Volume 1
Capítulo 8: Seleção (3)
Eun-Ho se lembrou subitamente de uma conversa trivial do passado, uma que ele teve com alguém claramente a fim da Ji-Eun.
— Eun-Ho, você não acha que a secretária Kim tem uma voz tão boa?
— É mesmo? — Eun-Ho perguntou na época, inclinando um pouco a cabeça.
— Parece até voz de apresentadora. E também tem cara de apresentadora. Quem era mesmo…?
— Euuuun-Hoooo! — Ji-Eun gritou, trazendo-o de volta ao presente.
Agora, ela não soava nada como uma apresentadora profissional. Para falar a verdade, ela nem soava como um ser humano normal. O que saía da boca dela era um gemido bizarro e esticado, como áudio bugado de vídeo travado em câmera lenta.
“Tudo ao meu redor desacelerou.”
Mesmo com os pensamentos disparados, Eun-Ho entrou em ação. Com a mão esquerda, ele segurou Ji-Eun; com a direita, agarrou-se ao piso abaixo dele, que parecia sólido como uma parede. Para se mover com mais facilidade, ele precisava levar Ji-Eun para um lugar mais seguro primeiro.
Tump~
Ele abriu com um tranco uma caixa do sistema embutida no chão e a usou como apoio para subir. Primeiro um pé, depois o outro. Por fim, arrancou os dedos da borda e os cravou na “parede” superior para ganhar altura.
“Se não fosse a habilidade Petrificar, eu teria caído com certeza.”
Ele mal tinha dado dois ou três passos quando um espasmo subiu pelo braço esquerdo. Por sorte, bem quando o braço estava prestes a falhar, ele alcançou o pilar onde Jae-Hyuk estava agarrado. Por pouco, ele não jogou Ji-Eun no abismo.
“Droga… a Ji-Eun é mais pesada do que eu pensei.”
Ele jogou Ji-Eun sobre o ombro, querendo recuperar o fôlego.
— Aaaali em cima! Hã?
Tick~
O tempo voltou ao normal de uma vez. A mesa enorme, que parecia congelada no ar, retomou a velocidade e despencou como uma guilhotina.
Boom~
O impacto pesado sacudiu todo o espaço, e então veio o silêncio. Se aquilo tivesse acertado os dois, as cabeças virariam polpa.
— Pera, por que eu estou aqui mesmo? — Ji-Eun apertou o peito em confusão, arregalando os olhos ainda mais. Então disparou: — Obrigada, Eun-Ho! Como você se moveu tão rápido?!
— Explico depois. Primeiro eu preciso checar uma coisa. Revisar habilidade.
[Você tem uma habilidade disponível para revisão.]
[Deseja verificar a habilidade: Aceleração (Nv. 1)?]
— Sim.
Uma janela semitransparente apareceu diante dos olhos dele.
[Habilidades]
Aceleração (Nv. 1)
- Aumenta a velocidade relativa do conjurador. Um segundo pode ser esticado para 5 segundos.
O número 5 brilhava em azul. Parecia que o efeito poderia ser estendido ainda mais conforme o nível aumentasse.
“Um segundo vira cinco… então é por isso que todo mundo parecia tão lento.”
Para eles, devia parecer que Eun-Ho estava se movendo cinco vezes mais rápido.
E se não forem só cinco? E se eu estender pra dez, cinquenta… ou até cem segundos?
Aí seria quase parar o tempo. Ele conseguiria fazer muita coisa em um único segundo “normal”.
“I-isso é absurdo…”
Só para testar, Eun-Ho tentou ativar Aceleração de novo, mas recebeu uma mensagem dizendo que estava em tempo de recarga.
O mesmo tinha acontecido com Petrificar. Devia haver alguma penalidade por usar habilidades tão “apelonas”. De qualquer forma, faltava cerca de um minuto para as duas poderem ser usadas de novo. Até lá, ele teria que se virar sem elas.
— Noonim, não parece que o fogo está diminuindo um pouco? — Jae-Hyuk perguntou.
— Hã? Ah, é mesmo! E a inclinação não está tão forte — Ji-Eun respondeu.
— Acho que é porque a gente subiu um pouco! — ele completou.
Era exatamente como Jae-Hyuk tinha dito. Era uma mudança pequena, mas importante. Eun-Ho sentiu que tinha um padrão ali.
“Se eu fosse o administrador do sistema…”
Eles estavam numa situação em que a administradora precisava reduzir o número de pessoas. Além disso, o chão era escorregadio, e ela não queria perder tempo com detalhes.
“Vamos repensar tudo desde o começo.”
O piso começou a inclinar quando o casal que brigava foi para um canto do salão. Depois, conforme a inclinação ficou mais íngreme, as pessoas caíram em direção ao casal. E, quando Eun-Ho e os outros dois se afastaram e subiram mais alto, a inclinação foi diminuindo de novo.
“Espera… será que…?”
— Acho que tenho uma teoria — Eun-Ho falou. — Vamos subir mais um pouco.
— Você descobriu alguma coisa? — Ji-Eun perguntou.
Ele não tinha certeza, mas tinha um palpite.
— Eu acho que isso pode ser uma gangorra.
— Uma gangorra?
— É. Pode ter um ponto de apoio no centro, e a gente está em cima de uma tábua gigante equilibrada nele — explicou, enquanto os três avançavam com cuidado pelo piso inclinado, atentos para não escorregar. — Então, se gente demais junta num lado, aquele lado afunda porque o centro de massa muda.
— Ah…
— Parece que, quando inclina além de certo ponto, o fogo é ativado.
“Então é uma armadilha feita pra atrair todo mundo pra um lado e queimar geral de uma vez.”
Esse parecia ser o conceito e o propósito desta Provação.
— Ah! Então a gente vai pro outro lado agora? Pra equilibrar? — Ji-Eun perguntou.
— Exatamente. O ideal seria pedir o peso de todo mundo e calcular o equilíbrio perfeito, mas… — Eun-Ho parou, percebendo o quão impossível seria obter o peso dos treze sobreviventes restantes.
Antes que ele explicasse, Ji-Eun engasgou.
— V-você quer saber o nosso peso?
— Quero. O seu peso — Eun-Ho respondeu, direto.
Perguntar isso do nada podia fazê-lo parecer maluco, mas se os três fossem para o outro lado e nivelassem a situação, talvez os outros acreditassem.
Como se tentasse desviar, Ji-Eun falou rápido:
— Hm, espera. A gente precisa mesmo disso? Quer dizer, se é só questão de peso, olha ali. Já tem um monte de coisa encostada naquela parede. E, sinceramente, eu não acho que só nós três mudando de lugar causaria uma diferença tão grande.
Ela apontou para a parede mais distante, onde objetos que tinham caído com a inclinação anterior estavam empilhados feito uma montanha.
“Então talvez seja pelo número de pessoas.”
Fazia sentido. Eun-Ho parou para considerar.
Enquanto isso, Ji-Eun apressou-se em acrescentar: — Não que eu esteja tentando evitar dizer meu peso nem nada! De verdade!
Restavam treze pessoas. Se o objetivo era distribuir de forma equilibrada, precisariam de seis de cada lado, com uma pessoa no centro do salão como um ponto de apoio.
Depois de fazer as contas, Eun-Ho se virou gritando para o grupo amontoado no canto em pânico.
— Ei! Vocês quatro aí, venham pra cá! Acho que eu entendi! — Eun-Ho gritou.
— Como é que a gente vai atravessar? Você não viu a gente caindo antes?
— Agora deve dar. Não está tão íngreme quanto antes!
Apesar da hesitação inicial, as pessoas começaram a se mexer, uma por vez. Olhavam ao redor enquanto se afastavam, cautelosas.
“Um, dois, três, quatro… cinco?”
— Para! Isso é gente demais! Você do boné, fica onde está!
— Que porra! Eu que decido pra onde eu vou!
— Essa Provação exige que todo mundo fique bem distribuído! Se mais gente vier, este lado vai inclinar!
— Ah, então a gente vai ficar aqui sentado pra queimar vivo?!
O grito furioso do homem reverberou no grupo. Mesmo com a situação mais “calma”, o pânico já tinha tomado conta. Ninguém pensava direito.
— Sai da frente! Eu vou!
— Foda-se você! Eu vou primeiro!
“Droga, o que eu faço? está todo mundo surtando.”
Tump~
Graças às pessoas que o seguiram, o piso estava quase plano de novo… mas se mais alguém se movesse, o lado do Eun-Ho começaria a afundar.
— Chega! Para aí! Não dá mais um passo! — Eun-Ho gritou para os que corriam, tentando fugir das chamas lambendo as costas.
Uma mulher e dois homens se soltaram e dispararam direto na direção dele.
— Você quer que a gente queime vivo, seu desgraçado?!
Eun-Ho sentiu o piso começar a se deslocar de novo, só que agora para o outro lado, bem de leve.
“Eu preciso parar eles… mas não vão ouvir.”
Então Eun-Ho avançou. De propósito, ele caminhou com calma em direção ao fogo.
— Eun-Ho! Pra onde você está indo?! — Ji-Eun gritou atrás dele.
Para os outros, devia parecer que ele estava se jogando no incêndio. Mas ele estava se aproximando para evitar o incêndio.
— Que porra esse cara está fazendo?
— Ele é maluco?
As pessoas que vinham correndo encontraram o olhar do Eun-Ho.
— Aceleração!
— Saaai daa frennteee! — a voz da mulher se arrastou de forma lenta demais.
O mundo congelou. Os rostos ficaram distorcidos, a respiração virou um chiado preso, e os pés empurravam o chão como se tentassem escapar.
Vou deixar a mulher como está.
Swoosh~
Eun-Ho avançou e agarrou os dois homens pelo pescoço. Com uma explosão de força, ele os arrastou pelo chão, deslizando na poeira. Não foi elegante, mas era melhor do que queimar vivo.
Creckle~
“Preciso equilibrar o número de pessoas e impedir que o piso incline pra qualquer canto do quadrado.”
Na cabeça dele, ele visualizou um quadrado perfeito com treze pontos posicionados, como um mapa tático visto de cima. E foi colocando cada um no lugar.
