Volume 3
Capítulo 3: Ainda é cedo demais para dizer adeus
NA MANHÃ DO Festival Tsuwabuki, apressei-me em direção à sala do conselho estudantil. Preciso entregar as fotos do local após a montagem antes que tudo comece. Ofegante, abri a porta da sala do conselho estudantil.
— Com licença.
— Eek!?
Dentro da sala, uma garota vestida de empregada com orelhas de gato congelou no lugar, com o rosto tremendo. …Esta é mesmo a sala do conselho estudantil, certo? Olhando melhor, a empregada com orelhas de gato era a vice-presidente do primeiro ano, Tiara Basori.
— Q-Qual é a sua, entrando assim de repente!?
— Ah, eu só tenho algo para entregar.
Então, um braço branco surgiu por trás dela, envolvendo Tiara-san como se a abraçasse. Era Shikiya-san, vestida com uma fantasia de enfermeira de minissaia.
— Tiara-chan… lembre-se do final… miau… ok…?
— Hã!? Mesmo sendo uma ordem de uma senpai, i-isso já é demais—
Shikiya-san apoiou-se frouxamente em Tiara-san.
— Você não gosta… da ideia… da presidente…?
— N-Não é isso! Mas a presidente realmente vai usar fantasia também? Ela nunca disse nada—
— Você duvida… da presidente…?
— Claro que não! Eu também vou fazer!
— Miau….
— Eu vou fazer, miau!
Tiara-san ficou vermelha como um tomate e gritou, quase em desespero. …Eu realmente queria que elas tivessem resolvido esse tipo de interação antes. Enquanto eu permanecia ali, parado, Tiara-san virou o rosto para mim de forma rígida.
— E-Então, o que você trouxe… miau?
Suas orelhas estavam vermelhas, o olhar baixo, e ela tremia levemente.
— Ah, são as fotos do local após a montagem. Está tudo certo?
— Sim, recebi.
— Tiara-chan…?
— Eu recebi, miau!
O que exatamente eu estou vendo? Ah, a fantasia de empregada-gato também tem cauda. Como será que ela prende na base…? Enquanto eu me perdia nesses pensamentos e já estava saindo da sala—
— Garoto…
Shikiya-san me chamou com uma voz suave como o zumbido de um mosquito.
— Ah, sim?
Com o queixo apoiado no ombro de Tiara-san, Shikiya-san olhou para mim com seus olhos pálidos.
— Eu vou passar… mais tarde…
*
A exposição do Clube de Literatura fica em uma sala no segundo andar do prédio oeste. Quando voltei da sala do conselho estudantil, Komari estava sozinha perto da parede.
— V-Você está atrasado, Nukumizu. J-Já vai começar.
Seu jeito ríspido indica que ela está bem. Aliviado, conferi o horário: faltavam 10 minutos para começar. Fiquei ao lado dela e observei a exposição.
— Komari, você chegou bem cedo hoje, não foi?
— A Tsukinoki-senpai me trouxe de carro.
— E onde estão os veteranos importantes?
— O-Os alunos do terceiro ano têm uma a-assembleia geral hoje de manhã.
Agora que ela falou, disseram algo sobre uma palestra de preparação para a formatura. Meio cruel, considerando que é o festival escolar. Yanami e Yakishio estão ocupadas com tarefas da turma, então por enquanto seremos apenas eu e Komari.
— Bom, já terminamos a preparação, então nós dois damos conta.
Komari assentiu levemente e mexeu nos dedos, com uma expressão entre envergonhada e irritada.
— N-Nukumizu.
— Hm? O que foi?
— B-Bem… o-obrigada…
— Hã….?
Ela… acabou de me agradecer?
— P-Por transformar o que eu e-escrevi em uma exibição t-tão bonita.
Uma Komari tão direta assim é rara. Cocei a bochecha para esconder o constrangimento.
— Se for agradecer alguém, agradeça à Asagumo-san—quer dizer, à amiga da Yakishio. Ela que pensou no layout.
— E-Entendi. Mas, por imprimir t-tudo tão bem—
— Isso foi meu amigo e o presidente. Eles cuidaram de toda a impressão. Incrível, né?
Komari inclinou a cabeça.
— E-E a decoração da sala?
— Ideia da Tsukinoki-senpai. Yanami-san e Yakishio foram as que mobilizaram todo mundo.
— D-Deixa eu te elogiar pelo menos um pouco.
Komari me encarou de baixo da franja, com um olhar penetrante.
— Ué? Quer me elogiar? Pode falar, não se segure. Me encha de elogios.
— S-Se mata.
Você não ia me elogiar agora há pouco? Num canto silencioso do prédio oeste, ficamos ali sem dizer nada, olhando ao redor da sala.
— A Yanami-san disse que tem um tempo livre à tarde, então ela assume um pouco.
Komari assentiu de leve.
— E os veteranos… v-vão vir quando a assembleia acabar.
— Sim. É isso mesmo.
…Já ficamos sem assunto. Mas o silêncio também não é especialmente desconfortável. Quando pensei nisso, um chiado saiu do alto-falante na parede.
— Bom dia a todos. Aqui é o conselho estudantil do Colégio Tsuwabuki.
Essa voz madura… é a presidente do conselho estudantil. Talvez seja instinto humano olhar automaticamente para o alto-falante.
— As exposições de vocês já estão prontas? Hoje esperamos muitos visitantes de fora da escola. O lema da nossa escola é "Autonomia e Respeito". Lembrem-se de que cada um de vocês representa o Colégio Tsuwabuki e comportem-se de forma digna.
A saudação formal é estranhamente reconfortante. Eu já estava começando a achar que o conselho estudantil era cheio de gente esquisita, mas parece que a presidente é normal. No primeiro encontro, ela parecia um pouco avoada, mas ainda assim é a presidente—
— Será que não ficou formal demais? Talvez eu devesse ter usado a versão original…
— Está tudo bem… ninguém… está ouvindo mesmo…
— Presidente, seu microfone ainda está ligado! Por favor, continue, miau!
…O que é isso? Há um barulho do outro lado do microfone. Então, como se tentasse se recompor, a voz da presidente ecoa novamente.
— Sendo assim, declaro aberto o 98º Festival Tsuwabuki!
Logo depois, aplausos e gritos de comemoração ecoaram ao longe. Komari e eu trocamos um olhar e batemos palmas de forma um pouco hesitante. E assim, o nosso Festival Tsuwabuki começou.
*
Quinze minutos desde a abertura. Com exceção de um aluno do Tsuwabuki que passou carregando algumas sacolas, ninguém mais apareceu. Talvez inquieta, Komari abaixou a cabeça e começou a cutucar as unhas nervosamente.
A sala vazia, somada ao silêncio, parecia estranhamente ampla e solitária. Ao lado de cada uma das quatro exposições havia uma cesta de doces e uma almofada de carimbo. Perto da entrada, empilhamos as revistas do clube, mas será que alguém realmente vai pegar uma? E espera… quando foi que aqueles pôsteres do Dazai e do Mishima apareceram…?
— O prédio oeste fica bem na ponta do evento. Acho que ninguém vai aparecer logo de cara.
— É-É assim…?
— Então vamos relaxar e esperar. Estamos dando biscoitos para crianças abaixo do ensino fundamental, então se elas tiverem um cartão de carimbo—
Enquanto eu mexia no bolso, notei um menino, de uns cinco anos, espiando pela entrada e nos encarando. Entreguei a ele um cartão de carimbos com o sorriso que pratiquei ontem à noite.
— Aqui, se você completar todos os carimbos, ganha um doce. Consegue carimbar direitinho?
O menino pegou o cartão e entrou correndo na sala. Uma mulher que parecia ser sua mãe nos cumprimentou com um aceno e entrou atrás dele. A visita deles não durou nem três minutos. Nosso primeiro cliente saiu correndo, segurando os biscoitos como se fossem um tesouro.
Entreguei um cartão de carimbos a Komari enquanto ela acenava para o garoto.
