Volume 1

Capítulo 4: O Início da Restruturação (4)

Ao ver Kwak franzir a testa, Eun-Ho calculou a distância de leve e deu um passo à frente com calma; só o suficiente para que o porrete de madeira de Kwak não alcançasse.

— Por que você está cavando a própria cova? — Eun-Ho perguntou com frieza.

— O-o quê? — Kwak gaguejou.

— Já tem gente que escapou para as outras zonas seguras. Se eles sobreviverem, vão contar pra todo mundo que você matou os próprios colegas, então vai ser rotulado como assassino.

Kwak cerrou a mandíbula.

— Pode ter missão depois em que vai precisar cooperar com os outros. Você está se colocando numa desvantagem enorme.

Os olhos de Kwak se mexeram rápido com nervosismo, traindo a inquietação que fervia por baixo da máscara de controle.

— C-como você sabe disso? — ele questionou.

— É igual contratar e mandar embora gente, não é? Eu tenho experiência de sobra com reestruturação e demissão… esse tipo de coisa — Eun-Ho falou, desviando da explicação verdadeira.

Não queria admitir que tinha descoberto a existência de um “próximo estágio” pelo sistema. A reestruturação do emprego antigo dele e a “reestruturação” do mundo não eram a mesma coisa, mas soava convincente o bastante. Kwak não insistiu.

— Pensa com racionalidade! — Eun-Ho insistiu.

À primeira vista, podia parecer mais inteligente agir sozinho do que confiar num grupo numa prova em que só um número limitado sobreviveria. Afinal, era uma competição.

“Mas, nos estágios iniciais, o limite de sobreviventes não seria tão rígido. O melhor era se unir, aguentar o começo e o meio do “jogo” em grupo, e só competir depois, quando os números diminuíssem.”

Eun-Ho não sabia se Kwak tinha visão para pensar tão à frente. Se ele não quisesse ouvir, não haveria escolha a não ser mudar de tática.

— Quem é você pra me dizer o que eu tenho que fazer? Tá me achando otário? Sempre te odiei, sabia? Você age como se estivesse no meu nível! — Kwak cuspiu, com os olhos turvos de sempre cintilando de raiva.

Kwak era o tipo que dividia as pessoas em “castas”: invejava os que estavam acima a ponto de sentir ódio assassino, e desprezava os que estavam abaixo como Eun-Ho, tratando-os como lixo.

“É sempre o cara que está só um degrau acima de você que é o mais perigoso.”

— Eu não ligo se a gente está no mesmo nível ou não! — Eun-Ho respondeu, seco.

— Cala a boca! Quem você acha que é pra mandar em mim, seu imbecil do caralho?! — Kwak berrou.

Ao que parecia, Kwak tinha abandonado até o mínimo de racionalidade. Decidindo que não havia mais nada a dizer, Eun-Ho se virou para ir embora, mas o Kwak furioso arremessou um vaso marrom contra ele.

Pá~

Por sorte, o corpo do Eun-Ho se mexeu mais rápido do que a mente. Antes mesmo de identificar o objeto, ele recuou por instinto e desviou por pouco.

[Os parâmetros necessários para ativação de habilidades estão sendo calculados.]

“De novo?” Eun-Ho pensou, sombrio.

— Não olha de cima pra mim! Não ouse me desprezar! — Kwak uivou.

Ele agarrou mais vasos e começou a arremessar feito louco, como se quisesse estourar a cabeça de todo mundo ali. As pessoas reunidas perto da entrada da sala se espalharam em pânico, abaixando e correndo para evitar a cerâmica voadora e os cacos afiados.

“Patético. Ele está desperdiçando armas arremessáveis e valiosas assim?”

— Esse lunático!

Crac~

Horrorizadas com o assassinato e a tentativa de assassinato acontecendo diante dos olhos, as testemunhas começaram a fugir uma a uma.

— Eun-Ho, a gente desce? Talvez dê tempo de chegar no quarto andar se a gente correr — Ji-Eun sugeriu, aflita.

— Já é tarde demais! — Eun-Ho respondeu.

Mesmo no máximo, eles chegariam por um triz. E, além disso, os andares de baixo já estariam lotados, o que Ji-Eun também parecia entender. Frustrada, ela franziu a testa e mordeu o lábio inferior.

