Sputnik Saga Brasileira

Autor(a): Safe_Project


OVERKILL

Capítulo 12: Para Satisfazer Seu Coração I

Num dos mais intensos cruzamentos da cidade, um carro desgovernado ultrapassou o sinal vermelho no pior momento.

O motorista puxou o freio de mão, o qual quebrou no ato. À frente, um caminhão surgiu.

Sem mais opções, protegeu o rosto e se preparou para o impacto.

Tum! FSSSH!

Mais leve do que esperava, o airbag sequer ativou. Quando abriu os olhos, um rosto familiar da área o perguntou com um sorriso:

— Se machucou?

O guarda de trânsito parou o carro com as próprias mãos, suas botas praticamente indestrutíveis servindo de freio, evitando completamente o acidente.

— Sr. Devic! Obrigado! Salvou a minha vida!!

Haha! Por nada, só tô fazendo o meu trabalho.

Após realizar todo o processo legal e colocar o veículo no guincho, Devic foi até o carro de patrulha estacionado numa das esquinas do cruzamento.

O próximo guarda da troca de turnos não estava ali. Com um resmungo, decidiu esperar pelo sujeito, o que lhe deu a chance para observar o movimento.

Antes uma das várias cidades fantasmas do Sul, este lugar agora esbanjava um nível de vida que existia apenas nos sonhos de muitos.

Ruas asfaltadas serviam para os infinitos carros a ir e vir, controlando o fluxo principalmente com os sinaleiros recém-instalados.

Os pequenos comércios emergentes disputavam o atenção com as propagandas exibidas nos edifícios comerciais, alguns tão altos que o topo quase se perdia entre as nuvens do céu parcialmente nublado.

Ao invés de gritos, o que ecoava pelas ruas e calçadas eram o som de buzinas e conversas entre os passantes.

No céu, no lugar de vampiros alados e aves carniceiras, pequenos pássaros dividiam o espaço com pombos urbanos.

"Fazendo meu trabalho…" Deu um breve suspiro. "Parando pra pensar, eu nunca disse isso naquela época."

O uniforme preto dos Soldados de Elite foi substituído pela roupagem de guarda de trânsito, exceto pelas botas, que além de estilosas eram muito úteis para parar ou perseguir carros.

Mesmo sem todas as vantagens dos Órgãos Especiais, Devic ainda era destaque de força entre qualquer grupo de pessoas.

Por mais que não fosse capaz de arremessar toneladas de pedra direto para o espaço, parar um grande veículo com as próprias mãos ainda era um ato impressionante.

Estava tudo calmo, ousa-se dizer que a nível utópico. Quem sabe por isso que ele ainda colocava a mão sobre o peito.

"Essa sensação…"

Ela nunca passou. Diminuiu consideravelmente, tanto que por vezes a esquecia, mas ela sempre estava lá.

Alguns minutos se passaram e o guarda da troca de turnos apareceu, compartilhando um copo de café com Devic antes que este fosse embora.

Claro, o simples fato de bater ponto não fazia a cidade parar.

No quarteirão seguinte, ajudou uma senhora carregando uma quantidade cômica de laranjas a atravessar a rua.

Em seguida, ajudou algumas pessoas que tentavam resgatar um gatinho preso numa árvore, descobrindo que na verdade era um bode preto. Ajudou da mesma forma.

Mais à frente estava uma das várias lojas de Russisch, a placa "Kaiba Russisch Corp.", onde cumprimentou o inventor a desenvolver um sol artificial na garagem.

Apenas outro dia normal na cidade, ou deveria dizer em La Serva.

Seguindo pela rua, chegou à padaria de costume. Por sorte chegou antes do horário do pico, onde a fila pelo pão de queijo virava a esquina.

Ao entrar, encontrou alguns dos clientes regulares tomando uma xícara de café nas mesas de canto. No balcão, a figura com capacete de astronauta acenou em sua direção alegremente.

— Bom dia, gatão! ( ̄▽ ̄)

— Bom dia — disse com um sorriso. — O de sempre, por favor.

— Fim de turno, imagino. Como foi hoje?

