OVERKILL
Capítulo 3: As Pequenas Coincidências Entre Você e Eu
Numa batalha contra vampiros, raros são os casos onde o corpo humano é deixado num estado em que pode ser reconhecido.
O cemitério dedicado aos Soldados de Elite que morreram em batalha tinha túmulos sem nome, marcados apenas por uma tampa de concreto. Sobre esta, descansava a arma que o falecido em questão utilizava em batalha.
De pé rente ao túmulo do único soldado falecido na última missão, o Líder Absoluto prestou uma continência.
Em seu ombro estava Mr. Gold, um patinho dourado de quepe, cujo arrancou uma das penas e deixou cair sobre o túmulo.
— Obrigado pelos serviços, David.
Mesmo sem um nome para marcá-lo, reconhecia o soldado apenas pela arma disposta sobre seu túmulo, o mesmo para todos os outros que aqui descansavam.
Seu momento de silêncio acabou interrompido. Outro subordinado chegou para informar:
— Sr. Thunder! O Soldado Devic interceptou Ludwig, mas não há confirmação sobre a morte do vampiro.
Apesar do evento, o soldado falou sem qualquer urgência, como se avisando que alguém havia entupido o vaso.
Em resposta, o Líder murmurou e conferiu o relógio de pulso.
— Entendo, pelo visto já é hora. — Com olhar firme, decretou: — Traga ela…
— Se-Senhor!? Mas agora? Está muito cedo!
— É uma ordem! — Sua voz densa tremeu o chão.
O soldado suou ao ponto de se desidratar.
Com o semblante torcido em seriedade, o Líder repetiu:
— Traga a comida do Mr. Gold.
Quack! (Não corteje a morte, inseto!)
Devic e Lucas ficaram para trás. Antes que a noite caísse, mataram um cavalo de três pernas perdido na área e prepararam uma fogueira. Cada um ficou com uma metade da caça.
Acampados sobre os destroços do teatro, o espadachim tinha a esperança de encontrar algum outro vampiro curioso com todo o barulho de sua luta. Tanta ganância acabou por deixá-lo sem qualquer recompensa.
Lucas levantou seu capacete apenas o suficiente para comer sua carne. Entre mastigadas, iniciou:
— Então… como ele era? O Ludwig.
— Ele não morreu.
— Mas não foi isso que eu…
— Eu sei muito bem qual é a sensação de matar o inimigo, e não senti desta vez. Além do mais, logo que saí da ilusão eu consegui arrancar um dedo, mas não parecia ser dele. Era o dedo de… uma mulher.
O astronauta congelou, como se tivesse mordido um prego. Respirou fundo, continuando após desengasgar.
— Você falou sobre uma habilidade de ilusão, né? Bem, esteja ele morto ou vivo, a vitória ainda foi sua.
— Não… Tem alguma coisa errada. Aff, sequer foi uma luta de fato.
— Derrotou um Original e é assim que reage? Podia pelo menos fingir animação.
— Mas foi tudo uma encenação! — interrompeu, seco. — Ludwig é tão estranho quanto a própria habilidade. Ficou me chamando de "ator", e reclamando que eu não trago "drama e tensão" para a história dele.
— Entendi. Aquele clássico tipo que se acha o manipulador foda por trás de tudo, lembro de enfrentar alguns parecidos. — Cuspiu um osso de um metro e meio e continuou em tom cômico. — Mas errado ele não tá.
— Que de lado você está, afinal?
Lucas desconversou com rápidas e ferozes mordidas em seu espeto de cavalo. Terminando a carne, forçou partes de volta pela garganta, assim cuspindo o par de olhos do animal, ainda inteiros.
— Exagero. Essa palavra te define, sabia? Existe uma razão para ninguém se aproximar de você além de mim. Sabe qual é?
Devic coçou o queixo.
Entrou para os Soldados de Elite com um objetivo claro em mente: exterminar os vampiros de La Serva e devolver à humanidade sua antiga glória. Assim como todos os outros. Olhar sério, corpo rígido e palavras afiadas, montava um campo de força ao redor de si. Era sua melhor suposição.
— Por que eu sou velho?
— Errado! — disse Lucas. — É pelo simples fato de que você é um monstro. Mas pra sua sorte, eu sou muito bom lidando com esse tipo de gente.
Ele tirou uma bala de caramelo do bolso e deu para o colega, que aceitou com um sorriso.
Ao mesmo tempo que agradecia, Devic lembrou-se de uma memória distante com Lucas.
Um rapaz sempre alegre, às vezes com piadas fora de hora. Mas de seu falatório inacabável, um modo de pensar específico sempre se destacava.
Uma frase que disse quando conversaram pela primeira vez.
-Está tudo destruído, é verdade! Mas ei, é só reconstruir tudo de novo, né? Só precisamos acabar com os vampiros antes disso.
