Volume 1
Capítulo 9: Seleção (4)
Clac~
Um homem de terno preto empurrou a porta enorme e entrou na sala lúgubre e mal iluminada, tomada por uma atmosfera pesada e opressiva. Então, um som agudo cortou tudo como uma flecha perfurante.
— Eu não deixei claro que não era para me interromper durante o trabalho? — a dona da sala rosnou antes mesmo que ele conseguisse dar um passo completo para dentro.
Os pés da Harona balançavam no ar a partir da cadeira alta demais, fazendo-a parecer quase infantil. Só que tratá-la como uma era motivo para decapitação. Ainda assim, o homem se manteve firme, sem se deixar enganar pela aparência inofensiva dela, nem ser dominado pelo medo da morte.
— É algo urgente, senhorita Harona.
— Urgente? — Só então Harona espiou por trás de uma densa nuvem de telas flutuantes, afiada como sempre. — Se não for realmente urgente, eu vou fazer você se arrepender.
Ele estremeceu de leve, mas se recompôs rápido. Era urgente desse nível.
— A Provação terminou no setor 107.
— Setor 107?
— Sim, lembra da arena de extermínio que a senhora abriu? Sabe, aquela para lixo. Digo, para os que praticamente não têm potencial.
— E?
— Bem…
— Não está vendo que eu estou ocupada? Fale logo e suma.
Harona soou irritada. Sendo uma zona de extermínio, todos já deveriam ter sido eliminados. O que poderia ter dado errado?
— Bem… há treze sobreviventes.
— O quê?
Harona não conseguiu acreditar no que acabou de ouvir. A arena de extermínio era autoexplicativa, porque existia para exterminar todo mundo.
Assim que o chão inclinava, varria o campo inteiro num instante, e o fogo levava quem restasse. Com um grupo pequeno, havia chance de sobreviver. Porém, com mais de dez pessoas, não tinha como coordenarem rápido o bastante para encontrar equilíbrio.
— Isso é impossível. A ativação falhou?
Ela tinha saído antes do mecanismo disparar, porque o trabalho havia se acumulado.
— Foi ativado corretamente. Inclusive confirmei que a Chama do Equilíbrio incinerou dois participantes.
— Então como?
— A senhorita não comentou que no 107 tinha alguém particularmente esperto?
Agora que ele mencionou, ela se lembrou de que havia um. O sujeito que cobriu a zona segura com uma tela, deixando mais sobreviventes do que o planejado.
— Mesmo assim. Ainda que alguém tenha entendido as regras com alguns truques mentais, estabelecer equilíbrio tão rápido simplesmente não faz sentido.
— Talvez tenham conseguido persuadir os outros?
— Em tão pouco tempo?
Ela sabia que as pessoas não obedeciam cegamente diante da morte. Em outras palavras, o responsável provavelmente tinha instintos afiados, ação decisiva e talvez até carisma. Harona começou a se perguntar quem poderia ser.
— Hm… as Estatísticas iniciais deles eram fracas em tudo.
— Talvez alguém tenha ativado a Habilidade depois que a Provação começou?
— Já?
Uma pessoa assim aparecia de vez em quando. Gente que tinha algo pelo qual entregaria a alma inteira; algo que desejava a vida toda. Ironicamente, quanto mais desesperadas, mais estreita tendia a ser a visão delas… e sempre havia algo profundamente distorcido nelas.
— Então temos alguém interessante! — Harona murmurou, pensando em voz alta. Sem perceber, o canto dos lábios se curvou num sorriso de lado. — Quero ver com meus próprios olhos. Desça o Olho.
— Sim, Senhorita Harona.
O homem se curvou e se virou para sair quando ela o chamou de novo:
— Espere. Lembra dos monstros que enviamos aos setores 101 e 102? Aqueles que aniquilaram todo mundo. Quantos ainda temos?
Como havia muitos candidatos inteligentes naqueles setores, os monstros foram enviados para “fortalecer” os sobreviventes.
