Volume 1
Capítulo 6: Seleção (1)
— Que porra esses desgraçados estão fazendo?!
— A Provação já acabou, cacete! Sai da frente!
As pessoas estiradas em cima da tela começaram a gritar com raiva uma após a outra. Eun-Ho e seus dois companheiros desceram assim que a mensagem de Provação concluída apareceu, mas ainda tinha gente se arrastando para sair debaixo da tela.
Whoosh~
— Meu Deus, achei que eu ia morrer sufocado!
— Quem diabos são vocês?! Quase quebrei as costas! Vocês querem morrer?!
Mais três tinham subido depois deles; duas faxineiras e um segurança.
— A gente… é… só seguiu eles! Né, senhorita Kim?
— Isso! Esses jovens subiram primeiro e a gente só… Ué, pra onde eles foram?
Quando a faxineira de cabelo cacheado tentou apontar, Eun-Ho puxou Ji-Eun e Jae-Hyuk rapidamente para dentro da multidão. Não havia motivo para chamar atenção quando existiam coisas bem mais urgentes para resolver.
— A gente precisa observar os outros — Eun-Ho sussurrou para que só os dois ouvissem.
Mesmo com a Provação encerrada, as pessoas ainda ficavam perto da zona segura, encarando-se com desconfiança. Seja lá o que fosse esse “projeto”, em algum momento eles teriam que cooperar com os outros… ou se opor a eles.
— Vamos ver se tem alguém que vale a pena ter por perto — Eun-Ho falou.
— Faz sentido! — Jae-Hyuk respondeu.
Ji-Eun assentiu. — Entendi.
“Talvez a gente também veja futuros concorrentes…” Eun-Ho pensou, preferindo não falar em voz alta. Era melhor que esses dois, que possuíam um coração tão bom, procurassem aliados em vez de inimigos.
— Aliás, o que você acha que é esse “projeto”? — Ji-Eun perguntou, com o cabelo curto balançando quando ela inclinou a cabeça.
— Falaram de um processo de seleção — Eun-Ho respondeu: — Provavelmente significa que vão filtrar quem tem direito de continuar sobrevivendo.
Seleção era isso: escolher alguns entre muitos, quem tivesse habilidades excepcionais ou se encaixasse em certos critérios.
“Então o sistema quer um tipo específico de pessoa. A gente precisa descobrir qual.”
Nesse momento, outra mensagem do sistema apareceu.
Rumble~
O chão tremeu com violência. Em seguida, uma menina de duas tranças despencou do céu, rolando no ar como se tivesse tropeçado.
[Hmm?]
[Dezesseis? Por que ainda tem tanta gente viva aqui?]
A menina parecia ter uns dez anos. Usava um vestido branco cheio de babados e sapatinhos vermelhos, como uma boneca que tinha ganhado vida. Tirando um detalhe: ela estava flutuando.
Várias pessoas gritaram em choque, com o rosto travado de incredulidade.
— Ela tá voando?!
— Q-quem é você?!
A menina nem piscou. De braços cruzados e pálpebras semicerradas, ela observou o grupo com um desinteresse cristalino. Num tom opaco, quase entediado, disse uma palavra; provavelmente um nome.
[Harona.]
Mesmo sem apresentação, era óbvio: essa menina era a Administradora.
[Hmm.]
Os olhos dela passearam com preguiça até pararem na tela derrubada; a mesma que o grupo do Eun-Ho tinha tombado. Pelo visto, alguns tinham conseguido subir e ficar protegidos pela tela dentro da zona segura. Por isso, mais gente sobreviveu do que o esperado.
[Jogada esperta. Quem fez isso?]
Com um sorriso satisfeito, a menina ergueu o queixo e varreu o grupo. Jae-Hyuk olhou de Eun-Ho para a menina, mas Eun-Ho balançou a cabeça, reprovando. Numa situação dessas, ficar calado era mais seguro.
— E-eu acho que fui eu…
Uma das faxineiras que os tinha seguido subiu com timidez à frente, talvez esperando uma recompensa. Na mesma hora, todos os olhares se voltaram para ela.
— Ei!
— Por que você diria isso?!
As companheiras tentaram puxá-la para trás, em pânico. Mas já era tarde: a expressão da Administradora escureceu, claramente. A mulher percebeu tarde demais que tinha falado demais. No instante em que ela fechou a boca, a menina já estava flutuando bem acima da cabeça dela, olhando para baixo.
[Foi você?]
— E-eu… quer dizer… bem… na verdade, não fui exatamente eu…
A mulher começou a agitar as mãos, tentando se explicar, mas as palavras saíram embaralhadas. Afinal, uma menina nova o bastante para ser neta dela pairava como um espectro, estalando o dedo com uma calma perturbadora.
