Volume 4
Capítulo 3: Dê um Nome aos Meus Sentimentos
21 DE DEZEMBRO, segunda-feira de manhã.
O céu estava completamente limpo, fazendo a chuva de ontem parecer uma mentira. Embora eu tivesse chegado à escola uma hora mais cedo do que o habitual, ela já estava movimentada.
Não eram apenas os clubes esportivos que chegavam cedo pela manhã. O som de instrumentos escapando da Sala de Música pertencia ao Clube de Banda, que se preparava para a próxima competição.
Enquanto ouvia aquilo, entrei no prédio oeste e vi as luzes acesas na Sala de Artes, que normalmente permanecia mergulhada em um silêncio mortal. A presença dos alunos significava que também havia professores por perto.
No fim do prédio oeste, diante da sala do Clube de Literatura, conferi meu relógio enquanto reprimia um bocejo. Normalmente, àquela hora, eu estaria expulsando Kaju do meu quarto por tentar me ajudar a trocar de roupa.
Senti que havia alguém lá dentro. Então abri a porta.
— Bom dia, Nukumizu. Faz tempo.
Quem ergueu o rosto sonolento de seu livro de química foi o ex-presidente do clube, Shintaro Tamaki.
Ele estava na reta final dos exames vestibulares e era namorado da Tsukinoki-senpai.
— Ontem ouvi a história pela Koto. Parece que você passou por muita coisa.
Tamaki-senpai falou com um sorriso amargo, e não tive escolha senão retribuir da mesma forma.
— Desculpe por ter ficado calado. Eu deveria ter contado antes.
Na noite anterior, quando lhe disse que queria conversar pessoalmente, ele me pediu para encontrá-lo na sala do clube pela manhã. Tsukinoki-senpai e Shikiya-san. Se havia alguém que soubesse o que tinha acontecido entre as duas no passado, provavelmente era ele.
— Aposto que a Koto mandou você ficar de boca fechada, não foi? Não fique aí parado. Sente-se.
Sentei-me na cadeira à sua frente.
— Ultimamente, eu também andava ocupado demais com meus próprios problemas.
Tamaki-senpai voltou os olhos para o livro, retirou um marcador adesivo e o colocou na página.
— Pensando bem, você mudou para a área de exatas, não foi? Vai conseguir chegar preparado aos exames?
Mudança de área. Apesar de estar em uma turma de humanas, ele prestaria vestibular para um curso de ciências. Mudar de rumo no segundo semestre do terceiro ano do ensino médio não era nada fácil. Além disso, a universidade que ele almejava era a instituição pública mais concorrida da província.
— Bem, tirei nota A no último simulado. O fato de eu já estar mirando uma universidade pública desde o começo ajuda um pouco.
— Impressionante. E a Tsukinoki-senpai?
Tamaki-senpai fez uma expressão que parecia um sorriso amargo desprovido de qualquer alegria.
— Pelo visto, ela vai se candidatar a todas as universidades particulares de Nagoya que tenham o curso que ela quer. Quanto às notas dos simulados... bem, elas estão aceitáveis.
Independentemente do resultado, os dois seguiriam caminhos diferentes quando a primavera chegasse. Não era apenas Tsukinoki-senpai que devia estar ansiosa. Tamaki-senpai certamente também estava. Histórias de casais que terminavam por causa da entrada na universidade eram comuns.
— Desculpe por incomodá-lo numa época tão complicada.
— Não é culpa sua, Nukumizu, então não precisa se desculpar. Vou conversar com os professores e com o conselho estudantil. Quanto ao doujinshi confiscado, deixe isso comigo.
Dizendo isso, ele sorriu como se quisesse me tranquilizar. Talvez tenha percebido minha expressão rígida enquanto eu tentava sorrir de volta, porque franziu a testa.
— O que foi? Tem outro problema?
— É que os professores e a presidente do conselho estudantil não sabem nada sobre o livro, já que a única pessoa diretamente envolvida é a vice-presidente.
Uma expressão de genuína perplexidade surgiu no rosto de Tamaki-senpai.
— A vice-presidente... aquela aluna do primeiro ano, Basori-san? Por que ela está agindo sozinha?
— Parece que ela guarda algum tipo de rancor contra o Clube de Literatura... ou melhor, contra a Tsukinoki-senpai.
Logo cedo pela manhã, soltei um longo suspiro.
— Quando tentei recuperar o doujinshi, ela me propôs um acordo. Disse que devolveria o livro se eu lhe fizesse um favor.
— Um favor? Isso parece mais chantagem.
Não parecia. Era chantagem pura e simples.
— Bem, escute primeiro. O que ela pediu foi...
— Foi….?
Fiz uma pausa e o encarei diretamente.
— Resolver a situação entre a Shikiya-san e a Tsukinoki-senpai.
— Resolver a situação... entre ela e a Koto, é?
Ao ouvir aquilo, a expressão de Tamaki-senpai mudou. Confirmando minha suspeita, inclinei-me para a frente.
— O que aconteceu entre aquelas duas?
Diante da minha pergunta, Tamaki-senpai fechou os olhos e mergulhou em pensamentos. Então balançou a cabeça lentamente.
— Desculpe, mas pode me dar um pouco de tempo para pensar em como responder isso?
— Sim, claro.
O que tinha acontecido entre as duas? Não, julgando pela hesitação de Tamaki-senpai… Interrompi meus pensamentos e soltei uma risada autodepreciativa. Aquele não era o momento para insistir nesse assunto. O que eu precisava pensar agora era em como resolver a situação atual.
— Mas eu preciso da sua ajuda, senpai. Pode me dar uma mão?
— Não me importo, mas você já tem alguma ideia?
— As únicas pessoas que podem resolver isso são as próprias envolvidas, certo? Estou pensando em fazer as duas se encontrarem para conversar.
Tamaki-senpai me lançou um olhar incrédulo.
— Você acha que elas vão simplesmente concordar em se encontrar? Principalmente a Koto.
— Não acho. Principalmente a Tsukinoki-senpai.
Sem mencionar que as duas tinham acabado de se desentender no dia anterior. Mas, se não fizéssemos nada agora, a distância entre elas jamais seria superada.
— Como a relação delas se deteriorou, elas precisam de algum pretexto. Algo fora do comum, ou um inimigo em comum. A menos que exista algum tipo de catalisador...
— Entendo o que você quer dizer, mas o que exatamente pretende fazer?
— Hum, vou pegar isto emprestado por um instante.
Peguei uma borracha do estojo de Tamaki-senpai e a coloquei no centro da mesa.
— Por exemplo, digamos que você marque um encontro com a Tsukinoki-senpai. E que, ao mesmo tempo e no mesmo lugar, a Shikiya-san também combine de encontrar outra pessoa.
Em seguida, retirei a tampa de um marca-texto e a coloquei em pé ao lado da borracha.
— E, justamente quando elas perceberem a presença uma da outra, ambas receberão uma mensagem da pessoa que deveriam encontrar. Algo como: "Vou me atrasar um pouco, por favor espere aí."
— Você pretende enganar as duas para que se encontrem?
— Na verdade, elas precisam perceber que foi tudo armado. Precisamos nos tornar o "inimigo em comum" delas.
— Que tal tentarmos? — acrescentei.
Tamaki-senpai bateu levemente a borracha contra a tampa. A tampa rolou pela mesa, descrevendo um círculo antes de voltar ao ponto de partida.
— Ainda é uma aposta se isso vai dar certo ou não. Se elas fugirem nessa situação, então acho que a questão já estará "resolvida".
Talvez fosse verdade. A reconciliação era apenas um dos resultados possíveis, não necessariamente a resposta correta. E a condição apresentada por Tiara-san era simplesmente "resolver a situação".
— Então a questão agora é como vamos chamar as duas.
Senpai pegou o celular e encarou a tela.
— Nesta quinta-feira é véspera de Natal, certo? À noite vou encontrar a Koto em frente às iluminações da estação, e depois pretendemos jantar juntos.
Natal. E as luzes decorativas da estação.
— Está compensando o ano passado?
O Natal de um ano atrás, quando os dois ainda não estavam namorando. Tamaki-senpai havia desperdiçado uma oportunidade de ouro diante das iluminações. Depois de muitas idas e vindas, tudo acabou dando certo no final, mas muita coisa tinha acontecido no caminho. Sim, muita coisa mesmo.
— Que tal você chamar a Shikiya-san para lá? Isso resolveria a condição de "algo fora do comum" que você mencionou, Nukumizu.
— Mas tudo bem para você, senpai? Não seria o primeiro Natal de vocês juntos desde que começaram a namorar?
— Não vou abrir mão do jantar. Além disso, eu e a Koto teremos o próximo ano... e os anos seguintes também.
Tamaki-senpai exibiu seu sorriso habitual, embora parecesse um pouco preocupado.
— Eu também não sei o que a Shikiya-san está pensando. Mas eu conhecia as duas da época em que eram próximas, então seria uma pena se tudo terminasse assim.
— Isso o deixa triste?
— Acho que é mais um sentimento de responsabilidade.
Responsabilidade. Antes que eu pudesse perguntar o que ele queria dizer, senpai começou a guardar suas coisas.
— Quinta-feira, às dezoito horas, em frente às iluminações da estação. A Koto deve estar lá, então, Nukumizu, chame a Shikiya-san.
— Entendido. Sem deixá-la saber que a Tsukinoki-senpai estará lá, certo?
Mesmo depois que Tamaki-senpai foi embora, permaneci na sala do clube organizando meus pensamentos.
Na noite do dia 24, eu chamaria a Shikiya-san para encontrá-la em frente às iluminações da estação. Quanto ao que aconteceria depois, teria de improvisar no próprio dia.
Hm? Espere um pouco. Dia 24 de dezembro significa...
Eu vou convidar a Shikiya-san para sair... na véspera de Natal.
*
— Bem, então estou indo para as aulas de recuperação.
Na sala do clube após as aulas, Yakishio saiu com os ombros caídos, deixando apenas Komari e eu no recinto. Será que estava tudo bem para Yakishio, que estava proibida de participar das atividades do clube por causa das notas baixas, entrar e sair livremente da sala do Clube de Literatura? Mas, pensando bem, o Clube de Literatura normalmente passava o tempo sem fazer nada ali mesmo...
Enquanto refletia sobre isso, abri o aplicativo de calendário no celular.
...O plano era para a noite do dia 24.
Hoje era dia 21, então eu precisava garantir aquele encontro o quanto antes. Em outras palavras, isso significava convidar a Shikiya-san para um encontro de Natal...
— Não, apenas acontece de ser dia 24. Isso mesmo, não tem nenhum significado estranho por trás disso.
Enquanto murmurava para mim mesmo, tentando me convencer, Komari me lançou um olhar desconfiado.
— O-O que foi, Nukumizu? E-Está vendo coisas?
Que grosseria. Às vezes a linha entre minhas ilusões e a realidade ficava um pouco borrada, mas eu era perfeitamente saudável.
— Eu só estava pensando em algumas coisas. Falando nisso, Komari, na noite da véspera de Natal...
Como se interrompesse minhas palavras, a porta da sala do clube se abriu. Quem colocou o rosto timidamente para dentro foi Yanami.