— Então acabou pra gente? — Ji-Eun perguntou, baixo.

— Não. O jogo nem começou ainda — Eun-Ho falou com firmeza.

— Então o que a gente... ah!

Antes de terminar, Ji-Eun esbarrou em alguém que passava correndo em pânico e tropeçou para trás. Pela direção em que a pessoa vinha, provavelmente tinha desistido dali e ia tentar outro andar.

Pá~

Eun-Ho agarrou o pulso do homem, parando-o no meio do passo.

— O-o que você está fazendo? — o homem gaguejou.

— Se você não tem um plano, então vem com a gente! — Eun-Ho falou com firmeza.

O homem não era especialmente grande, mas tinha um porte compacto e sólido que chamava atenção; um físico inconfundível, moldado por treino longo e disciplinado.

— Tenho um plano… eu ia tentar uma das outras zonas seguras — ele falou com cautela.

— Você não acha que já é tarde pra isso? — Eun-Ho perguntou.

Quando o homem baixou o olhar e hesitou, Eun-Ho sacudiu de leve o ombro dele, do mesmo jeito que tinha feito antes com Ji-Eun.

Apesar de estarem quase sem tempo, o tom dele continuou calmo e preciso.

— Faltam três minutos. Cento e oitenta segundos. Leva cinco segundos pra chegar na escada. Pelo seu passo, você leva quinze segundos por andar. Pra descer até o quarto, dá cento e sessenta e cinco segundos no total. Você chega com só dez segundos sobrando.

— O-o quê?

— Ainda tem mais de setecentos sobreviventes neste prédio, e só existem duas zonas seguras. Como essa aqui foi abandonada, pra onde você acha que todo mundo foi?

— Bom… pra zona segura do quarto andar… ah.

— Lá embaixo pode estar pior ainda! — Eun-Ho avisou.

Finalmente entendendo o quão sem saída estava, o homem baixou a cabeça em aceitação e sombrio.

— Entendi… mas mesmo assim a gente não pode simplesmente lutar feito doido, né?

Ele tinha a pele escurecida de sol, o corpo talhado como pedra, cabelo curto e um jeito deliberado, quase travado, de falar. Os músculos dele não eram de academia, mas de treino de verdade, conquistados.

— Você treina? Ou é militar? — Eun-Ho perguntou.

— Eu dei baixa como sargento do Exército no ano passado. Como você sabia?

Em vez de responder, Eun-Ho puxou o sargento pelo pulso e o arrastou para o escritório bagunçado do lado de fora.

— Isso pode esperar. Primeiro, procura alguma coisa resistente pra usar como escudo.

— Um escudo… ah! Uma panela serve?

— Faltam três minutos. Continua procurando e acha a maior coisa que você conseguir.

Eun-Ho não confiava cem por cento no homem, mas não havia tempo para hesitar.

— Ji-Eun, vai no banheiro feminino. Deve ter um depósito de limpeza lá, e provavelmente você acha um rodo.

— Entendi! — Ji-Eun respondeu com pressa.

Depois de passar as instruções, Eun-Ho foi para o banheiro masculino. Infelizmente, não havia depósito de limpeza ali. Mas, um instante depois, Ji-Eun apareceu carregando um rodo com as duas mãos.

— Só tinha esse. O que a gente faz agora? — ela perguntou.

Eun-Ho estendeu a mão. — Um é suficiente. Me dá.

Ele era o menos capaz fisicamente entre os três. Quando tentou pegar, os olhos dela se arregalaram em surpresa. Mas quase no mesmo instante ela pareceu entender e assentiu.

— Você deve ter seus motivos.

— Tenho. E vocês dois… vão precisar empurrar aquilo! — Eun-Ho disse.

— Empurrar o quê?

Eun-Ho fez um gesto por trás de Ji-Eun. O sargento vinha cambaleando, arrastando um quadro branco enorme.

— Achei! — o homem anunciou.


[01:45]

— Quando eu der o sinal, a gente entra junto — Eun-Ho falou.

Ele espiou a sala de reuniões. Estava quase igual a antes, exceto que agora havia bem menos vasos, graças ao festival de arremessos do Kwak.

