Volume 4

Capítulo 1: Posso não parecer, mas na verdade sou OO

DEPOIS DAS AULAS, na sala do clube. Uma chaleira colocada sobre o aquecedor a óleo soltava vapor. Afrouxei a gravata e folheei as páginas de uma light novel. O dia tinha sido difícil desde a manhã.

Depois de um constrangimento público, a light novel que eu tinha acabado de comprar havia sido confiscada. Tentando afastar as más lembranças e me concentrar na leitura— 

— Ei, Nukumizu-kun. Estou entediada.

Uma garota sentada do outro lado da mesa falou comigo em um tom arrastado. Anna Yanami. Colega do primeiro ano e membro do Clube de Literatura. Neste verão, ela havia levado um fora do amigo de infância e se tornado uma "heroína derrotada".

Fora isso, ela era apenas uma garota comum — ou melhor, se era ou não, isso pouco importava. O certo era que, mesmo quando estávamos só nós dois na sala do clube, nunca havia qualquer clima romântico.

Yanami estava largada sobre a mesa, mastigando algo com um som de "mokyu mokyu".

— Tem um fio roxo saindo da sua boca.

— É uma bala de gelatina. Li em um livro que mastigar coisas duras direito ajuda a emagrecer.

Yanami estendeu o invólucro vazio da bala. Maken Gummy, um doce feito por uma empresa de Toyohashi. Era uma goma comprida com o formato de pedra-papel-tesoura em uma das pontas.

— Isso existe desde sempre, né? Nukumizu-kun, você é do tipo que não come doces?

Eu comia, sim. Mas, tirando a parte de pedra-papel-tesoura, não era só uma goma comprida? Yanami sugou a bala como se estivesse comendo macarrão.

— Quando estou entediada, sinto que poderia comer isso para sempre. Comprei uma dúzia, mas acho que não vão durar três dias.

— Se você está tão entediada assim, por que não faz sua lição de casa? Recebemos um monte hoje também.

Yanami me lançou um olhar vazio.

— Nukumizu-kun, você não está sendo meio frio? Alô? Tem uma certa amiga aqui que anda ocupando seus pensamentos e está entediada, sabia~?

Ela bateu levemente na mesa com a palma da mão e fez um beicinho em protesto.

— Yanami-san, será que você pode parar de adicionar traços de personalidade estranhos assim?

Tendo perdido completamente a concentração, fechei o livro que estava lendo, Minha Amiga de Infância se Mudou para o Sótão, Então Comprei Bombas Inseticidas, conhecido como Osabaru.

Era uma série popular centrada em batalhas psicológicas com uma heroína parasita, frequentemente chamada de "Esqueceram de Mim" das light novels. No volume mais recente, a heroína finalmente havia transferido sua residência para a casa do protagonista.

Ainda batendo na mesa com as duas mãos, Yanami continuou seu protesto.

— Você é o presidente do Clube de Literatura, não é? Acredito que o presidente tem o dever de entreter os membros do clube~.

Não.

— Yanami-san, você ainda não entregou seu texto para a revista do clube, certo? Por que não escreve, já que tem tempo?

— Eu vou escrever eventualmente. Já tenho a ideia, tá? Já tenho a ideia.

— É exatamente assim que as pessoas falam quando não vão escrever nada.

Yanami não respondeu. Em vez disso, ficou com uma expressão vagamente melancólica, como se estivesse perdida em pensamentos. E, de vez em quando, olhava de relance para mim.

— Aconteceu alguma coisa, Yanami-san?

Eu realmente não queria perguntar, mas não tive escolha. Afinal, eu era o presidente do clube.

— Então… no dia da cerimônia de encerramento, estão falando em fazer uma festa da turma depois.

Uma festa da turma, é… Não era algo que me dissesse respeito, mas— 

— A cerimônia de encerramento é no dia 25, né?

Ao meu comentário casual, veio uma resposta arrastada, como algo sendo arrastado pelo chão.

— É Natal….. — com chamas negras tremulando nos olhos, Yanami lentamente se endireitou. — Sem contar que o Sosuke e a Karen-chan fazem parte do comitê de organização.

— Hã? Mas esses dois— 

Comecei a dizer algo, mas me calei, e Yanami me lançou um olhar afiado.

— Casais ficam todos grudadinhos na véspera de Natal, então não tem com o que se preocupar no dia 25. Os pais da Karen-chan estão trabalhando no Reino Unido, então ela mora sozinha.

Entendi. Isso realmente eliminava qualquer preocupação.

— Eles me convidaram, mas ainda não decidi. E você, Nukumizu-kun?

— Não tem o que decidir. Eu não fui convidado.

— Ah, vamos deixar você de lado por enquanto.

Fui deixado de lado.

— Quer dizer, eu poderia simplesmente recusar, mas não pareceria que estou pensando demais? Tipo, como se eu estivesse totalmente pensando em coisas como: e se só tiver casais? Ou e se o Sosuke e a Karen-chan tiverem passado a noite juntos, já que é Natal? Ou e se eu encontrar os dois na manhã seguinte? Coisas nas quais eu definitivamente não estou pensando, claro. Então, se eu disser não, pode parecer que significa alguma coisa. Mas se você for, pensei que talvez eu fosse junto, tipo um amuleto da sorte.

Era muita justificativa.

— Nesse dia é meu aniversário. Parece que minha irmã quer comemorar comigo, então vou recusar.

— Hã? Seu aniversário é no Natal?

— É, mais ou menos isso.

— Entendi. Então o Natal está cancelado este ano…!

— Não, não está.

Os olhos de Yanami brilharam enquanto ela juntava as mãos.

— Certo! Nada de ficar lamentando. Vamos fazer uma festa de aniversário para o Nukumizu-kun!

Espera, ela realmente ia comemorar meu aniversário? Enquanto eu ficava ali, confuso com essa experiência inédita, Yanami sorriu radiante para mim.

— Vamos fazer uma noite só de garotas para celebrar o nascimento do Nukumizu-kun. A Lemon-chan e a Komari-chan não têm namorado, então está tudo certo.

Uma noite só de garotas. Aparentemente, eu não estava convidado para a comemoração do meu próprio aniversário.

— A Yakishio pode acabar indo para a festa de Natal também, sabia.

— Nem pensar, Nukumizu-kun. Eu não posso deixar uma amiga entrar nesse tipo de perigo.

Yanami tirou outra bala de gelatina do bolso do casaco e começou a desembrulhá-la.

— Não é nada obrigatório. Se você não quiser ir, é só recusar. Não precisa se forçar a inventar uma desculpa.

— É, talvez. Mas, ainda assim, não ter planos no Natal parece meio solitário… e fingir que tem é simplesmente— 

Com um olhar vazio, Yanami jogou uma goma em formato de "tesoura" na boca.

— Tão vazio. Sério.

Mokyu mokyu mokyu. O som da mastigação ecoou pela sala do clube.

— Yanami-san, acho melhor você ir à festa de Natal, afinal. Deve haver outras pessoas solteiras lá também. Convide a Yakishio e você pode protegê-la ou algo assim.

Embora eu não soubesse exatamente de quê.

— Ah, então eu deveria arrastá-la comig—quer dizer, apoiá-la. Vou ver se a Lemon-chan também vai.

Yanami começou a mexer no celular. Aliviado por ela finalmente ter se acalmado, encostei-me na cadeira — até que o som de uma mensagem chegando ecoou. Veio da bolsa largada no canto da sala do clube.

— Essa é a bolsa da Yakishio, não é? Ela simplesmente deixou aí. Para onde foi?

— A Lemon-chan provavelmente está em recuperação. Ela disse que reprovou em uma das provas finais.

Agora que parei para pensar, pouco antes das provas, Yakishio vinha praticando mais girar lápis do que qualquer outra coisa. Espera, se esse for o caso…

— Yanami-san, você não deveria estar lá também?

— Lá onde? Do que você está falando?

Yanami inclinou a cabeça.

— Sabe, a aula de recuperação das matérias em que reprovou. Já não começou?

— Com licença! Eu não reprovei em nada, tá!?

Sério? Eu simplesmente tinha presumido.

— Pode não parecer, mas minhas notas não são tão ruins! Vou te mostrar a prova!

Yanami tirou da bolsa um pequeno papel comprido, na horizontal, e o enfiou na minha frente. O boletim das notas finais. Deixa eu ver… de 228 alunos, ela estava na posição 135.

Nada mal, mas isso era realmente algo para mostrar com tanto orgulho…? Fiquei em dúvida… Enquanto eu tentava encontrar uma reação apropriada, a porta da sala do clube se abriu no momento perfeito.

Entrando pela fresta da porta entreaberta estava Chika Komari, a vice-presidente do Clube de Literatura. Uma garota minúscula, com um coração tímido como o de uma pulga. Mas, por algum motivo, era estranhamente ousada quando se tratava de mim.

Fechando a porta atrás de si com as duas mãos, Komari olhou ao redor da sala com medo.

— O que foi, Komari-chan? Se o Nukumizu-kun está te assustando, posso mandar ele embora, sabia?

— E-Eu aguento ele— 

Assim que começou a falar, Komari olhou de volta para a porta e se encolheu.

— P-Por favor, diga que eu n-não estou aqui!

— Hã? Ei, Komari— 

Assim que Komari mergulhou para debaixo da mesa, a porta se abriu novamente. Com a barra do jaleco esvoaçando, quem entrou na sala foi Sayo Konuki, a conselheira do Clube de Literatura.

Uma enfermeira escolar desnecessariamente sensual. Ela normalmente ficava na enfermaria, então era raro aparecer ali.

— Bom trabalho hoje, sensei. Aconteceu alguma coisa?

— Ara, bom trabalho para vocês também. A Komari-san não passou por aqui? Achei que ela tivesse vindo para este lado.

Sensei olhou ao redor da sala. Troquei um olhar com Yanami e balancei a cabeça.

— Não vimos ela hoje. Aconteceu alguma coisa?

Sensei sentou-se e cruzou as pernas cobertas por meias de forma ampla e elegante.

— Eu tentei ir atrás dela, mas ela fugiu. Fico me perguntando o porquê.

— Provavelmente porque você foi atrás dela. Por que faria isso?

— Ela parecia tão adoravelmente assustada que eu me deixei levar pelo impulso. Não pensei que uma nova porta se abriria depois de 27 anos de vida.

Eu até entendia o sentimento, mas, por favor, feche essa porta. Yanami inclinou a cabeça, curiosa.

— Você foi atrás dela, então precisava de algo da Komari-chan?

— De manhã, o conselho estudantil estava fazendo uma inspeção de bolsas, certo?

Sensei tirou um livro do bolso do jaleco.

— A vice-presidente Basori-san me entregou isto. Foi confiscado, mas como não havia nada de errado com o conteúdo, ela pediu para eu devolver à Komari-san.

Pensando bem, Komari também estava sendo interrogada pela Tiara-san. O título dizia: "Um Livro para Fazer Aquele Cara que Só Te Vê como Amiga Pensar Tanto em Você que Isso o Destrói".

Isso é… um guia amoroso? Não esperava que ela lesse esse tipo de coisa. Quando estendi a mão casualmente para pegar o livro, Komari saltou debaixo da mesa com tanta força que quase a virou.

— M-Muito obrigada!

Arrancando o livro com uma energia impressionante, Komari se encolheu no canto da sala.

— Então você estava aqui, Komari-san?

Surpresa, sensei se virou para ela. Komari assentiu repetidamente, tremendo. Ela olhou para mim, um pouco confusa.

— Presidente, eu não disse nada estranho agora há pouco, né? Está tudo bem?

— Ah… foi o de sempre. Não sei se isso conta como "bem", no entanto.

Konuki-sensei pareceu pensar por um momento, mas decidiu não se preocupar. Com uma expressão tranquila, levantou-se e acenou levemente.

— Bem, vou voltar. Vocês também deveriam passar na enfermaria algum dia.

— Ah, certo. Passo lá na próxima.

Assim que sensei saiu, Komari saiu timidamente do canto da sala.

— E-Ela não vai voltar, né…?

— A Konuki-sensei é ocupada. Duvido que volte.

Ela apertava contra o peito o livro de conselhos amorosos, olhando nervosamente para a porta. Como alguém que escreve comédias românticas, fiquei curioso sobre o conteúdo.

— Komari. Esse livro é pesquisa para o seu romance, né? Posso dar uma olhada também?

— U-Una!? N-Não! E-eu escrevi anotações nele— 

Mais agitada do que em qualquer outro momento daquele dia, Komari enfiou o livro às pressas dentro do casaco.

— Uau, você realmente leu tudo com atenção. Não se preocupe, não vou roubar suas ideias.

Falei isso com certa admiração, mas Komari começou a tremer na minha frente, com o rosto completamente vermelho.

— Komari?

— E-Eu vou embora! E-E vá morrer, Nukumizu!

De uma vez só, ela soltou aquilo e saiu correndo da sala do clube. …Espera, por que eu acabei de ser xingado? Enquanto eu ficava ali, atônito, Yanami deu de ombros e soltou um suspiro.

— É por isso que eu não gosto desse seu lado, Nukumizu-kun. Você ainda não entende como as garotas pensam.

— Espera, então você entendeu o que a Komari estava sentindo agora há pouco?

— Não. Nem ideia.

Então por que me jogar na fogueira? Aguentando essa dupla dose de irracionalidade, voltei a pensar no que tinha acontecido naquela manhã. …Na inspeção de bolsas, a Tiara-san claramente me visou.

Na hora, achei que fosse algo pessoal, mas agora Komari também havia sido alvo e até teve um livro completamente inofensivo confiscado. Se foi comigo e com a Komari, então o próximo seria— 

Olhei para Yanami, que estava decidindo se abria ou não a próxima bala de gelatina.

— Yanami-san, você foi parada na inspeção?

— Eu venho de bicicleta, lembra? Aquilo parecia um saco, então simplesmente passei direto sem dar chance de falarem comigo.

Que atitude.

— Na verdade, um dos meus livros foi confiscado. Para a maioria das pessoas foi só uma inspeção de fachada, mas comigo e com a Komari— 

Espera um pouco. Agora que pensei bem, a Tiara-san disse que eu era o segundo. Então, antes de mim e da Komari, já tinha outro membro do Clube de Literatura que havia sido vítima de confisco…?

Nesse momento, percebi a porta da sala se abrindo silenciosamente. Achei que fosse a Komari voltando, mas, em vez disso, uma garota de óculos e com um cachecol cobrindo a cabeça entrou discretamente, como se quisesse evitar atenção.

Era Koto Tsukinoki, a ex-vice-presidente do Clube de Literatura e aluna do terceiro ano. Ela havia se aposentado do clube durante o recente Festival Tsuwabuki, então já fazia um tempo desde a última vez que a vimos.

O fato de eu ter sentido problema antes mesmo de qualquer nostalgia provavelmente não era só impressão minha.

— Quanto tempo. O que é esse disfarce?

Tsukinoki-senpai fechou a porta silenciosamente, agachou-se e se sentou.

— Faz tempo mesmo. Vocês dois têm passado bem?

Yanami respondeu com um sorriso.

— Sim, embora o Nukumizu-kun não tenha mudado nada. E você, senpai? Como está a preparação para os exames?

— Não está indo bem. Mais importante, escutem, eu estou em sérios apuros.

Algo mais sério do que os exames da faculdade…? Em que tipo de problema ela estava prestes a nos envolver? Yanami e eu trocamos um olhar cauteloso.

— É, parece complicado. Senpai, quer um pouco de chá?

— Eu faço. Você quer também, Nukumizu-kun?

Quando nós dois começamos a nos levantar, Tsukinoki-senpai estendeu a mão para nos impedir.