— Boa tarde. Vocês dois estão aqui juntos.
— O que foi? Por que está tão formal?
— Ah... eu queria pedir desculpas aos dois.
Yanami enrolou uma mecha de cabelo no dedo de maneira constrangida. Um pedido de desculpas? Enquanto Komari e eu trocávamos olhares, Yanami curvou a cabeça vigorosamente diante de nós.
— Me desculpem pelo que aconteceu ontem!
— Hã? Pelo quê?
— Pela Lemon-chan! Eu passei as instruções erradas, então ela acabou indo para o karaokê, não foi? A Lemon-chan me contou o que aconteceu, então achei que precisava me desculpar.
Ah, agora que ela mencionou, aquilo realmente tinha acontecido. Mas estávamos falando da Yakishio.
— Talvez seja verdade. Mas mesmo que Yakishio tivesse ido ao café de jogos de tabuleiro, o resultado provavelmente não teria sido muito diferente, certo? Para começar, a culpa foi minha por ter chegado atrasado.
Komari assentiu em concordância.
— A-Além disso, fui eu quem disse à T-Tsukinoki-senpai que estava com uma p-pessoa assustadora.
Isso também era verdade. A briga não teria acontecido se aquela pessoa não tivesse aparecido em primeiro lugar.
— Então acho que podemos dizer que a culpa foi da Komari.
— V-Vai morrer.
Mas foi você quem disse isso. Ainda assim, era raro ver Yanami tão arrependida. Talvez houvesse algo que eu desconhecia, mas não tinha intenção de culpá-la por isso naquele momento.
— Mais importante, Yanami-san. O que você vai fazer na noite do dia 24?
Yanami piscou, confusa com a mudança repentina de assunto.
— Hã? Eu vou passar normalmente com a minha família.
— Tem aquela iluminação em frente à estação, certo? Quero que você vá comigo.
Isso mesmo. O problema era convidar a Shikiya-san sozinho. Se formássemos um grupo, não haveria nada de estranho nisso.
— Hein!? N-Não, hum, o quê? Está falando sério? Eeeh!?
Yanami alternou o olhar entre mim e Komari, completamente perturbada. Embora a culpa fosse minha por convidá-la tão de repente, ser tratado como se eu fosse um incômodo era um pouco chocante...
— Desculpe. Se não puder ir, tudo bem. Então... Komari.
— Uaa!?
Komari deu um salto violento quando me virei para ela.
— Se você puder, que tal sair comigo na noite da véspera de Natal?
— V-Vai morrer! M-Morra umas cinco vezes!
Eeeh...? O que eu fiz? Isso foi cruel demais. Bem, talvez pedir que elas liberassem a agenda na véspera de Natal fosse realmente exagerado.
— Não tem jeito. Então talvez eu pergunte à Yakishio...
Enquanto dizia isso e tirava o celular do bolso—
— Hã!? — disseram as duas ao mesmo tempo.
Yanami e Komari harmonizaram suas vozes em um tom grave e, em seguida, me cercaram dos dois lados enquanto eu continuava sentado na cadeira. Hã? O que foi isso? O que está acontecendo? Por que essas duas estavam tão tensas...? Yanami cruzou os braços e me encarou de cima.
— Nukumizu-kun, fique aí.
— Hã? Mas eu já estou sentado.
Minha resposta impecável não surtiu efeito. Yanami apontou o polegar diretamente para baixo.
— No chão.
Como é que é? Por que eu teria que fazer isso?
— Não, espera um pouco. Ei, Komari, fala alguma coisa para ela.
— C-Cala a boca.
Hã!? O que deu nela também? Ser olhado como se eu fosse lixo orgânico era algo relativamente comum, mas isso não estava passando dos limites?
— Certo, vamos nos acalmar. Eu fiz alguma coisa errada?
As duas continuaram me encarando em silêncio. A pressão era enorme, mas eu também era um homem. Não podia simplesmente me render a esse tipo de absurdo.
— É por isso que eu... hum... bem... sim, entendido.
Dito isso, saber a hora de recuar também era uma atitude madura, não era? Quando me sentei obedientemente no chão, Yanami me lançou um olhar frio.
— Nukumizu-kun. Você entende o que fez?
Hã? O que eu fiz? Deixe-me ver...
— Eu perguntei se vocês queriam ir comigo ver as iluminações da estação...
— Logo depois de me convidar, você foi imediatamente para a Komari-chan. Quando ela recusou, já estava pensando em chamar a Lemon-chan. O que exatamente você está tentando fazer?
O que eu estava tentando fazer?
— É porque eu preciso convidar a Shikiya-senpai e...
— O quê!? A próxima seria aquela senpai!? Nukumizu-kun, você não está sendo indiscriminado demais!?
— Hã? Eu não tinha contado? Conversei com o Tamaki-senpai e decidimos reunir a Tsukinoki-senpai e ela. Por causa disso, preciso chamar a Shikiya-senpai para sair na noite do dia 24... então eu estava pensando se vocês duas poderiam... me dar uma ajuda...
Por quê? As expressões de Yanami e Komari ficaram ainda mais severas.
— Hum... eu disse alguma coisa estranha?
As duas, com os rostos vermelhos de raiva—
— É exatamente por isso que eu não gosto desse seu jeito, Nukumizu-kun!
— É-É isso mesmo, vai morrer!
Elas dispararam essas palavras uma após a outra e viraram as costas. Eeeh, o que foi isso...? Eu só esqueci de explicar alguns detalhes, não foi?
— Então... vocês continuam indisponíveis na noite da véspera?
Yanami me lançou um olhar por cima do ombro.
— Desculpe, mas vou sair para jantar com minha família naquele dia. Faça o que quiser~.
Komari também estalou a língua e me encarou.
— E-Eu também vou comer bolo com os pequenos. V-Vai morrer sozinho.
Por algum motivo, elas estavam sendo cruéis demais. Do jeito que as coisas estavam indo, quem sabe o que diriam se eu tentasse convidar a Yakishio depois? Parecia que eu realmente não tinha outra escolha além de convidar a Shikiya-san sozinho.
Mas, de alguma forma, depois de tudo o que tinha acontecido ontem, estava difícil falar com a Shikiya-san.
A sensação daquela mão fria que eu segurei.
Diferente da mão forte da Yakishio, que havia agarrado a minha à força na praia, ou da palma infantil da Kaju, que segurava a minha em busca de carinho, a mão dela, delicada como uma peça de vidro trabalhado, havia se envolvido em torno dos meus dedos—
...Não, ela não havia estendido a mão para mim com esse tipo de intenção.
Pelo menos naquele momento em que nossas mãos se tocaram. Eu não achava que houvesse sentimentos românticos ou segundas intenções ali.
Fechei os olhos e procurei cuidadosamente pelas emoções que estiveram presentes naquele momento.
A impotência e a tristeza da Shikiya-san, e os meus próprios sentimentos enquanto me sentava ao lado dela...
Perguntando-me por que meus sentimentos ficavam cada vez mais nebulosos quanto mais eu pensava neles, recordei uma última vez o perfil da Shikiya-san encharcado pela chuva.
Tiara-san havia dito que Shikiya-san parecia muito solitária quando foi rejeitada pela Tsukinoki-senpai.
Não sabia se o perfil que Tiara-san viu era o mesmo que eu vi, mas provavelmente os sentimentos que tivemos não eram tão diferentes assim.
Depois de tomar uma decisão, abri os olhos lentamente.
A paisagem habitual da sala do clube se estendia diante de mim, vista de uma perspectiva mais baixa do que o normal.
Dito isso... por quanto tempo ainda vou ter que ficar sentado no chão?
*
Naquela noite, conferi cuidadosamente a fechadura da porta do meu quarto. Certo, agora ninguém conseguiria entrar. Troquei de roupa, vestindo novamente o uniforme escolar, e me observei por inteiro no espelho de corpo inteiro.
Então, adotando uma pose em um ângulo de quarenta e cinco graus, abri a boca.
— Gostaria de ir ver as iluminações da Estação Toyohashi comigo nesta quinta-feira?
...Perfeito. Fiquei muito bem. Afinal, eu estava convidando uma aluna mais velha para sair na véspera de Natal. Ensaiar era indispensável. Eu precisava ser decidido, mesmo que parecesse um pouco insistente, mas talvez abreviar "iluminações" para apenas "luzes" fosse forçar demais o estilo.
Talvez fosse melhor soar mais casual...
Ahem.
Depois de limpar a garganta, posei diante do espelho mais uma vez.
— Falando nisso, as iluminações em frente à estação começaram novamente este ano. Se você quiser, que tal irmos vê-las na noite da véspera de Natal?
Essa versão parecia mais natural e sem afetação. Assim, eu poderia introduzir o assunto no meio de uma conversa casual.
— Onii-sama, que tal formular isso de maneira um pouco mais delicada?
— Se eu fizer isso, ela não vai simplesmente ignorar sem nem perceber que estou convidando-a para sair?
— Nesse caso, ela estará ignorando de propósito. Escute o que eu digo: não existe a menor possibilidade de uma garota não perceber quando está sendo convidada para sair por alguém do sexo oposto.
Sério? Garotas eram assustadoras.
— Espera aí. Por que você está no meu quarto, Kaju? Eu tinha trancado a porta, não tinha?
— Ara, ela não estava trancada. Vim devolver o livro que peguei emprestado.
Kaju sorriu docemente enquanto me entregava o livro. Quando a porta do meu quarto tinha sido destrancada? Isso acontecia com tanta frequência que talvez eu realmente devesse mandar consertá-la...
Kaju sentou-se na minha cama como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Parecia que pretendia ficar ali por um bom tempo. Não tinha jeito. Voltei-me para a escrivaninha e abri um livro didático como disfarce.
— Bem, seu irmão mais velho tem lição de casa para fazer. Você devia voltar para o seu quarto, Kaju.
— Onii-sama, você está convidando alguém para sair na noite da véspera de Natal?
...Pelo visto ela não pretendia deixar o assunto morrer. Aproximei meu rosto do livro de forma exageradamente óbvia.
— Ah, bem, mais ou menos. Olha, já está tarde, então vá dormir. Você não vai conseguir acordar amanhã.
Continuei fingindo fazer a lição de casa quando ouvi sons de choro atrás de mim. Virei-me às pressas. Eu não estava imaginando coisas. Kaju estava derramando grossas lágrimas.
— O que houve, Kaju!?
— É que… sniff é que... sniff o Onii-sama, que nem tinha amigos no primeiro semestre, vai sair com uma garota na véspera de Natal... Kaju está tão, tão feliz...
Fsshh.
Kaju assoou o nariz em um lenço.
— Não, não é assim. Existem algumas circunstâncias...
— Durante aquele período em que você ficava trocando de garota uma atrás da outra, até Kaju achou que estava exagerando.
— Mas nunca existiu um período desses.
Kaju se levantou enquanto enxugava as lágrimas.
— Onii-sama finalmente encontrou seu verdadeiro amor. Kaju fará tudo ao seu alcance para ajudar. A entrevista pode esperar!
Mas você ainda vai fazer a entrevista?