Percebendo o esquema oculto da Administradora, a expressão do homem se enrijeceu. — A senhorita não está pensando em mandar aqueles, está?
— Quantos?!
— Os dez ainda estão vivos. Enviamos cinco para cada setor, e nenhum foi derrotado.
Foi dito que os melhores reunidos estavam naqueles setores; o primeiro percentil, dotado de Inteligência e carisma. Porém, contrariando as altas expectativas da equipe administrativa, foram apagados num instante. Todos se debateram em confusão, incapazes de oferecer sequer uma resistência decente uma única vez. Provavelmente falharam em superar suas limitações físicas.
— A diferença de mobilidade é grande demais. Eles nem vão conseguir acertar um golpe antes de caírem.
Se a dificuldade da Provação fosse alta demais, uma avaliação adequada se tornava impossível. Ele achou que Harona saberia disso.
— Sugiro que a gente envie só um…
— Envie os dez.
— Senhorita Harona! — o homem, geralmente tão composto, gritou.
Harona apenas voltou a afundar no mar de telas, como se já tivesse dito tudo o que precisava.
— Só estou muito curiosa.
— Curiosa sobre o quê?
— Se ele é só cérebro… ou se tem força também.
— Façam cem voltas de dez metros. Sem pausas.
— O quê?
As instruções do Eun-Ho fizeram o brilho nos olhos de todos desaparecer. As expressões ansiosas se enrijeceram, os lábios se apertaram e as sobrancelhas se franziram. Claramente, não era a resposta que esperavam.
Depois de um momento de silêncio, alguém questionou: — Você está brincando, né?
— C-claro que ele está brincando. Não é como se a gente só estudasse um livro e tirasse nota perfeita no vestibular ou algo assim.
Alguns acenaram com a mão, dispensando isso como uma piada sem graça.
— Estou falando sério.
— E-espera, você está dizendo que a gente vai conseguir aquela Habilidade ou sei lá… fazendo isso?
— Foi assim que funcionou comigo.
— Hã… isso é mais estranho do que eu esperava.
Apesar da desconfiança, as pessoas começaram a se alongar, estalar o pescoço e soltar os braços e pernas.
— B-bom… não custa tentar correr.
— Tô dentro!
— Mas não tem garantia de que vai funcionar do mes... ei, você está me ouvindo?
Vush~
Antes que Eun-Ho terminasse, a pequena multidão ao redor dele se espalhou como uma maré recuando. Segundos depois, todos disparavam pelo salão de exposições como se estivessem possuídos.
— Ha… mas não vai funcionar — ele murmurou.
Ele se lembrou da mensagem do sistema que tinha recebido.
[Parabéns! Graças à sua adaptabilidade única, ao impulso implacável de correr até o coração explodir e à memória muscular de ultrapassar os outros gravada no seu próprio ser, você desbloqueou uma Habilidade Única.]
A mensagem do sistema mencionava que era uma Habilidade Única.
Provavelmente significava que cada pessoa receberia uma habilidade sob medida. Em outras palavras, os outros não necessariamente teriam o mesmo resultado só por repetirem seus passos.
— Eles são surpreendentemente atléticos.
— É. Nem pareciam do tipo que se exercita.
Todos, exceto Ji-Eun e Jae-Hyuk, corriam em disparada, ofegando. O salão de exposições da empresa de games agora parecia mais uma academia se preparando para um dia de atletismo.
Do nada, um silêncio pesado caiu sobre a turma barulhenta. Uma dissonância estranha os envolveu, como se o tempo tivesse sido fatiado e costurado de volta do jeito errado.
Assustado com a sensação sinistra rastejando pela pele, alguém finalmente perguntou:
— Vocês sentiram al...
Do meio do silêncio, um rangido estranho ecoou.
Todos viraram os olhos para o som.
— H-H-Hyungnim! Olha ali!
Uma rachadura se formou no vazio, ou melhor, no que eles achavam que era vazio. Como vidro se partindo, o próprio ar se estilhaçou.
