Volume 1
Capítulo 35: Agente de Campo (2)
A sala estava envolta em escuridão com um silêncio absoluto, sem o menor vestígio de luz ou ruído. Apenas uma presença se movia ali dentro, que era o instrutor assistente, imóvel nas sombras como uma sentinela.
De repente, um sino suave ecoou no vazio, seguido por um anúncio automatizado que soou com clareza nos seus ouvidos.
[Sujeito Eun-Ho entrou na sala de aula.]
[Aula de Esgrima para Iniciantes: 1 aluno.]
Aquele aprendiz insolente tinha voltado.
Pzzz!
Então, um clarão preencheu a sala quando o instrutor assistente deu um passo à frente. Ele vestia uma camisa branca impecável e calças bem passadas. Uma espada negra como azeviche cintilava ao lado do corpo. A aparência dele quase combinava com a do único aluno que vinha aguardando.
— Finalmente você chegou! — o instrutor assistente murmurou: — Achei que ia levar anos pra voltar.
Por fim, um sorriso distorcido se arrastou pelos lábios dele. Fazia dois meses desde a última visita de Eun-Ho. O tempo fluía diferente ali; uma hora naquele lugar passava como apenas um minuto no mundo do Eun-Ho.
Do ponto de vista do aprendiz, ele tinha ficado fora só por um dia.
— Que ousadia a sua aparecer aqui de novo.
Ele não tinha esquecido o caos que Eun-Ho causou, roubando aquele cristal de mel precioso e saindo correndo, com um enxame furioso de abelhas no encalço. O instrutor assistente mal conseguiu escapar com o braço inteiro. Até agora, ainda doía onde as abelhas o tinham atingido.
Além disso, depois que Eun-Ho sumiu, ele teve que passar dias consertando a muralha de pedra estilhaçada que o garoto deixou para trás.
[Foi emitido um Passe de Auditoria da Aula de Esgrima para Iniciantes para o Sujeito Lee Eun-Ho.]
Como se isso não bastasse, ele tinha entregado o maldito Passe de Auditoria como se estivesse em transe. Talvez tivesse sido um erro, mas sabia lá no fundo que o garoto voltaria mais cedo ou mais tarde. Só não esperava que fosse tão cedo.
— Ainda bem que eu me preparei.
Antecipando o retorno do Eun-Ho, o instrutor assistente tinha deixado uma surpresinha.
Cipós grossos pendiam do teto da caverna, feitos para atrair os Super Bichos-da-farinha que rondavam por perto. Puxados pelo cheiro irresistível de um banquete que não podiam comer, eles vieram aos montes. Agora estavam famintos e inquietos.
— Se ele tiver sorte, pega um ou dois… e só.
O instrutor assistente sabia que o resto desceria como demônios.
De repente, ele se pegou imaginando qual expressão Eun-Ho faria? Ele atravessaria a entrada da caverna esperando segurança, só para dar de cara com uma dúzia de monstros esfomeados com bocas escancaradas.
— Desta vez ele não vai ter sorte.
Super Bichos-da-farinha eram cruéis o bastante para devorarem uns aos outros quando estavam com fome. As carapaças deles eram tão resistentes que até outras bestas gigantes os evitavam. E a caverna estava cheia dessas coisas.
A única que tinha uma chance contra eles era sua predadora natural, a Drosera; um monstro cujos fluidos digestivos conseguiam dissolver quase qualquer coisa.
— Humm…
Talvez Eun-Ho ficasse tão apavorado que nem pisaria lá dentro e recuaria. Talvez fosse despedaçado antes mesmo de ter tempo de reagir. Ou talvez nunca mais voltasse ao Instituto de Treinamento.
“Será que passei dos limites…?”
Tum. Tum. Tum.
O instrutor assistente começou a se mover, o que era algo incomum. Claro, não era por preocupação. Ele não estava preocupado nem nada. Sem grande motivo… só achou que seria um desperdício se aquele valioso Passe de Auditoria fosse jogado fora.
— Talvez ele se arrependa de verdade e peça desculpas do fundo do coração.
“Isso. Era isso. Só isso.”
Com esse pensamento reconfortante, o instrutor assistente caminhou com passos mais leves e com um sorriso satisfeito puxando os cantos da boca.
Clac!
Ele tinha imaginado o aprendiz lutando para sobreviver, mal se agarrando à vida no meio dos monstros gigantes. Imaginou Eun-Ho se rastejando em arrependimento, talvez até caindo de joelhos e implorando por misericórdia.
No entanto, no instante em que o instrutor assistente entrou na caverna, os cinco sentidos foram esmagados por uma onda de sensações familiares.
Bzzzz!