— Cuidado com o porrete e com os vasos. Se a gente chegar perto, ele vai jogar sem pensar duas vezes — Eun-Ho alertou.

— Entendi! — Ji-Eun respondeu.

— Se a gente avançar atrás do quadro branco, dá pra bloquear a maior parte. Quando eu der o sinal… qual era seu nome mesmo? — Eun-Ho perguntou ao homem.

— Meu nome é Choi Jae-Hyuk! — ele respondeu bruscamente.

Havia algo diferente num sargento recém-saído do Exército em comparação com soldados comuns. Diferente de veteranos, com confiança relaxada, Choi Jae-Hyuk ainda irradiava a disciplina afiada de um recruta de cabelo raspado. Parecia confiável de um jeito que lembrava Eun-Ho de um dobermann preto; atento e firme.

— Jae-Hyuk, quando eu der o sinal, empurra pra direita. Ji-Eun, você vai pela esquerda. Vocês dois têm que combinar o passo pra ficar mais fácil de mover junto — Eun-Ho instruiu.

— Entendido! — Jae-Hyuk assentiu com firmeza.

— Quando a gente chegar na borda da zona segura…

Os dois ouviram com atenção e assentiram enquanto Eun-Ho explicava o que ele chamou de “estratégia da palma”. O suor deixava o rodo escorregadio nas mãos dele.

[00:15]

— Agora! — Eun-Ho gritou baixo, mas com força.

As rodinhas do quadro branco chiaram enquanto os três avançaram. Levaram cinco segundos para alcançar a entrada da sala usando o quadro como escudo. Então hesitaram por mais três segundos, enquanto vasos e até halteres batiam no quadro com pancadas secas. Kwak, tomado de fúria, desperdiçou dois segundos balançando o porrete ensanguentado e estalando contra o quadro.

Logo, chegaram à borda da zona segura.

— Vira! — Eun-Ho gritou.

Os três giraram a base do quadro subitamente, deslizando por baixo e para dentro da zona segura em um segundo. A manobra parecia virar a palma da mão; rápida e limpa.

“A gente conseguiu?”

Eun-Ho olhou ao redor. Parecia que os três estavam dentro. Eles conseguiram.

— S-seus desgraçados! — Kwak rosnou.

Rugindo, ele pegou um caco irregular de vaso quebrado e o enfiou no lado de Jae-Hyuk.

Aaaah!

— Jae-Hyuk! — Eun-Ho gritou.

Tum~

Eun-Ho chutou Kwak para longe de Jae-Hyuk e golpeou com força com o rodo, torcendo o pescoço de Kwak num ângulo antinatural.

— Como ousa…! Até um lixo como você acha que é melhor do que eu?! — Kwak berrou.

Ele avançou direto em Eun-Ho como um touro enfurecido indo pra cima de um pano vermelho.

Em seguida, uma nova mensagem apareceu.

[Tempo esgotado.]

Bum~

Como se tivesse “puxado o pano vermelho”, Eun-Ho saiu de lado. Kwak cambaleou e rolou violentamente para fora da zona segura, incapaz de frear o próprio impulso.

[A reestruturação começou.]

— O-o quê…?

A provação tinha acabado.

— Eu… finalmente tive uma chance! Isso… isso é culpa sua, seu desgraçado…

Kwak tremeu, com a voz distorcida e distante.

— Como é culpa do Eun-Ho? Se você não tivesse atacado primeiro... — Ji-Eun começou a falar, toda furiosa.

— Ji-Eun! — Eun-Ho interrompeu, balançando a cabeça.

Não havia mais nada a dizer. Kwak ameaçou os colegas, assassinou o diretor executivo, rejeitou a proposta de Eun-Ho, atacou todo mundo e ainda esfaqueou Jae-Hyuk.

Se ele tivesse mantido a calma, os quatro teriam passado juntos. Toda a falha era exclusivamente dele, e agora a vida patética dele tinha chegado ao fim.

— Ele se foi… — Ji-Eun murmurou.

— Acho que sim — Eun-Ho respondeu em tom baixo.

Enquanto os dois encaravam com amargura o espaço vazio, como se Kwak nunca tivesse existido, uma notificação familiar soou nos ouvidos deles. A que eles tanto esperavam.

[Por favor, escolha sua recompensa da provação.]