— O céu está caindo!
— Aaah! Alguém ajuda!
O segurança fugiu para um canto. A mulher do financeiro se agachou e abraçou a cabeça, tremendo.
— Caralho! Essa é a minha Habilidade?! — o homem boca-suja jogou o boné para o alto, em puro êxtase.
[Pela autoridade da Administradora, o Olho está agora aberto.]
O Olho emergiu devagar pelo teto fraturado.
— Mas que…
Era um olho gigantesco, sem corpo e grande o bastante para cobrir boa parte do espaço vazio. O contraste grotesco entre a esclera translúcida e a pupila negro-piche gelou o ar.
Ao encarar aquele olhar, os sobreviventes ficaram tensos. Um arrepio desceu pela medula e se espalhou pelo corpo, como se a alma estivesse sendo arrancada. Eles começaram a se perguntar: “será que um círculo nas plantações alienígena pareceria assim, se ganhasse vida?”
[A Provação começou.]
Ninguém prestou atenção na mensagem do sistema. Todos continuavam congelados, encarando o olho gigantesco, inclusive Eun-Ho.
Infelizmente, o pesadelo surreal em que se meteram só estava começando.
Kyeaaaah!
Um grito agudo rasgou o ar de algum lugar ao longe.
— Você ouviu isso?
— Eca, parece unha arranhando quadro!
Então algo surgiu no ar, brilhando e refletindo luz do sol — ou talvez algum tipo de luz artificial — como uma lâmina polida. Porém, não era metal, e sim um bico.
— Um pássaro…?
[Elimine o Pássaro de Bico Navalha.]
Era um pássaro com envergadura de uns três metros, penas negras-azeviche e alguns topetes parecidos com chifres na cabeça. E tinha um bico afiado como navalha, capaz de cortar aço.
— Jae-Hyuk! Se esconde!
Kyeaaah~
Vush~
O pássaro avançou como um míssil, e o bico passou cortando a poucos centímetros da orelha do Jae-Hyuk.
— Aaaagh!
Ele não foi atingido, mas o canto de uma estante de madeira ao lado foi “entalhado” com perfeição. Jae-Hyuk, movendo-se mais rápido do que o próprio grito, mergulhou para baixo da vitrine mais próxima.
— Que porra é essa?!
Clang~
Num piscar de olhos, o pássaro cravou o bico para baixo. Só que, em vez da cabeça de Jae-Hyuk, acertou a vitrine de aço inoxidável.
— Squawk?
Naquela velocidade, o bico deveria ter quebrado. Mas, com o bico ainda preso na vitrine, o pássaro apenas bateu as asas e rolou os olhos redondos como se nada tivesse acontecido.
— Ei! Você aí, o cara bronzeado! Tá bem?!
— I-isso já devia ter acabado, né? — uma alma inocente ousou perguntar, tentando acalmar o coração disparado.
— Acho que não…
— Kyeaaak! Keeeek! Keeeak~
O pássaro preso guinchou, soando entre uma dobradiça enferrujada e uma sirene. Ele se contorceu como uma vítima inocente presa numa armadilha cruel. Estava pedindo ajuda?
— Está chamando reforço! Todo mundo, se escondam!
— Keeeek!
Uma parede do salão de exposições ondulou e se despedaçou. Então, da superfície torcida, surgiu outro pássaro enorme, também de bico afiado. As criaturas gritavam em alternância, como se estivessem se comunicando.
— Merda! Não fique parado! Corre!
— E-eu não consigo! Aqui está bloqueado!
As pessoas tentaram fugir do salão, mas foram barradas por uma parede invisível. Um baque surdo ecoou por todos os lados, provavelmente de gente batendo a testa.
Flap~
A situação não parecia nada boa. Eun-Ho varreu o ambiente com os olhos, mas não encontrou um esconderijo adequado. As criaturas eram rápidas demais.
— Hyungnim! E-eu estou bem, então vai! Sai daqui! — Jae-Hyuk gritou, apesar de não conseguir se mover. Era uma coragem incomum nele.