O ar estava pesado e úmido, grudando na pele. O zumbido constante de asas de insetos vibrava como uma trilha sonora sinistra. E então veio o cheiro forte e rançoso; a fedentina inconfundível de carne de monstro apodrecendo.
— E aí, gostou da minha surpresa…
“Espera. Esse cheiro… é dos Super Bichos-da-farinha mortos?” o instrutor assistente pensou.
A caverna estava tomada por eles. Dezenas de carcaças enormes jaziam espalhadas pelo chão com as barrigas rasgadas, uma gosma esverdeada escorrendo e se juntando em poças.
— Você está aí? — Eun-Ho acenou com naturalidade, sentado num canto, tomando cuidado para não encostar na gosma.
— Pera… você matou todos eles? Todos esses?!
— O que eu posso dizer? Você está vendo! — Eun-Ho respondeu, dando de ombros.
— Sem… chance…
As mãos do instrutor assistente tremeram. Aqueles monstros deviam estar dilacerando o Sujeito ao meio; não caídos ali, pessoalmente dilacerados.
E, ainda assim, o responsável estava sentado e relaxado, acenando como se tivesse acabado de sair de uma loja de conveniência. Aquilo fez o sangue do instrutor assistente ferver.
— Não tem como alguém com o seu nível ter feito isso.
— Talvez. Quer dizer, se eu enfrentasse de frente… aí sim seria difícil.
— Hã? O que eu perdi…? — o instrutor assistente murmurou.
Olhando de perto, os corpos não estavam todos iguais. Dois tinham sido cortados com precisão com feridas nítidas e limpas. Mas o resto estava com a barriga dilacerada e espuma na boca, como se tivesse morrido de outra coisa.
— Então você só matou dois com corte. Isso é uma esgrima impressionante.
Não era apenas seguir estritamente o manual, estava bem além disso.. Ele tinha golpeado exatamente entre as carapaças duras, cortando nas juntas vulneráveis. Isso exigia um nível absurdo de controle.
“Ele deve ter usado aquela habilidade de desacelerar o tempo pra conseguir.” O instrutor assistente pensou.
— Mas os outros… — ele disse, olhando ao redor.
Dezenas dos monstros gigantes estavam de barriga para cima, claramente mortos tentando escalar alguma coisa.
— Ah.
Ao ver a expressão atônita do instrutor assistente, Eun-Ho apenas deu de ombros de novo, como se não fosse nada.
Ainda sentado, ele inclinou um pouco a cabeça e explicou: — Usei espetos com veneno na ponta.
— O quê?
— Eu tinha alguns sobrando, então pensei... por que não?
O instrutor assistente olhou de novo. De fato, as barrigas das criaturas estavam cheias de espetos estranhos e serrilhados. Mesmo de relance, isso parecia suspeito.
— Usei os dois primeiros corpos pra fazer uma parede. Aí enfiei esses espetos entre as carapaças deles.
Se os monstros quisessem alcançar Eun-Ho, não tinham escolha; precisariam escalar os cadáveres… e cair direto nos espetos.
O instrutor assistente ficou parado. Alguém poderia dizer que prever o movimento do inimigo e preparar o terreno com antecedência eram estratégias básicas de combate. Só que a maioria das pessoas nem conseguia lidar com o básico. Por isso existiam táticas e por isso guerras ainda possuíam derrotados apesar de tantos manuais e treinamentos.
— Então você armou todas essas armadilhas… nesse tempo tão curto?
Desde o instante em que a porta se materializou, até Eun-Ho atravessar e o instrutor assistente chegar, não tinham se passado nem dez minutos.
— Acho que tive sorte — Eun-Ho falou de modo casual.
Claro, ele tinha uma habilidade de Aceleração, mas os dois sabiam que não era só sorte. Nem a Companhia confundiria isso com acaso.
— O que você é, de verdade?
Ele já tinha sentido algo estranho naquele cara na última sessão de treino também.
Essa ousadia vinha de um julgamento frio e afiado, não apenas força bruta em um-contra-um, mas uma habilidade rara de mudar o campo de batalha inteiro com uma única ação.
“Esse cara é diferente…”
De repente, um brilho fraco piscou na escuridão. O instrutor assistente encarou, tentando decidir se era real ou só imaginação. Então, sem aviso, a luz se moveu.
O brilho o chamou para perto, e Eun-Ho lhe empurrou uma tarefa. — Se você não tem mais nada pra fazer, dá uma mão.
— Hã?
O instrutor assistente se viu segurando, meio sem jeito, um emaranhado de cipós verde-escuros.
— Cipós? Por que você está me passando isso…?
Era a isca especial que ele mesmo tinha montado no teto da caverna para atrair os Super Bichos-da-farinha. Agora, foi cortado de forma limpa na horizontal e na vertical, então empilhado em feixes bem organizados ao lado de Eun-Ho.