— Komari, coloca os adesivos junto com os cartões também.
— A-Adesivos?
— Nos cartões das crianças que ganharam doces, a gente cola um adesivo. Para não esquecer para quem já demos.
Komari franziu a testa ao pegar os adesivos.
— P-Por que Pokémon…?
— A Yakishio disse que são populares com crianças.
Ela disse: "Eu também gosto, então vai dar certo." Provavelmente está certa. Até agora, isso dava dois visitantes. Marquei com tracinhos no caderno. Depois disso, as pessoas começaram a aparecer de vez em quando, e logo já tínhamos duas séries completas de marcações.
— A-Aquele menino de antes… e-ele estava lendo o a-artigo sobre livros ilustrados.
— E ele até comprou um dos bolinhos de ovo.
Animado, joguei uma moeda de 100 ienes para o alto. A moeda prateada brilhou sob a luz fluorescente—
— V-Você deixou cair e p-perdeu? O-O que está fazendo?
— Não esfrega na minha cara. Acho que ela rolou por aqui…
Alguns minutos depois, após tirar outra moeda de 100 ienes da carteira, perguntei algo que estava na minha mente.
— Komari, você está lidando bem com os visitantes. Achei que você não fosse boa nisso.
— S-Se forem crianças, eu até que c-consigo.
Pegando a moeda da minha mão, Komari a colocou na caixa de dinheiro.
— Eu tenho uma irmã mais nova no segundo ano do ensino médio inferior, então também sou boa com crianças.
— S-Segundo ano? I-Isso não é quase a m-mesma coisa que você?
— Para mim, ela ainda é como quando tinha cinco anos. Continua sendo minha irmãzinha.
…Parece que o fluxo de visitantes já diminuiu de novo. Enquanto eu relaxava, uma garota alta apareceu na entrada da sala.
— Uma colaboração entre literatura e comida, hein. Um conceito bem criativo.
A presidente do conselho estudantil, Hibari Hokobaru. Com os cabelos longos esvoaçantes, ela entrou na sala.
— Posso entrar? Gostaria de dar uma olhada.
— Ah, claro. Isso é uma inspeção?
— Você é direto. Não me importo se quiser pensar assim.
A presidente soltou uma leve risada. Hm, agora que percebo, ela está com o uniforme. Achei que usaria fantasia. Mudou de ideia?
— Uma exposição bem feita — de braços cruzados, observando a exibição, ela murmurou. — Se tivesse tempo, leria tudo, mas minha agenda está bem cheia. Vou levar um destes.
Ela pegou um pacote de biscoitos.
— Ah, sim. Vai dar cem ienes.
Enquanto pegava o dinheiro, olhei discretamente para o rosto dela.
— Tem algo no meu rosto?
— Não, é que… eu achei que o conselho estudantil fosse meio rígido com o Clube de Literatura, então é um pouco surpreendente.
— Você não sabe, não é?
A atmosfera ao redor dela mudou. Até Komari, que estava quieta, recuou assustada.
— O Clube de Literatura já causou problemas várias vezes no passado. Se algo acontecer de novo—
Ela me lançou um olhar frio.
— Dissolução… é isso?
Engoli em seco sem querer. A presidente, prestes a concordar, franziu levemente a testa.
— Dissolução, hein? Talvez seja severo demais. Que tal algo como dissolução provisória?
— Hã… o que exatamente seria isso?
— Não tenho certeza, mas depois de umas três dessas, vocês provavelmente seriam encerrados. Provavelmente.
…Ela é intensa à sua maneira também. Enquanto eu ainda estava confuso, a porta da sala se abriu com um estrondo. Uma empregada com orelhas de gato entrou correndo.
— Sua agenda de inspeção está toda cheia, miau! Temos que ir para o próximo—hein!?
Parece que ela só então percebeu que eu estava ali. O rosto de Tiara-san ficou vermelho.
— O-O que você está fazendo aqui, miau!?
— Ah… esta é a sala do Clube de Literatura.
— A-Ah… é mesmo, miau?
Sim. É mesmo. Forçando uma expressão séria, Tiara-san olhou ao redor e puxou a presidente pela mão.
— Então, com licença, miau. Presidente, o próximo é o Clube de Astronomia, miau.
— Sim, sim. Entendido. Então, vou me retirar.
As vozes delas ecoaram pelo corredor enquanto se afastavam.
— A propósito, presidente, quando vai usar sua fantasia, miau?
— Eu? Não havia planos para isso.
— Miau!? Mas a Shikiya-senpai disse que você iria se vestir de príncipe, miau!?
…Bom, não entendo muito bem, mas parece que a Tiara-san já se acostumou com o novo jeito de falar. Acho que isso é bom. Pensando bem, a Shikiya-san não estava lá. Espero que não tenha desmaiado em algum lugar—
— Uma bela… exposição…
Não sei quando ela chegou, mas Shikiya-san apareceu lentamente das sombras, vestida de enfermeira. Komari soltou um grito e saiu correndo.
— Você estava aí o tempo todo? A presidente já foi, sabia?
Shikiya-san estendeu silenciosamente uma moeda de 100 ienes.
— Me dê… o mais fofo…
Ah… então ela quer um doce. E tem que ser o mais fofo. Quando entreguei um mini bolinho, ela assentiu levemente.
— Muito fofo… excelente…
— Fico feliz que tenha gostado. Bem, a saída é por ali.
Mas Shikiya-san não saiu. Ficou ali, balançando levemente. Como sempre, o decote da fantasia dela é profundo… e eu não sei para onde olhar. Bom… quero dizer… não é como se desse para não ver…
— Agora que penso, a presidente está de uniforme. Acho que ela não vai usar fantasia?
Os lábios normalmente inexpressivos de Shikiya-san se moveram levemente.
— Senpai, você enganou a vice-presidente por acaso?
— Tiara-chan… é tão fácil de enganar… tão fofa…
Deixando apenas essas palavras, ela saiu lentamente da sala. …Enfim, ela foi embora. Procurei por Komari e a encontrei no canto, mexendo em um anel quebra-cabeça.
— Achei que você já estivesse acostumada com a Shikiya-senpai.
— É-É que… e-ela me assustou.
Lágrimas se acumularam nos olhos de Komari.
— T-Todas as p-pessoas assustadoras… já foram embora?
— Sim. Não se preocupe. Já foram todas.
Provavelmente. E o fato de eu também ter ficado um pouco assustado… melhor guardar para mim. Ainda assim, algo que a presidente disse ficou na minha cabeça. O Clube de Literatura já causou problemas antes… Bom, deve ter algo a ver com a Tsukinoki-senpai. Decidi assumir isso e arquivar na prateleira mental que já está ficando cheia.
*
Uma hora desde a abertura, e aos poucos mais alunos começaram a aparecer. Quando as marcações passaram de cinco, aproveitei para sair e comprar bebidas.
— Espero que a Komari fique bem com chá gelado…
Quando voltei, os ex-colegas de classe, Amanatsu-sensei e Konuki-sensei, estavam olhando a exposição.
— Oh, Nukumizu. Este bolo de cereja está delicioso.
— Sensei, esse custa cem ienes.
— Essa é a primeira coisa que você diz? Aqui, pega, seu pequeno ladrão.
Não preciso ser chamado de ladrão por uma professora que come e não paga. Komari veio trotando, estendendo a mão em silêncio. Mas, em vez de pegar a garrafa, seus dedos agarraram a ponta do meu blazer.
— O que foi? A Amanatsu-sensei te assustou?
— S-Sim… e-ela começou a falar comigo…
— Complicado.
Não dá para culpá-la. A Amanatsu-sensei realmente precisa rever o comportamento.
— Konuki-chan, acho que eles acabaram de falar mal de mim.
— Konami, o dever de uma professora é enriquecer a vida romântica dos alunos. Não me arrependo.
O dever de uma professora é ensinar. Amanatsu-sensei me chamou com o dedo. Depois de confirmar que Komari estava bebendo seu chá, fui até ela.
