Volume 1
Capítulo 16: Um Contra Um (1)
O mendigo, Kim, sempre pensou a mesma coisa: “Que se fodam todos. Que morram.”
Por isso, ele ateava fogo.
O pai dele, que o espancava até ele perder a consciência dia após dia, dizendo que ele parecia com a mãe inútil que fugiu, gritou: — Aaaah!
A mulher que ousou dormir com outro homem dentro da própria casa dele gritou: — Por favor, para! Não! Aaaah!
O dono da fábrica que o chutou para fora depois de três anos de trabalho exaustivo e não pago gritou: — Aaaah!
Kim amava quando tudo queimava, principalmente quando as chamas dançavam de forma quente e selvagem sobre gasolina.
Creck. Creck.
Depois de ser pego e cumprir dez anos na prisão, Kim manteve a cabeça baixa, queimando lixo e recicláveis em segredo para segurar a coceira por dentro.
Só que tudo mudou com a revelação um dia.
[A provação está começando.]
[Parabéns! Com base na sua fúria profundamente enraizada e nas incontáveis memórias envolvendo chamas e cinzas, uma habilidade foi desbloqueada!]
[Chama (Nv. 1) foi desbloqueada.]
“Q-que porra é essa…?” Kim pensou.
De algum lugar no fundo do peito, o calor subiu pelas costelas, atravessou o ombro e desceu pelo braço. Em vez de sangue, parecia lava correndo nas veias.
A palma da mão começou a borbulhar e espumar, como se magma estivesse preso sob a pele. Ele não conseguiu mais segurar. O calor explodiu da mão, como se rasgasse a própria realidade.
Creck. Creck. Creck. Fuuush!
Era um sinal divino vindo do alto. Ele simplesmente tomou para si a tarefar de purificar o mundo, que já era um desastre ou um lixão fumegante em chamas. Por isso, tentou queimar tudo de corpo e alma, virando o próprio inferno.
Creck!
“Então por que diabos eu estou apanhando feio de um pirralho mirrado? Não é um soco qualquer, esta porra está cheia de lava!”
— Keugh!
“Dói! Que porra é essa! Eu vou morrer!”
Kim não conseguiu nem gritar enquanto se encolhia no chão como um inseto esmagado, segurando o punho destruído.
“A habilidade… eu só preciso da habilidade…”
Os dedos quebraram até as juntas, e cada nervo do corpo implorava por misericórdia. Ainda assim, se ele conseguisse soltar a habilidade, dava para incinerar esse desgraçado em segundos! Uma palavra. Era só dizer uma palavra.
— Cha...
Fuuush!
— …ma!
Ele cuspiu as sílabas como veneno, e uma rajada repentina rasgou o ar. Foi como se o mundo parasse por um segundo e então reiniciasse.
— Oh, não! Parece que você realmente não consegue mais usar essa habilidade — Eun-Ho falou com um sorriso malicioso.
Antes que Kim pudesse piscar, Eun-Ho sumiu e reapareceu bem na frente dele.
Tump!
Então, o mesmo punho que tinha estilhaçado a mão esquerda do Kim acertou o estômago dele.
— Aaaaargh!
Pareceu que as entranhas tinham sido perfuradas de lado a lado. O abdômen afundou para dentro como argila molhada, e tudo lá dentro tremeu com o impacto. As pupilas dele se arregalaram.
— Guaaargh!
— Vai doer um pouquinho! — Eun-Ho avisou.
Kim nem conseguia gritar direito por causa da dor.
Golpe após golpe desabou sobre ele, cada um mais brutal que o anterior. Começou com um gancho de direita cruel no queixo, seguido por um golpe estrondoso no abdômen, tirando o ar dele. As mãos, estilhaçadas em cada junta, também não foram poupadas. E não parou aí. Outro soco no queixo direito, outro golpe no abdômen, então de volta às duas mãos…
— P-por favor! — Kim gemeu. — Por favor, chega… Ugh!
— A gente nem chegou perto de terminar! — Eun-Ho falou de forma seca.
— Por favor! E-eu… estou implorando!
Kim não conseguia se mexer nem respirar. Estava totalmente à mercê de Eun-Ho.
O corpo quebrado e patético do Kim o alertava que ele morria se esse ataque continuasse. O maxilar mal conseguia se mover direito. Algo estava fora do lugar ou simplesmente quebrado. Ainda assim, ele forçou as palavras: — E-eu vou te dar as garotas…! Só… por favor, para!