Com os olhos marejados, Kaju puxou minha cabeça para um abraço apertado.
— Se seu encontro na véspera de Natal der certo, por favor deixe o resto com Kaju! Os preparativos para recebê-la na família Nukumizu já estão perfeitos. Não seria maravilhoso preparar as comidas de Ano-Novo juntos? Kaju também precisa começar a passar gradualmente os mais de trinta volumes das "Anotações do Onii-sama"...
Hã? O que são as "Anotações do Onii-sama"?
Eu estava curioso, mas tinha medo demais para perguntar. O número de volumes também era assustador.
— Como eu disse, Kaju, escute. Nós só vamos sair juntos. Não é um encontro nem nada do tipo.
Afastei Kaju de mim.
— Mas, Onii-sama, é na noite da véspera de Natal, não é?
— Bem, apenas coincidiu de cair nesse dia.
— Isso é um encontro. No mínimo, é um convite para um encontro.
— Urgh...!
Diante da afirmação categórica de Kaju, fiquei sem palavras. A palavra "encontro", que eu vinha tentando evitar, tomou conta da minha mente.
— Ninguém recusaria um convite seu, Onii-sama. Mas, na remota possibilidade de uma em um milhão de você ser rejeitado...
Kaju puxou minha cabeça para outro abraço apertado.
— Fique tranquilo. Você sempre terá Kaju, Onii-sama.
— O-Oh...
Se alguma coisa, minha ansiedade só aumentava. ...Faltavam três dias para a véspera de Natal.
*
Hora do almoço. Eu caminhava pelo corredor do prédio antigo com um pão de curry em uma das mãos. Hoje era quarta-feira, o dia anterior à véspera de Natal. Dois dias haviam se passado desde então, mas eu ainda não tinha conseguido convidar Shikiya-san.
...Vou deixar uma coisa clara desde já. Eu me esforcei. Não é como se tivesse feito algo específico, mas, de qualquer forma, tentei de verdade. O momento certo era crucial para esse tipo de coisa, e eu certamente não estava fugindo. Como prova, eu até tinha treinado bastante com Kaju na noite anterior.
Enquanto arrumava desculpas para mim mesmo, abri a porta que levava à escadaria de emergência. Um vento gelado soprou contra mim. Fazia tempo que eu não vinha aqui, mas o fim de dezembro era realmente congelante—
— N-Nukumizu, você veio?
Ao erguer os olhos em direção à voz, vi Komari sentada na escada.
— Komari, mesmo com esse frio todo...
Parei no meio da frase, incapaz de esconder minha perplexidade diante da aparência dela.
Komari estava usando protetores de ouvido felpudos e um cachecol enrolado no pescoço. Vestia um casaco acolchoado de inverno e até tinha uma manta sobre as pernas. Além disso, havia se preparado tão minuciosamente que até colocou uma almofada no chão para se proteger do frio vindo dos degraus.
— Que equipamento impressionante. Você carrega tudo isso consigo?
Com um sorriso orgulhoso, Komari apontou para a parede.
— E-Eu trouxe tudo aos poucos e... coloquei um gancho dentro daquela abertura de inspeção para p-pendurar minha bolsa.
Essa garota estava aproveitando ao máximo a vida na escadaria de emergência.
— N-Nukumizu, fazia t-tempo que você não vinha aqui.
Dizendo isso, Komari deu uma mordida no pão. O que ela estava comendo era um pão em formato de bastão estampado com um herói temático da culinária nacional. Com certeza era sobra dos irmãos menores.
Mas eu tinha vindo justamente porque não queria encontrar ninguém, então meu plano tinha ido por água abaixo...
Enquanto hesitava entre subir ou descer para outro andar, Komari falou novamente.
— E-Então... sobre amanhã, deu certo?
Sobre amanhã. Ela estava falando do plano de convidar Shikiya-san. Ao me ver em silêncio, Komari balançou a cabeça com uma expressão de exasperação.
— V-Você não pode simplesmente mandar uma mensagem para ela ou algo assim?
— Eu pensei nisso também. Mas, se você convida uma garota para sair na véspera de Natal, as chances de ser rejeitado já são altas, certo?
— B-Bem, isso é verdade. A-Afinal, estamos falando de você, Nukumizu.
Essa última parte foi completamente desnecessária.
— O que estou querendo dizer é que, se eu convidá-la pelo LINE ou algo do tipo, nove em cada dez vezes ela simplesmente vai me ignorar. E não seria cruel convidá-la pessoalmente depois e ela ficar com aquela aura de "perceba a situação, eu estava ignorando você de propósito"?
— P-Preocupe-se com isso depois de convidá-la.
Talvez ela tivesse razão, mas garotos também eram criaturas delicadas, sabia?
— Ainda tenho tempo depois das aulas de hoje, então não se preocupe. O eu do futuro vai dar um jeito.
— E-Esse futuro está logo ali na esquina, sabia...?
Não adiantava pensar demais. Enquanto me encostava no corrimão e dava uma mordida no pão de curry, Komari começou a agir de forma estranha, lançando olhares inquietos para todos os lados.

— O que foi, Komari? Está esperando alguém?
— N-Não, não estou. Hum... aqui, i-isso.
Komari estendeu um pequeno embrulho de repente. Eu reconheci aquele papel de presente. Era o mesmo que Komari havia deixado cair quando Tiara-san e eu estávamos comendo crepes.
— Hã? É para mim?
Komari assentiu em silêncio, mantendo os olhos baixos. Um presente inesperado. Qual seria a intenção dela ao me dar aquilo? Quando abri o embrulho com cautela, encontrei um marcador de livros.
Era feito de metal fino, com um padrão tradicional japonês vazado em seu desenho. Era genuinamente elegante e bonito.
— Ah, uma troca de presentes de Natal? Eu não preparei nada, porém.
— N-Não, não é isso... hum, é só para você, Nukumizu.
— Hã? Então é um presente de aniversário?
Quem diria que Komari me daria algo assim. Profundamente emocionado, como alguém que finalmente consegue alimentar um gato de rua que resgatou, ergui o marcador contra a luz para observar seus detalhes.
— É bem detalhado. Isso deve ter sido caro, não foi?
— N-Não foi...
— Esse padrão parece um rio correndo e folhas de bordo, né? E essa parte redonda é... uma temari?
— C-Cala a boca.
Por que eu tinha acabado de levar uma bronca?
— Eu disse alguma coisa estranha?
— É p-por isso que eu não gosto d-dessa sua parte...!
Komari puxou a manta sobre a cabeça e começou a mastigar o pão escondida ali dentro. Hã? Eu realmente não estava entendendo nada. Será que tinha pisado numa mina terrestre sem perceber?
Mesmo assim, receber um presente da própria Komari era algo surpreendente. Parecia que tínhamos percorrido um longo caminho.
Olhei para o céu além do corrimão.
O céu de inverno estava alto e limpo, sem uma única nuvem, e a previsão dizia que a noite seguinte também seria completamente aberta.
...Eu só precisava fazer isso.
Executaria o plano depois das aulas.
Tomando coragem, dei uma mordida no pão de curry.
*
Finalmente, as aulas terminaram. No corredor que levava à sala do conselho estudantil, dei tapas nas próprias bochechas para me animar.
— Certo, vamos lá.
Eu conseguia.
Era apenas um convite para a Shikiya-senpai sair na véspera de Natal. Talvez eu devesse mandar uma mensagem pelo LINE, afinal. Mas provavelmente não conseguiria me concentrar em nada até receber uma resposta. E se ela me ignorasse, o momento de agir novamente seria...
— Sua professora está se sentindo sozinha.
De repente, duas mãos cobriram meus olhos por trás. Afastei as mãos rapidamente e me afastei alguns passos.
— Uou, Konuki-sensei! Que susto!
— Você disse que viria, mas não apareceu nenhuma vez na enfermaria.
— Desculpe. Tenho estado ocupado ultimamente.
Eu tinha me esquecido completamente, mas não estava mentindo. Estava realmente ocupado.
— Mas você aparecia lá o tempo todo durante o Festival Tsuwabuki, não aparecia?
— Porque naquela época eu realmente tinha motivos para ir.
— Então você simplesmente me descarta depois que não precisa mais de mim? Não me lembro de ter criado vocês, garotos, desse jeito.
Eu também não me lembrava de ter sido criado por ela, mas precisava agir como um adulto. Mantendo uma distância segura, exibi meu melhor sorriso de atendimento ao cliente.
— Sensei, a senhora é a professora orientadora. Pode aparecer na sala do clube quando quiser.
— Mas durante as atividades dos clubes alguém pode se machucar, não é? Vou levar bronca se não estiver na enfermaria~.
Não faça essa voz fofa.
— Então está tudo bem a senhora não estar na enfermaria agora?
— Tenho uma reunião para a reunião dos professores de amanhã. ...Nukumizu-kun, por que você foge quando eu me aproximo?
— Porque a senhora se aproxima. Da próxima vez vamos todos visitá-la juntos, então vá para sua reunião sem preocupações.
Minha fachada de adulto maduro já estava acabando. Enquanto eu tentava dispensá-la friamente—
Uma voz digna ecoou pelo corredor.
— Então a senhora estava aqui, Konuki-sensei.
A dona da voz era a presidente do conselho estudantil, Hibari Hokobaru. Com os longos cabelos balançando, ela se aproximou de Konuki-sensei.
— Ora, se não é Hokobaru-san. O que houve?
— Trouxe os questionários que a senhora pediu. A planilha com os resultados também está aqui.
— Ara, isso ajuda muito. Vou agradecê-la adequadamente depois, então apareça na enfermaria.
— Apenas fiz o que é natural para alguém do conselho estudantil. Não precisa se preocupar.
Era impressão minha ou a presidente também estava tentando evitá-la? Aproveitei a oportunidade para sair discretamente, mas Konuki-sensei bloqueou meu caminho.
— E para onde você pensa que vai, me deixando para trás?
— Tenho alguns assuntos para resolver. Mais importante, a senhora não tinha uma reunião agora?
— Não tem problema se eu me atrasar um pouquinho. Agora vamos continuar nossa conversa sobre amor.
Nós estávamos mesmo tendo uma conversa sobre amor? Enquanto eu não sabia como reagir, a presidente se aproximou e ficou ao meu lado.
— Sensei, peço desculpas. Tenho algo para discutir com o presidente do Clube de Literatura sobre as atividades do clube. Posso levá-lo comigo?
Isso era novidade para mim. Enquanto eu permanecia confuso, Konuki-sensei afastou o cabelo para trás com um suspiro resignado.
— Ara... nesse caso não tem jeito. Nukumizu-kun, não faça nada exagerado, está bem?
Enquanto eu assentia sem entender o significado daquele conselho misterioso, a presidente passou o braço pelos meus ombros.
— Nukumizu-kun, já conseguimos permissão. Vamos.
— Hã? Ah, hum...
A presidente começou a caminhar à força em direção ao prédio novo. Depois de andarmos um pouco, ela lançou um rápido olhar para trás.
— Aquela professora é uma figura difícil. Ela se preocupa com os alunos, mas às vezes passa dos limites.
Ao ver seu sorriso amargo, percebi que ela tinha me ajudado.
