Sputnik Saga Brasileira

Autor(a): Safe_Project


OVERKILL

Capítulo 13: Para Satisfazer Seu Coração II

Em um grande planalto de terra morta, um total exato de cinco mil pessoas se reuniram, todas em trajes esportivos vermelhos. Se organizavam com um braço de distância uma da outra, mais parecidas com um monte de formigas a formar a figura de um quadrado se vistas de cima.

Aguardavam com os pés juntos e as mãos para trás, encarando o horizonte à frente no prenúncio de um grande evento.

Deste mesmo céu sempre nublado de La Serva, três projéteis emergiram das nuvens. As estacas rochosas do tamanho de tanques de guerra acertaram o chão diante do esquadrão paciente, perfeitamente alinhadas.

Os olhares surpresos voltaram ao céu por um segundo, atraídos pelo quack de um pequeno patinho amarelo de cartola e gravata borboleta. Seu pouso elegante gerou suspiros admirados, respondidos com um elegante ajeitar de cartola.

Ele por fim se virou para as estacas e, num fino grasnado a entoar um golpe do estilo três espadas, realizou um corte horizontal que atingiu as rochas. A estrutura colapsou, revelando pessoas.

— Candidatos… ATEN~ÇÃO!

As cinco mil pessoas bateram o pé em sincronia, fazendo o chão tremer.

Dos três pilares surgiram homens, cada um numa pose mais épica que o outro. O do meio, quem gritou aos recrutas, deu um passo à frente.

Ele era a pessoa que se descreveria como "velho foda". Seu uniforme era adornado com inúmeras medalhas e o físico tão musculoso que as veias se destacavam no próprio tecido. O personagem perfeito para ser ferido pelo vilão principal e deixar a tarefa difícil para o protagonista atendente de padaria.

— Todos vocês estão aqui para provar apenas uma coisa: capacidade! Honra, felicidade, sonhos, familiares, apenas aqueles capazes de pôr tais futilidades em segundo plano irão sobreviver a esta avaliação.

Os outros dois homens estalaram os dedos, ação simples que fez uma barreira amarela translúcida surgir do chão, prendendo os candidatos numa arena.

— Qualquer um que deixar a área delimitada, ficar incapacitado de continuar ou morrer, será eliminado automaticamente. Esta é a única regra. Agora… lutem!

Da ordem para o som da primeira arma de fogo disparando contra a cabeça alheia, exatamente um segundo se passou.

Disparos, cortes, socos, tudo e muito mais. O vermelho do uniforme dos candidatos aos poucos deixava de ser mera tonalidade do tecido, substituído pelo rubro do sangue dos inimigos derrotados.

— Certo, vamos deixá-los assim pelas próximas cinco horas. Se sobrarem mais de dez, já vai ser lucro. — Ele estendeu a mão à frente, servindo sua palma como assento para o pato elegante. — Tragam um pouco de comida para o Mr. Gold.

Os homens se prontificaram para cumprir a ordem, porém um corpo que veio voando interrompeu a saída. Logo veio outro, e outro, e outro, e outro. Uma chuva humana começou, os candidatos caindo tão juntos de forma que parecia terem sido arremessados todos ao mesmo tempo.

Mr. Gold grasnou impressionado, e o velho completou:

— Pelo visto eu subestimei bastante os candidatos desse ano, ou melhor dizendo… — A chuva de carne cessou, permitindo-o enxergar a arena. — este candidato.

Das cinco mil pessoas aqui reunidas, 3 mil estavam nocauteadas no chão, as 500 ainda acordadas se contorciam de dor no chão, enquanto o resto foi extirpado para fora da arena.

Havia apenas um único indivíduo de pé. Era um rapaz jovem, na faixa de 25 anos. O longo cabelo vermelho se misturava ao uniforme, e os olhos de mesmo tom só não brilhavam como chamas pois isso faria o nome da cor ser repetido vezes demais.

O velho se aproximou ao passo que a barreira se desfez, observando o jovem voltar a posição de sentido e realizar uma breve saudação.

— Jovem, diga o meu nome.

Mr. Gold saltou para ombro esquerdo do recruta, posicionando sua pequena asa contra seu pescoço. Nenhuma reação foi percebida, sequer suor.

