Trindade Vital Brasileira

Autor(a): Vitor Sampaio


Volume 1 – Arco 2

Capítulo 12: Proporção em Cadeia

BANG! BANG! BANG!

Balas de urânio iam na direção do jovem, a chuva radioativa. Vinham do mesmo tipo de arma que o acompanhou antes de virar um Vital, o ilustre rifle eletromagnético. Era o fim se o acertassem.

Mas, para o Vital da Tempestade, o mundo era lento demais.

Conseguia acompanhar a trajetória das balas, instinto que só se manifestava quando pressentia a morte.

KABOOM!

Se lançou próximo à tangente do estádio, onde rolou até atingir o ombro na parede, desengonçado. Era difícil equilibrar com a perna d’água. Gravou o avanço elétrico que utilizou para proteger os novatos.

Capitã saltou para dentro do campo de batalha e fissurou o solo onde pousou. Vestia sua icônica farda: o exoesqueleto criou linhas verdes atrás do seu corpo enquanto corria até Lotus. Como de praxe, não iria deixá-lo respirar.

Quando chegou perto dele, ela bateu no próprio ombro e criou uma cúpula verde à sua volta. Em seguida, ordenou:

— Atirem! — Desferiu um soco.

O jovem esquivou, o golpe penetrou na parede e a atravessou! Ao mesmo tempo que precisava enfrentar a oponente, tinha que desviar dos disparos dos soldados. Ficou em desvantagem, como planejaram. A Capitã não precisava se preocupar, os tiros não passavam pela sua bolha verde.

De novo, Lotus decidiu fugir. Sabia que possuía um poder sem igual em mãos, mas continuava inseguro contra um grupo especializado em pará-lo — o Vital da Tempestade.

A general rachava o solo por onde pisava. Seus passos pesados estavam sedentos pelo sangue de um militar renegado, o que suava frio a cada tiro que cruzava a vista.

Era nítido que essa situação o derrubaria, seus reflexos não o salvariam para sempre. Os tiros logo lhe enterrariam e, seu exército, receberia as honrarias envolvidas. Se tomasse o soco, viriam as balas; se tomasse as balas, a carrasca o pegaria.

Precisava enfrentar seus problemas.

KABOOM!

Como um raio se lançou para a outra extremidade do estádio e, aargh!, ralou os dois braços antes de parar de rolar pelos concretos no impulso poderoso. Lotus conseguiu ser rápido como a luz, mas ainda desajeitado.

Antes que fosse alvejado, envolveu o braço com as gotas da tormenta — giravam mais rápido que um acelerador de partículas — e formou um redemoinho aquático. Era o momento de confrontá-los.

Capitã mudou a direção. Buscaria pelo jovem até afundar o estádio em ruínas.

Os militares atiraram.

Antes de ser atingido, Lotus se aproximou da adversária. Rastros elétricos foram deixados para trás, era um avanço e tanto.

Saltou, carregou um murro potente, rangeu os dentes e, enfim, golpeou-a com um soco hidráulico.

Aaargh!

A general abriu um sorriso sarcástico, após ver o jovem voando até a parede que separava a plateia do estádio. Ele não contava que seria lançado em um contra-ataque. Falhou. A égide da oponente era capaz de refletir ataques.

Lotus afundou as costas no muro e afundou, jogado dentro do ambiente escuro. A iluminação vinha apenas da fenda que o próprio abriu, um ambiente abafado. Seu prana amenizou a dor em segundos, porém o deixou em um cansaço extremo.

— A Pirâmide é um desperdício nas suas mãos, soldado! — bradou a Capitã enquanto tratorava o piso com seu coturno. — Finalizem!

Os soldados novamente dispararam.

Hum?!

Não acertaram o Vital, mas o guarda de lata entrou na frente com o escudo de aço, uma unidade Raoshield. Conseguiu conter os inúmeros disparos e, finalmente, o jovem ganhou um momento para respirar.

Em seguida, o índio que portava duas pistolas pousou na plateia. Era Raoni, o dono da prisão. Surgiu pelos ares com um sobretudo preto, suas tranças balançavam. Assim como os robôs, ele também possuía propulsores nos pés.

A Capitã o fitou no mesmo instante e ordenou que seus subservientes cuidassem dele.

BANG! BANG! BANG!

