Sputnik Saga Brasileira

Autor(a): Safe_Project


OVERKILL

Capítulo 14: Para Satisfazer Seu Coração III

Devic se levantou como quem acorda de um pesadelo, um que se lembrava claramente.

Apesar do susto, não suava nada, e seu coração acalmou rapidamente.

Estava sozinho na cama. Pela janela do quarto, viu que a cidade continuava inteira e brilhante, mas silenciosa. Fossem pessoas ou animais, ninguém aparecia nas ruas.

Ficou sentado na beirada da cama por alguns minutos, processando os momentos que reviveu. Encarou o nada, levantando pouco depois de perder noção do tempo.

Saindo do quarto, encontrou sua esposa e filha sentadas à mesa. Aguardavam pacientemente.

Com o mesmo sorriso calmo desde que acordou, Amanda perguntou:

— Já está saindo?

Devic forçava os olhos a ficarem abertos, pelo menos nestes últimos momentos.

— Desculpa… eu realmente tenho que ir.

— Não precisa se desculpar por isso. É o seu trabalho.

— Até mais, papai!

Mesmo que tentasse, não conseguiu conter o sorriso amargo a tomar seu rosto.

Ao menos, pôde erguer a cabeça e encarar as duas garotas nos olhos antes de ir.

— Adeus.

Ele então cedeu ao peso de suas pálpebras, respirou fundo, e abriu os olhos outra vez.

A casa tornou-se abandonada. Móveis desapareceram, a pouca luz era poluída por poeira e o odor de baratas e urina de rato impregnava cada canto. Através da janela destruída, avistou o céu completamente nublado.

O que antes era uma mesa virou um largo bloco de concreto — um pedaço colapsado da parede —, onde havia uma folha de papel dobrada ao meio. Muito conservada para o ambiente.

Devic pegou e encontrou uma curta mensagem, mas parou de ler logo no início da primeira linha. Com um suspiro trêmulo, ele guardou a folha para ler mais tarde.

O uniforme de Soldado de Elite estava de volta, intacto, com algumas poucas manchas de sujeira removidas facilmente com alguns tapas.

Caminhou para fora sem pressa, fazendo um caminho um pouco diferente do habitual.

Primeiro passou pela loja de Russisch, um armazém tomado por traças.

Os comércios pelos quais passavam abrigavam apenas sombras velozes, lembranças distantes que há muito se recusavam a aceitar o destino da cidade.

O cruzamento em que trabalhou. Ali havia uma cratera larga parcialmente cheia com uma água lamacenta, disposta com cadáveres de ratos e animais menores nas margens.

Por último, a padaria.

Encarava a fachada do meio da rua. Sem uma placa, tornava-se outra construção qualquer, exibindo através do vidro uma escuridão densa que nem a luz conseguia penetrar.

Tling!

Ao aviso do sino sobre a entrada, uma figura se revelou. Com o corpo apoiado no batente da porta, os olhos escondidos pelo capacete de astronauta vagaram pelo ambiente antes de finalmente parar em Devic.

— Bom dia. O mesmo de sempre?

A situação exigia um sorriso, mesmo que de leve, mas nenhuma das partes o fez.

— Quanto tempo eu fiquei aqui?

—… Dois meses.

O espadachim travou por um momento. Todos os Soldados de Elite passaram pelo processo de receber suas Maldições em suas próprias residências, onde Devic visitava todos os dias, evitando que sofresse do efeito de morte súbita após vinte dias longe.

— Como exatamente eu parei aqui?

— Provavelmente foi algo que se ativou no mesmo instante em que você matou Ludwig, e só deu certo porque você perdeu o Terceiro Olho. Depois que a luta terminou, você simplesmente me disse que voltaria para casa e começou a viver aqui.

Lucas se aproximou a passos curtos, seu olhar passeando pela cidade fantasma.

… Eu tinha uma mínima noção do que poderia estar acontecendo, e por isso eu me esforcei pra tentar criar algum tipo de medicamento que pudesse ajudar a te tirar do transe. Bem, não sei se foi realmente isso que aconteceu, mas é bom saber que está vivo.

Lembrou das palavras do Líder Absoluto.

-A única coisa que te protege parcialmente da influência dela é o Terceiro Olho! Se perdê-lo, será o fim!

Fechou o punho, a [Overkill] impedindo suas unhas de rasgarem a pele.

"Tudo isso era parte do plano?"

Começou a formar um raciocínio, mas o interrompeu antes que fosse tomado pela própria raiva. Tinha coisas a fazer antes de se deixar tomar por uma força maior.

— Tem um lugar que eu preciso visitar. Você vem?

