Volume 2

Capítulo 119: A Peça; Errado

 

Zhao Piao foi até um dos pátios e começou a balançar sua espada, contra bonecos de treino, enquanto o velho alto jogava pedras nele, fazendo com que precisasse se defender a todos os momentos. O que quebrava a sua concentração, assim como toda a sua postura.

Quando Zhao Piao não defletiu uma das pedras que atingiu sua mão, um pedaço da pele dos seus dedos foi arrancada, fazendo ele gritar e largar a arma.

Um erro, porque uma pedra veio diretamente na sua cabeça, e se ele não erguesse o braço para bloquear aquilo, teria um calombo na testa. Mas seu ensinador aproveitou a oportunidade e mandou uma pedra diretamente na sua canela.

O som seco da pedra batendo contra o osso soou, junto com um grito agudo.

Zhao Piao caiu, segurando a perna e desviando a tempo de uma que mirava sua cabeça desprotegida.

Ele levantou, pegou a espada enquanto uma pedra ardia em suas costas e conseguiu defender a última. Com as mandíbulas apertadas ao ponto de veias saltarem do seu rosto, ele atacou um boneco.

A espada fatiou a superfície, demonstrando o ódio tremendo de quem a empunhava.

...

Qin Xa tinha uma expressão estranha no rosto... que tipo de treinamento para guerreiros era esse? Desviar das pedras ajudava a afiar os instintos... mas não era tão eficiente assim. A experiência corpo a corpo era 100 vezes melhor. Sem contar que as falhas eram corrigidas gradualmente, e não jogadas na sua cara.

Sorte dela que teve Lou Bin Luo e Dong Mu em seu momento de aprendizagem... mas nenhum deles ensinou ela a como se defender de pedras.

Treinar os reflexos e a velocidade era legal, mas não era tão útil quando seu oponente poderia te esmagar com um machado. "Pensando bem, eu não sou ninguém para julgar. Todos os meus treinamentos deram errado e eu duvido que saiba de alguma coisa realmente útil em um treinamento sério."

Alguns minutos se passaram, com o pobre rapaz passando por dificuldades intensas com aquelas pedras, os bonecos e a espada, que parecendo conspirar com o instrutor — sempre fazia questão de escapar-lhe da pegada. Porém, o rapaz não reclamou ou desistiu, deixando óbvia sua determinação em suportar isso e se tornar tão mais forte.

A plateia estava admirada com isso. Talvez fosse por saberem que passar por aquilo não era fácil, talvez Zhao Piao fosse como muitos deles. Mas vê-lo apenas apanhando durante o treino era muito impactante para essas pessoas.

"Isso é o quão importante e enraizada a cultura de batalha está no sangue dessas pessoas. Milhões de anos de evolução para se tornarem máquinas de guerra... deixa evidente agora para mim o porquê dessas pessoas não evoluírem a tecnologia. Porque é contra a natureza de uma batalha física o uso de tecnologias avançadas... uma espada mata mais rápido, mas uma arma de fogo parece patética. É da natureza deles lutar até a morte, não conquistar povos ou terras..."

Foi então que adentrando o pátio, o General Vermelho chegou, imponente e com um semblante agradável, suas feições austeras e caminhar elegante arrancariam suspiros e olhares demorados, calorosos e cheios de segundas intenções. 

Se houvesse mais alguém naquele pátio além de 2 machos indiferentes.

— Saudações, general. — o velho abaixou-se em reverência respeitosa. — À vontade. Como está o treinamento dele?

— Ele está progredindo rápido e costantemente. Mesmo que não dê para comparar ele com alguém talentoso o suficiente para dominar a energia do céu e da terra, e cruzar o limiar... ele ainda consegue estrair muito mais do seu potencial do que eu ou você. Ele é muito talentoso, general.

Com essas palavras, Vermelho levou a mão ao peito e esfregou seu colar. Seu olhar saindo do garoto e se voltando ao treinador.

— Talentoso? Ele não é nada. Um jovem de uma aldeia conseguiu ultrapassar o limiar e uma das seitas imediatamente pegou ele, antes mesmo que eu pudesse chegar. E mesmo que eu estivesse lá, de nada adiantaria. Não faz diferença o tamanho do talento dele. Enquanto for um mortal, ele não tem nada.