— Senhor Thunder, Líder Absoluto dos Soldados de Elite e de toda a Região Sul de La Serva!

Com um largo sorriso satisfeito, o Líder continuou com as perguntas, cada uma respondida sem a menor hesitação.

O que é a sua vida?

Minha força é a minha vida.

Qual é o seu destino?

Matar é o meu destino.

Qual é o seu prazer?

Servi-lo é o meu prazer.

Qual é o seu medo?

Meu medo, senhor, é desapontá-lo.

Quem é você?

Eu sou a espada ao seu serviço.


Um total de 40 soldados organizavam-se num círculo, mirando quem estava ao centro.

A mulher com meros 160 centímetros de altura deslizou seu olhar cortante pelo pescoço de cada um.

A jaqueta do uniforme era apoiada nos ombros, enquanto as medalhas normalmente costuradas nesta eram exibidas num colar.

O que lhe destacava era um quepe preto com louros dourados, a marca da posição de Tenente.

Parte de seu cabelo ainda escapava por debaixo deste, espetado e curiosamente branco, algo estranho ao se considerar que ela era tão jovem quanto qualquer um dos homens ao seu comando.

A reação natural dos rapazes ao serem alvos de seus olhos alaranjados era evitar contato direto. Uma atitude de manada, quebrada somente por um deles.

— Preparar… — disse ela, saindo da posição de guarda.

Os recrutas empunhavam espadas, maças, bestas e todo tipo de arma letal.

Por sua vez, a Tenente usava sua espada. A lâmina branca a combinar com seus cabelos.

— COMECEM!

Todos os homens avançaram em sincronia, como uma onda prestes a afogar uma formiga. Ela riu ao passo que desviou facilmente da convergência, saindo do foco do ataque e se posicionando fora do círculo.

Ajustaram posição com trabalho em equipe admirável, mas eram lentos comparados à ela.

A lâmina da espada se divisão em várias seções, revelando uma fina corrente metálica que passava por dentro da lâmina, transformando-a num tipo de chicote.

Em um único brandir, 1/4 dos recrutas foi varrido para fora de vista, alguns caindo direto na enfermaria.

Os poucos que desviaram do primeiro ataque avançaram, só para que o punho da Tenente afundasse seus crânios numa sequência cômica de bonks.

Antes que pudesse criticar a moleza dos soldados, uma espada do mesmo modelo que a sua — porém de lâmina vermelha — emergiu de seu ponto cego e mirou a lateral de seu abdômen.

Ciente de quem era, ela parou a lâmina com sucesso usando a própria perna, completando com um soco na barriga do último soldado de pé.

— Você de novo…

Disfarçou o tom impressionado. Mesmo tendo sido um golpe sério, o homem se levantou após cuspir um pouco de sangue.

Tinha o dobro de altura da mulher, mas seus olhos carregavam apenas respeito. Assim como seus cabelos brancos não demonstravam idade, a última coisa que os fios e olhos vermelhos deste homem carregavam era raiva.

— Devic Santos — disse ela, o referido fazendo continência de imediato. —, você que foi o único aprovado na seleção de três anos atrás, correto?

Ele assentiu com a cabeça e engoliu seco, pronto para receber outro soco de advertência. Porém, a Tenente suspirou um entendo e se afastou sem qualquer adição.

— Aproveitem os próximos dois dias de folga, semana que vem faremos a separação de grupos. Os que tiraram as maiores notas iniciarão os estágios em esquadrões de verdade, já o resto irá repetir o treino pelos próximos dois meses. Dispensados!

Ela se afastou sem pressa, subindo na carroceria de um caminhão e partindo. Alguns soldados se levantaram primeiro, ajudando os companheiros ainda desmaiados, também notando a ausência de alguém importante.

— Pra onde o Devic foi?

O veículo que levava a Tenente dirigiu por meia hora, chegando em um pequeno acampamento isolado numa planície seca, onde ela desceu. Estava inóspito, mas ela esperava por isso.

— Por que ainda se esconde? Eu sei que está aí.

Uma parte do chão se mexeu, revelando a entrada para um buraco que parecia ter sido feito por um único corte de espada, de onde Devic saiu suando frio.

— Te-Tenente Amanda… O que faz aqui?

— Saia desse buraco primeiro.

