Volume 4
Capítulo 2: Apenas um Pouco de Gentileza
AS AULAS DE SEXTA-FEIRA já haviam terminado, e era hora da reunião de classe. Apoiando-me sobre um dos cotovelos, peguei-me relembrando a conversa que tivera com Tiara-san no dia anterior.
"Torne-se meu aliado."
Naquele momento, eu havia tratado aquilo com leveza, mas, quanto mais o tempo passava, mais aquelas palavras pesavam sobre mim. Quero dizer, eu só tinha começado a investigar Tiara-san porque Shikiya-san me pressionara a isso. E agora ela queria que eu ficasse do lado dela e resolvesse a situação entre Shikiya-san e Tsukinoki-senpai...
— É... não. Isso é impossível.
As palavras escaparam da minha boca mais alto do que eu esperava, ecoando de forma constrangedora pela sala de aula. Enquanto lia as regras para as férias de inverno, nossa professora regente, Amanatsu-sensei, lançou-me um olhar afiado.
— Ei, Nukumizu. Se tem alguma coisa para dizer, fale alto. Ficar longe de relacionamentos impuros é mesmo uma perspectiva tão inaceitável assim? Está tentando esfregar na minha cara que vou passar o Natal sozinha de novo este ano? É isso?
— Hã? Não, não foi isso que eu quis dizer...
Murmurei, mas Amanatsu-sensei estalou a língua em desaprovação e jogou as "Orientações para as Férias de Inverno" de lado como se fossem lixo. Essa professora tinha mesmo um péssimo temperamento.
— Tanto faz. Leiam o resto por conta própria. Isso é tudo quanto aos avisos... mas, falando nisso, outro dia eu fui ao casamento de uma amiga.
Certo, isso surgiu do nada. Imediatamente, o clima na sala ficou tenso. Com um sorriso radiante, Amanatsu-sensei continuou:
— Foi uma cerimônia linda. O motivo que a noiva deu para decidir se casar foi incrível. Ela disse: "Eu me sentia sozinha voltando todas as noites para um apartamento escuro e vazio." Dá para acreditar? Ahaha, hilário, não é?
Amanatsu-sensei riu alegremente. A sala inteira mergulhou em um silêncio absoluto.

Depois de rir com vontade, a sensei de repente baixou a cabeça e, então, bam, bateu as duas mãos sobre a mesa do professor.
— Naquela noite, eu voltei para um apartamento escuro e vazio usando meu vestido de convidada de casamento e carregando uma sacola de presentes. Tentem imaginar como isso foi. É exatamente assim que todos vocês estarão daqui a dez anos.
Isso foi uma maldição. Após alguns instantes, a sensei ergueu a cabeça novamente, já com seu habitual sorriso presunçoso de volta ao rosto.
— Certo! Agora que todos estão animados e cheios de energia, a reunião de classe está encerrada! Em seguida vou corrigir os boletins de vocês, então passem o fim de semana tremendo de medo!
Ah... vamos mesmo entrar no fim de semana depois de ouvir uma coisa dessas? Agora que parei para pensar, espero que pelo menos o novo gato da sensei já estivesse começando a se apegar a ela...
Assim que Amanatsu-sensei saiu da sala, todos os alunos se levantaram e começaram a circular livremente. Não que eu tivesse tempo para me preocupar com outras pessoas naquele momento. Shikiya-san havia me convocado para retomar a reunião estratégica que fora interrompida no dia anterior. Pelo visto, Yanami já tinha deixado a sala.
Acho que era melhor eu ir para a sala do clube também... embora, sinceramente, eu não estivesse nada ansioso para isso. Esconder o fato de que Tiara-san já havia percebido nosso plano e, ainda por cima, tentar arrancar informações sobre o que acontecera entre ela e Tsukinoki-senpai...
Será que eu realmente tinha capacidade para interpretar o papel de agente duplo? Mas ser um espião parecia bem legal. Quem sabe não fariam um anime sobre mim… Enquanto eu tentava fugir da realidade em pensamentos, uma suave fragrância floral adocicada fez cócegas em meu nariz.
Uma música animada começou a tocar na minha cabeça. Com uma entrada dessas, nem era preciso adivinhar quem era.
— Nukumizu-kun. Tem um minuto?
Karen Himemiya. A heroína clássica que conseguiu conquistar Sosuke Hakamada — o garoto por quem Yanami correu atrás durante doze anos — em apenas dois meses. Pequenos brilhos cintilavam ao redor de seus longos cabelos, e seu sorriso deslumbrante me fez semicerrar os olhos instintivamente.
— Ah, sim. Tenho tempo.
— Então vou fazer uma pergunta. Você está livre no Natal?
— Hã?
Aquilo só podia significar uma coisa. Se eu dissesse que estava livre, ela pediria para eu cobrir seu turno de trabalho. Eu sabia como essas coisas funcionavam. Passava muito tempo na internet.
— Nossa escola proíbe trabalhos de meio período, então acho que não poderia cobrir seu turno...
— Hã? Ah, Nukumizu-kun, você é tão engraçado.
Cobrindo a boca com a mão, Himemiya-san soltou uma risadinha. Que bom que ela achou graça.
— A cerimônia de encerramento é no dia de Natal, não é? Algumas pessoas da turma estão planejando uma pequena festa de Natal. Eu queria saber se você gostaria de participar.
Ah, então era aquela festa da turma que Yanami havia mencionado.
— Obrigado, eu agradeço o convite, mas já tenho planos para esse dia.
— Planos...?
Não era mentira. Kaju vinha se preparando com toda a dedicação possível para comemorar meu aniversário. As luzes de LED em contagem regressiva espalhadas pela parte externa da nossa casa? Aquilo não era para o Natal. Era uma contagem regressiva para o meu aniversário.
Os vizinhos provavelmente achavam que éramos fanáticos por Natal.
— Você não vai à festa, Nukumizu?
A voz veio de Sosuke Hakamada, que havia se aproximado e parado ao lado de Himemiya-san. Seu rosto irritantemente bonito agora demonstrava decepção.
— Ah, desculpe. Eu já tinha algo planejado há bastante tempo. Então não posso mesmo...
— Você pode aparecer só um pouco, sabe? Mesmo que precise ir embora mais cedo.
— É, mas...
— Ei, ei, Sosuke!
Himemiya-san o interrompeu às pressas.
— O que foi, Karen?
— Lembra? Anna-chan disse que também não tinha certeza se conseguiria vir à festa. Será que...
— Ah, droga. Eu provavelmente falei algo que não devia, não foi?
— Nossa, Sosuke, você nunca muda.
Sorrindo, Himemiya-san cutucou a bochecha de Hakamada. Eu tinha a sensação de que um enorme mal-entendido estava começando a tomar forma. E também, por favor, parem de flertar bem na minha frente.
— Hum, meus planos para o Natal não têm nada a ver com a Yanami-san...
Quando eu estava prestes a iniciar uma explicação para salvar minha reputação, a música de fundo na minha cabeça mudou. A melodia tornou-se sombria e inquietante. A cintilante Zona Himemiya estava sendo rapidamente consumida pelas sombras...
Só havia uma pessoa capaz de fazer uma entrada dessas. Uma silhueta escura aproximou-se sorrateiramente por trás de Himemiya-san.
— Ainda... aqui...
— Kyaa!
Himemiya-san soltou um grito e se agarrou a Hakamada. A dona daquela figura não era outra senão Shikiya-san. Balançando levemente o corpo, ela parou à minha frente.
— Surgiu... uma tarefa repentina... de novo hoje...
Sua cabeça inclinou-se repentinamente para o lado.
— Outra... promessa quebrada... desculpe...
Uma promessa? Então isso significava que a reunião estratégica seria cancelada de novo hoje?
— Ah, não se preocupe com isso. Então nos vemos na semana que vem.
Salvo. Comecei a me levantar da cadeira, mas Shikiya-san se inclinou sobre a mesa na minha direção. Seu rosto ficou tão perto que eu podia sentir sua franja roçar em mim. Rapidamente, sentei-me de novo.
— A-Ah, hum...
— Em troca... você está livre... domingo à tarde...?