Tantos ataques mentais nos últimos dias causaram uma dor de cabeça incessante. Essas palavras confortáveis davam certeza de que ainda estava na vida real.
— Sendo honesto, eu tenho um pouco de inveja de você — disse o astronauta.
Num sobressalto, Devic se virou para encarar o colega de cabeça baixa. Suspirava, as mãos tremendo por mais que tentasse evitar.
Tentou descobrir a fonte do incômodo de Lucas, porém esta era invisível aos olhos.
— Ter poder pra cumprir com todos os seus desejos. Seja grato por isso. Para aquele que governa essas terras… você é o único que importa.
Devic sentiu o peso de seu corpo duplicar, junto de uma ardência como se jogado num forno industrial.
Lucas também sofreu o ataque.
AAAAH! Ai, ai, ai, ai…!
Caiu no chão e começou a rolar, os braços envolvendo a cabeça em puro desespero. Seu corpo contorceu, possuído, a voz em agonia alternando entre tons finos e agudos.
Devic segurou o cabo de sua espada, mirando um nocaute em caso de ataque.
De repente, os gritos pararam.
— Huh? Oh, não aconteceu nada! — Relaxou o corpo. — Caramba, tanta adrenalina não faz bem pra mim.
Se levantou num único pulo, tirando a poeira com alguns tapas na roupa.
— Do-Do que tá falando!? O que foi tudo isso?
— Só um ataque de pânico aleatório. Coisa dos vários anos me cobrindo com tripa de vampiro, sabe? Tenho ido na terapia pra resolver, esquenta a cabeça com isso não.
Eles se encararam por alguns segundos, envolvidos numa atmosfera desconfortável. Devic então soltou a espada.
— Você disse que eu sou "o único que importa"? De onde tirou esse enigma do nada?
— Ah, esquece isso. É que eu tô… pensando em escrever um livro, sabe? Tenho que treinar metáforas e essas coisas.
O espadachim desviou o olhar para o chão por um momento, querendo organizar os pensamentos. Acabou levando um susto.
Numa atuação horrível, o olhar passeou pelo horizonte seco antes de um suspiro dolorido escapar.
— Certo... Bem, boa sorte com isso aí, e faça um favor pra mim e avise o Líder que eu retornarei um pouco mais tarde.
— Ok, mas o que você vai…
Devic agarrou o rapaz pelo ombro, fez um giro e arremessou, dando ao céu uma nova estrela.
Agora sozinho, concentrou-se nos sons e descobriu a origem do ruído estranho.
Com um corte limpo de sua espada, abriu um passagem circular no espesso bloco de concreto aos seus pés, dando acesso para o inseto que se escondia logo abaixo.
Uma cabeça de uma boneca de plástico, sem cabelo ou olhos, mas dotada de oito longas patas de aranha.
— Estava aí desde o começo — a aura não deixava dúvidas. —, Ludwig?
— He! Aquele era seu amigo? Vocês parecem bem próximos. Há quanto tempo se conhecem?
A coisa rastejou velozmente pelo braço, agarrada pouco antes de chegar ao rosto.
… Nós meio que começamos com o pé esquerdo ali atrás. Mas agora que analiso melhor, talvez você não seja tão desinteressante quanto pensei.
Em resposta, Devic aplicou pressão nos dedos.
— Ei, Ei, espera! Isso aqui é apenas um fantoche, não meu corpo! Só quero conversar um pouco, além do mais você quer informações, certo? Vai mesmo desperdiçar essa chance?
Em segundo pensamento, foi obrigado a concordar com um curto ranger de dentes.
— O que exatamente você quer de mim? Ou melhor, por quê eu?
— A natureza possui as suas exceções. Já ouviu falar de animais da mesma espécie que desenvolvem características diferentes? Ou de predadores que possuem olhos nas laterais ao invés de frontais? Acontece com mais frequência do que imagina.
— Tá dizendo que eu sou especial de alguma forma? É por isso que fica me atormentando?
— Quase. Na verdade é exatamente o que eu quero descobrir. Mesmo sendo um Soldado de Elite, você ainda é muito mais poderoso do que os outros, e assim sou eu, como um vampiro.
… Desde o dia em que eu nasci eu sabia que era diferente dos outros. Era meu destino me tornar algo maior, e cá estou, um Vampiro Original! Eu sabia que eu era uma das exceções.
Dois pontos brilhantes surgiram para simular os olhos. Uma par de chamas frágeis que giraram sem controle antes de travarem no espadachim.
… Você também é uma exceção, diferente desde o nascimento, e mesmo assim é alguém [fraco]. Não concorda que é um pouco estranho?
Devic franziu o cenho.
… Olhe ao seu redor. Está sozinho e tudo ao seu alcance foi reduzido a destroços, e o único que te faz companhia sou eu. Até mesmo aquele cara do capacete, você o mandou embora porque sabe que vocês não são iguais, mesmo que não admita.