Ele assim o fez, timidamente. Quando ajoelhado diante da mulher e com a espada ao lado, se explicou ao comando da superior.

— Sei que pode ser difícil de acreditar, Tenente, mas eu estou apenas fazendo treino extra. Eu não estou fugindo de nenhuma aula, eu lhe mostro minha grade horária se me permitir!

Ela suspirou um riso.

— Já conferi com antecedência. Eu te vejo por aqui com frequência depois dos treinos. O que pretende com tudo isso?

A encarou com confusão no olhar e levantou ao receber permissão.

— Assim como qualquer outro soldado, Tenente, eu apenas quero ajudar na missão de exterminar os vampiros e ajudar o Líder Absoluto a guiar a humanidade para um novo começo.

… Eu não me lembro de interagir com meus pais, nem sei quem cuidou de mim quando era um bebê. Eu apenas entendi num certo dia de que o problema do mundo eram os vampiros, então eu peguei uma espada e comecei a treinar até que meus ossos se quebrassem.

Ela tombou a cabeça, analisando o rapaz.

— Entendo, então faz sentido ter passado facilmente na primeira fase do recrutamento. No começo eu pensava que você era algum tipo de aberração da natureza, mas fico feliz que eu tenha me enganado.

Devic teve dificuldade em processar tais palavras, e enquanto o fazia, Amanda entrou numa das barracas e tirou o uniforme militar, saindo com uma roupa leve de ginástica, dando uma rara visão de sua pele coberta de cicatrizes.

— E então? Vamos treinar ou não?

Ele continuou parado alguns segundos, incerto se esta era a realidade. Quando teve certeza, trocou para roupas leves e acompanhou a Tenente.

Juntos iniciaram o percurso que Devic fazia normalmente. Uma corrida de 40 quilômetros rodeando o acampamento. Por ser uma área próxima ao quartéis, era improvável que aparecesse um vampiro.

Começaram num ritmo leve — para estes dois —, quase 15km/h.

— Desculpe perguntar, Tenente, mas… qual a razão para me acompanhar assim de repente?

— Antes disso, me chame de Amanda fora das zonas militares. Eu nunca gostei de tanta formalidade.

… De tal forma, pode falar se estiver incomodado com a minha presença.

— Não, de forma alguma! Eu só… achei estranho. Nós já trocamos vários golpes durante os treinamentos, mas nunca chegamos a conversar de verdade.

Ah! Agora entendi! Bem que eu achei estranho que só eu parecia me divertir.

Devic teve uma breve memória da Tenente com um sorriso maníaco enquanto balançava a espada com a pura intenção de matar.

Tendo recém-completado seus 18 anos, a experiência ficou marcada na mente de Devic como uma aterrorizante boas-vindas à vida adulta.

… Foi um erro meu. Eu julguei que por você usar uma espada igual a minha, você saberia ler a conversa entre elas.

— Conversa?

Seu tom confuso tirou um riso de Amanda.

— Sabe, pessoas que não costumam falar muito tem suas próprias maneiras de extravasar o que pensam. Nós, espadachins, fazemos isso através de nossas espadas. Já ouviu a frase "o silêncio machuca mais que mil palavras"? Esse é o conceito base de nossa comunicação.

… Por fora, tudo que você vê são dois guerreiros com semblantes concentrados trocando golpes ferozes. Tudo que parece ecoar é o tilintar das espadas quando colidem. Mas, se você prestar atenção, vai conseguir ouvir vozes.

… Cada vez que você brande a sua espada, está comunicando algo ao seu oponente. Sua vontade de viver, de avançar, de melhorar, suas razões para lutar. E a resposta pode ser tanto uma defesa quanto um contra-ataque, ambas respostas diferentes.

… Lembre-se disso, Devic. Quando luta, você não está empunhando uma espada, mas a manifestação do seu próprio coração! E mais que a sua própria vida, é ele que você coloca em jogo!

Ele ponderou e acenou com a cabeça. Não conseguiu entender muita coisa do momento, mas daria uma chance à visão da mulher.

Lutar com o coração. Parecia absurdo. Que sentido fazia em expor suas fraquezas num momento de vida ou morte? Se ela não fosse sua superior, a teria chamado de louca.

— Bem, agora chega de papo — disse ela num sorriso animado. — Vamos começar o treino de verdade. Pronto? VAMOS!