— Precisava de algo?
— Nukumizu, esse negócio de amendoim também está gostoso. Foi você que fez?
— Não, foi minha irmã mais nova. Esse também custa cem ienes.
— Pensando bem, o inari de ontem, foi sua irmã que fez também, né…? — Enquanto me entregava o dinheiro, Amanatsu-sensei inclinou a cabeça. — Nukumizu, você não tem um irmão mais velho que se parece com sua irmã?
— Hã… você quer dizer eu?
— Não, não você. De preferência alguém com uns 30 anos e emprego estável.
Não tenho, e mesmo se tivesse, o que faria com ele?
— Não tenho muitas exigências, mas o gato que comecei a criar recentemente não se apega a mim—
— Ah… vou perguntar na próxima reunião de família se alguém se encaixa.
Aliás, Amanatsu-sensei começou a criar um gato… espero que isso não atrase ainda mais as chances de casamento dela. Konuki-sensei juntou as mãos e entrou na conversa sorrindo.
— Ara, que maravilhoso. Se houver alguém perfeito para a Konami, adoraria provar—quer dizer, conhecer.
— Não vou deixar você conhecê-lo, Konuki-chan. Você pode assistir ao casamento online.
— E se for através de um vidro fosco?
— Isso é aceitável.
O que essas duas vieram fazer aqui, afinal?
Isso não é nada bom para o desenvolvimento moral das crianças. Eu realmente queria que elas fossem embora logo…
*
À medida que o meio-dia se aproximava, eu já estava bem mais eficiente. Quando via uma criança, sorria e entregava um cartão de carimbos, depois dava um doce no momento certo. Se alguém parecia interessado na revista do clube, eu puxava conversa—
— Pelo visto, eu até consigo falar com as pessoas, desde que não sejam da minha idade.
O truque é repetir falas prontas como uma máquina e evitar contato visual com qualquer aluno do fundamental II ou ensino médio inferior. Agora mesmo, há três alunos do Tsuwabuki na sala. Pessoalmente, eles entram na categoria "ignorar". Komari, distraída com um cartão de carimbos na mão, se encolheu e puxou minha manga.
— A-Alguém está vindo…
Quem entrou foi Yanami, vestida com uma roupa cerimonial branca. Já vi essa fantasia antes, mas hoje ela está usando uma tiara. Duas molinhas saem dela, com pequenas chamas fantasmagóricas balançando nas pontas. …Essa tiara é daquelas de fantasia de alienígena, não é?
— Como está indo? Ah, tem clientes.
Yanami se jogou numa cadeira perto da parede e tirou um espetinho de mitarashi dango da sacola que carregava.
— Olha só, Yakumo Dango! Nem achei que conseguiria comer isso num festival escolar.
— Isso é ótimo e tal, mas o que é isso na sua cabeça?
— Ah, são as chamas que você fez pra mim. Faz eu parecer mais espiritual, né?
— Foi assim que você resolveu usar isso…?
— Foi a escolha certa. Estou super popular com as crianças. Não recebia tanta atenção assim desde meu Shichi-Go-San!
Desde o Shichi-Go-San, hein… Talvez eu devesse ser um pouco mais gentil com a Yanami a partir de amanhã.
(N/SLAG: O Shichi-Go-San (七五三, "sete-cinco-três") é um festival japonês anual, por volta de 15 de novembro, que celebra a saúde e o crescimento de meninas de 3 e 7 anos e meninos de 3 e 5 anos, com visitas a santuários, roupas tradicionais e doces. O que significa é que a Anna não recebe muita atenção há muito tempo…… tadinha.)
— Então é por isso que sua roupa está toda suja?
Provavelmente das crianças se agarrando nela. A roupa branca está manchada—
— Espera, isso é chocolate, não é?
— As crianças que vêm até mim sempre têm chocolate nas mãos ou migalhas na boca. Ficam tentando me dar comida já mordida.
Não sei o motivo, mas… de alguma forma faz sentido.
— Mas as que vão até o estande da Karen-chan levam flores ou trevos de quatro folhas e coisas assim. Por que somos tratadas tão diferente?
— Pois é… por quê, né…
Crianças são honestas. E cruéis.
— Tenho um tempinho livre antes do próximo turno. Você também devia sentar, Nukumizu-kun.
Sentei ao lado de Yanami e a observei em silêncio. Ela comia o dango como sempre. O apetite dela não mudou nada.
— O que foi? Quer um também, Nukumizu-kun?
— Não, só estava pensando que você continua com um ótimo apetite, Yanami-san.
— Espera, o que você quer dizer com isso? Está me provocando?
Yanami me encarou com um olhar inexpressivo.
— Não é isso. É que a Himemiya-san comentou outro dia que estava preocupada. Disse que achava que você não estava comendo muito ultimamente.
— Ah, talvez seja porque estou de dieta agora. Tenho controlado o que como.
Ela disse isso enquanto raspava o resto do dango com os dentes.
— Dieta…?
Não é nenhuma dieta que eu conheça.
— Nukumizu-kun, dieta não é só passar fome. Tem gente que diz que é melhor comer porções menores várias vezes ao dia, mesmo com as mesmas calorias — Yanami tirou um segundo espetinho de dango. — Ou seja, eu estou atualmente no meio de uma dieta.
— Mas você deveria reduzir a quantidade em cada refeição, né…? Só comer mais vezes não vai funcionar.
— Eu parei de repetir no jantar e até parei de pedir porção extra de macarrão no ramen. Já está dando resultado.
Com molho ainda nos lábios, Yanami olhou ao redor da sala.
— Não parece muito cheio. Eu fico cuidando aqui. Por que vocês dois não vão dar uma volta?
Isso ia ajudar bastante. Chamei Komari e já estava saindo—
— Ei, Nukumizu-kun. Aonde você pensa que vai sozinho?
— Hã? Eu ia dar uma descansada na sala do clube.
— Vai deixar a Komari-chan sozinha aqui? Isso não parece meio preocupante? Você deveria mostrar o festival pra ela direitinho.
— Espera, eu tenho que mostrar?
Mas… duvido que a Komari queira andar pelo festival comigo. E talvez ela já tenha planos com alguém… embora provavelmente não tenha. Yanami chamou Komari, que estava olhando o celular.
— Komari-chan, para onde você vai agora?
— Ueh? E-eu estava pensando em l-ler na sala do clube…
— Ohh, você também, né? Komari-chan…
Ainda bem que ela entende. Para nós introvertidos, o festival escolar é exagerado demais. Só respirar num canto tranquilo já é difícil. Então, levantando o espetinho de dango, Yanami se ergueu.
— Vocês dois estão proibidos de entrar na sala do clube hoje! Vão aproveitar o festival direito!
— Mas eu deixei um livro pela metade lá…
— Esse livro agora é literatura proibida. Esquece.
Ahh, que tirana… Komari, sem acompanhar a conversa, olhava de um lado para o outro.
— U-Um, e-eu faço o quê…?
— Komari-chan, deixa o Nukumizu-kun te mostrar o festival. Ele pode não parecer, mas é um cara.
— Ueh? E-Eu não quero i-ir tanto assim…
— Uma garota do Clube de Literatura deveria ter pelo menos um garoto no seu entourage — enquanto pegava o terceiro espetinho, Yanami piscou para mim. — Nukumizu-kun, estou contando com você para acompanhar a Komari-chan, certo?
*
O caminho arborizado que se estende desde o portão leste estava repleto de barracas de comida e tendas.
Lotado de alunos da Tsuwabuki e visitantes de fora, Komari e eu fomos abrindo caminho pela multidão, andando próximos à lateral até chegarmos ao fim da rua.
— Ah, parece que chegamos ao final.
— E-Entendi. E-Então, v-vamos v-voltar para a s-sala.
Ainda escondida atrás de mim, Komari não levantava os olhos do panfleto. Como esperado, ela não lida bem com multidões. Eu também não sabia muito bem o que fazer, mas se simplesmente voltássemos assim, a Yanami com certeza faria algum comentário sarcástico...