Eu basicamente estava sempre livre. Assenti em silêncio e, justamente quando ela começou a se erguer da mesa, desabou novamente, apoiando a bochecha sobre ela.
— Subir as escadas... me deixou exausta...
— Mas isso é só o segundo andar... Certo, vamos lá, pegue minha mão. Vamos levantar devagar. Contraia o abdômen e faça força com a barriga~.
Estou começando a achar que já me acostumei a cuidar dessa garota. Quando finalmente consegui ajudá-la a ficar de pé, minha testa estava úmida de suor. Levei a mão ao bolso procurando algo para enxugá-la, mas, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, Shikiya-san limpou minha testa delicadamente com seu próprio lenço.
— Ah, obrigado.
— Então, domingo... vou esperar... no lugar de sempre...
Balançando levemente o corpo, ela me deu as costas e saiu da sala. ...Espera. O lugar de sempre? Que lugar é esse? Eu não fazia a menor ideia.
Além disso, ainda precisava mandar mensagem para Yanami e Komari avisando que a reunião de hoje havia sido cancelada.
Nossa, que saco.
Enquanto colocava a bolsa sobre o ombro e seguia em direção à sala do clube, percebi que o casal Himemiya continuava agarrado um ao outro, encarando-me de olhos arregalados.
— Hum, aconteceu alguma coisa?
— Nukumizu-kun, aquela era uma veterana do conselho estudantil, não era? Vocês dois parecem bem próximos.
— Nem tanto. Quer dizer, ela sempre age assim.
Hakamada me lançou um olhar exasperado.
— Você deixa ela se agarrar em você daquele jeito o tempo todo?
— É. Até eu ficaria envergonhado se alguém fizesse isso comigo.
Ainda abraçados, os dois riram baixinho. Contive com todas as minhas forças as palavras que quase escaparam da minha garganta.
Vocês são as últimas pessoas que deveriam dizer isso.
*
O corredor vazio do prédio oeste.
Enquanto caminhava em direção à sala do clube, dei uma olhada na tela de notificações do celular. Uma resposta de Shikiya-san havia chegado. Vejamos. A reunião estratégica estava marcada para domingo, às três da tarde, naquele café de jogos de tabuleiro.
Ela havia dito para eu não me preocupar com dinheiro, mas, depois de ter sido tratado da última vez, eu me sentia mal. Talvez devesse levar alguns doces como presente desta vez.
Também precisaria garantir que Yanami não os devorasse novamente… Respondi apenas com um "entendido" e, quase imediatamente, outra notificação apareceu.
Não era uma resposta de Shikiya-san. Era uma mensagem de Tiara-san.
"Tenho algo que gostaria de discutir. Estarei esperando no karaokê em frente à Estação Toyohashi, domingo às 14h."
Por que um karaokê? Ela até enviou o link do local. O horário era muito próximo da reunião com Shikiya-san. Que inconveniente. Eu estava prestes a recusar, com os dedos pairando sobre a tela, quando parei.
Espera um segundo.
Se eu recusasse agora, ela provavelmente pediria para nos encontrarmos em outro dia. Não seria mais fácil simplesmente aparecer, marcar presença e depois usar meu compromisso já agendado como desculpa para sair mais cedo?
Se eu dissesse que tinha planos com Shikiya-san, ela provavelmente não insistiria. Com um sorriso malicioso, abri a porta da sala do clube e encontrei Yanami e Komari já lá dentro.
— Ei, posso interromper um instante?
Depois de contar minha programação do fim de semana — bem no meio de uma discussão acalorada sobre se Pretz ou Pocky era superior — recebi apenas olhares frios e sem vida.
— Primeiro foram os crepes com Basori-san, e agora karaokê? Nukumizu-kun, você não está misturando trabalho com diversão demais?
Yanami apontou para mim com um palito de Pretz. Estou aqui arriscando tudo para recuperar aquele doujinshi, e é isso que eu recebo? Inacreditável.
— O karaokê é só um lugar conveniente para nos encontrarmos. Num café, alguém poderia ouvir nossa conversa.
— P-Por que você precisa se encontrar sozinho com ela em primeiro lugar?
Komari me encarou enquanto mordiscava a base do seu Pocky. Eu não podia contar a elas sobre o acordo com Tiara-san. Murmurei algo vago para encobrir o final da frase.
— Bem... é complicado. E eu também não posso simplesmente levar uma garota para o meu quarto, sabe?
— Eu já estive no seu quarto, não estive?
Crunch. Yanami mordeu seu Pretz. Os olhos de Komari se arregalaram.
— Eeh!? Y-Yanami, v-você já esteve no quarto dele?
— Sim. O Nukumizu-kun foi meio insistente. Você sabe como é, né? Afinal, eu também sou uma garota.
Por que ela parecia tão orgulhosa ao dizer isso? E, além disso, a história tinha sido completamente reescrita.
— Se você está falando das férias de verão, foi você quem apareceu na minha casa sem ser convidada. E quando entrou no meu quarto, a Asagumo-san estava junto.
— Ah, é mesmo! Agora lembrei. Você tinha duas garotas fofas no seu quarto e mesmo assim não ofereceu nenhum lanche. Dá para acreditar nisso, Komari-chan?
— E-Esses lanches são tão importantes assim...?
Komari apresentou um argumento bastante razoável. Yanami assentiu solenemente e abriu outro pacote de Pretz.
— Garotos são julgados pelo que têm para oferecer, sabia? Lembre-se disso, Komari-chan.
— Pare de colocar ideias estranhas na cabeça da Komari. Enfim, eu vou cuidar sozinho da reunião com Basori-san.
— Mas você também vai se encontrar com a Shikiya-senpai, não vai?
Yanami franziu a testa enquanto media um palito de Pretz entre dois dedos.
— Ei, você acha que consigo comer isso inteiro numa mordida sem quebrar?
— Sim, ela pediu para me encontrar no café de jogos às três. E Pretz deve ser comido em pequenas mordidas, mastigando bem.
— E-Então... v-você não vai?
Komari parecia preocupada.
— Meu encontro com Basori-san é às duas, perto da Estação Toyohashi. Se eu sair em trinta minutos e for direto para lá, devo chegar a tempo. Vocês duas podem ir na frente e...
— Ah. Eu tenho planos com uma amiga, então não posso.
Com a boca aberta pronta para receber mais Pretz, Yanami respondeu casualmente.
— Hã? Sério? Então, Komari, estou contando com você.
— M-Mas, Nukumizu... v-você não vai se atrasar, vai...?
Bem… Se a conversa demorasse ou os horários do trem não colaborassem, eu provavelmente me atrasaria. E isso deixaria Komari sozinha com Shikiya-san...
— Eu juro que não vou me atrasar, então não se preocupe. Alguma vez eu já menti para você?
— C-Com frequência.
Verdade. Eu tinha acabado de mentir para ela agora mesmo, não tinha?
— Então vamos chamar a Lemon-chan também.
Mastigando com a boca meio cheia, Yanami fez a sugestão de forma casual. Espera. Ela acabou de comer o Pretz inteiro no sentido do comprimento sem quebrá-lo...?
— A Yakishio?
— Ela está proibida de participar das atividades do clube agora, não está? Então provavelmente está livre. Tenho certeza de que vai aceitar.
Tecnicamente, essa suspensão era para ela estudar. Mas, pensando bem, ela provavelmente não estava estudando mesmo.
— Certo, então posso deixar isso com você? Komari, tudo bem para você também?
— S-Sim, tudo bem.
— Ótimo, então está decidido. Eu vou ao karaokê com a Basori-san e depois encontro vocês. Então Komari e Yakishio se encontram no café de jogos às três, certo?
A agenda estava realmente lotada. Agora que parei para pensar, não deveríamos terminar a revista do clube antes do fim do ano? Será que isso ainda estava nos planos?
— Eu realmente não tenho tempo para me divertir...
As palavras escaparam da minha boca, e Komari e Yanami imediatamente me lançaram olhares inexpressivos.
— I-Isso não era para ser uma diversão desde o começo, tá?
— Hã?
— Nós estamos recuperando o doujinshi da Tsukinoki-senpai, certo? Não esqueça do objetivo, ouviu~?
