Volume 1

Capítulo 3: O Início da Restruturação (3)

— Líder Park!

Ji-Eun estendeu a mão por instinto, mas agarrou apenas o vazio.

[Tempo esgotado. Provação concluída.]

— E-eu entrei, né? Eu… entrei, não foi? — o líder Park perguntou em pânico.

Um silêncio sinistro se instalou na zona segura. Parecia um vagão de metrô abarrotado no horário de pico, com gente pressionada ombro a ombro e se contorcendo de um jeito esquisito para não encostar em desconhecidos. Um homem, teimoso demais para aceitar, enfiou o corpo nas portas que se fechavam, recusando-se a admitir que simplesmente não havia mais espaço.

Flic.

— Ji-Eun! E-eu tô dentro… n-né? Né? — A voz do líder Park falhava como uma ligação com mau sinal. — A-agarra minha mão! P-puxa!

Som de estalo~

Pálido como um fantasma, o líder Park agarrou o pulso da Ji-Eun como se fosse uma corda de salvação.

[Todos os indivíduos fora da zona segura serão eliminados.]

No instante em que Ji-Eun puxou com toda a força, como se estivesse resgatando um afogado, a parte de cima do corpo de Park se separou de maneira limpa. Ji-Eun caiu com força sentada no chão, ainda segurando a mão dele.

Tump~

Foi como um cabo de guerra que acabou no meio do puxão, deixando a inércia terminar o serviço. Depois de um breve silêncio, gritos explodiram pelo ar.

Aaaah!

A-aah! O-olha! O corpo dele!

A cintura do Park foi cortada como se fosse obra de um laser. O osso, de um branco marfim, estava liso, e a carne vermelha se abria com uma nitidez de pesadelo. A cena era tão surreal, tão grotesca, que por um segundo Ji-Eun achou que parecia um pedaço de carne exposto no açougue. Logo em seguida, o cheiro metálico de sangue invadiu os sentidos dela, e ela sentiu que ia desmaiar.

Aaaah…!

Lee Eun-Ho se aproximou. — Ji-Eun! Você está bem?

Hic.

O soluço o trouxe de volta. Ele abaixou o que restava de Park no chão, tentando não mexer mais do que o necessário naquele desastre, e então focou em Ji-Eun.

— Ji-Eun! Olha pra mim. Se controla!

O braço dela ainda estava congelado no ar, os dedos curvados como se ainda segurassem o líder. Um tremor violento percorreu o corpo dela. Lee Eun-Ho seguiu o olhar dela e percebeu que os joelhos estavam encharcados de sangue.

— E-ele… ele morreu…

Ele correu até o banheiro, pegou um monte de papel e começou a pressionar o sangue que encharcava a meia-calça dela. O papel se desmanchou em pedaços molengas, mas ela parecia nem perceber.

— Ji-Eun, se recompõe. Eu sei que parece frio, mas não tem garantia nenhuma de que a gente não vai acabar igual a ele.

— Se eu tivesse puxado mais forte…

— Não. O Park se atrasou. Ele morreu porque perdeu tempo reclamando de suspensão, ou seja lá que porra era. A culpa é dele.

Alguém tinha acabado de morrer bem na frente deles. Em circunstâncias normais, Lee Eun-Ho teria parado um instante para lamentar. Mas não possuíam esse tempo. Um único erro e eles morreriam do mesmo jeito. E agora ele ainda precisava vigiar alguém que parecia prestes a desmoronar de vez.

[A segunda provação foi concluída. O processo de reestruturação na Torre MS afetou um total de 1.073 pessoas. 723 sobreviveram.]

— Ji-Eun, você ouviu? Mais de mil pessoas morreram agora. Isso é real!

Ela continuou em silêncio.

[Por favor, escolha sua recompensa da provação.]

— Assim que a gente pegar a recompensa, a próxima provação começa. Você tem que se manter focada!

Hic.

Ela fechou os olhos com força e mordeu o lábio até quase sangrar.

“Ela sempre foi tão frágil assim?”