Fuuush!
O vento rugiu de novo quando Eun-Ho sumiu e reapareceu como antes. Desta vez, a dor foi tão forte que Kim sentiu como se a alma fosse arrancada do corpo.
“Como eu esperava!” Eun-Ho pensou.
Desta vez, Eun-Ho foi cuidadoso, administrando as habilidades com precisão. Por mais irritado que estivesse, não deixou a raiva atrapalhar.
— Cha...
— Aceleração.
“Dizem que força é igual a massa vezes aceleração, né?” Eun-Ho pensou.
Bom, com dez vezes a velocidade, a força por trás do soco naturalmente ficava monstruosa.
O abdômen do Kim não passava de um saco de pancadas agora, tomando golpe atrás de golpe enquanto a contagem regressiva batia na cabeça dele.
“Três, dois, um… agora!”
— …ma.
Tump!
Bem na hora em que a habilidade se desfez, Eun-Ho encaixou um soco com toda a força bem no abdômen do Kim.
Ele mirou perfeitamente e cravou o tempo do ataque para que Kim sentisse tudo. Como um boxeador procurando o ponto desejado, maximizando dor e impacto.
Tzzzt!
O golpe foi tão sólido que fez até o braço dele arrepiar.
— Oh, não! Parece que você realmente não consegue mais usar essa habilidade! — Eun-Ho falou com falsa preocupação.
— Guaaargh!
— Vai doer um pouquinho! — Eun-Ho avisou.
Pá! Pá! Tump!
Mesmo depois que a habilidade acabou, a surra continuou com frequência. Eun-Ho focou primeiro nas mãos quebradas, esmagando-as de novo bem quando Kim se contorceu de dor para tentar escapar.
Depois, Eun-Ho socou o abdômen de novo. Quando Kim se dobrou para puxar ar, outro golpe acertou o queixo. Eun-Ho acertou mãos, pernas, abdômen e depois queixo; várias e várias vezes.
“Não posso dar espaço para contra-ataque.” Eun-Ho pensou.
Esse era o verdadeiro motivo de martelar sempre os mesmos lugares. Claro, infligir dor ajudava a quebrar a vontade do adversário, Só que seu principal objetivo era que Kim não pensasse que a habilidade Petrificar tinha terminado.
“Ele provavelmente sabe sobre as recargas das habilidades também.”
Aceleração e Petrificar eram poderosas, mas Kim tinha poder de fogo o bastante para virar o jogo no instante em que tivesse uma brecha.
— Por favor! E-estou implorando!
Kim desabou no chão como um porco sendo abatido, arfando por ar. Então olhou para o amontoado deformado de juntas que antes eram suas mãos. Estavam completamente destruídas.
— E-eu vou te dar as garotas…! Só… por favor, para! — Kim gaguejou num apelo patético.
— Aceleração.
Fuuush!
O vento uivou de novo quando Eun-Ho avançou. Desta vez, foi direto no abdômen, depois alvejou as pernas de Kim com força implacável. Também usou Petrificar de novo.
— Aargh! Keugh!
— O que foi isso? — Eun-Ho perguntou, inclinando a cabeça.
Kim permaneceu em silêncio. Os membros ficaram moles enquanto ele tremia sem controle. Entre os lábios rachados saiu um gemido forçado e patético.
— Ghrrrk… p-por favor… para…
— Você disse que ia me dar as garotas?
Incapaz de acreditar no que tinha acabado de ouvir, Eun-Ho precisou perguntar de novo. O rosto do Kim se contorceu em pânico enquanto ele assentia freneticamente, achando que isso o salvaria.
Eun-Ho então chegou mais perto. — Eu estava planejando te entregar pra elas.
Por um instante, a confusão passou pelos olhos opacos de Kim. Contudo, o turno dele acabou aí. No momento seguinte, Eun-Ho deu um passo para trás e chamou com calma: — Ei, garota!
A estudante era quem deveria escrever o final desta história.
— Como você quer terminar com ele?
Toc. Toc. Toc.
Assim que Eun-Ho disse isso, uma colegial de cabelo comprido avançou do outro lado do cômodo com passos lentos e deliberados. Os olhos dela brilhavam com puro veneno.
— P-por favor! Me poupa! Não! Arrrgh!
Ela não disse uma palavra.
Guaaaaargh!
O som penetrando o cômodo nem parecia mais um grito humano.
