Volume 1

Capítulo 1: O Início da Restruturação (1)

— Sinto muito mesmo, Eun-Ho.

O líder de equipe Lee coçou a cabeça, onde restavam apenas alguns poucos fios de cabelo.

— O RH disse que este ano não tem cota nenhuma para efetivar contratados. A economia está… difícil, sabe?

— Então eu não passei no corte — Lee Eun-Ho respondeu com calma, quase indiferente.

O contrato de dois anos dele acabaria no mês seguinte. Em outras palavras, logo, ficaria desempregado de novo.

— Com certeza não é por causa do seu desempenho — o líder Lee se apressou em dizer. — É só que… sabe, reestruturação. Nada pessoal.

— Quer dizer que eu estou sendo demitido, né?

Lee Eun-Ho franziu uma sobrancelha. Ele se perguntou se era mesmo justo chamar de “reestruturação” mandar embora um trabalhador contratado.

— É… mais ou menos. A empresa está mal, e é difícil mandar embora efetivo por causa de questões legais. Então, em vez disso, eles só… param de renovar contrato.

— E é por isso que só contratam temporários. De algum jeito o trabalho tem que ser feito — Lee Eun-Ho retrucou.

Trabalhadores contratados eram preferíveis para as empresas porque não havia indenização, não havia amarras e era fácil dispensá-los.

O líder de equipe Lee fez uma careta.

— Bem, eu não colocaria exatamente desse jeito…

Era estranho ver o líder pisando em ovos com ele. Esse cara costumava latir ordens alto o bastante para tremer as janelas. Lee Eun-Ho imaginou que era mais fácil gritar quando estavam no mesmo time. Agora, ele parecia um daqueles recrutadores que fingem que uma rejeição não é bem uma rejeição.

— É. Eu já imaginava que isso vinha aí — Lee Eun-Ho falou em um tom baixo.

Não se sentia com raiva nem traído. Talvez só enxergasse o líder pelo que ele era: apenas mais um funcionário fazendo o que mandavam.

O líder de equipe Lee forçou um sorriso. — Você está bem, né? Não deixa isso te afetar, Eun-Ho.

— Eu não te culpo, senhor.

Eun-Ho sorriu com amargura, e isso pareceu relaxar o líder. Ele até apoiou um pé na cadeira dobrável ao lado da mesa, como se estivessem só conversando tomando café.

Ufa… você sempre foi firme. Isso é bom. Vai ficar bem aonde quer que vá. Quer dizer, você ainda é jovem.

Por trás das paredes de cubículo, Lee Eun-Ho sentia olhares sobre ele. Provavelmente todo mundo estava pensando a mesma coisa.

“Ele é durão, então vai ficar bem. Não é nada demais.”

— Ei, vamos almoçar. — O líder Lee ofereceu de repente. — Por minha conta. Que tal uma sopa de sundae?

Ah, líder… o lugar que tem sundae fica a uns dez minutos a pé. Pode ser pesado pro Eun-Ho! — alguém comentou.

Ah… tá. Então um lugar de sopa com arroz do outro lado da rua? Serve?

Até mesmo dez minutos eram demais quando se tinha que andar mancando. Mas essa era a realidade do Eun-Ho agora.

— Obrigado, mas já tenho planos. Mas aproveitem.


Eun-Ho não tinha plano nenhum; só não conseguia ficar ali fingindo normalidade diante de uma tigela de sopa. Sabia que eles iam engolir tudo em cinco minutos, de qualquer forma. Então, achou melhor pegar uma marmita na loja de conveniência e comer em algum lugar quieto.

Pelo menos, esse era o plano até cruzar o olhar com Ji-Eun, da equipe ao lado.

— Os últimos dois anos passaram voando, né? Não acredito que o contrato já acabou — ele disse, como se fosse casual, e tomou um gole do café, um pouco amendoado e ácido.

O café estava no ponto. Ele ia sentir falta daquele café no terraço, da vista do horizonte do vigésimo quinto andar, do jardinzinho com árvores e flores e de beber café ao ar livre.

Poder só sentar e observar tudo lá de cima era especialmente bom. Era gostoso não ter que se preocupar com quanto tempo levaria para chegar a algum lugar, nem ficar ansioso com alguém atrás dele se irritando porque ele era lento.

— Você fala como se fosse a história de outra pessoa, Eun-Ho — Ji-Eun disse, com um sorriso discreto do outro lado da mesa.

Ela tinha entrado na empresa como secretária contratada uma semana depois de Lee Eun-Ho, então estavam no mesmo barco. Não eram exatamente próximos, mas costumavam ter algumas conversas naquele terraço.

— Você acha que a gente vai ganhar bônus dessa vez?

— Não faço ideia.

— Quando o diretor executivo Park volta?

— Ele já foi embora hoje.

Dando de ombros, Lee Eun-Ho completou: — Bom… faz cinco anos que o pessoal diz que a taxa de efetivação é basicamente zero.

Ele sabia desde o início que esta empresa grande nunca daria uma chance de verdade para alguém como ele. Honestamente, conseguir nem que fosse um contrato ali provavelmente era pura sorte.

— E qual é o seu plano agora? — Ji-Eun perguntou.

— Estou procurando outro trabalho, mas você sabe como isso é difícil.

Ele não quis dizer nada com isso, mas Ji-Eun imediatamente ficou com uma expressão culpada.

Ah… desculpa. — Ji-Eun até baixou a cabeça. Educada demais; a mancaria dele não era culpa dela.

— Vou ter que achar algo que não seja pesado fisicamente. Vamos lá… não vou morrer de fome com vinte e nove anos só porque estou sem emprego — Lee Eun-Ho falou.

— Você é tão otimista, Eun-Ho — Ji-Eun respondeu.

Lee Eun-Ho sorriu com amargura. Ele não diria que era otimista, só não tinha grandes expectativas, no geral.

Não seria assim com a maioria das pessoas, se elas tivessem sido uma promessa do atletismo e sofressem um acidente antes do vestibular, mancando para toda vida?

Lee Eun-Ho passou anos se recuperando e acabou entrando numa faculdade comunitária e mediana de administração. Formou-se com notas decentes, mas desde então vinha pulando de contrato em contrato num mercado de trabalho brutal.

Como nunca esperou nada grandioso dessa vida de temporário, também nunca teve muito do que reclamar. Se havia uma coisa que desejava, era sentir o coração disparar tanto que parecesse que ia explodir.

Mas era impossível agora… a menos que ele nascesse de novo. Ou era o que ele acreditava, até aquela maldita transmissão começar.

Bzzzt~

Ah, faltam quinze minutos. A gente já devia descer — Lee Eun-Ho falou, já juntando as coisas.

— Já? — Ji-Eun pareceu surpresa.

Havia dez degraus até o balcão de devolução e dezesseis até o elevador. Para alguém como ele — com a perna arrastando e o passo lento — isso era bem mais do que parecia.

Além disso, os elevadores do vigésimo quinto andar viviam lotados com os frequentadores do café do terraço e com funcionários que fumavam sem parar. Se não fossem agora, perderiam tempo demais tentando entrar em um.

Bzzzt~

Ji-Eun sorriu. — Você continua pontual mesmo quando tudo tá desmoronando.

Lee Eun-Ho deu de ombros. — Prefiro não levar bronca por uma coisa idiota como atraso.

Estendendo a mão, Ji-Eun ofereceu. — Aqui. Deixa que eu levo seu copo.

— Obrigado.

Lee Eun-Ho se inclinou um pouco, puxou a barra da calça direita e começou o ritmo familiar: arrastar a perna rígida e dar um passo com a esquerda. Até mesmo distâncias curtas pareciam longas quando ele mancava.

Enquanto caminhavam, uma voz abafada estalou pelos alto-falantes do terraço.

[À todos no edifício… por favor…]

Ji-Eun olhou para cima. — Ei, isso foi um anúncio?

— Não dá pra entender direito…

A interferência piorou, zumbindo mais alto, enquanto ele caminhava devagar em direção ao elevador.

[Repetindo, isto é um anúncio.]

Então, do nada, aconteceu algo que Lee Eun-Ho jamais poderia ter esperado.

[Conforme a reunião do conselho de ontem, a Terra foi aprovada para venda. A reestruturação seguirá.]

Reestruturação?

Lee Eun-Ho franziu a testa.

[Os selecionados para a reestruturação serão escolhidos por um sistema justo baseado em provação.]

— Espera! — Lee Eun-Ho se virou para Ji-Eun. — Eles não estão falando da nossa Terra, né?

— Que tipo de pegadinha é essa? — Ji-Eun perguntou. — Provação de reestruturação? Isso é brincadeira?

As outras pessoas no terraço começaram a murmurar em grupos pequenos, tão confusas quanto Lee Eun-Ho e Ji-Eun.

— Que porra tá acontecendo?

— Dizem que tá tocando em outros andares também. É alguma coisa do prédio inteiro?

— Pera… acho que essa transmissão é nacional…

Alguns caras de moletom e jeans olharam os celulares e conversaram. Eles usavam crachás amarelos daquela empresa de jogos que ocupava do sexto ao nono andar.

[A primeira provação começará em breve. Por favor, evacuem para a zona segura antes que o tempo acabe.]

— Isso é um simulado de desastre? Que história é essa de provações? Hoje em dia eles transformam tudo em jogo.

— Vai ver a gente ganhe prêmio se completar.

Lee Eun-Ho imaginou que gente de empresa de jogos ganhava intervalos de almoço mais longos, mas ele não tinha esse luxo.

— Você ainda vai descer? — Ji-Eun perguntou, observando Lee Eun-Ho.

— Você sabe como meu líder de equipe surta se eu me atraso — Lee Eun-Ho respondeu.

— Mesmo assim…

Eram 12h49, então só tinha dez minutos antes do fim do almoço. Atrasar um minuto sequer já rendia bronca, como no ensino médio.

— Eu não sei… estou com um pressentimento ruim — Ji-Eun murmurou. — Isso é mesmo só um simulado?

Quando ela começou a roer as unhas, eles ouviram estalos altos e artificiais ecoando pelo terraço.

Tic. Tic. Tic.

Em seguida, um círculo verde e brilhante apareceu no chão. Era grande o suficiente para cobrir a maior parte das mesas do café e quase todo o piso do terraço.

[Uma zona segura foi criada.]

[Você tem dez minutos para entrar. Qualquer pessoa fora da zona segura após o limite de tempo será afetada pela reestruturação.]

Uau, de onde saiu isso? — um dos funcionários da empresa de jogos comentou, chegando mais perto. — Pintaram isso antes?

— É projeção? Talvez holograma?

Os funcionários da empresa de jogos pareciam mais fascinados do que alarmados, mais preocupados em entender como o círculo tinha sido feito.

— Parece que a gente tem que entrar. — Ji-Eun comentou.

— É. Pelo menos não vamos perder o elevador enquanto todo mundo está distraído — Lee Eun-Ho respondeu.

Ji-Eun hesitou. — Mas… esse tic-tac é…

Lee Eun-Ho parecia não ligar nem um pouco. Ele se virou para o elevador, e isso pareceu deixar Ji-Eun mais nervosa.

— Será que é só dos alto-falantes? Bom, eu vou com vo…

— Ji-Eun? Eun-Ho? — alguém interrompeu.

Ah, gerente Choi! — Ji-Eun respondeu.

Gerente Choi, a figura mais influente do departamento de Ji-Eun, aproximou-se com um amigo que fedia a cigarro tanto quanto ele. Lee Eun-Ho se lembrava de Ji-Eun dizendo que ele era difícil de lidar.

— Vocês dois ainda estão aqui? O almoço está quase acabando — o gerente Choi falou, já num tom de repreensão.

Lee Eun-Ho ia dizer que já estavam descendo, mas Ji-Eun se adiantou.

— A gente ia descer, mas teve esse anúncio. Falou algo sobre reestruturação.

— Reestruturação? — o gerente Choi riu.

— Sim, o senhor não ouviu o anúncio?

— Ouvi, mas qual é… isso não pode ser real. Nem é um comunicado oficial da empresa.

— Mesmo assim… só por precaução… eu pensei que talvez a gente devesse esperar dez minutos — Ji-Eun argumentou com calma, apontando para as pessoas já dentro do círculo verde.

Lee Eun-Ho percebeu que Ji-Eun queria participar dessa provação. Ela tinha bons instintos, o que tornava ainda mais estranho o quanto ela parecia ansiosa hoje.

— Você sabe que presença é a base da vida profissional, né? Eu sei que isso não vai ser o trabalho da sua vida, mas ainda assim… — o gerente Choi resmungou.

As palavras não ditas eram bem claras: eles eram só temporários.

O gerente Choi se virou para Lee Eun-Ho. — Você vai ficar também, Eun-Ho?