— Desculpe por fazê-la se preocupar comigo.
— Não foi nada. Apenas fiz o que se espera de uma presidente.
Aliás, por quanto tempo essa pessoa pretendia continuar com o braço nos meus ombros...? Parecia estranho ser eu quem apontasse isso, como se eu estivesse incomodado ou algo do tipo...
— Ah, na verdade eu tenho um assunto para resolver com a Shikiya-senpai.
— Se for a Shikiya, ela está no campo esportivo. Deve estar conferindo os materiais no depósito de educação física. Posso acompanhá-lo até parte do caminho.
Hã? Sério? E ela pretendia me acompanhar até os armários dos sapatos? Talvez percebendo minha expressão abatida, um sorriso surgiu no rosto da presidente.
— Além disso, é verdade que tenho algo para conversar com você. Você tem passado bastante tempo com a Shikiya ultimamente. Vocês parecem muito próximos.
— Ah, bem... não é como se fôssemos tão próximos assim.
Estou andando com ela para recuperar um doujinshi de pessoas reais estrelando você e eu... É, definitivamente eu não podia dizer isso. Ao me ver mergulhado em pensamentos, a presidente soltou uma gargalhada.
— Não precisa esconder. Eu sei de tudo.
— Espera, presidente, você sabe!?
Sério? Ela sabia da existência de um doujinshi de pessoas reais com versão de troca de gênero dela mesma e não estava nem um pouco abalada? Enquanto eu estava completamente abalado, a presidente apertou o braço que mantinha sobre meus ombros, claramente de bom humor.
— Meus olhos não servem apenas de enfeite. Resumindo, você está... apaixonado, não está?
— Não estou.
Os olhos da nossa presidente realmente serviam apenas de enfeite.
— Ora, apaixonar-se ardentemente é um privilégio da juventude. Mesmo que seja um amor não correspondido.
Além disso, ela já estava presumindo que eu seria rejeitado. Era trabalhoso demais negar aquilo, então permaneci em silêncio. Nesse momento, a presidente mudou repentinamente para um tom sério.
— A propósito, você conhece a vice-presidente, Tiara-san, certo?
— Bem, mais ou menos.
— Ela parece estar escondendo alguma coisa ultimamente. Você faz ideia do que seja?
— Hã? Não. Por que está me perguntando isso?
— Bem, eu me pergunto o motivo.
A presidente soltou meu ombro e deu um passo rápido à minha frente, bloqueando meu caminho.
— Enquanto alguém não se desviar do caminho da humanidade, o amor é livre. Mas, em outras palavras, aqueles que se desviam desse caminho não têm o direito de amar. Você não concorda?
Ela me encarou com um olhar afiado.
— Hum... o que exatamente quer dizer com isso?
— Existem alguns lugares nesta escola que ficam longe dos olhos do público. Outro dia, Tiara-san foi vista entrando em um desses lugares com um aluno.
Esse aluno era eu. Percebendo meu pânico mal disfarçado, a presidente se aproximou ainda mais.
— Ela também tem agido de forma estranha ultimamente. Fica murmurando palavras misteriosas como "precioso", "fixo à direita" e "super uke poderoso", além de me encarar intensamente enquanto segura uma gravata perdida.
Entendi. Tiara-san já não tinha mais salvação.
— Bem, tenho conversado com ela sobre várias coisas.
— Oooh... problemas amorosos?
— Sim... algo assim. Não posso dizer mais do que isso.
— Entendo. Como dizem, "há coisas que é melhor não dizer".
A presidente deu um tapinha no meu ombro como se tivesse compreendido tudo. Ela provavelmente não tinha entendido absolutamente nada. Nesse momento, um aluno virou a esquina do corredor e correu em nossa direção.
— Hiba-nee, o que aconteceu com a inspeção do Clube de Banda? Já está quase na hora do compromisso.
A tábua de salvação que apareceu foi Sakurai-kun, o tesoureiro do conselho estudantil.
— Ah, Hiroto. É justamente para lá que eu estava indo.
Sakurai-kun suspirou cansadamente diante da resposta orgulhosa da presidente.
— A Sala de Música fica na direção oposta. Vamos logo.
Sakurai-kun segurou a mão da presidente, fez uma reverência para mim e levou-a embora. Pelo visto, ele também tinha seus próprios problemas. Já que estava acostumado a lidar com tantas dores de cabeça, talvez pudesse cuidar também das garotas do Clube de Literatura...
Pensando nessas coisas, apressei o passo em direção aos armários dos sapatos.
*
O depósito de materiais esportivos ao lado do campo.
A porta estava aberta e não havia ninguém por perto. Enquanto o som seco de um taco metálico ecoava ao longe atrás de mim, caminhei lentamente em direção ao depósito. A última vez que entrei ali foi em julho daquele ano, quando fiquei preso lá dentro com Yakishio.
...Falando nisso, eu realmente não olhei para nada naquela ocasião, e acho que teria sido aceitável se tivesse olhado só um pouquinho.
Quando espiei discretamente para dentro, havia apenas uma garota parada de costas para mim. Longos cabelos castanho-claros. As pernas pálidas que surgiam sob a saia curta pareciam congelar só de olhar para elas.
Não havia dúvida: era Shikiya-san. Esta era minha chance de falar com ela sem que ninguém visse. Tomando coragem, entrei no depósito.
— Senpai, você tem um minuto?
Minha voz ecoou surpreendentemente alto dentro do depósito. Shikiya-san, que ficou imóvel por um instante, virou a cabeça bruscamente para trás. Assustador.
— Nukumizu-kun... o que foi...?
Fechando o caderno com um estalo, ela virou lentamente o corpo em minha direção. Vamos lá, eu consigo. Agora que tinha chegado até ali, só precisava reunir coragem e dizer aquilo.
— Ahm... eu só queria saber se você pegou um resfriado depois daquele dia.
É, eu amarelei. Algum problema com isso? Enquanto eu me tornava desafiador apenas na minha cabeça, Shikiya-san assentiu levemente.
— Sim... estou bem... obrigada...
— Ainda bem.
Era uma boa notícia, mas aquilo não resolvia nada. Shikiya-san me observou atentamente enquanto eu mexia nervosamente os dedos.
— Foi... só isso que você veio dizer...?
— Hã? Não, não foi isso...
Ah, droga. Melhor acabar logo com isso e me livrar desse sofrimento. Dei um passo à frente e encarei diretamente os olhos pálidos de Shikiya-san.
— E-Ei! Você tem algum compromisso amanhã à noite?
— Não... particularmente.
Aproveitando o impulso, dei mais um passo. O corpo de Shikiya-san balançou como se tivesse sido empurrado.
— Se você quiser, poderia ir ver as iluminações em frente à estação comigo!?
Pronto! Eu disse!
Enquanto eu era envolvido por uma sensação de alívio, ouvi atrás de mim um tumulto que parecia uma comemoração. Não podia culpá-los. Eu tinha me esforçado muito. Era natural receber uma ou duas comemorações...
— Hã?
Quando me virei timidamente, percebi que uma multidão havia se formado na entrada do depósito.
O quê!? Quando toda essa gente apareceu!?
Enquanto eu entrava em pânico, Shikiya-san colocou as duas mãos sobre meus ombros por trás.
— Sim... tudo bem...
Sussurrando palavras que fizeram cócegas em meu ouvido, Shikiya-san saiu do depósito com passos vacilantes. Os alunos dos clubes esportivos que estavam aglomerados na entrada rapidamente abriram caminho para ela.
E, entre aquela multidão, havia uma garota de uniforme… Yakishio.
*
Estação Aichidaigakakumae, a estação mais próxima da escola.
Entrei no trem que deslizou até a plataforma e me sentei profundamente em um assento vazio. ...Um encontro na véspera de Natal. E eu realmente tinha recebido um "sim". Meu objetivo era apenas fazê-la comparecer, então tecnicamente não era um encontro.
Mas Shikiya-san não sabia disso… Pouco antes das portas se fecharem, uma estudante de cabelo curto entrou correndo no vagão.
Era Yakishio. Logo depois do ocorrido no depósito de materiais esportivos, quando Shikiya-san foi embora. O silêncio que persistiu enquanto nossos olhares se encontravam só terminou quando os amigos de Yakishio a levaram dali.
Não era como se eu estivesse fazendo algo errado. Mas, de alguma forma... aquilo foi constrangedor. Como se soubesse exatamente onde eu estava, Yakishio veio direto até mim e se sentou ao meu lado. Deixando um assento vazio entre nós.
— Yakishio, suas aulas de recuperação já terminaram?
— Sim. E também confirmaram que vou poder voltar às atividades do clube a partir de amanhã, então passei no Clube de Atletismo para cumprimentar o pessoal.
Então era por isso que ela ainda estava de uniforme. Assim que a conversa fez uma pausa, a expressão dela mudou para um sorriso provocador.
— Nossa, eu não fazia ideia. Então era assim, Nukkun~.
— Hã? Como assim?
Yakishio estendeu o braço e começou a bater repetidamente no meu ombro. Doía bastante.
— Estou falando da Shikiya-senpai. Você é tão distante. Eu teria ajudado se tivesse me contado~.
Ah. Então ela realmente tinha entendido errado.
— Não, não. Não é nada disso. Não é um encontro.
— Só vocês dois na véspera de Natal já é um encontro! A Shikiya-senpai é um pouco assustadora, mas é linda. Certifique-se de se arrumar bem amanhã!
— Desculpe por não ter contado antes, Yakishio. Conversei com Tamaki-senpai, e basicamente fiquei responsável por marcar um encontro com a Shikiya-san.
— Com o ex-presidente?
Depois que expliquei toda a operação do começo ao fim, Yakishio assentiu admirada.
— Heh... então vocês vão tentar fazer ela e a Tsukinoki-senpai se reconciliarem.
— Não sei se elas vão se reconciliar. Mas as duas eram próximas no passado, então achei que pelo menos deveriam conversar adequadamente.
— Ah, é mesmo? Eu não fazia ideia.
Yakishio desviou o olhar para o vazio enquanto repetia aquelas palavras. Parecia um pouco solitária.
— Eu realmente não fazia ideia…..
Ela tinha ficado de fora. Não fiz isso conscientemente, mas era verdade que eu estava escondendo as coisas dela. Yakishio era a jovem promessa do Clube de Atletismo e também integrante do Clube de Literatura. Mas aquilo era apenas a "situação" dela. Não definia quem ela era como pessoa.
Eu deveria ter percebido isso.
— Desculpe….
— Por que está pedindo desculpas?
Ela sorriu. Era um sorriso bastante solitário.
— Você parecia ocupada com as aulas de recuperação ultimamente. E normalmente já tem bastante trabalho com o Clube de Atletismo também.
— Sim, é verdade. E parece que muita coisa ainda vai acontecer no clube daqui para frente.
Yakishio soltou um suspiro e exibiu um sorriso ambíguo.
— Aconteceu alguma coisa ruim?
— Nada exatamente ruim. Ou melhor, tanto o professor responsável quanto a capitã esperam muito de mim.
— Falando nisso, você subiu ao pódio no torneio da província, não foi?