Lee Eun-Ho hesitou. Isso não era justo. Ji-Eun tinha acabado de se formar e não tinha passado por anos de “treino mental” como ele. Ela provavelmente também nunca tinha ficado sentada ao lado dos pais morrendo dentro de um carro destruído.

A maioria das pessoas reagiria do mesmo jeito.

“Diante disso… eu ainda devo arrastá-la comigo? E se piorar? E se ela tiver que fazer algo monstruoso com as próprias mãos? Ela precisaria de uma força mental que não vem fácil.”

Então uma ideia acendeu.

— Certo! A recompensa da provação!

[Por favor, escolha a recompensa da provação.]

O pulso dele acelerou.

— Dá pra… aumentar a resistência mental pela recompensa?

[Você gostaria de fortalecer a resistência mental como sua recompensa?]

É isso!

Com medo de o sistema confirmar sozinho, ele gritou na hora: — Espera!

Então ele segurou Ji-Eun pelos ombros e a sacudiu com firmeza.

— Ji-Eun! Você não precisa “sair dessa”. Só faz exatamente o que eu disser.

— Eun-Ho…

— Você ainda não escolheu sua recompensa, né?

Atordoada, ela piscou devagar e assentiu. Claro que não, ela demorava dez minutos só para pedir um café.

— Então repete comigo. Recompensa da provação!

…?

Ele cravou os olhos nos dela e repetiu, articulando sílaba por sílaba, como se estivesse dando comandos.

— Recompensa da provação! Fala!

— Recompensa… da provação…

— Apareceu uma tela?

Ji-Eun assentiu de leve.

— Escolhe resistência mental.

— Resistência… mental…

— Mais uma vez. Fala como se fosse pra valer.

— Resistência mental…

“Funcionou?”

Lee Eun-Ho observou de perto, com um nó de tensão no estômago. Ji-Eun ergueu uma mão trêmula e a pressionou contra o rosto, como se estivesse tentando se segurar.

— Ji-Eun…?

Em vez de responder, ela apenas soltou o ar, longo e lento.

“Falhou?”

— Como você está se sentindo?

Lee Eun-Ho não podia se dar ao luxo de carregar alguém mentalmente quebrado num mundo destes. Ele suspirou, já se colocando de pé, preparando-se para ir embora. Então ela falou.

Hm

Ela olha para cima com os olhos brilhantes e focados. Mais claros do que ele já tinha visto neles. Era como um aluno exemplar que de repente voltou à atenção total.

— Eu vou tirar essa meia-calça. Já volto.


As coisas ficaram sérias rápido. Depois que alguém foi partido ao meio na frente de todo mundo, as pessoas naturalmente pararam de brincar. Pequenos grupos se formaram pelos cantos, sussurrando entre si. Como era de se esperar, ninguém estava falando de trabalho.

— Vigor tem que ser o mais importante, né?

— Acho que é Força. Eu estou aumentando Vigor e Força.

— Agilidade também importa. Velocidade pode salvar sua vida.

Até ali, eles tinham recebido duas recompensas de provação. A maioria tinha usado para aumentar estatísticas físicas, as que apareciam claramente na janela de status. Ninguém parecia estar tratando ferimentos, e com certeza ninguém tinha pensado em aumentar resistência mental. E definitivamente ninguém estava fuçando o sistema como Lee Eun-Ho.

— Posso usar minha recompensa pra ser excluído da reestruturação?

[Isso não pode ser selecionado.]

— E uma arma? Uma arma de fogo, sei lá? Uma espada?

[Isso não pode ser selecionado.]

O sistema continuava negando os pedidos. Qualquer outra pessoa teria desistido depois de algumas tentativas, mas Lee Eun-Ho não era “qualquer outra pessoa”.

Ele era um contratado pulando de um trabalho para outro, passando anos implorando por informações básicas a equipes de RH sobrecarregadas. Tinha vasculhado portarias, documentos e fóruns velhos de perguntas e respostas de repartições públicas, postos fiscais e órgãos de assistência social só para conseguir benefícios por invalidez.

— Tá. Então… e precognição? Ou a habilidade de voar?