— Só segura isso um segundo.
— O quê?
Fruuush!
As mãos do Eun-Ho se moveram rápido. Ele pegou duas tiras do cipó cortado e começou a amarrá-las. Os dedos eram ágeis e precisos, como os de um artesão trabalhando.
Fruuush. Fruuush. Fruuush. Fruuush. Fruuush. Fruuush.
— Que diabos você está fazendo?
— Ué, fazendo uma corda! — Eun-Ho falou sem olhar para cima.
— Uma corda?
— É. Sabe… aquelas que os deuses mandam do céu pra salvar alguém nas histórias. Nunca ouviu falar?
Ali estava ele fazendo um exército de um homem só, que tinha acabado de dizimar uma horda de monstros gigantes… e agora fazia artesanato como se fosse hobby de fim de semana. Tomado por uma onda de absurdo, o instrutor assistente quase deixou os cipós caírem das mãos.
— Além disso, você não tem nada melhor pra fazer mesmo. Provavelmente eu sou o único aluno que sobrou nessa aula.
— Bom… acho que é verdade, mas…
Ele travou no meio da frase. Ia concordar de forma casual, só que o tom confiante do Eun-Ho o incomodou. Eun-Ho era apenas um Candidato em Potencial; não era nem mesmo um selecionado oficial ainda. Não tinha como ele saber qualquer coisa sobre estrutura de aula ou políticas de inscrição.
Sentindo um arrepio desconfortável, o instrutor assistente perguntou, só para ter certeza: — Por que você está falando com tanta certeza?
— Treinamento de autoaperfeiçoamento só é oferecido a candidatos que já passaram nas provas de entrada da companhia. É assim que funciona! — Eun-Ho respondeu, como se fosse óbvio.
Ao ouvir isso, o desconforto virou alarme. — E como você sabe disso…? — ele perguntou, franzindo a testa.
Não tinha como ele ter acesso a essa informação, ainda mais durante essa fase da reestruturação.
“Será que vazou algo? Se vazou, de onde?” o instrutor assistente pensou.
— Aha. Então é verdade — Eun-Ho disse sorrindo, claramente satisfeito com a reação.
Tap. Tap!
Então Eun-Ho se levantou e bateu a poeira da calça, como se tivesse acabado de concluir uma tarefa simples.
— Eu perguntei como você sabia.
— Ah, isso? — Eun-Ho respondeu com um sorriso preguiçoso. — Li em um lugar.
— Tá, mas onde! Onde exatamente?!
Só que, em vez de responder, Eun-Ho soltou uma risadinha e ergueu um feixe grosso de cipós amarrados, caminhando para longe. Ele subiu no cadáver do Super Bicho-da-farinha mais próximo e enrolou o cipó ao redor do corpo.
Swish! Swoosh!
— Uma volta. Duas voltas. Três voltas… ainda bem que eles são pesados… — Eun-Ho murmurou.
O instrutor assistente ficou em silêncio, confuso. — Quer dizer… eu não ia querer que caísse, né?
Então, Eun-Ho puxou com força, testando a tensão. Satisfeito, amarrou a outra ponta com firmeza na própria cintura.
— Que diabos você está fazendo agora? — o instrutor assistente perguntou.
— Só começa a desenrolar. Devagar, tá?
— Desenrolar? Desenrolar o quê?
O instrutor assistente ainda tentava juntar as peças quando Eun-Ho abriu a porta com naturalidade.
Aí Eun-Ho se virou, como se tivesse lembrado de algo.
— Ah, é. Valeu pelo presente.
— Presente? Que presente? Do que você está falando? E o que exatamente está fazendo…
— Vou fazer bom uso.
Tap. Tap!
Ele deu dois tapinhas no próprio peito.
— Espera aí.
Aquilo não soou como carne. Foi a batida distinta de algo duro e sólido por baixo da camisa.
Por um segundo, um brilho dourado fosco relampejou sob o tecido.
— O que diabos está escondendo aí debaixo? — A mente do instrutor assistente viajou para uma lembrança bem específica e bem desagradável do passado recente. — Não me diga que você contrabandeou mel real de novo.
O rosto dele se distorceu sem querer, mas Eun-Ho acenou com a mão e abriu um sorriso.
— Qual é… depois de lutar com aqueles monstros, você acha mesmo que eu ia ter força pra carregar um negócio desses?
— Então o que é?
— Pra quê se preocupar? Da próxima vez, só garante que o próximo lote seja mais forte. Fechou?
— O quê…?
— Traz uns monstros que derrubem saques melhores. Entendeu?
Antes que o instrutor assistente pudesse responder a essa exigência sem vergonha, Eun-Ho atravessou a porta.
Swoosh!
E então saltou como se estivesse pulando bungee jump no desconhecido.
— Não esquece de desenrolar devagar!
— Desenrolar o quê?!
[Sujeito Eun-Ho saiu da sala de aula.]
[Aula de Esgrima para Iniciantes: 0 aluno.]
Whoooosh!
Uma rajada de vento atingiu Eun-Ho de repente, fazendo-o balançar no ar. A gravidade o atingiu com força, e por um segundo o choque veio como uma onda.
Então, o cipó começou a se desenrolar como linha saindo de um carretel, e ele sentiu a tensão estalar e ficar firme.
— Huff…!
O chão subiu na direção dele. Mesmo tendo se preparado mil vezes na cabeça, o coração ainda despencou.
— Mas… estou vivo…
A queda tinha que ter pelo menos duzentos metros. Só de pensar na altura, a cabeça rodava.
“A corda ficou um pouco curta.”
Ainda assim, ele teria se espatifado de cabeça no chão se fosse mais longa. Eun-Ho afastou o pensamento atordoante.
Ele ainda estava a uns três metros do chão. Seria pesado pros tornozelos, mas dava.
— Petrificar.
Segurando o cipó com a mão esquerda, ele usou a mão direita endurecida para cortar logo abaixo de si.
Swish!
O cipó grosso arrebentou com facilidade, e ele se soltou.
Tump!
Ele caiu com força, e os joelhos cederam um pouco com o impacto. Porém, antes que pudesse se firmar, uma mensagem apareceu diante dos olhos.
[O Peitoral de Quitina absorveu todo o impacto!]
“Hã? Peitoral de Quitina…? Ah, é. A recompensa que ganhei depois de matar o Super Bicho-da-farinha.”
Então, Eun-Ho se lembrou das mensagens do sistema que recebeu no Instituto de Treinamento.
[Você derrotou o Super Bicho-da-farinha, predador no auge da selva invertida!]
[A recompensa da primeira eliminação foi desbloqueada.]
[Você adquiriu o Peitoral de Quitina do Super Bicho-da-farinha.]
[Peitoral de Quitina do Super Bicho-da-farinha]
- Um peitoral tecido a partir da carapaça resistente do enorme Super Bicho-da-farinha.
- Aumenta a Defesa em +10.
- O item não pode ser vendido.
Ele não sabia exatamente o que significava +10 em Defesa… mas agora sabia. Era o suficiente para absorver uma queda de três metros sem sofrer um arranhão.
“Acho que valeu o trabalho.”
Só de vestir isso, ele já tinha uma garantia contra golpes surpresa. Era um salto enorme em relação a sair de uma briga de mãos vazias.
— Ei! Olha ali!
— O quê?! Ele ainda está vivo!
— O que era aquela porta?!
— Espera… ele usou um Passe de Auditoria ou algo do tipo?
Se ele fosse continuar batendo de frente com esses espectros cabeceadores, esse nível de preparo era o mínimo.
Swoosh!
Os gêmeos, com os rostos distorcidos de incredulidade e raiva, mergulharam como pássaros. Eun-Ho precisava agir rápido.
“Preciso de mais uma coisa.”
— Invocar!
Ele ergueu as duas mãos e visualizou dois itens. Um era familiar, a lâmina curva que sempre invocava, e o outro era novidade. Sua primeira compra na Loja de nível intermediário melhorada.
Plop.
Algo viscoso, frio e pequeno se materializou na palma da mão dele. Antes que tomasse forma por completo, ele colocou na boca.
[Você consumiu um Fragmento de Gelo.]
[Uma habilidade temporária Resistência ao Gelo (Nv. 1) foi desbloqueada.]
[Duração: 3 minutos.]
Um frio se espalhou como fogo pela língua até o céu da boca, descendo pela garganta.
Whoosh!
Esse frio afiado e revigorante percorreu pelo corpo. E, bem a tempo, os gêmeos pousaram bem na frente dele.
— Agora eu te peguei!
— Ugh…! Seu ratinho!
Talvez eles achassem que tinham encurralado Eun-Ho de novo. Talvez tivessem assumido que ele só estava fugindo apavorado, como da última vez.
Sorrindo com excesso de confiança, cada um ergueu um pé, pronto para bater no chão e fazer duas trilhas de gelo rugirem pelo terreno. Eles não levaram em conta a mudança na postura dele, nem o brilho nos olhos.
“Ora, ora… desta vez vim preparado.”
— Entrega o relatório!
— Ou vamos te matar!
“Aham. Aham. Já ouvi isso antes.”
— Vem pra cima, pirralhos.
“Vou acabar com tudo em três minutos.”
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