Volume 1

Capítulo 22: Autoaperfeiçoamento (1)

— Ele vai atender vocês agora.

A porta enorme rangeu ao se abrir, revelando uma secretária de terno impecável. O cabelo dela estava preso num coque apertado e nenhuma emoção escapava do rosto composto, assim como o penteado.

Sem dizer uma palavra, ela deu um passo para o lado e permitiu a entrada deles. Uma tensão sufocante grudava no ar, como uma umidade espessa pressionando a pele.

Sentindo o ar áspero e seco vazando pela porta arranhar a garganta, Choi Seung engoliu em seco enquanto seguia Harona em silêncio.

— Administradora Harona, apresentando-se ao Diretor! — Harona anunciou.

A sala além era imensa, o teto se erguia muito acima deles e as paredes eram tomadas por estantes abarrotadas de livros. O Diretor estava sentado bem no fim de uma extensão de escritório que lembrava um corredor.

Ele era a maior autoridade sobre Choi Seung, Harona e inúmeros outros. Um chefe tão poderoso que parecia quase uma força da natureza.

Harona deu um passo à frente. Então, com precisão graciosa, ergueu levemente a barra da saia e fez uma reverência respeitosa, voltando a se endireitar com a mesma compostura.

— Muito bem! — A voz grave do Diretor reverberou pela sala como um trovão distante.

— Ouvi dizer que você aprovou apoio para um sujeito não selecionado. — Ele acrescentou, num tom nada satisfeito.

— Foi apenas um pequeno presente, senhor! — Harona respondeu rápido.

— E não só isso: você também foi contra o protocolo e conduziu uma Provação por iniciativa própria.

Harona, sempre composta e confiante, vacilou pela primeira vez. Ela tremeu bem de leve, a voz mal conseguindo se manter firme.

Choi Seung sentiu um pequeno alívio ao perceber que a pressão opressiva não era só dele para suportar.

— Ele não é comum! — Harona insistiu. — Usa até as habilidades mais básicas de forma agressiva. Ele é inteligente, capaz fisicamente e...

— Chega. — O Diretor a interrompeu friamente, cortando a defesa dela como uma lâmina. Sua voz não tinha inflexão, mas o aviso era claro. — Você quebraria as regras por causa de um único sujeito?

Assim que Choi Seung percebeu a corrente de raiva nesse tom seco, o chão abaixo deles se moveu. Eles nem tinham percebido que era uma armadilha.

Sssshhhk!

O chão se desfez como areia sob seus pés e um vórtice súbito os puxou para baixo. Primeiro os pés, depois as canelas, os joelhos e as coxas foram engolidos, como se tivessem pisado num poço vivo de areia movediça. A areia grossa girava lá embaixo, enquanto uma pressão invisível os esmagava por cima.

— S-senhorita Harona! — Choi Seung conseguiu chamar com o peito já no nível da areia sufocante.

Mas, depois de só essa palavra, ele fechou a boca com força. A areia estava entrando mais rápido do que ele conseguia falar. Ainda assim, essa única palavra pareceu surtir efeito.

— E-ele é excepcional! — Harona, orgulhosa como sempre, apressou-se em dizer mais, embora soasse mais como uma justificativa desesperada do que como uma defesa.

— Que tipo de administradora ignorante chama de excepcional alguém com pontuação mediana?! — o Diretor rebateu.

— Quero dizer, se o senhor apenas o observasse pessoalmente.

— Provação 17.

Harona ficou em silêncio.

— Isso deve ser justo o bastante. — o Diretor acrescentou.

— Mas, senhor...

Provação 17 era a Provação infame que forçava os sujeitos a matarem uns aos outros. Era um cenário brutal e sem regras, que tinha se tornado extremamente popular entre os espectadores mais sedentos de sangue. Porém, essa Provação só era aplicada quando restavam poucos sujeitos.

— Mas aí os outros vão se juntar contra ele. Vai ser um massacre, não um teste de habilidade ou de justiça!

— Você ainda está deixando suas emoções turvarem seu julgamento.

— Não é isso, eu só... — Harona queria dizer que esse tipo de Provação era excessivo. Porém, ela mordeu o lábio e ficou em silêncio.

