Torneio da Corte Brasileira

Autor(a): K. Luz


Volume 1

Capítulo 27: Outra Vida

Vermelho se densifica à volta do punho cerrado como a concentração de uma tempestade; azul é deixado para trás na passagem da mão em forma de sabre. Traçal fica de lado contra o oponente, destacando as cores distintas por cada metade do corpo.

Os punhos cerrados do Ury emitem vapor roxo, os indicadores e dedos do meio se ressaltam; seus braços estão lado a lado na altura do queixo, à frente. Sua perna direita é recuada,  abrindo a base de uma postura de soco mais avantajada que a de boxe.

O apito soa, vibrando os arredores; a luta começa.

Sem nenhuma hesitação o estrangeiro avança, alcançando Traçal num instante. Seus braços começam a se tornar borrões, prestes a lançarem os golpes de acupuntura.

“Que velocidade! Chega perto do nível daquele caipira!”, pensa Traçal, empolgado. Ele começa a girar o tronco, preparando-se para responder à ofensiva. “Mas não deixa de ser inú-” Um pé atinge o centro da sua face, amassando-a junto de um estrondo. Ury está com a cabeça quase tocando o chão, demonstrando a flexibilidade que pôs no chute que mandou desde baixo.

Traçal recua o braço que usou no que esperava ser uma troca, tentando agarrar a perna do oponente, que recua antes que fosse pego, aproveitando para mandar seis jabs contra o peito dele, marcando-o; uma descarga elétrica transpassa o cérebro do Traçal, expondo-o a uma dor horrenda, que logo ignora, voltando a atacar.

Socos pesados atravessam e voltam pelo ar num ritmo notável de velocidade. O estrangeiro desvia de todos com as viradas da cintura e um jogo de pernas avançado.

Ury emenda golpes entre as ofensivas adversárias, afligindo os antebraços e bíceps do rival a cada lançar das suas mãos, que fazem arcos laterais como borrões brancos antes de acertarem os pontos de acupuntura, visando sempre os ângulos que evitam os balanços inimigos enquanto esquiva. Ataque e defesa dançam com perfeição os movimentos da aflição.

O punho esquerdo do Traçal se fecha com mais força, ressaltando outras veias pelo braço. O soco rasga o ar subitamente até atingir as costelas do oponente, que trincam; o estrangeiro fica estarrecido com o impacto, sendo empurrado para o lado como um boneco pela força residual. 

Ury volta a realidade antes que fosse muito longe, freando com os pés; o rival está próximo, fazendo-o reagir rápido: firma os pés na terra, abalando-a, mandando um gancho que joga a face do Traçal para o alto com um estouro.

A perna do robusto vai à frente para o reequilibrar.

Ele desce o rosto, acertando uma cabeçada contra a guarda do Ury; os ossos trincam. O estrangeiro é lançado para trás com uma dor latente, seus sentidos estão confusos, mas ainda sorri ao ver o êxito: uma das têmporas do Traçal está com um amasso notável.

Para ele, o estarrecido, a realidade se tornou uma de claridade sem fim, reconfortante, mas perigosa. Sua consciência apaga. 

 

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Há muitos anos…

Uma luva acerta o saco de areia. O braço do garoto é recolhido, alternando entre esse e o demais para continuar o treino de socos. Sua expressão é séria, focada inteiramente na movimentação. Traçal, nessa idade, ainda não possui o físico chamativo do futuro, mas os indícios de um futuro promissor no aumento muscular estão lá.

— Traçal! — chama Lorde, que está na porta com uma visão completa da academia compacta montada naquele quarto só para um garoto.

O jovem segura o saco de areia, virando a cabeça para ver seu pai.

— O que foi?

— Venha aqui.

O tempo avança para depois da maior parte da conversa:

— Então você vai lutar naquele país? — ressalta Traçal, usando uma toalha para secar seu suor. — Fiquei sabendo que tem nomes impressionantes por lá.

— Sim, por isso eu quero tanto ir.

— Hm… Você está estranho, bem, espero que tenha uma boa viagem. Boa sorte.

— Não seja tão frio. Esqueceu da questão de que terei que o deixar sozinho? A estimativa de meses pode facilmente se tornar anos dependendo do quão difícil for a competição.

— E daí? Eu posso cuidar de mim mesmo, apenas vá de uma vez sem nenhuma preocupação.

— Absolutamente não. Como se eu fosse deixar um fedelho se virar sozinho, aqui ia virar um caos. 

— Então contrate uma empregada.

