Realmente. É uma paz bem diferente do meu costume.
— Isso é porque a Fumiko é fiel aos seus deuses. Algo bem belo de se ver.
Eu me viro prestando atenção nas palavras dela, depois volto a olhar para o quintal, analisando estátua por estátua. Elas não são grandes e são feitas de pedra. Algumas têm formato de pilar com vários símbolos ao redor, e outras parecem pessoas sentadas da mesma forma que eu e Kimiko.
— Cheguei!
Fumiko entra no quintal segurando uma bandeja com um bule e três xícaras, todos brancos com fios verdes e pontas rosas.
— Você gosta de chá doce, Misaki?
— Ah, bem… Eu gosto sim.
Ela sorri, sentando do meu lado e me servindo um pouco de chá.
— Ainda está quente. Desculpa não ter perguntado se queria gelado ou quente…
— Sem problemas, Fumiko. Eu gosto de qualquer tipo de chá — seguro a xícara delicadamente e dou um gole. O gosto claro de genmaicha se espalha no meu paladar.
— Vai querer uma xícara também, Kimiko?
— Aceito também. Faz um tempo que eu não tomo chá.
Vejo Fumiko preparar mais uma xícara e entregar para ela.
— Então, Fumiko, preciso de um favor seu.
Ela vira os olhos para a vampira e dá um gole na xícara.
— A Misaki é parente direto do Shuten Doji e ela quer saber mais sobre ele e sobre a própria família.
— Você é o quê dele? — Fumiko pergunta direcionando os olhos para mim.
— Ah, bem… Eu sou filha dele… — digo desviando o olhar para minhas coxas dobradas.
— Você é filha dele?! — Sinto Fumiko se aproximar bem perto do meu rosto. A surpresa é explícita em seu olhar.
— Sim… Eu descobri que ele era o meu pai recentemente.
— Ele é um vampiro bem perigoso. Por que você quer saber sobre ele?
Nenhum pensamento passa pela minha cabeça por um breve momento.
— Eu quero saber quem foi que amaldiçoou a minha família, saber mais sobre ele.
— Ele definitivamente não é amigável e provavelmente vai arriscar a sua vida querendo saber. Ainda mais que você é humana.
— Eu não me importo com isso… — desvio o olhar novamente, olhando para o gramado. — Eu… Eu também quero proteger quem eu amo.
Fumiko se surpreende com minha resposta. Já Kimiko, sinto ela se levantar do meu lado e deixar a xícara no chão.
— Vou deixar vocês duas conversando. Vou esperar lá fora, ok?
Aceno e escuto ela sair pela porta e fechá-la.
— Bem, quem você quer proteger, Takahashi?
— O meu… namorado. Ele é meio vampiro e fez tudo por mim.
— Você namora uma quimera? Que interessante. Deve ser ele o subordinado que a Kimiko comentou para mim da última vez.
— Sim, é ele.
— Imagino que ele já se meteu em muita coisa, principalmente levando em consideração que você é filha do Shuten Doji.
— Você acertou. E é por isso que eu quero saber sobre o Doji e como eu e ele podemos evitar.
— É interessante de se pensar. Mas aqui… Você quer me falar sobre o que você passa ou passou por ser filha dele? Ou é… pessoal demais?
Meus olhos quebram o contato visual mais uma vez, olhando para a mesma direção.
— Se não quiser contar, tudo bem, mas iria me ajudar muito a te ajudar.
— Eu confio em você, mas acredito que não é meu costume falar essas coisas assim de forma tão… natural. Mas eu conto sim.
Me viro novamente dando um leve suspiro.
— Quando o Doji amaldiçoou a minha família, ele levou a minha irmã para ser o hospedeiro dela. A maldição afetou tanto os meus sentimentos quanto os da minha mãe e minha vida pessoal.
— Pode me dizer quais foram os efeitos dessa maldição?
— Bem, a minha mãe já tinha um certo sentimento de possessão e proteção extrema em mim. Mas com a maldição isso se tornou algo maior. Ela não me deixava ir para a escola por causa do bullying que surgiu por conta da maldição.
— Compreendo. E ela ia na sua escola resolver?
— Não… Ela nunca ia.
— Bem, era de se esperar vindo do Shuten Doji.
— O que quer dizer com isso?
