Sputnik Saga Brasileira

Autor(a): Safe_Project


OVERKILL

Capítulo 17: As Grandes Diferenças Entre Mim e Você

Forçados ao combate corpo-a-corpo, Devic se viu ainda em risco de ser nocauteado. A força de Carmilla diminuía aos poucos, mas as habilidades marciais da vampira estavam um pouco acima do esperado. Felizmente era um nível manuseável.

Devido a diferença de altura, a vantagem era da mulher, que poderia focar os golpes na cabeça do soldado enquanto este tinha o torso como alvo principal.

Numa abertura, ela encaixou uma joelhada no queixo e derrubou-o com um chute, emendando um mata-leão.

Sufocado, Devic alcançou uma das tábuas afiadas da caixa de música e usou contra o rosto da vampira, o que falhou por causa da [Overkill].

Em segunda opção, usou a tábua para criar um espaço no aperto que o permitiu escapar do enforcamento.

Ainda com a tábua, se aproveitou da ponta afiada e cortou o chão na forma de um grande martelo.

Slam!

Não era tão grande quanto o que usou na batalha contra Thunder, apenas metade de seu tamanho, mas o suficiente para esmagar uma cabeça se acertasse.

Carmilla rolou pelo chão e evitou os golpes fatais, atingida na perna num dos movimentos. Seu membro completamente esmagado do joelho para baixo.

Devic ergueu a arma mirando uma finalização, atingido no estômago sem chance de reagir. Selou a boca, e um pouco de sangue escapou entre os dentes.

Com alguns passos para trás, deixou a marreta cair.

Mesmo com a regeneração afetada, a vampira foi capaz de recuperar a perna em menos de dez segundos e se levantar.

Cuspindo um pouco de sangue pela primeira vez em alguns séculos, ela disfarçou a surpresa com um sorriso um pouco mais curto que o habitual.

— O que exatamente você fez comigo?

Os dois que até pouco se movimentavam como criaturas de outra dimensão, desaparecendo ao olho nu em questão de velocidade, agora lutavam no nível de dois novatos peso médio numa luta que já durava umas dez rodadas.

Sendo uma vampira, Carmilla não apresentava feridas físicas, mas o estresse mental de ter a [Spieluhr] destruída unida à fatiga acumulada trouxe cansaço ao seu semblante.

Devic, por sua vez, tinha feridas acumuladas. Apesar de faltar a regeneração de um vampiro, o fato de ainda estar de pé era prova mais que suficiente que seu treino nos Soldados de Elite deu resultados.

Com fôlego recuperado, ele ignorou os músculos rígidos e endireitou a postura, como se não afetado por nada até agora.

— Isso é um tipo de droga que um grande amigo desenvolveu… especificamente contra você. O nome dele é Lucas. Lembre-se desse nome quando morrer, ele é a principal pessoa que tornou sua derrota possível.

— Eu ainda estou de pé.

— É… eu também.

Veias saltaram ao pescoço da vampira, seus lábios ainda tomados por um sorriso que se recusava a desaparecer por completo.

Incapaz de mudar a forma de seu próprio corpo, Carmilla concentrou grandes quantidades de sangue em seus antebraços, dobrando o tamanho ao mesmo tempo que endurecia os membros ao nível de uma rocha.

Ela avançou e começou uma sequência de golpes pesados, quase forçando um acerto devido à grande força de atração em seus punhos.

— Ainda não vê?! Você e eu somos praticamente a mesma coisa! Duas criaturas que excederam todos os outros da própria espécie!

Devic esquivava por pouco, sentindo a dificuldade aumentar conforme precisava desviar alguns socos com as próprias mãos.

— Nós NASCEMOS assim, com o simples propósito de governar sobre os outros através de uma força imparável!!

Um dos golpes encaixou no plexo solar, ela então o agarrou pelo braço, batendo-o contra o chão repetidas vezes enquanto girava de um lado para o outro.

— Eu não te transformo em vampiro por razões óbvias, mas é uma pena…

Ela o arremessou para o alto, concentrando todo o poder na mão direita.

— Mesmo entre as exceções da natureza; entre os mais talentosos, apenas o melhor sobrevive!!

Caindo para a morte derradeira, Devic apelou para seu último recurso.

Do bolso da jaqueta, ele retirou o bilhete deixado por Carmilla que o mandava encontrá-la na Torre. A folha dobrada exibia pontas afiadas o bastante.

Ele colocou a folha entre sua cabeça e o punho da vampira. O golpe meteórico encontrou as bordas afiadas do papel, o que normalmente causaria um corte tão superficial que passaria despercebido. Porém, ainda seria um corte.

Moldada pelas regras da [Overkill], a folha tornou-se sólida como uma placa de aço, tomando espaço entre os dedos no punho fechado da vampira e permitindo Devic desviar o golpe.

O impacto varreu tudo num raio de meio quilômetro à frente, criando pequenos redemoinhos. Os ossos do braço em questão viraram pó.