— Que tal pegarmos algo para almoçar no caminho de volta? O que você quer comer, Komari?
— U-Um... e-eu quero udon.
Uma escolha nada típica de festival. Sim, bem a cara da Komari. Enquanto esperávamos na fila da barraca de udon do Clube de Karatê, ficamos olhando o cardápio. As opções eram Udon Faixa Branca, Faixa Marrom e Faixa Preta. Nada de nomes normais, hein...
— Tem também um "Udon Mata-Vaca" de edição limitada. O que acha, Komari?
— S-Se é limitado e a-ainda não esgotou, é o-obviamente uma armadilha.
Afiada como sempre. Nós dois pedimos o Udon Faixa Marrom, de preço intermediário.
— Aliás, Komari, você está com dinheiro suficiente?
Komari sorriu com confiança.
— E-Eu ganhei uma mesada só para o F-Festival Tsuwabuki.
O Udon Faixa Marrom que recebemos era, na verdade, kitsune udon. Com as tigelas em mãos, saímos do caminho principal e nos sentamos em um banco mais tranquilo. Enquanto eu sentia o vapor subir do udon, o aroma do caldo de bonito fez cócegas no meu nariz. O macarrão aparentemente era feito à mão pelos membros do clube e estava surpreendentemente bom.
Agora fiquei curioso sobre as outras opções. O Faixa Branca deve ser o udon simples, e fico imaginando o que vem no Faixa Preta. Pensando bem, eu tinha visto alguém despejar um frasco inteiro de pimenta ichimi em uma panela. Será que aquilo era o Mata-Vaca...?
Enquanto eu comia e deixava minha mente vagar, Komari abaixou os hashis.
— U-Um, Nukumizu.
— Hm? O que foi?
— L-Lá na sala, a-alguém perguntou se p-podia t-tirar uma foto da e-exposição, p-porque q-queria ler com m-mais calma.
Os lábios de Komari se curvaram em um sorriso tímido e satisfeito.
— Entendi. Que bom.
— S-Sim...
Ela tentou beber o caldo e soltou um baixinho — Quente... — ao se encolher. ...Eu sorvi o macarrão enquanto observava a multidão passando. Não eram só alunos da Tsuwabuki. Havia também muitos moradores de Toyohashi. Ver famílias e estudantes de outras escolas andando pelo campus, que normalmente é só nosso, dá uma sensação meio surreal.
Comparado a essa multidão agitada, o número de pessoas que passaram pelo Clube de Literatura não foi grande. Ainda assim, Komari está satisfeita com o que criou, e alguém por aí apreciou isso. Na noite passada, Yanami chamou aquilo de carta de amor da Komari. Desajeitada, cheia de rodeios, mas ainda assim sinceramente honesta. São os sentimentos dela.
— Então, para onde vamos depois disso?
Falei isso como se estivesse cortando meus próprios pensamentos. Tive a sensação de que acabei entrando fundo demais no coração da Komari, sem cuidado.
— E-Eu não me importo muito. F-Faça o que q-quiser, Nukumizu.
Komari respondeu sem muito interesse, enquanto esfriava o udon. Certo então. Talvez eu passe na turma da Asagumo-san, a Classe F. Tenho quase certeza de que eles estão fazendo alguma barraca.
Além disso, depois de toda a ajuda que ela deu com a exposição do clube, o mínimo que posso fazer é passar lá e cumprimentar. Enquanto eu erguia uma fatia de kamaboko contra a luz, um casal da Tsuwabuki passou na nossa frente, flertando descaradamente.
...Sinceramente, que saco. Balancei a cabeça com um suspiro.
Mesmo sendo um festival, isso ainda faz parte das atividades oficialmente reconhecidas pelo currículo nacional. Então usar o festival escolar como desculpa para flertar é basicamente como colocar uma garota no colo e assistir aula assim.
— O-O que foi? V-Você está com uma c-cara assustadora.
— Eu estava pensando no que estudantes do ensino médio deveriam estar fazendo.
...Mas espera. Se alguém não soubesse do contexto e visse eu e a Komari comendo juntos num banco, isso não pareceria um encontro de festival escolar?
Mesmo ela sendo uma garota, ela se encaixa mais no papel de irmãzinha, e eu prefiro evitar qualquer mal-entendido desnecessário...
— Komari, tenho uma proposta.
— O-O quê?
— Tenta me chamar de "onii-chan" uma vez.
— Cof!
Komari se engasgou e começou a tossir violentamente.
— Ei, você está bem, Komari?
— V-Você finalmente p-perdeu a c-cabeça, n-né...?
— Calma, não é nada estranho. Só me escuta.
— T-Tá bom. F-Fala sua desculpa... e d-depois morre.
Ela arrancou o pacote de lenços da minha mão.
— Olha, o que quero dizer é que, se ficarmos sentados aqui comendo juntos, alguém pode entender errado.
— E-Entender errado...?
— É, do ponto de vista de quem não conhece a situação, isso parece totalmente um encontro de festival—
Komari voltou a tossir.
— De novo? Se sua garganta está tão ruim, melhor ir ao hospital.
— A… c-culpa é sua.
Sério... culpar os outros por tudo não faz bem, sabia? Bom, duvido que alguém veja uma garota engasgando com udon e pense que estamos namorando. Terminei o resto do caldo e imediatamente comecei a tossir por causa do monte de pimenta ichimi que tinha afundado no fundo.
*
A sala da Classe F fica no terceiro andar do prédio novo. Passamos pela cortina e entramos, apenas para dar de cara com uma multidão lotada. Argolas, pesca de bolinhas e outros jogos clássicos de festival estavam alinhados, operados por alunos usando happi. (N/SLAG: Um casaco de mangas compridas usado apenas durante festivais.)
Enquanto Komari e eu ficávamos parados, sobrecarregados pela atmosfera, uma garota baixinha de happi veio correndo até nós.
— Nukumizu-san, você veio!
É a Asagumo-san. Antes que eu pudesse cumprimentá-la, ela deu uma giradinha na minha frente.
— O que acha? Nós mesmos fizemos os happis da turma. Se quiser, posso te dar um também!
O que eu faria com um happi de outra turma?
— Estou bem, obrigado. Ah, eu estou com a Komari, do nosso clube.
Virei para trás, mas Komari não estava em lugar nenhum. Ela estava agachada diante da piscininha, encarando fixamente as bolinhas coloridas.
— Ei, Komari. Essa é a Asagumo-san. Ela ajudou a gente com a exposição.
— Ueh? A-Ah...
Enquanto Komari se levantava, claramente nervosa, Asagumo-san se aproximou dela.
— Você é a Komari-san, certo? Seu manuscrito para a exposição é maravilhoso.
— E-Eh, u-um, n-não, eu q-que devo a-agradecer...
Komari agradeceu de forma hesitante, mas Asagumo-san pegou sua mão e apertou com firmeza.
— Não, não, achei absolutamente fascinante! Fiquei especialmente tocada pela forma como você retratou as relações interpessoais masculinas sob a perspectiva sexual. Então você é uma fujoshi, não é!?
— Una!?
Komari tentou fugir instintivamente, mas Asagumo-san não soltou.
— Eu não tenho amigas fujoshi, então estou muito curiosa! Por favor, me ensine tudo sobre BL no futuro!
Com olhos arregalados como os de um esquilo, Asagumo-san se aproximou ainda mais.
— O... O-O quê...
Ah não, a Komari parece que vai desmaiar.
— Asagumo-san, talvez seja melhor ir com calma. A Komari não lida bem com pessoas muito intensas.
— Ara, me desculpe. Komari-san, por favor, venha sentar aqui.
Ela nos levou até a barraca de tiro ao alvo. Sobre uma plataforma improvisada de caixas de papelão estavam alinhados prêmios, doces, pelúcias e mais. Depois de sentar Komari, Asagumo-san amarrou uma faixa na própria cabeça.
