Sputnik Saga Brasileira

Autor(a): Safe_Project


OVERKILL

Capítulo 18: Criança Invernal

No hospital de uma cidade em constante crescimento, as enfermeiras aproveitavam os últimos momentos de sossego antes da correria começar.

A líder do turno, enfermeira Mel, olhou o relógio na parede enquanto as outras conversavam entre si, avisando:

— Está na hora! Vou abrir as portas!

A porta dupla revelou uma fila enorme de pessoas, de jovens adolescentes até idosos que se brincar tinham mais de duzentos anos. Com um grande sorriso, Mel perguntou em voz alta.

— Apenas para confirmar, estão todos aqui para doar sangue, não é?

Todos ergueram as mãos para o alto em concordância, animados. Claro que todos eles eram bem-vindos, mas a líder estranhava um pouco o repentino aumento de doadores.

Poderia muito bem atribuir o fato ao crescer da cidade, que até poucos anos atrás era algo no nível de um vilarejo, agora caminhando a passos largos para ser uma cidade média.

E, na verdade, ela sabia a razão maior para o aumento, apenas queria acreditar que a população não era composta de tarados.

— Quanta gente! Eles estão aumentando bem rápido, não acha?

A mulher resmungou, ao contrário da plateia em fila que ovacionava a chegada da estrela que foi o motivo primário de virem.

— Você ficou surda, por acaso? Eu falei para ficar lá dentro desta vez!

Ah, por favor, seja honesta! Você sabe que eles só estão aqui por causa de mim.

Mel se virou e encontrou exatamente quem esperava, a roupa branca como de qualquer outra enfermeira, diferenciada pelas barras na cor rosa, que apenas esta garota tinha.

O grande par de olhos verdes brilhavam como a grama na manhã após uma noite de chuvisco, e seu cabelo negro na altura dos ombros tão aconchegante quanto a sombra das árvores em um dia quente.

Esta era a parte que a líder, como superiora e praticamente mãe para todas as garotas ali, via nesta pestinha, pois o que os outros na fila queriam ver — todos, de homens à mulheres — era o que estava abaixo deste rostinho meigo.

Ao contrário das outras enfermeiras, o uniforme da garota era mais justo, destacando cada curva de seu corpo. Literalmente cada curva. O formato de seu corpo era tão violão quanto o objeto em si, e não seria loucura falar que o nome do item veio de alguém que vislumbrou esta deusa e teve a ideia. Coxas grossas, um quadril largo e um busto respeito para quem estava longe da meia-idade.

Pessoalmente, Mel achava estranho este favoritismo, se é que poderia chamar assim.

O dono do hospital era um homem velho, e todos sabem o quão pervertidos os idosos conseguem ser, mas fazer isto tudo com uma de suas funcionárias era um pouco demais.

Normalmente apenas as líderes de turno teriam um uniforme com seus nomes bordados diretamente no tecido, mas lá estava o nome "Carmilla" desenhado de forma nobre, com letras tão exóticas que beiravam o ilegível.

A líder evitava questionar a garota sobre o assunto, visto que ela nunca demonstrou estar fazendo isso contra sua vontade — teve oportunidades suficientes para falar —, e apesar dos motivos enojarem um pouco, era um fato que as doações de sangue aumentaram como nunca desde a chegada da jovem.

No começou pensou que se acostumaria, mas ver Carmilla desfilar de forma sugestiva pelos corredores e ser encarada por todos era bem desconfortável.

Tinha a questão do ambiente de trabalho também, mas enfim.

— Quer saber, apenas faça seu trabalho — disse Mel, indo para outra sala. — Lembre-se que seu desempenho hoje está valendo uma promoção de cargo.

— Sim, senhora! — Bateu continência, voltando a atenção para o pessoal da fila. — Muito bem, vamos começar! Os dez primeiros me acompanhem, por favor!

Apesar das desconfianças rotineiras de Mel, o dia seguiu normalmente.

Carmilla, apesar de ter um cunho duvidoso, resolvia qualquer serviço rapidamente quando trabalhava em conjunto com as outras enfermeiras, tanto que a enorme fila de doadores foi atendida antes do horário do almoço, sendo que normalmente levaria um dia inteiro.