— Também não. A ideia de um estranho sozinho com meu filho não é algo que eu possa compactuar.

— Quanta frescura…! — Uma veia fica a mostra na sua testa devido ao estresse. — Se decida logo, tanto faz para mim.

— Te levar junto comigo seria um problema, não terei tempo de cuidar de você, e a correria de um lado a outro também não seria bom para o seu desenvolvimento. — Um sorriso se forma no seu rosto. — Eai? Que tal passar um tempo com o Shinsai?

— Hã?...

As rodas de um avião passam pelo solo no pouso, dias se passaram.

Traçal anda com sua mala pelo aeroporto, mantendo uma expressão emburrada pelo desconforto com a situação.

— Estou aqui, fedelho — diz Shinsai, pondo a mão sobre o ombro dele.

— Ah! — Tendo se assustado com a abordagem, o garoto se vira lançando o lado contrário do punho contra o rosto do homem, se surpreendendo ao ver que o golpe é pego, preso dentro da mão do lutador.

— Se acalme. Sou eu.

— Não chegue desse jeito atrás de mim! 

— Certo. — Ele dá alguns tapas nas costas do garoto, que tem um aumento de raiva a cada quebrar da sua postura. — É um prazer vê-lo novamente. Bom, vamos indo.

Uma porta é aberta, fazendo o sino acima tocar; Shinsai e Traçal chegam numa academia de tamanho notável. Pessoas treinam independente por qual direção se olhe, alguns com sacos de areia, outros com sparring ou shadowboxing, havendo também os que se focam apenas no treino com peso ou corrida.

— Pai! — chama uma voz feminina, se repetindo no aproximar da menina. — Ah! Esse é o “fedelho” que você tava comentando? Ele parece mesmo um delinquente! ha ha ha!

— O que disse?! — Traçal aponta para ela, rosnando em protesto igual um vira-lata.

A jovem está com o cabelo amarrado, usando uma vestimenta justa por causa das atividades físicas que fazia.

— Sim, Mirai. Esse é o fedelho. — Shinsai esfrega a nuca do garoto, se abaixando para aproximar suas alturas. — Aqui tem de tudo, se achar que não consegue aguentar e quiser desistir, eu te mando de volta para seu pai numa caixa de papelão.

— Como se isso fosse acontecer! Me largue!

— Bem… Mirai, conto com você para guiar e ensinar o fedelho.

— Entendido — confirma a garota.

— Quê!? Por que não é um tutor ou você?! E já deu de me chamar de fedelho!

— Diga isso depois de conseguir derrubar ela ao menos uma vez.

— Hã!?

O tempo passa, os jovens colocam as luvas e proteção da cabeça, e, a primeira coisa que acontece no embate é do Traçal ter suas costas jogadas ao chão ao ser puxado num agarrão. Em sequência sofre uma chave de pernas no pescoço enquanto seu braço é puxado para o lado contrário.

A mão do jovem acerta o chão várias vezes em um sinal de desistência, mas logo pede por outra disputa.

As quedas se repetem pelo restante do dia, havendo mudanças na maneira em como ele é finalizado, mas nenhuma mudança no contador de quantas vitórias teve. Um zero perfeito.

Algumas pessoas assistem os dois, comentando com um tom humorado sobre o que veem. O garoto está com o semblante enfurecido, falhando na tentativa de tomar o controle no chão, levando uma chave no braço ao ser jogado de frente contra o solo, batendo a cara no tatami.

— Esperava o quê? — Fala Shinsai ao passar por perto. — É minha filha afinal.

As horas passam, a noite cai. Aos poucos o lugar se torna vazio.

Shinsai tranca a academia, puxando uma grade de ferro em frente à porta. O garoto segura suas costas com a mão direita, sentindo dores constantes o perturbando; a garota só está parcialmente cansada, tomando a água de uma garrafa com uma postura ereta. Em seguida todos os três entram no carro, partindo dali.

Mais tarde, à mesa, Traçal janta com a família do Shinsai. A esposa do lutador está presente, sentada entre ele e sua filha. 

— Quando será sua próxima batalha? — pergunta o garoto. Ele enfia uma coxa inteira de frango na boca.

— No final do mês. Se eu ganhar ficarei um passo mais perto de uma disputa contra o campeão mundial.

— Hah! Acredita que consegue alcançá-lo antes do meu pai?

— Naturalmente. Esperarei Lorde no topo.

— Falou o cara que quase perdeu contra um Zé-Ninguém um tempo desse. Bem, me mostre se o que diz não é apenas da boca para fora.