— Esperem, não me ignorem. Apenas me escutem. Mesmo que achem idiota.

Parecia que não íamos escapar disso. Yanami e eu não tivemos escolha senão sentar novamente.

— Certo. Eu escuto, mesmo que seja algo bobo.

Com uma expressão séria, Tsukinoki-senpai começou a falar.

— Vou ser breve. Minha light novel BL independente foi confiscada na inspeção de bolsas hoje de manhã.

Fomos completamente enganados.

— Seus exames estão chegando, e você ainda estava fazendo esse tipo de coisa?

Com um gesto teatral, ela levou a mão à testa.

— Exatamente. É justamente porque meus exames estão próximos. O estresse dos estudos me levou a isso. Não passo de uma vítima trágica de uma sociedade hipercompetitiva.

— Então encare isso como uma chance de refletir e fazer melhor da próxima vez. Talvez deixem passar com um pedido de desculpas por escrito ou algo assim.

Respondi de forma leve, mas não consegui ignorar que havia algo estranho na atitude dela. Mesmo que tivessem confiscado um livro BL, por que ela viria até a sala do clube se escondendo…?

— Um livro BL não é novidade para você, certo? Isso é realmente tudo sobre esse "grande problema"?

Diante da minha pergunta perfeitamente razoável, a senpai continuou, claramente relutante.

— Bem, acontece que o que foi confiscado era um doujinshi de pessoas reais, então pode acabar dando problema de verdade.

— Um doujinshi de pessoas reais?

Yanami repetiu a expressão, confusa. Talvez fosse necessário explicar para a certinha da Yanami.

— É… uma história que usa pessoas reais como personagens. É comum no meio BL.

Se esse era o problema, então— 

— Não me diga que você usou alguém desta escola como personagem?

Tsukinoki-senpai assentiu levemente.

— Sabe a presidente do conselho estudantil, Hokobaru? É um BL com inversão de gênero baseado nela.

— Isso é completamente culpa sua, senpai. Por favor, reflita sobre suas ações.

Hibari Hokobaru, a presidente do conselho estudantil do Colégio Tsuwabuki. Uma aluna exemplar que se destacava tanto nos estudos quanto nos esportes, com uma aparência bonita e marcante. Embora, por dentro, provavelmente tivesse algo um pouco estranho. Então Yanami levantou a mão timidamente.

— Hum, inversão de gênero… quer dizer o quê, exatamente?

É, isso também precisa de explicação. Desta vez, a Tsukinoki-senpai tomou a iniciativa.

— No meu romance, a Hokobaru é um cara. Não tem nenhum motivo especial. Simplesmente é assim.

Ela declarou aquilo com absoluta confiança. Bom, se é assim, então tudo bem. Enquanto eu assentia em profunda compreensão, Yanami parecia ter comido um inseto por engano em vez de uma bala.

— Uhh… qual é o sentido disso…? Não, deixa pra lá. Não preciso que me expliquem.

Como Yanami parecia satisfeita com isso, continuei a conversa.

— A presidente foi sua veterana no conselho estudantil, certo? Vamos apenas pedir desculpas sinceramente e pedir o livro de volta.

Tsukinoki-senpai balançou o dedo em negação.

— Doujinshi de pessoas reais nunca, jamais devem ser vistos pelas próprias pessoas envolvidas. A regra é aproveitar isso apenas entre fãs. Aparentemente, a presidente do conselho estudantil não sabe que o livro é sobre ela, então quero resolver isso discretamente. Para ser sincera, eu também queria manter isso em segredo de você, Nukumizu-kun, já que você é a outra pessoa envolvida, mas situações desesperadoras exigem medidas desesperadas.

— Bom… é, realmente seria ruim se ela descobrisse— 

…Espera. O que ela acabou de dizer?

— Espera aí, você disse que eu também estou envolvido? Não me diga que eu estou nesse negócio também?

— Está tudo bem. Eu fui atenciosa e coloquei você como o ativo, já que é iniciante. Acontece que o papel de alguém frio e assertivo combina surpreendentemente bem com você. Isso tranquilizou bastante a sua senpai.

E quanto a me tranquilizar?

— Onde está esse doujinshi agora? Não me diga que já caiu nas mãos dos professores— 

— A cópia física está com a Basori, do conselho estudantil. Eu fui pedir desculpas, mas aquela garota me odeia, então me dispensou completamente. Ela está cheia de determinação e disse que vai apresentar isso na reunião dos professores no dia da cerimônia de encerramento— 

Então… os professores vão ler um BL sobre a presidente do conselho estudantil e eu na reunião?

Tsukinoki-senpai juntou as mãos com um estalo alto.

— Por favor! Faça isso pelo bem do Clube de Literatura. Recupere esse livro antes da reunião!

Sério…? Por que eu?

— Mas, tecnicamente, você já se formou no clube, não é, senpai? Então isso é um problema pessoal seu. Que tal dizermos que o Clube de Literatura não tem nada a ver com isso?

Sim. Como presidente, às vezes eu precisava tomar decisões frias e pragmáticas para proteger o clube. Ou melhor, por favor, não nos envolva nisso. Enquanto eu pensava em como encerrar a conversa, notei a senpai desviando o olhar de forma estranha.

— Tem mais alguma coisa?

— Eu incluí o nome do Clube de Literatura no colofão. E o editor listado é você, Nukumizu-kun, como presidente do clube.

…Com licença? Que merda essa pessoa fez!?

— Se alguém for chamado para a reunião dos professores, provavelmente seremos você e eu. Você vai me ajudar… não vai?

Sem palavras, só consegui ficar sentado enquanto Yanami, em silêncio, me entregava um pequeno pacote de balas. Coloquei uma goma "pedra" na boca e a mordi com toda a força.

*

 

Depois que Tsukinoki-senpai foi embora, caminhei ao lado de Yanami pelo corredor externo voltado para o pátio. Eu tinha saído para comprar uma bebida na máquina automática, e Yanami veio junto.

— Quer dizer, de certa forma, é até reconfortante que a Tsukinoki-senpai não tenha mudado nada, né?

Yanami mastigava sua bala com um som de "mokyu mokyu".

— Se for assim, eu preferia que ela tivesse mudado um pouco…

Dessa vez, fui atingido completamente por uma bala perdida. Não tenho responsabilidade nenhuma nisso. Nenhuma mesmo.

— Não seria melhor deixar isso para o Tamaki-senpai? Quer dizer, calouros realmente precisam se envolver nisso?

Shintaro Tamaki. O antigo presidente do Clube de Literatura e namorado da Tsukinoki-senpai. Se alguém deveria resolver essa bagunça, não deveria ser ele?

— Mas a Tsukinoki-senpai não disse que não queria que o Tamaki-senpai soubesse?

Yanami vasculhou o bolso e fez uma expressão triste. Parecia que suas balas tinham acabado.

— Bom, acho que realmente é um momento delicado para eles.

A Tsukinoki-senpai estava tentando entrar em uma universidade diferente da do Tamaki-senpai, que prestava para uma universidade nacional. Ela podia agir daquele jeito, mas, com a formatura se aproximando, provavelmente estava um pouco nervosa. Ainda assim, então que não escrevesse esse tipo de coisa.

— Nukumizu-kun, isso é um pedido de uma veterana que já fez muito por nós. Não é o mínimo ouvir o que ela tem a dizer?

Yanami acenou com o vale-refeição que a senpai tinha dado a ela.

— Além disso, se ela publicou o livro com o nome do Clube de Literatura, não dá para dizer que não temos nada a ver, né? Os veteranos nunca entregaram oficialmente o formulário de saída, então tecnicamente ainda são membros.

Subornada com um vale-refeição, mas ainda assim fazendo um argumento sólido. Assenti em silêncio. Sair de um clube não era algo forçado. Era mais uma formalidade. Se quisessem, poderiam continuar ativos até a formatura.

— A Tsukinoki-senpai fazia parte do conselho estudantil no segundo ano, né? A atual presidente era sua júnior naquela época e, ao que parece, encobriu vários escândalos dela.

— Mas desta vez ela não pode recorrer à presidente, então não podemos esperar ajuda desse lado. Será que deveríamos tentar falar com a vice-presidente Basori-san?

— A inspeção de bolsas de hoje claramente mirou o Clube de Literatura. Não é só a Tsukinoki-senpai que eles querem atingir. É o clube inteiro.

O fato era que o doujinshi BL de pessoas reais havia sido publicado em nome do Clube de Literatura. Se isso viesse à tona— 

— Outro dia, o Clube de Observação de Aves foi suspenso. Se fizermos besteira, o Clube de Literatura pode acabar do mesmo jeito.

— Aves? Parece tão pacífico. O que eles fizeram?

— Segundo o relatório da reunião dos presidentes de clubes, eles não estavam observando aves. Estavam tirando fotos escondidas das alunas do Tsuwabuki. Não era espionagem direta, mas parece que vendiam fotos das mais populares.

Ela não sabia, mas a própria Yanami teve oito fotos vendidas. Metade do número da Yakishio e um quarto do da Himemiya-san. Honestamente, ela deveria se orgulhar.

— Seria péssimo se fôssemos suspensos. Não teríamos mais onde comer lanches ou fazer lição depois da aula.

— Isso não tem nada a ver com as atividades do Clube de Literatura.

Parei diante da máquina de vendas e fiquei olhando as opções enquanto organizava meus pensamentos.

O adversário aqui era a Tiara-san. Mesmo que eu tentasse explicar que a Tsukinoki-senpai agiu por conta própria, duvido que ela acreditaria. Além disso, a senpai ainda era tecnicamente membro do clube, então não dava para dizer que ela não tinha relação.

…Isso podia realmente ser uma crise para o Clube de Literatura.

— Ei, aquela ali não é a Shikiya-senpai do conselho estudantil?

A voz de Yanami interrompeu meus pensamentos. Seguindo seu olhar, vi uma figura familiar sentada em um banco no pátio frio e vazio. Yumeko Shikiya, aluna do segundo ano e secretária do conselho estudantil. Uma senpai estilo "gyaru zumbi".

— O que ela está fazendo ali nesse frio? Nukumizu-kun, vamos falar com ela?

— Espera. Se aproximar dela sem cuidado pode ser perigoso.

Tirei um caderno do bolso interno do blazer.

— O que é isso?

— Tenho observado o comportamento da Shikiya-senpai ultimamente. Já vi esse padrão antes.

— Ok…. fazia tempo que eu não via esse seu lado estranho, Nukumizu-kun.

— Não, não é estranho. É tipo um diário de observação… como de aves.

O eu "nada estranho" abriu o caderno.

— Quando a temperatura cai abaixo de 12°C, os movimentos da Shikiya-senpai ficam visivelmente mais lentos. Esse padrão ficou especialmente claro a partir deste mês.

— Ah….

Ignorando o olhar sem expressão de Yanami, virei outra página.

— Em dias sem vento como hoje, ela tende a ficar tomando sol desse jeito para elevar a temperatura corporal. É um comportamento comum em animais ectotérmicos, especialmente répteis.

Yanami olhou para o céu após outro "ah".

— Mas já é fim de tarde. Essa área do banco está na sombra.

— Se ela se descuidar e acabar na sombra, a temperatura corporal dela cai, e ela fica incapaz de se mover. Ou seja, a Shikiya-senpai provavelmente está apresentando sintomas de hipotermia, com a consciência reduzida.

Fechei o caderno e coloquei moedas na máquina de vendas. Certo, talvez eu só comprasse uma bebida gelada e voltasse para a sala do clube, que estava aquecida.

— Tem certeza de que podemos deixá-la assim? Tipo… isso não é morrer?

— Você pode ter razão….

Apertei o botão de chá com leite quente, peguei a garrafa e corri até a Shikiya-san.

*

 

Em um café perto da estação mais próxima, Yanami e eu estávamos sentados frente a frente com a Shikiya-san. Na mesa havia café, bolo e um jogo de tabuleiro misterioso.

Aparentemente, aquilo era um "board game café". Shikiya-san tinha nos levado ali para agradecer por termos ajudado ela no pátio.

— Não se contenham… minha família… é rica…

— Desculpe pelo incômodo, e obrigado pelo lanche.

— Certo! Então vamos comer!

Assim que terminou de falar, Yanami enfiou um pedaço de bolo na boca. O cheesecake assado, simples, aparentemente era feito na própria cafeteria. Com uma única mordida, uma doçura equilibrada com leve acidez se espalhou pela língua.

Ao espetar o último pedaço com o garfo, o rosto de Yanami se iluminou.

— Senpai, esse bolo é incrível!

— Não se contenham… podem repetir… o quanto quiserem…

Tem certeza disso? Ela vai comer um bolo inteiro se deixar. Enquanto misturava açúcar no café, observei o ambiente. Apesar de ser dia de semana, o lugar estava animado, com o que pareciam ser universitários jogando. Shikiya-san começou a distribuir peças com mãos experientes.

— Que jogo é esse?

— Fjords… controle de território…

Foi tudo o que ela murmurou antes de continuar distribuindo pequenas peças. Eu não fazia ideia do que era, mas parecia melhor não interromper. Olhando com certa cobiça para o meu bolo, Yanami se inclinou e sussurrou:

— Ei…. Nukumizu-kun. Que tal falar com ela sobre aquilo?

— Sobre o quê?

— O doujinshi da Tsukinoki-senpai que foi confiscado. A Shikiya-senpai é do conselho estudantil. Talvez ela possa dar uma ajudinha.

Talvez pudesse. Mas, de certa forma, a Shikiya-san estava do lado "inimigo". Enquanto sussurrávamos, Shikiya-san inclinou a cabeça.

— Tsukinoki… senpai…?

Seus ouvidos atentos captaram o nome, e ela parou o que estava fazendo.

— O que aconteceu… com ela?

Seus olhos pálidos se voltaram para mim. Assustador. Quanto eu deveria contar? Ela claramente observava o Clube de Literatura, mas era difícil saber se tinha uma boa relação com a Tsukinoki-senpai… Olhei para Yanami, que fez um pequeno aceno encorajador.

— Bom…

Decidido, comecei a explicar. Depois de ouvir toda a história, Shikiya-san soltou um pequeno suspiro.

— A Tiara-chan… realmente não gosta… da Tsukinoki-senpai.

Ela afirmou isso de forma direta, sem rodeios, e voltou a mexer nas peças.

— Elas nem estavam no conselho estudantil ao mesmo tempo, certo? Por que ela odeia tanto assim?

Depois de terminar de distribuir tudo, Shikiya-san pegou um conjunto de pequenas peças hexagonais de terreno.

— Vamos nos revezar… colocando… uma por uma…

— Ah? Ah, certo.

Parecia que ela estava determinada a continuar o jogo. Enquanto jogávamos, fui entendendo as regras aos poucos. Colocávamos peças de terreno e casas para formar um campo, e depois nos revezávamos colocando vikings para conquistar território. Era meio parecido com Go.

— Hum… não tenho mais onde colocar minha peça.

— Então acabou… quem colocou mais… vence…

A primeira rodada terminou com uma vitória esmagadora da Shikiya-san. Fiquei em terceiro lugar, ou seja, em último — até atrás da Yanami.

…Isso foi frustrante. Eu não consegui me concentrar por causa do problema em questão. Se estivesse jogando sério, não teria sido assim. Nesse momento, Yanami me cutucou com o cotovelo.

— Ei, Nukumizu-kun. Tem certeza de que é hora de fazer isso?

— Espera aí, Yanami-san. Agora que eu peguei o jeito, na próxima eu— 

— Eu quis dizer a conversa, não o jogo.

Ah. Aquilo. Virei-me para Shikiya-san.