Quando a última bolsa de sangue foi coletada, a líder se ofereceu para guardá-la no estoque. As gavetas estavam lotadas, tanto que foi preciso improvisar espaços minimamente adequados para armazená-las.

Dos mais comuns aos mais raros, haviam litros exorbitantes de sangue no hospital, equivalente à água de uma semana inteira para um bairro pequeno.

Mel se assustou um pouco. A semana seguinte muito provavelmente traria o dobro do coletado hoje para o estoque, neste ritmo teria de começar a jogar o sangue mais velho fora para conseguir espaço!

"Por favor, Rei Eterno, me diga que esses doadores não passaram aqui só para ver aquela garota…"

 

Logo a noite caiu. Dos quase duzentos funcionários, menos de trinta cumpriam o turno da noite hoje.

Os passos da senhorita Mel ecoavam pelos corredores vazios, seus olhos encontrando de relance os dos pacientes acamados nos quartos pelos quais passava, alguns acompanhados de uma silhueta quase visível da morte.

Toda a animosidade do turno da manhã e tarde foi usada para alimentar o pesado cheiro de desesperança, um que ficava mais forte conforme se aproximava da última porta do corredor.

Pegou uma das máscaras obrigatórias rente à entrada, não que adiantasse muito. Seu rosto se contorceu logo que abriu a porta, esta fechada antes que o odor se espalhasse e causasse um ataque cardíaco em alguém no corredor.

Na grande mesa fria de metal no centro da sala havia o cadáver nu de um homem adulto. A perícia disse que estava morto há pelo menos duas semanas, algo estranho ao se considerar que o corpo ainda começava a se decompor.

Foi encontrado num dos parques da cidade com o corpo completamente seco, como se o sangue tivesse sido sugado de seu corpo.

— Quer ajuda? — perguntou Mel.

Na sala, sem qualquer máscara e com semblante leve, estava Carmilla.

— Agradeço, mas eu dou conta. Este é o único que preciso conferir hoje, então nem vou demorar muito.

Ver a garota trabalhando lembrava a líder das razões de valorizá-la.

Apesar das ressalvas gerais, Carmilla era uma ótima enfermeira, e o fato de ser a única cujo uniforme tinha as barras na cor rosa deixava isto explícito.

A cor era o indicador para os que trabalhavam com cadáveres, sendo mais específico, com análise, recolhimento de órgãos saudáveis — quando o falecido era um doador — e descarte dos corpos.

O cargo era dificilmente ocupado nos dias de hoje, principalmente após o aumento nas mortes sem explicação e desaparecimentos por toda La Serva, a maioria dos corpos encontrados na mesma situação deste na mesa.

O causador dos ataques misteriosos ainda era um mistério, e muita gente falava de coisas como "chupa-cabra" e outras lendas urbanas, o que obviamente não passava de lorota. Ainda assim, o medo de serem amaldiçoados por energias ruins ou parecido afastava pessoas da área.

— Ficou sabendo? — perguntou Mel para ganhar atenção. — O hospital da cidade vizinha foi furtado outra vez. Cinco cadáveres e mais ou menos doze litros em bolsas de sangue.

Hum? Sim, eu soube, mas o que tem?

— Bem, caso não se lembre, no mês passado perdemos oito cadáveres e cinco litros de sangue, os furtos acontecem muito próximos temporalmente, então não é possível ser o mesmo autor. Você é quem passa mais tempo no hospital. Viu algo ou alguém suspeito?

— Nada que mereça destaque, honestamente. — Colocou as luvas, segurava o bisturi com um sorriso simpático no rosto. — Só achei engraçado o termo que o pessoal começou a adotar pra falar desses ladrões.

— "Vampiros", né? — Mel deu uma curta risada. — Também ouvi vários relatos sobre isso quando fiz turno em cidades vizinhas, mas não acredito nessas coisas. Dee ser um grupo de traficantes de órgãos ou coisa assim ou seita canibal. Não fiquei sabendo de nenhum médico morto até agora, mas é bom ter cuidado.

Ugh~! — Um arrepio visível subiu pelo corpo de Carmilla. — Como consegue falar isso com tanta naturalidade? Comer gente? Que coisa estranha, sinto um embrulho só de pensar.