“Um aqui.”
Ele largou o homem de boné no espaço vazio, como um soldadinho de brinquedo.
“Outro aqui.”
O segundo homem caiu na posição. Só faltava um ponto.
“Bem...”
Era bem na frente do fogo. O calor era real, mesmo com o tempo em câmera lenta. Ele sentia irradiar no rosto, lambendo a pele.
“Pelo menos isso vai manter a atenção deles em mim.”
Enquanto estivessem focados nele, não sairiam do lugar e não destruiriam o equilíbrio frágil que ele tinha acabado de montar. Semicerrando os olhos, Eun-Ho forçou o cérebro ao limite.
Tick~
O tempo voltou.
— Morrreee sooziiinhoo… hã?
— Que porra?
— E-Eun-Ho? Por que você está aí?! Corre! Sai de perto do fogo! — Ji-Eun gritou.
As chamas se enrolavam perto do nariz dele, rugindo a ponto de quase chamuscar o cabelo.
Ele se virou para o grupo e gritou com toda a força:
— Não se mexam!
Parado na beira do inferno, ele não recuou nem tentou correr. Só isso já bastou para desestabilizar todo mundo. A confusão congelou as pessoas onde estavam.
— O-o que ele tá fazendo?! Por que ele tá só parado ali?
— Se vocês não querem morrer, então ficam onde estão! Todos vocês!
“Eu não queria revelar minha habilidade assim… mas não tinha tempo pra explicar.”
As contas estavam certas, e todo mundo estava exatamente onde devia estar. Se ele estivesse certo, esta Provação terminaria logo.
Fwoosh~
— Está funcionando!
— O fogo está apagando!
As chamas que antes se erguiam acima da cabeça dele começaram a encolher centímetro por centímetro. Da altura da cabeça, desceram para os ombros, depois para a cintura. Até que sobraram só labaredas tremeluzentes perto dos pés.
[A primeira Provação do Projeto ‘Seleção’ foi concluída.]
[A ‘arena’ foi fechada.]
Tump~
— Finalmente acabou.
Sem perceber, as pernas do Eun-Ho cederam, e ele desabou no chão.
— Eun-Ho! Que porra foi aquilo? Quer dizer… você está bem? — Ji-Eun perguntou.
— Você devia ter me levado com você! Entrar no fogo sozinho daquele jeito… você é maluco?!
— Haha.
Ele queria dizer que estava bem, mas a tensão finalmente soltou, e só saiu uma risada fraca. Pelo menos estavam vivos.
— Ufa. Todo mundo tá bem? Eu achei que a gente ia queimar vivo.
— É… sério. Pra falar a verdade, talvez tivesse sido melhor morrer quando as luzes piscaram antes. Quer dizer… não que eu esteja reclamando.
Aí as pessoas olharam nervosas para o lugar onde o casal tinha queimado. O medo do caos repentino ainda grudava nelas, mas também havia o alívio de sobreviver.
— Se aquele rapaz não estivesse aqui, a gente estava morto.
— Você salvou a gente. Obrigado, de verdade.
— É. Graças a você, eu não fui arrastado junto com aqueles dois idiotas.
Quem agradeceu por último foi Lee Ye-Ji, do time de contabilidade. Ela apontou com o queixo para os dois homens que Eun-Ho tinha arrastado e posicionado. O de boné reagiu na hora. — Tá olhando o quê?!
— O quê?! Eu falei alguma coisa errada? Toda vez que você abre a boca é só palavrão!
Ele tinha xingado sem parar desde que chegaram ali. De jeans, chinelo, boné baixo e moletom, ele definitivamente não parecia alguém com trabalho fixo. Devia ser algum cara desempregado da vizinhança que vinha comer na praça de alimentação do subsolo.
“Gente assim é o motivo de olharem com desprezo pra todo mundo que só tá tentando viver direito.”
— Tch… — o homem resmungou.
— O quê? E, aliás, você parece bem mais novo do que eu, então não fala comigo de cima pra baixo, está entendendo?
— Eu achei que estava ferrado, mas aquele cara me salvou, então eu estou muito agradecido, porra!
“Ah… era isso.”
— O fogo estava lambendo nossa bunda e estava caindo coisa de cima. Eu achei que meu crânio ia rachar! Se não fosse você, eu estava morto ou virava vegetal! Obrigado, senhor!
Talvez ele só tivesse a boca suja. Eun-Ho ouviu aquela enxurrada de palavrão disfarçando gratidão com um tipo estranho de diversão. Os outros começaram a se aproximar, um por um, agradecendo e também fazendo perguntas.
Então, um homem de óculos perguntou o que todo mundo estava pensando: — É… mas como você se moveu tão rápido?
Todos os olhares se voltaram para Eun-Ho. Um silêncio breve caiu.
— E-eu não estou te questionando nem nada! Juro! Só fiquei muito curioso, porque você se moveu numa velocidade que eu nem achava que fosse possível.
Todos estavam se perguntando o mesmo. Mas, como enxergavam Eun-Ho como o salvador, ninguém tinha coragem de perguntar.
“Conto pra eles sobre a habilidade…?”
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