— Desculpe, sobre o que estávamos falando… Eu queria saber se existe alguma forma de recuperar aquele doujinshi— 

— Coloque isso… aqui…

— Hã? Ah, certo. Minha vez.

E assim, a segunda rodada começou. Claro, não era como se estivéssemos apenas brincando. De certa forma, aquilo ajudava a conduzir a conversa. Até Yanami, que estava reclamando antes, acabou se envolvendo no jogo.

— Nukumizu-kun, se você bloquear ali, não vou ter onde jogar!

— Esse é o objetivo do jogo.

Enquanto eu focava em atrapalhar a sempre reclamona Yanami, Shikiya-san murmurou, como se tivesse se lembrado de algo.

— Eu entendo… a situação… mas…

Com seus dedos finos, ela colocou uma peça preta no tabuleiro.

— A Tiara-chan… quando se trata da Tsukinoki-senpai… fica muito teimosa…

E assim, a segunda rodada da nossa "consulta" começou de verdade.

— Mesmo assim, não se trata só da Tsukinoki-senpai. Isso também envolve a reputação da presidente do conselho estudantil. Preferíamos resolver isso discretamente. Shikiya-san assentiu com firmeza.

— Sim… o garoto Sakurai… úlcera…

Garoto Sakurai? Não faço ideia de quem seja, mas aparentemente ele estava desenvolvendo uma úlcera por causa disso. Por algum motivo, senti uma conexão com esse tal Sakurai-kun que eu nunca tinha visto. Nesse momento, Yanami tentou pegar uma peça minha.

— Ei, posso mexer sua peça, Nukumizu-kun?

— Não, e estamos tendo uma conversa séria agora.

Parecia que meu próprio estômago estava prestes a abrir um buraco. Tomei um gole de café para me recompor.

— Então, eu estava pensando se você poderia intervir por nós. Você é próxima da Basori-san, certo?

Shikiya-san piscou lentamente várias vezes ao ouvir a palavra "próxima".

— Sim… Tiara-chan… somos próximas…

Segurando a xícara com as duas mãos, Shikiya-san ficou imóvel, com os olhos fixos no vazio. Quanto tempo passou? Não sei. Mas, finalmente, ela moveu levemente os lábios.

— Que tal você… derrotar a Tiara-chan…?

— Hã? Derrotar como?

Inclinei a cabeça, confuso. Shikiya-san continuou:

— Você… pode fazer com que ela… seja sua…

— Hã!?

Ao meu lado, Yanami começou a engasgar — e ainda roubou meu bolo. Ignorando a Yanami tossindo, balancei a cabeça com força.

— Não, não, não, impossível! Eu mal sei o nome dela, namorar com ela é— 

Antes que eu terminasse, Yanami deu um tapa nas minhas costas.

— N-Nukumizu-kun, a senpai não falou nada sobre namoro…

Com um lenço na boca e olhos marejados, Yanami me encarou.

— Mas ainda assim, quando ela diz "derrotar", isso não implica… sabe, aquilo? Não dá para levar isso na leveza, e além disso, ela não parece alguém fácil de— 

Enquanto eu me enrolava, Shikiya-san fez um gesto de coração com os dedos.

— Tudo bem… a Tiara-chan… é fácil…

Espera, fácil? Confesso que tive a mesma impressão.

— Mesmo assim, derrotar a Basori-san está muito além de mim.

— Você está pensando demais, Nukumizu-kun. Só precisa se aproximar dela e pedir o doujinshi de volta. Simples assim, né, senpai?

— Não faria mais sentido você fazer isso, Yanami-san?

— Ela dá um pouco de medo, então passo.

Ela me dá medo também. E, já que estamos falando disso, a Shikiya-san também.

— Senpai, sinceramente, não acho que consigo me aproximar da Basori-san.

— Se você for gentil… a Tiara-chan… é fácil…

A Tiara Basori é tipo um personagem tutorial de jogo de namoro?

— Não, mas ainda assim— 

— Encontre a fraqueza dela… faça um favor… depois cobre… corte as rotas de fuga…

Shikiya-san murmurava enquanto colocava outra peça no tabuleiro.

— Eu… vou te ajudar.

Isso estava começando a soar meio suspeito. Será que ela é mesmo amiga da Tiara-san? Eu deveria aceitar isso ou não…? Como se tivesse lido minha hesitação, Shikiya-san me encarou.

— Você… quer o livro de volta… não quer…?

— Bom… quero, eu acho.

Enquanto eu hesitava, Yanami me lançou um olhar impaciente.

— Vamos, a senpai até se ofereceu para ajudar. Decide logo.

— Já falei, eu sou ruim com garotas. Quando falo cara a cara, sempre sai tudo errado.

— Nukumizu-kun, tenta lembrar que eu também sou uma garota de vez em quando?

Yanami devolveu meu prato vazio, juntou as mãos e disse:

— Obrigada pela refeição.

Ela realmente comeu tudo sem pedir.

— Além disso, só fica estranho porque você está pensando coisas esquisitas. Você conversa normalmente com sua irmã, não é? Então trate a Basori-san como uma irmãzinha. Seja gentil com ela desse jeito.

Tratar a Tiara-san como uma irmãzinha…? Pensando bem, uma irmãzinha tsundere rigorosa é um clichê clássico das light novels. Se eu encarar assim, talvez consiga lidar. Será que uso "onii-chan" ou "seu irmão idiota" na simulação mental…?

Depois de simular um ano inteiro de cenários na minha cabeça, voltei-me para Shikiya-san.

— Uma coisa que quero confirmar. Pelo que vi, a Basori-san é meio hostil com o Clube de Literatura. A inspeção de hoje deixou isso bem claro.

Shikiya-san me ouviu atentamente, sem mudar a expressão.

— Vou abordar isso como presidente do clube. Ou seja, na prática, estarei me opondo a ela. Está tudo bem para você, senpai?

Shikiya-san assentiu lentamente.

— Está… tudo bem… eu também achei… que a Tiara-chan exagerou…

— Entendi. Aceito sua ajuda. E, claro, farei o possível para resolver isso de forma pacífica.

Afinal, na minha simulação mental, a Tiara (versão irmãzinha) até me deu um cachecol feito à mão no meu aniversário. Não quero ser rude com ela. Decidido, assenti com firmeza.

— Sim… eu só estou… ajudando…

Nesse momento, meu celular vibrou. Olhei a notificação de canto de olho. Era uma mensagem da Yanami.

"Não é pra seduzir ela, tá? Nada de sair na frente."

Por que ela mandou mensagem se estava sentada do meu lado? Fingindo que nada aconteceu, Yanami colocou sua última peça no tabuleiro, garantindo meu último lugar.

*

 

…Estou exausto.

Depois de chegar em casa, nem tive energia para subir as escadas. Me joguei no sofá da sala. Eu tinha planejado passar os dias até as férias de inverno em paz, e agora estava metido nisso tudo. Enquanto virava o rosto, perdido em pensamentos, notei um cartaz feito à mão colado na parede.

"8 dias para o Festival de Aniversário de Kazuhiko Nukumizu"

A parte do número era destacável, como uma contagem regressiva. …Ah, isso com certeza foi obra da Kaju. A cada ano, a qualidade só melhora. Enquanto eu admirava o trabalho da minha irmã, a porta da sala se abriu.

— Onii-sama, a Kaju voltou!

Kaju entrou com os braços cheios de compras.

— Bem-vinda de volta. Você demorou.

Levantei e peguei as sacolas dela.

— Muito obrigada. Ehehe, somos como um casal recém-casado, não é?

Ignorando a provocação, comecei a guardar as compras na geladeira.

— Tem muita coisa aqui. São todos ingredientes para doces?

— Sim! A Kaju pensou em fazer uma pré-festa, uma pré-pré-festa e uma pré-pré-pré-festa de aniversário para você. Então vou assar um bolo por dia a partir de hoje!

— Um bolo no dia já é suficiente. Não é como se a Yanami-san fosse vir aqui. Não vamos conseguir comer tudo isso.

— Então que tal convidar a Yanami-san para este fim de semana? Se quiser, posso convidá-la pessoalmente.

Encontrar a Yanami até no fim de semana parecia cansativo. Se eu pudesse só deixar o bolo na varanda e ela viesse furtivamente comer de madrugada, seria ideal…

— Pela minha observação, a Yanami-san deve entrar em fase de dieta em breve, então melhor não. Mais importante, o pai e a mãe disseram que vão chegar tarde. Quer que eu faça o jantar hoje?

— Sério? Então a Kaju adoraria o seu curry seco, onii-sama.

— Certo. Acho que ainda tem carne moída no freezer.

De repente, o sorriso no rosto da Kaju desapareceu.

— O que foi, Kaju?

— Onii-sama, onde você esteve hoje?

— Ah, eu só fui resolver algo em um café— 

Sniff, sniff, sniff. Kaju encostou o rosto no meu peito e começou a cheirar.

— Café e cheesecake. E também… tem cheiro de mulher.

— Espera, mulher?

Kaju sorriu novamente e olhou para mim.

— Sim. Tem maquiagem na gola do seu casaco. A Yanami-san não usa base na escola, então você estava com outra garota, onii-sama?

Eu não fazia ideia dos hábitos de maquiagem da Yanami, mas devia ter sido a Shikiya-san. Provavelmente passou em mim quando ajudei ela no pátio.

— Ah… eu só encontrei uma conhecida para conversar sobre algo.

— E isso deixou maquiagem no seu casaco? Onii-sama, que tipo de conversa foi essa, exatamente?

Kaju sorria demais enquanto perguntava. O que era essa pressão?

— Ela não estava se sentindo bem, então eu ajudei ela a se levantar, só isso. Além disso, a Yanami-san também estava lá.

— Ara, então a Yanami-san estava com você! Desculpe, a Kaju fez uma pergunta estranha, não foi?

Aparentemente, eu tinha acabado de ser questionado de forma estranha.

— Bem, então deixe-me limpar essa maquiagem do seu casaco. Vamos, tire-o.

De repente animada novamente, Kaju tirou meu blazer à força e começou a examiná-lo com atenção.

— Está tão sujo assim?

— Não, não se preocupe. A Kaju vai garantir que fique perfeitamente limpo.

Com um sorriso radiante, Kaju abraçou meu blazer com força.

*

 

No dia seguinte, depois das aulas. Eu observava a sala do conselho estudantil escondido na esquina do corredor. De acordo com as informações que consegui com a Shikiya-san, a sala ficaria vazia em breve.

…Claro, isso não era coincidência. A Shikiya-san tinha arranjado tudo nos bastidores, mas reconhecer isso em voz alta era um acordo silencioso entre nós. Yanami apareceu ao meu lado, espiando por baixo do meu braço.

— Ei, quanto tempo ainda vamos esperar?

— Silêncio, Yanami-san. Elas devem sair a qualquer momento— 

Clique. A porta da sala do conselho se abriu. Quem saiu foi a vice-presidente, Tiara Basori. Logo atrás dela vinha a Shikiya-san, que lançou um breve olhar na nossa direção antes de segui-la.

…Certo, a sala está livre. Troquei um olhar com Yanami. Tomando cuidado para não sermos vistos, entramos na sala do conselho estudantil. Assim que entramos, fechei a porta silenciosamente e observei o ambiente.

No fundo da sala, onde várias mesas compridas estavam alinhadas, havia o que provavelmente era o lugar da presidente: uma mesa de madeira imponente, embora desgastada, e uma grande cadeira. Ao longo da parede havia estantes e armários.

Yanami entrou no centro da sala, parecendo estranhamente animada.

— Dá até a sensação de que estamos fazendo algo errado, não é? Não é meio emocionante?

— Não, estamos de fato fazendo algo errado.

…Esse era o plano: No momento certo, a Shikiya-san afastaria a Tiara-san da sala, nos dando a chance de entrar escondidos. Então, procuraríamos no armário que a Tiara-san usava. Se encontrássemos o doujinshi, ótimo. Se não, qualquer informação sobre gostos ou segredos dela já serviria como ponto de partida.

— Segundo da direita, fileira de cima… deve ser este.

Murmurei para mim mesmo, como se tentasse abafar a culpa, e estendi a mão para o armário.

— Nukumizu-kun, não teria sido mais fácil vir aqui quando a Shikiya-senpai estivesse sozinha, sem precisar afastar aquela garota?

— Aparentemente, a Basori-san tranca o armário antes de sair. Segundo a Shikiya-senpai, isso por si só já é suspeito, como se ela estivesse escondendo algo.

Eu me sentia mal, mas precisávamos terminar antes que elas voltassem. O conselho estudantil tinha mais um membro, o tesoureiro, mas ele estava visitando clubes esportivos. Era uma oportunidade única. Não podíamos desperdiçar.

E, só para deixar claro, eu não estava fazendo isso porque queria espiar o armário de uma garota. Juro. Abri o armário cuidadosamente. Por dentro, tudo estava impecavelmente organizado — livros e documentos alinhados com precisão.

Não havia revistas, nem bolsas típicas, nem qualquer sinal de itens pessoais ou descontraídos. Yanami espiou por cima do meu ombro.

— Uau, bem espartano. A Basori-san talvez seja meio parecida comigo.

— Como assim?

— Você não entende, Nukumizu-kun. Se você guarda lanches, acaba comendo tudo, certo? Então isso é uma estratégia de não estocar nada.

Ela não tem nada na vida além de comida?

— Tá, então me ajuda a procurar. Fuçar nas coisas de uma garota sozinho pode dar problema.

— Tá tranquilo. Nem parece um armário de garota. Parece mais a mesa de um professor. Ei, Nukumizu-kun, o que tem naquele saco de papel?

— Saco de papel?

Entre os livros e pastas, havia um saco de uma livraria. Pelo estado, parecia conter documentos. Hesitei, mas enfiei a mão e encontrei uma pilha de provas corrigidas.

— Espera… esses são todos os resultados desde abril…?

Isso definitivamente era invasão de privacidade. Coloquei o saco exatamente no lugar. Revistamos tudo, mas além de materiais do conselho, não havia mais nada. Pelo menos agora sabíamos que a Tiara-san levava suas funções a sério, mas em termos de informação útil, não conseguimos nada.

Soltei um suspiro meio aliviado e fechei o armário.

— Nukumizu-kun, você deixou cair algo.

Yanami se agachou e pegou um pequeno papel. O que era isso? Aquela tira parecia estranhamente familiar— 

E então, a porta se abriu de repente. Antes que reagíssemos, um aluno entrou. Yanami enfiou o papel no meu bolso e se virou rapidamente.

— Hã? Com licença, o que vocês dois estão fazendo aqui?

Afastando a franja, o estudante falou com um sorriso gentil. Pela gravata e calça, provavelmente era um garoto. E eu não podia me culpar por hesitar. Ele tinha um rosto delicado, andrógino, e um porte pequeno. Até seus movimentos eram mais graciosos que os da Yanami.

— Ah… é…

Enquanto eu travava, Yanami avançou naturalmente.

— A Shikiya-senpai pediu para encontrarmos ela aqui, mas como não estava, decidimos esperar.

Ela respondeu com um sorriso brilhante.

— Entendi. Ei, Hiba-nee, você sabe para onde a Yumeko-san foi?

— Sei lá. A Shikiya faz o que quer. Vocês dois, sentem e esperem.

Uma garota alta entrou logo depois. Hibari Hokobaru, a presidente do conselho estudantil do segundo ano. Apesar da presença imponente, diziam que era meio distraída. Se saíssemos agora, só levantaríamos suspeitas. Sentamos em silêncio.

O garoto pegou xícaras no armário e sorriu.

— Vou fazer chá para vocês. Só aguardem, ok?

— Não precisa, sério. É que…

…Quem era ele mesmo? Não lembrava de tê-lo visto nas reuniões. Percebendo meu olhar, ele sorriu de forma tímida.

— Sou Hiroto Sakurai, o tesoureiro. Não sou bom com pessoas, então não participo das reuniões. Prazer.

— Ah… prazer. Sou Nukumizu, do Clube de Literatura.

Então esse era o tal Sakurai mencionado pela Shikiya-san. Havia algo no ar cansado dele que era curiosamente atraente.

…Claro, não no sentido estranho. Era só uma observação. Enquanto Sakurai preparava o chá, a presidente estendeu a mão.

— Certo, de vez em quando eu também faço chá. Hiroto, senta e descansa.

— Hiba-nee, o pote de chá está de cabeça para bai— 

Ah. A presidente virou todo o conteúdo do pote. E os eventos causadores de dor de estômago para Sakurai continuaram.

— Eu limpo depois. Vamos fazer o chá primeiro.

— Hiroto, a alça do bule quebrou. Eu nem fiz nada.

— Isso é um problema. Acho melhor eu cuidar disso, Hiba-nee. Você só descansa.

— A xícara também quebrou. De novo, eu não fiz nada.

Quando a terceira xícara quebrou, nos levantamos educadamente e saímos da sala do conselho estudantil.

*

 

De volta à sala do clube com a Yanami, apoiei os cotovelos na mesa e entrelacei os dedos diante do rosto.

— Foi por pouco. Se tivessem nos visto abrindo o armário da Basori-san, não haveria como sair dessa só na conversa.

Yanami assentiu, cruzando as pernas na cadeira.

— Sério. Invadir a sala do conselho estudantil até pode ter sido encoberto pela minha desculpa perfeita, mas normalmente isso viraria um escândalo enorme.

…Certo, com isso o relatório estava concluído. Yanami e eu voltamos nossos olhares para o canto da sala. Ali, sentada numa cadeira, Komari olhava nervosamente de um lado para o outro entre nós.

— O-O quê? P-Por que vocês estão e-explicando tudo i-isso p-pra mim…?

— Porque vamos te arrastar pra isso, é claro.

— Vem aqui, Komari-chan.

— U-Ueh…? N-Nem pensar.

Como Komari parecia apavorada demais para se mover, Yanami e eu simplesmente arrastamos nossas cadeiras até ela.

— Muito bem, acontece que essa investigação não rendeu nenhum resultado útil.

— É. Vamos ter que pensar no próximo passo.

— Certo. Então, Komari, o que você acha?

— D-Do quê!? E-Eu nem sei d-do que vocês estão f-falando!

Tentei empurrar a conversa no embalo, mas não funcionou. Limpei a garganta e comecei a explicar formalmente.

— Ontem teve inspeção de bolsas no portão da escola, certo? Acontece que não fomos só nós. A Tsukinoki-senpai também teve algo confiscado. Um doujinshi BL de pessoas reais.

— Una!?

A reação da Komari foi suspeitamente intensa. Quando a encarei, ela rapidamente levantou o livro para esconder o rosto.

— Pensando bem, por que alguém levaria esse tipo de coisa pra escola?

— Q-Quem sabe…

— Segundo a senpai, doujinshi de pessoas reais deve ser apreciado apenas entre entusiastas. Ou seja— 

Fiz uma pausa dramática. Komari espiou por cima do livro lentamente, e nossos olhares se encontraram.

— Deve existir outro entusiasta nessa escola. É isso que isso implica, certo?

Komari balançou a cabeça com força.

— E-Eu não sou e-entusiasta! O N-Nukumizu sendo o melhor n-não faz sentido!

Eu não perguntei sobre suas preferências.

— Então, a senpai trouxe com a intenção de emprestar para a Komari. Isso explica tudo.

Yanami cruzou os braços e assentiu.

— Isso mesmo. Então ela não é só cúmplice, é co-conspiradora. Um crime grave. Komari-chan, você tem responsabilidades a cumprir.

— Ueh…? O-O que isso quer dizer?

— Em resumo: você já está envolvida, Komari.

A porta da sala do clube se abriu com um rangido. Do outro lado, um par de olhos pálidos brilhava fracamente na escuridão. Komari se encolheu na cadeira como um hamster tremendo. E assim, mais uma vez, nossa reunião de operação começou.

*

 

Quando a reunião estratégica terminou, já estava completamente escuro lá fora. Enquanto eu pegava o trem na estação mais próxima, me peguei refletindo sobre o que a Shikiya-san tinha dito.

Segundo ela, a Tiara-san não parecia ter hobbies específicos. Nunca a tinha visto fazendo nada além de atividades do conselho estudantil e estudos, e estava preocupada que ela não tivesse muitos amigos próximos. Sinceramente, eu diria que quem precisava de preocupação era a própria Shikiya-san.

— Bem, não é como se fosse problema meu…

Enquanto eu caminhava pelo vagão procurando um lugar— 

— Ah, Nukkun! Nem sabia que você estava aqui. Ficou até tarde no clube de literatura?

Uma voz animada, com energia de verão e sem sinal de cansaço, me chamou. Sentada no banco comprido do trem, acenando para mim, estava Lemon Yakishio. Ela era colega do primeiro ano e membro tanto do Clube de Literatura quanto do Clube de Atletismo.

Seu rosto bronzeado se iluminou com um sorriso alegre enquanto batia no assento ao lado dela. Depois de pensar um pouco, sentei, deixando um espaço entre nós.

— Ah, só tive uma conversa que se estendeu. E você, Yakishio? Ficou presa nas aulas de recuperação esse tempo todo?

Com um sorriso irônico, Yakishio se aproximou para fechar o espaço.

— Cara, foi pesado. O clima estava tenso. Os professores estavam praticamente me ameaçando repetir o ano.

Provavelmente não era só ameaça.

— Ainda assim, se foi só recuperação, você saiu no lucro. Então, qual matéria você reprovou?

Yakishio me lançou um olhar confuso.

— Hã? Existe "qual matéria" quando se reprova?

Não me diga que ela reprovou em tudo. Os professores realmente precisam pressionar mais. O trem cruzou um rio e parou na próxima estação. Enquanto observávamos passageiros entrando e saindo, a conversa naturalmente diminuiu.

Clunc. O trem deu um solavanco e voltou a andar.

— Aliás, Yakishio, por que você sempre vem de trem? Você conseguiria correr essa distância fácil, não?

Mudei de assunto casualmente, e ela respondeu animada.

— Né? Então, olha só. No começo eu vinha de bicicleta. Mas eu ficava parando em todo lugar, então minha mãe me obrigou a vir de trem.

— Mas com passe de trem você também pode parar em vários lugares.

— É que, no começo do ano, eu fui de bicicleta até o Lago Hamana só pra ver como era. Voltei super tarde e levei uma bronca enorme. Mas ela disse que, de trem, eu fico dentro da área do passe e ela se sente mais segura. Não é injusto?

Quase vinte quilômetros… ela foi até lá só por impulso?

— Só escuta sua mãe, tá? Ela está certa.

— Ehh, você fala igual as veteranas do atletismo, Nukkun.

Bom saber que tem gente sensata no clube.

— E como estão os treinos? Você não pode ir enquanto está na recuperação, né?

— Exato. Por causa das reprovações, estou proibida de participar por um tempo.

Yakishio suspirou dramaticamente.

— Tenho treinado sozinha, mas só correr não basta. Meu corpo está ficando meio pesado.

Seu corpo fica pesado mesmo correndo…? Eu ainda pensava no que responder quando Yakishio me lançou um sorriso mais maduro do que o habitual.

— Bem, eu meio que queria um tempo pra pensar, sabe? Então, de certa forma, isso até foi bom.

— Aconteceu algo no clube de atletismo?

— No clube… ou talvez seja só coisa minha.

Antes que eu pudesse perguntar mais, o anúncio soou: o trem estava chegando ao ponto final. O trem desacelerou até parar. Antes mesmo de parar completamente, Yakishio colocou a bolsa no ombro e se levantou.

— Certo, estou indo. Não se sobrecarrega demais, tá, Nukkun?

— Hã? Ah… valeu, vou tentar.

As portas se abriram, e ela acenou antes de sair correndo. …Eu realmente pareço preocupado com alguma coisa? Bom, considerando a situação do doujinshi BL comigo no meio… Desci do trem com um sorriso irônico.

Ao enfiar a mão no bolso do casaco para pegar o celular, meus dedos tocaram um pequeno papel.

…Ah, é mesmo. Na sala do conselho, quando a presidente e o Sakurai voltaram, a Yanami tinha enfiado algo no meu bolso. Tirei sem pensar. Era uma folha de notas.

No topo, estava escrito: "Turma 1-B, Tiara Basori".

*

 

No dia seguinte, na hora do almoço, eu fiquei parado no refeitório da Tsuwabuki, segurando minha bandeja.

— Não tem um único lugar vazio.

Consegui imitar a pessoa à minha frente e pegar um prato do Menu A, mas o refeitório estava lotado de alunos rindo e conversando.

Vou ter que comer em pé…? Resignado, olhei ao redor e encontrei um canto estranhamente silencioso.

Ali, sentada sozinha numa mesa para quatro, estava a Shikiya-san. Desviei entre os alunos e me sentei à frente dela.

— Desculpa, você já estava aqui?

— Eu… acabei de chegar…

Na noite anterior, mandei mensagem dizendo que queria falar com ela a sós, e ela pediu para nos encontrarmos ali. Era, na verdade, minha primeira vez almoçando no refeitório. Para começo de conversa, comer ali sozinho nem era uma opção. Era tipo um jogo online só multiplayer — você precisava formar um grupo antes de jogar.

— Você não vai… comer…?

— Ah, é. Vou começar.

Enquanto eu cortava o bife de carne moída com os hashis, uma gargalhada alta explodiu na mesa ao lado. Instintivamente, desviei o olhar.

Almoçar com uma garota mais velha num refeitório cheio. Graças à Yanami (?), achei que tinha me acostumado um pouco a falar com garotas, mas agora a comida simplesmente não descia. Shikiya-san, como sempre sem expressão, desmontava silenciosamente seu peixe grelhado com os hashis.

— Você… queria conversar… não é…?

— Ah, sim.

Tomei um gole de chá.

— Ontem, por acaso, encontrei isso na sala do conselho estudantil.

Coloquei sobre a mesa o boletim de notas do fim do período, que a Yanami tinha enfiado no meu bolso. No topo estava impresso: 202º de 228 alunos. Shikiya-san apenas lançou um olhar rápido, sem demonstrar surpresa, enquanto continuava a separar o peixe.

— Tiara-chan… notas ruins…

— Você já sabia?

— Aquela garota… não sabe guardar segredos…

Assenti e deslizei o papel na direção dela.

— Você pode devolver isso para a Basori-san e dizer que ela deixou cair?

— As notas dela… ela está escondendo…

Segurando cuidadosamente uma espinha de peixe com a ponta dos hashis, Shikiya-san a ergueu até a altura dos olhos.

— Então… precisamos fingir… que não sabemos…

— Então acho que não é bom você devolver isso, senpai.

— Isso… você deveria usar… e se aproximar dela… certo?

Minha mão, que estava prestes a guardar o papel de volta no bolso, parou no meio do movimento. Desde ontem, isso vinha me incomodando — como uma espinha presa na garganta. E agora, as palavras da Shikiya-san deram forma clara a esse desconforto.

— Senpai. Você previu toda essa sequência desde o começo?

— Por que… você acha isso?

Shikiya-san inclinou levemente a cabeça.

— Quero dizer, invadimos a sala do conselho seguindo sua sugestão, fomos até o armário, e por coincidência encontramos isso lá? Não parece conveniente demais? Não é possível que seu objetivo desde o início… fosse que a gente encontrasse isso?

Um longo silêncio se seguiu.

— Tiara-chan e… Tsukinoki-senpai… eu só quero que elas… se deem bem.

Depois de terminar de separar completamente o peixe, Shikiya-san colocou os hashis sobre a mesa.

— É só isso… mesmo.

Eu não achava que ela estava dizendo toda a verdade. Talvez não estivesse mentindo, mas o que quer que tivesse acontecido entre a Tiara-san e a Tsukinoki-senpai… não era algo em que eu devesse me intrometer demais.

— O que aconteceu entre você e a Tsukinoki-senpai no ano passado?

…………

Por trás das lentes pálidas, achei ter visto os olhos da Shikiya-san vacilarem por um instante. Eu estava prestes a insistir. Mas, antes que pudesse, vozes altas e animadas dissiparam completamente o clima pesado.

— Ué, Yumeko. Você não disse que tinha algo pra fazer? Ei, podemos sentar aqui também?

— Oiii~. Desculpa invadir!

— Ai!?

Maquiagem chamativa, unhas decoradas, uniformes usados de forma solta. Duas garotas com estilo gyaru se sentaram ao nosso lado sem nem esperar resposta. Pelo emblema, eram do segundo ano — provavelmente amigas da Shikiya-san.

— Claro… vamos comer juntas.

Shikiya-san, parecendo um pouco aliviada, voltou a pegar os hashis.

— Ei, você, do primeiro ano.

A Gyaru-senpai A me olhou com curiosidade.

— Hã? Eu?

— Ué, quem mais seria!

Enquanto eu respondia sem jeito, a Gyaru-senpai B começou a rir.

— Então qual é a sua com a Yumeko? Namorado?

— Quê!?

Balancei a cabeça desesperadamente.

— Não! Quer dizer, ela é amiga de uma senpai minha, tipo… uma conhecida…

Minha resposta atrapalhada só fez as duas rirem mais.

— Sério? Perdemos nosso convite de almoço pra um amigo de amiga? Que triste~.

— Nada a ver, isso é tipo aquele clichê, né? A Yumeko vai trair a gente!

— Não é isso…! Senpai, fala alguma coisa.

Olhei para ela pedindo ajuda, e Shikiya-san inclinou levemente a cabeça, ainda segurando os hashis.

— Eu e você… estamos namorando?

— Não, não estamos namorando! Né!?

Isso era ruim. Não tinha como um cara sem graça como eu vencer três gyarus me cercando. Enquanto eu ficava travado, a Gyaru-senpai A colocou uma salsicha vermelha na minha bandeja.

— Desculpa assustar você~. Aqui, uma oferenda de paz.

— Come logo, candidato a namorado, senão o intervalo acaba~.

— Ha….

Pensando bem, eu não tinha visto a Shikiya-san comer. Ela só tinha ficado separando o peixe o tempo todo. Pessoas como ela sequer comem? Olhei discretamente, e o prato dela já estava completamente limpo. Quando foi que ela terminou?

Nesse momento, nossos olhares se encontraram. Ela segurava delicadamente uma xícara de chá.

— O que foi…?

— N-Não, nada!

Como se fugisse daqueles olhos pálidos, virei minha sopa de missô morna de uma vez.

*

 

Naquela tarde, depois das aulas, fui até a sala do conselho estudantil. Enquanto caminhava, apalpei o boletim no bolso e comecei minha simulação mental. Primeiro, eu fingiria encontrar algo no chão, em frente à sala.

Nesse momento, diria algo como: "Hã? O que é isso aqui?" Então, quando alguém saísse, eu entregaria o papel dizendo que tinha acabado de encontrar.

— Perfeição absoluta..

Era um plano sólido até pelos meus padrões. O detalhe de murmurar sozinho aumentaria a credibilidade — um toque de genialidade. Agora, só restava torcer para que minha garganta, silenciosa desde o almoço, cooperasse na hora— 

Mas, no momento em que virei o corredor em direção à sala do conselho, fui obrigado a mudar o plano imediatamente. Tiara Basori, a dona do boletim, estava andando de um lado para o outro com expressão séria.

