Sputnik Saga Brasileira

Autor(a): Safe_Project


OVERKILL

Capítulo 15: [Ele] e [Ela]

Usando um dos veículos militares à disposição, Devic primeiramente dirigiu para sua casa, onde resetou o tempo até a morte súbita da Maldição.

Então, com vinte dias exatos para cumprir seu dever como Soldado de Elite, ele dirigiu em direção à Torre.

Seria mais rápido correr, porém priorizou chegar ao local com o máximo de energia possível, além de limitar as refeições às rações militares. Apesar de ruins em sabor, era certeza que não causariam mal algum ao seu estômago, e também tinham todos os nutrientes necessários para mantê-lo em seu ápice.

Perder todos os três Órgãos Especiais em pouco afetava, afinal a parte mais intensa de seu treino ocorreu desde sua infância, e os resultados ainda se destacavam no corpo musculoso e o olhar determinado.

Com paradas regulares para esticar as pernas, comer e dormir, Devic alcançou a Torre em oito dias.

A estrutura cujas bordas se perdia à vista tanto nas laterais quanto acima causava um pouco de náuseas. Era como se daquele ponto em diante, a própria realidade tivesse sido apagado e o buraco coberto com uma cobertura de metal negro.

Estacionou o carro um pouco afastado, atrás de uma pequena elevação de terra, seguindo o resto do caminho a pé.

Pela primeira vez ele agradeceu o fato da região Sul ser uma das mais desertas, tendo a certeza de que nenhum civil seria pego no fogo cruzado.

Na cintura, a espada de lâmina branca refletia seu olhar afiado, reafirmando o objetivo.

"É agora… Vamos acabar com isso!"

Com passos firmes, ele subiu a pequena elevação de terra e, no auge, avistou o ponto de encontro.

Parado no terreno alto, ele avaliou brevemente. Suspirou. Ainda com pose firme, fez o resto do caminho.

Uma mesa retangular de cinco metros foi posta no meio do nada. Um pano branco impecável a cobria por inteiro, com pratos, talheres, taças e castiçais organizados como se para um grandioso banquete. No entanto, haviam apenas dois assentos, um em cada ponta.

Sem perder tempo, Devic tomou o lugar onde ficava de frente para a Torre, apoiando os braços na mesa e, por fim, encarando a figura sentada à sua frente.

— Você parece nervoso. Bebeu água hoje?

Uma mulher de vestido preto e pele clara que, mesmo sentada, intimidava com sua altura. Os fios negros em corte chanel davam uma aparência mais arredondada ao seu rosto, disfarce esse parcialmente quebrado pelos afiados olhos esmeralda e um sorriso incomodamente meigo.

Sem responder à pergunta, ele apenas a encarou diretamente por um tempo.

Sua mente ficou branca por um momento, ainda processando o fato de que [Ela] estava bem à sua frente.

Várias formas de começar a conversa foram consideradas, e em algumas delas ele apenas sacava a espada e a brandia violentamente contra a vampira.

Com calma, Devic organizou os pensamentos, relembrando tudo que passou até chegar aqui.

Após se acalmar, ele decidiu por onde começar, finalmente perguntando.

— Por que me deixou sair da ilusão?

A mulher sorriu, cruzando os braços e as pernas debaixo da mesa.

— Eu não deixei, você que saiu por conta própria. — Estava calma, como um verdadeiro anfitrião que recebia o convidado de honra. — Independente do quão elevada seja a proficiência de um com a própria habilidade, existem limites. Eu mesma  até consegui ultrapassar alguns, mas não esse.

…Depois que você derrotou "Ludwig" e perdeu o Terceiro Olho, eu te coloquei numa ilusão que mostrava apenas o que você queria, e percebendo isso, você se forçou uma reflexão com respostas que te levaram para a realização, assim te libertando. É o primeiro que consegue algo assim.

— Mas o que exatamente é o "Ludwig"? — perguntou, intrigado.

Oh, esse foi um caso curioso. Sabe, você já deve estar supondo que a minha habilidade é baseada em ilusões, e está correto nisso. Ludwig foi uma das várias ilusões que eu criei por toda La Serva, e ele existia tal qual uma mera alucinação, tanto é que ele sempre se desfazia quando você tentava atacá-lo. A única coisa que existia nele era uma pequena parcela da minha consciência.

— Mas eu consegui tocá-lo durante na última batalha, ele também o fez comigo. Claramente era um corpo físico. — Engoliu em seco. — O que aconteceu naquele caso?

Ela sorriu fracamente.

— Vou pensar em responder essa. Próxima pergunta.

Devic ponderou, o Líder Absoluto vindo-lhe à mente. Ele havia comentado que também se preparava para confrontar [Ela], o que o levou a formar os Soldados de Elite.

— O que você fez com a mente das pessoas do Sul, e há quanto tempo faz isso?

