Torneio da Corte Brasileira

Autor(a): K. Luz


Volume 1

Capítulo 2: Cerimônia de Abertura

Vozes animadas se levantam, mais do que é possível contar; balões e fogos de artifício vão para o alto do céu noturno, tingindo-o de cores com os estouros de luz. Uma extensa cortina desce, colocando em exposição o nome “Torneio da Corte” na frente da arena, tendo o tecido uma cor de vinho e as letras um tom dourado.

Os clarões das câmeras são incessantes, quase ofuscando a forma do Holliver, o organizador, que acaba de chegar em uma limusine preta. Um dos guarda-costas o ajuda a sair do veículo, após isso fica à volta dele com outros três. O idoso anda com o apoio de uma muleta, acenando para o público, andando devagar devido à idade; seu sorriso é modesto, mantendo os olhos cerrados durante a exposição aos flashes.

A arena tem um formato arredondado, fora pintada com uma palheta de cores mortas, visando alcançar um aspecto antigo tanto por elas como pelo formato curvo das janelas e exterior repleto de tijolos grandes, iguais ao de um castelo.

Não muito tempo depois que o organizador entrou, outra limusine — uma branca — chega no local, revivendo os ânimos de todos ao limite. Duas portas se abrem para o alto, saindo do carro Traçal e seu pai, estando ambos de terno e óculos escuros. O rapaz está com o seu sorriso largo estampado, ficando com as mãos nos bolsos durante a caminhada no rumo da arena. Os flashes das câmeras voltam a ativa, as pessoas estão olhando mais para o homem do que o rapaz que é o competidor.

— Caramba, ele realmente veio! — fala um dos fotógrafos. — É o Lorde em pessoa!

— Claro que viria — diz outro —, ele sempre acompanhou o filho nas competições. E por sinal, incrível… acho que nunca vi Traçal tão em forma para um torneio.

— V-verdade. Esse cara é assustador. Eu não duvido sobre o que dizem dele ser o favorito.

— É… Provavelmente será ele que vai liderar a nova geração de lutadores, tanto no cenário competitivo das yrais quanto no com apenas aura.

Traçal e seu pai entram na arena.

— Será que ele vai mostrar “aquele” estilo de novo?

— Está falando daqueles movimentos que usou para finalizar a luta contra Lussal? Acha que é realmente um estilo?

— É… não sei. — Ele segura o queixo, perdendo-se em pensamentos. — O vídeo daquela sequência virou o mundo de cabeça para baixo.

— Mas também, quem raios imaginaria que fosse possível surgir um estilo híbrido do Lorde e Shinsai? Diziam que só o Shinsai podia usar o estilo dele.

— E então? Acha que ele vai mostrar de novo?

— Não sei. Mesmo sendo um torneio criado por Holliver, a restrição de idade simplesmente limitou muito a possibilidade de participantes. Da lista de competidores, o único que vi potêncial de fazer algo contra ele foi-

— Olhe! — O fotógrafo puxa a camisa do outro, sorrindo de tão animado que fica.

— O-o quê? — Ele levanta o boné, também ficando surpreso com o que vê.

Óculos escuros são ajustados com o toque de um dedo, refletindo nas lentes a tempestade de flashes. A barra de chocolate na mão leva uma mordida, perdendo metade do tamanho em um instante. Laerte chega a pé no local, virando para seguir pela rota do tapete vermelho, estando com a bolsa da viagem na altura da cintura, mantida por um laço no ombro dele, por onde segura com a mão livre. Alguns guardas-costas se aproximam, escoltando-o até a entrada.

— Hohoho! — O fotógrafo bate no ombro do companheiro. — Não vejo a hora do torneio começar!

— Hahaha! Eu também, mas se acalma. Ainda falta duas horas para a cerimônia, e a primeira rodada só vai começar à meia-noite.

— Será que mais algum lutador vai chegar pela frente?

— Não seja idiota, a maioria dos competidores são profissionais novatos. Eles não vão desperdiçar qualquer chance de alavancar o nome mundo afora.

— Mesmo que diga isso… Lucieu está escondido perto das portas dos fundos, ele me contatou dizendo que viu alguém que parecia ser um lutador entrar por lá e que o lugar está sendo protegido por vários guardas.

— Bem, é natural que aquela área seja protegida em um evento desse porte. Em todo caso, vamos esperar para ver o que acontece.

— Certo.

O tempo passa, o volume de pessoas esperando o horário de entrada do público aumenta, ficando muitos nos bancos que ficam à volta da arena; os com assentos VIPs entram bem vestidos pela frente, sendo geralmente senhores e senhoras de mais idade, ou os mais corpulentos, recebendo de imediato a atenção das mídias.

