Volume 1

Capítulo 37: Teste de Aptidão (1)

Trapacear, roubar e fumar eram as três coisas que Eun-Ho nunca tinha feito na escola.

Trapacear em termos acadêmicos não se aplicava muito a ele porque notas não eram realmente uma prioridade para um atleta. Quanto a roubar ou fumar, nunca foi tentando para fazer tais coisas, nem por curiosidade.

Talvez ele simplesmente gostasse da sensação de seguir as próprias regrinhas, como pisar só nas linhas brancas ao atravessar uma rua. Apesar da comparação estranha, o ponto permanecia. Até agora, ele tinha vivido com um orgulho quieto e constante, por mais sutil que pudesse parecer.

Flap!

— Hyungnim! O que você está olhando? — Jae-Hyuk perguntou.

— Uma cola! —  Eun-Ho respondeu.

Oh, cola. Espera, o quê?!

No entanto, esse orgulho não significava nada quando a vida dele estava em jogo. Eun-Ho continuou folheando o Plano de Eficiência de Reestruturação do Setor 13: Projeto Exame de Entrada por Distrito.

(...) Portanto, com base nas características topográficas da região, propomos a seguinte provação.

Flap!

"[Caminho das Sombras]

  • Resumo: Mover-se até uma Zona Segura designada com visibilidade limitada. Testar instintos de sobrevivência, reflexos e capacidade de combate individual.
  • Dificuldade: Intermediária-Alta a Muito Alta. Varia com base na configuração defensiva."

A proposta que ele tinha roubado dos fantasmas de baixo nível era ouro puro. Conseguir informação antecipada avançada sobre o formato e os objetivos do exame de entrada não era só trapaça.

— É como vazar as questões da prova... — Eun-Ho murmurou.

? — Jae-Hyuk disse, parando no meio da pá e olhando para cima.

Ah, nada. — Eun-Ho dispensou com a mão e pegou uma pá também.

Thunk, thunk, thunk, thunk, thunk…

O único som que ecoava pelo cume completamente escuro de Namsan era a escavação rítmica das pás.

— Você não está cansado? Nós cavamos pra caralho hoje! — Eun-Ho falou.

— Eu estou bem, Hyungnim! — Jae-Hyuk respondeu animado.

Tecnicamente, eles não estavam cavando terra, mas um monte de pedras.

— Mas você tem certeza de que tem mesmo alguma coisa enterrada aqui? — Jae-Hyuk perguntou.

— Bem… é o que o rumor diz.

— Rumor? Sério? — Jae-Hyuk inclinou a cabeça sem entender, mas continuou cavando mesmo assim.

Não era surpreendente porque o rumor não tinha vindo do mundo deles, mas de dentro da Empresa.

— (...) Dizem que artefatos com poderes especiais às vezes ficam escondidos dentro dessas relíquias antigas. Um exemplo é a torre de sinalização restaurada no pico do Setor ROK-105. A lenda diz que, enterrado sob ela, há um artefato que controla fogo.

Há muito tempo, fogueiras de sinalização eram acesas pelas regiões para sinalizar perigo, todas convergindo em Namsan; o ponto de retransmissão final. O mais importante, havia a possibilidade de um artefato capaz de manipular fogo estar enterrado sob eles.

Thunk, thunk, thunk, thunk, thunk, thunk…

— Nós parecemos mesmo ladrões de túmulo, né? — Jae-Hyuk disse com um sorriso alegre enquanto quebrava a base de pedra sob a torre reconstruída.

Ele não estava errado. De trapaça a saque puro, era meio hilário o quanto tinham caído.

Eun-Ho estava prestes a rir quando a pá dele bateu em algo sólido.

Clack!

Ele varreu a sujeira com pressa, rezando para não ser só uma raiz de árvore.

[Você adquiriu a Tocha de Sinalização da Capital!]

Um cabo de madeira longo e angular, mais grosso do que o braço dele, emergiu do chão. Apesar de estar enterrado por sabe-se lá quantos séculos, parecia completamente intacto.

Eles finalmente tinham encontrado o artefato de Namsan.

[Tocha de Sinalização da Capital]

  • Uma tocha enterrada por 500 anos sob a torre de sinalização central.
  • Pode emitir chama ou fumaça, durando até uma hora.
  • Observação: O uso em área ampla requer combustível suficiente. Use com cautela.

"Então, podemos escolher entre fogo e fumaça, assim como no velho sistema de sinal de fumaça de dia e fogo de noite." Eun-Ho pensou.