...Não é que eu tivesse esquecido. Sério, eu não tinha esquecido.
*
O tempo passou e, agora, era domingo à tarde, depois do almoço. Eu estava no meu quarto, de braços cruzados diante das roupas espalhadas sobre a cama. Hoje seria minha estreia em um karaokê.
E minha companhia, mesmo sendo a Tiara-san, ainda era uma colega do meu colégio. Será que isso poderia ser aquilo sobre o qual eu só ouvira rumores...?
— Será que esta é a tal fase popular...?
Assim que murmurei isso para mim mesmo, uma voz veio de trás.
— Onii-sama, Kaju trouxe um pouco de chá.
Quando ela entrou no quarto? Kaju sorria enquanto erguia uma bandeja com uma xícara de chá.
— Ah, Kaju, você estava aí. Obrigado. Pode deixar aí.
Enquanto colocava o chá sobre a mesa, Kaju inclinou a cabeça, curiosa.
— Você espalhou todas as suas roupas desse jeito. O que está acontecendo?
— Vou sair daqui a pouco, então estava pensando no que vestir. Que tal este moletom?
Peguei uma das peças. Ela tinha uma ilustração de um tatuzinho-de-jardim, um verdadeiro primor de design.
— Isso é um tatuzinho?
— Este aqui não consegue se enrolar em forma de bola, então é um bicho-de-conta. O formato das placas do corpo é diferente. É assim que se distingue um do outro.
— É verdade, Kaju não sabia disso. Onii-sama, em termos de etiqueta da moda, moletons são proibidos em dezembro, então que tal usar uma camisa com colarinho?
Espera. Existe mesmo uma regra dessas? Se era uma questão de etiqueta, então acho que eu não tinha escolha. Abri a camisa nova que havia comprado recentemente.
— Então, que tal esta? Ela tem estampa de jornal em inglês por toda parte...
— Vamos ficar com essa camisa mais simples. Quando o Natal está próximo, roupas estampadas são consideradas tabu.
Existe até uma regra dessas...? Moda é mesmo complicada.
— Eu estava pensando em usar esta calça.
— Ara, jeans?
— Este jeans é bem estiloso, não acha? Tem esse padrão que parece respingo de tinta e até esta corrente na cintura...
— Sim, é muito bonito. Mas, durante o Festival dos Onis, os demônios costumam perseguir pessoas usando jeans, então vamos escolher esta calça chino.
O Festival dos Onis. Um evento tradicional de Toyohashi em que oni e demônios desfilam pelas ruas jogando pó branco nos cidadãos.
— Mas o Festival dos Onis é em fevereiro, não é?
— Esta é como uma edição especial de fim de ano. Se você for atingido por pó branco antes de sair, isso seria um problema, não seria?
Isso era verdade. Seria um problema antes de sair. Kaju afastou as roupas que eu havia escolhido e ergueu uma camisa diante do meu corpo.
— Vejamos. Que tal combinar essa camisa com um cardigan em tom marrom? Kaju vai trazê-lo daqui a pouco.
— Por que você sequer tem uma coisa dessas, Kaju?
Ao ouvir minha pergunta, ela sorriu como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
— É apenas natural que uma irmã mais nova ajude o irmão a se arrumar. Inclusive, estava escrito naquela light novel que Kaju emprestou para você outro dia, não estava?
Agora que ela mencionou… Eu realmente lembrava de ter lido algo parecido. Se estava numa light novel, então não havia o que fazer.
— Falando nisso, onii-sama, você vai encontrar uma garota hoje, não vai?
— Hã? Como você sabe?
Assim que ouviu minha resposta, os olhos de Kaju brilharam enquanto ela se aproximava.
— Kaju sabia! Então é um encontro, não é? É com a Yanami-san? Ou com a Komari-san... não, talvez seja outra pessoa?
— Calma, calma. Não é um encontro. Nós só vamos conversar um pouco.
— Mas, mas! Vocês vão se encontrar sozinhos, não vão? Se não houver problema, Kaju pode acompanhá-lo para uma entrevista preliminar...
— Já disse que não é nada disso. Além do mais, haverá outras pessoas no segundo compromisso.
— Rodada dupla….?
— Hã?
Isso não era uma referência ao beisebol, era? Kaju balançou a cabeça lentamente.
— Kaju entende que o mundo não deixará o onii-sama em paz. Porém, fazer isso em sequência parece questionável. Kaju recomendaria, no mínimo, distribuir os compromissos em dias diferentes.
Que tipo de recomendação era essa?
— É algo relacionado ao clube. Ela só disse que queria conversar sobre uma coisa. Enfim, seu irmão precisa trocar de roupa, então vá esperar lá fora.
— Mas Kaju não se importa.
— Eu me importo. Agora pode sair.
— Miau~.
Enquanto me trocava depois de expulsá-la do quarto, as palavras dela ficaram ecoando na minha cabeça.
Um encontro.
Normalmente, isso significava um garoto e uma garota saindo juntos. Mas, pensando bem, quando Yanami me chamou para sair durante as férias de verão e nos encontramos sozinhos, a atmosfera de encontro foi absolutamente zero.
Acho que a diferença estava na existência — ou não — de sentimentos românticos. Por outro lado, se eu invertesse a lógica e admitisse que tinha nem que fosse um mínimo de interesse romântico por Tiara-san...
— Não….
Ela estava na mesma categoria da Yanami, afinal. Afastando esses pensamentos impuros, abotoei a camisa e meus olhos acabaram pousando no jeans dobrado ao lado da cama.
Mesmo assim, continuo achando que ele era bem estiloso...
*
Livraria Seibunkan, loja principal, em frente à estação.
Eu estava em uma sala de karaokê próxima dali. O visor digital do meu relógio marcava 13h05. Isso mesmo. Eu havia chegado uma hora mais cedo para garantir que ninguém descobrisse que aquela era minha estreia em um karaokê.
— Foi por pouco….
A primeira armadilha tinha sido a bebida. Quando tentei pedir uma cola no balcão da recepção, a atendente gentilmente me explicou como funcionava o sistema de bebidas à vontade.
Ao que parece, também era possível escolher o tipo de sistema de karaokê. Eu nunca tinha ouvido falar disso. Se aquilo fosse a situação real, eu teria sido eliminado antes mesmo de começar.
Dei uma rápida olhada no cardápio de comidas e então percebi o telefone fixado na parede. Imagino que os pedidos sejam feitos por ali. Já que tinha oportunidade, talvez fosse bom praticar.
Peguei o fone casualmente. No instante seguinte, uma voz surgiu do outro lado da linha.
— Alô! Recepção!
Espera. Conecta assim que se tira o telefone do gancho? Achei que haveria algum botão para ligar.
— Alô! Deseja fazer um pedido?
— Ah... então... alguma coisa popular, eu acho. Ah, sim, isso serve.
Gotas de suor escorreram pela minha testa enquanto eu recolocava o telefone no lugar. Minha resistência mental já estava no limite. Fugindo da sala como um covarde, fui até o balcão de bebidas.
Já havia alguém usando a máquina de sucos, então fiquei esperando atrás da pessoa, sem fazer nada. A garota à minha frente segurava dois copos. Enquanto enchia um deles com refrigerante, esvaziava o outro. Então, enquanto bebia o recém-cheio, reabastecia o copo vazio. Movimento perpétuo alcançado.
Hm?
O jeito de beber daquele jeito e aquele penteado semipreso de cabelo médio vistos por trás me pareciam familiares… Quando ela se virou enquanto tomava sua cola, falou:
— Ah, Nukumizu-kun, aí está você. Como está indo?
— Yanami-san? Por que você está aqui?
Droga. Baixei a guarda porque o penteado dela estava diferente.
— Ouvi da sua irmãzinha que você se arrumou todo e saiu de casa. Como ainda era cedo, imaginei que estivesse reconhecendo o terreno antes do seu encontro no karaokê. Acertei, não foi?
Ela estava praticamente certa. E isso doía.
— Não é um encontro, mas é a minha primeira vez em um karaokê. Só pensei em conhecer o sistema e essas coisas antes.
