Volume 1
Capítulo 2: O Início da Restruturação (2)
Dez anos atrás, um acidente de carro mudou tudo para Lee Eun-Ho. Ele perdeu os dois pais, e o corpo que um dia considerou seu maior trunfo — seu futuro — virou apenas um fardo. Todas as portas da vida se fecharam na cara dele.
A partir do momento em que Lee Eun-Ho abria os olhos e jogava as pernas para fora da cama todas as manhãs, o desespero grudava nele e o acompanhava em cada movimento agonizante até se arrastar de volta para a cama à noite.
Isso o atacava quando ele entrava no banheiro, curvava-se para lavar o rosto, lutava para vestir a calça, jogava a bolsa no ombro e saía de casa; quando escolhia o metrô em vez do ônibus e quando encarava escadas, tanto para subir quanto para descer.
Ninguém sabia melhor do que o próprio Lee Eun-Ho o quanto sua perna direita tinha ficado rígida e o quanto parecia pesada. A sensação de ela se recusar a se mexer, não importava o quanto ele tentasse, estava gravada tão fundo nele que ele conseguia senti-la até nos sonhos.
E agora recebeu a notícia que sua mancaria — seu andar irregular — tinha melhorado.
[Recompensa da provação foi concedida.]
[Progresso de recuperação da mancaria: 20%.]
Para uma pessoa comum, algo como “recuperação da mancaria” não significaria quase nada. Mas Lee Eun-Ho entendeu na hora.
Swoosh. Toc.
Havia diferença sutil, quase imperceptível, mas inegável. Sua perna parecia mais leve, mesmo que fosse só alguns gramas.
Com certeza… e ainda que muito pouco, a perna estava se movendo de acordo com a vontade dele.
Tum. Tum. Tum.
O coração dele disparou com uma onda de esperança, algo que não sentia fazia anos. Esse tipo bom de pressão, agora quase desconhecido, limpou a cabeça dele como uma rajada de vento fresco.
O tempo, que tinha ficado parado por uma década, finalmente voltou a andar. Ele se sentiu como se estivesse na linha de largada de uma corrida com os dois pés presos no bloco, esperando o disparo.
— Ei, o que é isso? Vocês viram também? — um dos funcionários da empresa de jogos perguntou com a voz carregada de confusão.
— Está mandando a gente escolher uma recompensa da provação?
O grupo começou a olhar em volta.
Whoosh. Whoosh~
Um funcionário balançou a mão pelo ar, depois balançou de novo.
— Some e depois volta… — murmurou. Ele pinçou a janela de status e abriu os dedos. — E dá pra redimensionar! O que mais a gente consegue fazer?
Os olhos dele brilharam, e ele começou a gritar: — Janela de status! Inventário! Habilidades!
Parecia que ele estava lançando feitiços.
— Nada. Pra mim só apareceu a janela de status.
— Isso é algum tipo de realidade virtual? Finalmente chegou a minha vez?
— Sua vez? Você anda lendo web novel demais.
Enquanto alguns falavam bobagem com uma seriedade ridícula, outros se agarravam aos celulares, relatando o que estavam vendo e ouvindo de outros lugares.
Houve quem mencionasse um círculo gigante aparecendo no céu e gente desaparecendo sem deixar rastros. Outros insistiam que era tudo uma farsa.
O celular do Lee Eun-Ho permanecia silencioso, como sempre. Mas toques e alertas não paravam de soar ao redor. Ele nem precisava ver notícia, já que estava acontecendo em tempo real, bem na frente dele.
— É óbvio que a gente não é o único envolvido nessa provação — Lee Eun-Ho falou.
— D-desculpa, é… E-Eun-Ho? V-você consegue ver isso? — Ji-Eun perguntou, hesitante.
— Consigo. Ainda bem que não sou o único enlouquecendo.
— Você consegue ver a minha tela? A imagem também? — Ji-Eun se encolheu de um jeito dramático, como se estivesse com medo de ele ver o avatar dela, que estava só de roupa íntima.
— Não. Eu só me vejo a minha tela. Sabe… minha afiliação, estatísticas, essas coisas. — Lee Eun-Ho tratou de tranquilizá-la.
— Ufa… Enfim, quem está mexendo com a gente? Eles falam da Terra… Que tipo de pegadinha é essa?
Ji-Eun chamava de pegadinha, mas Lee Eun-Ho pensava diferente enquanto movia a perna direita para frente e para trás.
Swoosh. Swoosh.
Ainda que só um pouco, ele conseguia mexer a perna agora. Se o milagre de reviver uma perna que parecia morta fosse uma pegadinha, ele estava pronto para abraçar isso com tudo o que tinha.
— Deve ter mais provações, né? — Lee Eun-Ho perguntou. — Tenho quase certeza de que o anúncio falou que essa foi a primeira.
— Ah, falou isso? — Ji-Eun respondeu.
— Se a transmissão estiver dizendo a verdade, deve ser algum tipo de processo de eliminação com várias rodadas de provações. Eu só queria que eles dissessem quantas pessoas pretendem deixar.
— Eun-Ho, você acredita mesmo nisso? Não ia embora agora há pouco? — Ji-Eun perguntou.
Ela mordeu o lábio ao olhar para ele com nervosismo, claramente desconfiada dessa parte de “reestruturação” ou “eliminação”. Afinal, ela não tinha visto o gerente Choi desaparecer com os próprios olhos.
Soava absurdo mesmo gente sumindo como arquivo deletado. Ainda assim, a descrença da Ji-Eun irritou Lee Eun-Ho. Talvez fosse o próprio desespero dele, deixando-o impaciente.
— Eu quero a recompensa. — Lee Eun-Ho murmurou.
— A recompensa? — Ji-Eun repetiu.
[A segunda provação começará em breve, às 13h30. Zonas seguras serão geradas aleatoriamente no início da provação. Por favor, permaneçam alertas.]
Lee Eun-Ho segurou a mão da Ji-Eun bem na hora em que ela ia roer a unha de novo.
— Ji-Eun! A primeira zona segura. Esta em que a gente tá agora fica bem no centro do vigésimo quinto andar, certo?
— Sim, porque o lado leste fica mais perto do elevador do café, e o lado oeste é a área de fumantes.
— E você não viu ninguém subir aqui desde o anúncio, viu?
— Não, ninguém.
Como ninguém mais tinha vindo para aquela zona segura, Lee Eun-Ho fez uma suposição.
— Então eu acho que tem uma zona segura em cada andar.
— Então a gente só espera aqui?
— Acho que não. A primeira provação provavelmente foi só um tutorial. Foi fácil porque era para mostrar como as provações funcionam.
— Então, se na próxima não tiver uma zona segura por perto… — Lee Eun-Ho murmurou.
— A gente pode não conseguir chegar a tempo…
— Isso também. Mas pode ser que já esteja lotada quando a gente chegar.
— E aí o que acontece? Isso quer dizer que a gente falhou?
Alguém realmente viraria e diria: “Acho que cheguei tarde demais!”?
— As pessoas provavelmente vão brigar por ela.
Lee Eun-Ho precisava manter a cabeça no lugar e se preparar para o pior cenário.
— Primeiro, a gente precisa encontrar alguma coisa que dê pra usar como arma. — Acrescentou.
— Uma arma…? Você está falando sério sobre lutar?
— Eu não sei se vamos achar algo que preste, mas pelo menos a gente tem que tentar.
Isto era só um prédio de escritórios, de modo que não teria exatamente um monte de armas por aí. Cadeiras eram pesadas demais; estiletes e tesouras, curtos demais. E também não dava para balançar um teclado como se fosse uma espada.
— Um rodo, talvez? — Lee Eun-Ho sugeriu.
— Você quer dizer um rodo de limpeza? — Ji-Eun confirmou.
— Ele é grande e pesado… então talvez não seja muito eficiente, principalmente se a gente precisar usar as escadas.
Ji-Eun ficou em silêncio.
— Tem um depósito de limpeza em todo andar. Vamos pensando em opções enquanto a gente vai — Lee Eun-Ho falou.
Absorvido em pensamentos, ele sentiu os olhos grandes e inseguros da Ji-Eun encarando. Já eram 13h15, então faltavam só quinze minutos para a segunda provação. Não dava para perder tempo.