— Disse quem abre um cadáver que nem criança com caixa de doces.

Carmilla olhou para o corpo, vendo que suas mãos moveram por conta — acostumados aos movimentos — e abriu-o sem sequer notar. Um corte limpo e retilíneo, admirável para quem sequer prestava atenção direta no movimento.

Ante o olhar levemente julgador de Mel, retrucou: — Eu já faço isso há anos, é natural!

Elas riram curtamente, trocando mais algumas palavras antes de ceder para um silêncio profundo.

Carmilla focou no trabalho à mesa. Suas mãos habilidosas como de uma costureira profissional deslizavam por entre os órgãos, empurrando e cortando com cuidado. Rins, pulmões, fígados e corações, tudo que estivesse bom seria devidamente guardado e preservado para futuros doadores.

Mel ficou na sala por mais alguns minutos, observando a garota trabalhar.

"Tão jovem e tão habilidosa. É como se ela fizesse isso desde criança."

A líder conteve o olhar desconfiado, desviando quando encarada diretamente.

Tendo investigado todos os funcionários do hospital — os registrados, pelo menos —, tinha mais que bons motivos para suspeitar de Carmilla. A última a passar por sua triagem e a que menos gostaria que fosse a culpada.

Na verdade, se acontecesse da jovem ser de fato a culpada por algum dos furtos, Mel queria entender as razões por trás do crime e, se possível, livrá-la das punições mias severas.

O passado dela era um mistério por si só, e tinha certeza de ser capaz de perdoá-la por roubar para manter um parente doente vivo ou coisa parecida. Tudo isto, porém, devia permanecer apenas como suas suposições até que a verdade viesse à tona.

— Eu vou pra casa — disse com o sorriso habitual. — Boa noite, e cuidado quando for voltar para casa.

Carmilla agradeceu como em qualquer outro dia, retornando seu trabalho quando os passos pararam de ecoar pelo corredor junto dos grunhidos de incômodo dos acamados.


Após terminar as operações no cadáver, Carmilla o pôs em sua respectiva gaveta e, após bater ponto, voltou para dentro do hospital.

No cômodo refrigerado onde guardavam as bolsas de sangue, ela ignorou completamente todas as opções que havia ao alcance de seus braços.

O estoque estava mais cheio que nunca, com quantidades excessivas de todo tipo sanguíneo. Porém, a que ela escolheu foi uma bolsa separada de todas as outras, isenta do nome do doador ou do próprio tipo sanguíneo, praticamente escondida numa gaveta que ninguém costumava mexer.

Com isso, podia ir para seu último ponto da noite.

De madrugada, com o sol ainda longe da linha do horizonte, a figura vestindo o uniforme branco se esgueirou pelos corredores parcialmente iluminados. Calma, inaudível, ela se espreitou até um quarto cujos os outros vizinhos estava vazio, garantindo a privacidade necessária.

— Boa noite — disse Carmilla ao entrar e fechar a porta. — Vejo que não conseguiu dormir outra vez. O remédio fez algum efeito quanto às dores?

No quarto grande o bastante para até cinco pessoas havia apenas uma cama, onde jazia uma senhora de idade bem avançada.

Um adesivo acima da cabeceira da cama mostrava seu nome, mas Carmilla via apenas o número "049" anterior às letras, e assim era o nome da senhora em sua cabeça.

Pele enrugada e tão flácida quanto a de um frango cozido, tendo até uma cor semelhante. As ondinhas de banha indicavam a drástica e repentina perca de peso que o corpo sofreu, algo revertido à medida do possível por Camilla.

Quando recebeu 049, ela era apenas uma vareta seca, que com sua ajuda agora se tornou num galho principal desta mesma árvore, quase no ponto para dar os merecidos frutos à sua cuidadora.

Mr, murr Os lábios secos se moviam, outra vez falhos em completar uma palavra sequer.

Ao menos os ouvidos da senhora ainda funcionavam bem, algo que a jovem enfermeira podia confirmar ao chegar no quarto, sempre recebida pelo rosto a encarar a porta.