— Sim. Fiquei em terceiro lugar nos cem metros. Afinal, sou a mais rápida do clube. Provavelmente em qualquer distância.
— Isso é incrível para uma aluna do primeiro ano, não é? Claro que as pessoas ao seu redor teriam grandes expectativas.
— Mas ainda não sou boa o bastante para chegar ao campeonato nacional. E mesmo que chegasse, sei que não conseguiria competir de igual para igual.
Inclinando levemente o corpo em minha direção, ela continuou falando com aparente indiferença.
— Receber tratamento especial quando não consigo corresponder às expectativas... acho que é um pouco desconfortável.
Ela carregava aquele olhar distante e maduro que eu via de tempos em tempos. Desviei os olhos e olhei pela janela.
— Eu sei que você está dando o seu melhor. Então use o Clube de Literatura para relaxar sempre que quiser.
— Mas eu não consigo escrever romances. Até a Yana-chan está escrevendo direitinho.
— É verdade. Ela também entregou um texto desta vez.
O romance de Yanami continuava sendo mais uma história gastronômica ambientada em lojas de conveniência. Havia sinais de um novo desenvolvimento, mas ela certamente continuaria obcecada por comida.
— Comparada a isso, eu mal apareço lá. Às vezes me pergunto se estou realmente participando do clube.
Um anúncio soou pelos alto-falantes do trem e ele começou a desacelerar. Yakishio se levantou enquanto se espreguiçava.
— Quando eu me tornar aluna do segundo ano, também vou precisar decidir muitas coisas.
...Decidir?
— Yakishio, ainda não chegamos à nossa estação.
— Só estou com vontade de correr um pouco. Bem, então, Nukkun, trate de fazer direito.
— Fazer direito o quê?
O trem parou. Enquanto caminhava em direção às portas abertas, Yakishio jogou algo em minha direção. Depois de quase deixar cair algumas vezes, consegui pegar.
Era uma barra de proteína. Na embalagem, escrita com marcador, havia a mensagem:
"Happy Basude". Provavelmente ela não sabia escrever "birthday" corretamente...
— É Natal, afinal. Isso significa que você deve aparecer lá com estilo.
Com uma expressão decididamente elegante, Yakishio apontou para mim e desceu rapidamente do trem. Mas esse nem era o objetivo de amanhã. Será que ela realmente entendia a situação...?
Enquanto observava Yakishio desaparecer ao fundo da plataforma, lembrei-me de Shikiya-san no depósito. A sensação das mãos macias dela tocando meus ombros. Sua respiração fria fazendo cócegas em minha orelha… Quando o trem voltou a andar, sentei-me novamente e fechei os olhos com força.
Tentei esvaziar a mente, mas a sensação da barra de proteína em minha palma me trouxe de volta à realidade.
Pensando bem, quem contou à Yakishio sobre meu aniversário? Komari também sabia, então talvez Yanami tivesse comentado algo na sala do clube…
Desisti de tentar organizar meus pensamentos confusos e me afundei novamente no assento.
*
Relatório do Clube de Literatura – Edição de Inverno
"A Verdadeira Batalha Começa Agora?" - Por Anna Yanami
Eu estava no 7-Eleven a caminho da escola logo pela manhã. Canções de Natal tocavam pelo rádio da loja. O interior inteiro estava decorado com cores natalinas, mas, naquela hora da manhã, todos estavam ocupados demais para prestar atenção nisso.
Enquanto monopolizava o espaço para refeições como de costume, alguém falou comigo.
— Ah, Ako-san. Hoje você está demorando bastante.
Essa pessoa excessivamente íntima era XX-kun, da mesma turma. Nós nem somos tão próximos.
— Estou apenas tomando café da manhã. Poderia não me incomodar?
Meu café da manhã era um nikuman. Uma obra-prima recheada de carne suculenta envolta por uma massa macia. No inverno, eu comia isso cinco vezes por semana. XX-kun, que estava prestes a sair, seguiu meu olhar e disse:
— Ah, entendi.
Como se tivesse compreendido tudo. Do lado de fora da janela, ao lado de OO-kun, esperando o sinal abrir na faixa de pedestres, estava uma garota.
Era Jko-chan. Ultimamente ela passava muito tempo com ele e, mesmo naquele momento, os dois conversavam alegremente. Eu achava impróprio caminhar para a escola tão abertamente ao lado de um garoto.
Enquanto comia meu nikuman em silêncio, XX-kun colocou um copo diante de mim. Era um café com leite quente. E tamanho grande. Como estava ocupando espaço, lancei-lhe um olhar irritado, mas XX-kun simplesmente se sentou duas cadeiras adiante.
— Um agrado para você. Você gosta de café com leite, não é?
Falando nisso, hoje era 24 de dezembro. Talvez ele estivesse tentando transformar aquilo em um presente de Natal. Era um pouco assustador, mas eu não era o tipo de mulher que pisaria na boa vontade de alguém.
Como o nikuman estava absorvendo toda a umidade da minha boca, o café quente espalhou calor pelo meu corpo. O sabor rico e suave do leite parecia ficar melhor a cada gole.
— XX-kun, você colocou açúcar nisso?
— Claro. Ako-san sempre usa dois sachês, não é?
Sinceramente. Por dentro, fiquei exasperada. Para um copo grande, o correto eram três sachês. Mas, como sou adulta, não demonstrei nada.
O sinal abriu.
Ele e Jko-chan atravessaram a rua conversando alegremente. O café com leite que tomei observando-os pareceu um pouco mais amargo do que de costume.
*
24 de dezembro. Noite da véspera de Natal.
Em frente à Estação Toyohashi havia um grande deck que se conectava à estação da ferrovia privada e ao ponto do bonde. O centro das iluminações ficava em uma ampla área circular à direita da saída leste da estação. De um ponto mais afastado, próximo à escadaria que levava ao bonde, observei tudo à distância.
...Faltavam quinze minutos para o horário marcado, às dezoito horas. O céu já estava completamente escuro, iluminado apenas pelo brilho esbranquiçado das luzes da cidade. Uma parte das iluminações cintilava com pequenos pontos de luz e, mesmo à distância, parecia exercer uma espécie de encanto irresistível.
— Yo. Te fiz esperar?
Quem apareceu com uma expressão levemente nervosa foi Tamaki-senpai. Vestindo um elegante casaco de gola, ele ergueu uma das mãos em cumprimento.
— Ah, obrigado por vir.
Encontrar alguém fora da escola realmente deixava as coisas um pouco estranhas, não é? Tamaki-senpai estendeu a mão e tirou alguma coisa do meu cabelo.
— O que é isso? Confete?
— Foi obra da minha irmãzinha, Kaju. Ela me pegou quando eu estava saindo de casa.
— Como exatamente ser pego pela sua irmã resulta nisso...?
Eu também não sabia responder.
— Parece que ela entendeu errado e achou que eu estava indo para um encontro de Natal, então me deu uma despedida triunfal. Pelo menos consegui impedir que ela pendurasse uma faixa na varanda.
— Sua vida continua complicada como sempre, hein?
— Não tão complicada quanto a sua, senpai.
O que era pior: ser arrastado de um lado para outro pela namorada ou pela irmã mais nova? Não, espera. O simples fato de ele ter uma namorada já lhe dava uma vitória esmagadora...
— Tem certeza de que está tudo bem fazer isso hoje? Afinal, é Natal.
— Bem, provavelmente vou passar o jantar inteiro me desculpando.
Minha provocação ligeiramente maldosa foi devolvida com uma humilde ostentação sobre seu relacionamento. Então eu realmente não conseguia vencer um cara que tinha namorada. Enquanto era dominado por uma leve sensação de desespero, a expressão de Tamaki-senpai ficou séria de repente.
— Parece que a Koto chegou.
Seguindo seu olhar, vi ao longe uma figura que parecia ser ela no deck. Espera... aquela pessoa ao lado dela é...? Sem uniforme, eu não conseguia ter certeza.
— Não se incline demais para fora. Todo o esforço será em vão se formos vistos.
Ele tinha razão. Depois de chegar tão longe, terminar daquela forma seria demais. Escondido atrás de Tamaki-senpai, observei a situação de Tsukinoki-senpai... ou pelo menos de quem eu acreditava ser ela.
— A Shikiya-san ainda não chegou. Não corremos o risco de elas se desencontrarem se ficarmos aqui?
— Acho que ela veio de táxi, então não deve passar por aqui. Nós também estávamos trocando mensagens até agora há pouco.
A tela da conversa mostrava apenas uma única frase: "A caminho." Apesar da aparência de gyaru, era uma resposta incrivelmente direta e viril.
— Então deve ficar tudo bem. Dar de cara com aquela garota seria um pouco...
Ainda parecendo inquieto, Tamaki-senpai olhou ao redor com preocupação. Foi para suas costas que dirigi minhas palavras.
— Não está na hora de você me contar?
— Contar o quê...?
Ao vê-lo interromper a frase e ficar em silêncio, finalmente entendi.
— O que aconteceu entre as duas? Eu vinha pensando nisso até pouco tempo atrás.
Com algo próximo da convicção, encarei seus olhos enquanto ele tentava desviar o olhar.
— Não foi apenas entre as duas. Alguma coisa aconteceu entre vocês três, não foi? Estou errado?
Tamaki-senpai examinou os arredores mais uma vez antes de começar a falar sem me encarar.
— Foi quando eu e Koto estávamos no segundo ano. Mais ou menos na época em que o Festival Tsuwabuki terminou. Koto ainda fazia parte do conselho estudantil, e ela era muito próxima da Shikiya-san.
Ele foi ligando as palavras lentamente, uma de cada vez, como se as misturasse ao fluxo de pessoas que passava ao redor.
— Acho que era um pouco diferente da relação entre Koto e Komari-chan hoje em dia... As duas tinham um tipo de proximidade na qual nem eu conseguia me intrometer.
Uma fase de lua de mel entre elas que nem mesmo Tamaki-senpai conseguia invadir. Era difícil imaginar isso olhando para elas agora, mas sem dúvida havia existido.
— Um dia, depois das aulas, eu estava sozinho na sala do clube. Então aquela garota apareceu, o que era raro. E aí...
Seu tom de voz caiu. A expressão dele não era de tristeza nem de raiva. Era de perplexidade.
— E então? O que aconteceu?
Ele abriu a boca lentamente.
— Eu fui... derrubado pela Shikiya-san.
— Hã?
Espera. O que foi que esse cara acabou de dizer?
— Não me diga que ela simplesmente tropeçou em cima de você! Não, falando sério, o que diabos vocês estavam fazendo!? Você e a Shikiya-san tinham esse tipo de relação?
— Calma, calma! Eu não fiz nada! Foi uma tentativa... ou melhor, a Koto entrou na sala no último segundo!
— Isso não é literalmente o pior cenário possível?
— É.
Sério? Claro que a relação delas ficou péssima depois disso. Encostei-me na grade atrás de mim e soltei um enorme suspiro. ...Mas espera um pouco.
— Tem certeza de que é uma boa ideia fazer as duas se encontrarem nessas circunstâncias? Do ponto de vista da Tsukinoki-senpai, a garota que tentou ficar com o namorado dela vai aparecer bem no lugar onde eles estão tendo um encontro.