As pernas saltitaram em animação, a cabeça a girar como um pião.
— Estou bem curioso sobre essa sua natureza estranha, e vou descobrir o que te segura nessa fraqueza! Sim, já sei! Para encontrar minhas respostas, eu moldarei você com as minhas próprias…
Trlush!
Prevendo o rumo da conversa, esmagou a criatura no próprio punho.
— Eu não vou ouvir toda essa merda.
Os últimos resquícios da aura de Ludwig desapareceram da área, unindo-se à legião de vampiros exterminada na cidade fantasma adiante.
No entanto, as palavras do vampiro ainda rastejavam sobre seu cérebro.
Quantas vezes Devic e os outros soldados vieram fazer uma limpeza neste mesmo distrito? E quanto mais precisaria repetir o processo?
Matar, comer e dormir. Matar, comer e dormir. Matar, comer e dormir.
Matar e dormir. Matar e dormir. Matar e dormir. Matar e dormir.
Matar. Matar. Matar… e matar mais ainda.
À sua frente existiam dois caminhos, o resultado de suas escolhas até o momento atual.
Em um deles, a repetição dessa mesma batalha, de novo e de novo. No outro, uma escuridão intensa, que exigiria um mergulho para descobrir o que se escondia além dela.
Acelerando os pensamentos com um de seus órgãos especiais, o Terceiro Olho, Devic fez sua escolha.
Com as pistas reunidas nesta batalha, era chegada a hora de um avanço em suas investigações pessoais, e o próximo passo estava definido.
Faria uma rápida visita à biblioteca do exército.
Ao cair da noite, ele agiu de imediato.
Devido a grande discrepância entre suas habilidades e as dos outros Soldados de Elite, acessar os documentos que precisava foi tão fácil que pareceu mais um dia qualquer.
Diversos guardas faziam vigília nesta noite, mas nenhum deles avistou sequer um vulto.
A casa de Devic ficava a pouco mais de dez quilômetros ao sul da área militar, onde estava neste momento.
Ainda com seu uniforme, ele conferiu cada cômodo da casa para garantir que estava sozinho. Já na garagem, uma grande mesa retangular ocupava o centro.
Nela havia montada uma maquete de La Serva, isenta de muitos detalhes, exceto por um largo pedaço de cano posto no centro para representar a Torre.
Ele respirou fundo.
Começou a ler os documentos que pegou, usando tachinhas para apontar na maquete pontos importantes que encontrava em cada um.
Tanto nos documentos da própria região Sul quanto relatórios de missões no exterior, realizou a pesquisa através de um processo simples de eliminação.
Primeiro deveria descobrir onde ocorreram ataques e avistamentos de um vampiro com uma habilidade de ilusão semelhante a de Ludwig. Estes foram indicados com tachas verdes.
Em seguida, selecionou dentre todos os documentos somente aqueles que citavam, por mínimo que fosse, a presença de uma mulher vampira durante a ocorrência. Estes foram indicados por tachas vermelhas.
A leitura se iniciou com um total de 149 documentos, dos quais sobraram apenas 27 após a segunda etapa.
Porém, ao excluir os relatórios que citavam a eliminação do vampiro, o número caía para 9 documentos, e destes ele selecionou os que supostamente tratavam de um Vampiro Original.
Finalmente, restaram apenas 3, mas um deles estava relacionado com o próprio Devic, então o resultado final da pesquisa era de 2 documentos.
E após esta incansável leitura, ele pôde apontar um incômodo contínuo.
— Por que eles nunca escrevem um nome?
Vampiros são uma raça muito orgulhosa, e normalmente era fácil tirar informações deles. Bastava literalmente perguntar e era quase certo que responderiam.
Ainda assim, mesmo que o vampiro nunca revele sua verdadeira identidade, testemunhas costumam dar apelidos ou os próprios escrivães o fazem em ordem de organizar melhor as informações registradas.
Porém, nos dois documentos que sobraram da pesquisa, a vampira era sempre referida apenas como "ela".
A única coisa que indicava o caminho certo para Devic era o relato de Amaldiçoados que estavam no local e confirmaram a presença de um Vampiro Original.
A maquete de La Serva marcava somente dois pontos com a tachinha vermelha. Seus objetivos.
Primeiro o Corredor Sagrado, no Norte. Em seguida, o Castelo de Von Legurn, no Oeste.
Sabia que tinha no mínimo quatro meses de férias acumulados, e o Líder Absoluto jamais negaria uma oferta onde seu funcionário trocava as férias por um trabalho em específico.
Com locais definidos e sem quaisquer motivos para hesitar, ele tomou sua decisão. Quem era essa estranha figura sem nome e que relação tinha com Ludwig, estava disposto a vários sacrifícios por essas respostas.
— Hora de viajar.
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