Apesar da falta de palavras completas, Carmilla aprendeu a traduzir o dialeto improvisado dos pacientes assim como qualquer enfermeira. Tinha certeza de que a senhora gostava muito de sua pessoa, afinal não tinha outro alguém para gostar.

— Você não recebe nenhuma visita além das minhas. O que aconteceu com sua família? Os arquivos do hospital dizem que você possui até dois netos ainda crianças, mas nenhum deles nunca sequer deu as caras neste hospital desde que você foi internada há quase dois meses. — Molhou os lábios enquanto encarava a senhora. — É uma pena, eu adoraria conhecê-los.

Iniciou o procedimento padrão.

Após dar um banho na paciente e trocar os lençóis da cama, repôs a bolsa de sangue vazia por uma cheia. A senhora costumava tossir sangue com certa frequência, e seu nível de fraqueza tornava qualquer perda em algo perigoso.

Finalizadas as tarefas, Carmilla puxou uma cadeira e se sentou próxima ao rosto da mulher.

— Você tem bastante sorte. Acredita que o estoque do seu tipo sanguíneo acabou hoje de tarde?

Mr, mrr — disse ela, incrédula.

— Pois é! A sua sorte é que nós temos o mesmo tipo! — Fitou brevemente a bolsa de sangue. — Pode-se dizer que já nos tornamos uma só, hehe!

A velha permaneceu imóvel, os olhos semicerrados. Para ela, a enfermeira era apenas um borrão branco.

— Aqui, está na hora do seu último remédio! — A animosidade pouco contagiante. Praticamente empurrou o comprimido na garganta da mulher, da mesma forma que se faz com animais de estimação. — Não se preocupe, tenho certeza de que amanhã estará muito melhor do que agora.

Suas mãos delicadamente deslizaram sobre os poucos fios de cabelo restantes na cabeça da paciente. Uma grama rala que de alguma forma sobreviveu por tempo demais em um solo há muito infértil, o cérebro já incapaz de processar o significado das últimas palavras que ouviu nesta noite.

— Pode ficar tranquila, eu vou cuidar muito bem do seu corpo. Durma bem…


Quando o dia amanheceu, Mel se ajeitou e foi para o hospital para o turno da manhã.

Devido ao expediente integral do dia anterior, conseguiu permissão para apenas realizar tarefas no setor administrativo — o que levaria menos de cinco horas —, logo depois voltaria para casa e descansaria o resto do dia.

No horário do almoço iria assistir a reexibição de sua novela preferida. Isto é, se tudo corresse normal durante o serviço, o que se provou um mero sonho distante assim que botou os pés dentro do hospital.

— Carmilla? O que aconteceu?

A garota aguardava logo na entrada, o uniforme apertado desviando a atenção para suas curvas e escondendo o rosto tristonho. Os olhos vermelhos e o com leves rugas diziam sozinhas o que ela fazia até alguns momentos antes da líder chegar.

— Bom dia, senhorita Mel… — Mantinha uma postura profissional, apesar da fala entre soluços. — Poderia me acompanhar?

Assentiu sem pensar duas vezes, acompanhando os passos rápidos da garota até a ala dos acamados.

O quarto estava vazio, exceto por uma única cama cujo adesivo na parede que deveria mostrar o nome havia sido arrancado, restando na idosa o número "049", que era o código de identificação presente na roupa hospitalar.

Sendo alguém que cuidava de diversas áreas ao mesmo tempo, Mel dificilmente se lembrava dos pacientes com quem pouco interagia, em especial os que ficavam internados.

A falecida em questão era… uma senhora com problema de pulmão? Ou seria aquela com artrite? Poderia até ser alguém cuja hora havia chegado naturalmente.

— Bem, não tem muito o que fazer. Eu vou chamar uma equipe para recolher o corpo, já sabe o que precisa fazer.

A garota respondeu com um tímido sim, limpando uma lágrima inexistente.

Como líder, pouco podia fazer além de designar as tarefas e forma de proceder com a situação para os funcionários.

Fariam exames para garantir que nenhuma doença erroneamente contaminasse outros pacientes, em seguida haveria a tentativa de contato com familiares e, por fim, a avaliação de rotina por parte de Carmilla.

Com um começo destes, Mel deu um longo suspiro ao imaginar o que lhe aguardava para o resto do dia.

Felizmente, nenhuma outra morte ocorreu entre os pacientes sobre risco, e o estoque de sangue aumentou ainda mais com a presença dos que não conseguiram fazer a doação no dia anterior.

Tinha tudo para ser outro dia normal, e como sempre esta expectativa seria destruída.

Ao invés de aproveitar a folga, Mel teve de trabalhar até altas horas da noite devido alguns imprevistos, o que por um lado lhe rendeu 48 horas extras ao preço de uma provável insônia nesta noite. Valeu a pena, ela pensava.

Para comemorar o fim do turno, decidiu fingir que a diabete não existia e seguiu para os fundos do hospital, onde havia uma máquina de vendas apenas para funcionários com seu doce preferido.

Optou por contornar o hospital ao invés de ir direto pela porta dos fundos.

O estacionamento à sua direita tinha apenas alguns poucos veículos de passeio, uma referência que gerou estranheza instantânea quando chegou à esquina.

Uma van preta estava estacionada perto da saída de emergência.

Mel se escondeu por instinto ao ver o veículo desconhecido, escapando do olhar de duas figuras que saíram pela porta logo em seguida.

Ambas cobriam o corpo coberto dos pés à cabeça, as roupas de cor neutra ajudando no disfarce da noite, mas cujos olhos se destacavam como os de um gato.

Carregado pelas duas figuras, um caixote longo e um tanto achatado, colocado na parte traseira da van que saiu dirigindo quase que imediatamente. Mel evitou ser descoberta ao se esconder atrás de latões de lixo.

"Aquilo era…! Droga, eu não posso perdê-los de vista!"

Apesar da ambientação totalmente suspeita, ainda poderiam ser apenas dois funcionários fazendo seu trabalho de sempre, e faria questão de se desculpar caso este fosse o caso. Porém, os furtos recentes junto aos rumores de "vampiros" ativaram seu modo detetive de novela.

Pegou seu carro e começou a seguir a van com os faróis desligados. No caminho, ligou para a polícia e explicou a situação, disponibilizando o acesso para localizarem seu telefone.

A perseguição silenciosa perdurou por pouco mais de meia-hora. Quando a van finalmente parou, uma surpresa nada agradável.

"Nem fodendo…"

As duas figuras levaram a grande caixa para dentro da casa, logo recebendo um outro caixote menor diretamente da cliente.

Assim que a van desapareceu entre as ruas, Carmilla conferiu brevemente os arredores antes de entrar em casa.

Mel hesitou, mas avançou. Estava longe demais para parar agora.

Ficou de vigia por alguns minutos, capaz de entrar pela porta dos fundos depois de pular alguns muros.

A casa em si era simples, em nada diferente das outras. Quadros diversos decoravam algumas paredes, potes de plantas nos cantos, uma sala com sofá e televisão e uma cozinha charmosa.

O quarto era o esperado de uma mulher solteira, com destaque apenas para uma pequena caixinha de música ao lado de um retrato familiar.

Com tanta coisa padrão, foi bem fácil distinguir e identificar a suspeita entrada para um porão pouco iluminado escondido atrás da porta de um suposto banheiro.

Mel pisou degrau por degrau com extrema cautela, os anos treinando o andar silencioso para não incomodar os acamados durante a noite mostrando seu efeito, nem mesmo as tábuas mais podres eram capazes de lhe revelar.

De tal forma, quando alcançou o último degrau, teve de expor o rosto para enxergar adiante.

Carmilla estava de costas para si, uma ótima coisa. À sua frente havia uma longa mesa de concreto, semelhante àquela de metal usada na sala de autópsia, só que mais parecida com algum altar de sacrifício.

"Mas que porra…?"

Observou com cuidado, ignorando o embrulho que envolvia seu estômago.

Carmilla preparou a mesa com cuidado, separando prato, garfo, colher, guardanapo e taça de vinho para uma só pessoa. Feito isto, era hora de pôr o banquete à mesa.

A grande caixa entregue há pouco foi cuidadosamente posicionada no centro, a fita removida com paciência, de forma quase ritualística.

Quando o papelão foi por fim retirado e deixado de lado, um cheiro familiar e ardido invadiu o nariz de Mel.