Talvez recordando algo, Tamaki-senpai fechou os olhos e franziu a testa.
— Não acho que dizer que ela estava atrás de mim seja exatamente correto...
Eu não teria como saber. Nunca fui alvo de ninguém. Tamaki-senpai abriu os olhos e encarou o deck iluminado.
— Eu e Koto tentamos não tocar nesse assunto. Mas, ainda assim, não acho que devemos fingir que nunca aconteceu.
...Finalmente compreendi o que havia acontecido entre os três. Mas o significado daquilo… A verdadeira resposta para o que realmente ocorreu ainda não tinha aparecido.
— Nukumizu, a Shikiya-san chegou.
Além do olhar sério de Tamaki-senpai, uma garota caminhava de forma vacilante, como uma borboleta. Ela usava um longo casaco marrom e um gorro de tricô. Peguei meu celular. Eu não sabia que resposta nos aguardava. Mas, já que Tamaki-senpai havia decidido enfrentar aquilo, tudo o que eu precisava fazer era cumprir a promessa que fizera a Tiara-san.
*
24 de dezembro, 17h54. Deck da Saída Leste da Estação Toyohashi — Área Circular.
As iluminações se espalhavam pelo deck em frente à estação. No centro de tudo estava Koto, próxima a um grande objeto em forma de coração que servia como ponto para fotos. Grupos de colegiais tiravam fotos umas das outras enquanto levantavam vozes animadas.
Um irmãozinho e uma irmãzinha posavam lado a lado enquanto a mãe apertava o obturador da câmera. Koto deixou seu olhar vagar suavemente ao redor, entregando-se à delicada luz azulada que envolvia o local.
O Natal do ano anterior parecia ter acontecido ontem. Naquela época, ela ainda era apenas a amiga de infância de Shintaro. Cheia de expectativas próprias, observou aquelas luzes e depois voltou para casa de ombros caídos.
Agora aquilo era apenas uma história engraçada. Ao baixar o olhar para esconder o sorriso que surgia em seus lábios, padrões luminosos em forma de flocos de neve dançaram aos seus pés.
Uma cena romântica como aquelas vistas em filmes ou dramas. Ela sempre sonhara com algo assim. Mas sua timidez acabava vencendo, e ela nunca conseguia aproveitar essas situações com sinceridade.
— Só este ano deve estar tudo bem, não é?
Era o último Natal de sua vida no ensino médio. Ela não sabia o que o próximo ano lhe reservava. A única certeza era que os caminhos dos dois seriam diferentes.
Sempre ao lado um do outro. Sempre juntos. Palavras tão frágeis e vazias. Até mesmo seu eu mais jovem sabia disso. Como se interrompesse seus pensamentos, um som de notificação veio de seu smartphone. Ao pegá-lo, viu uma mensagem da pessoa que estava esperando.
"Desculpe. Vou me atrasar um pouco. Poderia esperar exatamente aí sem sair do lugar?"
...Será que aconteceu alguma coisa com Shintaro?
A ansiedade que surgiu em seu peito logo foi substituída por uma sensação de estranheza.
...Sem sair do lugar.
Se fosse o Shintaro de sempre, ele teria dito para ela esperar em algum lugar aquecido.
Então isso significava que seria uma... surpresa?
À primeira vista ele não parecia o tipo de pessoa que faria algo assim, mas ocasionalmente tomava atitudes ousadas.
...Mas hoje, o normal já era suficiente.
Um Natal comum vivido por um casal comum. Hoje ela queria guardar esse "comum" dentro do coração. Baixando o rosto, Koto deixou um sorriso surgir em seus lábios. Ela percebeu que havia mudado.
Antes, queria ser especial para a pessoa de quem gostava. Queria que fossem um casal especial.
Mas agora… Não precisava ser especial. Desde que os dois pudessem estar juntos, era tudo o que desejava.
...No campo de visão de Koto, perdida nesses pensamentos, surgiu um par de botas marrons.
Era uma visão banal. Mesmo assim, um arrepio gelado percorreu sua espinha. Aquela maneira familiar de caminhar trouxe de volta uma lembrança de um passado não tão distante. Como se fosse impulsionada por algo, Koto ergueu a cabeça.
— Shikiya….
Ali estava uma figura familiar. Alguém que costumava estar sempre ao seu lado. Usando um gorro de lã com pompom, ela observava Koto com seus olhos pálidos.
Sob o trench coat aberto, suas longas pernas nuas que surgiam abaixo da saia curta pareciam congelar de frio.
— Por que você está aqui?
— Eu também... estou encontrando alguém...
Nem mesmo Shikiya conseguiu permanecer impassível. O final de sua frase perdeu força e se dissipou no ar da noite.
— Ajudaria muito se você pudesse mudar de lugar, se não se importar. Eu não posso sair daqui.
— Eu também... não posso.
De repente, ela cambaleou e deu um passo à frente.
— Espera... sem sair deste lugar... foi o que ele disse.
Não demorou para que as palavras de Shikiya fizessem sentido na mente de Koto.
...Elas haviam caído em uma armadilha. Em outras palavras, aquilo tudo não passava de uma encenação preparada para aproximá-la de Shikiya. Koto fingiu calma para não deixar sua agitação transparecer e perguntou:
— Shikiya, quem você está encontrando? Não me diga que...
— Nukumizu-kun... do Clube de Literatura… — Shikiya inclinou a cabeça, parecendo ligeiramente orgulhosa. — Foi ele... quem me convidou.
Então aquele garoto também estava envolvido nisso, como ela suspeitava. Koto levou um dedo à testa e balançou a cabeça.
— Nukumizu-kun tem um rostinho bonito, mas é bem atrevido. Pensar que ele seria capaz de te enrolar assim, Shikiya.
— O que... você quer dizer?
— Abra os olhos. Nós fomos enganadas.
Shikiya olhou para Koto, que fizera um gesto displicente com a mão ao dizer aquilo, com uma expressão confusa.
— Nukumizu-kun... não vai vir...?
— Provavelmente não.
Não era como se a ideia de ir embora não tivesse passado por sua cabeça. Ela odiava estar fazendo exatamente o que eles queriam, mas fugir seria ainda mais irritante. E, ao ver Shikiya ali parada com aquela expressão tão indefesa, Koto desistiu.
Ela se colocou ao lado dela e ergueu o olhar para as iluminações que cruzavam o céu acima.
— Shikiya, você está saindo com o Nukumizu-kun?
— Não... somos amigos... eu acho?
— Por que está me perguntando isso?
Ela jamais imaginara que voltariam a ficar lado a lado conversando daquela forma. Também não acreditava que ainda houvesse algo a ser dito entre elas. Mas, muito mais do que havia temido, não sentiu nenhum constrangimento por tê-la ao seu lado. Ainda assim, havia uma coisa. Algo que ela não podia evitar.
— Você se lembra? Novembro do ano passado. Do que fez na sala do Clube de Literatura.
— Sim….
Naquela época, as atividades do conselho estudantil e do Clube de Literatura eram mantidas o mais separadas possível. Por isso, Shikiya e Shintaro não deveriam ter tido muito contato.
Foi por isso que, quando abriu a porta da sala, a cena pareceu estranha. Como se estivesse assistindo a um filme. Talvez aquilo tivesse sido uma forma de proteger o próprio coração. Mas havia também outra questão que ela jamais conseguira compreender.
Koto respirou fundo e finalmente fez a pergunta que sempre quisera fazer.
— Você... gostava do Shintaro?
Shikiya inclinou a cabeça, genuinamente confusa diante de uma pergunta tão simples.
— Eu… não sei.
— Como assim não sabe? Depois de fazer uma coisa daquelas, você pelo menos deveria saber se gosta ou não dele...
— Desculpe... mas... eu realmente não sei...
Ao vê-la murchar como uma criança sendo repreendida, até o coração de Koto doeu.
— Sou eu quem não entende. Shikiya, você não parece o tipo de garota que brinca com os sentimentos dos garotos, certo?
— Sim...
— Então por que fez aquilo?
— Porque a Koto-san... gostava... do Tamaki-san.
A resposta, que demorara um ano para chegar, foi tão inesperada que Koto ficou de boca aberta.
— Então era isso? Você é do tipo que quer o que pertence aos outros?
Shikiya balançou a cabeça de leve, mas com firmeza.
— Eu queria... me tornar como você... Koto-san.
— Hein? Como eu?
Foi tudo o que Koto conseguiu dizer diante daquela resposta ainda mais inesperada.
— Mas, Koto-san... existem tantas coisas... que eu não entendo...
Shikiya balançou o corpo levemente.
— Então... pensei que, se me apaixonasse... pela pessoa de quem a Koto-san gostava... talvez eu entendesse.
Quando terminou de falar, ela parou completamente de se mover, como se alguém tivesse desligado um interruptor. Koto repetiu aquelas palavras inúmeras vezes em sua mente. Depois de refletir sobre elas repetidamente e sentir que seus dedos finalmente tocavam a superfície dos sentimentos de Shikiya, ela desistiu de ir além.
Uma dormência nas pontas dos dedos lhe dizia que não deveria avançar mais.
— Mesmo assim, fazer algo assim não teria ajudado em nada. Antes de tudo, o que você faria se o Shintaro tivesse correspondido?
— Como ele é a pessoa de quem você gosta... acho que... eu não teria odiado isso.
Ao dizer aquilo, o perfil de seu rosto foi iluminado pelas luzes cintilantes. Era tão belo que até Koto ficou hipnotizada. Se Shikiya realmente tivesse se apaixonado por Shintaro… Uma ansiedade impossível atravessou sua mente.
— Por que você quer se tornar alguém como eu? Você é mais bonita, tira notas melhores e também tem muitos amigos, não tem?
— Eu não sei... como sorrir...
Shikiya começou a falar como se estivesse despejando palavras presas dentro do peito.
— Como se divertir... ficar feliz... ou triste... acho que sinto essas coisas também... mas não as entendo muito bem...
Ela inspirou rapidamente e continuou despejando seus pensamentos.
— Koto-san, você sempre é... sincera com seus sentimentos... e brilha...
Ela expirou e inspirou outra vez, mais profundamente do que antes.
— Por isso eu também... queria me tornar como você... Koto-san.
Aquelas palavras estavam longe de ser fortes. Eram tão frágeis que poderiam ser levadas pelo vento de inverno. Nem mesmo seu coração estava decidido. Tudo era vago e incerto. Mas o esforço máximo de Shikiya alcançou Koto, e mais ninguém. Koto sorriu suavemente.
— Eu não entendo tudo o que você está dizendo, Shikiya. Mas sabe, eu consigo sorrir mesmo quando não estou me divertindo.
Enquanto falava, exibiu seu sorriso provocador de sempre.
— Eu também finjo sorrisos. E, às vezes, acabo me divertindo só por estar rindo junto com as outras pessoas.
— É... mesmo?
— É assim que funciona. No fim das contas, você nunca sabe se está rindo porque está feliz ou se está feliz porque está rindo.
Koto estendeu a mão e brincou com o pompom do gorro de Shikiya. Shikiya olhou para ela com preocupação.