— Entendo, entendo. Eu também costumava reconhecer o terreno antes dos encontros com o Sosuke. Então, em qual sala você está?
— Hã? Você também vai entrar? Não tinha planos com suas amigas?
— Ainda tenho tempo antes de encontrá-las... O que foi com essa cara?
Isso só poderia acabar em dor de cabeça. Seguindo-me para dentro da sala contra a minha vontade, Yanami sentou-se no sofá e olhou ao redor.
— Já estive aqui com o Sosuke antes... ah, espera. Foi exatamente nesta sala.
A expressão dela escureceu.
— Entendo... naquela época nós ainda estávamos... é...
Por favor, não invada minha sala e depois ligue seu modo estranho. Apressei-me em mudar de assunto.
— Ei, o cardápio daqui parece bem bom, não acha? Tem alguma recomendação, Yanami-san?
— Nós comemos batatas fritas juntos. O Sosuke disse: "Anna, você está comendo demais", naquele tom brincalhão de sempre...
Enquanto eu hesitava sobre comentar ou não, alguém bateu à porta e um funcionário entrou.
— Obrigado pela espera! Aqui está sua Torre de Onion Rings!
Uma monstruosidade incrível acabara de chegar. Diante da gigantesca pilha de anéis de cebola, a luz voltou aos olhos de Yanami.
— Hã? Nukumizu-kun, não me diga que você sabia que eu viria? Ou estava esperando que eu aparecesse?
— Hã? Não, nem um pouco.
— Entendo. Então você estava se sentindo sozinho. Não precisa esconder. Desculpe, eu deveria ter vindo junto desde o começo.
Agora completamente animada, Yanami colocou um onion ring na boca. Eu nunca disse que ela podia comer.
— Não, sério. Eu pretendia ficar sozinho desde o início.
— Então por que pediu uma coisa dessas? Vai esfriar antes da Basori-san chegar.
Ainda mastigando de boca cheia, Yanami inclinou a cabeça. Eu havia tirado o telefone do gancho, ele conectou diretamente com a recepção e eu pedi algo aleatório.
Sim. Era vergonhoso demais admitir isso.
— Eu apenas tive um pressentimento de que você poderia aparecer.
Desisti de discutir e respondi isso. Yanami levantou o polegar enquanto segurava uma cola.
— Boa resposta. Certo, esta irmã mais velha aqui vai te ensinar algumas coisas.
Ela pegou o controle remoto e começou a tocar na tela com a caneta stylus.
— A maioria das funções básicas pode ser usada por aqui, então primeiro vamos fazer você se acostumar com isso.
— Ah, é aqui que se escolhem as músicas e essas coisas, certo?
— Isso. Dá para procurar letras assim. E você também pode mudar o tom da música enquanto canta.
Então aquele controle remoto não era apenas decoração.
— Então para que serve este menu?
— Hum, esse aqui é...
A aula de karaokê da Yanami havia começado. Contrariando todas as expectativas, suas explicações eram surpreendentemente fáceis de entender. Talvez essa garota realmente tivesse talento para ministrar oficinas de hobbies para idosos. Ela provavelmente ainda ganharia muitos lanches de presente.
— Certo, se você lembrar disso tudo, não vai passar vergonha.
Depois de concluir a explicação básica sobre karaokê, Yanami levantou-se.
— Ainda temos tempo, não é? Vamos cantar algumas músicas, que tal?
Olhei para o relógio.
13h40.
Faltavam vinte minutos para o encontro.
— Mas a Basori-san pode chegar mais cedo. Ela é do tipo responsável.
— Hum? O que quer dizer com isso?
Segurando o microfone com as duas mãos, Yanami franziu a testa, confusa.
— Ah, quero dizer... eu pago a sua parte, então você poderia ir embora agora?
— Oh.
Que som foi esse? Parecia o pio de uma coruja. Ah, certo. Eu ainda não tinha agradecido adequadamente. Mesmo quando se tratava da Yanami, boas maneiras eram importantes. Fiz uma pequena reverência.
— Obrigado pela ajuda de hoje. Você realmente me salvou. E tome cuidado para não esquecer nada na saída.
Pronto. Eu havia expressado minha gratidão adequadamente. Ainda por cima, lembrei-a de não esquecer seus pertences. Se me permitem dizer, fui bastante elegante.
...........
— Hum, Yanami-san?
Yanami soltou outro "ho" e me lançou um olhar afiado, exatamente como uma coruja de verdade, antes de sair da sala. ...O que foi aquilo? Será que ela ficou irritada porque eu não pedi sobremesa?
Vou resolver isso com a Yanami depois. Por enquanto, a pessoa em quem eu precisava me concentrar era Tiara-san. Arrumei a sala e enviei para ela o número da cabine por e-mail. Eu quase nunca usava e-mail além de me cadastrar em sites ou receber newsletters, então não estava muito acostumado...
Depois de finalmente encontrar o botão de enviar, pressionei-o cuidadosamente.
*
Exatamente às duas da tarde, alguém bateu à porta. Quando Tiara-san entrou, sentou-se no mesmo sofá onde Yanami estava sentada há poucos minutos.
— Obrigada por esperar, Nukumizu-san.
— Não, eu também acabei de chegar.
Blefei casualmente enquanto lançava um olhar discreto para ela. Seu traje consistia em um vestido azul-marinho de peça única, com uma gola branca bem destacada. Mais do que alguém indo a um encontro, ela parecia estar a caminho do casamento de algum parente.
— O que foi? Você está me encarando.
— Não é nada. Só estava me perguntando por que escolheu um karaokê hoje.
— É um lugar onde podemos evitar ser vistos. E, caso você tenha pensamentos impróprios, algum funcionário entrará correndo imediatamente. É ideal para uma conversa secreta.
Tiara-san estufou o peito com orgulho, de um jeito apropriado para sua idade. Essa pessoa realmente não mudava. Continuava tão grosseira quanto sempre.
— Entendi. Ah, as bebidas são servidas naquele balcão de autoatendimento.
— Trouxe minha própria garrafa de água, então estou bem.
Hã? Por quê? Quando lhe lancei um olhar confuso, Tiara-san me encarou friamente.
— Escolhi o karaokê justamente para minimizar o contato com outras pessoas. Não vim aqui para me divertir hoje.
Ela começou a espalhar sobre a mesa uma série de panfletos coloridos.
— Estes são... folhetos de cursinhos?
— Sim. Nukumizu-san, você frequentou a mesma instituição daqueles dois outro dia, não foi? Gostaria de ouvir sua opinião, se não se importar.
Espera aí. Ela não tinha me chamado por causa da história envolvendo Shikiya-san e Tsukinoki-senpai? Bem, nós também tínhamos falado sobre estudos antes, então talvez fosse uma mistura de assuntos...
— Eu não estou frequentando cursinho atualmente, mas, se quiser mais detalhes, posso entrar em contato com eles.
— Não, aqueles dois são boas pessoas. É só que... vê-los tão apaixonadinhos bem na minha frente é um pouco... B-Bem, estamos fora da escola, então não vou dizer mais nada!
...Entendo. Peguei um dos panfletos do cursinho que eu costumava frequentar.
— Eu gostava porque preferia aulas presenciais a aulas online. As salas de estudo e os materiais também eram muito bons.
— Entendo. Tenho estado dividida entre esse e uma escola de aulas particulares. Você já teve alguma experiência com esse tipo de ensino, Nukumizu-san?
— Nunca considerei aulas particulares. Não sou bom em conversar com pessoas que não conheço.
— Mas o professor particular seria alguém que você conhece, não seria...?
Hã. Essa era uma forma interessante de encarar a questão. Ainda assim, Tiara-san parecia muito menos assustadora hoje. Na escola, ela estava quase sempre irritada.
Conforme a conversa prosseguia, ela até começou a sorrir de vez em quando. ...Quando agia assim, ela era até bem bonita. Se ao menos fosse sempre desse jeito. Eu a observava distraidamente quando, de repente, nossos olhares se encontraram.
— O que foi, Nukumizu-san?
— N-Não é nada. A propósito, ainda temos tempo, não é?