Até Eun-Ho sentiu um leve tremor; esmagado pela pressão que ela irradiava apesar do corpinho pequeno.
[Não foi você?]
O clima ficou gelado num piscar de olhos. Quando a menina suspirou, um frio literal varreu o salão, fazendo todo mundo tremer.
[Se não foi você, por que abriu a boca?]
O tom dela era direto e frio. Ainda de braços cruzados, ela bateu um dedo no próprio braço.
— E-eu só…
Os olhos da faxineira se arregalaram, os lábios tremeram e ela não conseguiu falar.
[Aff, tanto faz. Esquece.]
A menina balançou a cabeça, suspirando, como se até a conversa fosse um incômodo. Erguendo o indicador, apontou direto para a mulher.
Com um estalo, uma linha luminosa riscou o ar, acompanhando o arco do dedo.
Shiiik.
Ela cortou do braço esquerdo da mulher até o ombro direito; um corte limpo, diagonal e definitivo. A cabeça da mulher escorregou de forma torta.
Tump. Tump. Tump~
A cabeça caiu primeiro, depois o braço esquerdo decepado, e por fim o corpo sem cabeça.
[Enfim, eu tenho que identificar quem é quem.]
A menina se virou de volta para o grupo como se nada tivesse acontecido. O cadáver tremeu por um instante e desapareceu, como se tivesse sido apagado da existência.
[Então, apagando um, ficam quinze de dezesseis, certo?]
“Apagando um?”
Era isso que significava para ela. Esse nível de violência era só rotina. Eun-Ho mordeu o lábio inferior de raiva, mas não podia dar um passo à frente.
“Agora não. A diferença de poder ainda é grande demais.”
[As regras da empresa dizem que eu deveria fazer entrevistas individuais, mas estou ocupada demais pra isso.]
“Empresa? O que exatamente ela quer avaliar?”
Seja lá o que fosse, provavelmente era o mesmo critério para escolher o “sobrevivente” desse tal projeto. Se Eun-Ho conseguisse arrancar qualquer pista dessta administradora — um único indício — já seria enorme.
[Tá. Vamos ver.]
“O que ela está checando? Força? Inteligência? Liderança?”
[Tem algum atleta aqui? Levanta a mão.]
“Atleta?”
As pessoas se olharam ao redor, pegas de surpresa. Mas ninguém levantou a mão. Ou não havia ninguém ou o medo tinha congelado até os mais confiantes.
[Ninguém? Tá. Então… tem alguma celebridade? Cantor, ator, tanto faz.]
O sistema parecia procurar alguém estranhamente “comum” e, ainda assim, nada que ajudasse Eun-Ho.
[Ok, última pergunta. Alguém aqui já fez alguma coisa em escala global? Tipo criar uma obra de arte incrível, ou algo do tipo.]
Agora a escala subiu demais.
— É… ser MeTuber conta? — um cara perguntou, levantando a mão com nervosismo.
[O que é isso?]
— D-deixa pra lá.
[Fala outra besteira dessas e eu arranco sua boca.]
O homem tampou a boca com as duas mãos e recuou. Depois disso, ninguém disse mais nada.
[Imaginei. Ótimo, economiza tempo. Vamos só varrer… Não. Vamos acelerar isso. O chão está bem lisinho, afinal.]
“O chão?”
Eun-Ho franziu a testa, tentando entender do que ela falava. A menina murmurou algo incompreensível e então limpou as mãos, casualmente.
[Ah, certo. As recompensas do tutorial vão ser distribuídas. Tecnicamente, eu deveria combinar com os Traços de cada um, mas… bleh. Distribuir aleatoriamente é mais fácil.]
[Alguma pergunta?]
A pergunta era claramente retórica. Ninguém teve tempo de formular nada antes de ela simplesmente sumir.
[A primeira Provação do Projeto ‘Seleção’ foi ativada.]
[Pela autoridade da Administradora, a ‘arena’ está aberta.]
— Que porra? — alguém murmurou.
— O que isso deveria ser?
Não havia limite de tempo, nem mapa, nem zonas seguras designadas. Tudo o que os sobreviventes tinham eram as notificações e um medo roendo por dentro.
O espaço parecia um salão de exposição de tamanho médio, menor do que um campo de escola. Mesmo depois de vasculhar cada canto, nada se destacava.
Havia vitrines de vidro cheias de figuras, e mesas com objetos aleatórios. Também havia sofás, cadeiras e bancos espalhados para descanso. Tudo parecia… normal.
“Tem alguma coisa escondida aqui.” Eun-Ho pensou, varrendo o ambiente com o olhar mais uma vez.