— Pode chegar! Nukumizu-san, que tal tentar um tiro?
Espera... fui envolvido nisso muito rápido.
— Ah, tudo bem. Vou tentar uma vez. Eu escolho uma arma daqui?
Sobre o balcão estavam armas de elástico feitas com hashis. Peguei a maior, e Asagumo-san levantou os dois polegares.
— Excelente escolha! Essa é uma versão personalizada minha. Dá pra atravessar uma lata de alumínio!
Isso é uma arma.
— Por que você fez isso? Se estiver passando por algo, posso ouvir.
— Fui aprimorando sem pensar e deu nisso. Mas aviso: se acertar os prêmios diretamente, eles vão explodir. Recomendo usar a pressão do ar.
...Eu devia ter escolhido outra. Mirei em um pacote de cigarrinhos de chocolate — espera, não é pra acertar direto, né? Ajustei levemente a mira e atirei. A parede atrás tremeu, e vários prêmios voaram com o impacto do ar.
— Acertou!
Asagumo-san bateu palmas animada. ...Eu definitivamente não devo usar isso de novo.
— Você ainda tem dois tiros, Nukumizu-san!
Ela sorriu, oferecendo uma pilha de prêmios. Enquanto eu pensava em como recusar educadamente, Komari tocou meu ombro.
— O-Os veteranos foram ao C-Clube de Literatura. A Yanami t-trocou com eles. V-Vamos voltar.
Salvo. Parece que também recebi uma mensagem.
— Asagumo-san, parece que precisamos voltar. Vou pegar só um prêmio, ok?
— Ara, que pena. Por favor, mande lembranças a todos.
Peguei os cigarrinhos de chocolate e segui Komari, que já estava saindo.
— Não sai andando sozinha. Se o presidente e os outros estão lá, eu também vou.
Enquanto caminhava ao lado dela, conferi o celular. Surpreendentemente, a mensagem não era do presidente, mas da Yakishio. Ela está de plantão com o Clube de Atletismo no campo e convidou a gente para passar lá.
— Parece que a Yakishio me mandou mensagem. Quer passar lá primeiro?
— E-Ela me mandou também... M-Mas tem m-muita gente lá fora...
Komari soltou um suspiro cansado. Mesmo assim, ignorar completamente o convite da Yakishio seria meio rude...
— Certo então, eu passo lá sozinho. Você vai primeiro para o estande do Clube de Literatura.
Me despedi da Komari e segui em direção ao campo. Quanto mais pessoas você conhece, mais esse tipo de compromisso aparece.
— Isso realmente não parece comigo….
Murmurei sem nem perceber. Mas, ultimamente, comecei a sentir que talvez isso não seja algo tão ruim.
*
No campo, vários clubes — começando pelos esportivos — estavam com barracas. Depois de andar um pouco, encontrei a barraca do Clube de Atletismo. A placa dizia: "Desafie a Máscara do Atletismo e Ganhe Prêmios Incríveis!"
Máscara do Atletismo? Estou com um mau pressentimento...
— Nukkun, você realmente veio. Está sozinho?
Ao me virar na direção da voz, vi Yakishio vestindo o uniforme do time de atletismo. Ela usava uma máscara brilhante de baile de máscaras. Uma combinação realmente bizarra.
— Yakishio, o que é esse visual?
— Ah-ah! Agora eu sou a Máscara do Atletismo, entendeu? Aqui está o menu do desafio.
Ela me entregou um panfleto. Aparentemente, se você correr 100 metros contra alguém do time com alguma desvantagem, ganha um prêmio se vencer. Deixa eu ver... para garotos do ensino médio: "Desafie a Lady Máscara do Atletismo sem desvantagem."
— Então, basicamente, vocês não têm nenhuma intenção de deixar a gente ganhar, né?
— Você nunca sabe até tentar! Suas pernas são mais longas que as minhas — bom, talvez do mesmo tamanho.
Isso foi desnecessariamente deprimente.
— Vou passar. Se eu correr com tudo, vou ficar acabado por três dias.
— Então... posso tentar o desafio?
Uma voz interrompeu de repente. Olhei e vi um garoto com uniforme de outra escola. Yakishio piscou surpresa.
— Hã? Takabo? Você também veio.
Ela se virou para mim e explicou:
— Tá vendo? Ele é o Takahashi, do time de atletismo do ginásio Momozono. A gente corria sprint. Um preguiçoso total, aliás.
Não faço ideia de por que ela achou que eu saberia disso. Ela deu um tapinha leve no peito do Takabo.
— Quanto tempo! Ainda está no atletismo?
— Sim, tenho treinado direitinho ultimamente. Tenho confiança de que consigo bater seu tempo nos 100 metros.
— Legal! Quer tentar? Temos prêmios bem interessantes!
Takabo assentiu e tirou o casaco.
— Mais do que o prêmio, se eu ganhar... você iria ao cinema comigo?
— Com você? Ao cinema?
Espera, isso não é basicamente… As garotas do time de atletismo que assistiam por perto soltaram gritinhos animados. Yakishio piscou surpresa com a situação repentina, mas logo abriu um sorriso e respondeu casualmente:
— Claro, por que não!
...Yakishio aceitou mesmo. Mesmo sendo ela, ainda está enfrentando um atleta masculino ativo. E ainda por cima velocista—
Será que estou prestes a testemunhar o nascimento de um novo romance? Meu coração bateu mais forte enquanto a via começar a se alongar.
— Certo, vamos correr 1.500 metros.
— Hã? Não eram 100?
— Você é mais rápido nos 100, né? Fica chato se o resultado for óbvio.
— Mas eu—
— Seus cadarços estão ok? Já aqueceu o corpo? Certo, posição!
Sem espaço para protestos. Assim começou uma corrida de 1.500 metros valendo um encontro no cinema.
...Alguns minutos depois, testemunhei o momento em que um romance nascente morreu.
*
No caminho de volta para o prédio oeste, me peguei pensando no Takabo.
— Isso vai deixar uma cicatriz...
O que ele deve ter sentido naquela última meia volta, depois que Yakishio cruzou a linha de chegada...? Bom, é o que acontece quando você se declara de repente na frente de todo mundo. Sim, a culpa é do Takabo. Existe algo chamado "magia do festival cultural", mas até magia precisa de um truque por trás.
Nesse momento, ouvi aplausos vindos da janela do corredor. Olhando, vi um grupo chamativo no pátio. Yanami estava com roupas brancas, e seus colegas estavam fantasiados. A turma 1-C, com sua apresentação Street Halloween, aparentemente havia começado sua peça.
Não dava para ouvir as falas daqui, mas parecia uma história estrelada pela Yanami como um fantasma e seu colega Nishikawa como Okita Souji. Provavelmente devo assistir um pouco, ou a Yanami vai ficar me enchendo depois.
Apoiando o cotovelo na janela, observei a apresentação. Provavelmente era uma dessas histórias trágicas de amor entre um humano e algo não exatamente humano. Quando Yanami, contendo as lágrimas, tentou ir embora, Nishikawa segurou sua mão e a puxou para perto. No fim, parecia terminar com Nishikawa segurando Yanami morta em seus braços.
...Por que um fantasma morre?
— O roteiro é uma bagunça.
Sem perceber, murmurei irritado e segui rapidamente em direção ao estande do Clube de Literatura. A sala da exposição logo apareceu. Tsukinoki-senpai me viu e acenou.
— Ei, Nukumizu-kun! Estávamos esperando! Vem ajudar aqui!
Quando entrei na sala, o cenário tinha mudado completamente. Havia muitos visitantes agora. O presidente distribuía doces para um grupo de crianças, e Komari andava de um lado para o outro com cartões de carimbo nas mãos.
Quando me viu, Komari demonstrou alívio e veio até mim.
— V-Você demorou. A-Ande logo e a-ajude.
— Não tive escolha. Aconteceram várias coisas. Um romance acabou, um fantasma morreu duas vezes, esse tipo de coisa.