Fiquei parado, congelado. Quando ela finalmente me notou, ergueu a cabeça surpresa.

— Com licença… ah, você é o presidente do Clube de Literatura.

Desculpa por ser do Clube de Literatura. Mas não vim aqui para brigar.

— Você está procurando algo, por acaso?

— Sim, mas não é da sua conta.

Tiara-san manteve a expressão firme e começou a passar por mim. Porém, no instante em que viu o papel que tirei do bolso, seu rosto empalideceu.

— Eek!? Onde você conseguiu isso!?

— Ah, eu encontrei ali, por acaso. Totalmente sem querer, claro.

Ótimo. Até agora tudo estava fluindo naturalmente. Até esse imprevisto eu lidei perfeitamente. Tiara-san estendeu a mão — ou assim pensei — mas, em vez de pegar o papel, ela agarrou meu braço de repente e me puxou.

— Venha comigo, agora!

— Hã? O que foi!?

Ela me arrastou até o espaço escuro sob a escada. Encurralando-me contra a parede, ergueu o rosto e me lançou um olhar penetrante.

— Você leu isso?

— Ah… quer dizer, eu dei uma olhada— 

— Então você leu!

Tiara-san se aproximou ainda mais; seu rosto ficou a poucos centímetros do meu. Senti um leve cheiro de desodorante.

— Bom, sim, eu vi, mas você não precisa se preocupar tanto com isso.

— Eu preciso me preocupar! Um membro do conselho estudantil deve dar o exemplo. Se descobrirem que eu mal estou passando, será um desastre!

— Certo, certo. Ok. Só… calma, tá? Inspira fundo… e solta.

— Hã? Ah… certo.

Tiara-san colocou a mão sobre o peito e respirou fundo.

— Isso ajudou um pouco. Os outros membros do conselho têm notas excelentes. E, como todos acham que eu também tenho, eu me esforço para corresponder. Mas não quero que ninguém me veja enquanto ainda estou lutando.

Entendi… então os outros são mesmo desse nível. Mas espera um pouco.

— A escola não publica os 50 melhores no mural depois de cada prova? Se o seu nome não está lá, as pessoas já não sabem que você não está entre os primeiros?

Ao ouvir isso, a expressão de Tiara-san congelou completamente.

— Tiara-san, você está bem?

— Não me chame pelo primeiro nome! E isso quer dizer… que todo mundo já sabe que eu não estou entre os melhores!?

— Ah… sim, acho que é assim mesmo…

— Então, quando eu fingia ser uma aluna exemplar, todos só estavam fingindo não saber e sendo gentis comigo…

Não faço ideia. Coloquei o boletim na mão dela, que havia caído sem força.

— As pessoas não ligam tanto assim para as notas dos outros. Enfim, eu já vou indo.

Tentei encerrar e sair dali, mas Tiara-san rapidamente se moveu e bloqueou meu caminho.

— Por favor, espere. Mais alguém sabe disso?

Os olhos dela, cheios de tensão, fixaram-se nos meus como uma ameaça. Espera… esse é daqueles momentos em que eu pego um final ruim se responder errado?

— Ah… não exatamente. Só eu.

Respondi com hesitação. Ela continuou me encarando em silêncio.

— Hum… Basori-san…?

— Diga suas condições.

— Hã?

Do que ela estava falando? Pisquei, confuso, e a voz dela ficou fria.

— Você me pegou sozinha de propósito e me trouxe para esse lugar escuro. Vai exigir algo em troca para guardar meu segredo, não vai?

Não, foi você que me arrastou. Quando abri a boca para retrucar, a imagem do doujinshi BL de pessoas reais passou pela minha mente. …Essa não seria uma chance de recuperar o livro? Limpei a garganta.

— Bom, não é que eu esteja pedindo algo em troca, mas— 

Então vi Tiara-san mordendo o lábio, com uma expressão tensa. …Não. Se eu pedisse o livro agora, não seria negociação. Seria chantagem. Ela pode ter implicado com o Clube de Literatura, mas isso não justificava ameaçá-la. Enquanto eu me afundava em culpa, Tiara-san franziu o cenho.

— Então? O que você quer em troca?

— Não, eu só…

Enquanto eu me enrolava, Tiara-san de repente se abraçou e deu um passo para trás.

— V-Você não está pensando em algo indecente em troca do seu silêncio, está!?

Claro que não.

— Eu não devolvi isso esperando algo. Mas, se você está tendo dificuldades nos estudos, eu posso te ajudar.

Provavelmente era culpa por ter mentido. Quando fiz a sugestão por impulso, Tiara-san me olhou com desconfiança.

— Você está oferecendo ajuda nos estudos?

— Não eu. Um amigo meu ficou em primeiro lugar na última prova.

— Você não parece alguém que teria um amigo no topo da turma.

Ótimo, a culpa evaporou completamente.

— Pois tenho. Se você quiser, posso falar com ele por você, Tiara-san.

Tiara-san pensou por um momento e então assentiu levemente.

— Nesse caso, poderia me apresentar a essa pessoa? E também — ela tirou um celular antigo e murmurou, claramente irritada: — Por favor, não me chame pelo meu primeiro nome.

*

 

No dia seguinte, depois das aulas. Em vez da grande livraria perto da estação, eu estava sentado numa lanchonete ao lado. Com uma bandeja de nuggets e refrigerante, olhei ao redor do segundo andar e encontrei dois alunos da Tsuwabuki — um garoto e uma garota — sentados juntos perto da janela.

Mitsuki Ayano e Chihaya Asagumo. Houve alguns acontecimentos no verão envolvendo a Yakishio, mas agora eles pareciam um casal perfeitamente entrosado. Ayano levantou a mão ao me ver. Respondi e me sentei em frente a eles.

— Desculpa te chamar assim. E o cursinho?

— Relaxa. Não é todo dia que você pede ajuda, Nukumizu.

6º lugar no ranking — Ayano sorriu, claramente satisfeito.

— Mas o que aconteceu? Você disse que queria que a gente conhecesse alguém e desse uns conselhos?

Sentada ao lado dele, Asagumo-san olhou para mim com olhos redondos, como os de um esquilo. Ela mordiscava uma torta de maçã segurando com as duas mãos. Pelo jeito que comia, ninguém diria que tinha ficado em 1º lugar. Um par perfeito de alunos exemplares.

Tomei um gole do refrigerante e comecei a explicar com cuidado.

— Bom… a pessoa que vai chegar tem tido dificuldades na escola. Eu mencionei vocês dois, e ela disse que queria conhecer— 

Parei. Com esses dois, não parecia certo esconder nada. Eu queria ser honesto.

— Nukumizu? Por que você parou de falar?

Ayano, confuso, me ofereceu uma batata frita. Asagumo-san se inclinou e deu uma mordida. Por que esses dois estão flertando do nada?

— Ah… é uma história meio longa, mas vocês podem me ouvir até o fim?

Quando os dois assentiram, contei tudo — desde a inspeção de bolsas até o que aconteceu depois. Não mencionei a posição exata da Tiara-san, mas não escondi mais nada. Asagumo-san, após ouvir tudo, ergueu a cabeça com confiança.

— Entendi. Então você quer recuperar um doujinshi e pretende usar a fraqueza da Basori-san para isso… Certo. Parece que chegou a minha vez!

Está certo, mas não é bem esse o ponto.

— Quer dizer, eu quero recuperar o livro, sim. Mas hoje eu só queria que vocês conversassem com ela. Talvez ajudar um pouco.

— Tem certeza? Achei que recuperar o livro era urgente.

Balancei a cabeça para Ayano.

— Em vez de procurar fraquezas, talvez, se ela começar a confiar na gente, nem que seja um pouco, e entender melhor o Clube de Literatura, teremos uma chance. É meio idealista, mas…

Até aquele doujinshi BL era uma obra criativa da Tsukinoki-senpai. Se tornar público seria um problema, claro. Mas, se a Tiara-san não estivesse tão fixada no Clube de Literatura, talvez a inspeção nem tivesse nos afetado.

…Pensando bem, por que ela odeia tanto a Tsukinoki-senpai e o clube? Enquanto refletia, Ayano inesperadamente me ofereceu outra batata. Comi sem pensar, e ele sorriu.

— Certo. Claro que eu ajudo.

— Eu também. Não vejo problema algum.

Asagumo-san disse isso olhando para Ayano com um sorriso confiável.

— Oficialmente, vou fingir que estou pedindo conselhos para vocês, e ela estará aqui só como referência. Ela não quer que saibam das notas, então vamos evitar isso.

Olhei o relógio. Já estava na hora combinada. Como se estivesse esperando o momento, Tiara-san subiu as escadas com sua bandeja. Ela veio direto até nossa mesa e fez uma reverência educada.

— Prazer. Sou Basori, da turma B. Obrigada por me deixarem me juntar a vocês hoje.

…Espera, é a mesma pessoa? Ela está tão educada, sendo que vive brigando comigo.

— O prazer é nosso. Sou Ayano, turma D. E esta é— 

— Asagumo, turma F. Basori-san, por favor, sente-se.

Tiara-san se sentou ao meu lado. Após algumas conversas leves, ela me lançou um olhar, e entendi que era meu sinal.

— Indo direto ao ponto… vocês poderiam compartilhar como costumam estudar?

— Eu não faço nada especial, então não sei se vai ajudar muito.

Asagumo-san tossiu de leve, de forma adorável. Sinceramente, eu também estava curioso. Mesmo sendo naturalmente talentosa, talvez houvesse algo útil.

— Bem, para começar, eu memorizo tudo dos livros e materiais complementares.

Ela me perdeu imediatamente.

— Tudo? Tipo… todas as páginas? — Perguntei sem querer, e ela assentiu sorrindo.

— Sim. Até o colofão. Depois disso, faço o mesmo que todo mundo: presto atenção na aula, memorizo tudo o que o professor diz palavra por palavra, e depois reviso e me preparo.

Aparentemente, eu não fazia parte de "todo mundo". Tiara-san, igualmente excluída desse grupo, ficou olhando com a boca entreaberta.

— Ah… isso ajudou em algo, Basori-san?

…………

Tiara-san apenas me encarou. Intensamente.

— E-Então… e você, Ayano? Qual é o seu método?

— Nada de especial também. Eu faço cursinho, mas, na escola, foco na preparação antes da aula e uso a aula como revisão. Por exemplo, a aula de inglês de hoje.

Ayano tirou um caderno.

— Tento não gastar muito tempo copiando o quadro. Preparo um caderno antes e, durante a aula, só anoto as explicações do professor.

— Então você não copia o quadro?

— Só o essencial. Se precisar do resto, pego emprestado de alguém.

Entendi… ele tem colegas com quem pode contar assim. Enquanto eu tomava meu refrigerante em silêncio, refletindo, Tiara-san, que anotava tudo diligentemente, levantou o rosto.

— Isso ajuda. Ayano-san, que tipo de estudo você faz no cursinho?

— Bom, vejamos…

— Mitsuki-san se concentrava em inglês e japonês. Seu currículo buscava um equilíbrio entre fortalecer os fundamentos e aplicá-los na prática. Se quisesse, eu poderia mostrar o cronograma do mês passado.

Por que a Asagumo-san era quem estava explicando? Ayano soltou um sorriso irônico e segurou a mão que cobria sua boca.

— Por que você é quem está respondendo, Chihaya?

— Porque, quando se trata da Mitsuki-san, eu sei mais sobre você do que ninguém.

— Mais do que eu?

— Claro. Você vive colocando senhas aleatórias em sites e depois esquece, não é? Sou sempre eu quem te lembra.

— Isso é verdade. Mas por que você sequer sabe minhas senhas, Chihaya?

Asagumo-san sorriu em silêncio. Ayano fez o mesmo. …Asagumo-san, você não está aprontando nada suspeito de novo, está? E já está na hora de soltar essa mão que você está segurando.

Bem na frente do casal flertando, Tiara-san voltou a me encarar. Por favor, não olhe para mim desse jeito. Dá medo. Eu entendo como você se sente, mas mesmo assim…

*

 

Depois de me despedir de Ayano e da sua namorada, eu estava na entrada da Rua Tokiwa, a galeria ao lado da livraria Seibunkan. Kaju tinha me pedido para comprar grãos de café em uma loja mais à frente.

A conversa com Ayano e Asagumo-san nem chegou a durar vinte minutos. Ainda assim, o método de estudo da aluna exemplar foi surpreendentemente interessante. Embora eu tenha passado metade desse tempo só observando os dois flertarem. E agora, Tiara-san estava ao meu lado, encarando seu planejador e murmurando sozinha.

— Aqueles dois não estudam por mais tempo do que eu. Talvez eu realmente devesse começar a ir para um cursinho também…

— É, pode ser uma boa ideia. Tem alguns perto da Tsuwabuki também.

Respondi sem muito entusiasmo e comecei a andar, e Tiara-san começou a andar exatamente ao mesmo tempo. …Hm? Ela estava pensando em vir junto? Enquanto eu tentava descobrir como dizer que estava ocupado, ouvi de repente um ronco de estômago.

— Hum, você está bem?

— Bem… eu não tinha comido nada desde a manhã. Peço desculpas.

— Se estava com fome, devia ter comido algo antes.

— Por favor, consulte o Capítulo 3, Artigo 4, Seção 3 do regulamento escolar, "Atividades fora do campus". Está claramente escrito: após a dispensa, não se deve permanecer em cafés ou estabelecimentos de entretenimento sem motivo.

Ah, então isso existia. Ao ver minha reação pouco impressionada, Tiara-san soltou um suspiro exasperado.

— Como ouvi dizer que nos encontraríamos em um fast-food hoje, eu pulei o almoço e até me abstive de beber líquidos. Normalmente, fazer desvios é proibido, mas— 

Tiara-san tirou o manual do aluno, abriu e o empurrou na minha direção.

— Nas regras suplementares adicionadas no primeiro ano da era Reiwa, a Cláusula 3 afirma: isso não exclui hidratação adequada, etc. Eu estava em estado quase crítico por causa da sede. Portanto, aquele chá que tomei antes conta como hidratação de emergência e não é considerado desvio.

— Hã…

Eu realmente não entendia muito bem o que essa pessoa estava dizendo, mas aparentemente essa regra existia mesmo, e ela realmente a seguia.

— Basori-san, você tem amigos? Está tudo bem?

— Tenho! Que tipo de pergunta é essa de repente!?

— Mas você não sai nem faz desvios com amigos, certo? Isso não é meio solitário?

— Não é! Eu vou para casa primeiro, troco de roupa adequadamente e depois me encontro com eles!

Isso me parecia bem solitário. Então, Tiara-san colocou as mãos na cintura e me encarou.

— Então, até onde você pretende me seguir? Eu estou indo para casa agora.

Hã? Eu não estava te seguindo.

— Tem uma cafeteria chamada Waltz logo ali na frente. Eu vou lá comprar alguns grãos.

…………

Tiara-san abaixou a cabeça e ficou em silêncio novamente. É… mal-entendidos assim são definitivamente constrangedores.

— Hum, se você quiser… gostaria de vir comigo, Basori-san? Acho que dá para comer alguma coisa lá dentro também.

Ela já tinha sido, ainda que só na minha imaginação, minha irmãzinha. Eu tentava ser atencioso, mas ela balançou a cabeça.

— E-Estou bem! Obrigada por hoje!

Tiara-san fez uma reverência e tentou sair trotando, só para dar de cara com um dos pilares da galeria.

— Basori-san, você está bem!?

Tiara-san se agachou, pressionando o rosto com as duas mãos. Ela ficou assim por um tempo, depois se levantou lentamente, soltando um leve gemido.