— Essa maldição basicamente faz todos os sentimentos de alguns dos afetados serem irrelevantes, aumentando os sentimentos fortes e negativos. Geralmente acontece mais com as pessoas que foram bem próximas ao Shuten Doji, como as esposas, por exemplo.
— Ele então já teve várias famílias ou algo assim?
— Exatamente. Ele ainda está vivo por aí, só não gosta de conviver com outros vampiros.
Sinto que as informações ficaram mais claras na minha mente. Dou mais um gole no chá mudando um pouco de assunto.
— Fumiko, posso te fazer uma pergunta?
— Claro! — Ela abre um grande sorriso, quase se esquecendo do assunto anterior.
— Como você sabe de tantas coisas sobre os vampiros? Nem a Kimiko sabe sobre o Shuten Doji direito.
O sorriso largo e alegre dela se fecha enquanto escuta minha pergunta.
— Sabe, Misaki… Desde quando eu tive o meu primeiro contato com um vampiro, a minha vida mudou completamente.
— E qual foi seu primeiro contato?
Fumiko abre um pequeno sorriso novamente, se aproximando do meu rosto.
— Foi com a Kimiko.
Me surpreendo com a resposta, mas mantenho o foco.
— Como foi?
— Foi esquisito… Mas se eu sou feliz agora, é por causa dela.
Fumiko volta à posição respeitosa e dá um gole na xícara.
— Imagina você gostar de usar roupas masculinas, Misaki, mas vêm pessoas do seu convívio social falando que você deveria usar roupas femininas.
— Seria um pouco chato, apesar de eu não usar roupas masculinas.
— Então…
Fumiko dá o último gole em seu chá e se vira vendo seu próprio jardim.
— A minha vida inteira, meus pais e amigos sempre falavam que eu deveria usar roupas masculinas, mesmo que eu me sentisse confortável usando o que eu quero vestir.
— Pelo visto você já conseguiu superar isso, certo?
Ela ri suavemente, evitando olhar para mim.
— Não exatamente… Eu ainda sou fraca, Misaki.
— O que você quer dizer com isso?
— Eu conheci a Kimiko depois dos meus problemas pessoais terem piorado. Eu pedi a ajuda dela e ela me ajudou.
Ela abre um sorriso nostálgico no rosto.
— Ela me arranjou essa minha casa atual e fez os meus pais e colegas se esquecerem de mim. Desde então eu vivo aqui sem sair do meu ambiente.
— Isso… Isso é terrível, Fumiko.
Mei se vira para mim, um pouco surpresa com minha afirmação.
— Você acha isso? Por quê?
— Se isolar em uma casa sem ter contato com ninguém… Isso é simplesmente horrível! Você estaria estragando sua vida.
Escuto seu suspiro e logo em seguida sua risada suave.
— Misaki, apesar de eu não ter amigos e não sair de casa, eu me sinto bem assim.
Me surpreendo, mas deixo a garota concluir.
— A sua mãe não deixava você sair de casa e isso te deixava desconfortável. Eu queria isso, eu queria me isolar.
— Mas viver a vida inteira assim? Viver isolada em casa, sem contato com o mundo de fora, é assustador.
— Eu compreendo sua preocupação, mas infelizmente não dá para mudar a minha linha de pensamento. Entende?
— É diferente.
— Eu sei que é diferente, mas no final das contas eu sou diferente de outras pessoas.
Ela sorri simpaticamente.
— Eu fiquei aqui, expandi o meu conhecimento e ainda tenho muito a aprender. E estou feliz tendo a vida que sigo.
— Mas você acha que isso pode afetar você?
— Claro que não. Se eu tenho um objetivo e vida própria, eu vou me manter.
Aceno olhando para as estátuas.
— Eu posso decorar a minha casa sem medo, posso me vestir da forma que eu quero. Isso não vai me prejudicar. Apesar de que alguém me criticar, eu posso me sentir para baixo novamente.
— Eu te entendo…
— Fico feliz pela compreensão, Takahashi.
Ela se levanta olhando para mim.
— Agora, onde estávamos? Era sobre o Shuten Doji, certo? — Seu sorriso radiante e acolhedor me faz sentir confortável em confiar nela.
— Exatamente.
Eu me levanto, pronta para pegar o máximo de informações que posso sobre Shuten Doji.
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