— P-Para de falar e t-trabalha. T-Tem gente e-esperando para comprar l-lanches.
Komari me empurrou para frente. Havia várias pessoas com dinheiro na mão esperando pelos doces. Era gente demais para a Komari, que precisa recarregar toda vez que fala com alguém desconhecido.
Depois que consegui atender todos, o presidente abriu a caixa de dinheiro.
— Vendemos bastante. Deve estar em torno de 30 agora.
— Bastante movimento. Alguém distribuiu panfletos?
— O Ayano-kun distribuiu alguns. Muitas crianças vieram pelos lanches. E famílias com crianças pequenas também passaram aqui para descansar.
Seguindo o olhar dele, vi uma criança comendo doces no colo da mãe na área de tatame. Ao lado, uma criança inquieta tentava carimbar um cartão com as mãozinhas. Komari, toda atrapalhada, ajudava. E, por algum motivo, a Tsukinoki-senpai estava extremamente popular entre as crianças. Meninos e meninas ouviam atentamente sua explicação.
— Vocês não devem subestimar livros ilustrados, crianças. Eles contêm tudo: amizade, compaixão, aventura. Até eu, que explorei todas as possibilidades, considerei esse gênero território proibido—
...Devo interromper? Se for necessário, não hesitarei. Enquanto observava a senpai, o presidente falou comigo:
— Nukumizu, já terminou de passear pelo Festival Tsuwabuki?
— Parece que já vivi três anos em um só dia. Você não deveria estar se divertindo com sua namorada, presidente?
— Vou ficar mais um pouco.
O presidente jogou algumas moedas na caixa e abriu um pacote de amendoins. Disse isso enquanto observava as costas da Tsukinoki-senpai com um olhar gentil.
— O Clube de Literatura nunca fez nada grande no festival antes. Conseguir montar uma exposição de verdade assim no final... sou muito grato a você, Nukumizu. Se fosse só eu e a Koto, não teríamos deixado nada para trás.
Ele deu um leve tapinha no meu ombro, visivelmente emocionado.
— Quem mais se esforçou foi a Komari.
Os sentimentos que a Komari colocou naquelas 50 mil palavras, e os sentimentos de quem recebeu aquilo. Tudo isso está reunido nesse espaço cheio de vida, se transformando em memória. Era para isso que servia o dia de hoje. Nesse momento, um garoto do ensino fundamental, segurando um panfleto, espiou timidamente pela porta.
Certo, hora do último turno. Abri meu maior sorriso e acenei para ele entrar.
*
Depois de nos despedirmos do último casal de alunos da Tsuwabuki, restamos apenas quatro na sala: os dois veteranos, Komari e eu. Faltavam menos de 10 minutos para o encerramento, e o movimento no corredor do prédio oeste já tinha diminuído bastante.
— Com isso, todos os 40 pacotes de lanches foram vendidos. Ainda temos o suficiente para distribuir?
Perguntou a Tsukinoki-senpai, fechando a caixa de moedas.
— Guardamos alguns biscoitos. Já que ninguém mais deve vir, acho que vai dar.
As revistas do clube impressas estavam reduzidas a cerca da metade. Não há garantia de que todos que pegaram vão ler, mas só de saber que estão nas mãos das pessoas já me deixa feliz de verdade.
O fim do festival está próximo. Uma sensação estranha — parte nostalgia, parte alívio.
Komari e Tsukinoki-senpai estavam em uma discussão acalorada diante da exposição, debatendo sobre as dinâmicas sociais entre Soseki e seus discípulos. Por que estão levando um episódio fictício tão a sério...? Parecia exatamente como o nosso cotidiano tranquilo no clube.
Então, uma música suave começou a tocar pelos alto-falantes. Aquela música que sempre toca em lojas pouco antes de fechar. O relógio marcava cinco minutos para o fim.
— Ouvir "Hotaru no Hikari" realmente dá a sensação de que tudo está acabando, né.
Quando murmurei isso sem pensar, Komari me lançou um olhar desconfiado.
— É "Valsa de Despedida", n-não é?
— Hã? Mas não cantamos isso na formatura? É outro nome?
— U-Um...
Enquanto eu tentava organizar minhas memórias confusas, Tsukinoki-senpai entrou na conversa.
— "Hotaru no Hikari" e "Valsa de Despedida" são ambas adaptações de uma canção folclórica escocesa. É como no meio doujin: mesmo com a mesma obra original, a posição muda dependendo de quem está por cima e quem está por baixo.
Isso pareceu meio estranho, mas algo me disse para não insistir. Caímos todos em silêncio, ouvindo a música. Incluindo a preparação, o longo Festival Tsuwabuki finalmente chegava ao fim.
Tsukinoki-senpai puxou suavemente a cabeça de Komari para perto.
— Obrigada, pessoal.
Quem quebrou o silêncio foi o presidente, em voz baixa.
— Eu não sou exatamente um presidente de clube muito dedicado. Causei muitos problemas para vocês...
Ele se curvou profundamente.
— Obrigado. Conseguimos fazer a melhor exposição no final. De verdade... foi graças a todos vocês.
— Palmas, palmas, palmas.
Tsukinoki-senpai começou a aplaudir. Komari e eu a acompanhamos.
— Shintaro, por que você está virando as costas pra gente? — Perguntou Tsukinoki-senpai, com um sorriso brincalhão — mas mais maduro do que quando a conhecemos.
— Não é nada... sério.
Exposição do Clube de Literatura no Festival Tsuwabuki, Leitura Comestível. Total de visitantes: 117. Doces vendidos: 40. Revistas distribuídas: 14.
Comparado aos clubes mais populares, ainda são números pequenos. Não é como se isso fosse mudar a posição do Clube de Literatura da noite para o dia. Se alguém chamasse isso de auto-satisfação, não estaria errado.
Comecei isso para apoiar a Komari, mas no final... acho que também quis fazer por mim mesmo. É assim que sinto agora. Dos alto-falantes, a voz calma da presidente do conselho estudantil ecoou:
— São agora 16 horas. Com isso, encerramos o 98º Festival Tsuwabuki.
*
No portão sul da Escola Tsuwabuki, Tsukinoki-senpai e eu aguardávamos o carro. Precisávamos devolver os tatames emprestados, e os pais dela viriam de carro. Eu estava ajudando com a carga junto com o presidente.
...Espera, agora que penso nisso, não vi mais o presidente.
— Senpai, você sabe onde o presidente está?
— Pedi para ele buscar minha bolsa na sala. Deixei minha carteira e meu celular lá.
— A Komari ainda está lá. Você podia ter pedido pra ela trazer.
— Bom, não parece meio estranho pedir para uma kouhai carregar a bolsa da gente?
Mas tudo bem se for o namorado, né? Eu ia reclamar, mas então percebi. Essas pequenas interações logo se tornariam raras.
— Com isso, vocês veteranos também estão se aposentando do Clube de Literatura. Dá uma sensação meio solitária.
Falei baixo, observando os carros passarem na rua.
— Ara? Que fofo você dizer isso. Não está secretamente feliz de se livrar da gente?
— Conversa é o lubrificante da sociedade, afinal.
— Ohh, Nukumizu-kun, essa foi boa.
Nós dois rimos, depois ficamos em silêncio novamente. Esse tipo de conversa superficial só tornava a sensação de despedida ainda mais evidente. Forcei-me a quebrar o silêncio.
— A Komari parece estar se sentindo pressionada por virar presidente.
— Eu imaginei.
— Tem aquela reunião de presidentes no próximo fim de semana, né? Ela tem que se apresentar e dar um relatório. Pode até ler de um roteiro, mas… — mas, para a Komari, não é tão simples. — Você poderia continuar apoiando ela só mais um pouco?
— Se eu pudesse — Senpai sorriu de leve, com uma tristeza silenciosa. — Mas isso agora é seu papel, Nukumizu-kun. Não no sentido romântico nem nada. Por mais que eu me preocupe, só você pode ficar ao lado dela. É a esse ponto que ela chegou.