— Uau! — O fotógrafo verifica o conteúdo que conseguiu, pulando de imagem em imagem no clicar de um botão. — Quantos nomes grandes! Veja, consegui ótimos ângulos do Lorent, Joshie, Artier e Comai. As do treinador Cetreva ficaram mais ou menos… não vão servir…

— Você realmente estava focado nos ex-lutadores, hein?

— Sim, mas também fiquei bem impressionado com nomes notáveis do mundo profissional atual aparecendo.

— Eu fiquei mais impressionado foi com a presença de treinadores. Alguns ainda estão na ativa com academias de grande porte, será que vieram atrás de um bom novato para pôr debaixo da asa ou por serem fãs do Holliver?

— E por que não os dois? Hm…

— O que foi?

— Estava pensando… Nenhum nome muito grande além do Lorde apareceu.

— Bem, no fim de tudo ainda estamos em uma cidadezinha que estava esquecida até pelo governo antes do Holliver fazer o anúncio. Dúvido que algum dos grandes fosse querer pisar por aqui, provavelmente vão só assistir pela TV.

— Entendo.

O tempo passa, os lutadores do torneio chegam em momentos diferentes, reconhecidos sempre pela aproximação imediata de vários seguranças que os acompanham até a entrada. Eles possuem corpos torneados, transmitindo um ar jovial com a passagem, em certos casos combinando mais com a palavra “imaturidade”. Suas silhuetas são encobertas pela intensidade dos flashes: alguns andam sérios, outros andam relaxados, fazendo graças, como colocar a língua para fora ou acenar em uma pose inclinada.

Dos dezesseis lutadores, catorze foram vistos entrando pela frente da arena, os demais se supõe que foram por trás. Com a proximidade do horário para a entrada do público comum, ficou claro que nenhum outro nome grande apareceria.

 

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— Sejam muito bem-vindos!! — grita o homem no centro do palco. Sua pele é negra, é baixo em altura, os olhos são grandes e ficam bem abertos. Ele esboça naturalmente um tom amistoso e sorriso amplo. — Fico contente de vê-los! todos os mais de 25.000! neste dia tão aguardado!

O interior da arena honra a qualidade do trabalho feito afora, tendo partições de arquibancadas por todos os lados, formando uma circunferência à volta do território de terra que será usado para os combates, onde está o palco temporário. As luzes estão focadas no centro, mesmo assim as paredes adornadas com cerâmicas vermelhas são um chamativo nos fundos, refletindo um brilho leve num ritmo inconstante.

— Sério, eu já não estava aguentando mais esperar pelo retorno do Holliver! Ah! Que grosseria a minha! Acabei não me apresentando, peço desculpas! Bom, me chamo Gaojung Ustrio! Acredito que alguns de vocês já me conhecem pelas minhas narrações em outros torneios, o que também estarei fazendo neste!

O público bate palmas.

— Não esperava por essa, Holliver chamou o Gaojung para narrar — diz um fotógrafo, estando ele e outros numa área à volta do palco.

— Por que ele não divulgou isso?

— Vai saber… 

— Obrigado! obrigado! — continua o narrador. As palmas acabam. — É uma honra estar aqui! Sinto até uma forte vontade de agradecer ao Holliver! Mas… onde ele está?!

Ele levanta os ombros e abre as mãos, fazendo uma careta de confusão.

— Onde está… O “REI”?!! — As luzes são direcionadas para o andar mais alto das arquibancadas, focando em uma sala. O idoso está lá, sentado em um trono, vestido com um manto real e uma coroa, havendo um guarda de armadura dourada presente a sua esquerda e direita.

As pessoas ficam surpresas, a imagem do Holliver é transmitida em dois grandes telões, presos em direções opostas, acima das entradas de onde virão os lutadores quando os confrontos se iniciarem. Ele acena, mantendo o sorriso e os olhos fechados.

— E lá está ele!! — Gaojung estende o braço para o alto. — Sentado no camarote para desfrutar de um fruto da sua glória!

O braço é direcionado para o público, 

— E vocês e eu seremos o reino!

O tempo passa, discursos são feitos por homens distintos, alguns apontam para partes diferentes da arena, explicando algum conteúdo relacionado a sua construção, havendo uma até mesmo para falar da cidade, sendo expostas as imagens das ruas e construções nos telões. Tudo isso é pego pelas câmeras e transmitido para o mundo. Gaojung volta ao palco após essas partes do evento.

