OVERKILL
Capítulo 4: Sabedoria dos Mortos
Três dias após suas investigações pessoais, Devic recebeu a oportunidade que aguardava.
A Igreja Ghost, se recuperando após a recente morte do Papa, estava mandando algumas equipes para o Corredor Sagrado com o intuito de limpar e recolher quaisquer itens importantes, requisitando um grupo de escolta dos Soldados de Elite para proteger os trabalhadores.
Para chegar lá, foram usados Pontos de Transporte Instantâneo (PTIs), uma tecnologia desenvolvida pelo exército do Sul que atua exatamente como um teletransporte. Haviam poucos deles, dois inclusive conectando ao Norte e outro ao Oeste, enquanto o resto era usado no território dos militares em combates de longo prazo contra vampiros.
Devic foi acompanhado de outros cinco Soldados.
Chegaram no local chamado Grande Templo, construído há poucos meses atrás e sendo adjacente à Torre.
Uma estrutura de mármore branco, ocupando até onde os olhos alcançavam, tão puro que parecia ter sido esculpido diretamente numa nuvem.
Antes usado como base dos vampiros que se escondiam dentro da sociedade sagrada, foi tornado no novo centro de operações da Igreja Ghost. Pessoas necessitadas de todos os lugares vinham até aqui e recebiam toda a ajuda necessária e até mesmo uma residência nova dentro do Grande Templo.
“Faz um bom tempo…”
Esta era apenas a segunda vez de Devic no Norte.
Sua primeira atividade aqui foi há menos de dez anos, quando o Grande Templo nem existia ainda. Era uma missão de resgate, mais para recuperação de cadáveres.
Três indivíduos importantes para a Igreja desapareceram em missão, e encontrá-los ficou ao cargo dos Soldados de Elite.
Foram alguns dias de busca, até que, num buraco com quase 100 metros de profundidade, a tropa encontrou uma catedral secreta. Lá estava apenas uma das três vítimas, um jovem rapaz traumatizado que sequer conseguia falar direito.
Devic acabou voltando para o Sul antes que a vítima se recuperasse.
“Espero que aquele rapaz esteja bem.”
De volta à realidade, ele fez a primeira vistoria na área que chegou com os outros soldados.
Estavam numa vasta praça circular, vazia de bancos, grama ou qualquer outro detalhe comum. Era um largo círculo de concreto construído a dez metros de profundidade, com poucas marcas de um combate antigo que se recusaram a desaparecer mesmo após intensas limpezas.
O objetivo dos soldados tinha sua entrada numa parte da vasta parede que cercava o lugar.
— Ali, acho que aqueles são os contratantes.
Um dos soldados apontou para um grupo acenando em sua direção, para onde todos se dirigiram.
— Pelo uniforme, imagino que vocês sejam os Soldados de Elite.
Um homem moreno de corpo robusto cumprimentou todos com um aperto de mão e um sorriso agradável.
— Meu nome é Russisch, eu sou o líder de um dos grupos de limpeza.
— Eu sou Devic Santos. Pode nos resumir a situação?
Muitas das informações já eram de sabedoria, exceto por detalhes menores que os soldados nem se deram ao trabalho de lembrar.
Sobre o grupo de Russisch, eram todos voluntários. Após a eliminação de Vloid, o Vampiro Original desta região, eles e muitos outros se ofereceram para ajudar a reerguer a sociedade por aqui.
Hoje, o objetivo era recolher materiais para usar na construção civil, principalmente os relacionados à metalurgia, e a fonte destes recursos estava diante deles.
— Este é o Corredor Sagrado. Bem, costumava ser. Nós já pegamos uma grande quantidade de recursos na outra saída, mas parece que eles nunca acabam.
Devic analisou o local. Era um túnel com tamanho para passar duas locomotivas, completamente revestido em placas de metal e que se estendia infinitamente.
O Terceiro Olho lhe protegeu de uma intensa vertigem.
— Estão prontos para entrar?
Russisch foi respondido com o aceno positivo de todos. Tirando ele, o time de limpeza era composto por vinte pessoas. Estes foram divididos em grupos de quatro, cada um sobre os cuidados de um Soldado de Elite.
À frente, liderando o caminho, Russisch era acompanhado de Devic, que puxou assunto pouco após começarem a caminhada.
