OVERKILL
Capítulo 19: O Rei Eterno III
Com o fim do flashback, a tela de cinema e a poltrona se desfizeram assim como qualquer outra ilusão.
Obviamente Devic sabia que tudo que viu poderia muito bem ser a maior mentira já inventada, mas acreditou que, pelo menos em seus momentos finais, a vampira seria verdadeira.
— Você… é realmente uma filha da puta.
Sem uma cabeça, a boca na base do pescoço sorriu em resposta.
— Eu não me arrependo de nada do que fiz. No entanto, eu admito que você estava certo. Eu não nasci como exceção da natureza, talvez apenas como alguém… um pouco mais obcecada.
…Mas enfim, seu objetivo era me derrotar. Como se sente? Satisfeito?
Devic se pôs a pensar, por um tempo só conseguiu abrir e fechar a boca repetidas vezes, perdendo o raciocínio logo antes que saíssem.
Mesmo com o inimigo admitindo a derrota e que ele estava certo, nenhum gosto de vitória adocicava sua boca. Pelo contrário, a realização trouxe um gosto amargo.
Segurando para não estampar uma cara feia, disse:
— Os Soldados de Elite acabaram, mas existem várias forças especiais por La Serva capazes de lidar com vampiros de nível Descendente. Eu não sou mais necessário.
— E o que vai fazer, então?
Ele procurou nos bolsos, esperando encontrar um pirulito como de costume. Infelizmente haviam acabado.
— Eu… Eu vou visitar alguns lugares especiais pra mim e… acho que vou encontrar minha família depois disso.
Por alguns segundos, o único som a ecoar era o do corpo da vampira se desfazendo.
— Entendo, até já esperava isso de certa forma. Vocês humanos tem essa coisa estranha de se apegarem a coisas que já se foram. Bem, não posso dizer que sou tão diferente assim.
Sentindo suas forças se esvaírem depressa, ela continuou:
— Mas... sabe, há uma pessoa dentro da Torre que você deveria conhecer, além do Rei Eterno. Há um tempo eu fiz uma promessa para esse indivíduo. — Riu curtamente, impressionada com as próprias palavras. — Depois que me tornei vampira, minha vida ficou bem mais chata do que era antes. Foi por causa dele que eu consegui um pouco de emoção de novo.
…Dito isso, alguém sem um objetivo é, assim como você disse, desnecessário. Mesmo que venha de mim, e que em partes seja um pedido pessoal, poderia aceitar uma última missão?
Devic encarou o corpo por alguns instantes, genuinamente considerando dar as costas e ir embora.
Como pode ser tão arrogante assim? Ele quis perguntar. Depois de tudo que aconteceu, todas as mentiras e mortes, ela ainda tinha a audácia de pedir um favor?!
Ele cerrou os punhos pronto para acelerar o processo de morte da vampira, porém outra coisa superou a raiva antes que agisse. O dever de um Soldado de Elite é ajudar aqueles que estão em necessidade, independente de que seja.
O juramento ecoou por um tempo pelas paredes de seu crânio. No fim das contas, um curto estalo de língua pôde ser ouvido.
— Seja breve.
Pela primeira vez, viu o que seria um genuíno sorriso de alegria surgir nos lábios de Carmilla, que não perdeu tempo.
— Dentro da Torre está um rapaz jovem, cabelo verde preso num rabo de cavalo, quero que diga uma coisa quando encontrá-lo…
Com a mão que restava, ela fez sinal para que Devic se aproximasse. Hesitante e cauteloso, ele o fez até que a mulher sussurrasse em seu ouvido.
— …!!
O semblante do espadachim se contorceu em absoluta confusão.
Era mesmo possível um vampiro ter este sentimento por um humano? Ou melhor, era possível CARMILLA, especificamente, sentir isso? Era mais crível ser outro truque de ilusão.
Bem, não teria tempo para questionar, pois o corpo terminava de desaparecer. Missão aceita era missão cumprida, tinha que ao menos deixar isso claro.
— Ce-Certo, eu prometo que irei entregar sua mensagem.