Choi Seung, que encarava a tela com olhar vazio, enxugou discretamente as palmas suadas na calça social. Ele não tinha percebido o quanto estava cerrando os punhos.
“Ainda está bem no começo do jogo e já está essa brutali...”
Tum!
Choi Seung pulou de susto. O barulho reverberou pela mesa enorme, pelo cômodo inteiro e até dentro dele. Ele fechou a boca na hora e roubou um olhar para a expressão da sua superior.
Toc. Toc. Toc.
Uma mão batia na mesa num ritmo rápido e seco. De vez em quando, a língua estalava em irritação. Além disso, as sobrancelhas da superior estavam bem franzidas.
— Senhorita Harona?
Harona não respondeu. Continuou com os olhos grudados na tela em silêncio. Para piorar, as duas tranças de cada lado da cabeça dela estavam arrepiadas, tremendo levemente.
“Ah, espera… será que…?” Choi Seung pensou.
— É por causa do Kim Deok-Gu? É realmente lamentável o que aconteceu com ele, ainda mais logo após desbloquear uma habilidade tão valiosa.
Desde o início, Chama sempre foi uma habilidade poderosa. Tornava fácil elevar métricas de desempenho. Do ponto de vista de gestão, perder alguém como ele era um grande prejuízo sem sombra de dúvida.
— Bem, logo vai aparecer outra pessoa capaz de desbloquear uma habilidade. Essa habilidade não é rara nem única, então a gente encontra outro como ele em algum lugar...
— Que besteira é essa que você está falando? — Harona rosnou.
— Não é o Kim Deok-Gu que te incomoda?
— Hã?
Harona soltou um suspiro exasperado diante do subordinado tapado. Então apontou para o cadáver carbonizado que um dia pertenceu ao Kim Deok-Gu, exibido na tela.
— Não é ele, seu idiota!
“Então, se não era por causa dele, então…?” Choi Seung pensou.
— É com o Sujeito Lee Eun-Ho que estou irritada! Eu queria ver ele lutar mais!
— Ah, entendi. É isso que te decepcionou.
Harona deu de ombros como se fosse óbvio. — Ele é brilhante em explorar brechas. Viu como cravou o timing daquele movimento agora há pouco?
Os olhos dela brilhavam não de admiração, mas de fascínio. Eun-Ho era selvagem, calculista e letal.
— Ele é esperto.
Choi Seung não encontrava palavra melhor; esperto do jeito mais cruel e astuto. Num mundo onde era comer ou ser comido, esse era o maior elogio possível.
— No começo, achei que era uma pena que tanto Aceleração quanto Petrificar não fossem habilidades de ataque. Acho que eu estava errado! — Choi Seung murmurou.
Eun-Ho usava habilidades não ofensivas com uma ameaça muito mais mortal do que qualquer arma. Quando Choi Seung ia falar de novo, um toque alegre e repentino ecoou; um som impossível para aquele momento.
Ding!
[Um observador anônimo está extremamente satisfeito com o desempenho do Sujeito Lee Eun-Ho.]
[Um presente foi entregue.]
A tela, agora tomada por fumaça espessa subindo em vez de chamas, exibiu a mensagem com clareza. Então os dois se viraram bruscamente para encarar o monitor.
— Um presente?! — Harona pareceu surpresa.
— Será que é um item de patrocínio? — Choi Seung perguntou.
Espectadores ocasionalmente enviavam suporte aos participantes favoritos. Não era comum, mas também não era algo inaudito.
Como as provações de reestruturação eram transmitidas em tempo real pelo Olho, qualquer um com acesso podia assistir como espectador. Além disso, enormes apostas eram feitas sobre quem sobreviveria quando as coisas chegassem nas fases finais. Era aí que os patrocínios choviam; investimentos desesperados para manter a escolha de alguém viva.
— Temos que devolver isso, Senhorita Harona.
“Hmmm.”
Só que esse tipo de coisa só acontecia no final, e o Setor 13 tinha acabado de começar seu processo de reestruturação. Enviar um presente para um participante não selecionado oficialmente ia contra o protocolo.
Agarrados à esperança de que fosse um engano, eles conferiram o presente de novo. Mas estava lá, claro como o dia: Destinatário: Lee Eun-Ho.
— O manual de reestruturação diz claramente que sujeitos não selecionados não podem receber patrocínios...
— Espera, calma. Isso não é um patrocínio. É um presente, não é?
— Como é?
“Qual é a diferença entre patrocínio e presente, afinal? Se você manda pontos, é patrocínio, o que é basicamente apoio. Se manda itens, é presente.” Choi Seung pensou.
— Mas, Senhorita Harona! Você pode ser sinalizada de novo!
— Ah, relaxa. Não é nada sério. Ele provavelmente nem vai saber usar direito.
— Mesmo assim, isso é...
Choi Seung tentou insistir, mas Harona sorriu e fez um gesto displicente com a mão pálida, afastando a preocupação. Então juntou as mãos e começou a esfregá-las com empolgação e com os olhos brilhando com travessura.
— Vamos começar a próxima provação agora mesmo.
— Mas essa era pra ser a última de hoje.
— Não. Começa agora.
Choi Seung soltou um suspiro pesado, quase sem perceber. Mas Harona já não estava mais ouvindo. Ela sorria de forma larga, brilhante e satisfeita demais. Claramente, alguma coisa já estava se desenhando.
— Faz tempo que não entra um participante tão emocionante. Temos que garantir um bom show pro nosso observador. Vamos abrir um pouco mais a carteira dele.
“Carteira?” Choi Seung semicerrou os olhos.
Parecia que sua superior estava planejando algo muito maior.
— Hmmm… o que deixaria isso interessante?
“Ugh, isso dói!” Eun-Ho pensou.
A maioria dos golpes veio da mão direita petrificada, mas talvez ele tenha forçado demais.
“Será que quebrei os dedos ou algo assim?”
Eun-Ho se sentou no chão, segurando o braço latejante. Foi quando a garota de cabelo comprido, Yoon Sol-Ah, aproximou-se. Ela tinha passado os últimos minutos soluçando nos braços da amiga. Tinha recuperado a compostura agora, embora os olhos ainda estivessem vermelhos.
— Oi.
— Hmm?
Ela estendeu uma mão pequena e delicada, quase delicada demais para alguém da altura dela. Foi quando Eun-Ho lembrou do que tinham dito antes.
“Cure o resto depois. Você dá conta, certo?”
Sol-Ah provavelmente lembrou disso também.
— Obrigado! — Eun-Ho falou.
Ela estudou o braço ferido dele com uma intensidade silenciosa e inesperada. O olhar era gentil e cuidadoso, carregando apenas uma suavidade tranquila; um contraste gritante com a garota fervendo de raiva instantes atrás.
“Acho que ela não desbloqueou habilidades de cura à toa.”
Uma luz suave vazou entre os dedos finos dela. Um brilho estranho, entre branco e azul, penetrou delicadamente na pele dele. Algo fresco, seco e na medida certa envolveu o braço, como entrar numa sala com ar-condicionado depois de aguentar o calor sufocante do verão.
[Você foi curado pela Curandeira Yoon Sol-Ah.]
[Recuperação de queimadura: 100%.]
[Recuperação de fratura: 100%.]
As juntas dos dedos voltaram devagar ao lugar certo, e as cicatrizes de queimadura vermelho-escuras se desprenderam, substituídas por pele nova, como CGI de comercial de remédio.
“Uau… tá completamente curado.”
Era uma habilidade incrível. Com alguém como ela por perto, ninguém precisaria desperdiçar recompensa da provação com ferimentos. Além disso, essa habilidade não beneficiava só ela, como fazia dela a melhor aliada possível.
“Definitivamente alguém com quem vale a pena manter uma boa relação, haha!” Eun-Ho pensou.
— Graças a Deus você está bem, Hyungnim! — Jae-Hyuk, que andava de um lado para o outro nervoso, praticamente gritou de alívio.
— Eun-Ho! Você está todo curado! — Ji-Eun, que roía o lábio de ansiedade, finalmente sorriu.
Grata ou não, havia algo suspeito no jeito como Sol-Ah ficava lançando olhares furtivos para ele, como se quisesse dizer alguma coisa.
Ela hesitou em falar como os lábios tremendo.
— Valeu pela cura! — Eun-Ho disse primeiro, e isso finalmente fez ela se abrir.
— Que alívio. Mas… por favor, lembre que cumpri a minha promessa! — Sol-Ah falou. — E, hum… obrigada…
Ela mexeu nos dedos, olhando para cima com timidez.
Ding!
Um som alegre e familiar, igual ao de quando recebeu a primeira Caixa Misteriosa, ecoou na mente dele. Em seguida, uma janela translúcida de mensagens surgiu diante dos olhos dele.
[Um presente chegou de um observador anônimo!]
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