— Você é daqui do Norte, Russisch?
— Eu? Ah, não, minha terra natal é o Oeste. Meu trabalho principal é de inventor, eu viajo por aí ajudando quem precisa e vendendo algumas bugigangas que desenvolvo no caminho. Acontece que eu acabei chegando aqui no Norte num mal momento e fiquei preso dentro do Corredor Sagrado por um tempo, mas eu e minha equipe demos o nosso jeito e tudo acabou bem. Mas nós temos muito a agradecer ao rapaz que nos salvou.
Deu um riso nostálgico, a mente se perdendo nas lembranças.
— Estávamos presos no Corredor há alguns dias, quem sabe até meses, é difícil ter noção de tempo aqui dentro. Dava pra manter a moral alta, mas eu sabia que em breve o pessoal ia começar a perder as esperanças, ainda mais quando sabíamos que tinham vampiros em ambas as saídas. E foi aí que ele apareceu.
… Ele era um rapaz bem jovem e tímido no começo, mas também é um dos mais dedicados que eu já vi, não é atoa que estava se tornando Cardeal tão cedo. Era bem evidente que estava com medo, mas ele apenas descansou um pouco e continuou o caminho com o passo firme. E advinha o que aconteceu poucos dias depois? O Vampiro Original, Vloid, foi morto. Não tenho provas, mas tenho certeza de que foi aquele rapaz. Eu espero reencontrá-lo um dia para agradecer.
— Realmente impressionante. Você se lembra como ele era?
— Bem, ele ficou por pouco tempo, então é difícil lembrar o rosto. Porém, as roupas sagradas dele tinham vários símbolos, tipo ritualísticos. Oh, e tinha aquele livro estranho. Eu cheguei a apagar a aparência daquilo da minha cabeça. Sentia arrepios só de olhar.
“Poderia ser…”
Teve uma breve lembrança de um garoto que batia com a descrição.
“Não, seria coincidência demais.”
— Mas enfim, Devic, tem algum outro motivo pra estar aqui além da missão de escolta?
Lido como um livro aberto, o soldado deu um breve sorriso amargo.
— Estou procurando uma certa pessoa.
— Oh, e quem seria?
— Eu também me pergunto. Simplesmente não existe registro do nome dessa pessoa em lugar algum, mas minhas investigações indicam que ela já esteve por aqui. Minha suposição é de que ela estava envolvida com toda a questão envolvendo o Corredor Sagrado e o vampiro Vloid.
Russisch acenou com a cabeça.
— Entendo, te desejo sorte com isso. Eu, por outro lado, tô me esforçando é pra esquecer uma pessoa.
— Haha! Algum tipo de rival?
— Não, tá mais pra assombração… — Toda a pele de seus braços arrepiou. — A primeira vez que a vi foi no Oeste, e naquela vez eu já desejei nunca encontrá-la de novo, mas pelo visto o Rei Eterno quis brincar com a minha cara.
… Ela apareceu talvez no mesmo dia em que Vloid foi morto. Estávamos no nosso acampamento dentro do Corredor Sagrado, até que uma mulher alta de vestido preto apareceu falando que era seguro sair, e que iria nos guiar pro lado de fora em segurança.
O rosto de Russisch ficou branco.
— Todo mundo agradeceu, eu incluso, é claro, mas era impossível ignorar aquela sensação assombrosa, como se ela mesma emanasse algum névoa invisível de veneno. Acho que ela chegou a perceber meu desconforto porque sorriu pra mim em um momento. Não sei se me reconheceu do Oeste, e espero que não.
… Sei que não é um acontecimento super raro nem nada reencontrar alguém assim, mas é estranho que aconteceu duas vezes. O que você acha?
Russisch parou a caminhada, só agora notando que o soldado havia paralisado alguns metros atrás.
— Ei… você tá bem?
Ele encarava o chão, o rosto escondido pelos longos cabelos vermelhos.
Preocupado, o inventor estendeu a mão na intenção de consolar o homem com um leve tapa no ombro. No entanto, seu corpo foi repelido.
O Soldado de Elite foi envolvido por uma força invisível e assustadoramente nostálgica aos trabalhadores.
"Poderia ser ela?"
Assumiu que Russisch não era um Amaldiçoado, caso contrário ele teria comentado sobre uma aura vampírica.