Os veteranos já começaram a contar os dias restantes da vida escolar.
Eles estão olhando para frente, caminhando por um caminho diferente do nosso.
— Sinto que a Komari não me deixa me aproximar mais, de alguma forma.
— É mesmo? A Komari-chan confia muito em você, Nukumizu-kun. Por isso quis que você fosse o vice-presidente. Esperava que você a apoiasse no meu lugar.
— Mesmo assim... eu não sou como você, senpai.
Eu só estou dando desculpas. Não para outra pessoa — apenas para ela, a única diante de quem posso admitir minha fraqueza.
— A mesma coisa aconteceu no Festival Tsuwabuki. Ela tende a carregar tudo sozinha. Nos momentos mais importantes, ela afasta os outros. E as únicas pessoas que conseguem alcançá-la nessas horas são você... e mais uma pessoa.
Virei-me para olhar o prédio da escola atrás de mim. Segundo andar do prédio oeste. O presidente tinha subido até lá mais cedo, para a sala vazia que serviu como exposição do clube. Para a sala onde a Komari ainda está — sozinha.
— O presidente está demorando. Será que eu deveria mesmo ficar aqui em vez de voltar?
Ao ouvir isso, Tsukinoki-senpai sorriu de lado.
— Nukumizu-kun, você está falando do Shintaro e da Komari-chan?
— Ah, bem...
Acabei ficando sem palavras.
— Com a gente aqui fora, isso significa que eles estão sozinhos na sala, certo?
Depois disso, senpai ficou em silêncio novamente. Sentindo o clima estranho, coloquei a mão no bolso. Meus dedos tocaram uma caixinha pequena. Eram os cigarrinhos de chocolate que ganhei no jogo de tiro. Tirei um e ofereci a caixa.
— Quer um, senpai?
— Claro, vou pegar um.
Senpai riu baixinho e pegou um.
— Sabe, pode não parecer, mas eu sou meio provocadora.
— Hã?
Ela segurou o cigarrinho de chocolate entre os dedos e o levou aos lábios, como se fosse um cigarro.

— Mesmo antes de a Komari-chan se declarar, eu já sabia que ela gostava do Shintaro. Mas achei que ela nunca faria nada a respeito. Pensei que tudo terminaria apenas como uma lembrança agridoce.
Senpai deu de ombros, como se estivesse fazendo pouco caso.
— Não entenda errado, tá? Eu realmente gosto muito da Komari-chan. Mas acho que a subestimei. Achei que, como mulher, eu estava mais próxima do Shintaro do que ela. Achei que não perderia.
— Bem... no fim das contas, foi isso que aconteceu.
Por trás das lentes dos óculos, senpai me lançou um olhar de lado.
— Naquela noite do acampamento. Se a Komari-chan não tivesse reunido coragem... Se eu e o Shintaro tivéssemos continuado presos naquele mal-entendido, as coisas poderiam ter sido diferentes.
— Isso não é bem...
Tentei dizer algo, mas acabei me perdendo em palavras vagas. Senpai sempre enxergou a Komari como alguém frágil, alguém que precisava proteger. E, de certa forma, isso não estava errado. Mas aquela sua adorável kouhai era um pouco mais forte do que ela imaginava.
— No fim, parece que eu consegui ser feliz passando por cima da Komari-chan.
— Foi por isso que você deixou os dois sozinhos de propósito?
A culpa que ainda permanecia no coração da Tsukinoki-senpai. Eu conseguia entender de onde isso vinha. Mas, como ela mesma disse, relacionamentos são imprevisíveis. Um único detalhe fora do lugar pode mudar tudo. Mesmo sentimentos cultivados por muito tempo nem sempre chegam à pessoa certa. Eu tinha visto algo assim não muito tempo atrás.
— Se você continuar bancando a cupido assim, alguém pode acabar roubando ele de você um dia.
Diante do meu aviso meio desajeitado, ela exibiu aquele sorriso malicioso de sempre.
— Se isso acontecer, eu simplesmente conquisto ele de novo. Afinal, tenho 18 anos.
Tsukinoki-senpai mordeu o cigarrinho de chocolate que segurava entre os dedos. Depois de rir por um tempo, sua expressão mudou de repente para uma leve inquietação, e ela olhou em direção ao prédio da escola.
— Ainda assim, eles estão demorando bastante, não acha?
— Você não já estava preparada para isso?
— Tudo tem limite, sabe.
Qual foi... como ela é egoísta. Embora isso não seja novidade.
— Quer que eu ligue para o presidente para ver o que está acontecendo?
— Isso não faria parecer que não confiamos neles? Daria uma impressão ruim. Então—
Tsukinoki-senpai apoiou casualmente o cotovelo no meu ombro.
— Nukumizu-kun, vai dar uma olhada rapidinho para mim, vai?
...Essa mulher realmente é egoísta. Mas nada fora do esperado.
*
O anoitecer no prédio oeste. A luz do sol poente entrava pelas janelas, tingindo o corredor com um brilho alaranjado. Parece que todas as outras salas já terminaram de desmontar tudo do Festival Tsuwabuki. Não havia sinal de mais ninguém por perto.
A sala da exposição do Clube de Literatura também estava quase vazia, restando apenas os painéis na parede para retirar. Quando cheguei à sala e espiei para dentro, Komari estava lá — sozinha. O presidente não estava em lugar nenhum. Talvez tenhamos nos desencontrado.
Eu já estava prestes a voltar, mas a expressão da Komari me fez parar. Ela estava sozinha na sala escurecida, olhando em silêncio para a exposição na parede.

Ela permaneceu assim por um tempo e, então, como se tivesse tomado uma decisão, Komari deu um passo à frente e estendeu a mão. Mesmo ficando na ponta dos pés, ainda não alcançava. Equilibrando-se em um pé, esticou-se mais, mas seus dedos continuaram tocando apenas o ar.
Entrei na sala e estendi a mão por cima da cabeça dela.
— N-Nukumizu…!
— Komari, posso tirar isso, né?
Ela assentiu levemente, e eu descolei o papel com cuidado para não rasgar, erguendo-o diante de mim.
— Nada mal, se quer saber. Dá até a sensação de que é um desperdício jogar fora.
— V-Você nem fez isso.
Komari me deu um leve cutucão em resposta, depois voltou a olhar para a sala iluminada pelo pôr do sol. Acompanhando seu olhar, observei também. As mesas estavam alinhadas até o fundo da sala — todas vazias.
— A-Acabou…..
As palavras escaparam dos lábios de Komari. Tentei dizer algo, mas nada veio. Então permaneci em silêncio. O presidente provavelmente teria dito algo apropriado. Em momentos assim, ele daria um sorriso um pouco sem jeito e escolheria cuidadosamente palavras só para a outra pessoa.
— Aliás, o presidente não apareceu? Ele não ia vir pegar a bolsa da Tsukinoki-senpai?
— E-Ele passou aqui a-antes... e j-já foi embora.
Então realmente nos desencontramos. Empilhei cuidadosamente os papéis retirados sobre a mesa, tomando cuidado para não amassar, e olhei para o relógio.
— Acho que também já vou indo. Tenho que ajudar a carregar os tatames.
Komari não respondeu — apenas continuou olhando para os papéis empilhados. Achei difícil simplesmente ir embora, então abri a boca de novo.
— Você conseguiu falar com o presidente?
…Por que eu perguntei isso? Sem graça, senti o olhar confuso dela sobre mim. O silêncio ficou estranho, então me apressei em completar:
— Quer dizer... não vão ter muitas chances de conversar a sós daqui pra frente, né? Então pensei que...
Com um suspiro, Komari assentiu de leve.
— E-Eu consegui a-agradecer direito.
— Entendi. Eu também preciso agradecer a ele. Ele fez muito por mim.
— V-Você entrou no C-Clube de Literatura só recentemente, n-não foi?