— Koto-san... você não... me odeia... por não conseguir entender... o que estou pensando?
— Você não ri nem sorri muito, mas às vezes parece estar se divertindo ou feliz. Isso consegue ser transmitido, então… — dessa vez, Koto sorriu do fundo do coração. — Eu não odeio isso. Acho que você está ótima exatamente como é.
Foram palavras sinceras, sem nenhum enfeite.
— Sim... obrigada...
Com um pequeno aceno, Shikiya segurou as pontas dos longos cabelos de Koto com a ponta dos dedos. Enquanto observava aqueles dedos tão carinhosos, Koto falou em voz baixa.
— Desculpe, Shikiya. Mesmo estando ao seu lado, eu nunca consegui te entender. Conhecendo a mim mesma, provavelmente disse muitas coisas insensíveis ou te magoei de várias formas...
Como se quisesse interrompê-la, Shikiya tocou os lábios de Koto com o dedo.
— Koto-san... sorria...?
Quando Koto exibiu um sorriso ligeiramente confuso, Shikiya passou o dedo cuidadosamente por seus lábios. Então, como se estivesse imitando aquele gesto, moldou os próprios lábios em um sorriso.
— Estar com a Koto-san... me deixa... feliz.
Shikiya se afastou com um passo vacilante, quase como uma dança, e caminhou até o centro da praça. Quando Koto ficou ao seu lado, ela dobrou os dedos da mão esquerda e os ergueu diante dos olhos.
— Vamos fazer um coração... com os dedos... juntas...?
— Isso não é coisa de namorados...?
Koto sorriu de forma resignada e posicionou os próprios dedos do lado oposto para formar um coração.
— Tudo bem. Assim está bom?
Shikiya exibiu novamente o sorriso que acabara de aprender.
— Se nós duas... olharmos as luzes através do coração... vamos passar nos exames.
— Isso é mentira, não é?
— É mentira... na verdade significa... que ficaremos ligadas para sempre...
— Não é justamente porque já estão ligadas que conseguem fazer isso?
Não havia jeito. Ela já tinha entrado na brincadeira. Koto aproximou o rosto do de Shikiya e olhou as luzes através do coração formado pelos dedos.
— Assim está bom? Shikiya, suas bochechas estão geladas.
No instante em que recuou e virou o rosto—
Shikiya pressionou os lábios contra os dela. Paralisada pela repentina surpresa, Koto percebeu que os lábios sobre os seus se moviam como se quisessem devorá-los e rapidamente afastou o corpo.
— Ngh!? O-O que foi isso!? Hein? Espera, fala sério!?
Shikiya levou os dedos aos próprios lábios e murmurou:
— Era... macio e fofinho.
— Eu não preciso da sua avaliação!
Koto segurou a cabeça e se agachou.
— Não, sério... você... eu estava me esforçando para relevar tudo isso, e você simplesmente passou de todos os limites?
Com sua expressão inalterável de sempre, Shikiya pousou gentilmente a mão em seu ombro.
— Está tudo bem... eu posso te amparar, Koto-san...
— Não preciso que me ampare. E, além disso, não é você quem está me derrubando?
— Koto-san... é do tipo que é amparada?
— Eu tenho namorado, afinal de contas... espera, do que estamos falando mesmo?
...Ah, céus.
Levar isso a sério só fazia ela parecer uma idiota. Koto soltou um gemido e se levantou, observando as luzes cintilantes. Afinal, aquilo tudo não passava de LEDs. Luzes apenas um pouco bonitas, românticas e capazes de deixar as pessoas mais sinceras.
— Por algum motivo, estou começando a ficar irritada. Shikiya, você ainda não jantou, certo? Vamos comer alguma coisa.
— Mas... o Tamaki-san está esperando...
— Ele provavelmente está com o Nukumizu-kun. Agora que parei para pensar, foi aquele garoto que te convidou hoje, não foi? Você não está mesmo saindo com ele... está?
Shikiya inclinou a cabeça.
— Não estou... por quê...?
— Hoje é véspera de Natal. O fato de você ter aceitado o convite dele significa que talvez tenha um pouquinho de interesse, não é?
— Não é isso, mas...
Balançando a cabeça de um lado para o outro, ela voltou seus olhos pálidos para o céu.
— Mas... ele talvez seja... um pouco fofo.
Como eu deveria interpretar essas palavras?
Koto pensou por um instante e decidiu simplesmente deixar para lá. Se algo estivesse começando a florescer ali, então ela deixaria seguir seu curso.
Koto tirou o celular do bolso e fez uma ligação sem sequer olhar direito para a tela. Dois toques. No instante em que a outra pessoa atendeu, ela começou a falar sem dar espaço para resposta.
— Shintaro, está me ouvindo? Vou sair para comer com a Shikiya. Bem, até mais tarde... se eu estiver com vontade.
Desligando antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela estendeu a mão para Shikiya.
— Vamos. Hoje vou te mimar sem dó.
— Koto-san... tudo bem mesmo...?
— Está tudo bem. Shikiya, o que você quer comer?
— Eu... quero comer peixe...
Shikiya estendeu a mão timidamente, como uma criança envergonhada.
— Deixe comigo. Vou te apresentar ao mais magnífico kinmedai que existe.
Koto segurou aquela mão com firmeza. Com um sorriso igual ao de um ano atrás, mas um pouco mais maduro.
*
Um café localizado a poucos minutos da estação.
A melodia de uma canção de Natal tocada por uma caixinha de música ecoava suavemente pelo ambiente. Iluminado pela luz tênue de uma vela, eu estava sentado diante de Tamaki-senpai, do outro lado da mesa.
— Desculpe por deixar você pagar tudo isso para mim.
— Não precisa se preocupar. Seria deprimente jantar sozinho num lugar desses, de qualquer forma.
Tamaki-senpai deu uma risada fraca ao dizer isso. Eu havia aceitado acompanhá-lo depois que ele, abandonado em seu jantar de Natal, me convidou, mas todas as mesas ao redor estavam ocupadas por casais, fazendo com que parecêssemos completamente deslocados.
— Além disso, eu reservei isso com antecedência. Passei semanas estudando para os exames pensando neste dia, então...
Senpai deixou a cabeça cair sobre a mesa.
— Como foi acabar assim?
Na verdade, parecia um resultado inevitável. Fui eu quem o arrastou para toda essa situação, então não era como se eu não me sentisse responsável.
— Vamos, anime-se. Pelo visto as duas fizeram as pazes, e a Tsukinoki-senpai também não está mais brava.
— Você acha? Ela parecia realmente furiosa.
— Ela só estava escondendo a vergonha. Olhe, as bebidas chegaram. Por favor, sente-se direito.
Uma funcionária se aproximou carregando uma bandeja.
— Aqui está a Aranciata Rossa Christmas Special.
Toc. Um grande copo foi colocado no centro da mesa. Dentro dele havia um suco vermelho, e dois canudos entrelaçados em forma de espiral. ...Era uma daquelas bebidas feitas para duas pessoas compartilharem.
— Senpai, apareceu uma coisa bem absurda aqui.
— Afinal de contas, é Natal — senpai se endireitou abruptamente e levou um dos canudos à boca. — Na verdade, está muito bom. Quer experimentar?
— Ah, nesse caso, vou aceitar.
Era agridoce e realmente delicioso. Enquanto alternávamos entre um gole e outro, senpai deixou escapar um som de surpresa.
— Nukumizu, beba junto comigo.
— Hein? Nem pensar.
— Não é como se eu quisesse fazer isso também. Vamos, rápido.
Por que fazer algo que ninguém queria fazer...? Mesmo relutante, fiz o que ele pediu. No mesmo instante, uma forma de coração apareceu diante dos meus olhos.
— Hã!? Quando bebemos ao mesmo tempo, a cor do suco faz os canudos parecerem um coração, não faz?
— Sim. E mais: só forma um coração se você olhar de cima.
Então os canudos também tinham algum truque. Enquanto discutíamos a mecânica daquilo, a funcionária trouxe os pratos.
— Obrigada pela espera. Aqui está a seleção de hors d'oeuvres, edição de Natal.
(Nota: hors d’oeuvres é uma expressão francesa que, para nós, seria o mesmo que uma entrada, aperitivo ou petisco antes do prato principal.)
Um prato quadrado foi colocado diante de mim. Sobre ele havia uma espuma branca parecida com neve e diversos aperitivos coloridos.
— Essa espuma é comestível, certo?
— Acho que se chama espuma gastronômica ou algo assim. Imagino que seja para colocar sobre o Papai Noel e comer.
— Aquela coisa que parecia uma criatura invocada era um Papai Noel?
De alguma forma, tudo deu uma volta completa e eu realmente estava começando a me divertir. Quando terminamos o prato principal de frango, Tamaki-senpai já havia recuperado completamente o ânimo.
— Sério? A Ayu-chan se declarou no capítulo mais recente?
Assenti solenemente para senpai, que se inclinara para frente cheio de entusiasmo.
— Sim. A edição da próxima semana vai ser insana. Uma declaração nessa altura da história é praticamente uma bandeira de derrota.
— Ugh, estou curioso demais para saber o que acontece depois. Por favor, não me dê spoilers até meus exames terminarem.
Tamaki-senpai riu enquanto limpava a boca com um guardanapo.
— Então você continua firme naquela proibição de mangás e animes que mencionou antes?
— Sim. O Exame Nacional é logo depois do Ano-Novo. Preciso recuperar o tempo perdido por ter mudado para a área de Ciências.
— Falando nisso, já decidiu para qual faculdade vai prestar?
— Eu não tinha contado? Faculdade de Agricultura. Estou pensando em estudar fermentação e produção de bebidas.
Produção de bebidas... então algo como missô ou álcool, certo? Falando em álcool...
— A família da Tsukinoki-senpai não tinha uma loja de bebidas?
— Não era uma loja. Eles produzem. Ela é filha única de uma tradicional cervejaria de saquê.
Entendo… E estudar produção de bebidas significava, em outras palavras...
— Hein? Vocês dois já estão pensando tão longe assim?
— Ainda estamos longe disso. Só espero conseguir apoiá-la no futuro.
Dizendo isso, senpai tomou um gole de água para esconder o constrangimento. ...Os caminhos após a formatura, hein? Eu pretendia entrar na universidade e sair de casa por algum tempo, mas não conseguia me imaginar vivendo em um lugar desconhecido. Por outro lado, conseguia imaginar perfeitamente a mim mesmo almoçando sozinho no refeitório.
— Espero que dê tudo certo.
— Pode deixar comigo. Estou contando com você para preparar a comemoração quando isso acontecer.
Fiz uma careta exagerada para o senpai, que me mostrava um polegar para cima.
— Eu estava falando dos seus problemas amorosos, não dos exames. Mesmo dizendo que não era popular durante o acampamento de verão, você parece ser um verdadeiro conquistador.
— O caso da Shikiya-san não conta. E você, Nukumizu? Está claramente na sua fase popular, não está?
— Como assim? Eu não sou popular nem um pouco.
Diante da minha resposta espontânea, senpai respondeu casualmente:
— Nukumizu, estar numa fase popular não significa necessariamente ser popular.