De súbito, ela partiu de 15 para 35Km/h, cegando Devic com a nuvem de poeira que levantou na arrancada.

Para descobrir se Amanda era realmente louca ou uma sábia, deveria primeiro estar ao mesmo nível dela.

Concentrando a força nas pernas, ele arrancou pedaços do chão na investida, determinado a ultrapassar a Tenente.


Seis anos se passaram.

Desde então, ambos espadachins se encontravam regularmente no mesmo acampamento, iniciando o treino extra com uma corrida cuja distância aumentava gradualmente, ao ponto que corriam 200 quilômetros dentro de três horas.

Após isso, engajavam num treino com suas espadas sem o uso de Maldições.

Mesmo que Amanda ficasse muda durante o combate, seu rosto gritava mil coisas junto de cada brandir de sua lâmina branca. Se fosse possível descrever a conversa que ocorria entre ela e sua espada, seria "alegria contagiante".

Devic, por outro lado, ainda se apoiava nos próprios lábios para transmitir suas mensagens. Suas habilidades como espadachim melhoravam sem problemas, inclusive superando a Tenente em alguns aspectos. Porém, era uma espada muda.

Ainda tinha um longo caminho até aprender esta maneira estranha de se comunicar. A esperança de que neste dia entenderia as palavras que Amanda tanto queria que ele ouvisse.

Ao finalizarem o treino, sentaram-se ao redor da fogueira no acampamento, dividindo uma panelada de sopa.

Quando terminou sua terceira tigela, Devic descansou a colher e mirou Amanda.

— Sabe… a gente se conhece desde que eu entrei como recruta aos 15 anos. Então a gente já se conhece tem uns… 9 anos. Me diz, você acha que eu fiquei mais forte?

Ele viu um arquear confuso de sobrancelha, seguido do cotidiano suspiro de descrença.

— Mas é claro, idiota. Isso devia ser óbvio! Você nem tinha uma Maldição naquela época e se equiparava com um Capitão em força bruta. Claro, você disse que treinava até desmaiar desde criancinha, mas não deixa de ser loucura. O pessoal do laboratório tem total razão em te chamar de anomalia.

— Sim, sim, mas… o que você acha disso?

Hã? Eu? Não estou te entendo hoje, está com febre, por acaso? Ah, deve ser isso, devia ter dito antes! Vamos voltar pro acampamento, sua cabeça vai melhorar se comer um pouco.

— Não, espera!

Seu corpo inteiro tremia, o que ele disfarçou com todo seu esforço. Por fim, engoliu em seco e iniciou:

— Quando eu entrei para o exército, eu já tinha a força de um Capitão, isso mesmo sem ter uma Maldição. Quando eu passei pelo processo e eles me tornaram num Amaldiçoado então… — Juntou as mãos, os dedos raspando um no outro. — Disseram que eu posso até me tornar Coronel em tempo recorde, coisa de mais vinte anos.

— Certo… Onde quer chegar com isso?

— Be-Bem, eu fiquei sabendo que a tenente está aqui desde que era uma criança. Eu… Eu não faço a menor ideia do tipo de coisa que você passou para chegar onde está agora, mas tenho certeza de que passou por coisas que eu sequer consigo imaginar. Eu queria dizer que… a sua determinação, ela me fascina!

Viu o rosto da mulher corar de leve, que ela logo disfarçou com a mesma indiferença usada durante os treinamentos.

Hum E-Eu agradeço, mas esse papo tá meloso demais pra alguém beirando a casa dos 30. Sei que fui eu que recomendei, mas é melhor maneirar um pouco naquelas novelas de romance.

Ela se levantou e foi até a panela para pegar mais sopa, momento em que Devic proclamou um NÃO decidido.

A tenente deu um curto salto. Nunca pensou que ele estaria tão determinado a ver o próximo capítulo da novela, e até se preparou para pedir desculpas, mas o que ouviu foi muito diferente do que esperava.

— Eu venho pensando nisso há um bom tempo. — Ele se aproximou, o suficiente para que fosse o foco de atenção. — Eu… provavelmente vou ficar bem mais forte no futuro, na verdade eu gostaria de ser o melhor entre todos os Soldados de Elite, mas…

Ele segurou a mão da garota, alisando a palma áspera, cheia de calos, sorrindo orgulhoso para cada cicatriz fechada.