— Deve ter sido dureza aguentar até aqui, não é? — O narrador anda pelo palco. — Claro, não desmerecendo os profissionais que vieram! Vocês são incríveis e vou querer um autógrafo de cada um depois! Hahaha! Mas! Sei que todos vieram aqui para ver sangue! Então vamos ao que verdadeiramente interessa nessa cerimônia: os lutadores e o prêmio! Esse é o momento! ENTREM!!!

A iluminação é apagada, uma trilha sonora agitada está sendo tocada, os holofotes piscam e se movem pelo local, parando após segundos, focados nas duas entradas. Um por um dos lutadores saem delas, todos encapuzados com panos velhos, algemados nos pulsos. Alguns homens vestidos com armaduras cinzas os acompanham como se estivessem conduzindo verdadeiros prisioneiros.

Quando os dezesseis competidores sobem no palco, os holofotes param de piscar, voltando a serem direcionados ao centro. Os homens nas armaduras retiram os capuzes, expondo o rosto de todos. Traçal sorri, olhando os arredores empolgado, sendo o maior participante, e também, o maior destaque.

Uma mulher de vestido chega no território de terra empurrando um carrinho de mão com uma caixa de vidro, estando dentro do recipiente a yrai de Tier 5.

É uma joia vermelha com o formato de lágrima, semelhante a um rubi, mudando a intensidade e profundidade da cor constantemente na reflexão da luz vinda dos holofotes. As câmeras ficam enlouquecidas, despejando milhares de flashes sobre o palco. O carrinho de mão para próximo do Gaojung.

— E aí está o motivo de cobiça de muitos! — A caixa de vidro é aberta, a joia é pega por um dos soldados, sendo apresentada entre o dedão e indicador dele. — Tem gente que mataria por essa yrai de Tier 5, e é compreensível! Vejam no telão! Não é incrível?! Toda essa beleza não é o ápice da luxúria?! O poder dessa belezinha está avaliado em 18.793 Yr! É muita força!!

As pessoas ficam hipnotizadas com a imagem da joia, não ousando desgrudar os olhos da tela por nenhum momento.

— Mas acredito que eu falar à medida de energia dela não soa interessante, não é? Não tem peso! Então… por que não fazemos um teste?

O guarda cerra o punho com a joia dentro, uma mesa com blocos de concreto foi posta à frente dele. O narrador e os outros tomam distância, com exceção dos competidores, que olham concentrados para o desenrolar do momento.

Ele arqueia o braço, uma energia vermelha sai da sua mão para o ar em um formato torcido de pequenas rajadas, lembrando, pela aura residual, o formato de uma esfera irregular. O silêncio toma o lugar.

O guarda ruge, lançando um golpe contra os blocos de concretos, pulverizando-os, alcançando o solo do palco, o destruindo; os lutadores pulam, evitando serem engolidos pela poeira e o chão cedendo; os gritos de susto da plateia soam.

Mais uma vez o silêncio toma o lugar, sendo trocado em pouco tempo por cochichos, e por fim, uma torcida animada.

— Muito forte… não é? — fala Gaojung, não demonstrando nenhum abalo mesmo com a cena que presenciou; ao menos se esforça para isso, pois suas pernas estão tremendo. — Não é brincadeira a proporção deste torneio! Esse prêmio pode decidir um dos maiores nomes da próxima geração de lutadores!

Ele olha o relógio, ficando surpreso.

— Nossa! olha a hora! Meia-noite está chegando! — O narrador se vira e estende a mão na direção do organizador. — Grandiosíssimo rei! gostaria de fazer alguma proclamação?!

Um microfone pequeno está perto da boca do idoso, discreto como seu fone. Ele diz:

Eu via todos vocês, meus súditos, como filhos. Fiquei arrasado ao saber que os oito são traidores desprezíveis. Parte de suas pálpebras são abertas, as pupilas pequenas são expostas; na transmissão pelo telão, o ar à volta do Holliver fica pesado, se distorcendo em vermelho e negro. Mas eu sou o rei, e uma punição à altura da traição deve ser aplicada! Condeno-os à morte! E dou aos prisioneiros a missão de executar esses falsários! Concluam essa trabalho e receberão a glória de me servir!

Ele aponta o dedão da mão direita para baixo. 

Livrem-se deles!

— Você ouviram!! — Gaojung ergue o punho cerrado. — QUE COMECE O TORNEIO!!!

O público explode de empolgação, sendo banhado por uma chuva de confete.

Um ânimo ridículo… que abre as portas de um futuro incerto.



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