Uma última vez, ela sorriu, não de forma larga, mas um curto e simples sorriso satisfeito.
— Obrigado.
Finalmente, o resto do corpo se desfez em uma névoa mística. A Vampira Original, Carmilla, foi definitivamente derrotada.
Devic ficou parado no lugar por um tempo, processando com calma tudo que passou nos últimos dias. Meses se contar o tempo que ficou preso na ilusão.
Seu olhar vagou entre a direção da qual veio, em seguida passeando pela parede infinita da Torre a poucos metros de distância.
Ele então fechou os olhos e ergueu a cabeça em direção ao céu.
Prometeu para sua esposa e filha que as veria em breve, mas sabia que ambas o perdoariam por se atrasar um pouco. Na verdade, era mais correto dizer que elas brigariam caso ele fosse encontrá-las cedo demais.
Somente uma coisa deveria ser feita antes de ir.
Demorou até a manhã do dia seguinte, finalmente encontrando as duas metades de sua katana.
Amarrou as partes da lâmina com um cordão improvisado feito com um tacho do próprio cabelo, assim devolvendo a arma para sua cintura antes de seguir.
Caminhou sem pressa até a Torre, capaz de reconhecer a entrada somente quando a poucos metros.
O metal negro tinha poucas bordas ou partes mais elevadas, e quando incluído à ausência de luz, o corredor à sua frente se tornava numa passagem para um vazio infinito.
Ele se questionou o quanto havia visto este tipo de cenário até então. O Útero, o interior da [Spieluhr] e agora isso. Não era um cenário exatamente raro, mas ainda era estranho estar acontecendo uma terceira vez em tão pouco tempo.
De qualquer forma, seguiu caminho.
Seus passos sobre o chão metálico ecoavam infinitamente, às vezes parecendo retornar aos seus ouvidos depois de uma longa volta.
Felizmente, demorou apenas alguns minutos para chegar ao fim do corredor, onde um salão aberto e sem limites visíveis guardava seu senhor.
No centro da sala, uma silhueta humana solitária trabalhava alegre num tronco de madeira sobre uma pequena mesa.
"É ele…?"
Esperava alguém sentado num trono ou algo parecido. Uma quebra de expectativa que ergueu uma sobrancelha e levou a mão inconsciente para o cabo da espada. Avançou com cautela.
Sua mente gerava uma nova dúvida a cada passo adiante. A figura não respondia, totalmente concentrada em lapidar o pedaço de madeira com suas ferramentas quase rupestres.
Quando se aproximou o suficiente, uma aura familiar surgiu sobre a cabeça da figura.
Raça Desconhecida
Força (Erro)
Agilidade (Erro)
Inteligência (Erro)
Habilidades Passivas:
Omitido para evitar insanidade.
Habilidades Ativas:
Omitido para evitar insanidade.
Ele tinha uma aura idêntica àquela mostrada quando se encarava um vampiro! Porém, seu título não era de tal, e como se ignorasse todas as outras informações, o coração de Devic se acalmou junto de sua própria alma.
Finalmente, a figura o encarou. Seus olhos com três cores dispostas — vermelho, azul e prata — captavam a essência de seus alvos, moldando-as em sua forma verdadeira para uma conversa pura.
Até então firme e pronto para o combate, o corpo de Devic amoleceu de repente ao ponto de quase cair de bunda no chão. A tensão foi dissipada sem que percebesse, como se o coração e alma fossem acariciados por mãos quentes e confortáveis de uma pessoa querida.
Este indivíduo à sua frente não havia sido descoberto, muito pelo contrário, ele se manifestou por vontade própria! Sendo bondoso o suficiente para alertar sua natureza por meios familiares ao soldado antes de qualquer mal-entendido acontecer.
Ele era…
— Eu não sou nenhum "deus", se é o que está pensando.
Suas palavras tiraram Devic do mundo das ideias.
— Mas… o que é você, então?
— Essa é uma pergunta que todo mundo quer a resposta. No momento, eu descobri que sou bem pior em carpintaria do que eu esperava.
Encarou a obra à sua frente, uma pretensão da imagem humana que de alguma forma terminou numa jarra de suco.