— Estamos falando de esperar meu arquirrival, é uma promessa que fiz.

— Aquilo de desempatar o “8 a 8” apenas quando um fosse campeão? Quanta besteira.

— Querido — fala a mulher —, é como você disse, ele não parece em nada com o pai. — Ela sorri, suas palavras fazem Traçal quase engasgar com a comida.

— Lorde me contou que puxou a personalidade explosiva da mãe. — Shinsai ergue os braços, imitando um urso.

— Argh! Ela não era uma maromba ou algo do tipo! — protesta o garoto, tendo se livrado do pedaço de carne na garganta ao tossir.

— Ei! Parem de conversar sobre isso! — reclama Mirai. — Meu apetite está morrendo com essa conversa!

— Hahaha… Está certa. — A mulher se inclina levemente na direção do Traçal. — Nos perdoe por falarmos dessa forma sobre sua mãe.

— Não me importo, mortos estão mortos, não há porquê se sentir mal por citá-los.

— Mmm… não entendi — diz a garota, seu semblante fica estático, o que não a impede de fechar a boca sobre a colher erguida.

A mulher ri, Shinsai não chega a tanto. O jovem estala a língua em reprovação, evitando contato visual ao descer o queixo sobre o braço apoiado na mesa.

Durante a madrugada, Traçal não consegue pregar os olhos, trocando para poses desagradáveis a cada segundo, fazendo ruídos pelo estresse. Está escuro, apenas o brilho da lua os clareia, estando a garota no primeiro andar da treliche.

— Ei… Não dá para ficar quieto?

— Cale-se! Por qual motivo tenho que dormir no quarto de uma garota?!

— Eu já respondi, é porque o quarto de hóspedes está sendo usado como depósito para os equipamentos que não tem cabem na academia. Vamos, não fique tão envergonhado e vá dormir, temos aula amanhã.

— Eu não estou enver- como assim aula amanhã?! Meu pai já me colocou naquela escola?!

— Sim. Na verdade, um pouco cedo demais, você levou falta nessa última semana inteira.

— POR QUÊ?!! Eu não estava sequer na cidade! (...) Drogaaa!!

No outro dia, eles saem fardados da casa. Mirai corre se despedindo da mãe enquanto Traçal caminha devagar, acabado pela má noite de sono.

Os dias se passam, ambos treinam regularmente na academia após as aulas, resultando no garoto dando gradualmente mais trabalho para a adversária, agora é possível fugir de suas chaves cruéis.

Enfim ganha uma disputa direta, deixando a adversária caída no chão — repleta de surpresa — com ele montado na sua barriga, comemorando com os braços erguidos.

Meses se passam, Traçal se acostuma a conviver com a família do Shinsai, dormindo sem nenhum problema quando chega a hora. Anos se passam, a diferença na altura dos jovens se torna clara com a proximidade da adolescência. Os duelos entre eles deixam de ocorrer.

Na escola, durante o meio-dia, Mirai está conversando com suas amigas; a luz do sol atravessa brandamente as janelas de vidro. Traçal recolhe seus materiais, pondo-os na bolsa; em sequência coloca uma das alças no ombro, indo até o grupo.

— Vamos? — pergunta, quebrando a interação das garotas, que se focam nele.

— S-sim, já estou com a mochila arrumada. — Mirai começa a andar atrás do Traçal, acenando em despedida para as demais.

Ambos somem dali.

— Esses dois tem que oficializar o namoro logo — comenta uma garota perto —, estão sempre colados juntos, não consigo imaginá-los separados.

— Que sorte da Mirai, já tem um marido garantido! Hahaha!

— Não exagerem nas piadas — diz a mais alta —, mas devo concordar… eles são perfeitos um para o outro.

As garotas riem com modéstia, animadas pelo assunto romântico.

Na casa do Shinsai, o próprio está usando óculos escuros, aguardando pelos dois na porta. Traçal e Mirai descem apressados pelas escadas, com ambos tendo trocado de roupa para a viagem. O porta-malas do táxi é fechado, o veículo começa a se mover.

Pela viagem seus olhos refletem uma enorme variedade de luzes vindas dos prédios, restaurantes e outros edifícios do centro da cidade.

O carro para no aeroporto, o motorista ajuda a tirar as posses dos clientes antes de partir.

Os três ficam sentados nos bancos do local. Traçal conversa com Mirai, Shinsai espera o horário marcado do voo com um livro. Por fim o avião decola, levando-os para seus destinos: uma marca horrível de tinta em suas vidas.

Uma inapagável. 



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