Esta mulher misteriosa surgiu logo após a morte de Vloid, além de seu primeiro encontro com o inventor no Oeste. Os dois locais batiam com os destinos do soldado.
No entanto, ela poupou inocentes. Era difícil imaginar um vampiro fazendo isso, mesmo que por vontade própria. Porém, desta vez ela fez isso.
"Por que eles foram poupados?"
"Por que minha esposa também não foi poupada?!"
Grandes veias saltaram no pescoço de Devic, seu corpo inteiro manifestando uma onda de calor tão intenso que algumas das placas de metal nas paredes se contorceram.
Os outros soldados assumiram posição, prontos para revidar proteger os civis de qualquer ataque, apesar de certos de que tal proeza era absolutamente impossível.
Vru-lu-lu-lum…
A pressão de várias atmosferas se acumulou no pequeno espaço, prestes a esmagar todos os presentes.
Até que subitamente foi controlada.
Devic havia tirado um pirulito de um dos bolsos de seu uniforme, acalmando-se logo que o pôs na boca.
Agora sem o risco de aumentar o peso de suas calças em aproximadamente três quilos, Russisch se aproximou, encharcado de suor:
— Se-Senhor… Devic?
O soldado deu uma longa chupada antes de responder.
— Foi mal, tô tendo uns problemas de glicemia baixa, mas nada pra se preocupar. Vamos continuar.
Com suas vidas salvas por um pirulito conveniente, todos começaram a questionar se os vampiros eram realmente o maior problema.
Após andarem por quase uma hora, o grupo alcançou um pequeno acampamento com mais algumas ferramentas. Cada um dos trabalhadores pegou a sua e imediatamente começaram os serviços.
Maçaricos, furadeiras e martelos trabalhando ecoaram pelo local. Cada um dos cinco Soldados de Elite protegia seu respectivo grupo de quatro trabalhadores.
Devic se recostava numa das paredes à frente de todos os grupos, agindo como primeiro obstáculo para qualquer coisa que viesse além do Corredor.
"Eu quase perdi a compostura ali atrás…"
Encarou o time a trabalhar por alguns segundos, em seguida observando o infinito corredor adentro.
"A mulher que ele mencionou. Qual a chance de ser a mesma?"
Lembrou-se do dedo feminino que encontrou após a luta contra Ludwig no teatro. A chance não era zero, ao mesmo que estava longe de ser alta.
Reafirmou, Russisch era um humano normal, então era incapaz de ver a aura vampírica. Apesar disso, a sensação sinistra que descreveu — como se veneno dominasse o ar — dava quase certeza de que se tratava de uma vampira.
"Acho que posso assumir estar correto até encontrar algo que prove o contrário."
Com um brilho esperançoso no olhar, ele anunciou aos colegas.
— Eu vou investigar mais fundo no Corredor. Se eu não voltar em vinte minutos, levem os civis para fora imediatamente.
Todos assentiram com a cabeça, vendo Devic se afastar.
Avançou no Corredor com expectativa, ao mesmo tempo sem muita pressa. O lugar começou a ser explorado e seus recursos retirados há meses, então a chance de encontrar algo de útil era mínima.
Porém, ele tinha uma ferramenta especial de busca implantada junto ao seu cérebro.
Com o auxílio do Terceiro Olho, concentrou-se especialmente em usar audição e olfato nos cantos mais escuros do corredor.
Focado em cobrir uma distância maior, analisou 500 metros por minuto. Seu Núcleo Regulador trabalhou um pouco mais do que o normal, causando um pouco de sangue a escorrer pelo nariz, mas pôde cessar a atividade quando completou 5 quilômetros percorridos.
O ambiente ainda era o corredor, sem quaisquer diferenças aparentes.
Devic então alcançou o que apenas ele enxergava.
As paredes da área possuíam algumas poucas fissuras, provavelmente saídas de ar, todas conectadas entre si. Entretanto, uma delas se isolava do sistema.
Localizada à direita, na altura de seu peito, sendo a origem de algo detectado pelo Terceiro Olho.
“Que cheiro é esse? É fresco.”
Com a [Overkill], sua espada cortou o metal e a rocha como se fosse manteiga.
Ali, ele encontrou uma pequena árvore bonsai, acomodada num espaço apenas alguns centímetros maior. Seus galhos isentos de folhas formavam um pequeno cesto, que guardava um diário de capa verde.