Com riso descontraído, ele pôs um novo bloco bruto de madeira na mesa, oferecendo um par de ferramentas de entalhe para Devic.
— Quer tentar um pouco?
— Sinto muito, mas… eu não vim pra esculpir em madeira.
— Oh, sem problemas. Qual seria sua razão, então?
O Rei começou um novo trabalho, a lâmina de entalhe deslizando como uma faca quente faz em manteiga.
— Eu… não sei.
— Hum? Não entendi, você veio até aqui sem saber exatamente o motivo…? Ah! Já sei, foi algum daqueles passeios aleatórios que as pessoas falam, né?
— Não… — retrucou num curto riso, os olhos mirando o chão vazio. — Na verdade, eu vim aqui para cumprir uma tarefa. Algum rapaz com cabelo preso em rabo de cavalo passou por aqui?
— Poderia ser aquele ali?
O Rei apontou numa direção sem desviar o olhar da madeira.
De súbito, uma luz com efeito de holofote e de origem misteriosa revelou algo pouco distante.
Ao redor de um pequeno altar com uma esfera de cristal no topo haviam duas estátuas. Uma era um rapaz em vestes sagradas que Devic reconheceu como sendo da Igreja Ghost, além de ter um breve senso de déjà vu ao analisar seu rosto.
A outra era um rapaz mais alto, roupas nobres e com o penteado correto. Mais importante que isso era o nome bordado em suas roupas.
— Vast Los Filho?!
O príncipe de Von Legurn em pessoa. Com isso teve certeza, era dele que Carmilla falava.
— O que esses dois estão fazendo aqui?
Diminuindo levemente o ritmo no trabalho na madeira, o Rei Eterno explicou em detalhes o que estava acontecendo, deixando o soldado de queixo caído.
…
"Uma união para dar um fim definitivo à praga dos vampiros?!"
No fim das contas, Vast não apenas estava vivo — se é que transformado em pedra poderia ser considerado como vivo —, mas também estava engajado em tal missão. O jovem em vestes sagradas provavelmente era seu primeiro aliado até então.
"Eles não parecem ser muito fortes."
Pensou nisso baseado unicamente em aparência.
O príncipe tinha um físico destacável, mas o jovem em vestes sagradas era magro, claramente pouco acostumado com lutas diretas. Apesar disso, o livro que tinha em sua cintura emitia uma aura sinistra que fazia até Devic, sendo Devic, pensar duas vezes.
Enquanto analisava ambos, teve uma súbita realização.
— Meu cansaço… ele desapareceu desde que eu entrei aqui!
Ouviu uma curta risada do Rei Eterno.
— Foi mal, eu estava esperando a chance para comentar. Eu curei suas feridas logo que entrou. Aliás, esses dois também estavam bem detonados quando chegaram aqui, ouso dizer que tanto quanto você.
Com alguns últimos toques, ele se levantou e comemorou com as mãos na cintura.
— Certo, terminei outra. O que acha, Devic?
O soldado se aproximou, analisando a escultura junto do Rei. Desta vez a imagem era bem clara.
Era uma grande taça para campeões mundiais, pelos formatos, de algum campeonato de futebol. Junto à taça, uma solitária palmeira.
Um pouco confuso com o simbolismo, Devic perguntou:
— O que isso representa?
— Um sonho distante.
Num estalar de dedos, a escultura desapareceu sala adentro.
— Você disse que veio procurando o jovem Vast, mas ele está um pouco ocupado, como pôde ver. O que pretende fazer agora?
Seus olhos tremiam tal qual os lábios mudos. Como em um poço artesanal, a corda que se prendia ao balde rompeu e este estava agora perdido no fundo. Tinha-o ao seu alcance, mas como agarrá-lo?
O Rei Eterno deu um breve suspiro. Da escuridão, um bloco bruto de madeira do tamanho de uma casa surgiu.
— Escultores costumam dizer que você não faz a arte, ela já está dentro do bloco esperando para ser revelada. Talvez descobrir a sua ajude a encontrar a resposta do problema. — Ofereceu as ferramentas de entalhe outra vez. — Vamos lá, dê uma chance. Deixe sua lâmina falar por você.