Isso explicava a função dupla da tocha. Além disso, pertencia a eles agora.

Vieram encontrar a tocha para a provação de amanhã, mas honestamente? Eun-Ho achou que ela poderia ser útil até além disso. Afinal, mesmo para algo tão básico quanto cozinhar, fogo era essencial.

— Hyungnim! Este é o item que você estava procurando? — Jae-Hyuk perguntou empolgado.

— Sim. É uma tocha. Diz que podemos acender ela com fogo ou fumaça, quando quisermos.

Curioso, Eun-Ho segurou a tocha firme para testar, e mensagens do sistema apareceram na frente dele.

[Você gostaria de ativar a Tocha de Sinalização da Capital?]

[Escolha entre Fogo de Sinalização e Fumaça de Sinalização.]

— Vamos ver… Fumaça seria Fumaça de Sinalização… — ele murmurou.

No instante em que disse a palavra, um fluxo fino de fumaça subiu do feixe de palha amarrado em volta da ponta da tocha.

Fsshhhhh…

Um cabo longo e fumaça sem chama pareciam estranhamente familiares.

— Isso aqui meio que parece…

— Um cigarro de madeira, Hyungnim! — Jae-Hyuk falou com um sorriso.

Haa

Por algum motivo, Eun-Ho sentiu que tinha acabado de fazer uma coisa que não devia. Suspirando, ele rapidamente guardou a tocha de volta no Inventário dele.

O rosto do Jae-Hyuk se iluminou de alívio. — Então, terminamos aqui, certo, Hyungnim? Vamos voltar!

— Sim. Terminamos! — Eun-Ho disse.

Ele olhou ao redor da montanha desolada e sinistra com satisfação.

— Certo? Ufa, ainda bem! Sinceramente, quando você pediu para eu vir junto, achei que a gente ia ter que entrar fundo na floresta ou algo assim!

Jae-Hyuk soltou um longo suspiro de alívio e caiu numa risada bem alta. No entanto, Eun-Ho não estava rindo.

— Quer dizer, sério. Ir para o meio do mato nessa hora? Nem a pau, né?!

— Bem… na verdade, a gente meio que tem que ir… — Eun-Ho falou com calma.

— Desculpa… o quê?

Eles ainda não tinham terminado porque ainda precisavam de mais uma coisa.

— Precisamos de lenha para usar isso direito.

— L-lenha? Onde diabos que vamos encontrar lenha?

Eun-Ho inclinou a cabeça na direção da mata. — Tem um monte bem ali.

— Você não quer dizer… Não está falando sério que vamos entrar na floresta a essa hora da noite, está?

Eun-Ho permaneceu em silêncio.

— Hyungniiim…?

As pupilas do Jae-Hyuk começaram a tremer de pânico enquanto esperava uma resposta. Eun-Ho desviou o olhar, sentindo-se só um pouquinho culpado.

Tap. Tap.

Ele deu dois tapinhas solidários no ombro do Jae-Hyuk e começou a andar.

— Simbora. Vamos pegar um pouco de madeira.

Tump!

A pá do Jae-Hyuk escorregou das mãos dele e caiu no chão com um baque pesado.


Eram 8:40 da manhã.

— Eun-Ho, você parece exausto. Está bem? — Ji-Eun perguntou.

— Estou bem. Vocês todos dormiram bem?

Ontem à noite, Eun-Ho tinha levado só Jae-Hyuk junto. Foi fisicamente exaustivo, claro, mas não queria atrair atenção desnecessária.

— Sim!

— Dormimos muito bem.

Todo mundo tinha se espalhado pela torre, montando acampamento em cinemas ou em cantos escondidos da praça de alimentação. No entanto, agora as pessoas estavam lentamente se reunindo no pavilhão em frente à Torre Namsan como se tivessem combinado.

— Eles estão todos aqui — Eun-Ho comentou.

— Sim. Parece que sim! — Ji-Eun respondeu.

Muito provavelmente, era por causa da seta. Flutuando na frente de todo mundo, havia uma seta cintilante, como as setas luminosas de orientação coladas pelo chão num festival de faculdade. Ela piscava, apontando direto para o pavilhão.

— O começo de hoje parece um pouco diferente, né?

— Sim. Me dá arrepios! — Sol-Ah disse, franzindo a testa em resposta ao comentário de Yeo-Jin.

Nesse momento, o relógio marcou 8:50 da manhã.

Em vez do anúncio calmo e neutro do sistema de sempre, uma voz irritantemente animada explodiu, brilhante e saltitante, como o som de marias-chiquinhas balançando a cada passo contente.

— Faz tempo que não vejo vocês! — A Administradora estava de volta. — Todo mundo aqui está com carinhas tão alegres. Eu me pergunto o motivo?

— A taxa de sobrevivência está incomumente alta, ao que parece.

Ao lado dela, estava um homem alto num terno preto como breu, completamente indecifrável.

— Eun-Ho, quem é aquele cara com ela? — Ji-Eun sussurrou.

Eun-Ho não respondeu na hora porque não fazia ideia. No entanto, se ele tivesse que chutar, o cara provavelmente era um funcionário do Departamento de Gestão, responsável por provações e Sujeitos para o processo de reestruturação.

Hmm. Correto. A taxa de sobrevivência realmente está alta demais graças a alguém inteligente.

"Hã?"

O olhar dela pareceu se fixar diretamente no Eun-Ho.

"Ela está falando de mim?"

— Enfim! Vamos ser diretos. Estamos com um cronograma apertado, então prestem atenção.

Cinquenta e três pessoas ficaram em silêncio. Ninguém fez um som; só respirações rasas e o ocasional ato engolir em seco de nervosismo. Toda aquela tensão parecia se afunilar na garota de maria-chiquinha.

— Vamos começar o Exame de Entrada da empresa.

— Um exame? — Yeo-Jin murmurou baixo.

Sol-Ah franziu a testa. As duas ainda estavam no ensino médio, então as reações delas foram automáticas.

Claro, esse Exame seria muito mais perigoso, intenso e desesperador do que qualquer prova da escola. Afinal, ninguém nunca morreu por reprovar numa prova no ensino médio.

Não eram só as adolescentes que pareciam insatisfeitas.

— Um exame de entrada? Sério?

— Quantas pessoas vocês estão planejando cortar desta vez…?

Dois homens perto do fundo, que pareciam funcionários comuns, resmungaram baixo. Eram os mesmos que tinham ajudado Jae-Hyuk a cavar durante a provação da Caça.

— O quê? Não gostaram? — A Administradora inclinou a cabeça com um ar fofo, como se realmente não entendesse o problema.

Encorajados, os dois homens elevaram a voz.

— Claro que não gostamos!

— Não acha que já fizemos o suficiente, hein?!

— Tudo bem, então. Vocês dois estão isentos.

— Espera. Sério?!

— O-obrigado!

"Esses caras devem ter crescido numa bolha. Eles são tão ingênuos que chega a ser impressionante!" Eun-Ho pensou.

— Eu posso só deletar vocês.

— Exatamente! Só deletar... Espera, o quê?

A Administradora ergueu um dedo fino e apontou para eles.

Shhhk.

Mesmo sem intuição afiada ou um olhar apurado para pessoas, Eun-Ho sabia o que ia acontecer em seguida, porque já tinha visto antes.

De volta à Torre MS, na primeira vez que viu a Administradora pessoalmente, alguém tinha tentado retrucar. Era a faxineira e ela disse uma coisa errada.

— Quem foi o inteligente?

— Então por que você está interferindo? Hã?

— E-eu só achei…

A cabeça daquela mulher foi decepada com um corte limpo.

— Senhorita Harona! — Choi Seung chamou.

— Bem, é o jeito. Gente demais é um saco mesmo.

Eun-Ho não tinha conseguido dar um passo à frente naquela época, mas desta vez era diferente. Ele estava pronto.

— Espera! — Eun-Ho disse.

Thump. Thump. Thump.

Eun-Ho caminhou à frente com passos calmos e deliberados, fingindo estar imperturbável. Ele se posicionou entre a Administradora e os dois homens sem noção, bloqueando a linha de visão dela.

Então, como se estivesse puxando conversa, ele falou: — Já são 9 horas.

Ele falou de modo simples, quase alegre, como um comentário educado da manhã.

— Sujeito Lee Eun-Ho?

A Administradora, que estava prestes a cortar para baixo com um único dedo, parou e olhou na direção dele. A cabeça dela inclinou de curiosidade.

Ele entrou no meio antes que aquele dedo tivesse a chance de redirecionar para o pescoço dele.

— Vocês dois! — ele falou com os homens tremendo atrás dele. — Vão fazer o exame, certo?

— S-sim!

— Vamos! Com certeza!