Vermelho e o instrutor continuaram conversando, deixando Zhao Piao que treinava arduamente sozinho, não que ele desse qualquer atenção a isso. Ele só continuou lá, treinando em foco total. Apenas ele, sua espada, e o boneco de madeira. 

Já estando perceptível seu suor que grudava em suas roupas, sua respiração desordenada e seus movimentos já não tão estáveis. 

Tanto sangue escorreu de suas mãos que sua espada estava coberta por ele. 

Vermelho deixou o lugar sem nem mesmo cumprimentar o garoto, que não fez diferente. Na verdade, fez pior, porque nem se deu ao trabalho de lançar-lhe um segundo olhar desde que pisou no recinto. Indiferente a sua presença. Indiferente as suas palavras.

Desprezo, ódio, rancor, mágoa, indignação...

Tudo o que era de ruim e mais um pouco havia entre pai e filho.

Sua expressão se tornou gelada ao que seu pai virou as costas.

Com movimentos intensos, sua espada começou a cortar o boneco com ferocidade. O velho instrutor, assentiu, por seja lá qual for o motivo. — Você melhorou muito nos últimos meses, garoto, tenho que admitir. Mas esse não é o jeito de tratar o seu pai, você deveria-

— Cuide da sua vida, que da minha eu mesmo cuido. — Zhao Piao alertou, cortando violentamente e defendendo uma pedra que queria ferir seu olho. — O seu único dever aqui é me torturar com a desculpa de um treinamento, não pense que pode sair dando opinião sobre a família alheia quando você nem mesmo sabe como está a sua.

O rosto do velho se tornou vermelho, com sua respiração dando um bufo. Pedras foram jogadas a torto e a direito em Zhao Piao, que gemeu de dor. Dezenas delas criaram hematomas na sua pele. Se aquilo era um treinamento, certamente os xingamentos, gritos e gemidos contrariavam os métodos. 

— Se é assim que você vê, então sofra. Filho ingrato! Você tem sorte que o General Vermelho te ama. Se fosse meu filho eu já teria te quebrado os dentes para aprender o que é respeitar!

— Deve ser por isso que seu filho mais velho te traiu por outro nobre, e sua filha virou as costas para você depois de casar. — Zhao Piao já não era mais o garoto erudito e educado de meses atrás antes da guerra.

Cada palavra sua fez o semblante do velho se tornar mais horrível.

— Bom! Muito bom! Ao invés de filho de um guerreiro você deveria ser chamado de filho de uma serpente! Onde que você aprendeu a ser tão vil e venenoso?

— Eu quero saber o que você está esperando para fazer a sua velha esposa te largar também. Você acha que você, logo você, tem algum direito de me dar conselho de como eu trato minha família?

— Eu vou te ensinar o que seu pai falhou em fazer, moleque! — Qin Xa achou a última palavra bem estranha para o contexto desse mundo. Mas ignorou, porque o tom do velho esfriou demais enquanto bufava de raiva. — Você acha que é quem para falar desse jeito comigo?

O som de lâmina se espalhou, enquanto era desembainhada, e o velho marchou até o garoto que o encarou com olhos frios. Um olhar intenso e desafiador ao extremo, quase como se zombasse de tudo o que aquele homem era.

E talvez estivesse fazendo isso. Apenas zombando dele.

Tamanha insolência fez uma tensão crescente culminar no encontro das lâminas. Faíscas explodiram no pátio com o encontro do metal, e em seguida Zhao Piao estava recebendo socos, chutes e pontapés na cara.

Sendo sacudido de um lado para o outro, enquanto seu instrutor lhe dava lições. O rapaz foi ocultado pelas cortinas que ao se abrirem novamente, revelaram o General Vermelho atrás do pátio, com uma expressão fria.

— O que eu vou precisar fazer para esse patife entender?

Ele jogou as mangas e saiu pisando com força. Os empregados baixaram a cabeça ao passarem por ele, e no caminho, ele encontrou o transvestido Qiao Xu, que saiu da frente e ficou no canto da parede.

Vermelho o encarou, irritado. — Já conseguiu?

Qiao Xu não ousou se demorar em responder de forma mansa. — Não senhor. O jovem senhor não tem disposição depois dos seus treinos intensos...

Vermelho o ignorou e seguiu seu caminho, enquanto Qiao Xu se manteve parado até seu senhor cruzar o corredor. 