— E você me deixaria para trás, por acaso?

Ambos deram um curto riso, e o silêncio voltou ainda mais forte.

Com um carro militar que Lucas deixou estacionado nas proximidades, eles foram para o último lugar real que Devic se lembrava.

No campo de batalha onde os Soldados de Elite confrontaram a legião de vampiros, um mar de estacas no chão desaparecia à vista.

Estacas sem nome, marcadas apenas por um fino rastro de sangue e uma arma branca — a usada por aquele agora enterrado a poucos centímetros no solo.

— Eu não sei o que você viu quando matou Ludwig — disse Lucas. —, mas deve ter sido bem diferente pra você sair andando com um sorriso.

O olhar dos dois vagou pelo horizonte com covas a se perder de vista.

… Não sobrou ninguém além de mim e você. Os Soldados de Elite acabaram.

Devic passou o olhar pelos túmulos mais próximos, capaz de relacionar algumas das armas dispostas aos rostos de seus donos, inclusive achando três dos cinco soldados que lhe acompanharam no Corredor Sagrado.

— E quanto aos vampiros? — perguntou ainda de costas.

— Nós conseguimos eliminar uma boa parte, mas eles não pararam mesmo depois que Ludwig foi morto. Só se dispersaram depois de varrer cada centímetro de terra. Eu mesmo só sobrevivi por ter me escondido dentro das fissuras.

Incapaz de colocar os sentimentos em palavras, acompanhou Lucas numa breve prece pelos colegas, esperando que descansassem em paz sob a vigia do Rei Eterno.

— Desculpa, Lucas, mas eu estou com um pouco de pressa. Pode me levar pra um lugar específico?

— Sem problemas.

Através da fissura, eles percorreram algumas dezenas de quilômetros num piscar de olhos. O cenário, no entanto, em pouco mudou.

Diante dos dois estava o cemitério oficial do Exército, reservado para aqueles merecedores de um memorial especial na luta contra os vampiros.

Entre os vários túmulos ali dispostos, Devic parou diante de uma cova com uma tampa feita de mármore branco, lembrando os cabelos de quem jazia ali.

"Tudo que eu vivi até agora… até onde era real?"

Mesmo sua entrada como recruta aos 15 anos, o tempo em que treinou, os vampiros que eliminou. Por mais real que tudo parecesse em suas memórias, uma dúvida dominou seu cérebro num latejo que quase o fez explodir.

Agora, diante do túmulo de sua esposa, ele questionava a própria realidade.

Nunca houve uma chance de salvá-la.

No mesmo dia em que retornou da missão no Norte, o corpo de Amanda foi encontrado sem vida não muito distante da área residencial. Ela não tinha sinais de luta, na verdade seu corpo estava intacto.

O que assustava era seu rosto eternamente congelado em pavor.

Tal qual um humano normal congela diante uma entidade que não consegue compreender, o rosto de Amanda era marcado por um pavor insondável. Um rosto que Devic instintivamente apagou de suas memórias num ato de autopreservação.

Em seus próprios sentidos, ele pôde assumir que [Ela] usou suas habilidades para prender sua esposa numa ilusão poderosa.

Amanda nunca compartilhou seu passado com ninguém, então era impossível saber o que exatamente ela viu. O resultado tornava ainda menos agradável imaginar.

Quanto à Claire, ela foi realmente sequestrada pelo Vampiro Original, mas nunca encontraram sequer um rastro dela. De um dia para o outro, foi como se a própria existência da garotinha tivesse desaparecido.

Devic costumava ser otimista ao incentivo de Lucas, no entanto, havia um limite onde a positividade se tornava distorção da realidade, e nenhum dos dois estava disposto a ultrapassá-lo.

No fundo, Devic agradeceu que nunca encontrou "restos", por assim dizer, de sua filha. Caso contrário, quem sabe nem estaria aqui neste momento.

Seu coração contorceu num redemoinho de emoções ao ponto de causar dor física. Sua alma estava de pé em meio à ventania afiada, sofrendo cortes constantes. Apenas um último objetivo a mantinha viva; concentrada mesmo imerso num ambiente hostil.

— O que vai fazer agora? — perguntou Lucas.

Do bolso de seu uniforme, o espadachim retirou o bilhete deixado em sua casa, lendo o conteúdo em voz alta.

— "Estarei esperando em frente à Torre".

Entregou a carta para Lucas, que releu incontáveis vezes.

— Então… é isso. Você finalmente vai encontrar [Ela].

Numa breve pausa, Devic se virou para o colega.

— Você não vem?