Pá~
Um tapa seco ecoou. Uma mulher de terno tinha acabado de dar um tapa no braço do homem ao lado dela; o mesmo que, mais cedo, foi o único ousado o bastante para falar.
— Por que diabos você mencionou ser MeTuber?
— Ué, é meio que ser celebridade, não é? Eu pensei que ela ia me poupar.
— O quê? E eu fico como?
A mulher lançou um olhar mortal. Pelo jeito como ele gaguejou pedindo desculpas, provavelmente namoravam.
— Os dois são da nossa empresa — Ji-Eun falou baixinho. — Do recrutamento e do treinamento.
— Então é casal do trabalho, hein?
— É. Eles tentavam esconder, mas todo mundo sabia.
Eun-Ho só ouviu pela metade, porque sua cabeça estava em outro lugar.
“A gente tem que descobrir que tipo de Provação é essa, se quiser se preparar.”
Se fosse outro teste de velocidade com combate, Agilidade seria essencial. Mas aquela mensagem sobre a “arena” aberta não saía da cabeça dele.
“Se eu souber o tipo, eu me preparo melhor. Ou pego uma recompensa segura, caso isso comece do nada?”
— Recompensa da Provação… — Eun-Ho murmurou.
[Concluir o tutorial aumentou seu nível de recompensa.]
[Você recebeu 1 ponto e uma Caixa Misteriosa de Novato.]
— Um ponto e uma caixa misteriosa? — Eun-Ho murmurou.
O sistema de recompensas tinha mudado.
Pop~
Do nada, uma caixinha estranha apareceu na frente dele.
“Eu devo abrir isso?”
A caixa era vermelha viva, não maior do que o antebraço dele, e vinha amarrada com uma fita dourada. Flutuando ao alcance da mão, balançava de um lado para o outro no ar. Quando ele estendeu a mão, ela até deu um pulinho, como se estivesse ansiosa para ser aberta.
— O que é isso?
— Uma caixa de presente?
O “pop” alto que acompanhou a aparição silenciou o salão. O casal parou de discutir, e as pessoas confusas aguçaram os ouvidos.
“Calma.”
Eun-Ho hesitou. E se fosse uma armadilha? Ele recolheu a mão devagar.
— É uma recompensa da Provação! — ele falou em voz alta. — Uma caixa misteriosa, ou algo do tipo. Talvez dê um item útil.
Ele falou com naturalidade, como se estivesse apenas pensando alto. Antes mesmo de terminar, vozes ecoaram ao redor.
— Eu quero uma! Me dá uma caixa misteriosa!
— Recompensa da Provação!
Logo, caixas vermelhas começaram a surgir por todo lado. Tensão e expectativa tomaram o ar, enquanto as pessoas lambiam os lábios e esticavam a mão para a fita dourada. Por fim, alguém abriu uma.
— Caralho! Min-Jung!
— O quê? O que foi?
— I-isso… isso é insano!
O MeTuber arregalou os olhos com o queixo caindo.
— Quanto isso vale?! Caralho!
A namorada dele, Min-Jung, pegou o que ele encarava. Eram maços grossos de notas amarelas, muito mais do que ela conseguia segurar com as duas mãos.
— Um, dois, três, quatro…
A caixa estava abarrotada de dinheiro.
— Amor! Quanto vale um maço?
— Noventa e nove… não, cem! Cem notas! Isso dá cinco milhões de won!
— Impossível. Deve ter, tipo, cem maços aqui! Isso dá o quê… quinhentos milhões?
Seria dinheiro suficiente para comprar um apartamento decente, pelo menos fora de Seul.
“Bom… seria, se o mundo como eles conheciam ainda existisse.”
Eun-Ho não sabia como estava lá fora, mas, se fosse parecido com ali, a sociedade provavelmente já tinha desmoronado. Ele não conseguia dizer se aquele dinheiro ainda tinha valor.
No pior cenário, uma caixa cheia de notas de cinco mil won podia valer menos do que um pão.
“Bom… pelo menos servia como lenha.”
A caixa de Min-Jung acabou contendo uma bolsa de grife. Eun-Ho nem olhou de novo.
“Prioridade máxima: armaduras, depois armas.”
Armadura seria mais prática por enquanto, principalmente contra inimigos que podiam partir alguém ao meio com um estalar de dedos, como aquela administradora.
“Por favor, que seja algo útil.”
Ele já estava três recompensas atrás, por ter gastado tudo para curar a perna ferida. Precisava de algo bom o bastante para diminuir essa diferença.
Com os dedos tremendo, ele puxou a fita dourada. A caixa se desfez com um farfalhar sussurrado, e uma luz brilhante tomou a visão dele.
[Você abriu uma Caixa Misteriosa de Novato.]
[Parabéns!]
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios