Sinph Star Brasileira

Autor(a): SoulPeak


Volume I

Capítulo Bônus: Peças em um tabuleiro.

Uma garota brincava alegremente próxima a um rio. Diversos bonecos de barro foram criados, até mesmo um pequeno castelo. A criança tinha uma aparência ruim. Volta e meia era assolada pela fome, mas tinha um sorriso, mesmo que fraco. Seus pais estavam ali por perto, procurando por tubérculos no leito do rio. O pai, um homem magro e de aparência doentia. A mãe faria até mesmo o mais devoto dos padres chorar. Como continuavam em pé? A resposta estava sentada, brincando.

 

Em relação aos pais, a criança aparentava uma saúde tão notável que parecia deslocada. Faziam o possível para que ela não notasse a situação em que estavam, mas até mesmo uma criança perceberia o que acontecia, se fosse recorrente. Nem sempre fora assim. Antigamente, a família tinha o que comer todos os dias, tinham empregados, cavalos, duas casas e várias cabeças de boi em seus nomes.

 

Tudo isso mudou quando a guerra começou. No começo, tudo parecia bem, pelo menos para os nobres. A guerra era travada no território inimigo. Os que pudessem investiam na guerra, fosse com tropas ou suprimentos, tudo com a promessa de novas terras. O pai fora um desses investidores. Depois de duas semanas, haviam vendido todo o seu rebanho, financiando uma invasão a uma planície, mas nada fora tomado, nenhum território.

 

Então, cinco semanas dentro do conflito, as tropas aliadas começaram a recuar, fosse pela escassez de ajuda dos ricos ou por estarem perdendo. Quando se deram conta, haviam perdido metade do território do país. O Rei, sem saber como reagir, trancou-se em seu aposento; somente se soube depois que o monarca fora brutalmente esfaqueado pelos seus servos. O pai da garota fora um dos que perderam suas terras; agora, nem mesmo poderia falar com o rei solicitando compensação.

 

Os invasores? O Império. A guerra em si não fora travada contra a nação, mas o lado defensor firmara acordos políticos e econômicos com o Império, então conseguiu sua ajuda. A taxa que o Império cobrava era, em si, extrema: tudo o que conquistassem do território inimigo. Isto englobava literalmente tudo: terras, pessoas, matérias-primas e o que mais conseguissem. O Império, por ser uma nação militar, tinha poderio para viver a vida de guerras.

 

— Achei! Olhe que batata grande.
— Você tem razão!

 

O casal exibia um enorme sorriso segurando o tubérculo. Nunca tinham comido aquela em específico, mas sabiam reconhecer uma batata, mesmo que nunca tivessem sequer chegado perto da antiga cozinha de sua nobre casa.

 

— Vamos, vamos assar!
— Com certeza.

 

A fogueira improvisada ficava próxima ao rio; ambos não tinham tanta habilidade com magia, mas conseguiram conjurar uma pequena faísca para acender o fogo. Espetaram o tubérculo com um graveto; tinha uma cor engraçada: era roxa com pequenos pontinhos amarelos.

 

— Venha, Lotus. Vamos comer. Não tem muito, mas vamos dividir. — O pai chamou a garota, que brincava com seus bonecos de barro.

 

— Eu não tô com fome, papai. Comi aquele passarinho, lembra?

 

— Isso faz dois dias, meu amor. Vamos, não minta para a gente. — A mãe repreendeu a garota.

 

— Mas eu juro, mamãe! Podem comer, eu não estou com fome. — Lotus fez uma cara de raiva. Estava com fome, mas seus pais não comiam nada já havia pelo menos uns cinco dias.

 

— Tudo bem, então. Obrigado, meu amorzinho. — O pai agradeceu enquanto comia uma grande parte da sua metade em uma só mordida.

 

Lotus decidiu não olhar; seu estômago não aguentaria. Voltou, então, para o leito do rio para brincar com seus bonecos. Seus pais conversavam alegremente enquanto comiam; na maior parte da conversa, falavam sobre o futuro, sobre como se reergueriam na vida, sobre como comprariam suas terras de novo.

 

Até que tudo ficou quieto. Um silêncio pairou sobre o lago.

 

— Lotus! Corra!

 

Olhando em direção ao grito, a garota perdeu força nas pernas. Seus pais estavam jogados no chão, com figuras negras à sua volta. Recuperando-se o mais breve possível, a garota começou a correr sem olhar para trás, desesperada. Com lágrimas nos olhos, ela corria em meio à densa floresta. Depois de algum tempo, parou para descansar em uma vala que encontrara. Seu peito subia e descia em uma velocidade preocupante.

 

— Olá… Lotus, não é?

 

Uma figura escura estava inesperadamente na outra extremidade da vala.

 

Lotus entrou em desespero. Tentou correr, mas fora impedida.

 

— Eu só quero conversar! Olhe. — A figura jogou sua espada no chão. — Eu não tenho uma arma, estou sem nada nas mãos. Me escute.

 

A garota se acalmou; realmente, estava desarmado.