Pegou o item com cuidado e abriu sem pensar muito. O nome na primeira página acabou por confirmar suas suspeitas.
“Capitão Seivaro?!”
Um nome antigo, há muito perdido nas memórias de Devic.
Tratava-se de um outro Soldado de Elite com quem interagia em sua época como recruta.
Um homem que adorava a natureza acima de qualquer coisa, frequentemente presenteando colegas com mudas de árvores que cultivava num jardim particular. Quando se sentia ameaçado ele imitava o chiado de um gato raivoso.
Seivaro desapareceu em uma missão no exterior há quase trinta anos atrás, muitos soldados se voluntariaram para ajudar nas buscas, mas nunca o encontraram.
“Você estava aqui esse tempo todo?”
Devic apertou o livro, parando antes que o tornasse em pó por acidente.
Após respirar fundo e tossir um pouco quando farpas invadiram seus pulmões, ele abriu o livro e iniciou a leitura.
A maior parte era um diário comum. Pelas datas, ele raramente escrevia, mas o possuía há bastante tempo, tanto que os primeiros registros datavam de antes de Devic ser um recruta do exército.
Pensamentos aleatórios, lembretes para datas posteriores, planos futuros, cuidados para se ter com plantas e alguns xingamentos a vampiros que eventualmente invadiam seu jardim.
Era uma vida bem simples e calma comparada com a de outros Soldados de Elite. Porém, as informações interessantes para Devic começaram um pouco depois da metade.
As datas batiam com a época da missão em que o Capitão desapareceu.
Eu conversei com alguns dos Cardeais e consegui confirmar as suspeitas do Líder Absoluto facilmente. Esses caras tão escondendo muita merda. Eu vou fingir ir embora e invadir o Corredor Sagrado durante a noite.
…
Eu entrei no Corredor. É impressionante, tanto quanto a onipresença da minha ex. Haviam alguns vampiros, mas eu me livrei deles sem problemas.
Esse lugar supostamente devia sair da catedral principal e chegar às portas da Torre, e realmente o faz, mas de forma estranha. A viagem a pé deveria levar pelo menos dez dias, isso sem qualquer parada para descanso, mas eu cheguei ao final em apenas três, e eu caminhei com bastante calma. Agora vou procurar por vestígios de uma Maldição ou habilidade vampírica.
Algumas páginas seguiram com mais relatórios cotidianos, estendendo-se até as páginas finais do diário.
Eu me escondi no que acredito ser a metade do corredor. Como pensei, alguma habilidade muito estranha está cobrindo toda a área do corredor, mas não consegui identificar o responsável. Vou investigar um pouco mais antes de enviar o relatório para o Líder.
E então, Devic virou para a última página.
MAIOR ERRO DA MINHA VIDA (depois da minha ex).
Era um vampiro o tempo todo! Um Vampiro Original! Uma mulher alta, cintura fina, cabelinho chanel, olhar de safada, um par de coxas enorme e… ah, perdão.
Eu nunca vi ela na minha vida. Se é um Original, como não existe registro algum sobre a existência dela?! É como se ela sequer existisse! Como uma criatura assim esconderia a própria existência?
Eu despistei ela dentro do corredor, mas tenho certeza que vai me achar em breve.
Se algum de vocês, Soldados de Elite, estiver lendo estas anotações, informem ao Líder Absoluto…
ELA ESTÁ NOS VENDO… O TEMPO INTEIRO!
E antes que fechasse o diário, encontrou uma outra frase escrita em letras minúsculas no fim da folha.
— Maldita… seja… aquela… vadia?
Um súbito arrepio percorreu todo seu corpo.
TRUM!
O Corredor Sagrado tremeu entre curtos intervalos, como se bombas explodissem uma atrás da outra em sua outra saída.
TRUM, TRUM!
Do chão ao teto, o metal se contorceu e assumiu um tom vermelho rosado, tornando-se escorregadio.
Devic brandiu sua espada na intenção de criar uma rota de fuga através de uma das paredes, mas sua lâmina foi repelida pela barreira mole.
“Se eu não consigo cortar, quer dizer que… isso é carne!?”
Antes silencioso, o Corredor agora pulsava com força, prendendo o soldado numa prisão de carne que se estendia para além de onde seus olhos alcançavam.
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