— Eu quero um motivo maior para ser forte, algo além de mim mesmo! Eu… quero que você seja a minha razão para melhorar!

Ela conseguiu apenas gaguejar o nome do soldado, também incapaz de esconder o rubor em seu rosto.

— Tenente, não… Amanda!

Num ímpeto de coragem, se ajoelhou diante dela e estendeu os braços, as mãos em concha apresentando uma pequena caixa vermelha, a qual guardava um anel dourado.

— Você… quer se casar comigo?

Quando a encarou de volta, viu que sua pele havia virado um tomate, enquanto as pupilas foram substituídas por espirais. A preocupação real veio quando fumaça saiu por seus ouvidos e, por fim, seu corpo tombou para trás.

— Amanda…?! AMANDA!!


2 anos se passaram.

O caminhão militar invadiu a cidade fantasma a toda velocidade. Nem mesmo as paredes de concreto ou barreiras de veículos queimados pararam seu avanço, uma exibição de força que sairia cara.

Um vampiro saltou do topo de um edifício e aterrissou no meio da rua. Sua pele era afiada e tinha um aparência poligonal, como um personagem de vídeo game antigo. Era meio translúcido, brilhante como se saído de uma piscina de glíter.

Com um único soco, ele parou o veículo e o separou em dois, causando uma explosão dramática. Caminhou sem problemas para dentro das chamas, porém o largo sorriso desapareceu.

Hã?! Outro carro vazio? Cadê as pessoas? Eu preciso de sangue!!

De repente, seu rosto foi dividido em dois por um corte que nem soube de onde veio. A metade superior deslizou e caiu no chão, seguida pelo corpo que logo começou a virar pó.

Devic arrastou o corpo para fora das chamas, analisando a pele do vampiro antes que tudo virasse poeira.

— Entendi, tudo dele era feito de diamante. Dos ossos até a pele. Bem que eu estranhei ter conseguido cortá-lo tão fácil.

Amanda surgiu de escombros próximos, parabenizando seu esposo pela ação rápida com um curto beijo. Não havia problemas já que estavam sozinhos nesta missão.

— Esse também era um Descendente, é o terceiro só hoje. — Suspirou, inquieta. — Algum sucesso na área residencial?

— Nada. Havia alguns vampiros menores, mas nenhum civil perdido. Também não encontrei nenhum documento nas delegacias, parece que foi tudo queimado.

— Queimado?! Mas por quê? Vampiros não teriam motivos para destruir informações… eu acho. Argh! E aqueles malditos bibliotecários ainda me fizeram achar que tinha algo importante aqui! Eu vou matar eles!

— Se acalma, a gente pode questionar eles depois. Quer fazer outra ronda antes de ir embora?

Ela suspirou, massageando a testa.

— Não, já perdemos tempo demais andando por aqui só pra ter vampiros incomodando. Vamos voltar para o batalhão e…!

O silêncio repentino chamou atenção. Amanda arregalou os olhos e seus ouvidos deram um curto salto, atentos.

Devic prestou atenção, mas tudo parecia normal. No momento em que iria questionar, a Tenente deu as costas e caminhou na direção de alguns escombros próximos.

Se agachou, moveu alguns dos largos pedaços de concreto esfarelado e encontrou o que queira, dotada de um cuidado que seu marido nunca havia visto antes.

Nos braços ela carregava com cuidado algo que, de longe, Devic identificou como uma rocha de formato curioso, mas que tomou forma assim que Amanda ficou ao seu lado.

Longe de simplesmente uma coincidência da natureza. A "rocha" em questão era dotada de pernas e braços, estes encolhidos junto ao corpo travado na posição fetal, completamente coberto pela poeira de concreto.

Respirava entre longos intervalos, sua boca a expelir mais sangue do que ar propriamente dito. Uma pobre alma que, com sorte, sobreviveria por mais uma hora se deixada ali.


10 anos se passaram.

Após um longo dia de trabalho e quase uma hora dirigindo, Devic estacionou o carro emprestado pelo exército na porta de casa.

Abriu a porta da frente com sua confortável cama em mente, porém o sono foi expulso por um ataque surpresa.

— PAPAAAAAAAI!!