 

— Seu nome é Lotus, não?

 

— Sim…

 

— Ótimo. Aqueles lá no lago são seus pais?

 

— Sim.

 

— O que vocês estão fazendo em um lugar tão afastado?

 

— Guerra, perdemos tudo. — A expressão da garota se entristeceu. A guerra era a culpada por tudo — assim seus pais diziam.

 

— Oh… certo. Você não parece bem, não tem comido direito, né?

 

A garota acenou negativamente com a cabeça.

 

— Aqui. Coma esse doce; estava guardando para uma ocasião especial. — O homem tirou uma bomba de chocolate de dentro de seu casaco; estava com uma cara ótima.

 

Lotus ficou indecisa. Por um lado, queria muito comer, mas, por outro, o homem não parecia muito confiável.

 

— Fique tranquila, não tem nada de errado com ela. Veja, eu vou comer também. — Então deu uma bela dentada no doce.

 

Após engolir, novamente, o homem ofereceu-lhe o doce.

 

Sem muito o que dizer, a garota aceitou o doce. Estava delicioso. Era como se voltasse no tempo, para sua antiga vida, quando podia comer doces todo dia. Comeu-o em poucos segundos, sem sequer se dar conta.

 

— Obrigada.

 

— Por nada. Então, Lotus, para onde estava indo, correndo daquele modo?

 

— Eu não sei. Só escutei meu pai gritando. Então fiz o que ele mandou: corri.

 

— Você tem algum lugar aonde possa ir?

 

— Não. Estávamos andando pela floresta e encontramos o lago. Papai disse que iria procurar batatas.

 

— Oh, meu bem. E vocês comeram as batatas daquele lago?

 

— Mamãe e papai comeram, mas eu não. Deixei pra eles.

 

A expressão do homem escureceu-se. Estava em um dilema pessoal, ficando ali parado, observando a garota.

 

— As batatas eram de que cor? Você sabe dizer?

 

— Roxas.

 

— Oh, meu Deus! Elas são venenosas. Vocês não sabiam?

 

— Não! Mamãe e papai, eles vão… não pode ser! Temos que voltar, temos que ajudá-los.

 

— Vamos!

 

O homem agarrou a mão da garota, guiando-a pela floresta; demoraram um pouco mais do que se tivessem ido correndo, mas finalmente chegaram.

 

No leito do rio, jaziam os corpos dos pais de Lotus. Estavam molhados, com os lábios roxos, e tinham olhares de pânico estampados.

 

— Eles… eles estão?

 

— Sinto muito, pequena. O veneno é muito forte; se eu e meus amigos tivéssemos chegado mais cedo, poderíamos tê-los salvado. — O homem acariciava os cabelos da garota.

 

Lotus caiu de joelhos ao lado dos magros corpos de seus pais. Olhando agora, pareciam tão magros que chegavam a dar pena. A garota ficou duas longas horas sofrendo em prantos, agarrada aos corpos.

 

— Venha, Lotus, meus amigos vão enterrar os corpos deles. Você precisa dormir. — O homem agarrou a garota. Inesperadamente, ela aceitou, abraçando-o enquanto chorava.

 

Seguiram rumo ao acampamento dos homens, chegando lá em pouco mais de uma hora.

 

— Aqui, coma isso, é uma sopa que fiz. — Oferecendo uma tigela, o homem sentou-se ao lado da garota.

 

A criança não tinha vontade de fazer nada; seu mundo acabara. Não tinha mais vontade de viver, perdera tudo que já tivera. Sua razão de viver não mais existia. Aceitando a tigela, encarou o seu fundo por muito tempo. Tinha bastante carne e alguns vegetais; o cheiro era ótimo. Algumas lágrimas caíam na sopa. Aos poucos, bebia o caldo. Se não fosse a fome, jamais conseguiria comer em uma situação como essa. Após terminar sua tigela, a garota se deitou, chorando. Em pouco tempo, caíra no seu pior sono.

 

— Logan. Está feito; enterramos.

 

— Ótimo. Como foi?

 

— O homem tentou lutar, tivemos que usar força nele, mas conseguimos afogá-lo. A mulher ficou por último. Quando viu que o marido havia morrido, ela só começou a chorar e aceitou a morte. Ainda deu alguns espasmos enquanto era afogada, mas, fora isso, foi bem tranquilo; estavam morrendo de fome, acho que lhes fizemos um favor. O que você falou pra garota para ela te seguir?

 

— Eu menti. Disse que a batata era venenosa.

 

— Nossa, comi essa batata o tempo todo. Ainda bem que é uma criança. Então? Vai vendê-la como escrava? Está bem magra, mas é bem bonita; os olhos e o cabelo também são bem bonitos. Conseguiria uma bela grana por ela.

 

— Não. Gostei dela. Vou ver como se sai com uma espada.

 

— Raro em você, Logan. Nunca te vi tomar gosto por uma criança.

 

— Ela me lembra minha filha, antes da execução.

 

— O que fará, se ela descobrir?

 

— Ela não vai descobrir, né?

 

— Por minha parte, não.

 

— Ótimo. Vamos continuar caçando os nobres escondidos; a partir de agora, executem todos.

 

— Sim, senhor! — O homem carrancudo bateu uma continência enquanto se retirava da tenda.

 

Logan olhava para Lotus dormindo; a garota tinha uma aparência miserável.

 

— Seja bem-vinda à sua nova vida, Lotus.

 

Ao escutar seu nome, a expressão da garota suavizou.
Lotus nunca mais soube a verdade sobre aquele dia. Cresceu acreditando que seus pais morreram por envenenamento acidental, e que Logan fora seu salvador. Aos quinze anos, já era uma das melhores espadachins de sua província. 

 

— Você deveria tentar subir de patente, Lotus.

 

— É! Você é muito boa para continuar aqui.

 

Um grupo estava reunido em uma sala de aula. Todos tinham a mesma faixa etária, mas eram de tamanhos diferentes; no entanto, uma coisa os ligava: a espada.

 

A academia que frequentavam era obrigatória no Império. Crianças nascidas ou conquistadas no Império tinham que ser matriculadas em academias de treinamento. As que demonstrassem aptidão à magia recebiam um tratamento especial. Lotus não era uma dessas crianças.

 

— Não sei. Tem tanta gente forte tentando; acho que eu não seria páreo.

 

— Quanta baboseira. Você consegue até duelar contra três de nós ao mesmo tempo. — Uma garota sentada à frente da carteira de Lotus disse.

 

— Pois é, você deveria ao menos tentar.

 

Aquelas palavras ficaram remoendo a mente de Lotus. Ela queria muito ascender no Império, mas não tinha coragem de começar. Enquanto andava de volta para casa, viu-se parada em frente à sua porta. Estava aberta; não a deixara assim. Sacando sua espada, Lotus entrou cautelosamente.

 

— Você escolheu a casa errada!

 

— Escolhi?

 

— Logan! Deus do Céu! Avise antes. — A garota guardou a lâmina e se curvou para o homem.

 

— Você deve se esquecer de que existo.

 

— Bom, você passa tanto tempo sem me contatar que começo a achar que morreu.

 

— Compreensível. — O homem se sentou em uma poltrona bem desconfortável.

 

— Então, o que te traz aqui?

 

— Recebi uma missão. Tenho que estabelecer contatos com Qudu.

 

— Aquele reinozinho de guerreiros?

 

— Bom, não é um reino tão pequeno assim. Pelo que meus espiões me passaram, no momento, muitas pessoas importantes fizeram de lá seu lar.

 

— O que exatamente você quer de mim? — Lotus se jogou em um sofá de dois lugares.

 

— Quero confirmar algo. Quero ver se você tem o que é preciso.

 

— Vai ter que ser mais específico.

 

— Meu plano envolve um garoto. Meus espiões disseram que tal garoto tem um futuro muito promissor, mas é pupilo de Allastor e Jin Haruto.

 

— Quê?! Quem diabos é esse garoto? Como…

 

— Reid Star. Garotinho insignificante, se me permite dizer. Fugiu uma vez para tentar ser aventureiro. Agora está recebendo treinamento. Tente se aproximar dele, ganhar sua confiança.

 

— Para fazer o que depois?

 

— Recrute-o para o Império. Ele é promissor nas duas artes.

 

— Então ele é um mago e sabe usar uma espada?

 

— Exato. Palor está muito interessado. Então? Você vem?

 

— O que eu ganho?

 

— O cargo que quiser. Palor ofereceu o de líder de batalhão.

 

Lotus olhou boquiaberta para o homem; era o cargo com que sempre sonhara. Ser líder de um batalhão do Império significava invadir territórios e ganhar em cima disso, além, é claro, de regalias que iam além de sua imaginação. Diziam na academia que você ganhava um escravo mago para seu uso pessoal.

 

— Eu vou!

 

— Ótimo. Prepare-se; sairemos em três dias.

 

Logan se levantou e saiu da casa, batendo levemente a porta de madeira escura ao passar. Desceu os degraus da tranquila rua.

 

— Logan, e aí?

 

— Ela vai.

 

— Você nunca vai parar de mentir pra garota? — O mesmo homem carrancudo de antes disse.

 

— Recrutar, matar… são a mesma coisa. O garoto é só uma ferramenta para o objetivo final; se morrer como um porco, tanto faz.

 

— Esse é o Logan que conheço. — O homem curvou-se levemente.

 

— Comece os preparativos. Os alvos não serão fáceis.

 

 

Ainda dentro da casa, uma tola criança estava com a moral no teto, cantarolando enquanto arrumava uma mala carcomida. Várias mudas de roupa e uma pequena e cara adaga foram jogadas na mala; levaria sua espada na cintura, como sempre fora instruída. Em meio às horas que se passaram, ficava cada vez mais animada; finalmente sua vida iria mudar. Infelizmente, não do modo que queria. 

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