Os sons eram eletrizantes. O alvo era o Raoni… mas, o quê?! Os soldados ficaram boquiabertos quando viram as balas no chão.

— Que exército, hein! — debochou Raoni e apanhou o tiro do chão. Os militares continuaram atirando, porém os projéteis desaceleraram e caíram na arquibancada após ficarem próximos dele, puxados pela gravidade aumentada.

Apanhou a bala do chão e a colocou no buraco no pente da pistola. De repente, conseguiu atirar com a mesma munição de urânio com suas duas armas, mais de uma vez! Ambas passaram a produzir essa munição. Mágica… não, tecnologia.

Após isso, Raoni atirou nos militares com as mesmas balas que tentaram lhe derrubar.

No campo de batalha do estádio, a Capitã passou a enfrentar dois Raoshields. Durante a confusão, Lotus se reergueu e não se acomodou com seus protetores. Dessa vez, ele optou por um combate a distância: lançava espinhos d’água formados a partir da chuva enquanto os robôs continham as investidas pesadas da oponente.

Atacava do chão e do ar, impulsionando seus saltos com o vento da tormenta — lembrou da técnica que utilizou para pular pelas subidas íngremes da comunidade — embora a dificuldade para fazer com as duas pernas, mas deu para o gasto.

Raoni conseguiu derrotar todos os soldados e os imobilizou com os tiros radioativos. Subitamente, ouviu o barulho de hélice girando. Suspeitou que fossem reforços, porém notou que era apenas um enorme helicóptero sem pintura camuflada, a típica do exército. Então, quem era o louco de pilotar um desses em meio a essa tempestade?

— O mundo assiste esse embate — concluiu com o semblante incomodado enquanto encarava.

Apesar de tudo, a Capitã sequer se cansou; Lotus estava com as mãos no joelho e ofegante. Além do esforço físico, consumiu muito prana para curar os ferimentos ao chocar contra a parede.

Raoni pulou para dentro do estádio e se aliou ao jovem contra sua oponente. Era um dia de sorte.

Ela ficou com sobrancelhas arqueadas e rangendo os dentes rangidos, preocupada com a intervenção.

— Você não passa de um reles vodariano que deu a sorte de derrubar esse batalhão fraco! — disse. — Geração péssima!

— “Incompetentes!” Haha! — Raoni gargalhou e cessou o tiroteio. — A culpa é sua por não os treinar direito.

— Seu cretino! — Apesar da raiva, fincou os dedos na palma da mão e bafejou para se controlar. Planejava algo.

Cercada pelo jovem, pelo Raoni e pelos Raoshields, tinha ciência de que perdeu. Ademais, sua proteção ficou desgastada pela enxurrada de tiros e ataques do Vital. Dali para frente, era tudo ou nada.

— Soldado! — começou, não era boba. — Seu destino é morrer por San Garch! Tenha a honra de obedecer calado ou simplesmente, da mesma forma que seu pai, ser uma peça descartável para o bem maior da pátria!

A fúria emergiu do coração do jovem. Era fundamentalmente o motivo pelo qual ele se submeteu a arriscar a vida nesse lugar e ela descobriu para incitá-lo. Os olhos dele se ressaltaram com a adrenalina do ódio.

Sem pensar, correu igual uma fera faminta na direção da inimiga.

— Espera! — bradou Raoni.

Ei! — A capitã o fitou. — Foi pra esse momento que treinei meus soldados.

BOOM!

Os corpos de todos os atiradores militares explodiram, jogando os destroços da arquibancada para todos os cantos e, principalmente, criando uma cortina de fumaça em meio a tormenta. O jovem e o índio se abaixaram e taparam os ouvidos; os robôs posicionaram o escudo acima deles, esses que seguraram uma avalanche de detritos.

O zumbido estridente assolou os tímpanos.

Em poucos segundos, Lotus se levantou, meneou o braço e liberou ventos suficientes para dispersarem a fumaceira.

Para seu azar, a Capitã sumiu.

O jovem prostrou de joelhos, a sujeira do solo se misturava com sua perna d’água. Exauriu suas energias, o físico ficou pesado. Revoltado, faria com que a general retirasse o que disse, mas já era tarde demais.

Raoni meneou a cabeça para a plateia e ficou incrédulo:

— Desgraçada! Explodiu o próprio batalhão para se safar!