No fundo, ela entendia que não era punição, e sim prevenção. Era um golpe preventivo para garantir que aquele erro nunca se repetisse.

— Você tem minhas ordens. Não seja tola e não cometa o mesmo erro! — o Diretor disse de forma seca.

— Como... o senhor ordenar.

Fwoosh!

O chão que havia engolido Harona e Choi Seung agora os expulsou violentamente, como se a terra cuspisse algo azedo. Choi Seung mal conseguiu evitar vomitar a areia grossa que tinha na boca, mas por enquanto segurou.

Com um único aceno da mão do Diretor, eles foram arremessados para trás, expulsos como se por força.

Creeeaak!

Thud!

A porta pesada se fechou com força atrás deles.

Só depois de cambalearem de volta até o corredor perto do escritório de Harona é que Choi Seung finalmente cuspiu um bocado de areia.

Limpando a boca com um lenço, Choi Seung disse para as costas de Harona, enquanto ela seguia à frente: — Ele vai morrer.

Harona parou no meio do passo. — Isso significaria uma perda enorme de pontos, não é?

— O que a gente deve fazer então, Administradora Harona?

Era óbvio que a próxima Provação seria fatal para Eun-Ho.

No entanto, Harona já tinha feito um investimento pessoal nesse candidato. Choi Seung sabia que levaria o pior da frustração dela se ela não conseguisse recuperar a própria aposta. E ele não estava com a menor vontade de lidar com esse tipo de drama.

— Além disso, a força dele está no cérebro, não no físico. — Choi Seung acrescentou. — Não tem como ele sobreviver.

À sua maneira, Choi Seung estava tentando dissuadi-la.

Porém, Harona inclinou um pouco a cabeça e disse, quase animada: — Bem, visto que já estamos está aqui...

Seung ficou confuso. — Desculpa, o quê?

— Um herói solitário lutando contra o mundo. É uma imagem chamativa, não acha?

— Espera, não me diga que você vai mesmo...

Harona abriu um sorriso como uma criança que acabou de ter a ideia mais brilhante.

— Se a gente empurrá-lo até a beira da morte, talvez dê pra conseguir uns fundos de patrocínio decentes.

Ela estava planejando jogá-lo em perigo de propósito, apostando na adrenalina para atrair apoio dos observadores. Era totalmente a cara da Harona.

— Mas é arriscado demais! — Choi Seung protestou. — Você sabe como funciona. Toda pessoa que ele vir vai tratá-lo como inimigo.

— Isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde de qualquer jeito! — Harona respondeu, dando de ombros. — Se esse for o limite da capacidade dele, então que seja.

A calma no rosto dela era irritante. Quando Choi Seung franziu as sobrancelhas, Harona ainda sorriu, com um brilho divertido nos olhos.

— Vai saber? Talvez ele encontre uma falha no sistema que eu não consegui ver e vire o jogo de cabeça pra baixo — Harona disse.

— Bom, claro. Até agora isso funcionou, mas...

— Chega de responder. Mande o Olho descer de novo.

Pela primeira vez no dia, as duas tranças de Harona, que estavam caídas como algas encharcadas, deram um pulinho vivo, como se compartilhassem da empolgação dela.


— Seus dados de habilidade aumentaram? — Eun-Ho perguntou.

Aff, não. Nem um pouquinho... — Ji-Eun desabou no chão do vagão, decepcionada.

Ela girou o braço dolorido depois de arremessar aquela adaga pesada centenas de vezes.

— Não entendo. Fiz a mesma coisa que fiz antes. Mesmo arremesso, mesma força. Por que não está funcionando? — Ji-Eun perguntou.

Hmm... Se os dados não registraram, então alguma coisa deve ter sido diferente! — Eun-Ho respondeu.

— Não faço ideia de que diferença seria essa.

Eles precisavam refazer o caminho. Onde eles estavam? O que estava faltando?

“A gente estava dentro de um trem KTX. A Ji-Eun estava lá com uma adaga. Ela usou a mesma força, no mesmo ângulo. Tudo foi repetido exatamente do mesmo jeito.” Eun-Ho pensou.

Mesmo assim, segundo Ji-Eun, ela não recebeu nenhuma notificação de habilidade.

“Isso deixa só um fator que a gente ainda consegue mudar.”