Se fosse a escolha do parceiro, não questionaria. Nenhum dos dois possuía o Terceiro Olho agora, mas Devic carregava um pouco mais de confiança por ter resistido às ilusões por mais tempo, desenvolvendo suposta resistência. O mesmo não se aplicava à Lucas, que teoricamente seria um alvo fácil de manipulação.

Ainda assim, o desejo subentendido de ter um colega ao seu lado no que poderia ser sua última batalha estava escrito no próprio ar, tão evidente quanto uma aura vampírica.

— Não é questão de eu não querer, é que eu simplesmente não posso.

Lucas arregaçou a manga esquerda do uniforme, fazendo Devic saltar de susto.

As veias do antebraço se destacavam na pele, quase rasgando-a. O membro se contorcia entre espasmos parecendo ter vida própria, e sua cor era lentamente corrompida pelo cinza de um cadáver.

— Eu disse que só fugi da legião de vampiros por ter me escondido nas fissuras, e isso foi verdade. Porém, quando eu saí de lá… [Ela] estava me esperando.

— …!!

— [Ela] não disse nada, mas lendo esse bilhete eu entendi. Ela não quer ver ninguém além de você. E pra garantir, ela me feriu achando que eu morreria pelo efeito do sangue vampírico misturado ao Amaldiçoado, mas acabou nisso. Não, na verdade é mais certo pensar que até esse resultado foi parte do plano dela. Consegui conter o avanço até agora, só que já estou no meu limite.

… Até o fim deste dia, eu serei transformado em um vampiro.

Ele ergueu a cabeça, seus olhos ocultos pelo visor focados no colega.

— Devic…

O espadachim tremeu, prevendo as próximas palavras.

Seu cenho franzido em angústia era uma resposta antecipada.

Dada a situação, o desejo de Lucas fazia sentido, honroso para um Soldado de Elite, mantendo sua glória como humano até os últimos momentos.

A espada em sua cintura tremeu junto da mão disposta sobre o cabo.

"Eu não posso!"

Ele tinha certeza. Mesmo se a [Overkill] o permitisse cortar carne, jamais seria capaz de finalizar Lucas com as próprias mãos.

Porém, contrariando suas expectativas, o astronauta perguntou:

— Você se importaria de treinar um pouco comigo?

— … Perdão?

Haha! É, eu sei, eu não costumo pedir isso, ainda mais considerando a minha Maldição. Mas eu acho que isso é o ideal. — Suspirou pesado. — É o que as estrelas me disseram.

Inicialmente atordoado pelo pedido do colega, Devic engoliu suas dúvidas em seco, sentindo a garganta arranhar no processo. Apesar disso, sua voz saiu firme e forte.

— Se é isso que deseja, então vamos.

 

Usando as fissuras criadas por Lucas, eles voltaram para o cemitério infinito onde estavam todos os Soldados de Elite.

Posicionados no limite entre a planície vazia e o início das covas, eles assumiram posição.

Obviamente, para evitar qualquer dano às memórias de seus companheiros caídos, concordaram em manter a luta a nível humanos normais, sem usar Maldições ou as habilidades físicas comuns de um Soldado de Elite.

Dito isso, num cenário de uma luta séria, a vantagem de Devic continuava esmagadora.

De uma das fissuras, Lucas retirou a espada que era tão rara de se ver quanto seu próprio rosto, um florete.

— Deve fazer anos que eu não empunho isso, me pergunto se ainda lembro como usar.

Ele dizia enquanto assumia a estância de forma perfeita, seus pés deslizavam tão suaves que sequer deixavam rastros.

Devic sorriu e sacou sua espada.

— Vamos descobrir.

Preparados, ambos avançaram ao mesmo tempo.

Clank! Trek! Frish!

Em primeiro momento, Devic decidiu focar na defesa, dando chance para que seu colega pegasse o ritmo depois de um longo tempo sem empunhar uma espada.

Focado no ataque, Lucas demonstrava uma agilidade pouco esperada de sua constituição física fraca — pelo menos em comparação com os outros soldados —, capaz de frequentemente quebrar a barreira defensiva de Devic e perfurar.

Sem uma ponta afiada, o florete permitia um avanço voraz sem o risco de causar qualquer dano ao oponente. Uma arma criada especificamente para o treino.

Quem olhasse por fora, veria a estranha cena de dois homens trocando golpes de espadas à beira de um cemitério cujas covas desapareciam no horizonte.

À vista do céu nublado de La Serva, esta luta desaparecia nos anais da história dos Soldados de Elite. No entanto, para sempre marcada nas espadas dos dois envolvidos.

"Eu entendo!"