— D-Desculpa, eu só entrei em pânico um pouco. Já estou bem…

Foi o que ela disse, mas eu me sentiria inquieto em deixá-la ir assim. Ela provavelmente também ficaria desconfortável se eu me oferecesse para levá-la para casa.

— Basori-san, você pode vir comigo um pouco?

Levei Tiara-san até a barraca de crepes perto da entrada da Rua Tokiwa.

— Está vazio agora. Quer pegar algo para comer?

— Mas fazer desvios, de acordo com as regras escolares— 

— Você não comeu nada desde a manhã, certo? A regra fala "hidratação etc.", então acho que ingestão nutricional de emergência também deve valer.

— Você tem razão….

Ela se convenceu. Essa garota era bem fácil. Eu pedi o de morango fresco e, depois de muita hesitação, Tiara-san escolheu o de banana com chocolate e creme. Quando dei uma mordida no crepe, a doçura do creme se espalhou pela minha língua. A acidez refrescante do morango dava um toque perfeito.

Sim, os crepes daqui eram mesmo os melhores. A textura crocante da massa também era perfeita.

— Hmm? Basori-san, você não vai comer?

Tiara-san segurava o crepe com as duas mãos, olhando para mim com uma expressão meio abatida por algum motivo.

— Você está acostumado demais com isso.

— Hã?

— Não me diga que você sempre chama garotas assim.

— Nem de longe. Na verdade, eu sou ruim em falar com garotas.

— Isso também não é muito convincente.

Tiara-san deu uma mordida no crepe, e sua expressão suavizou na mesma hora.

— Viu? Os crepes daqui são bons, não são?

— Para mim, isso é puramente suplementação nutricional, mas sim, está delicioso. É a minha primeira vez comendo um crepe.

E, com isso, ela deu outra mordida.

— Sério? Eu sempre achei que garotas viviam comendo crepes.

— Que tipo de visão das mulheres é essa?

Quero dizer, é assim em animes e light novels. Por favor, não destrua esse sonho. Olhando para a barraca de crepes do outro lado, vi uma fila se formando. Surpreendentemente, havia bastante adultos e até homens. Eu costumava vir aqui com a Kaju, mas era a primeira vez que comia com alguém que não fosse da família. De alguma forma… eu estava ficando nervoso.

Olhei de relance, e nossos olhos se encontraram.

— Obrigada por hoje. Consegui ouvir algo valioso daqueles dois.

— De nada. Não sei se foi realmente útil, no entanto.

— Verdade, provavelmente não foi útil. A diferença de nível é grande demais.

Tiara-san olhou para o crepe meio comido e começou a falar em voz baixa.

— No ensino fundamental, eu era uma aluna exemplar. Quando entrei na Tsuwabuki, achei que estaria me esforçando e crescendo ao lado de pessoas do mesmo nível.

Ela continuou, com um tom autodepreciativo.

— Eu estava enganada. Só porque passamos na mesma prova de admissão não significa que começamos da mesma linha de partida. Já existe uma diferença de habilidade desde o momento em que entramos, e se eu continuar me esforçando do jeito que sempre fiz, essa diferença só vai aumentar.

Com um olhar distante, Tiara-san de repente voltou a si e deu um pequeno tremor.

— Desculpa, isso foi meio estranho de dizer. Eu normalmente não falo assim.

— Ah, não. Eu entendo como você se sente.

O Colégio Tsuwabuki era uma das melhores escolas da região de Mikawa. Mesmo que você fosse um aluno exemplar no fundamental, uma vez ali, classificações surgiam entre os estudantes. Claro, notas não eram tudo. Mas, quando se tratava de pensar no futuro após a formatura, não era fácil encontrar outra forma de se medir.

Enquanto eu me perdia em pensamentos, tendo esquecido completamente o crepe na minha mão, percebi que Tiara-san estava me encarando.

— O que foi?

— Pensando bem, em que posição você ficou na última prova?

— Hã? Por que está perguntando isso?

— Não é justo só a minha posição ser revelada. Não se preocupe, você não deve ter ido pior do que eu, certo?

Tiara-san brincou com um sorriso. Foi a primeira vez que a vi sorrir daquele jeito.

— Acho que… fiquei em 47º?

— Ah…. isso é até que razoável.

E, assim, o sorriso de Tiara-san desapareceu.

— Bom, minhas notas caíram em comparação com o primeiro semestre. E comparado com Ayano e os outros…

— Pouquíssimos alunos na Tsuwabuki estão no nível daqueles dois.

Tiara-san comeu o último pedaço do crepe e limpou a boca com um lenço.

— Bem, então eu vou indo. Obrigada por hoje.

— Ah, sim. Eu que agradeço também.

Depois de jogar o papel do crepe no lixo, Tiara-san virou as costas para mim. Não parecia que a distância entre nós tinha diminuído muito, mas pelo menos eu tinha pago uma das minhas dívidas.

Quanto ao incidente do doujinshi, eu precisaria pensar em um novo plano depois. Por enquanto, eu deveria terminar o resto do meu crepe— 

Foi então que Tiara-san voltou caminhando rapidamente.

— Esqueceu alguma coisa?

— Hum, aquela classificação que você mencionou antes. Não era mentira, era?

— Sim, está no quadro de avisos.

— Não é que eu não acredite em você. Eu só pensei que alguém como você seria… adequado para alguém como eu — Tiara-san me lançou uma expressão entre um sorriso e uma ameaça. — Em outras palavras, estou pedindo para você me ouvir da próxima vez. Você mesmo.

— Eu? Por quê?

— Meu segredo constrangedor… não sai de graça.

Dizendo isso de forma direta, Tiara-san finalmente foi embora de vez. Observando sua figura se afastar ao longe, soltei um longo suspiro. Sinceramente, era um incômodo, mas eu não podia simplesmente cortar relações agora…

Enquanto eu olhava ao redor distraidamente, pensando no que viria a seguir— 

Notei a entrada oeste da livraria Seibunkan ao lado da barraca de crepes. Atrás das portas de vidro, uma garota baixa da Tsuwabuki estava parada como uma guardiã — e sim, era a Komari.

Enrolada em um casaco fofinho, Komari me encarava através do vidro.

…O que ela estava fazendo?

— O que foi? Bateu no vidro e travou, foi?

Quando abri a porta, Komari saiu com evidente cautela.

— E-Eu só estava fazendo compras. E você, Nukumizu, p-pare de enrolar e v-volte a escrever.

— Eu já tenho a ideia. Só preciso escrever.

— N-Nukumizu, você tem f-falado como a Y-Yanami ultimamente…

Perspicaz da parte dela notar. A Yanami tinha dito exatamente a mesma coisa outro dia.

— Você também não terminou seu manuscrito ainda, certo? Era para enviar antes do fim do ano. Vai dar tempo?

— E-Eu já escrevi. V-Vou mandar depois.

…Pensando bem, essa garota era realmente rápida para escrever.

— Entendo. Então eu vou para casa e começar a escrever o meu.

Percebendo que a situação estava virando contra mim, tentei ir embora, mas Komari segurou meu casaco.

— E-Era a vice-presidente do c-conselho estudantil que estava com você, c-certo? V-Vocês estão namorando?

— Claro que não. Só tem muita coisa acontecendo com esse negócio de doujinshi. Você também devia ajudar um pouco, Komari.

— V-Vocês não comem c-crepes juntos se não estiverem namorando.

Claro que comem. Ela tinha fantasias demais envolvendo crepes.

— Crepes são normais. Você também pode comer, Komari.

— E-Eu posso?

— Hm? Não vejo por que não.

Por que eu precisava dar permissão para alguém comer um crepe? Enquanto eu ainda estava confuso, Komari de repente se aproximou — e deu uma mordida no meu crepe.

— É c-crocante…

Komari ficou olhando com os olhos arregalados enquanto mastigava o crepe, com a boca cheia.

— Ah, então você estava mirando no meu?

Falei isso sem pensar— 

— Eek!?

Komari deu um pulo para trás, o rosto ficando completamente vermelho.

— Ueh!? Ah… f-foi um e-engano…!

Droga, Komari estava tendo algum tipo de sobrecarga emocional. Sorri suavemente para não assustá-la ainda mais e, devagar, estendi o crepe em direção a ela.

— Está tudo bem, sério. Eu não me importo. Viu? É bom. O morango é doce.

— M-Morango… é vermelho…?

— É, isso mesmo. Morangos são vermelhos. Quer mais uma mordida?

Komari balançou a cabeça com força.

— Hum, e-eu vou para casa agora!

Assim que ela se virou para ir embora, algo pequeno, do tamanho da palma da mão, caiu do bolso dela.

— Komari, você deixou cair algo.

Peguei sem pensar. Era um pequeno pacote embrulhado em papel verde com um adesivo de fita vermelha.

— É-É meu!

Komari arrancou o pacote da minha mão em pânico.

— Calma. Eu não ia roubar nem nada.

— H-Um… N-Nukumizu, eu ouvi dizer que seu a-aniversário é no Natal… é v-verdade?

Que pergunta repentina era essa?

— É, sim. Por quê?

— H-Um, é que… isso… ah…

Acabando por se calar, Komari apertou o pequeno pacote contra o peito e ficou imóvel. Sério, o que estava acontecendo com ela…?

— Você está bem? Se estiver com fome, ainda tem um pouco de crepe— 

Komari me lançou um olhar afiado.

— N-Não se empolgue!

Ela gritou isso e saiu correndo. …Hã? Por que eu acabei de levar um grito? Fiquei parado, sem entender, e olhei para o crepe. Na borda, havia uma pequena marca de mordida. Depois de uma longa luta interna, fechei os olhos e enfiei o crepe inteiro na boca.

*

 

Relatório do Clube de Literatura – Edição de Inverno

"Um Orgulhoso Cancelamento! – Cap. 6" por Chika Komari

O inverno tinha chegado ao ducado. A primeira neve da estação já havia se acumulado até a altura dos tornozelos. O frio intenso se infiltrava até pelos corredores da mansão, fazendo meus passos se apressarem enquanto eu carregava uma pilha de documentos.

Eu era Sylvia Luxeed, uma ex-filha de duque. Recentemente, eu havia deixado de ser uma hóspede para me tornar a nova responsável fiscal do ducado. Empurrei a pesada porta do escritório e chamei o homem sentado à mesa lá dentro.

— Philip, você tem um momento?

— O que foi, Sylvia? Se for sobre os documentos que pedi, eu os recebi ontem.

Philip, um jovem bonito trabalhando à mesa, ergueu o olhar e deixou escapar um leve sorriso. Para quem não o conhecia, aquele sorriso poderia parecer um deboche, mas isso se devia apenas aos traços marcantes de seu rosto. Contendo o sorriso que ameaçava surgir, coloquei um grosso arquivo de documentos sobre a mesa dele.

— Eu já relatei que a arrecadação de impostos caiu mais do que o esperado por causa da isenção sobre os arrendamentos de terra, não foi? Eu reuni uma proposta para lidar com isso. Primeiro, não podemos cortar a manutenção das estradas, então— 

Philip ergueu uma das mãos com uma expressão preocupada e me interrompeu no meio da frase.

— Esse problema foi resolvido quando concordamos com aquele acordo. Ambos os lados aceitaram os termos do contrato.

— Mesmo assim, entregar os direitos exclusivos sobre minério e sal aos comerciantes não é algo que eu possa apoiar. Por favor, reconsidere.

— Eu entendo suas preocupações, mas é apenas um contrato de três anos. Também nos preparamos para o pior cenário.

Peguei o documento que ele me entregou, um rascunho do contrato.

— Como você sabe, esta região sempre foi isolada. Abrir rotas comerciais com a ajuda dela foi algo que você também apoiou, Sylvia.

— Eu sei, mas…

Admito que os termos do contrato não eram ruins. O lado dos comerciantes ficaria responsável por abrir a rota comercial, enquanto nós ganharíamos suprimentos emergenciais de alimentos e um aumento temporário na renda.

Havia cláusulas para garantir que a vida dos cidadãos não seria afetada, e à primeira vista nada parecia errado. Era justamente isso que fazia parecer conveniente demais. Percebendo minha expressão preocupada, Philip me lançou um sorriso tranquilizador.

— Não se preocupe. A Elisa pode ser uma comerciante, mas não é do tipo que engana as pessoas. Eu a conheço há muito tempo.

Era exatamente isso que me deixava inquieta. A outra parte do contrato era uma dama comerciante da cidade-estado mercantil do sul, Nazalt: Elisa Volta, filha do Conde Volta.

Ela era a filha mais nova da família do conde e uma antiga colega de classe de Philip. Eu a tinha encontrado apenas uma vez, mas ela havia deixado uma forte impressão como uma ruiva animada que falava com Philip como uma velha amiga.

— Mais importante, você poderia dar uma olhada no relatório da região de Svea? As taxas portuárias caíram significativamente. Há até rumores de que um Leviatã foi avistado na rota— 

Comparado a isso, ultimamente tudo o que eu fazia era conversar sobre trabalho com Philip. Eu estava feliz por poder ser útil, mas oficialmente eu era apenas uma subordinada, embora também devesse ser sua amiga.

Elisa vinha de uma família distinta, e eu havia ouvido que a riqueza da família Volta rivalizava com a do próprio Philip, mesmo ele sendo um duque e o primeiro príncipe. Se fosse Elisa, ela seria uma noiva adequada para Philip…

Não, eu não deveria estar pensando nisso agora. Esperei uma pausa no trabalho para fazer meu pedido.

— Philip, eu tenho um favor a pedir.

— O que é? Pode dizer.

— Eu gostaria de organizar uma festa neste fim de semana. Posso usar o salão de recepção?

Philip franziu levemente a testa, confuso.

— O salão não é problema, mas você não terá tempo para organizar comida ou músicos a essa altura. Você nem sequer enviou convites.

Mesmo sendo o responsável por um dos ducados mais importantes do reino, Philip não ligava muito para extravagâncias. Especialmente naquele ano, em que mal tínhamos superado uma escassez de alimentos causada por um clima irregular.

Sorri para tranquilizá-lo.

— É apenas uma pequena reunião, chá, alguns doces e um pouco de conversa entre amigos próximos. Nada elaborado.

— Não é só isso. Dezembro está quase acabando. É uma época movimentada, e eu não gosto de adicionar trabalho extra desnecessariamente.

Na propriedade de Philip, os funcionários recebiam folga durante o Ano-Novo. Ele não dizia diretamente, mas dava para perceber que estava sendo atencioso com os empregados.

— Isso também já está resolvido. Eu vou pagar horas extras aos funcionários do meu próprio bolso. Na verdade, houve tantos voluntários que minha carteira já está chorando.

— Horas extras? Você usa uns termos estranhos às vezes.

Philip, talvez cedendo, deixou escapar um leve sorriso no canto da boca.

— Tudo bem, você venceu. Se for apenas um chá entre pessoas próximas, acho que não há problema. Aproveite.

— Ora, mas você também vai participar, é claro.

— Um chá não é muito a minha praia, é?

— No meu país — ou melhor, de acordo com um livro que eu li — , no dia 25 deste mês, as pessoas passam o dia com suas famílias e com aqueles que lhes são mais queridos. Eu realmente gostaria que você participasse, Philip.

— Mesmo assim…

Eu pretendia sorrir com alegria. Mas uma inquietação vaga e sem forma apagou o sorriso antes que ele se formasse por completo. Percebendo isso, Philip exibiu o mesmo sorriso gentil de quando nos conhecemos.

— Tudo bem. Eu arrumarei tempo.

No jardim, agora completamente coberto de neve, eu juntei um monte com a pá e o arremessei para o lado.