[Isso não está disponível no estágio atual da reestruturação.]

“Aha!”

— Então existem outros estágios?

[Desculpe, não posso responder a essa pergunta.]

— O que eu preciso fazer pra chegar no próximo? Só sobreviver a essa rodada?

[Desculpe, não posso responder a essa pergunta.]

Lee Eun-Ho não sabia quem estava por trás da reestruturação nem qual era o objetivo final. Mas uma coisa estava clara: chegar na zona segura não era tudo o que eles tinham que fazer. Nem de longe.

[A próxima provação começará exatamente às 14h00.]

Já eram 13h55. Lee Eun-Ho escolheu imediatamente fortalecer a perna direita.

[Recompensa de provação foi concedida.]

[Taxa de recuperação da mancaria: 70%.]

Ele deu um passo cauteloso para a frente.

Swoosh, toc. Swoosh, toc.

— Eun-Ho… suas pernas… — Ji-Eun murmurou baixinho, com os olhos grudados no jeito que ele se movia.

O ritmo ainda era irregular e ainda soava como o passo de alguém mancando. Mas ele estava andando. A cada passo, o ritmo aumentava. Até que, em pouco tempo, ele parecia quase estar correndo parado.

— Tá curado? Como isso aconteceu tão rápido? — ela perguntou.

— Não, não completamente.

Mas ele sentia. Mais um avanço e ele voltaria ao auge. Tentou manter a cara neutra, mas o sorriso escapou mesmo assim.

Uma nova mensagem surgiu.

[Os parâmetros necessários para ativação de habilidades estão sendo calculados.]

— Habilidade…? Parâmetros…? — Lee Eun-Ho murmurou.

— Desculpa? O que você disse? — Ji-Eun perguntou.

— Você não ouviu?

Ela negou com a cabeça em confusão.

— Habilidade! — ele repetiu, só pra testar.

— Habilidade?

Ele tentou dizer como dizia “recompensa da provação”, esperando alguma reação do sistema, mas nada aconteceu. Talvez fosse um gatilho condicionado.

— Não é nada! — Lee Eun-Ho disse, descartando. — Vamos esperar perto das escadas.

Ainda não havia informação suficiente, então ele decidiu terminar a provação primeiro. Enquanto avançava, Ji-Eun o seguiu com um sorriso inesperado.

— Eun-Ho, acho que sei qual recompensa você está buscando.

Claro que ela entendeu. A mudança era óbvia demais.

Lee Eun-Ho abriu um sorriso. — Eu vou sobreviver.

Ji-Eun assentiu com firmeza. — Vamos conseguir, nós dois.

[A provação começou. Zonas seguras foram geradas.]

A mais próxima era a Sala de Reuniões Dois, no décimo quinto andar.

— Parece pequena. — Ji-Eun observou quando chegaram ao patamar.

— Talvez caibam vinte pessoas, no máximo! — Eun-Ho respondeu.

— Mas tem bem mais de vinte de nós…

Ele sabia que reclamar não ajudava agora. Com um sorriso forçado, ele desceu as escadas, com a mancaria quase não atrapalhando.

— A gente só tem que correr.


Fortalecer a resistência mental da Ji-Eun foi a decisão certa.

— Q-que porra é aquela?

— Ele tá louco?! Ele não pode fazer isso!

Eles chegaram à Sala de Reuniões Dois com uns sete minutos sobrando. A porta já não existia, porque foi arrancada das dobradiças. Pessoas se aglomeravam em volta da estrutura aberta, mas aquilo não era fila. Era um impasse.

Um homem estava no centro do caos. Estava armado com tudo o que conseguiu achar: um porrete de madeira, um vaso de cimento e halteres. Os braços dele se contraíam, tremendo de tensão. Parado como uma parede, ele bloqueava a entrada da zona segura, impedindo qualquer um de passar.

— Ji-Eun — Lee Eun-Ho falou em voz baixa. — Tá vendo aquela coisa afiada na mão dele? O que é aquilo?

Hmm… talvez uma lâmina de pedra?