— Se você estiver desconfortável, pode voltar pro escritório. Eu não quero te pressionar — Lee Eun-Ho falou.
— Não é que eu não queira. É só que… de repente falar de briga e arma me pegou de surpresa.
— Se for só isso, você entra em pânico depois. Primeiro vamos passar pela provação.
— Eun-Ho, você está… meio diferente.
Deixando Ji-Eun para trás, ainda em conflito, Lee Eun-Ho mancou, vasculhando a área com cuidado.
— De qualquer forma, pega alguma coisa útil se você ver. Pode ser qualquer coisa fácil de carregar.
— E-espera… quer que eu carregue alguma coisa também? — Ji-Eun apontou para si mesma, incrédula.
“Ela achou que não ia precisar lutar?”
— Você tem que se proteger, não tem?
13h25.
— Só faltam dez minutos. Por enquanto, vamos esperar aqui — Lee Eun-Ho disse.
— Você quer ir pelas escadas? — Ji-Eun perguntou.
— Quer dizer… se não tiver zona segura no terraço, a gente vai precisar conseguir descer rápido.
— Vamos de elevador, Eun-Ho.
— Você sabe como é em horário de pico. Acho que vai ter centenas de pessoas espremidas em três elevadores.
— Mas, Eun-Ho… v-você não gosta de escadas.
A preocupação na voz dela fez Lee Eun-Ho sorrir. Ela tinha razão. Os passos dele eram dolorosamente lentos, e isso cansava não só a perna ferida, mas o corpo inteiro. Ainda assim, ele estava mais do que disposto se aguentar um pouco de dor significasse reviver uma perna que parecia morta havia dez anos.
— Eu vou ficar bem.
[A provação está começando. Por favor, evacuem para a zona segura antes que o tempo acabe.]
— Eun-Ho, olha isso! — Ji-Eun gritou.
Uma nova janela apareceu diante dela, pairando logo acima da janela de status: um retângulo branco, flutuante, semitransparente e do tamanho de um monitor de vinte e sete polegadas.
— Parece um mapa do prédio! — Ji-Eun acrescentou.
— Bom, isso já ajuda. Eu estava com medo de a gente ter que procurar andar por andar — Lee Eun-Ho respondeu.
A tela mostrava um lugar familiar, num estilo nada familiar. A Torre MS tinha vinte e cinco andares no total. Um marcador piscante destacava onde eles estavam, e várias áreas estavam marcadas em verde para indicar zonas seguras.
— Beleza… parece que as zonas seguras ficam nos andares dezenove, onze e três. O que a gente faz? — Ji-Eun perguntou.
— Vamos pra mais próxima. Corre! — Lee Eun-Ho respondeu.
Clang!
Assim que Lee Eun-Ho escancarou a porta corta-fogo que levava às escadas, ele viu um relógio piscando ao lado do mapa.
[09:50]
— Haa… haah… — Lee Eun-Ho ficou sem fôlego.
— Você está bem, Eun-Ho? — Ji-Eun perguntou.
A roupa dele grudava no corpo encharcado de suor. Ele estava exausto, mas pelo menos tinham chegado ao vigésimo andar. Faltava apenas meia escada para a zona segura do décimo nono.
“Continue.”
Lee Eun-Ho lembrou a si mesmo de que era como os disparos intervalados dos tempos do atletismo.
“Um minuto de sprint, outro de trote.”
Ji-Eun olhou para ele, claramente preocupada. — Quer parar um segundo? Você parece muito cansado…
— N-não, eu estou bem. Nem estou cansado.
“Como eu poderia estar cansado?”
Sentir o pé direito encostar firme no chão era eletrizante. A sensação de correr — correr de verdade — deixava-o tão sem ar que quase fazia chorar.
“Se isso é só com uma recompensa… o que acontece se eu conseguir uma recuperação completa?”
— Eun-Ho…
— Chegamos. Décimo nono andar.
Clang!
Quando ele abriu a porta corta-fogo, uma cena muito diferente da do terraço apareceu. Já havia uma multidão agitada ali dentro. Alguns sentados no chão, outros em grupos tensos, e alguns correndo de um lado para o outro.
As expressões variavam, mas todos compartilhavam um comportamento: roubavam olhares para o lobby do elevador, onde a borda verde indicava segurança.