Foi atingido no estômago por um torpedo no formato de criança, a força surpreendente capaz de fazer o Soldado de Elite cambalear para trás.

Aquela figura que viu nos braços de Amanda naquele dia se tornou apenas uma memória triste, fadada a desaparecer no brilho destes sorrisos diários.

A pequena Claire — nome decidido pela esposa — usava um pijama leve, seu rosto um pouco sujo de giz de colorir.

Seu corpo antes rochoso agora se destacava de qualquer escombro cinzento. Os olhos que seus pais pensaram que nunca iriam abrir agraciavam este mundo com um azul tão puro quanto a nascente de um rio, a pele amorenada sobrepôs a fuligem, e seus cabelos castanhos já eram tão lindos quanto os de Amanda.

Devic a pegou no colo após se recuperar do golpe, notando uma estampa única na camiseta.

— Acordada essa hora, sua danada? — Num único olhar ele notou a razão. — Esse desenho… foi você que fez isso?

Três pessoas estavam desenhadas no corpo. Apesar de palitos, as linhas vermelhas, outras cinzas e outros detalhes menores identificavam cada um. Amanda à direita, Devic à esquerda e Claire no meio, erguida no ar pelos pais.

— Eu fiz com aquelas canetas permanentes da mamãe, assim não vai sair!

Ele elogiou o desenho enquanto acariciava a cabeça da filha.

Havia se preocupado à toa, pensou que teria de lacrar a camiseta em alguma cápsula para evitar que sujasse, mas pelo visto nem a limpeza mais brutal seria capaz de apagar esta memória.

Ah, você chegou, perfeito. — Amanda apareceu no corredor trajada em seu uniforme. — Me chamaram para dar suporte à um grupo em uma cidade fantasma. Parece que apareceu um grupo de…

Ela mirou Claire, que prestava atenção em cada palavra. Numa tosse falsa, fez carinho na cabeça da filha e completou:

— Um grupo de… mercadores apareceu. Querem que eu vá e auxilie no diálogo com eles. — Escondeu a espada nas costas. — Pode dar um banho nela antes de dormir?

— Claro.

Uma resposta imediata, tal como a reação da garotinha em se debater desesperada, porém impedida de fugir por já estar nos braços do pai. Uma traição cruel.

Felizmente, ela foi permitida a sair. Sozinhos na entrada da casa, Amanda continuou:

— Eu estava lendo alguns relatórios recentes de outros esquadrões… Eles falavam sobre um movimento estranho dos vampiros. Quando colocamos num mapa, percebemos que muitos deles chegaram na beirada de uma cidade fantasma próxima daqui, mas nenhum deles sequer pisou na área da cidade.

— Como se algo os impedisse de entrar? Talvez seja uma habilidade de área.

Ela ponderou brevemente.

— Eu espero. Depois que os Vampiros Originais se separaram um para cada região, eu comecei a ficar paranoica sobre algum esquema maior. — Suspirou, deixando as preocupações para mais tarde. — O que vai fazer agora?

— Na verdade eu só vim pra dormir. Fui chamado para uma missão no Norte. Três membros importantes da Igreja Ghost desapareceram numa missão para eliminar um vampiro, e agora querem nossa ajuda para encontrá-los. Eu vou chamar algum dos rapazes que estiver de folga pra cuidar da Claire.

— Certo, obrigado. — Na ponta dos pés, ela deu um beijo de despedida. — Até daqui alguns dias, então.

Após a saída da esposa, Devic deu um banho em sua filha — tarefa equivalente a uma guerra — e ambos foram para a cama.

Claire tentou se esgueirar para debaixo do cobertor para dormir junto de seu pai. Por mais que quisesse, Devic negou, afirmando que ela deveria começar a dormir sozinha agora que já tinha dez anos.

 

Na manhã seguinte, Devic terminou de calçar o novo par de botas, se levantando e, após conferir as aparências no espelho, tornou a encarar a dona da voz alegre.

— Quando você volta, papai?

Claire usava seu vestido preferido, um branco com estampa azul de ursinho, além de um único laço rosa nos cabelos castanhos.

— Eu te falei — disse, se agachando para ficar na altura da garota. — Vou voltar com tempo de sobra para você fazer a minha surpresa.

— Mas não vai ser surpresa se você até já sabe! Esqueça! Esqueça imediatamente!!

Esquecer? Esquecer o quê? Ele brincou, afagando a cabeça da garotinha.

— Você ainda lembra de todas as tarefas que precisa fazer, não é? O horário das refeições, o que fazer numa emergência…

— Tem uma lista grudada na geladeira com tudo anotado! Se der merda, é só correr para o quarto do pânico! — Fez um joinha orgulhoso.

Se der merda? Queria perguntar onde exatamente ela aprendeu isto, mas, assim como para quase todas as mudanças da pequena, não lhe sobrava tempo para descobrir como ou quando aconteceu.

Apenas saber que ela crescia segura era o suficiente para lhe alegrar.

Ah, mas espera! Eu quero mostrar meu desenho!

Ela foi até o quarto e voltou rapidamente com uma folha em mãos.

— Sou eu e a minha melhor amiga!

Tal como o desenho da família, eram pessoas de palitinhos, mas era fácil diferenciar por serem dois personagens, e também por uma levemente assustadora diferença de altura.

"Dois metros? Não, talvez um pouco mais."

A pessoa que se colocava ao lado de Claire no desenho era uma mulher. Dois riscos na cabeça imitavam um cabelo curto em corte chanel, e um triângulo tremido a servia de vestido. O mais destacável, porém, era o sorriso curto e o par de olhos verdes que encaravam para fora do desenho.

— Entendo… ErQuerida, eu vou querer conhecer essa sua amiga depois.

Hum? — Claire tombou a cabeça e riu curtamente. — Papai, não tá vendo ela bem ali?

Claire apontou para a mesa na cozinha, onde os três sempre se sentavam para comer juntos.

Arrepio.

O olhar arregalado de Devic vasculhou cada grão de poeira que cruzou sua visão.

A mesa estava vazia.

"Amigo imaginário…? Bem, melhor do que um estranho."

Conferiu mais algumas vezes, apenas por garantia, e no final riu de si mesmo.

Por fim, se despediu da filha com um beijo na testa, mirando a mesa vazia uma última vez antes de sair pela porta.

"Deve ser minha imaginação…"


A missão no Norte durou apenas três dias, um tempo curto, que Devic jamais pensou ser suficiente para tantas mudanças.

Logo que chegou, recebeu uma notícia antes de qualquer cumprimento.

A área residencial está sob ataque!!

Desesperado, ele cobriu a pé os vários quilômetros que separavam os quartéis das residências dos soldados, especificamente a sua.

Nunca em sua vida havia se forçado ao limite de tal forma, tanto que na metade do caminho suas pernas quase se separavam do próprio corpo.

As manteve fixas à força, flexionando todos os músculos de seu corpo ao ponto que chorou lágrimas de sangue.

Mesmo com tanto esforço, levou quase meia-hora para chegar em sua casa.

— Não…

A partir de sua casa, tudo numa área de cinco quilômetros foi reduzido a escombros. No entanto, não haviam sinais de explosões ou uso de qualquer equipamento pesado.

Era como se, num piscar de olhos, um desastre natural tivesse aparecido e varrido tudo em seu caminho antes de desaparecer tão rápido quanto surgiu.

— Claire… CLAIRE!!

Bem quando chamou pelo nome de sua filha, os olhos de Amaldiçoado encontraram algo para culpar.

No meio da poeira, uma silhueta alta indistinguível, mas que erguia no ar uma outra que conhecia mais do que bem.

Chek!

Sem tempo para qualquer palavra, o corpo exausto de Devic disparou como um torpedo, seus olhos tão vermelhos quanto a própria lâmina de sua espada.

Mesmo com os efeitos da [Overkill], sua fúria tornaria sua lâmina mais afiada que qualquer coisa neste mundo.

VUSH!

Mas não acertou nada.

A pressão criada pelo golpe limpou a poeira com uma rajada de vento, revelando um ambiente desprovido de qualquer vida.

Ele viu.

Não tinha rosto, som ou cheiro, como uma existência etérea brevemente manifestada no mundo físico. No entanto, tinha uma aura; que ele martelou na carne viva de seu cérebro, de forma que jamais esquecesse mesmo que sua memória fosse manipulada.

Seu inimigo era claro, ao mesmo tempo, uma incógnita.

— Um Vampiro… Original?!

 

 

 


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