Hmm, essa é boa, e também foi uma das que mais deu trabalho. — Ela empinou o nariz, orgulhosa. — Foi um plano que eu iniciei pouco antes do Líder Absoluto inaugurar o projeto do Soldados de Elite, então aproximadamente uns 50 anos. Foi um plano que eu dividi em duas etapas.

…O Líder sabia que eu era o Vampiro Original por aqui, e obviamente ele compartilhou a informação com todos os seus soldados. O que eu fiz foi colocar uma proibição na mente de todos eles, impedindo que citassem meu nome ou até mesmo lembrassem que eu existo. Foi aí que surgiu o Ludwig.

…A segunda etapa envolveu os civis e outros que tinham uma vaga noção de quem eu era, incluindo pessoas de outras regiões. Neste caso foi algo mais para evitar que informação desnecessária se espalhasse.

O cenho do espadachim se contorceu, a maior parte do incômodo disfarçado num ranger de dentes.

— O fenômeno da "Explosão Espontânea".

Ah, você conhece, então! Ele é um pouco simples demais, sinto até um pouco de vergonha em falar.

…Por causa das restrições, as pessoas começaram a se referir a mim como "vadia" ou algo parecido antes de explanar um monte de coisa reveladora, então eu coloquei esse e alguns sinônimos como palavras chave pra ativar a explosão. É básico, mas bastante útil.

— Mas… o seu plano ainda não faz sentido na minha cabeça — declarou, massageando a testa. — Você controlou todos os outros soldados facilmente, até mesmo o Líder Absoluto, então você deve saber que eu sou… era considerado o mais forte entre eles. Por que você, e logo você, manteria alguém assim livre?

— E há alguma razão para tentar entender a mente de um vampiro?

Ele estalou a língua em resposta, tirando um curto riso sapeca da vampira.

De fato, poderia ser uma razão tão fútil quanto para uma criança falar que quer doce quando vai ao mercado. Simplesmente "eu quero". Vampiros são, em maioria, criaturas simplórias a este nível.

— Eu já ouvi falar de vampiros com habilidade de área, mas eu ouvi falar que só se estendiam no máximo 100 metros. Pra você conseguir controlar alguém do outro lado de La Serva… — São milhares de distância de distância. — Isso te coloca torna a mais forte?

Hum Depende de como você analisar. Deve ter ouvido isso em algum momento durante as aulas de combate a vampiros, que um status ser maior que o outro não significa necessariamente mais força, mas se você considerar somente o quão bem eu faço uso da minha própria habilidade, eu devo ser a mais forte atualmente, mas nunca se sabe o dia de amanhã.

Ao que um pouco de suor escorria pelo rosto do soldado, a vampira soltou um longo suspiro, encarando as próprias unhas por um momento.

…Enfim, nós vamos lutar ou não? Você deve saber que a primeira investida numa nova relação tem que ser feita pelo homem, e também é feio deixar a moça esperando.

Pressionado pelos olhos esverdeados, ele quase o fez, como se seguisse ordens. A única coisa que o parou foi a última pergunta que queria fazer.

— Eu já sei sobre os Soldados de Elite, sobre Ludwig e minha esposa. Mas a minha filha... O que aconteceu com ela?

Antes ficou aliviado por não ter encontrado vestígios da pequena, no entanto seria atormentado pelo resto de seus dias se não perguntasse quando a responsável estava literalmente cinco metros à sua frente.

— Querido, eu mato gente todo dia, acha mesmo que eu fico prestando atenção em todo mundo? Tudo bem que te vigiei por motivos especiais, mas você também tem que entender que eu não esperava que fosse chegar até aqui.

Chek…!

Ciente das intenções da mulher — evidenciadas no semblante ansioso — ele quase sacou a espada. Se avançasse agora, esta informação seria para sempre perdida no calor da batalha.

Mais um pouco. Aguentaria só mais um pouco.

— Quase uma década atrás. Era uma garotinha de dez anos, pele branca com sardas no rosto, olhos azuis, cabelo castanho, uma pequena pinta no canto esquerdo da boca e outra na sobrancelha direita. Tinha uma queimadura no braço direito, e por causa da dor ela usava mais o esquerdo apesar de ser destra… O nome dela era Claire.

A vampira abriu um largo sorriso satisfeito.

Ah~! Agora que você comentou eu me lembrei! Uma garotinha muito fofa, diga-se de passagem. Sério, eu devo ter ficado quase um dia inteiro só admirando ela!

Quase perdida em seus próprias delírios, ela voltou à realidade quando um forte pisão fez o chão tremer. O par de rubis a queimar em fúria, mirando sua alma.

O ar ficou pesado, o oxigênio quase zerado para suprir as densas arfadas raivosas do soldado.

— O que você fez com ela?

He! A curta risada ao invés de uma posição defensiva.

— Vendo você pessoalmente, percebo que os comentários dela foram bem precisos. — Ela forçou voz infantil. — "Meu papai é muito forte, ele vai chegar aqui e te expulsar só te encarando!", ou algo assim. Hehe! Sim, ela era perfeita…

Os olhos da mulher suavizaram, os braços envolvendo a si mesma num abraço gentil — apesar de uma das mãos descer um pouco e começar a acariciar uma outra parte. Mas, dentre tantas coisas, seu semblante havia se perdido momentaneamente em nostalgia.

Tunk!

Ela levantou de súbito, como se atacada por um êxtase que fez as pernas moverem por conta.

Devic também se levantou, mas devagar, atento a cada movimento da vampira.

— Aquela garotinha — continuou entre longas arfadas. — ela era verdadeiramente bela, em todas as formas. Além do mais…

A vampira levou um dos dedos ao beiço, o semblante como o de alguém satisfeito com um banquete pós-jejum.

— Sua filhinha… ela estava uma delícia.

TRUMSH!

Um breve tremor de terra atingiu a área da mesa quando Devic afundou um dos pés no chão.

Antes pesado, o ar de repente ficou quente, ao ponto de queimar os pulmões da mulher, cujo semblante demonstrou surpresa pela primeira vez desde o início da conversa.

Ela acreditava até então que os Vampiros eram as únicas criaturas sobrenaturais a vagar por La Serva, o que mudou completamente.

À sua frente estava algo semelhante aos demônios das lendas, e este estava prestes a ter um ataque de fúria!

A excitação maníaca ajudou a mascarar sua ansiedade com um largo sorriso alegre.

— Venha! Vamos fazer isso!!

Ela abriu os braços para receber o abraço vulcânico do soldado. Porém, o cabelo que estava prestes a se transmutar em verdadeiras chamas se acalmou de repente, junto do brilho de razão que reapareceu em seus olhos.

Ante o olhar incrédulo e confuso da mulher, o espadachim iniciou:

— Eu passei por muita coisa até chegar aqui. Coisas que eu acreditava ser verdade se provaram mentira, e o contrário também aconteceu. Não estou dizendo que me tornei alguém completamente diferente nem nada do tipo, mas tudo que eu passei e aprendi me fez tomar a decisão de mudar como pessoa e…

Aff! Que chatice! — A vampira tombou todo o corpo para trás, quase caindo no chão e começando uma birra. — Essa era para ser a parte em que você saltava para cima de mim gritando "SUA PUTA" ou algo assim, aí a gente começava a batalhar epicamente!

Ela criou a imagem de um louva-deus gigante ao seu lado e trocou alguns golpes de boxe, parando ao levar um tapão na orelha.

Devic a ignorou, uma veia saltando-lhe à testa.

— Como eu dizia, o que eu passei me ajudou a mudar para uma versão melhor de mim mesmo. A única coisa que eu fiz agora foi evitar atacar sem pensar. Dito isso…

Agarrou as laterais da mesa, seus dedos afundando na madeira.

— Ninguém ficaria calmo depois de ouvir tanta merda!

Ele ergueu a longa mesa acima de sua cabeça, tapando a visão de seu oponente, este cuja reação foi um breve oh! antes de uma das pernas do móvel afundar em seu rosto.

TRUNLK!

Antes mesmo que Devic soltasse os dedos da mesa, uma enorme serpente negra ergueu-se das tábuas afiadas e serpenteou pelo corpo do móvel em direção ao soldado.

No último instante, ele conseguiu sacar a espada e por à frente para defender da mordida que não aconteceu.

A cobra parou a centímetros de seu rosto, e da boca aberta um punho disparou contra o rosto do soldado, arremessando-o alguns metros para trás.

O animal se contorceu em seguida, moldando de volta à imagem de uma mulher.

— Acabei de perceber, nós nem nos apresentamos devidamente.

Como uma dama convida um cavalheiro para dançar, ela se curvou levemente na direção do soldado.

— Eu sou Carmilla, a mais nova entre os quatro Vampiros Originais. — Soprou-lhe um beijo e lambeu os lábios. — É um prazer.

Recomposto antes mesmo da nuvem de poeira baixar, Devic fitou o inimigo que agora se mostrava por completo.

O aviso máximo a pairar sobre a cabeça.

 

Vampiro Original

Força 75/100

Agilidade 78/100

Inteligência 92/100

 

"Essas estatísticas…"

Apertou o punho da espada, escondendo o leve tremor de suas mãos.

— Meu nome é Devic Santos, o último Soldado de Elite…

Brandiu a espada à frente de forma teatral, se aproximando a passos curtos e firmes.

— Eu sou…

Se pôs a poucos centímetros de Carmilla. Mesmo com seus 1,90 de altura, seu rosto ficava rente ao busto da vampira, obrigando-o a olhar para cima.

Encarando o abismo nos olhos esmeralda, ele declarou:

— Eu sou a espada… ao serviço de todos!

 

 

 


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