— Você quer tentar arremessar em mim?

?

— O alvo! — Eun-Ho esclareceu. — Antes não arremessou numa cadeira. Você arremessou no Fantasma Supremo. Então vamos recriar isso arremessando num alvo claro como eu.

Ji-Eun arregalou os olhos.

— Quer que eu jogue uma adaga em você?! Isso é loucura!

— É a única condição que a gente ainda não replicou. Você não quer desbloquear a habilidade?

Ela agitou as mãos em protesto como se ele tivesse acabado de pedir que ela cometesse um assassinato. — N-nem pensar! Não quero uma habilidade se isso significa te machucar!

— Você esqueceu da minha habilidade? — Eun-Ho perguntou com calma.

Ji-Eun congelou com o surto sumindo no instante em que ela entendeu.

Ele tinha razão. Desde que se mantivesse focado, não haveria perigo. Ele conseguiria desviar com a habilidade dele, Aceleração.

— Se você desbloquear sua habilidade, vai ficar mais fácil pra mim também. É difícil continuar lutando sozinho.

Ji-Eun pareceu chocada.

— Vamos tentar mais uma vez. Se não funcionar, a gente deixa pra lá.

Na verdade, Eun-Ho não estava tão cansado assim. Ele só estava apertando o botão da culpa dela, porque sabia que Ji-Eun tinha um senso forte de responsabilidade.

Mesmo ainda insegura, ela finalmente pegou a adaga. Apertou, soltou e depois apertou de novo. O rosto dela era o retrato de uma tensão nervosa.

— Eu vou arremessar. É melhor que desvie direito.

— Não se preocupa.

Apesar do nervosismo, os olhos dela ficaram afiados. Ela focou, firmou a postura e lançou.

Swoosh!

Toda vez que ela fazia isso, Eun-Ho notava a mesma pureza no olhar dela. Um foco total e inabalável no alvo, movido por uma intenção simples e inconfundível.

Ele teria admirado a beleza disso se não tivesse uma arma mortal voando direto na direção do rosto dele.

— Aceleração.

Swoosh.

Eun-Ho deu um passo para o lado, desviando da adaga com naturalidade. Dessa vez, ele deixou os dez segundos completos de Aceleração se desenrolarem.

Tick!

Com o som de um relógio ticando, ouvido apenas nos ouvidos dele, o mundo que tinha pausado por um instante voltou a se mover.

Ji-Eun pareceu chocada.

— Funcionou, né? — Eun-Ho perguntou.

— Eu não acredito que era isso! — Ji-Eun respondeu.

Então, Eun-Ho pensou na mensagem do sistema que tinha ouvido antes.

[Os parâmetros necessários para a ativação da habilidade estão sendo calculados.]

Ele tinha certeza de que Ji-Eun ouviu a mesma mensagem. Já que eles tinham descoberto, agora era hora de agir.

— Vamos fazer de novo.


Eram 20:00, quando estavam a caminho do alojamento depois de saírem da Estação de Seul.

Ji-Eun, andando ao lado de Eun-Ho com passos suaves, olhou para cima e perguntou baixinho: — Hum... Eun-Ho?

— Oi?

— Sobre os dados de habilidade... Por que não passa de noventa e nove por cento?

Como ele esperava, Ji-Eun tinha empurrado os dados de habilidade até noventa e nove por cento com treino repetitivo, do mesmo jeito que ele. Porém, parou ali assim como os dele.

“Foi a mesma coisa quando eu desbloqueei a Aceleração.”

Naquela época também, os dados ficaram em noventa e nove por cento até o último instante. Só quando ele estava prestes a morrer no fogo é que a habilidade finalmente desbloqueou.

— Eu acho que o desbloqueio final precisa de algum tipo de gatilho! — Eun-Ho disse.

— Um gatilho? — Ji-Eun murmurou com a expressão ficando séria enquanto ela encarava a frente.

Eles continuaram andando em silêncio, sob o entardecer que se aprofundava e a quietude da cidade adormecida.

Então, a transmissão pública soou claro como o dia.

[Atenção, sobreviventes da área da Estação de Seul.]

[A próxima Provação começará amanhã exatamente às 9:00.]

— Então amanhã começa às nove de novo! — Eun-Ho comentou.

— Parece que a gente está batendo ponto no trabalho — Ji-Eun respondeu.

Eun-Ho deu uma risada diante do absurdo. Se isso fosse um emprego, tinha que ser a pior empresa imaginável por bater ponto e nunca sair. O tipo de empresa que enfiava as pessoas em armadilhas mortais e depois avaliava como se fossem produtos.

[As notas finais de avaliação deste projeto foram calculadas.]

“Nota de avaliação, é?”

Ele tinha recebido antes uma nota S na Avaliação intermediária.

[Sujeito de Avaliação: Lee Eun-Ho. Nota de Avaliação: S+.]

[Parabéns!]

“Hã? Eu tirei S+?”

Eun-Ho hesitou, confuso com o “+”. O que isso significava? Porém, o anuncio continuou antes da ideia se formar.

[A Classificação do Sujeito Lee Eun-Ho foi atualizada após a conclusão bem-sucedida do Projeto Seleção.]

[Por favor, verifique sua tela de status.]

“Classificação? Desde quando esse sistema tinha classificação?”

Confuso, Eun-Ho abriu a janela de status. Então, uma projeção holográfica dele apareceu, junto com uma parede de texto.

[Lee Eun-Ho]

  • Afiliação: Setor 13, Distrito ROK-SEO-107, Torre MS
  • Classificação: Alvo da Reestruturação
  • Estatísticas: Vigor (12), Força (11), Inteligência (10), Julgamento (15), Agilidade (15), Resistência (31)
  • Traços: Bloqueado
  • Habilidades: Aceleração (Nv. 1), Petrificar (Nv. 8)

“Então a afiliação e a classificação mudaram. Espera. Minha agilidade é quinze?” Eun-Ho pensou.

Isso não fazia sentido. A agilidade dele era um. Ele lembrava da decepção ao ver aquele número patético, penalizado pela lesão na perna.

Mas agora tinha voltado.

“Acho que usei bem minha recompensa, mesmo sem querer.”

Esse sistema claramente tinha muitas peças em movimento, e quanto mais alguém entendia, mais conseguia usar isso a seu favor.

Até o jeito de os jogadores passarem mensagens por meio de presentes fazia parte disso. Tinha que haver mais funções escondidas, esperando para serem exploradas.

“Vou arrancar cada gota desse sistema.”

[Você recebeu a Recompensa de um ponto.]

[Calculando incentivos com base na Nota de Avaliação.]

[Nota de Avaliação: S+. Recompensas adicionais obtidas: 2 pontos e 1.500 Pontos de Benefícios.]

Eun-Ho estava decidido a conseguir todas as recompensas possíveis. Era a única forma de subir alto o bastante para ao menos ficar no mesmo nível daqueles do topo.

E, quando chegasse lá, ele estava pronto para devolver tudo. Cerrou o punho com força o suficiente para as unhas cravarem na palma, não que o sistema se importasse.

[Por favor, escolha seu incentivo especial.]

De repente, um clarão cegante explodiu diante dos olhos dele, engolindo sua visão. Mesmo com os olhos fechados, a intensidade atravessava tudo.

O brilho absurdo fez os ouvidos dele zumbirem e a cabeça girar. Ele lutou contra a desorientação, sacudindo-a para longe.

Ssssssk~

Então, um caminho começou a tomar forma a partir da ponta dos pés dele, estendendo-se para fora. Havia dois caminhos distintos e se cavando lentamente no chão, ambos levando a portões estranhos à distância.

Havia duas opções diante dele.

[Por favor, selecione seu caminho.]

Eles eram estreitos, mal largos o bastante para uma pessoa passar. Ainda assim, cada um tinha uma placa.

“O que está escrito? O começo e o fim do treinamento?”

Qualquer porta que ele escolhesse levaria a algum outro lugar. Considerando quão rara era esse tipo de recompensa, ele precisava fazer a escolha certa.

[Por favor, selecione seu caminho!]

Ele não sabia o que havia atrás de nenhum dos portões. Se tivesse que adivinhar, era uma escolha entre uma recompensa do tipo Crescimento e uma recompensa pronta e de uso imediato.

“Nesse caso... vou por aqui.”

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