Ah? Vai usar a hierarquia agora? Cruzei os braços e sorri de canto.
— Tecnicamente, sou seu veterano. Eu apareci no primeiro dia das inscrições e me inscrevi sem nem perceber. Só que ninguém notou que eu tinha entrado.
— N-Não esquece que fui eu quem d-desenterrou aquele m-membro fantasma e t-te trouxe de v-volta.
— Espera, eu estava enterrado?
...Aquela garota estranha que falou comigo de repente nas férias de julho. Era a Komari. Parece que foi ontem — e ao mesmo tempo, que faz muito tempo.
— Você frequenta o Clube de Literatura desde abril, né? Teve muita gente nas inscrições?
— M-Minha primeira vez foi b-bem no final do p-período de inscrições. E-Então... só eu.
Komari estreitou os olhos e olhou pela janela. O céu do entardecer ia ficando cada vez mais escuro. Ela entrelaçou os dedos com força.
— E-Eu me diverti m-muito no Clube de Literatura. S-Sou muito grata aos v-veteranos.
Sua voz oscilava entre falar consigo mesma e querer que eu ouvisse.
— O p-presidente também m-me agradeceu. D-Disse que o Clube de Literatura c-chegou até aqui g-graças a mim.
— Que bom.
— S-Sim.
Durante os três meses antes de eu ser "desenterrado", os dias entre os veteranos e Komari provavelmente foram tranquilos, como uma luz suave de sol. Me pergunto como Komari vê os dias que começaram a mudar um pouco quando nós nos juntamos a ela. Mas, no fim, os dois inevitavelmente vão partir. E se nós nunca tivéssemos entrado—
A imagem da Komari sentada sozinha na sala do clube me veio à mente.
— O-Os veteranos estão s-saindo agora.
— É... provavelmente não vão mais aparecer muito por lá.
Ao ouvir isso, Komari assentiu lentamente.
— E-E quando o novo ano começar, e-eles vão parar de vir por causa dos exames... e q-quando o futuro deles estiver decidido... j-já vai ser a formatura.
Amanhã começa novembro. Quando recebermos os resultados finais, o segundo semestre já terá acabado — e, quando começamos a contar o tempo restante, ele parece assustadoramente curto.
— E-E daqui pra frente... v-vou ver cada vez m-menos o p-presidente. Dói um pouco pensar que e-ele vai a-aos poucos desaparecer da minha m-memória...
Ela disse a última parte quase num sussurro, com os olhos baixos escondidos pela franja. Assim como o pôr do sol não pode ser interrompido, os sentimentos dela pelo presidente também se tornariam memórias com o tempo. Komari devia se sentir solitária com isso.
— Mas acho que está tudo bem.
Dessa vez, murmurei como se estivesse tentando convencer a mim mesmo. Komari franziu a testa e me encarou.
— T-Tudo bem? O q-que quer dizer com isso?
— Quer dizer... não sou fã da frase "o tempo cura tudo", mas talvez existam coisas que só podem terminar com o tempo.
— F-Falou quem... c-como se j-já tivesse s-sido rejeitado.
O quê?... isso virou critério agora? Ser rejeitado como status? Bom, tecnicamente já fui rejeitado por alguém de quem nem gostava, então serve.
— E-Eu meio que entendo o que v-você quer dizer, N-Nukumizu, mas—
Komari se sentou sobre a mesa.
— F-Ficar só esperando as coisas a-acabarem, carregando tudo isso... também dói. P-Por isso... fico meio feliz de t-ter conseguido aliviar u-um pouco hoje.
…? O que isso quer dizer? Se isso ajudou ela a se sentir melhor, então—
— Não me diga que você se declarou de novo?
— Una!? C-Claro que não!
Ainda bem. Nenhum cara aguentaria rejeitar a mesma garota duas vezes. Suspirei aliviado.
— E-Eu só perguntei se... e-ele já chegou a gostar de mim.
Komari mexia nos dedos, parecendo um pouco constrangida.
— Como assim?
— T-Tipo... se a T-Tsukinoki-senpai não estivesse lá... e-ele teria se apaixonado por mim... f-foi isso que perguntei.
Hã!? O que é isso que ela está jogando assim de repente!? Segurei o impulso de bombardear com perguntas e respirei fundo.
— E o que o presidente respondeu?
— O presidente é m-muito gentil, então...
Foi só isso que Komari disse, e então deu um pequeno sorriso solitário. Aquele sorriso era o melhor esforço dela para parecer forte — e a luz suave do entardecer parecia tentar encobrir isso. Não importa qual foi a resposta, já acabou. Pode chamar de consolo, de conforto — como quiser.
Até a gentileza do presidente, no fim, só deixou pequenas dores no coração da Komari. Quando me sentei ao lado dela na mesa, ela murmurou quase em um sussurro:
— S-Será que... se eu não tivesse me declarado... e-existiria um o-outro futuro?
O cabelo levemente avermelhado de Komari brilhava suavemente à luz do pôr do sol, balançando de leve. Fiquei momentaneamente hipnotizado e apenas assenti, fingindo naturalidade.
— Talvez.
Outro futuro. Nesse mundo, quem estaria ao lado dela — e quem não estaria? Depois de um tempo em silêncio, Komari voltou a falar, pausadamente:
— E-Eu gostava muito do tempo q-que nós três passávamos juntos, q-quando a T-Tsukinoki-senpai ainda estava com a gente. M-Mas, durante o a-acampamento... eu senti que... p-poderia acabar destruindo tudo isso. P-Por isso... só deixar como uma m-memória bonita... não parecia certo.
Ela desceu da mesa, virou-se de costas para mim e entrelaçou as mãos atrás do corpo.
— E-E mesmo assim... o p-presidente aceitou t-todas as partes de mim... até as que n-não são tão boas.
Com o pôr do sol às suas costas, prestes a desaparecer, Komari se virou novamente para mim.
— Fico feliz por ter me apaixonado pelo presidente.
Seus olhos sorriam com sinceridade — e, por algum motivo, isso me fez esquecer de respirar por um instante.
— Entendi...
Foi tudo que consegui dizer. Komari assentiu com um sorriso tímido. Então, de repente, como se percebesse algo, entrou em pânico e começou a mexer na barra da roupa.
— O-O que eu estou f-falando pra você, Nukumizu...?
— Bem, se alguém tinha que ouvir isso, acho que sou a pessoa certa. Não é como se eu tivesse muitos amigos mesmo.
Saltei da mesa e olhei o relógio de forma exagerada.
— Esqueci completamente dos veteranos. Preciso ir.
— E-Eu vou também...
Ao sairmos da sala, olhei para trás — e vi Komari fazendo o mesmo. Ela fez uma pequena reverência para a sala e começou a andar rapidamente pelo corredor. Fiz o mesmo e corri para alcançá-la. Komari me olhou de canto.
— O p-presidente e a Tsukinoki-senpai c-confiaram em mim e deixaram o C-Clube de Literatura nas minhas mãos. P-Por isso... eu quero c-corresponder a isso.
— O festival deu certo graças a você. Acho que você já fez mais do que o suficiente.
Komari balançou a cabeça.
— D-Dessa vez, tive a ajuda de todo mundo. D-Da próxima... preciso conseguir dar conta sozinha—
Ela respirou fundo e repetiu:
— S-Se não conseguir... não vou ser capaz de proteger o Clube de Literatura.
Gratidão pelos veteranos. O peso da responsabilidade. Ter motivação não é ruim, mas havia algo nisso que apertava meu peito—
— É. Dá o seu melhor. Mas a gente ainda está aqui também, então não precisa se forçar demais.
— O-Obrigada, Nukumizu. M-Mas...
Ela disse isso de forma surpreendentemente direta, depois sorriu suavemente, como se dissesse "não se preocupe".
— E-Eu vou ficar bem.
O sorriso da Komari era dolorosamente transparente. E, no fim, eu ainda não sei como interpretá-lo.
📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag e revisado por Shisui
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