O corpo da senhora "049" foi revelado como um grande porco que acabava de sair do forno, só que neste caso continuava cru.

A pele permanecia nova graças aos métodos de preservação, o cheiro era forte, mas longe do que seria em um processo de decomposição normal.

— Finalmente! — Carmilla murmurava toda ansiosa, sentando-se à mesa. — Foi a primeira vez que testei este método de preparo, me pergunto se deu certo… Ah! Claro, quase me esqueci. Tenho que abrir primeiro!

Ela saiu e voltou rapidamente, usando de uma serra elétrica para fazer um corte no crânio. Uma cena que Mel se recusou a assistir.

Quando terminou, a jovem sentou-se, pegou um talher e, numa súbita garfada, apressada em certa medida, experimentou um pedaço da maçã do rosto. Mastigou sem pressa, analisando com cuidado cada fibra que tocava a superfície de sua língua, a respiração ficando mais pesada ao passo que o rosto corava.

Antes da próxima mordida, encheu a taça com um líquido escuro puxado para o rubro, denso e levemente viscoso. Primeiro bebericou, saboreando, para então encher a taça e quase se afogar no processo de beber tudo num único gole.

— Sim, sim! Está perfeito!!

Ela guiava o garfo com sua típica precisão cirúrgica, retirando pedaços grandes sem afetar outras áreas.

Primeiro foi o par de almôndegas, seguidas por fios de macarrão ainda marcados por um vermelho vivo. Em seguida tirou um pedaço da massa de gordura no topo, apreciando o odor, complementando o sabor ao mordê-lo junto do músculo que até ontem lhe agraciava com doces murmúrios de gratidão. Para completar, um gole do suco rubro, uma mistura do amor do cozinheiro compartilhado diretamente com sua refeição.

Hehehe! Será que eu sou algum tipo gênio? — Debruçou-se sobre a cadeira, extasiada. — Eu deveria largar o hospital e começar a trabalhar como cozinheira em algum restaurante!

Foi um longo caminho para o teste se completar. Misturar seu sangue para dar um extra de sabor foi uma dica dada por seu fornecedor — não se deu ao trabalho de lembrar o nome.

Imaginava que teria um gosto diferente, mas nunca imaginou tamanha diferença! Como provar uma carne de ratazana da esquina e uma peça nobre na mesma noite.

— Isto sim que é um banquete digno! Todo aquele esforço valeu a pena! Vou aproveitar muito bem…

Ela se preparou para a próxima garfada, a saliva transbordando em antecipação.

BLAM!

Foi interrompida, sem saber ao certo pelo o quê. Tudo que entendeu foi que alguém arrombou a porta da frente, atingida com uma forte pancada na cabeça antes que pudesse reagir.

Alguns últimos segundos de consciência lhe permitiram ouvir algumas vozes, apenas uma delas sendo reconhecida.

Arfando e com voz doente, a senhorita Mel agradecia pela chegada dos policiais.


Carmilla foi presa, e seu julgamento foi longe de comum.

Investigando a casa, encontraram vestígios relacionados a diversos outros cadáveres que haviam desaparecido, sendo incerto o número total que a garota possuía em sua posse. Quanto aos dois suspeitos que Mel relatou, nenhum deles foi encontrado.

Voltando à garota, três julgamentos foram anulados, pois sempre se encontrava rastros de outros delitos além do principal. Crimes menores, mas ainda crimes.

Quando se passou o segundo mês que ela estava sendo mantida em cárcere, a população se uniu em prol de um julgamento final, este que poderia ser discutido ser ou não uma boa causa. Para eles definitivamente era.

A decisão popular levou para a situação atual, no fim do terceiro mês após a prisão da criminosa.

Cordas prendiam firmemente as pernas, calcanhares, braços e pulsos daquela que todos agora chamavam de "vampira".

Encolhida em posição fetal numa jaula de menos de um metro cúbico, sendo arrastada por um ambiente nevado, conservava seu calor como podia. O saco de batata que lhe deram como roupa pouco auxiliava, e o pouco que comeu durante o tempo de cárcere tornou a antes jovem formosa e fonte de desejo num simples esqueleto disfarçado com pele humana.

Carmilla não conhecia este local, sequer sabia que existiam montanhas com picos nevados na região.

Curiosamente, das duas pessoas que lhe acompanhavam até algum lugar desconhecido, uma era ninguém menos que a senhorita Mel que, trajada em grossas roupas de pele animal, em momento algum encarou nos olhos o animal selvagem na gaiola. Honestamente, nem se incomodava em fazê-lo.

O outro indivíduo era um homem desconhecido para a jovem, já para Mel era algo no nível de "um rumor".

-No topo da montanha congelada há um caçador solitário que vai fazer qualquer trabalho desde que o pague bem, mas ele também tem uns gostos… complicados. Porra, é um cara doentio, melhor ficar longe.

Bem, isto era apenas o que corria na boca do povo, mas Mel teve a infelicidade de descobrir que era tudo verdade só de andar junto do homem.

Desde o início da caminhada na base da montanha, seu olhar desviava entre a trilha e a jaula onde Carmilla era mantida, um encarar repleto de uma luxúria palpável.

Mel considerou recuar em alguns momentos, mas era tarde demais, ela e todos os cidadãos sabiam muito bem o destino que a garota teria nas mãos deste homem, e concordaram com isto.

Mesmo com um gosto amargo na boca, ela seguiu até o fim.

Quando chegaram numa pequena área plana no cume da montanha, o homem se virou e disse:

— Certo, aqui é o máximo que podemos ir. Tem certeza de que é seguro soltá-la? Você não disse que ela é uma canibal maluca?

— Sim, tenho certeza. É impossível ela conseguir sobreviver se for jogada num lugar como este e ainda esquelética dessa forma, ainda assim quero que vigie-a até que ela morra de vez, apenas por garantia.

Ele girou a chave da gaiola no dedo, ansioso.

— Só confirmando. Posso fazer o que eu quiser com o corpo depois que ela morrer, não é?

Gulp Depois. — Era para ser uma pergunta, mas teve medo de receber uma resposta.

Mel então foi embora, recusando-se a encarar Carmilla uma última vez, um sentimento correspondido. No fim das contas, nenhuma das duas olhou para trás.

Enfim, o caçador suspirou, iniciando sua parte.

Abriu a jaula e arrastou o esqueleto com pele para fora, cortando as amarras com um facão que carregava na cintura.

— Você ouviu tudo, né? Eu vou ficar por perto te vigiando, mas não vou te ajudar. Pode tentar sobreviver se quiser, não vou impedir, mas aviso que é impossível nesta área da montanha. Recomendo que só fique parada e durma, vai ser mais rápido assim.

Os passos abafados do caçador sumiram depressa.

Num esforço máximo, Carmilla deu um jeito de se levantar, descobrindo que seria incapaz de sair do lugar quando viu a neve quase em seus joelhos. Não sentia nada da cintura para baixo, e a dormência chegava perto de dominar o tronco por inteiro.

Ao redor estava um horizonte branco. O solo, as rochas, as árvores, tudo foi coberto pela neve até não restar nada além de branco. Tudo, exceto por uma coisa.

Estava bem a sua frente, erguendo-se de forma escultural para o alto, uma árvore de gelo.

Não uma árvore morta cuja casca foi coberta por uma camada cristalina, era uma literal árvore de gelo! Tão maciça que o tronco assumia um tom azul profundo. Os incontáveis galhos se misturavam uns nos outros, sendo impossível saber onde um começava e outro terminava, eram uma entidade só.

Porém, seus galhos perfeitos não possuíam frutos.

Algo tão belo e diferente dos demais não era permitido que desse frutos, a própria natureza a impedindo de tal.

"Que coisa triste…"

Lágrimas escorreram pelo rosto seco da jovem, congelando na metade do caminho.

Carmilla desejou os frutos daquela árvore, de uma forma que ninguém jamais fez com qualquer outra coisa. Amor paterno, materno, o laço entre melhores amigos, de um dono com seu animal de estimação… Tudo isso era uma patifaria, uma prova clara de falsidade ante o que a garota sentiu para com a fruta que sequer existia na realidade.