Peguei o controle remoto. Finalmente havia chegado o momento da minha estreia no karaokê. As lições da Yanami voltaram à minha mente. Se eu me lembrava corretamente:
Regra nº 1: Iniciantes devem evitar baladas.
Regra nº 2: Evite músicas de anime, mesmo as famosas.
Regra nº 3: Músicas-meme só devem ser cantadas quando o clima for adequado.
Regra nº 4: Não tente se empolgar sozinho. Você vai quebrar a cara.
Regra nº 5: Sério, nada de músicas de anime.
Alguma música de anime matou alguém importante para a Yanami? Ainda assim, eu sequer tinha outra coisa para cantar… Enquanto hesitava com o controle na mão, Tiara-san tirou da bolsa um antigo guia de literatura japonesa.
— Basori-san, o que você está fazendo?
— Achei que começaríamos estudando. E você, Nukumizu-san? Não trouxe nenhum material de estudo?
— Espera. Você realmente pretendia estudar?
A expressão de Tiara-san endureceu.
— Eu disse que teríamos uma conversa. O que você imaginou que isso significava?
...Você não pode esperar que alguém entre em um karaokê sem cantar, certo? Constrangido, permaneci em silêncio. Tiara-san estendeu para mim um caderno de vocabulário.
— Se quiser, pode usar este.
— Ah, obrigado.
Aceitei o caderno e comecei a olhar a lista de palavras conforme ela havia pedido. ...Por que eu estava estudando vocabulário de inglês em uma cabine de karaokê, sozinho com uma garota que nem sequer era minha amiga?
Depois de memorizar a terceira palavra, ergui o caderno parcialmente diante do rosto e observei Tiara-san. O cabelo continuava preso exatamente como na escola. Nenhum acessório. Nenhum sinal de vaidade excessiva. Nada chamativo. Pela forma como ela murmurava para si mesma enquanto encarava uma tabela de conjugação verbal, a atmosfera de encontro era exatamente zero.
Depois de algum tempo, Tiara-san espreguiçou-se levemente.
— Estou começando a ficar cansada. Que tal colocarmos alguma música?
— Ah... na verdade, eu gostaria de falar sobre aquele outro assunto.
Como não era um encontro, não havia motivo para hesitar. Percebendo a mudança de tom, Tiara-san fechou o livro de estudos.
— Você quer dizer sobre Shikiya-senpai?
Assenti seriamente.
— Sim. Você disse que eu precisava resolver a situação entre elas.
— Disse. Essa era a condição para devolver o livro.
— Mas nenhum de nós realmente sabe o que aconteceu entre elas, certo? Sinceramente, você acha mesmo que devemos nos envolver?
Sem responder, Tiara-san serviu chá de sua garrafa térmica e inalou lentamente o vapor que subia da xícara. Continuou em silêncio. Quando eu estava prestes a quebrar o clima pesado, ela começou a falar, interrompendo qualquer tentativa minha.
— Pelo que vi, aquelas duas não parecem se odiar.
Depois de dizer apenas isso, tomou calmamente um gole de chá. Pensei cuidadosamente sobre como interpretar aquelas palavras.
— Então você quer dizer que, se simplesmente conversassem direito, conseguiriam se entender?
— Não sei. Às vezes, encarar alguém de frente é exatamente o que faz tudo desmoronar.
Tiara-san olhou diretamente nos meus olhos.
— Quando as pessoas percebem que algo vai se quebrar se olharem de perto demais, elas desviam o olhar. É uma história bastante comum, não acha?
Abaixei a cabeça para escapar daquele olhar. Eu entendia o que ela queria dizer. Mas...
— Há mais uma coisa que eu quero saber. Por que você se importa tanto com o que acontece entre aquelas duas?
— Eu já lhe disse antes, não disse? Não quero ser arrastada pelo passado delas.
— Mas, se fosse só isso, você poderia simplesmente ignorar. Tsukinoki-senpai está prestes a se formar e ainda tem os exames de admissão pela frente. Você poderia ter deixado tudo como estava.
— Talvez….
— E mesmo assim você não conseguiu ignorar. Na verdade, isso não significa que o motivo pelo qual você se importa está dentro de você mesma?
— Isso...
Tiara-san desviou o olhar e passou a encarar fixamente a superfície do chá.
— Quando Shikiya-senpai foi rejeitada por Koto Tsukinoki, ela parecia... muito solitária.
Ela respondeu em voz baixa e terminou o restante do chá. Depois disso, lançou-me um olhar desafiador.
— Esse motivo não é suficiente para você?
Era mais do que suficiente. Balancei a cabeça em silêncio.
— Desculpe. Fui longe demais. Mas espero que você não pense tão mal da Tsukinoki-senpai.
— Você diz isso, mas não vejo motivo algum para ter uma boa impressão dela.
— É verdade, ela é um pouco... não, extremamente exagerada. E quanto a refletir sobre os próprios erros... às vezes ela reflete, às vezes não. Mas, mesmo que por uma margem pequena, os pontos positivos dela ainda superam os negativos.
— Sua generosidade é realmente impressionante.
Tiara-san suspirou, claramente exasperada.
— Eu não gosto de pessoas irresponsáveis e descuidadas. Também não gosto de quem faz alguém importante para mim, como minha senpai, exibir uma expressão daquelas. E, acima de tudo, desprezo quem vive perturbando meus valores.
Diferenças de valores eram inevitáveis. Não havia como defender algo como BL baseado em pessoas reais, mas também não achava que ela devesse parar de escrever. Só esperava que me deixasse fora disso, se possível.
— Vou tentar descobrir o que fazer em relação àquelas duas. Mas não se esqueça do nosso acordo sobre o doujinshi.
— Isso vale para mim também. Certifique-se de cuidar disso direito.
Tiara-san voltou sua atenção silenciosamente para o material de estudos.
...Certo. Eu precisava calcular cuidadosamente o momento de ir embora. Enquanto consultava os horários dos trens no celular, Tiara-san falou sem tirar os olhos do livro.
— Ainda estou realmente indecisa sobre essa questão do cursinho.
Ela virou uma página do guia de estudos com um movimento suave.
— Tenho um irmão mais novo, então é difícil tocar nesse assunto em casa.
— Por quê?
— Ele entrou recentemente para um clube de futebol. Haverá gastos com viagens e competições, e nossa família é apenas uma família comum sustentada pelo salário do meu pai.
Enquanto falava, ela destacava uma linha do livro com uma caneta marca-texto fluorescente.
— Dito isso, se eu pedisse, tenho certeza de que eles deixariam. É justamente por isso que quero encontrar a forma que cause menos peso para eles.
Foi aí que a explicação de Tiara-san terminou. Enquanto ela continuava estudando em silêncio, acabei falando naturalmente.
— Uma vez, meus pais me disseram que, se eu encontrasse algo que realmente quisesse fazer ou um objetivo que quisesse perseguir, eu precisava contar a eles. Mesmo que isso significasse forçar um pouco as circunstâncias, eles queriam que eu seguisse em frente.
Tiara-san interrompeu o que fazia e ergueu lentamente os olhos para mim.
— E daí?
— Acho que seus pais provavelmente sentem o mesmo, Basori-san.
— Nukumizu-san, sua família é realmente abençoada, não é?
— Hã? Quer dizer, nós não somos ricos nem nada. Mas meus pais trabalham, então...
— Não estou falando financeiramente. Embora, é claro, a família Basori também não perca nesse aspecto.
Parecia que ela queria dizer mais alguma coisa, mas desistiu com um leve sorriso.
— Ah, tanto faz. Isso está dando trabalho demais. Vou simplesmente admitir — Tiara-san entrelaçou os dedos e esticou os braços. — Para ser sincera, vim aqui hoje planejando pegar no seu pé, Nukumizu-san.
— Hã? Por que faria isso?
— Porque você só se aproximou de mim para recuperar aquele doujinshi, não foi? Por conselho da Shikiya-senpai. Achei que tinha o direito de me vingar um pouquinho.
...Eu não tinha resposta para isso. Tudo o que consegui fazer foi sorrir sem jeito. Tiara-san respondeu com um olhar afiado.