Devic encarou as ferramentas com o Rei Eterno, agradecendo antes de recusar pela segunda vez. Foi então que sacou sua espada. Check! Estava nova, como se nunca partida em duas metades.
Entendendo a mensagem, o Rei Eterno sorriu e abriu passagem, observando cheio de expectativa.
Como um herói prestes a enfrentar um grande dragão, o espadachim de cabelos vermelhos observou o largo bloco de madeira por um instante, trocando breves olhares com sua arma, atento principalmente às intenções da lâmina.
Por fim, assentiu com a cabeça e deu um passo à frente.
Fiush!
Vush!
Com a [Overkill], era como cortar o próprio ar. Sem pesos ou impedimentos, sua katana dançou pela tela maciça com a proficiência de um grande artista.
Ao passo que grandes lascas da madeira caíam ao chão e eram varridas para longe pelo Rei Eterno, uma grande forma foi enfim encontrada.
Do túmulo de madeira foi retirado um grande escudo que lembrava um triângulo de pontas arredondadas. Tinha o tamanho de uma casa e era tão grosso quanto cinco pessoas enfileiradas. Na parte frontal haviam vários espinhos de tamanhos variados, os quais se recusavam a deixar ileso qualquer um que ousasse ameaçar a segurança de seus protegidos.
Inicialmente confuso, o espadachim se aproximou de sua obra. Quando deu a volta, descobriu que as costas do escudo não estavam vazias.
Amanda, Claire, Lucas, Russisch, Thunder, Soldados de Elite e civis com quem interagiu até hoje. Uma quantidade quase infindável de pessoas se colocava ali, todas fielmente agarradas à certeza de que o escudo que as protegia jamais se partiria.
Mesmo que escondesse o rosto, as lágrimas que escorreram por suas bochechas eram claras demais para passarem despercebidas.
Seu peito ardia, mas não de tristeza. Os lábios se curvaram para cima numa força impossível de ser controlada, pois era genuína.
"Obrigado."
Acompanhando tudo com uma expressão alegre e paciente, o Rei Eterno só voltou a falar quando ganhou a atenção de Devic.
— Bem… acho que nem preciso comentar nada. Pela maneira com que trabalhou, você parecia saber o que procurava desde o início. Honestamente, não entendi toda aquela sua dúvida do começo.
Em resposta, o soldado riu enquanto encarava os resultados de seu esforço.
De fato, há meses havia chegado nesta mesma conclusão, porém havia a esquecido de alguma forma. Tudo que precisava era lembrar.
No caminho antes escurecido, aquela mesma luz que encontrou brilhava mais uma vez. Mais perto.
Check!
— Eu tomei minha decisão — disse após guardar a espada. — Esta será minha última missão como Soldado de Elite.
Andou até o altar com passos firmes, vendo o Rei Eterno sorrir por cima do ombro.
Poderia ter eliminado um Vampiro Original, mas várias destas criaturas ainda rastejavam pelos cantos mais escuros de La Serva, piores que uma praga de ratos ou baratas.
Eliminar o problema pela raiz. Conseguia sentir o soco que Amanda lhe daria caso se recusasse a participar de algo desse porte.
Então, posicionado entre as duas estátuas já presentes, ele decretou em seu coração:
"Eu serei forte, por todos vocês!"
Após um breve sorriso, ele forçou uma cara séria que chegou a formar uma sombra dramática em seus olhos, assim tornando-se numa estátua.
O Rei Eterno mirou a esfera sobre o altar com um semblante ansioso.
Antes branca e vermelho, a luz emitida passou a ser um amarelo.
— Só mais um pouco.
Um sorriso alegre surgiu em seus lábios, além de uma inspiração que lhe motivou a fazer outra escultura em madeira.
Por fim, a Torre voltou ao silêncio absoluto. Em seu interior, quatro pessoas agora aguardavam pela chegada do próximo indivíduo, seja lá onde ele estivesse neste exato momento.
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