Aproveitando a inércia do bloqueio, Devic pousou sobre os ombros da vampira e segurou a cabeça entre suas coxas.

Sua mão esquerda mergulhou dentro da boca da vampira, abrindo caminho para o punho, o antebraço até a beira de seu ombro.

Sufocada, a reação natural de Carmilla foi morder, mas o sangue Amaldiçoado que escorria queimava sua carne de dentro pra fora. Lágrimas espontâneas escorreram por seus olhos, e um choque equivalente a um raio correu por seu corpo quando sentiu algo ser agarrado.

— AAAARGH!!

Com a mesma força brutal que invadiu as entranhas da vampira, Devic puxou seu braço para fora junto da longa corda carmesim que eram as tripas da vampira.

Agarrando a entrada do estômago, conseguiu puxar para fora até metade do intestino grosso, destruindo outros órgãos adjacentes no processo.

Num ato de fúria, a vampira desfez o gancho de perna que a prendia e arremessou o soldado para longe enquanto se afogava no próprio sangue.

Ambos estavam no chão, as forças quase completamente exauridas. No entanto, Devic foi o primeiro a se por de pé, jogando as tripas longe ao fazê-lo.

Pelo menos 60% dos órgãos da vampira foram afetados gravemente com esse ataque, sem contar que finalmente ela ficou incapaz de falar.

Ainda assim, não era fatal, pois esta criatura que Devic tinha diante de seus olhos era uma Vampira Original.

A regeneração atuava lentamente graças à droga desenvolvida por Lucas. O que levaria instantes para ser recuperado agora demoraria pelo menos uns dez minutos.

Devic teve uma súbita vontade de estampar o mesmo sorriso que a mulher tinha até pouco tempo, mas se conteve. Isso apenas o tornaria igual ao inimigo.

Ao invés disso, aproveitou essa rara ocasião onde poderia falar sem ser interrompido.

— Sendo honesto, até pouco tempo atrás eu não entendia absolutamente nada do que você estava falando.

Sendo mais preciso, ele intencionalmente não prestava atenção por estar ocupado demais tentando pensar numa maneira de esmagar a cara de Ludwig.

Agora, a pergunta feita pela vampira no primeiro encontro que tiveram no teatro voltou-lhe à mente.

-Nós dois somos exceções da natureza, não somos? E se não… O que nós somos, então?

— Uma exceção… Eu não acho. Mesmo que eu seja o mais forte entre os Soldados de Elite, eu ainda sou humano. Se eu fosse uma verdadeira exceção, eu não seria humano. Da mesma forma, você não seria uma vampira.

Com 20% dos órgãos recuperados, ainda incapaz de falar, Carmilla se levantou e ergueu os punhos à frente do rosto. Devic fez o mesmo, avançando sem perder tempo.

— As pessoas que matou, as cidades que destruiu, os sonhos que esmagou… Sempre que pergunto sobre os motivos pra toda a merda que fez, você diz que é "segredo", ou que que eu devo "interpretar", mas no fim das contas, nem você sabe as razões do que faz, não é?

Os golpes dela estavam lentos, tão fáceis de se evitar quanto os de um soldado recruta, devolvidos com outros certeiros em pontos vitais, interrompendo a regeneração.

— Eu diria que você perdeu seu objetivo de vista, mas nunca sequer teve um pra início de conversa! Simplesmente é assim desde que nasceu! Você não precisa de um objetivo, e você fez tudo aquilo… só porque quis!

A habilidade de Carmilla, [Spieluhr], tinha fundamentos em ilusões com o objetivo de torturar o alvo físico e psicologicamente. Tal qual para qualquer vampiro, era uma representação de seu desejo inato.

— Pra dizer que é uma exceção da natureza, mesmo sofrendo com o mesmo problema que um humano comum passa…

Com fúria evidente em seus olhos verdes, seus punhos parcialmente destruídos choveram contra Devic.

Mesmo que ela não usasse uma espada, a mensagem transmitida pelos golpes brutais era tão clara como o dia.

O ideal da Humanidade era preservação.

Era uma raça que evoluiu com o objetivo e desejo de ser lembrada por quem viesse depois. Para isso construiu cidades, monumentos e registros de sua existência.

Por causa disso, um grande sentimento de repulsa crescia no peito de Devic a cada golpe que defendia.

— Você não tem sequer a mínima noção de como o mundo real funciona!

O único objetivo e desejo desta criatura diante de seus olhos era alcançar o êxtase na arte de criar e destruir. Um ciclo constante onde tudo se renova aos moldes dela, para então se tornar pó no momento em que ela mandar.

Se a humanidade representava preservação, esta mulher representava a força capaz de transformar estas memórias em poeira. A encarnação do conceito de [esquecimento].

De fato, Carmilla era o oposto perfeito das intenções humanas, exatamente por causa disso ela se tornava a sombra desta. A projeção em carne da parte que a humanidade queria esconder. Constantemente buscando preservação, ao mesmo tempo se autodestruindo.

Devic desviou cada golpe, devolvendo em dobro.