Hein? Isso é ridículo. Você está tentando redefinir completamente o conceito de fase popular? Com uma expressão séria, senpai continuou:
— Todos os calouros do Clube de Literatura são garotas, exceto você, certo?
— Bem... é verdade.
— Se fossem todos rapazes, naturalmente você estaria cercado de garotos. É a mesma coisa no conselho estudantil.
Isso realmente fazia sentido. Assenti seriamente.
— Em outras palavras, a verdadeira natureza de uma "fase popular" é um período em que você cria muitas conexões com o sexo oposto por coincidência. Dizem que isso acontece três vezes na vida. Mas nada vai acontecer se você continuar distraído, entendeu?
— Espere um pouco. Então isso significa que eu só tenho mais duas fases populares restantes?
— Se esta é sua primeira, então sim. Já houve alguma época em que você conviveu bastante com garotas?
Eu, que mal tinha amigos, ter alguma ligação especial com garotas… Quando estava prestes a rir da ideia, uma antiga lembrança surgiu no fundo da minha mente.
— Pensando bem, no jardim de infância eu só brincava de casinha com as meninas.
Brincar com os meninos era cansativo demais.
— Essa foi a primeira vez. E depois?
— Além disso, no ensino fundamental, uma amiga da minha irmã mais nova vivia aparecendo lá em casa para brincar, então às vezes eu fazia companhia para ela.
— Nukumizu, você teve uma experiência digna de uma comédia romântica dessas...?
Por que o senpai pareceu recuar um pouco?
— Não foi nada tão legal assim. Aquela garota faltava muito às aulas, e minha irmã era a única amiga dela. Ela aparecia mesmo quando minha irmã não estava em casa, então eu acabava jogando videogame com ela ou algo do tipo. Os dois em completo silêncio.
Depois de pensar por alguns segundos, o senpai assentiu vigorosamente.
— Isso conta por muito pouco como a segunda vez. Em outras palavras, a sua fase popular final está acontecendo agora.
Sério? Então estou destinado a ficar solteiro para sempre. Enquanto imaginava minha velhice solitária, os pratos foram retirados da mesa, restando apenas a sobremesa. Enquanto escolhíamos as bebidas para acompanhar, Tamaki-senpai tirou o celular do bolso às pressas.
— Foi mal. Vou atender uma ligação lá fora.
Depois de dizer isso, ele saiu do restaurante. Pelo nível de desespero estampado em seu rosto, provavelmente era a Tsukinoki-senpai. Do lado de fora da janela, eu podia vê-lo se curvando repetidamente enquanto falava ao telefone.
Por que as pessoas fazem reverências quando pedem desculpas por telefone? Quando voltou, o senpai juntou as mãos diante de mim.
— Desculpe! Vou precisar sair um pouco mais cedo.
— A Tsukinoki-senpai te perdoou?
Tamaki-senpai deu um sorriso amargo enquanto vestia o casaco.
— Isso depende do que acontecer daqui para frente. Nukumizu, aproveite o resto da noite.
Depois de pagar a conta no caixa, Tamaki-senpai saiu correndo do restaurante. Enquanto observava suas costas se afastando, pensei em Tiara-san.
A condição que ela havia imposto para o nosso acordo era simples: resolver, até o dia seguinte, a situação entre Tsukinoki-senpai e Shikiya-san. Eu acreditava ter conseguido cumprir a tarefa, mas quem faria esse julgamento seria Tiara-san. Aquela pessoa era um pouco estranha, e explicar tudo para ela certamente seria um incômodo...
Foi então que a garçonete surgiu ao lado da mesa com um sorriso gentil.
— Meu querido cliente, já decidiu sua bebida? Posso trazer a sobremesa?
— Hein? Ah, sim.
No instante em que peguei o cardápio de bebidas, um arrepio percorreu a nuca.
— Eu vou querer... chá de gengibre com pêssego...
Estremeci involuntariamente ao ouvir aquela voz bem ao lado do meu ouvido. Não havia como confundi-la. Era a voz da Shikiya-san.
— Senpai, como você soube que eu estava aqui?
— Eu ouvi... da Koto-san...
Retirando o gorro de lã, ela se sentou na cadeira onde Tamaki-senpai estava sentado até poucos instantes antes. Sem demonstrar qualquer surpresa com aquela súbita troca de participantes, a garçonete manteve seu sorriso impecável.
— Então, para a bebida, chá de gengibre com pêssego está bom?
— Ah, sim. Dois, por favor.
Mesmo depois que a funcionária desapareceu em direção à cozinha, Shikiya-san permaneceu completamente imóvel.
Aquilo estava ficando um pouco constrangedor… Quando eu estava prestes a abrir a boca para falar, Shikiya-san murmurou baixinho, como se tivesse antecipado minhas palavras.
— Você quebrou... sua promessa...
— Ah... eu não pretendia quebrá-la...
Afinal, o objetivo desde o começo era fazer Shikiya-san aparecer, então o convite em si já havia sido uma mentira… É... eu sou realmente o pior.
— Sim, me desculpe. Não tenho palavras para me justificar.
— Mas... eu te perdoo...
Após uma breve hesitação, Shikiya-san ergueu os dois indicadores e empurrou suavemente os cantos dos próprios lábios para cima.

— Hein, isso é...
— Eu tentei... sorrir...
— Sim.
Sem saber muito bem como reagir, fiquei sem palavras, e Shikiya-san escondeu o rosto atrás do gorro de lã.
— Cancele isso... não valeu...
— Não, não, combinou muito com você! Olhe, nossa sobremesa deliciosa acabou de chegar!
Forcei uma animação no tom de voz e ofereci a sobremesa para Shikiya-san. Era uma bûche de Noël, o clássico rocambole natalino. Shikiya-san soltou um leve suspiro e pegou sua xícara de chá.
— Você fez... papel de bobo comigo...
Aquilo tinha sido culpa minha? Enquanto retomávamos a compostura e comíamos a sobremesa, Shikiya-san murmurou baixinho:
— Sorrir é... difícil...
Deixando o vapor do chá atingir seu rosto, ela balançou o corpo suavemente de um lado para o outro. Se sorrir era difícil ou fácil. Eu nunca havia parado para pensar seriamente nisso.
— Mas, senpai, você não sorri com bastante frequência?
— Eu sorrio... com frequência...?
Clac. Shikiya-san se inclinou para frente. Ela se agarrou a esse assunto muito mais do que eu esperava. Era um pouco assustador.
— Bem... mesmo quando você não ri de verdade, você passa a impressão de estar sorrindo. Algo assim.
— Impressão...
Ah, a energia dela despencou de repente.
— É... por exemplo. Dizem que os cachorros demonstram suas emoções pelo rabo, certo? Mas, se você observar bem, consegue perceber como eles se sentem por outras coisas também. Pelos gestos, pelos tremores, ou até pelo jeito como os olhos ficam marejados.
Apesar de até eu mesmo achar que era uma explicação duvidosa, Shikiya-san assentiu, satisfeita.
— Sim... eu gosto... de cachorros...
— Eu também gosto.
Com o coração um pouco mais aquecido, continuei mexendo na sobremesa com o garfo. Então percebi que Shikiya-san parecia querer dizer alguma coisa.
— Tem alguma coisa no meu rosto?
— Sobre o doujinshi... vai ficar tudo bem...?
— Amanhã vou tentar conversar com a Tiara-san. Afinal, eu cumpri a promessa que fiz para ela...
— Promessa...?
Ah, eu ainda não tinha contado isso para Shikiya-san. Quando revelei toda a história do acordo secreto que havia feito com Tiara-san, Shikiya-san murmurou, parecendo ligeiramente divertida.
— A Tiara-chan... é uma garota má...
— Acho que vocês duas são igualmente terríveis, sabia?
— Então eu também... sou uma garota má...
Sem fazer barulho, Shikiya-san pousou a xícara sobre a mesa. ...Koto Tsukinoki e Yumeko Shikiya. A mágoa que existia entre elas. Ou os sentimentos que haviam confirmado sob as iluminações. Eu não tinha como saber. Talvez nem mesmo aquelas duas compreendessem tudo completamente.
Mas relacionamentos humanos eram assim mesmo. A relação entre Shikiya-san e Tsukinoki-senpai havia sido restaurada, e Tiara-san tinha uma preocupação a menos.
Era mais do que suficiente para encerrar meu último período como um garoto de quinze anos. Quando percebi, Shikiya-san já havia terminado a sobremesa. Como sempre, eu me perguntava quando exatamente aquela pessoa encontrava tempo para comer.
Observei Shikiya-san enquanto fingia beber meu chá preto. Hoje sua maquiagem era discreta. Tirando as lentes de contato brancas, eu acreditaria facilmente se me dissessem que ela não estava usando maquiagem alguma.
Outro dia, Yanami havia dito que "nunca se deve confiar quando uma garota diz que está de cara limpa", mas aquilo provavelmente era só inveja. Era por isso que garotas eram assustadoras.
...Mesmo assim, essa pessoa tem cílios incrivelmente longos. Além disso, seus traços eram muito bem proporcionados. E, diferente de Yanami, ela possuía um charme maduro. Enquanto a observava sem perceber, Shikiya-san inclinou a cabeça e me encarou de volta.
— O que foi...?
— Não é nada. Eu só estava me perguntando sobre o que você conversou com a Tsukinoki-senpai.
Lentamente, Shikiya-san passou a ponta dos dedos pelos próprios lábios.
— É segredo.
Ela murmurou quase num sussurro e cruzou as longas pernas para o outro lado. Espera. Que atmosfera era essa?
— Aconteceu alguma coisa?
Shikiya-san não respondeu. Em vez disso, apenas balançou o corpo suavemente, parecendo estranhamente satisfeita. ...Definitivamente alguma coisa aconteceu. Enquanto desejava boa sorte para Tamaki-senpai, bebi de uma só vez o restante do meu chá preto já frio.
A melodia suave da caixinha de música continuava tocando. Dentro do restaurante pouco iluminado, banhado pela luz das velas, Shikiya-san balançava lentamente.
Não havia nenhuma conversa em particular. Nossas xícaras já estavam vazias. E não era como se eu tivesse maturidade suficiente para transformar o silêncio em meu aliado na companhia de uma garota mais velha.
Para ser sincero, aquilo era um pouco constrangedor. Eu não sabia sobre o que conversar. Mas, por alguma razão, também não conseguia simplesmente me levantar e ir embora. Por algum motivo, eu não me importava de passar aquele tempo estranho ao lado de Shikiya-san.
Ela continuava bebendo chá em silêncio. Seus olhos pálidos não revelavam para onde estavam voltados, exatamente como sempre. Mesmo assim, eu me pegava esperando que nossos olhares se encontrassem, ainda que por um instante.
Shikiya-san olhou para mim e inclinou levemente a cabeça. Eu sorri de forma sem jeito e inclinei a cabeça da mesma maneira. Constrangido. Inquieto. E, ainda assim, sentia uma estranha relutância em deixar aquele momento chegar ao fim.
Perdido, deixei meus pensamentos vagarem.
...Se eu tivesse que dar um nome a esse sentimento, qual seria a palavra mais adequada?
📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag e revisado por Shisui
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