Lotus não ficou surpreso com a tática suja, as pessoas no seu país eram tratadas da forma que a Capitã falou: “Peças descartáveis”. Jamais aceitaria esse fato.

Após o ambiente ficar limpo, Raoni caminhou rápido até ele. Seu sobretudo balançava com o rogar da ventania. Em seguida, colocou o cano de uma das armas abaixo do queixo do jovem.

— Olha o problema que me arrumou — começou. — Seu exército tá na espreita o tempo todo, foi uma péssima ideia te trazer aqui fora. Considere que minha participação nessa luta foi nada mais que uma forma de proteger o meu país, apenas porque prefiro que um cabaço como você porte essa merda de Pirâmide do que o alto escalão de San Garch. Ficou claro?! — Ele pressionou o cano da arma.

— Sim… — Lotus não estava em condições de confrontá-lo, era melhor aceitar.

— Hoje, quem explodiu os soldados na plateia foi você, foram suas decisões! — Raoni guardou o revólver.

— …

— Levem-no de volta. — Raoni ordenou aos Raoshields.

Dessa vez, o jovem foi carregado pelos braços, cada por um robô.

Estava acabado, com uma culpa latente das consequências das suas escolhas. O que Raoni apregoou o atormentaria quando colocasse a cabeça no travesseiro — um chão gelado —, era nesse momento que recapitulava seus dias.

Mesmo assim, no fundo, sentia que melhorava aos poucos seu controle da Pirâmide. Era uma boa sensação, a de que estava, pouco a pouco, se tornando mais capaz de confrontar seus objetivos.

O ambiente mudou da claridade cinzenta para a escuridão irradiada por luzes incandescentes. O jovem bateu as canelas nas quinas dos degraus que levavam ao calabouço, os robôs não pegaram leve. Passaram por mais uma escadaria, uma que ficava entre duas celas. Por fim, abriram uma porta dupla de correr com suas digitais.

Lotus foi jogado no refeitório, era o horário do almoço. Caiu de barriga no chão e levantou.

Hum?

Olhou ao redor e, pasmem, o local estava vazio. Até o cozinheiro ficou ausente. Fenômeno inusitado.

Supôs que estavam trabalhando na mina e, era verdade, também era seu turno. No entanto, dessa vez, nenhum Raobaton — o bendito robô de cassetete — veio lhe apunhalar até a porta do trampo. Tinha algo acontecendo.

Depois de descobrir o que havia acima da prisão, creu que já conhecia tudo sobre esse ambiente, contudo tinha um lugar que ele não conhecia. Em meio a tanto furdúncio, nem se ligou de que no refeitório havia mais uma porta, desvendou sua existência ao vistoriar as paredes.

Supôs que, se uma parte dos prisioneiros estava trabalhando, a outra só poderia estar lá dentro. E claro: ele ia seguir o rebanho para não ser reprimido pelos robôs.

Quase debilitado, mancou até a porta. Embora tivesse olheiras profundas e estar com a roupa em trapos, seu semblante se manteve firme.

Chegou e abriu a porta.

Hum?

Arqueou as sobrancelhas.

Sobre o ambiente: era um lugar fechado e espaçoso, com uma branda iluminação cinza vindo das janelas no teto, com grades. A água da chuva escorria de lá. Um bueiro.

Do lado esquerdo, havia um espaço vazio; do direito, havia equipamentos improvisados de academia como barras montadas e halteres, feitos de cano comum e pedras. Era a área de tempo livre da cadeia, com poças insalubres ao redor.

Dois fatores chamaram a atenção do jovem: o primeiro foi a grande televisão grudada no meio do salão; era uma área de lazer, imprescindível para uma prisão ter. O segundo fator era que todos os presidiários no local encaravam fixos para a tela. Curioso, também começou a assistir.

Passava o noticiário mostrando a gravação feita por cima do estádio. Um homem com macacão laranja lançava golpes d’água na mulher de exoesqueleto. Depois, pulou para quando vários corpos explodiram na arquibancada. Abaixo dos vídeos, havia uma manchete. Lotus semicerrou os olhos para lê-la:

URGENTE: Novo Vital da Tempestade extermina membros das forças armadas enquanto cumpriam missão de segurança.

Só cortar o cabelo e mudar o penteado não iria resolver esse problema.

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