Devic sorria amargamente, feliz com finalmente captar mensagens há muito desejadas, mas incomodado com o momento em que tal coisa foi acontecer.

As palavras de Amanda vieram-lhe à mente.

-Cada vez que você brande a espada, está comunicando algo ao seu oponente.

Pela primeira vez em sua vida, ele estava ouvindo em alto e bom tom as mensagens que Lucas enviava através de seu florete.

— Você treinou muito! — disse com voz trêmula, a katana falhando em defender diversos golpes. — Muito mais do que eu podia imaginar!

A surpresa que teve quando o astronauta lhe chamou para um treino não foi somente devido ao fato de ser algo raro, mas também pela própria Maldição do rapaz.

[Hollow Canvas]. Com esta habilidade, Lucas era capaz de abrir fissuras com as próprias mãos, as quais levavam para um ambiente semelhante ao vácuo do espaço, sendo impossível confirmar como sendo ou não o vácuo de algum lugar neste mesmo universo.

Apesar de pouco, havia oxigênio para que pessoas atravessassem sem problemas, mas o frio extremo obrigava que a passagem fosse rápida, o que por si só era um padrão.

De tal forma, a [Hollow Canvas] se tornou uma ferramenta essencial no transporte de forças militares e muitas vezes era peça chave para a vitória de um conflito, sem contar as várias vidas salvas ao transferir soldados feridos direto para o leito hospitalar.

Porém, ao contrário dos outros que tinham alguém de tal calibre a proteger suas costas, Lucas não via ninguém atrás de si. Ao contrário, havia apenas uma legião à sua frente.

Ali, ele estava sozinho.

Todos estavam no fronte, empunhando de espadas à coisas que ninguém esperaria serem usadas como arma, mas estavam lá a arriscar suas vidas em meio a maluquice que eram os conflitos contra vampiros.

Figuras que saltavam centenas de metros sem dificuldade decoravam os céus, outros revelavam o poder da terra ao abrir crateras e fissuras maiores que cidades, e muitos limpavam a impureza vampírica do horizonte com golpes tão devastadores quanto as ondas de um oceano em fúria.

E por mais que tentasse, Lucas não os alcançava.

Chegou a desenvolver modificações em seu próprio uniforme, em especial o capacete constantemente a cobrir seu rosto. Com isso, se via por vezes recluso no interior das fissuras, brandindo seu florete contra o vazio e de todas as formas tentando manipular o espaço.

Qualquer vestígio de utilidade em batalhas. Qualquer coisa que pudesse ser útil além da área de suporte.

Ele nunca encontrou isso.

Não importava o quanto lutasse, as luzes a brilhar no horizonte nunca estiveram ao seu alcance, algumas inclusive brilhavam como se a rir de seu esforço.

Todos estes momentos acumulados em seu coração eram agora moldados em forma física, transferidos diretamente para Devic.

"Eu consigo sentir!"

Cada golpe carregava força, agilidade e a precisão esperada de um Soldado de Elite. Porém, também carregava outra coisa acima de tudo isso.

Tal como as estrelas dentro das fissuras, Lucas podia lê-las, mas alcançá-las era algo completamente fora de seu alcance.

Devic era tal como um livro aberto bem à sua frente, com letras grandes e legíveis. Porém, ele estava disposto num estande atrás de um vidro espesso, impedindo que virasse para as próximas páginas.

Por toda a sua vida, o que Lucas leu foram sempre as mesmas linhas. E com elas, uma coisa preenchia seu coração. A qual Devic captava cada vez que o florete raspava na lâmina de sua katana.

—Frustração.

Este sentimento era evidente em cada micromovimento de seus músculos.

Cada vez que o braço retraía e se estendia à frente para perfurar; cada vez que quebrava a barreira feita pela katana; cada vez que o florete falhava em alcançar mesmo os fios soltos do uniforme de seu oponente.

Cada vez que ele batia contra aquele vidro, ele se tornava mais denso.

E em certo ponto, o ritmo em que cada um evoluía se tornava evidente demais para que se pudesse ignorar.

Após quase duas horas, Lucas brandiu seu florete uma última vez, encharcado de suor. Devic, por outro lado, mantinha postura firme, com poucos senão nenhum sinal de cansaço.

— Acho que é isso. Você é… realmente impressionante.

O astronauta devolveu seu florete para a fissura, tal qual Devic guardou a espada na cintura.

— Lucas… Eu…

— Nem vem me pedindo desculpas.

— …!? Haha!

Devic deu um curto riso, como sempre, suas intenções lidas como se escritas num livro.