Correr para onde? Eles estavam presos ali de qualquer jeito.
Vuuush~
Os pássaros vieram voando, cortando o ar. Estavam mirando Eun-Ho, que estava ao lado do pássaro preso. Jae-Hyuk, tremendo violentamente, também estava perto.
— Eun-Ho! Você não consegue usar sua Habilidade?! — Ji-Eun perguntou.
Eun-Ho se abaixou quando um bico navalha passou a centímetros dele. — Só com a minha Habilidade, dá para desviar e nada mais. Eu não tenho arma!
Mesmo que ele os desacelerasse com Aceleração, não era como se pudesse derrubar de uma vez todos os pássaros flutuando no ar. Além disso, como ele atacaria só com dois dedos?
— Uma arma… — Ji-Eun mordeu o lábio, preocupada. Então correu até uma mulher escondida atrás de uma vitrine. — Ye-Ji! A espada!
— O-o quê?
Lee Ye-Ji, do financeiro, uma mulher de saia social, tremia abraçando os joelhos. O estado dela lembrava o da Ji-Eun na segunda Provação, quando ela tremeu indefesa sob o cadáver do líder de equipe.
— Você pode me emprestar por um segundo?
— M-mas e eu?
Clang~
— Você viu o que o Eun-Ho fez com a Habilidade dele, não viu? Se alguém consegue usar essa espada para nos salvar, é ele. Por favor! — Ji-Eun implorou.
“Mesmo assim… é um item de recompensa. Pedir para ela entregar não faz sentido.”
— Ye-Ji, você nem saberia usar isso mesmo que ficasse com você, certo?
— I-isso é verdade, mas…
— Eu devolvo depois de usar. Eu prometo! Muito obrigada!
“Uau… deu certo mesmo.”
Tomando — na verdade, pegando “emprestado” à força — a espada da Ye-Ji, Ji-Eun disparou até o segurança.
— Posso pegar seu escu...
— Meu escudo? Toma!
Ji-Eun tinha, sem dúvida, ficado mais forte. Se era resistência mental, força de vontade inata ou os dois, Eun-Ho não sabia dizer.
— Eun-Ho! Pega!
Vush~
Eun-Ho levantou o escudo e agarrou a espada que Ji-Eun jogou para ele. O único treino com espada que ele já teve foram alguns meses de kendo na infância.
— Recompensa da Provação.
[Por favor, escolha sua recompensa da Provação.]
— Aprimorar Aceleração.
Eun-Ho precisava de tempo para se acostumar com a espada.
[Aceleração (Nv. 1) foi aprimorada para Aceleração (Nv. 2).]
[Ao conjurar, um segundo será estendido para 10 segundos.]
— Eun-Ho! Cuidado!
Eun-Ho deu um sorriso sem graça para Ji-Eun e murmurou: — Bom… acho que eu não posso ter cuidado.
Com a recarga de sessenta segundos, ele não tinha outra escolha.
Clang! Clang! Clang~
— H-Hyungnim! O que você está fazendo?! Por que está chamando toda a atenção pra você?! — Jae-Hyuk disse.
Era o único jeito de atraí-los e golpeá-los todos de uma vez.
— Squawk?
Quando Eun-Ho ergueu a espada azul-profundo e brilhante, o pássaro burro se debateu desesperado, tentando arrancar o bico preso. As garras afiadas cortavam o ar num frenesi de ataques incessantes. Ainda assim, não impediu a lâmina de afundar direto na nuca dele.
Vush~
— Kyeaaak!
— Kyeeeek!
A fúria dos pássaros pela morte do companheiro ecoou pelo ar, então os gritos e a intenção assassina focaram no Eun-Ho de todas as direções.
“Um. Dois. Três. Quatro… Nove.”
Eun-Ho impulsionou o corpo e saltou em direção ao último. Justo quando os nove pássaros mergulharam ao mesmo tempo com os bicos reluzindo, ele gritou: — Aceleração!
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