— Ei, Ji-Eun! O que está acontecendo aqui?! — um homem ali perto gritou.
— Ah, líder Park!
— Estão dizendo que tem gente sumindo no ar! Se alguém estiver tentando causar pânico e matar serviço, vai enfrentar medidas disciplinares!
Ela riu, sem graça, mas o líder Park de meia-idade e claramente irritado lançou um olhar estranho para Eun-Ho.
— Por que você está encharcado de suor? Não me diga que vocês dois também caíram nessa bobagem…
— A gente está com pressa, então por favor nos dê licença! — Lee Eun-Ho falou.
— O quê?
— Se cuida, senhor! — Ji-Eun foi atrás de Lee Eun-Ho, deixando o encontro constrangedor para trás.
[02:20]
O tempo estava acabando.
— Aquele é o nosso chefe do Suporte de Gestão. O escritório deles é no décimo nono andar! — Ji-Eun explicou.
— Ah… tá! — Lee Eun-Ho respondeu, distraído, porque realmente não podia se importar menos. — Enfim, chegamos.
Depois das portas de vidro ficava o lobby do elevador, com um brilho verde contornando as paredes. Dezenas de pessoas já estavam reunidas lá dentro.
— Tem… bastante gente aqui já! — Lee Eun-Ho comentou.
— É. Quantas pessoas cabem aqui? — Ji-Eun perguntou.
Lee Eun-Ho sabia que a área do elevador em cada andar era idêntica em tamanho.
— Se lotar bem, deve caber umas cem.
— Cem? Como você sabe disso, Eun-Ho?
— Porque tem uns dezesseis passos de largura e uns sete de profundidade.
— Desculpa, o quê?
Ji-Eun o encarou como se ele tivesse recitado ciência de foguete.
— Meus passos têm cerca de trinta centímetros, então dá pra estimar uma pessoa por “passo”. Dezesseis vezes sete dá cento e doze… então, vamos dizer que é por volta de cem.
— Pera… você mede seus passos o tempo todo?
— Virou hábito. Sabe, estimar passos e marcar tempo em distâncias… é meio automático agora.
Genuinamente impressionada, Ji-Eun ficou de boca aberta. — Uau, Eun-Ho… isso é incrível!
— Não é, não. É só… normal. Haha.
— Normal? Você tem uma noção espacial absurda.
Para Lee Eun-Ho, não era nada demais. Na época do atletismo, calcular quanto faltava e quanto de energia precisava guardar era necessário. E, depois do acidente, esses hábitos só ficaram mais afiados.
— Parece que ainda tem muita gente do lado de fora. Então fica esperta! — Lee Eun-Ho alertou.
Faltavam só uns cinquenta segundos, e ainda entrava gente.
— Ei, gerente-adjunto Kang! Você também veio por causa dessa coisa de provação? — um homem gritou.
— Ah, sim. Fiquei com um pressentimento ruim de ignorar. E o senhor?
— Eu? Não, não. Tenho reunião com cliente. Eu estava indo embora agora.
“Ele vai pra reunião de chinelo?”
O gerente-adjunto Kang avaliou o gerente de cima a baixo sem disfarçar. O gerente pigarreou, meio sem graça.
Com menos de trinta segundos, o lobby já estava tomado, ombro a ombro. Quando o cronômetro caiu para menos de dez segundos, as pessoas começaram a se empurrar.
— Ei! Chega mais pra dentro, dá pra mexer!
— Ai! Para de pisar no meu pé!
— É você, líder?
Com menos de cinco segundos, o líder do Suporte de Gestão cambaleou em direção à porta, com os óculos tortos no nariz. Mas não conseguiu, porque a parede de corpos bloqueando a entrada não cedeu.
— Não é ele que estava ameaçando medida disciplinar agora há pouco?
— E agora? Ele não vai conseguir!
[Três, dois, um.]
— Para de empurrar!
— E-espera!
[00:00]
[Tempo esgotado. Provação concluída.]
A segunda provação terminou.
— E-eu… entrei, né? Eu… entrei, não foi?
Apenas a parte de cima do corpo do líder Park tinha conseguido passar pelas portas de vidro.
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