— Ufa… isso deve bastar.

Enxugando o suor da testa, finquei a pá no chão. Finalmente havia terminado de limpar o caminho. Quando se tratava de dissipar a névoa do coração, o trabalho físico era o mais eficaz.

…Já fazia vários meses desde que eu fora expulsa da casa da minha família e passara a viver ali. Minha relação com Philip continuava sendo mais do que amizade, mas ainda não chegava a ser amor. Até mesmo a promessa de que um dia ele me acolheria como sua noiva oficial não passava de palavras.

— Eu realmente preferiria não passar por outro noivado desfeito….

Enquanto esticava as costas, apreciando o cansaço agradável, notei uma presença se aproximando por trás.

— Sylvia, você fez tudo isso sozinha?

— Elisa-san!

Sua voz doce lembrava veludo. Seus cabelos vermelhos brilhavam à luz, cuidadosamente trançados e adornados com enfeites dourados. E, acima de tudo, havia sua beleza impressionante. A condessa Elisa exibia um sorriso amigável.

— Vejo que continua sendo uma moleca. Como tem passado?

— Estou bem, obrigada. Você também parece tão animada como sempre. Mas o que a traz aqui?

— Vim ver o Philip. Ouvi dizer que ele está prestes a me fazer ganhar mais dinheiro de novo.

Com uma piscadela brincalhona, Elisa envolveu minha cintura com o braço e começou a caminhar em direção à mansão.

— Seja gentil e me leve até o Philip, sim? Como ele tem estado ultimamente?

— Agora que você mencionou, algo estranho aconteceu outro dia. Um boato se espalhou dizendo que Philip tinha um filho ilegítimo em Granburg.

Não consegui evitar um riso ao lembrar da expressão aflita de Philip tentando explicar a situação.

— E então? O que aconteceu?

— Era apenas um boato sem fundamento. Quando aquela criança supostamente nasceu, Philip estava na Academia de Magia. Ele nem sequer estava em Granburg.

Virei-me para ela, ainda rindo, mas por algum motivo o sorriso havia desaparecido do rosto de Elisa.

— Hum, Elisa-san?

— Sim, você está certa. Philip não estava lá na época.

Como se estivesse explicando a si mesma, Elisa murmurou essas palavras, cruzou os braços e parou.

— Há algo te incomodando?

— Não, não se preocupe com isso. Ah, é verdade, eu trouxe aquela muda jovem de bergmats que você queria. Mandei entregar na sua propriedade. Espero que não se importe.

— Ora, você encontrou uma! Eu estava pensando em usá-la para o chá de amanhã.

Bergmats. Uma árvore conífera em forma de cone. Parecia exatamente como um pinheiro das ilustrações de um livro que eu já tinha visto. Eu havia perguntado sobre isso da última vez que nos encontramos, e parecia que ela havia se lembrado.

— Você vai usar uma árvore para um chá?

— Sim, vamos decorar a árvore, comer doces e dar presentes às pessoas pelas quais somos gratos.

— Ora, isso parece exatamente como o Natal.

Elisa disse isso casualmente enquanto voltava a caminhar. Eu estava prestes a concordar e segui-la, mas parei de repente. Hã? Elisa tinha acabado de dizer… Natal?

— Sylvia? O que foi?

— Não, não é nada.

…Deve ter sido apenas minha imaginação. Segui atrás de Elisa. Essa coisa de Natal, e também a da criança escondida, certamente era apenas um mal-entendido meu. Agora então, a festa de Natal estava logo ali. Ainda havia tanto a preparar— 

*

 

No dia seguinte, após as aulas, eu caminhava em direção à sala do clube com Yanami. Fomos convocados por Shikiya-san sob o pretexto de uma reunião estratégica. Depois de ouvir um resumo do que havia acontecido ontem, Yanami colocou um cubinho vermelho na boca com uma expressão mal-humorada.

— É isso que acontece quando eu tiro os olhos de você por um segundo. Nukumizu-kun, não me diga que você tem interesse na Basori-san?

— Não, não é isso. Quer dizer, foi você quem me empurrou para isso em primeiro lugar.

— Isso não significa que crepes estejam liberados. Eu também queria um.

Por que eu estava sendo culpado aqui? E também, por que a Komari foi contar justamente para a Yanami sobre o crepe? Minha confusão só aumentava, mas algo que também me deixava curioso era o objeto misterioso que Yanami continuava mastigando.

— Mais importante, Yanami-san, o que você está comendo esse tempo todo? Isso é uma borracha?

— Nem eu comeria uma borracha. Não tem gosto bom.

Pelo visto, Yanami entendia bem o gosto de borrachas.

— É gelatina de ágar. Comi na casa da minha avó recentemente e viciei. Combina muito bem com chá quente.

Ela tirou o pacote, que tinha "Mixed Jelly" escrito. Era um doce típico da região de Mikawa: cubinhos de gelatina cobertos de açúcar. Definitivamente do tipo que vicia.

— Mas você não disse que ia começar uma dieta para o Ano Novo?

— Exatamente. Por isso estou comendo isso.

…Lá vinha ela de novo com coisas estranhas. Yanami percebeu minha expressão e balançou o dedo para mim.

— Nukumizu-kun, a gente viu isso na aula de biologia outro dia, lembra? Quando o açúcar no sangue sobe, seus órgãos liberam alguma coisa, e isso faz seu corpo funcionar melhor ou algo assim.

Nós realmente aprendemos isso, mas não era tão vago assim, era? Com um ar convencido, Yanami jogou o cabelo para trás.

— Então eu percebi: se eu beliscar enquanto caminho, vou queimar o açúcar que estou ingerindo enquanto ando, e meu metabolismo basal vai aumentar. Em outras palavras, vou me tornar alguém que queima gordura com facilidade.

— Vai mesmo? Você realmente prestou atenção naquela aula?

— Claro que estou certa. Confie no livro didático, Nukumizu-kun.

Se isso realmente funcionasse, então tudo bem. Eu deixaria o veredito para a balança da próxima semana. Quando chegamos à sala do clube e abrimos a porta, lá estava Shikiya-san — e, sentada rigidamente em seu colo, estava Komari.

…O que tinha acontecido? O rosto de Komari estava pálido, sua boca abrindo e fechando sem emitir som.

— Desculpem pela demora. Senpai, você chegou cedo.

— Sim… eu estava brincando com a Komari-chan…

— Entendo. Que bom, Komari. Fico feliz que tenha se divertido.

— S-Se mata.

Que bom, ela parecia bem. Sentei-me na cadeira em frente a elas e decidi ir direto ao ponto principal.

— Na verdade, eu encontrei a Basori-san ontem.

Shikiya-san fez um pequeno aceno de cabeça.

— Ouvi da Tiara-chan… encontro depois da escola…

— Ah, então ela contou. E não foi um encontro.

Saber que estavam falando de mim pelas costas dava uma sensação estranhamente incômoda.

— Ei, Nukumizu-kun. Como você ficou tão próximo da Basori-san?

Com a boca cheia de dois cubinhos de gelatina de ágar ao mesmo tempo, Yanami me cutucou com o cotovelo. Uh… até onde eu podia falar aqui? Escolhi as palavras com cuidado e comecei.

— Ela disse que estava pensando em entrar em um cursinho, então eu a apresentei ao Ayano e à Asagumo-san.

— Hmm, e depois vocês dois foram comer crepes juntos.

Yanami me lançou um olhar vazio. Ela estava estranhamente obcecada com isso.

— Mais importante, precisamos focar em recuperar o doujinshi. Acho que, em vez de escalar a situação, mostrar que estamos refletindo sinceramente— 

— Então… você ficou mais próximo da Tiara-chan…?

Ignorando-me completamente, Shikiya-san fez sua pergunta.

— Não acho que ela me odeie, mas também não diria que somos próximos.

— Só mais um empurrão… daqui em diante, a Tiara-chan é fácil…

Não dava para negar que ela passava mesmo essa impressão…

— Ah, deixa eu esclarecer uma coisa rapidinho.

Limpei a garganta para reorganizar o clima.

— Eu entendo que a Basori-san seja hostil com a Tsukinoki-senpai. E, embora eu não concorde, entendo por que ela também voltaria sua atenção para o Clube de Literatura.

Shikiya-san ficou me encarando sem piscar. Mesmo um pouco pressionado, continuei falando.

— Sinceramente, no começo eu pensei em fazer qualquer coisa para recuperar o livro. Mas, depois de conversar com ela, sei lá… comecei a sentir que isso também não estava certo.

— Isso é… culpa…?

— Talvez. É como se… ela parecesse o tipo de pessoa que dá para enganar facilmente—mas, hum, tá, vocês conhecem chihuahuas, né?

— Hã? Nukumizu-kun, onde você quer chegar com isso?

Yanami interrompeu. É, talvez isso fosse abstrato demais para ela.

— Estou falando da Basori-san. Imagine que você engana a Tiara-chan, que é tipo um chihuahua, e tira o brinquedo favorito dela. Você não se sentiria culpado?

— Ugh, não, isso não pode. Nem pensar, Nukumizu-kun. Você mereceria morrer.

— É-É, você devia m-morrer.

Por que elas queriam tanto a minha morte? Respirei fundo e voltei-me para Shikiya-san.

— Quero dizer, tudo isso começou por causa da Tsukinoki-senpai, certo? Então enganar a Basori-san ou tentar fazer joguinhos para recuperar o livro simplesmente não me parece certo.

— Se… você está bem com isso…

De repente, Shikiya-san abraçou Komari por trás. Komari soltou um pequeno grito.

— Claro, também não estou tentando culpar a Tsukinoki-senpai. Eu entendo que ela escreve essas coisas como parte do trabalho criativo dela, e acho que o direito de julgar isso pertence à pessoa em quem foi baseado.

Enquanto organizava meus pensamentos dispersos, encontrei os olhos pálidos de Shikiya-san.

— A presidente ainda não sabe disso, certo? Mas, se soubesse, o que você acha que ela faria?

— Se fosse ela… provavelmente só daria risada…

Shikiya-san brincava com o cabelo de Komari enquanto falava. Sim, a presidente e a Tsukinoki-senpai se davam bem. Ela provavelmente já sabia do hobby exagerado de BL dela e, nesse caso, dava até para argumentar que não havia uma vítima real.

— Então você… se aproxima dela… e diminui a distância…

— Eu entendo isso, mas ainda parece que estou enganando ela de alguma forma.

Havia mais uma coisa que estava me incomodando. Pelo que eu tinha visto, Tiara-san praticamente idolatrava a presidente. Alguém como ela realmente tentaria levar um doujinshi BL com pessoas reais, ainda por cima com troca de gênero, para uma reunião formal como uma reclamação?

Agora, Shikiya-san estava brincando com o lóbulo da orelha de Komari. Enquanto eu observava a Komari tremendo e tentava organizar meus pensamentos, ouvi alguém bater na porta.

Hmm, quem batia na porta hoje em dia?

— Pode entrar, está aberto.

Como se estivesse esperando por isso, a porta se abriu lentamente.

— Com licença, a Yumeko-san está aqui?

Quem entrou na sala do clube foi o tesoureiro do conselho estudantil, Hiroto Sakurai. Quando viu Shikiya-san, sua expressão relaxou, aliviada.

— Sakurai-kun… aconteceu alguma coisa?

— Você não viu o celular, viu? O Clube de Radiodifusão mandou uma mensagem. Eles querem discutir algo com você.

— Clube de Radiodifusão…?

Shikiya-san inclinou a cabeça, confusa. Sakurai-kun suspirou.

— Você e a Hiba-nee são responsáveis pela cerimônia de encerramento, certo? A Hiba-nee já foi para o ginásio, então você pode ir encontrá-la?

— Mas eu…

Shikiya-san ficou imóvel, com um ar preocupado, então sorri para tranquilizá-la.

— Por favor, não se preocupe conosco. O trabalho do conselho estudantil é importante.

— Certo… desculpa…

Ao tentar se levantar, ela se inclinou e sussurrou no ouvido de Komari.

— Quer… vir… comigo…?

— Ueh!? E-Eu não vou!

— Entendi… então eu vou…

Colocando Komari gentilmente para fora de seu colo, Shikiya-san saiu da sala, balançando levemente. …Espera, o Sakurai-kun não ia com ela? Ele só ficou parado ali.

— Hum, você não vai com ela?

— Na verdade, eu queria falar com o Clube de Literatura. Pode me dar alguns minutos?

Isso foi inesperado. Yanami se levantou e puxou uma cadeira.

— Claro, pode sentar.

Então, o que o conselho estudantil queria conosco? Enquanto esperávamos, Yanami tirou um pacote de batatas fritas. Sabor alga e sal.

— Sakurai-kun, quer um lanche?

— Obrigado, mas eu não costumo comer entre as refeições.

— Sério?

Assentindo, Yanami abriu o pacote em modo "festa". Por que ela abriu, então?

— Yanami-san, como está indo a sua dieta?

— Veja bem, há quatro pessoas nesta sala. Isso significa que as calorias se dividem em quatro partes. Então, de certa forma, isso também faz parte da minha dieta.

Essa lógica fazia sentido? Eu tinha certeza de que não.

— Então, sobre o que você queria falar? — Perguntei, e Sakurai-kun deu um sorriso sem graça.

— A Yumeko-san tem vindo bastante aqui ultimamente, não tem? A Hiba-nee — digo, a presidente — está um pouco preocupada.

Enquanto comia as batatas, os olhos de Yanami brilharam de curiosidade.

— Sakurai-kun, você chama a presidente de "Hiba-nee", né? Qual é a relação de vocês?

— Somos primos. Eu a chamo assim desde crianças.

Ainda sorrindo gentilmente, os olhos de Sakurai-kun se estreitaram um pouco.

— Enfim, sobre a Yumeko-san… ela não tem causado problemas para vocês, certo?

— Ah, bem… não diria que é exatamente um problema. Quer dizer, nós pedimos ajuda a ela, então seria rude— 

Enquanto eu me enrolava nas palavras, Sakurai-kun soltou um suspiro profundo.

— Como eu imaginei. Aquela garota é meio imprevisível.

— A Shikiya-senpai já fez muitas coisas absurdas antes?

Sakurai-kun balançou a cabeça.

— Deixe-me ser claro. Quando se trata do trabalho do conselho estudantil, ela é extremamente competente. O mesmo vale para a Hiba-nee e para a Basori-chan. Mas… lidar com elas fora disso é exaustivo. Ainda assim, ninguém tem más intenções.

Ele deu um sorriso cansado. É, parecia difícil mesmo.

— Hum, se for sobre a Shikiya-san, você não precisa se preocupar. Mas, mais importante, como está a Basori-san?

— Aconteceu algo com a Basori-chan também?

— Ah, não exatamente, mas— 

Yanami entrou na conversa enquanto lambia os dedos cheios de alga.

— Aconteceu sim. É sobre aquela inspeção de bolsas recente. Uma das veteranas do nosso clube teve um doujinshi feito por ela mesma confiscado pela Basori-san, e agora está numa situação complicada.

Aliás, Yanami já tinha devorado o pacote inteiro de batatas. Adeus à divisão em quatro partes. Ao ouvir isso, Sakurai-kun inclinou a cabeça, confuso.

— Nós entregamos uma lista de todos os itens confiscados aos professores, mas não me lembro de nenhum doujinshi nela.

Não estava na lista? Isso significava…

— A presidente ou a Shikiya-senpai barraram isso?

— As inspeções de bolsas são feitas pelos membros do primeiro ano do conselho estudantil. Os veteranos não se envolvem.

Então era por isso que nem a presidente nem a Shikiya-san estavam lá naquele dia. Sakurai-kun continuou explicando com calma.