Enquanto Lucas pegava os mesmos pães e quitutes de sempre, Devic olhou um pouco ao redor.

A atmosfera leve servia como um portão trancado, guardando uma lembrança distante, mais pesada.

— Ein, Lucas. Você também não acha tudo isso meio… estranho?

O rapaz travou por longos segundos, encarando Devic diretamente. Por causa do capacete, era impossível dizer que expressão tinha no rosto.

— Estranho? — Resmungou, pensativo. — Bem, é esperado imaginar isso. Até pouco tempo atrás isso tudo era uma zona. Cidades fantasmas, vampiros pra todo lado… Ninguém esperava que tudo fosse mudar tanto depois de matar um Original.

Acenou com a cabeça.

A grande batalha final contra a legião de vampiros e, especificamente, a luta que teve contra Ludwig para colocar um fim à tudo.

Quando o vampiro foi morto, foi como se um selo que estava secretamente afetando toda La Serva tivesse se quebrado.

Os vampiros pararam de aparecer, e até os Amaldiçoados ficaram mais raros já que a maioria das Maldições eram praticamente inúteis em tarefas do dia a dia.

Por sinal, todos os açougues tinham fotos do Devic para evitar que ele fosse contratado.

— Acho que o importante é que estamos vivos — continuou Lucas. —, pode aproveitar essa oportunidade pra satisfazer todo o tempo que você ficou nos Soldados de Elite.

Após pesar as compras e receber o pagamento, Lucas entregou as sacolas e completou:

— Mas, se por alguma chance, você estiver interessado em relembrar os velhos tempos, pode usar isso.

Ele mostrou um doce nostálgico, um simples pirulito vermelho, do mesmo que costumava dividir com o colega durante algumas missões.

… Fui eu mesmo que preparei esse, deu bastante trabalho. Espero que goste.

Devic agradeceu e pegou o doce, colocando num dos bolsos do uniforme. Por fim, com um último aceno de despedida, ele foi para casa.

 

Graças aos seus esforços no tempo como soldado, pôde escolher qualquer casa para morar na cidade.

Ficava longe do centro movimentado, e por sorte a vizinhança também era bem tranquila. Havia uma praça próxima com parquinho onde as crianças brincavam quase o dia inteiro, além de pistas de caminhada, ciclismo e academias que os adultos podiam usar gratuitamente.

A casa em si era simples, contendo o suficiente para uma vida mais do que confortável.

Logo que abriu a porta da frente, ouviu os passos velozes do predador que roubou a sacola de suas mãos.

— Têm doces!?

Claire assaltou as sacolas como um rato faminto, roendo um pão doce antes que fosse erguida no ar. Nem mesmo o Terceiro Olho seria capaz de reagir aos seus rápidos movimentos.

Amanda apareceu em seguida, ajudando a levar as compras para dentro.

Pouco depois o almoço foi servido e toda a família se reuniu à mesa. Foi um verdadeiro banquete.

Tão cansada das rações militares quanto o próprio esposo, Amanda se esforçava nos últimos dias para preparar pratos diferentes para esquecer o gosto artificial que tinham de aguentar praticamente todos os dias.

O olhar de Devic caía sobre as garotas entre as garfadas na comida.

Claire exalava a felicidade de uma criança a cada movimento, acelerando as mordidas nos legumes quando via a mãe cerrar o punho de forma ameaçadora. Ela provavelmente iria para o parquinho para brincar com outras crianças depois que terminasse de comer.

Amanda, por sua vez, mostrava uma disposição que tornava difícil acreditar que havia acordado de um coma há pouco tempo. O corpo desnutrido virou apenas uma lembrança distante, agora tão saudável quanto na época que estava em seu auge.

Devic parou de contar os dias desde que derrotou Ludwig, quem sabe quanto tempo já havia se passado desde então.

Nem se importava. Se acostumou à rotina mais tranquila, sem derramamento de sangue. Apenas cumpria seu dever, conversava com Lucas, voltava para casa, brincava com a filha e admirava a beleza de sua esposa antes de irem dormir.