E, tomada por esta vontade incontrolável, ela caiu de costas, seu braço ainda esticado por alguns segundos na direção dos galhos vazios, seguindo também para o chão instantes depois.

Hum, isso foi bem rápido — disse o caçador, surpreso.

Ele tinha acabado de se aconchegar num canto seguro, mas se levantou e foi em direção ao corpo, a recompensa valia a pena.

Mesmo de longe, tinha experiência suficiente para identificar quando uma criatura caía morta, e este foi sem dúvidas o caso aqui.

Considerando a nevasca e todo o trajeto, tinha que ser rápido para aproveitar o corpo enquanto ele ainda estivesse um pouquinho quente. De tal forma, pegou o saco de batatas que o ajudaria a passar tempo esta noite e o jogou sobre os ombros, iniciando a caminhada em direção à cabana.

Foi uma viagem rápida, seu corpo acostumado ao ambiente extremo sem demonstrar qualquer sinal de cansaço mesmo após longa caminhada.

Porém, um problema.

— Droga, acabou a lenha!

Amaldiçoou a si mesmo. Queria aproveitar o resto do dia na cabana aconchegante, se deliciando em seu presente enquanto aquecido pelas brasas da fogueira. Algo impossível sem lenha.

Enraivecido, deixou Carmilla na cama e saiu apressado para coletar madeira. A tempestade aumentando de repente.

 

Dentro de uma hora, recolheu o que precisava. Teve de descer alguns metros na montanha, mas nada que atrapalhasse.

Foi então que ele viu.

— O quê? Mi-Minha casa…?!

Poderia ser um sonho, mas o vento a congelar seus pulmões provava ser real.

Sua cabana havia sido reduzida a escombros, e no centro da estrutura brotava uma grande árvore de gelo cristalino. Na ponta de cada galho havia uma cabeça decepada, uma delas sendo da senhora que o acompanhou até o topo da montanha.

Aos pés da árvore, a garota estava de pé. Seu corpo esquelético tornou-se uma memória distante, agora de volta ao seu auge de beleza.

Incrédulo, seus braços enfraqueceram e toda a lenha foi deixada de lado.

As pernas se tornaram incapazes de quebrar a barreira de neve e, de forma inevitável, seu corpo cedeu e ele caiu de costas. Viu-se soterrado, afundado num buraco com a silhueta perfeita de seu corpo.

Tentou sair de todas as formas, falhando miseravelmente em cada uma.

A última vez que sentiu algo parecido foi em uma paralisia do sono, só que desta vez era diferente.

Hum~! Você demorou. Pensei que não ia mais voltar.

Falava num tom acalentador, como de alguém que acorda de um sono de beleza.

O caçador adquiriu uma súbita força para se mover devido ao susto, mas todos os seus membros foram empurrados contra o chão com facilidade.

As pernas seguradas somente pelos dedões dos pés pequenos, o tronco aprisionado pela pélvis, e os braços acorrentados pelas mãos esqueléticas. A mente ficou confusa, incapaz de processar o fato de ter sido subjugado por uma criatura que literalmente morreu segundos atrás.

Porém, os olhos verdes que lhe encararam de cima, famintos, não eram de algo morto, ao mesmo que estavam longe de pertencer a um ser vivo.

O rosto magro se aproximou, o excesso de saliva escorrendo por entre seus lábios e pingando sobre toda a face do homem que neste ponto retornou à forma de um garotinho apavorado. Não era seu rosto a ser analisado, mas algo além dele e precedente à alma. Abaixo de sua pele, acima dos ossos, pulsando em desespero numa melodia organicamente agradável aos ouvidos de seu predador.

A maestra que guiaria esta canção estava logo acima de si, com os dedos ao alcance de todos estes instrumentos. Seus olhos brilhavam em alegria, seus lábios se molharam em resposta à música que a natureza compunha logo abaixo de si.

Hehe! Eu sinto muito por destruir sua casa, espero que não se importe se continuarmos ao ar livre.

O coração do caçador a bateu num ritmo musical crescente, em direção ao refrão, interrompido.

E mesmo com o cessar desta música, a maestra ainda seguiria viva por tempo indeterminado, até o fatídico dia que encontrasse uma melodia além de seu controle.

 

 

 


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