— Isso não é da sua conta, senhor — Lee Eun-Ho respondeu antes de conseguir se conter. — No máximo, a gente vai se atrasar um minuto.

Não era algo que Lee Eun-Ho diria ou faria normalmente.

— Sério? — O gerente Choi franziu a testa. — Um cara com perna imprestável devia pelo menos tentar demonstrar esforço. Tsc.

Ji-Eun se colocou entre os dois para encerrar a conversa. — Pode ir, senhor. Vamos, Eun-Ho.

Quando o gerente se afastou, Ji-Eun murmurou: — Desculpa.

— Pelo quê? — Lee Eun-Ho perguntou.

— Por te arrastar pra isso.

— Não precisa. Eu estou acostumado a ouvir comentários assim.

Talvez tocado pela emoção nos olhos da Ji-Eun, Lee Eun-Ho respirou fundo e mancou para dentro do círculo ao lado dela.

— Obrigada. Você não precisava fazer isso por mim — Ji-Eun falou.

[Dez segundos restantes.]

— Eu só não queria dividir elevador com ele. Além disso, como ele disse, não é como se a gente fosse ficar aqui por muito tempo! — Lee Eun-Ho respondeu.

Ji-Eun esboçou um sorriso. — Eu nem consigo rir… porque estou no mesmo barco.

Através do vidro, Lee Eun-Ho viu o gerente Choi e o amigo esperando o elevador, rindo de um jeito irritante e gesticulando como idiotas.

“Eles tão fingindo ser macacos ou o quê?”

[Três, dois, um. Tempo esgotado.]

— Ah, Eun-Ho! — Ji-Eun tentou chamar a atenção dele, aflita.

“Ah… sou eu. Eles tão imitando minha mancaria.”

[Todos os indivíduos fora da zona segura serão eliminados.]

Lee Eun-Ho olhou para baixo antes de socar alguém.

— Não deixa isso te afetar, Eun-Ho! — Ji-Eun disse.

Ele permaneceu em silêncio. — O gerente Choi é só…

Quando Lee Eun-Ho olhou para cima de novo, viu o gerente Choi e o amigo tremendo como lâmpadas com mau contato. No instante seguinte, eles sumiram.

— Ji-Eun! Pra onde o gerente Choi e o amigo dele foram?

[A primeira provação foi concluída. O processo de reestruturação na Torre MS afetou um total de 184 pessoas. 1.796 sobreviveram.]

— Talvez… eles tenham entrado no elevador? — Ji-Eun sugeriu.

Mas não havia ninguém lá dentro. Por acaso ou não, apenas as pessoas dentro do círculo tinham permanecido.

— Todo mundo que estava esperando o elevador desapareceu!

— Eles devem ter só saído daqui por um momento… eles não podem ter sumido… né?

Ji-Eun perguntou tremendo, enquanto olhava ao redor.

[Por favor, escolha sua recompensa da provação.]

Uma janela holográfica tremulou e ganhou forma diante do Lee Eun-Ho.

[Lee Eun-Ho]

Afiliação: Setor 13, Distrito ROK-SEO-107, Torre MS,

Classificação: Alvo de Reestruturação

[Estatísticas]

Vigor: 12

Força: 11

Resistência: 31

Inteligência: 10

Sabedoria: 15

Agilidade: 1

[Traços]

Bloqueado

[Habilidades]

Bloqueado

Lee Eun-Ho encarou a tela brilhante. Ele reconhecia o próprio nome e idade, mas todo o resto parecia estranho, incluindo a “afiliação” e as estatísticas.

— Que porra é essa…?

Abaixo do nome dele, um modelo 3D de si mesmo girava. Estava vestindo apenas roupa íntima, virando lentamente de frente para trás, como se ele fosse um personagem de videogame.

— Esse… sou eu?

O rosto não estava renderizado em detalhes, mas era definitivamente ele. A mancha escura perto da coluna, bem onde a perna se conecta, era negra como breu; como algo morto há muito tempo.

“Isso é algum tipo de alucinação hiper-realista? Ou eu deveria me sentir aliviado por que, mesmo se eu tiver enlouquecido, pelo menos enlouqueci com uma atenção aos detalhes impressionante?”

[Por favor, escolha sua recompensa de provação.]

Devia ser coincidência, mas, entre tudo, ele escolheu a perna que já estava há muito perdida, escurecida e sem vida.

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