A sequência iniciou no abdômen, subiu para o busto, destruiu os ombros, amassou a traqueia e subiu para o rosto.

— Você diz que nós somos iguais? Realmente, eu concordo em certo nível.

…Eu era muito mais forte que qualquer outro Soldado de Elite, da mesma forma que você é comparado a outros vampiros. No entanto, uma coisa que nos torna completamente diferentes.

Imitando o último golpe da vampira, ele concentrou sua força na mão direita.

As pupilas de Carmilla tremiam intensamente ao passo que ela tentava se manter acordada. Seu corpo completamente paralisado pela última sequência de socos.

— O que nos torna diferentes, é que eu escolhi não ser…

Nada mais bloqueava seu caminho.

…UM ARROMBADO DE MERDA!!

Seu punho acertou o queixo da vampira, tão forte que ergueu seu corpo do chão. Sua mandíbula foi feita em pedaços, os dentes rachando e partindo quando forçados uns contra os outros, alguns afundando para dentro do maxilar.

À beira do colapso, Carmilla teve uma última visão do céu nublado de La Serva, para quem direcionou um sussurro de seu único arrependimento.

— As virgens no meu castelo… eu devia ter devorado elas antes de vir.

De repente, uma sombra cobriu sua visão.

Devic apoiou a cabeça de Carmilla em seu joelho e, com as mãos unidas num martelo de carne, golpeou. Seus punhos afundaram no rosto da vampira, causando os olhos e saltarem para fora, e logo a pressão se tornou demais.

PLUURT!!

Tripas voaram para todas as direções, tão rápido e distante que a área próxima continuava limpa. Devic sentiu como se atingido por tiros de borracha, removendo alguns dentes que por pouco não acertaram seus olhos.

O corpo sem cabeça da vampira enfim caiu no chão, contorcido.

Durante o que pareceu vários minutos, ele manteve o olhar fixo a qualquer espasmo que o cadáver apresentasse.

Tudo da boca até os pulmões estava seco, o ar arranhando como areia de um deserto ao meio-dia. Seu cérebro implorava para desligar por três dias inteiros, mas se manteve firma na última tarefa.

Quando seguro, suas pernas cederam ao próprio peso, e ele caiu de costas no chão.

"Acabou…!"

Quis abrir um largo sorriso, impedido pela dor muscular.

Sob o céu agora limpo de qualquer caixa de música gigante, ele repetiu, em voz alta.

— Finalmente, acabou…!

— Parabéns, eu perdi.

Cedo demais.

Ao raspar da voz da vampira em seus ouvidos, ele se levantou como uma barata tonta, tirando forças do mais puro susto.

Encontrou a origem da voz ao cautelosamente se aproximar do corpo ainda imóvel. Na base do pescoço, uma nova boca havia se manifestado.

— Eu tô realmente morrendo dessa vez, não precisa se afobar.

Pensou em chutar mais algumas vezes por garantia, mas o lento desvanecer do cadáver numa névoa mística confirmava sua derrota.

— Bem, use essa chance para refletir sobre suas ações no pós-vida. Talvez o Rei Eterno tenha piedade de você.

— Eu sou uma vampira, imbecil. As pessoas que eu matei, as famílias que eu arruinei, todos que eu torturei, inclusive a sua filha…

Mesmo sem um rosto, Devic enxergou perfeitamente os olhos esmeralda a lhe encarar, além do mesmo e despreocupado sorriso curto.

— Eu não me arrependo de nada.

Ele fez o movimento para sacar a espada, esquecendo que não a tinha. Estalou a língua, enraivecido.

Com este presente divino, a vampira perguntou:

Hehe! Ei, você quer saber como nasce um Vampiro Original?

— Não.

— Foda-se, escuta aí.

Devic resmungou, pensando em alguma forma de calar a boca da mulher, mas o monólogo começou antes que chegasse a uma conclusão.

— O sangue é a fonte de toda vida e, ao mesmo tempo, de todo a maldade. A alegria e a tristeza; o preto e o branco, os dois opostos condensados em um mesmo corpo. Este líquido que corre nas veias de todos os seres vivos é sem dúvida fascinante.

…Diz-se que, quando alguém muito agarrado à vida morre de causas não naturais, ele acaba voltando dos mortos para ter todo o "prazer" que deveria ter tido em uma vida comum, mas esta parte é somente especulação.

O rosto do espadachim pareceu bombardeado por limões.

— Eu tenho mesmo que ouvir isso?

Ela sorriu malandramente e apontou para o lado pouco antes de seu braço virar pó. Foi então que Devic viu seu pior pesadelo tomar forma.

Não somente ouviria, pois diante de seus olhos surgiu uma tela de cinema, tal como um confortável poltrona logo atrás de si.

Sem muita escolha — em partes movido pelo dever de ouvir as últimas palavras do inimigo — ele aceitou a oferta e sentou-se. Por fim, Carmilla, como uma boa anfitriã, apresentou:

— Esta… foi a minha escolha.

 

 

 


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