— Na verdade, eu iria dizer que eu recebi a sua mensagem, mas mesmo assim, eu ainda não consigo te entender completamente…

De fato, principalmente para Devic, alguém — ironicamente — abençoado com uma Maldição compatível ao combate, não poderia compreender os esforços de alguém que portava algo como a [Hollow Canvas].

— No entanto, independente do que você pense — Ao menos a sua própria perspectiva, isso ele poderia compartilhar. — Eu sempre te considerei um dos mais importantes. Não apenas como soldado, mas como meu amigo.

Hehe! Fico feliz de saber disso. Saber disso me faz sentir bem mais leve, e eu também agradeço por "ouvir" o que eu sinto. Acho que foi uma má ideia ter ignorado as visitas no terapeuta.

— E você ainda ficava implicando pra eu ir!

— Pô, mas não dá pra negar que tua cabeça tava fritando até poucos dias atrás!

HAHAHAHA!!

Os dois riram longamente, derramando lágrimas de felicidade.

Por um breve momento, puderam esquecer de toda a situação que estavam envolvidos.

— Enfim — disse Lucas. — Como um bom membro do time de suporte, eu tenho algo pra você antes de ir.

Da fissura, ele retirou uma caixa, e desta, um pequeno saco plástico com velcro, o qual jogou para Devic.

Armazenada ali estava uma única pílula branca.

— O que seria isto?

— É algo que venha trabalhando há um loooongo tempo junto da equipe médica. Pode ser útil se você conseguir fazer que [Ela] engula isso.

— E como exatamente eu faria isso?

— Sei lá, filhão. Dá teus pulo! (•⩊•)

Devic fitou o colega por alguns segundos, inexpressivo, guardando o pacote depois de agradecer.

Finalmente, Lucas deu um curto suspiro e removeu a jaqueta de seu uniforme, expondo os braços.

Os efeitos do ferimento se expandiram até os ombros. A pele de seu braço assumiu por completo o tom cinza de um cadáver.

— Devic, você e o Líder Absoluto são as melhores pessoas que eu pude conhecer. Por isso, eu sou eternamente grato.

… Eu não sei se um dia eu seria capaz de ultrapassar os meus limites, mas mesmo que eu não vá descobrir, eu fico feliz com o nível que eu alcancei. As missões que eu completei, as pessoas que eu conheci e as que eu salvei. Tudo me trouxe até este momento.

… Mas, além de tudo isso, eu fico realmente tranquilo em saber que ainda serei útil depois daqui, porque você ainda vai estar lá lutando. Mesmo que eu fique atrás, sei que aqueles à minha frente lutam por saber que eu estou ali para quando a coisa apertar, e o mesmo vale pra mim.

… Eu não sei como as coisas vão se desenrolar, mas tenho certeza de que você vai encontrar o que deseja. Isso é o que as estrelas me dizem, e se tem uma coisa em que eu sou bom é em lê-las. Por isso…

Ele bateu continência, despedindo-se do soldado.

— Mostre ao Rei Eterno do que você é feito!

Em seguida, fez um último sinal de joinha para Devic.

… E arrebenta aquela vadia.

Então, todo o corpo do astronauta sofreu um breve espasmo após tais palavras. Um curto, quase imperceptível som de algo estourando.

Seus braços subitamente amoleceram, pendurados ao corpo. A ferida vampírica também desvaneceu de uma só vez.

— Lucas?

Ele não respondeu. Seu corpo inteiro relaxou, mas ele continuou de pé. No capacete restava apenas o visor enegrecido.

— Lucas!

Devic se aproximou e estendeu a mão em direção ao colega, mas recuou antes que tirasse o capacete.

O raspar de seus dentes ecoou pela planície seca.

Ele não precisava de uma confirmação, nem queria uma.

— Lucas…

Em meio às lágrimas, um curto sorriso agradecido surgiu.

Com um leve toque na base do capacete, ele empurrou até que este apontasse para cima. Antes o chão morto, o visor agora refletia o céu, capaz de refletir as estrelas escondidas atrás das densas nuvens cinzas.

— Pode deixar… irmão.

Devic limpou o rosto e se virou para o objetivo.

A Torre se colocava no centro de La Serva, tão imponente quanto nunca, como se um largo pedaço da realidade tivesse sido apagado.

Uma aura sinistra tinha origem lá. O lugar onde [Ela] o aguardava. No entanto, Devic não sentiu medo algum.

"Apenas eu posso fazer isso."

Uma de suas mãos apertou o cabo da espada, a outra o pingente em seu pescoço.

"Mas eu não estou sozinho."

Neste dia, o último Soldado de Elite, Devic Santos, partiu em direção à Torre para o que deveria ser a sua última tarefa.

 

 

 


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