Talvez eles não fossem completamente sem esperança. Talvez, só talvez, tivessem percebido por instinto que Eun-Ho era a única tábua de salvação deles. Assentiram tão rápido que parecia que o pescoço deles podia quebrar.

"Bom. O consentimento dos Sujeitos foi garantido." Eun-Ho pensou.

Haaa

Harona o encarou com suspeita. No entanto, não havia necessidade de Eun-Ho dar uma explicação longa ou implorar.

— Faltam dez segundos para as nove. — Eun-Ho acrescentou.

Se existia uma coisa que essa tal “Empresa” valorizava acima de tudo — seja um relatório, uma proposta ou só uma reunião de rotina — era pontualidade. Eles se atrasariam se não começassem agora.

— Por favor, comece o exame! — Eun-Ho disse.

— Sujeito Lee Eun-Ho… Você é mesmo alguma coisa.

Ela parecia pronta para continuar o pensamento, mas o homem ao lado dela entrou antes que ela pudesse dizer mais.

— Senhorita Harona. Está na hora.

Eram 9:00 da manhã, e a provação começou quando o ponteiro dos minutos encaixou no lugar; era o horário oficial de início.

[Um novo projeto Avaliação de Aptidão começou.]

[Pela autoridade da Administradora, O Olho está aberto agora.]

Era hora da tão esperada Avaliação de Aptidão, que foi tão promovida em todos aqueles relatórios internos.

[Você tem dez minutos.]

[Todos os participantes sobreviventes, prossigam para a sua área designada.]

— Onde é?!

— Espera!

— O Túnel Namsan! É lá!

Era o mesmo lugar que Eun-Ho tinha explorado antes, graças àqueles fantasmas gêmeos assustadores.

— Hyungnim! É mesmo o tú...

Shiu. Vamos, Jae-Hyuk.

Ah. Sim, senhor!


Thump. Thump.

O som de cinquenta e três pessoas correndo por uma trilha de montanha ecoou pelo ar do começo da manhã.

Todo mundo se moveu rápido, alguns à frente, alguns atrás, mas ninguém estava tentando passar os outros. Não porque eles tivessem redescoberto de repente a fé na humanidade, mas simplesmente porque possuíam tempo.

— Ainda temos bastante tempo, né?

— Parece que isso vai ser moleza!

— Papai, me põe no chão! Quero andar!

— Não, Yul. Está vendo aquela estrada ali em cima? Vou te pôr no chão quando a gente chegar lá, tá bom? Já está quase lá.

A estrada à frente estava cheia de restos de acidentes de trânsito. Carros amassados alinhavam a rua larga, mas o estranho era que não havia motoristas feridos nem corpos. Não havia ninguém.

— Ali!

— Ali está o túnel! É aquele, certo?

Era o Túnel Namsan nº 3, que antes conectava Itaewon e o Distrito Sogong. Nenhum carro passava por lá agora, só permanecia na entrada uma placa piscando “Cuidado: Acidente”.

Além disso, lá no fundo do túnel, um brilho verde fraco pulsava no escuro.

— Todo mundo para dentro do túnel!

— Sim, Hyungnim!

Clack!

Quando eles atravessaram para dentro do túnel, o eco mudou. O espaço engoliu os passos deles e devolveu o som mais alto e mais áspero.

Clack! Clack-clack! Clack-clack!

A cada pessoa entrando, o som ficava mais alto.

Clack-clack! Clack-clack! Clack-clack! Clack-clack! Clack-clack! Clack-clack!

Havia passos demais se sobrepondo, impossível dizer qual era o deles.

Huff… Huff…

— Já está sem fôlego?

Uma mulher, ofegante e com dificuldade, foi a última a entrar no túnel. Com isso, todos os cinquenta e três participantes estavam dentro.

[Todos os sobreviventes no distrito de Namsan entraram.]

[Uma Zona Segura foi gerada.]

— O quê?!

— Uma Zona Segura? Não é este lugar?

— Espera, ainda não acabou?!

Enquanto sussurros se espalhavam pelo grupo, outro anúncio ecoou acima.

[Pela autoridade da Administradora, a Arena está aberta agora.]

O teste de verdade estava prestes a começar. Todas as luzes no túnel apagaram de uma vez.

Fwoosh!

Num segundo, tudo ficou escuro. Não havia um único feixe de luz, nem mesmo um brilho, como se o túnel nunca tivesse sido iluminado.

[Você tem dez minutos.]

[A provação Caminho das Sombras está começando.]

“O verdadeiro teste de aptidão, Caminho das Sombras, começa agora.”

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