— As inspeções de bolsas servem como um exercício de cooperação com pessoas de fora do conselho, sem depender dos veteranos. Durante eventos escolares, precisamos ser capazes de orientar até alunos do segundo e terceiro ano.

Sakurai-kun soltou um suspiro tão profundo que parecia esvaziar os pulmões.

— E a Basori-chan… bem, ela se empolgou um pouco demais. Foi meio caótico.

— Entendi…

Pelo que ele tinha acabado de dizer, parecia que Tiara-san tinha agido sozinha no caso do doujinshi. Seria porque ela não queria que a presidente e os outros abafassem o assunto? Ou será que ela nunca pretendeu tornar isso público desde o início— 

— Se ela causou algum problema, posso falar com ela por você.

Cocei a cabeça e me levantei.

— Não, eu mesmo vou falar com ela. Ela está na sala do conselho estudantil?

— Sim, pedi para ela organizar alguns documentos, então deve estar lá sozinha.

Tiara-san estava sozinha na sala do conselho estudantil. Eu realmente não estava com vontade de fazer isso, mas agora era a única chance de falar com ela.

…Sério, eu não queria fazer isso.

*

 

Em frente à sala do conselho estudantil do Colégio Tsuwabuki, respirei fundo e ajeitei a gravata. Primeiro, eu pediria desculpas por ter me intrometido. Depois, pediria que devolvesse o doujinshi.

Eu deveria ter seguido o caminho direto desde o começo. Pelo que conversamos ontem, ela não parecia alguém totalmente irracional — provavelmente.

Bati na porta da sala.

Após uma breve pausa, abri. Tiara-san, que parecia estar pesquisando algo, levantou os olhos para mim.

— Ora, obrigada por ontem. O que o traz aqui hoje?

— Eu queria conversar. Tem um minuto?

— Sim, não me importo.

Ela estava realmente sozinha na sala. Se eu fosse falar com ela, era agora. Sem interromper o trabalho dela, dei um passo à frente.

— Na verdade, eu vim pedir desculpas e fazer um pedido— 

— Você quer dizer sobre o livro que confisquei da Tsukinoki-san outro dia, correto?

— Hã?

Como se não fosse nada, Tiara-san virou mais uma página dos documentos.

— Estou ciente de que a Shikiya-senpai tem passado bastante tempo com o Clube de Literatura ultimamente. Quando esbarrei com você no corredor outro dia, vocês dois provavelmente estavam combinando uma oportunidade de conversar, não estavam?

— Ah, bem… sim…

Não exatamente, mas também não estava errado. O encontro no corredor foi coincidência, mas pegar o boletim dela não foi. Enquanto eu tentava responder, Tiara-san pressionou os dedos contra a testa e suspirou.

— Deixar você pegar meu boletim que caiu foi um erro. Graças a isso, você ganhou uma vantagem sobre mim.

— Hã?

Ela realmente achava que eu tinha encontrado aquele boletim por acaso…? Tiara-san ergueu o olhar, confusa com minha reação.

— Do que você está tão surpreso? Minhas notas são mais importantes para mim do que você imagina. Por favor, não fale disso com ninguém.

— S-Sim. Claro. Então, sobre o doujinshi…

A caneta na mão de Tiara-san parou no meio da anotação.

— Aquele livro obsceno, baseado na presidente.

Com um barulho seco, ela se levantou, praticamente chutando a cadeira para trás.

— Criar algo assim e trazer para a escola. Mesmo sendo uma veterana, ela deveria ser devidamente punida, não acha?

Ela não estava errada. Sinceramente, eu até concordava… Respirei fundo e assenti com firmeza.

— Acho que você está certa, Basori-san. Mas ela está realmente arrependida agora. E quanto à própria presidente? Se ela soubesse disso, acha que ficaria brava?

Ao ouvir isso, a expressão rígida de Tiara-san suavizou, como se tivesse perdido o impulso.

— A presidente é uma pessoa gentil… Você tem razão. Ela provavelmente a perdoaria.

Ótimo, o clima estava melhorando.

— Exatamente. E ela também se dá bem com a Tsukinoki-senpai, certo? Talvez algo como um pedido de desculpas por escrito já fosse suficiente— 

…Eu me apressei. No momento em que disse "se dá bem", a expressão de Tiara-san mudou.

— Koto Tsukinoki foi a antiga vice-presidente do conselho estudantil.

Tsukinoki-senpai foi vice-presidente? Correspondendo ao cargo de sua antecessora, Tiara-san contornou a mesa e parou diante de mim.

— No segundo semestre do segundo ano, ela teve um desentendimento com a Shikiya-senpai e deixou o conselho estudantil.

— Um desentendimento? O que aconteceu?

— Não sei os detalhes, e não me interessa saber. Mas o que sei é que ela abandonou suas responsabilidades e fugiu do conselho estudantil. Só isso já é motivo suficiente para desprezo.

— Mas a presidente não parece estar brava. Na verdade, a Shikiya-senpai parece ainda se importar— 

Sem dizer uma palavra, Tiara-san se inclinou para frente, aproximando o rosto de repente. Fiquei sem reação diante da pressão e, justo quando ela ia dizer algo, seus ombros caíram, como se toda a força tivesse se esvaído.

— Como você disse… os veteranos sempre ficam do lado de Koto Tsukinoki. Não importa quantos problemas ela tenha causado, aqueles dois sempre a encobriram. No fim, sou eu quem acaba sendo tratada como a irracional por apontar isso.

Tiara-san virou-se de costas e começou a andar lentamente.

— Foi a Shikiya-senpai quem me convidou para o conselho estudantil. Ela até insistiu para que eu me tornasse vice-presidente, quando originalmente ela mesma deveria assumir o cargo.

Hã. Eu achava que ela só era uma fã obcecada da presidente ou algo assim.

— A presidente sempre tem o Sakurai-kun cuidando dela, então eu passava muito tempo com a Shikiya-senpai. Ela me mimava bastante, e no começo tudo corria bem…

…Certo, ela tinha começado um monólogo. Sentindo o perigo, olhei exageradamente para o relógio.

— Nossa, já está tão tarde assim? Acho melhor eu— 

Quando tentei fugir, Tiara-san se virou e encurtou a distância de uma vez.

— Quando eu ainda não sabia de nada, você faz ideia do que a Shikiya-senpai fez comigo!?

— Ah, não… o quê?

— Ela amarrou meu cabelo em duas maria-chiquinhas porque disse que combinava mais comigo! E ainda me deu óculos falsos de presente!

Duas maria-chiquinhas e óculos…? Espera aí. Esse visual é exatamente— 

— Não é igual ao da Tsukinoki-senpai— 

— Então você também percebeu, né!? O que ela estava tentando fazer, me fazendo me vestir exatamente como aquela mulher!?

Eu não sabia. Não olhe para mim. Eu realmente não sabia.

— E tem mais, a Shikiya-senpai é tátil demais! Dá para acreditar? Ela consegue desabotoar um sutiã por cima da roupa!

— É… acho que eu não precisava ouvir os detalhes das "preliminares" de vocês duas.

— Quem falou de preliminares!?

Definitivamente soava como isso. Com o rosto completamente vermelho e tremendo, Tiara-san tossiu de forma forçada, tentando esconder o constrangimento.

— E-Enfim! Eu só quero que a Shikiya-senpai e a presidente reconheçam devidamente o tipo de problema que aquela mulher é!

Sinceramente, acho que a presidente já reconhecia isso muito bem…

— Entendo como você se sente, Basori-san. Então, basicamente, você quer pegar o livro que a Tsukinoki-senpai escreveu, tornar isso público e fazer com que ela assuma total responsabilidade, certo?

— Bem… algo assim.

Entendi. Até aí fazia sentido. Mas ainda havia algo me incomodando.

— Mas esse livro usa a presidente como protagonista, não usa? Tem certeza de que é uma boa ideia torná-lo público?

— Claro. Pretendo censurar todas as partes que violem a decência pública.

Isso era basicamente censura. Tiara-san caminhou até a parede e, ficando na ponta dos pés, pegou um livro fino de cima de um armário.

— É esse o livro?

Ela assentiu rigidamente, franzindo a testa. Então era ali que o infame doujinshi BL estava escondido. Tiara-san o segurou pela ponta, como se estivesse lidando com algo sujo.

— Sinceramente. Para alguém escrever um livro que explora sexualmente mulheres assim, como mulher, eu simplesmente não consigo compreender. Estudantes do ensino médio deveriam agir como estudantes do ensino médio— 

…Hã? Isso era estranho. A sensação de desconforto que eu vinha sentindo começou a tomar forma.

— Tiara-san. Posso te perguntar uma coisa?

— Por favor, não me chame pelo primeiro nome! E, se for sobre o livro, não vou devolvê-lo.

— Não é isso. É só que… esse livro não tem nenhuma mulher nele.

— Do que você está falando? Está claramente mostrando uma mulher. A presidente do conselho estudantil, Hibari Hokobaru.

— Ah, sim. Isso é porque é um doujin de pessoa real.

— Pessoa… real?

Certo, por onde eu começo?

— Deixa eu só confirmar uma coisa. Você percebeu que a Prez estava nele, então isso significa que você realmente leu o livro?

Tiara-san estremeceu; seu corpo inteiro deu um sobressalto.

— Eu só li um pouquinho, só para confirmar! E-As ilustrações obscenas, e-eu só dei uma olhada—não me faça dizer isso em voz alta!

— Não, o que estou dizendo é que só tem caras naquele livro. Provavelmente.

— Nenhuma mulher...? Mas a Prez está nele.

— Está, mas é num gênero chamado genderbending… Basicamente, naquele livro, a Prez é um cara.

— Genderbending...? Desculpa, e qual é exatamente o objetivo disso?

Sim, pergunta justa. Eu também não sabia direito.

— Basicamente, é o que você chamaria de um doujin BL. A Prez vira um cara, e então é perseguida por outro cara. A coisa toda é, em grande parte... cenas mais quentes entre homens.

— Oh…

Tiara-san ficou olhando para o nada por um tempo e, de repente, pareceu perceber algo.

— Hã!? A Prez!? Ela é um cara!?

Fwip. Ela praticamente mergulhou no livro e o abriu.

— E-Espere, então essa ilustração é—hã?

Murmurando para si mesma, Tiara-san encarou atentamente as páginas.

— Hum, Basori-san?

— Então isso é... ah não, isso é...

Flip. Ela virou outra página.

— Uwaah… ugh…

— Com licença, posso só— 

— Hã? Como eles fizeram isso aí…

…Eu vou para casa. Com um suspiro, Tiara-san fechou o livro com um estalo.

— Isso é... material verdadeiramente depravado.

Ah, é? Você parecia estar estudando com bastante afinco, no entanto.

— Basori-san, então você entende agora, certo? Não tem como expor isso. Pelo bem da honra da Prez, vamos resolver isso discretamente.

Eu nem tinha certeza se ela me ouviu. Um pouco corada, Tiara-san lançou um olhar lânguido na minha direção.

— Presidente do Clube de Literatura, qual era mesmo o seu nome?

— É Nukumizu.

— Nuku… mizu!?

Fwip. Ela abriu o livro de novo.

— E-Então esse personagem chamado Nukumizu, que secretamente controla a academia mágica das sombras— 

Espera, esse é o meu personagem? E ainda é um isekai?

— Bem, quer dizer, eu também faço meio que parte disso. Mais como uma vítima, na verdade.

— Espera, então essa cena... é você...? Uh, o quê... ugh... isso é... horrível...

Tiara-san continuou alternando o olhar entre o livro e eu, murmurando "uwaa..." de vez em quando. Ter uma garota lendo um doujin BL em que você é o protagonista era certamente uma experiência nova. Mas meu coração não ia aguentar muito mais disso. Aproximei-me de Tiara-san, que mais uma vez estava absorta no livro.

— Hum, agora que você entendeu a situação, poderia devolver o livro?

— Heh!?

Ela só então percebeu que eu havia me aproximado. Tiara-san apertou o livro contra o peito e recuou.

— E-E-Espere, o que você está fazendo!? O que pretende fazer comigo!?

— Hã? Não, não, você entendeu tudo errado! Não levante a voz. As pessoas podem entender errado.

Se alguém nos visse assim naquele momento, minha vida escolar acabaria. Em pânico, estendi a mão na direção dela. Tiara-san recuou até encostar na parede.

— Olha, eu não estou tentando— 

— P-Por favor, espere! Eu sou uma garota!

Que tipo de declaração era essa?

— Isso não tem nada a ver. Estou dizendo que não vou fazer nada. O Nukumizu daquele livro e o eu de verdade são duas pessoas completamente diferentes, sabia?

Tiara-san, que estava me encarando com desconfiança aberta, finalmente pareceu entender. Seu corpo relaxou, e ela afundou até o chão.

— C-Certo. Eu exagerei. Mas você também tem parte da culpa, tá?

Espera, o quê? Eu também estava errado? Tiara-san levantou-se lentamente e encarou fixamente a capa do livro.

— Não há como negar. Chamar isso de indecente ainda seria pouco...

— Pois é, então, pensando nisso, podemos só— 

Ela balançou a cabeça, prendendo o olhar no meu.

— Eu mudei de ideia. Nukumizu-san, vamos fazer um acordo.

Um acordo. Então ela ia me obrigar a fazer alguma coisa em troca do livro. Fiquei tenso, temendo algum cenário estilo BL, mas Tiara-san disse, perfeitamente composta:

— Torne-se meu aliado. Se fizer isso, eu devolvo o livro.

…Hã? Ser aliado dela?

— Você tem inimigos ou algo assim?

— De certa forma, parece que todos, exceto eu, são inimigos. Eu só estava cumprindo meus deveres como membro do conselho estudantil, e mesmo assim até você me tratava como vilã.

É, bem, não posso negar. Tiara-san lançou um olhar de lado para a mesa da Prez.

— A Prez era tão gentil que acabava perdoando tudo. E quanto à Shikiya-senpai, não importava o que eu dissesse, entrava por um ouvido e saía pelo outro, sabe? Se tivesse a chance, ela tentaria tocar a parte de trás do meu pescoço— 

— Ah, por favor, converse diretamente com sua parceira sobre esse tipo de brincadeira.

— Já disse que não é esse tipo de brincadeira!

Talvez a montanha-russa emocional finalmente a tivesse esgotado. Tiara-san levou a mão à testa e afundou em uma cadeira. …Isso estava virando uma bagunça de verdade. Voltei-me para a visivelmente exausta Tiara-san e falei:

— Eu topo ser seu aliado, mas podemos estabelecer termos claros? Tipo, um objetivo específico e um prazo. Não é justo você continuar usando o livro para me fazer fazer o que quiser para sempre.

— Faz sentido. Muito bem.

Depois de pensar por um momento, Tiara-san bateu palmas.

— Shikiya-senpai e Koto Tsukinoki. Até a cerimônia de encerramento, quero que você resolva as coisas entre essas duas.

— Hã? Por quê?

— Estou cansada de ser arrastada pelo passado delas. O conselho estudantil do Colégio Tsuwabuki é composto pela Presidente Hokobaru e seus três membros. Está na hora de os fantasmas do passado irem embora.

— E se eu não conseguir?

Tiara-san apertou o livro BL contra o peito, como se fosse algo precioso.

— Então eu examinarei minuciosamente cada página deste livro — e o submeterei à reunião do corpo docente no dia da cerimônia de encerramento.

Restavam 8 dias até a cerimônia de encerramento. Até agora, eu só vinha seguindo o fluxo, mas agora finalmente comecei a perceber que estava sendo arrastado por uma correnteza violenta.

 

 

📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag e revisado por Shisui

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