— Mas não entenda errado, ouviu!? Não é como se eu quisesse que você conversasse comigo por motivos pessoais nem nada disso! Enquanto o regulamento escolar afirmar claramente que "as interações entre alunos de sexos opostos devem ser saudáveis e apropriadas", qualquer contato desnecessário...
Tiara-san começou a falar em disparada, como uma metralhadora.
— O que é tão engraçado, Nukumizu-san?
— Não é nada. Eu só estava pensando que esta versão de você parece mais com a Tiara-san de sempre.
— Hã!? Isso faz parecer que eu estou sempre irritada! E também não me chame pelo meu primeiro nome!
Ainda indignada, Tiara-san enfiou a mão na bolsa e tirou um caderno de exercícios.
— Não vou mais pegar leve. Nukumizu-san, você é bom em matemática?
— Bem, não é minha pior matéria.
— Você está do meu lado, não está? Então me ajude.
Hã? O que eu faço? Se eu não saísse logo, acabaria me atrasando para o próximo compromisso.
Antes que eu pudesse decidir, Tiara-san já havia aberto o caderno.
— Eu compreendi completamente as leis do seno e do cosseno e, ainda assim, por algum motivo, continuo errando os exercícios.
Isso provavelmente significava que você não compreendeu completamente… Inclinei-me sobre a mesa para olhar o problema que ela apontava.
— Hum... está meio escuro. Não consigo enxergar direito.
— Nesse caso, venha para cá.
Tiara-san bateu levemente no espaço vazio ao seu lado no sofá.
— Hã? Ao seu lado? Mas isso não seria meio...?
— Você só está me ajudando a estudar. Não pense demais.
Parecia injusto ser o único nervoso naquela situação. Então me obriguei a manter a calma e sentei ao lado dela. Um leve aroma de maquiagem discreta chegou até mim. ...Então Tiara-san usa maquiagem.
Ah. Ela também tinha uma pequena pinta no pescoço.
— É este exercício. Consegue resolver?
Tiara-san deslizou o caderno na minha direção. Afastei qualquer pensamento impróprio e me concentrei no problema. Parecia que ela já tinha avançado parte da resolução. Vejamos...
— Não importa o que eu faça, não consigo chegar à resposta certa. Será que o exercício está errado?
— Hum... acho que você confundiu a lei dos senos com a lei dos cossenos.
............
Tiara-san permaneceu em silêncio por alguns instantes enquanto movia a lapiseira sobre a página. Então fechou o caderno com um estalo seco.
— Quem estava errada não era a apostila. Era eu.
Então era isso que chamavam de vergonha por tabela. Quando me levantei, constrangido demais para continuar ali, Tiara-san, ainda olhando para baixo, segurou meu braço.
— Hã? Tem outro exercício que você não conseguiu resolver?
— Não. Não é isso. Há algo que eu gostaria de dizer.
— Certo?
Ainda encarando o chão, Tiara-san mexia nervosamente os dedos.
— Hum... bem, eu realmente o chamei aqui hoje para conversar sobre estudos e sobre nossos veteranos, mas existe mais uma coisa. Algo que não posso deixar que ninguém mais ouça.
...Hm? O que era isso? Ela me chamou num dia de folga só para dizer algo que não queria que mais ninguém escutasse...
Espera. Um segundo. Isso significa que...? Será que...? Meu arco de popularidade finalmente começou?
O pequeno rosto inclinado de Tiara-san tremia levemente. Seu pescoço esguio estava tingido por um discreto tom rosado.
Glup. Engoli em seco.
— N-Nukumizu-san!
— S-Sim!
— Sobre aquilo…
Hã? O que ela disse? Pelo contexto, será que estava perguntando se eu tinha namorada?
— Hum... bem, eu não tenho ninguém assim...
— Hã….?
Tiara-san ergueu a cabeça com uma expressão confusa.
— Quero dizer... a continuação. Existe uma continuação daquele livro?
— Hã? Daquele livro?
Enquanto eu tentava entender, Tiara-san avançou repentinamente sobre mim.
— A-Aquele doujinshi que eu confisquei! Existe continuação ou não!? Sim ou não!?
— Ah... bem... ela está estudando para os exames de admissão. Não é como se pudesse produzir uma sequência tão rápido.
— Entendo. Faz sentido. A preparação para os exames é importante, afinal.
Tiara-san desabou visivelmente desapontada. Então era isso...
— Você está curiosa sobre a continuação?
— Hã!? N-Não diga absurdos! É só que terminou num ponto tão inconclusivo que fiquei me perguntando o que aconteceria depois! Só isso!
Sim. Você está totalmente curiosa. Mergulhar no abismo do BL era uma escolha pessoal. Mas despertar para um romance BL de troca de gênero envolvendo pessoas reais e, ainda por cima, sua querida senpai? Isso era um débito kármico de nível avançado. E, só para constar, não haverá mais conteúdo por esse caminho.
— O-O que eu disse agora é segredo, ouviu!? Principalmente da Koto Tsukinoki! Não ouse contar a ela!
— Então tudo bem contar para a presidente?
Minha brincadeira casual fez Tiara-san empalidecer.
— Claro que não está tudo bem! Você perdeu a cabeça!?
Não vou negar essa acusação. Mas Tiara-san também não parecia exatamente a pessoa mais equilibrada do mundo. E, para ser sincero, eu só queria provocá-la um pouco...
— Hum, Tiara-san? Seu rosto está meio perto demais...
— Hã?
Sim. Enquanto eu tentava me afastar, Tiara-san havia se inclinado ainda mais para perto. Eu estava a um passo de ficar completamente encurralado. Quando percebeu isso, ela recuou às pressas. Suas orelhas estavam vermelhas até a ponta, e ela abaixou o olhar.
— F-Foi você quem disse uma coisa estranha! E pare de me chamar pelo meu primeiro nome!
— Ah... desculpe...
Isso estava... bastante constrangedor. Ficar sozinho com uma garota em uma sala privada? Esse tipo de atmosfera era demais para mim. Era uma situação completamente diferente de quando fiquei sozinho com Yanami mais cedo. Levantei os olhos para o relógio na parede. Já estava quase na hora das três. Era o horário do meu encontro com Shikiya-san.
— Desculpe. Preciso ir. A Shikiya-senpai está me esperando.
Sentindo-me meio aliviado, levantei-me enquanto dizia isso. Tiara-san ergueu o rosto para me encarar.
— Você tem planos com a Shikiya-senpai?
— Sim, mais ou menos. Os outros membros do clube já foram na frente, mas eu ainda preciso alcançá-los.
Com Komari e Yakishio lá, provavelmente ninguém sentiria minha falta por um tempo. Mas, se eu permanecesse naquela sala por muito mais tempo, meu coração não sobreviveria. Quando estava prestes a me levantar de vez, uma voz suave me deteve.
— Você poderia ficar mais um pouco, não poderia?
Por reflexo, quase perguntei: "Ficar para quê?" Mas engoli as palavras. Eu não entendia muito bem o que estava acontecendo, mas ela estava me dando permissão para ficar. ...Talvez mais um pouco não fosse problema. Tiara-san desviou o olhar enquanto empurrava o caderno de exercícios na minha direção.
— Por favor, não entenda errado. Ainda existem alguns problemas nos quais eu gostaria da sua ajuda.
— Sim, entendi. Qual deles?
— Então, este aqui.
O dedo fino de Tiara-san tocou levemente a página do caderno. Na iluminação suave da sala, inclinei-me para observar melhor o exercício. Vejamos...
— Você poderia resolver esta questão de geometria comigo?
De repente, sua voz soou bem ao lado do meu ouvido. Espera. Tiara-san está muito perto. Se eu virasse a cabeça agora... o que aconteceria? Enquanto eu permanecia imóvel—
BAM!
Um estrondo ecoou pela sala quando a porta foi aberta com violência.
— Desculpem a demora! Estou atrasada, me desculpem!

Espera aí. Por que ela está aqui!?
— É, eu entrei na sala errada por engano... e então...
Tiara-san e eu nos afastamos imediatamente. Era Lemon Yakishio. A garota que definitivamente não deveria estar ali. O sorriso em seu rosto foi lentamente se transformando em uma expressão confusa.
— Espera. Eu interrompi alguma coisa?
— Não é isso! (2x)
Nossas vozes saíram em perfeita sincronia, o que só fez a expressão de Yakishio endurecer ainda mais. Não, sério. Não era nada do que parecia. Levantei-me e puxei Yakishio para um canto da sala.
— Mais importante, por que você está aqui, Yakishio? Você não estava com a Komari?
— Hã? Mas não tínhamos combinado de nos dividir entre karaokê e jogos de tabuleiro? Eu achei que preferia o karaokê.
Espera. Quando foi que isso aconteceu? Que tipo de explicação a Yanami deu para ela...? Yakishio espiou por cima do meu ombro na direção de Tiara-san.
— Desculpa, eu não achei que as coisas estariam assim. Posso ir embora, se eu estiver atrapalhando.
— N-Não é isso! Nós só estávamos... hum... estudando juntos!
— Isso mesmo! Veja, só tem um caderno de exercícios, então foi por isso que estávamos sentados tão perto!
— Estudando?
Yakishio pegou o caderno que estava sobre a mesa e começou a folheá-lo.
— Por que vocês estão estudando numa sala de karaokê? É um karaokê. O normal é cantar.
— Ah... é verdade. Tudo bem para você, Basori-san?
— Eu não me importo, mas...
— Assim que se fala!
Yakishio foi imediatamente pegar um microfone. Tiara-san se aproximou silenciosamente de mim.
— Então você chamou outra garota. Você sabe o significado da palavra "confidencial"?
— Hã? N-Não, eu não planejei que isso acontecesse...
Interrompendo-me com um olhar gelado, Tiara-san falou com uma voz ainda mais fria.
— Nukumizu-san, não se esqueça do nosso acordo. Você sabe o que acontece se não cumprir sua parte, não sabe?
Toda a atmosfera de alguns instantes antes desapareceu sem deixar vestígios. Seu olhar congelante atravessou meu peito.
...Eu fiz alguma coisa errada?
*
Estação Achidaigakumae, a mais próxima do Colégio Tsuwabuki.
Depois de me despedir da Tiara-san, saí da plataforma junto com Yakishio. A essa altura, o entardecer já começava a cair. Enquanto esperávamos no semáforo para atravessar a rua, conferi meu relógio.
Já passava das quatro da tarde. Uma hora inteira depois do horário marcado para o encontro.
— Aquela última música foi um exagero. Perdemos o trem por causa dela.
— Mas você também estava empolgado, Nukkun. Você até mandou bem nas maracas.
— Hã? Sério?
Talvez ter me concentrado no movimento do pulso tivesse ajudado. Enquanto eu corava com o elogio, Yakishio me cutucou com o cotovelo.
— Ei, a Komari-chan te mandou mensagem? Meu celular descarregou.
— Hum... sim. Acho que mandou. Mais ou menos.
Desviei da pergunta enquanto tirava o celular do bolso. Só para constar, Komari havia tentado me contatar pelo LINE, SMS, ligações telefônicas, e-mail e até mensagem privada no Twitter.
Eu não havia respondido nenhuma delas. Espiando por cima do meu ombro, Yakishio soltou um assobio.
— Uau, pacote completo. Nukkun, você é mesmo um canalha.
...Ah. Ela acabou de me mandar mais um "vai morrer". Yakishio colocou a mão acima dos olhos e ficou na ponta dos pés para olhar do outro lado da rua. O café de jogos de tabuleiro ficava logo após a faixa de pedestres, mas dali não dava para ver o interior.
— A Shikiya-san é aquela garota bonita e assustadora do conselho estudantil, não é? A Komari-chan vai ficar bem sozinha?
— A Komari já se acostumou com ela ultimamente. Deve conseguir aguentar por mais ou menos uma hora.
À nossa frente havia uma avenida movimentada, com duas faixas em cada direção. Enquanto esperávamos o sinal abrir, algo chamou minha atenção. Vi uma mulher entrando no café.
Uma figura familiar. O cabelo preso em duas mechas na parte de trás. Yakishio puxou minha manga.
— Ei, Nukkun, aquela não é a Tsukinoki-senpai? Você também convidou ela?
Balancei a cabeça. Eu não tinha contado à Tsukinoki-senpai que estávamos recebendo ajuda da Shikiya-san em toda essa situação. E era difícil acreditar que sua presença ali fosse mera coincidência.
...Estou com um péssimo pressentimento.
Minha ansiedade aumentava a cada segundo. Assim que o sinal ficou verde, Yakishio disparou correndo. Eu a segui, atravessando rapidamente a rua enquanto mantinha os olhos fixos em suas costas. Definitivamente havia algo entre aquelas duas.
Uma barreira. Mas, mesmo quando se encontravam, elas ainda conversavam. Nunca as vi discutir ou perder a compostura. Então provavelmente não era nada. Yakishio só tinha corrido daquele jeito por precaução.
E as costas da Tsukinoki-senpai pareciam diferentes desta vez… Com certeza era apenas impressão minha.
...
Quando entrei no café logo atrás de Yakishio, as duas já estavam frente a frente numa atmosfera pesada. Não. Apenas Tsukinoki-senpai demonstrava hostilidade. De pé ao lado da mesa, ela exibia uma expressão severa.
Shikiya-san permanecia sentada, com seu rosto inexpressivo de sempre, olhando para cima através das lentes de contato de cor clara. Voltei-me para Yakishio, que continuava parada perto da entrada.
— Yakishio, o que aconteceu?
— Não faço ideia. Quando eu cheguei, elas já estavam assim.
Komari, que andava de um lado para outro nervosamente entre as duas, me viu e correu até mim.
— N-Na verdade... e-eu contei para a Tsukinoki-senpai q-que ela estava aqui. D-Desculpa... eu n-não achei q-que isso fosse acontecer...
Lágrimas começaram a surgir nos olhos de Komari enquanto ela me entregava uma pequena estatueta de galinha feita de madeira. Entendi mais ou menos o que havia acontecido. Mas o que eu deveria fazer com essa galinha?
— Não foi sua culpa, Komari. Então, o que exatamente aconteceu?
— D-Desde que a senpai entrou... e-elas só estão se encarando desse jeito.
Entendi. Então o verdadeiro confronto estava prestes a começar. Tsukinoki-senpai bateu a mão sobre a mesa.
— Shikiya, o que exatamente você está tentando fazer?
Foi ela quem tomou a iniciativa. Mas Shikiya-san não demonstrou o menor sinal de abalo. Apenas inclinou a cabeça, como se estivesse genuinamente confusa.
— Tentar fazer... o quê?
— Eu sabia que você vinha se aproximando dos meus kouhais, mas ultimamente você passou completamente dos limites.
— Isso é... ruim? Todos eles são muito gentis, sabia...
Balançando levemente o corpo, Shikiya-san levantou-se. Seus longos cabelos ondulados pareceram flutuar no ar. Então seus olhos claros se voltaram para mim.
— Shikiya, agora é o Nukumizu-kun? Talvez você ache que tudo isso é apenas uma brincadeira, mas para o resto de nós...
— Brincar... é algo ruim?
— S-Sua...!
— Espera, eu?
Elas estavam falando de mim? Corri para me colocar entre as duas.
— Por favor, esperem um instante! Fui eu quem pediu ajuda à Shikiya-san desta vez. Era sobre o doujinshi confiscado, e ela tem me ajudado. Não há nada suspeito acontecendo.
— Nukumizu-kun, isso é verdade? Você e a Shikiya... por minha causa...
Tsukinoki-senpai interrompeu a própria frase.
— Hã? Bem, sim, acho que sim. Mas não é nada tão importante.
— Senpai... Koto-san... eu fui solicitada... pelo presidente, sabe?
Em algum momento, Shikiya-san havia se movido silenciosamente para ficar ao meu lado.
— E daí? Isso não significa...
— Todos nós estamos... limpando a bagunça que você deixou... Koto-san.
Shikiya-san inclinou-se ligeiramente para frente. Seu tom era estranhamente provocativo. A distância entre elas diminuiu.
— Você... entende isso?
Tsukinoki-senpai não recuou. Continuou encarando diretamente o rosto de Shikiya-san. Então, quando a tensão parecia prestes a explodir, ela desviou o olhar e deu um único passo para trás.
— Nukumizu-kun, me desculpe. Komari-chan, Yakishio-chan, me desculpem por envolvê-los nisso.
Tsukinoki-senpai fez uma profunda reverência.
— Vocês deveriam se afastar disso tudo. A culpa foi minha desde o início, então eu mesma assumirei toda a responsabilidade.
Quando ergueu a cabeça, forçou um pequeno sorriso.
— Então, por favor... não se aproximem demais da Shikiya.
Suas palavras deixaram todos em silêncio. Quando a quietude tomou conta do ambiente, escolhi cuidadosamente minhas palavras e perguntei:
— Isso é um conselho de uma veterana para seus kouhais?
— Sim. Eu sei que não tenho o direito de dizer isso, mas mesmo assim.
— Entendo o que está querendo dizer. Mas, senpai... você já é uma ex-integrante do Clube de Literatura.
— Ei, Nukkun!
Yakishio segurou meu ombro por trás. Tsukinoki-senpai mordeu o lábio e baixou os olhos.
— Você tem razão. Desculpe. Não vou mais causar problemas para nenhum de vocês.
— É por isso que nós vamos resolver isso. O doujinshi e todo o resto. Porque, sendo ex-integrante ou não, você continua fazendo parte do Clube de Literatura. Então, por favor, deixe isso conosco e mantenha a cabeça erguida.
...Eu não sabia se aquelas eram as palavras certas. Mas, no mínimo, eu havia sido ajudado inúmeras vezes por essa veterana complicada. Ela também havia nos causado muitos problemas. Ainda assim, havia nos dado muito mais do que havia tirado.
Por isso, eu não queria mais vê-la machucando outras pessoas ou a si mesma por nossa causa. Não sei se meus sentimentos chegaram até ela, mas Tsukinoki-senpai baixou a cabeça mais uma vez diante de nós.
— Pessoal, sinto muito mesmo. E também peço desculpas aos funcionários pelo transtorno.
Então, ao notar que Shikiya-san continuava observando-a em silêncio, ela hesitou antes de abrir a boca. Mas aquela única frase. A frase mágica que todos nós esperávamos que pudesse, de alguma forma, consertar tudo… Nunca foi dita.
— Shikiya, desculpe por incomodá-la.
Apenas isso. Depois dessas palavras silenciosas, Tsukinoki-senpai virou-se e deixou o estabelecimento. Antes que eu pudesse reagir, Komari deu um passo à frente.
— E-Eu vou atrás da Tsukinoki-senpai.
— Certo. Obrigado, Komari.
Ela assentiu firmemente e saiu correndo atrás da veterana, desaparecendo pela porta do café. Pouco depois, quando o murmúrio habitual do local finalmente voltou ao normal...
Shikiya-san, que permanecera imóvel e silenciosa o tempo todo, tirou uma nota da carteira e a colocou sobre a mesa.
— Desculpem... cuidem da conta...
Então, com passos vacilantes, ela também deixou o estabelecimento. Fiquei parado por um instante, sem saber se deveria segui-la. Foi Yakishio quem empurrou minhas costas de leve.
— Nukkun, vá atrás dela.
— Tem certeza de que sou a pessoa certa para isso?
Shikiya-san acabara de ser rejeitada por alguém que fora importante para ela. Qual era o significado, ou mesmo o motivo, para eu estar ao seu lado? Pensamentos sem resposta giravam pela minha cabeça.
— Nessas horas, as pessoas querem ficar sozinhas...
Desta vez, Yakishio me empurrou com mais firmeza.
— Mas elas também se sentem muito sozinhas quando ficam.
Seus olhos castanhos profundos transmitiam algo que ia além das palavras. Quando saí do café, levei instintivamente a mão à minha bochecha aquecida e ergui os olhos para o céu escurecido.
Estava começando a chover.
*
Shikiya-san caminhava pela calçada ao lado da estrada, na direção do Colégio Tsuwabuki. O frágil crepúsculo de inverno desaparecia rapidamente sob a chuva fria e esparsa. Os carros passavam, e seus faróis iluminavam os pés de Shikiya-san enquanto ela avançava pela escuridão crescente.
Corri para alcançá-la e passei a caminhar ao seu lado.
— Você está bem? Hum... para onde está indo?
— Para casa... Estou indo para casa...
Shikiya-san murmurou com sua voz habitual, fraca e quase infantil.
— Onde fica sua casa, senpai? Posso acompanhá-la por parte do caminho...
Como se perseguisse o som de sua voz, a chuva começou a cair com mais intensidade. Guiando-a gentilmente, conduzi Shikiya-san até o toldo de um prédio de apartamentos próximo. Ainda não havia anoitecido completamente, mas o céu estava tão escuro que parecia ter sido coberto por tinta.
Soltei um suspiro de alívio e olhei para ela. Gotas escorriam de sua franja encharcada pela chuva e deslizavam por sua pele pálida. Levei a mão ao bolso do casaco, apenas para perceber que tinha perdido meu lenço em algum lugar.

Típico. Falhar justamente quando era importante.
— Não parece que a chuva vai parar tão cedo. Vou comprar um guarda-chuva. Pode esperar aqui um pouco?
— Não precisa... Eu chamei... um táxi.
Shikiya-san observava distraidamente a tela do celular salpicada de chuva. Iluminado pela luz do aparelho, seu rosto parecia ainda mais pálido do que o normal.
— Você está com frio?
— Não sei….
Ela respondeu num murmúrio. Será que estava se sentindo tão mal que nem conseguia perceber o frio? A ideia me preocupou.
— Koto-san... eu não a entendo.
Sua voz tornou-se ainda mais frágil.
— Bem... ela pode ser um pouco unilateral às vezes. Então não leve isso muito a sério.
— Você acha….?
Sem erguer a cabeça, Shikiya-san segurou uma mecha molhada da franja grudada à testa e inclinou levemente a cabeça.
— Eu estava... incomodando vocês...?
— Hã? Não, de jeito nenhum. Desta vez fomos nós que pedimos sua ajuda.
Encontrei um pacote de lenços de papel no fundo do bolso e estendi um para ela.
— Obrigada... Você é gentil.
Ela pegou uma folha e secou suavemente a testa úmida.
— Minha irmã mais nova deve ter colocado isso no meu bolso. Eu não sou tão gentil assim.
Ser chamado de "gentil" apenas por oferecer um lenço parecia coisa de comédia romântica. Enquanto esse pensamento passava pela minha cabeça, a ponta do dedo dela tocou levemente a minha.
— Então... só por agora... seja gentil comigo.
Hã? O que isso quer dizer...? Seu dedo tocou o meu novamente enquanto eu permanecia imóvel.
Então ela queria dizer… Que eu segurasse sua mão? Não, espera. Se eu interpretasse isso literalmente e tocasse sua mão, não seria assédio? Na época em que "fazer carinho na cabeça" virou moda, todo tipo de tragédia aconteceu por causa de mal-entendidos.
— Hum, Shikiya-senpai...?
Nenhuma resposta. Ela permaneceu parada, tão perto que nossos ombros quase se tocavam. O táxi ainda não havia chegado. Mais uma vez, a ponta de seu dedo encostou na minha e se afastou. Depois aconteceu de novo. E de novo. Mas, na quarta vez, quando seu dedo tocou o meu, ela não o retirou.
...Não sei quanto tempo passou depois disso. Provavelmente não foi muito. Mas, para mim, pareceu uma eternidade. Então, quando seu dedo finalmente começou a se afastar, segurei sua mão.
Seus dedos eram tão finos. Tão frios. E, como se estivesse protegendo um pássaro frágil, ela fechou suavemente a mão em volta da minha. Não tinha nada a ver com romance.
Era algo muito mais simples. Apenas uma necessidade esmagadora de sentir o calor de outra pessoa. Esse sentimento chegou até mim com uma clareza dolorosa. Seu perfil, voltado ligeiramente para o lado, mantinha a mesma expressão vazia de sempre.
E foi naquele momento que percebi pela primeira vez—
Essa garota não derramava lágrimas quando chorava.
📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag e revisado por Shisui
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