Ao chegar em seu escritório, o Vermelho pegou rolos de pergaminhos e começou a lê-los. Enquanto discutia com seu conselheiro como estava o gerenciamento da mansão. 

— Mesmo em sua ausência tudo está e mantendo em perfeita ordem, Senhor.

— Zhao Piao não parece estar tentando fazer nada?

— Não. Ele apenas treina, discute com o treinador ocasionalmente e mantém os negócios regulares com os comerciantes sob supervisão de nossos guardas ocultos. Não tem como ele planejar nada.

— Devo dizer que estou decep-

No meio da sua conversa, um dos seus guardas adentrou no escritório trazendo uma mensagem, enquanto estava alarmado e cheio de pânico. 

Vermelho o encarou com irritação, mas o guarda gritou sua notícia. 

— General! O General Branco mobilizou suas tropas contra nossa fortaleza que fica a margem do rio! Se eles dominarem um ponto tão importante, seremos obrigados a redobrar os cuidados com a parte de baixo do rio! Nós precisamos ir ao campo de batalha!

— O quê? — Vermelho bateu na mesa, fazendo a mesma estremecer. — Por que não recebi esse relatório mais cedo?! 

— Senhor, nosso grupo principal de batedores foram emboscados e obrigados a participar da batalha... eles só puderam entregar a mensagem horas após a marcha inimiga!

No palco, o narrador entrou em cena quando um teatro de marionetes, retratava as ações rápidas do General Vermelho!

— Vermelho não se deu ao trabalho de ser educado e imediatamente correu em busca da sua arma e montou sua besta, cortando o vento em direção da fortaleza sob ataque. 

Acompanhado por esquadrões montados as pressas, ele foi obrigado a lentamente montar um exército decente enquanto passava por fortalezas estratégicas. E irritado por ter que fazer uma parada após a outra, amaldiçoou o céu por ser tão lento."

TUM TUM TUM! — Tambores bateram. 

No meio da corrida, as cortinas mais uma vez se fecharam, e então começou uma música intensa. Revoltante e nervosa.

Com um cantor, subindo ao palco e transmitindo sua voz poderosa e potente, em uma música de letra forte. Realmente forte.

A música retratava a ferocidade daquela batalha que ocorria ao fundo, numa melodia frenética e brutal, com palavras baixas e chulas, conceitos crus e brutos em frases mundanas ao extremo.

Rios de xingamentos que faziam todo o vocabulário de Qin Xa parecer inocente, mas que fez o coração dela bater forte e querer cantar também. Coisa que ela se impediu veementemente de fazer. Ela nem sequer bateu o pé para acompanhar o ritmo.

Afinal, poucas coisas influenciam tanto o humor e a opinião quanto as músicas. E uma música completamente cheia de energia trouxe uma euforia maligna para a plateia, que antes silenciosa, agora era cheia de rugidos, gritos e cantorias.

E quebrando a quarta parede, o cantor chamou as pessoas para cantarem junto com ele, enquanto os exércitos se matavam ao fundo.

O coro das milhares de vozes fez os assentos estremecerem. O ar vibrou e a energia das pessoas subiu, atraindo ainda mais quem estava hesitante em cantar. Mas logo, mais de 10 mil estavam cantando numa só voz.

As pessoas cantavam enquanto o sangue era derramado. Ao ver que vidas eram perdidas, muitos expressavam intensamente o que sentiam no ritmo da música. 

E nessa cantoria, Vermelho duelou com Branco, e num refrão épico, matou seu inimigo. 

Matou seu rival. 

Matou seu amigo.

E as pessoas cantavam. 

Cantavam e repetiam as estrofes e refrões. Cantavam a desgraça, a dor, sofrimento, ódio profundo e amores impossíveis de acontecerem. Porque mortos não amam os vivos.

Mas a cantoria fez a plateia inteira vibrar de emoção com aquela batalha. Era emocionante poder expressar suas emoções por uma coisa tão intensa!

As emoções! Ah, como elas cantavam em alto e bom tom. Suas emoções estavam praticamente escorrendo de suas bocas.

Mas não tinha problema algum nisso. Afinal, aquilo era apenas uma peça. Nada ali era real, e nada poderia ser julgado.

O que havia de errado em aproveitar o espetáculo, se perguntou Qin Xa, enquanto sentia um profundo nojo dessa situação inteira. Essa situação inteira era um erro que ela se recusava a entender.

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