“A primeira missão deu vinte por cento, depois a seguinte aumentou pra setenta por cento. Então, desta vez, é…”

— Recompensa da provação. Recuperação da mancaria! — Eun-Ho falou com com a voz tremendo.

“Vai funcionar? Tem que funcionar.”

No microinstante antes de o sistema responder, o coração dele despencou e depois disparou numa pancada de emoção.

[Recompensa da provação foi concedida.]

[Taxa de recuperação da mancaria: 100%.]

Toc.

Eun-Ho deu um passo à frente com o pé direito.

Toc. Toc.

Pé esquerdo, depois direito; sem atraso, sem hesitação.

Toc. Toc. Toc. Toc.

As pernas estavam tão leves que ele sentiu que podia voar.

“Funcionou!”

Como um louco, ele começou a pular no lugar. Ji-Eun olhou para ele, arregalada como um coelho assustado, mas ele mal percebeu. Estava tão eufórico que poderia passar a noite inteira pulando, mas precisava economizar energia para sobreviver.

Ha

— Eun-Ho! Parabéns! — Ji-Eun falou com um sorriso brilhante.

“Eu preciso de mais…”

Embora recuperar a perna “morta” fosse uma recompensa sem preço, ele tinha gasto três recompensas da provação só para restaurá-la. Isso significava que ele estava ficando para trás, comparado aos outros que usaram as recompensas para fortalecer corpos já saudáveis. A linha de partida dele ainda estava três passos atrás da de todo mundo.

Isso quer dizer… que eu tenho que começar por aquele método.”

Ultrapassar quem estava à frente sempre foi o maior talento dele, e o hábito mais feroz. Ele avançaria e aguentaria, custe o que custar.

— Você está totalmente curado, né? Meu Deus…! — Ji-Eun cobriu a boca com as mãos, com o rosto iluminado de alegria genuína, como se tivesse acontecido com ela. Realmente era uma pessoa boa.

— Obrigado. Então eu só…

Ha

Eun-Ho mal tinha começado a se erguer quando um suspiro tenso cortou o ar. Só então ele se lembrou de Choi Jae-Hyuk, ainda estirado no chão. Rapidamente, Eun-Ho o ajudou a se sentar encostado na parede.

— Jae-Hyuk, você está bem? — Eun-Ho perguntou.

Ha… — Choi Jae-Hyuk apenas soltou o ar com força, claramente não parecendo muito bem.

— Tem um caco ainda preso em você. Eu vou ter que tirar — Eun-Ho disse, sombrio.

Por baixo do tecido encharcado de sangue da camisa de Choi Jae-Hyuk, um fragmento afiado de cerâmica estava cravado no lado do corpo com risco de infecção.

— Vai doer. Se prepara! — Eun-Ho avisou.

Hiiieek! — Choi Jae-Hyuk gritou.

— Eu nem encostei ainda! — Eun-Ho respondeu bruscamente.

Choi Jae-Hyuk se calou.

Eun-Ho aproximou a mão com cuidado e encostou as pontas dos dedos no caco.

Ploc.

?

O caco saiu com um toquezinho.

— Acho que… acabou pra mim… — Choi Jae-Hyuk murmurou com fraqueza.

Eun-Ho ficou em choque. — O quê?

— Se você puder… passar minhas últimas palavras pra minha mãe lá em casa…

“Últimas palavras?”

A sobrancelha do Eun-Ho tremeu de forma involuntária.

— É… Jae-Hyuk — ele chamou com calma.

O homem olhou para cima com olhos vítreos e sofridos.

— Conte você mesmo. Você não vai morrer.

— Você é… tão cruel… — Jae-Hyuk sussurrou, como se tivesse sido traído.

As sobrancelhas dele caíram num ar patético, os olhos brilharam, e os lábios se apertaram num bico que só dava pra chamar de ofendido demais.

— Você não vai morrer. Não por isso! — Eun-Ho falou com firmeza.

Era três centímetros? Talvez dois? Quase que uma gota de sangue não grudava na ponta do caco. Olhando de perto, dava para ver que nem tinha sangrado tanto assim desde o começo.

“Por que ele é tão covarde?”

Eun-Ho tinha achado que ganhou um dobermann como aliado… mas no fim tinha arranjado só um vira-lata preto.

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