Este dia não foi diferente.

Terminado o almoço, Devic foi com Claire até a praça, onde ficaram até o pôr do sol.

De volta em casa, cada um jantou, fez a higiene pessoal do dia e foram para suas camas.

Amanda descansava as costas na cabeceira da cama enquanto lia um livro.

— O que tá lendo? — perguntou Devic ao se sentar na beirada.

— É uma história de vida pela perspectiva de uma cobra.

Ela mostrou a página que estava lendo, tudo consistindo numa sequência de "sssssss".

Ignorando isso, ele deu um curto riso e suspirou, massageando as têmporas enquanto encarava o chão. Preocupada e um pouco curiosa, Amanda deixou o livro de lado e se aproximou um pouco.

— Tudo bem com você?

Não respondeu de imediato. Seu olhar encontrou o dela por cima do ombro, seguido de outro suspiro, um resmungo dolorido e uma repentina coceira na nuca.

— Só… me sentindo estranho.

Amanda ficou em silêncio por alguns segundos, vendo o marido suspirar algumas vezes antes de fechar seu livro.

— Estranho como?

Ele abriu a boca para responder… e fechou de novo.

A estranha sensação o perseguia há algum tempo, inexplicável, como um lobo que vigia sua presa antes do bote. Em seu caso, era como se o lobo estivesse o devorando por pequenas mordidas, cada uma ignoradas até o fatídico momento que caísse morto.

— Eu não sei… Eu derrotei Ludwig, você acordou do coma, a Claire está à salvo, a cidade foi reconstruída e está em paz, não tem mais guerras nem ordens absurdas. Mas… eu sinto que esqueci algo importante.

Ela deu um curto em resposta como se tudo fosse óbvio.

— Você não esqueceu — disse num tom aconchegante. — Apenas empurrou para longe.

Devic franziu o cenho. — Empurrei o quê?

Amanda o agarrou por trás, apoiada em suas costas. Suas mãos descansando logo acima de seu coração. Batimentos fortes, quase um tambor. Gradualmente acalmado por um calor inexplicável.

— Os dias que você falhou, as pessoas que não conseguiu salvar, as ordens que seguiu mesmo sabendo que eram erradas. Você sempre foi o mais forte em comparação com quem estava ao seu redor, e por causa disso achava que aguentava tudo sozinho.

… Eu sei disso melhor do que ninguém, afinal eu estava lá o tempo inteiro, sempre te observando de perto.

Ele engoliu em seco, ainda em silêncio.

Amanda apoiou a cabeça em seu ombro, sussurrando sem pressa em seu ouvido.

— Você não venceu aquela batalha apenas derrotando Ludwig, mas evitando lembrar tudo que aquilo fez com você. E está tudo bem isso. No fim das contas, essa vida era o que você queria desde o início, não é?

… Nenhuma pessoa pode ser julgada por querer ser feliz. Até você, sendo um Soldado de Elite, no fim é apenas uma pessoa. Agora, descanse.

Ela o deu um beijo de boa noite e apagou a luz do abajur antes de se deitar.

Ao mesmo tempo que ela relaxou a cabeça sobre o travesseiro, o leve sorriso de Devic se desfez devagar.

Com as palavras de sua esposa, sua mente tremia junto do coração.

Na pequena cômoda ao lado, encontrou o pirulito que Lucas havia lhe dado mais cedo, lembrando-se das palavras do colega.

-Se estiver interessado em relembrar os velhos tempos, use isso.

Um pouco hesitante, ele removeu a embalagem do doce e o analisou brevemente. Idêntico a qualquer outro. De tal forma, apenas o pôs na boca e se deitou, encarando o teto enquanto se perdia em pensamentos.

Sem perceber, ele adormeceu.

Fechado os olhos, não sonhos, apenas caiu. Sua mente absorvida para dentro de uma porta que sempre esteve ali.

Ordens eram passadas por uma voz familiar que hoje fazia falta.

Era o Líder Absoluto, e este era o dia em que fazia o teste de ingresso para se tornar um Soldado de Elite.

 

 

 


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