O homem estava armado de forma surpreendente. Na mão esquerda, ele segurava um caco irregular — possivelmente de um vaso de cerâmica quebrado — cuja borda pegava a luz do teto. Na direita, empunhava um porrete de madeira, provavelmente o pé de uma cadeira.

Ao redor dele, vasos de cimento estavam empilhados como artilharia improvisada, todos ao alcance. Parecia menos uma defesa desesperada e mais uma preparação deliberada de alguém que sempre se preparou para briga.

— Aquele cara é do Departamento de Suporte Operacional, né?

— É. É o gerente-adjunto Kwak Dong-Seok. Tem trinta e seis anos. Ele entrou há uns anos como temporário, substituindo alguém que estava de licença. Acho que o contrato dele vai vencer porque nunca efetivaram.

Em outras palavras, ele estava na mesma situação que Lee Eun-Ho.

Eun-Ho semicerrou os olhos.

Acho que já o vi por aí.”

Apesar do porte grande, Kwak Dong-Seok sempre pareceu meio curvado, como se nunca pertencesse de verdade. No trabalho, era o tipo que levava tudo para o pessoal; sensível demais, explosivo e áspero.

— Eu não esperava que ele fosse tão agressivo — Eun-Ho murmurou.

Tum! Craac!

— Pra trás! Saiam da minha frente, porra! — Kwak Dong-Seok rugiu.

Ele golpeava furioso qualquer um que chegasse perto da linha verde que marcava a zona segura. O porrete dele, que já não era “só” um pedaço de cadeira quebrada, estava lambuzado de sangue escuro, meio seco.

— Seu desgraçado! Tem espaço de sobra aí dentro!

— E daí? Fica longe!

— Como você pode ser tão egoísta? A gente só está tentando sobreviver!

— Egoísta? Vocês que são egoístas!

Kwak Dong-Seok parecia tomado de raiva, mas havia medo também; talvez até algo perto de empolgação. Os olhos brilhavam cheios de adrenalina, fora de controle.

— Agora vocês estão com medo, né?! Vocês sempre olharam de cima pra mim! — Kwak Dong-Seok gritou.

— Que porra você acha que está fazendo, Kwak! — o diretor executivo Oh exclamou, superior direto de Kwak Dong-Seok. A voz dele soou com autoridade, cortando a tensão.

O homem mais velho avançou e entrou na zona segura.

— Kwak Dong-Seok, larga essas armas. Agora. — A voz estalou como um chicote. — Seu ingrato. A gente te acolheu, te deu um trabalho, e é assim que você retribu...

Pá~

A frase não foi finalizada.

Kwak Dong-Seok acertou a parte de trás da cabeça do diretor executivo, abrindo como se fosse uma melancia. O estalo do impacto foi doentio; úmido, oco e definitivo. Sangue espirrou nas paredes, na pele e até no carpete.

— Me acolheu? Vai se foder.

— Tecnicamente, eles não “acolheram” — Ji-Eun sussurrou. — Eles só usaram, deixando ele com esperança por causa da conversa de efetivação.

“Eu devia ficar chocado porque Kwak Dong-Seok matou o superior com um golpe… ou surpreso com o que Ji-Eun acabou de sussurrar?”

— Eu sempre soube que esse dia ia chegar! — Kwak Dong-Seok murmurou.

A respiração ofegante mostrava que ele não era lutador por natureza.

“Mas ele vem pensando nisso há muito tempo. Provavelmente até planejou o que faria pra ferir alguém no escritório, se chegasse a esse ponto.”

Então Kwak Dong-Seok balançou o porrete, sacudindo algo rosado e fibroso que grudava nele. Em seguida, ele encarou a sala e as pessoas congeladas como se estivesse olhando todos de cima.

[05:20]

Faltavam pouco mais de cinco minutos. Lee Eun-Ho suspirou e deu um passo à frente.

— Eun-Ho! — Ji-Eun balançou a cabeça, implorando para ele não ir.

Mas ele não tinha escolha, porque precisava entrar na zona segura.

— Com licença, senhor?

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