Volume I
Capítulo 22: Calmaria
— Em guarda, Valky!
— Tá bom!
A Valkyrie está treinando comigo já há alguns dias. Ela é bem nova nesse ramo das espadas, mas não é tão ruim assim. Acho que ela me ajuda a melhorar, mas não se compara ao Reid. Falando nisso… ele tá meio estranho. Não vem treinar já faz uns dois dias. Quando fui no seu quarto, ele só disse que não tinha cabeça para treinar. Acho melhor que o deixemos quieto por enquanto.
Agora, tínhamos uma nova professora, a Elise. Ela voltou de onde quer que tivesse ido, mas não parecia muito animada em nos treinar. Quando perguntei, ela disse que esperava treinar Reid. Ficou um tanto decepcionada com a atitude de meu amigo, mas não pareceu se abalar.
— Vocês estão sem foco. — Elise estava deitada no chão, com uma espada de madeira nos seus pés. Acabara de duelar com Jin.
— Eu não sei do que você tá falando! Tô dando a vida aqui! — Ouvi Valkyrie gritar, enquanto avançava para uma sequência de golpes baixos.
Defendi os golpes, devolvendo instantaneamente com um golpe na sua perna esquerda. A garota sentiu com pesar seu erro. Avançando com a guarda alta, fintei para a direita com um golpe direto; quando ela se preparou para defender, ataquei por baixo. Inesperadamente, Valkyrie esperava por isso, então ela desviou com um passo e me atacou nas costelas. Aquilo doeu como o inferno.
— Trevor, cê tá demorando muito pra levantar, os adultos estão assistindo.
Levantei a cabeça, respirando profundamente. Os adultos realmente estavam assistindo. Allastor apontava com o dedo indicador para Valkyrie enquanto conversava com Jin. Elise continuava deitada no chão, com a espada em seus pés, mas eu podia jurar que assistia.
— Você tá ficando igual ao Reid. Eu sempre espero uma finta, por isso reagi a tempo.
Eu estou? Bom, sempre treinei com ele, mas será que ele sempre usa tantas fintas assim? Pensar nisso me deixa com um pouco de raiva. Fintas não são coisas ruins, mas um bom espadachim não pode depender delas para tudo.
— Você quer continuar? Quer dizer, você ganhou essa. — Disse enquanto me levantava, com o fôlego melhor.
— Ah, pode ser. Quer tentar com espadas de verdade? — Vi Valkyrie se encolhendo com vergonha enquanto perguntava.
Quer dizer, eu perdi a minha mão, mas foi por pouco tempo. Não entendo por que eles ficam assim comigo.
— Claro.
— Sem espadas de verdade por hoje. — Escutei Jin dizer, ele estava massageando os ombros de uma Elise em êxtase. — Queremos tentar algo novo, então, se vocês se machucarem, vai demorar muito.
Oh… algo novo? Geralmente, quando Jin diz isso, é algo bom. Com um breve olhar, vi que Allastor estava animado.
— Vamos tentar melhorar os seus núcleos. Pelo que posso ver, os dois estão no amarelo sólido. É extremamente avançado para a idade de vocês, mas podemos fazer melhor.
Um elogio. Obrigado, me esforcei bastante para chegar até aqui.
— Bom, o que vamos fazer?
— Uma excursão! — Allastor gritou do fundo do salão.
Ao meu lado, Valkyrie ficou tão animada que começou a saltitar. Quer dizer, eu mesmo me sinto muito animado. Vai ser a segunda excursão que fazemos, a primeira foi para procurar o Reid.
— E para onde vamos?
— Vamos treinar. Quer dizer, estamos pensando nisso faz algum tempo. Vocês estão se acostumando com a ideia de treinamento, então, se formos para um ambiente diferente, como uma dungeon, vocês vão melhorar muito. — Jin parara de massagear os ombros de Elise. — Vamos reunir o grupo, explorar uma dungeon e, com sorte, vocês vão melhorar em todos os sentidos.
— Isso!
Eu não gosto de transparecer, mas era muito difícil esconder meu humor. Isso vai ser do caralho!
— Antes, precisamos que vocês falem com seus pais. Jin, Elise e eu estaremos com vocês, mas dungeons são muito perigosas. A quantidade de grandes aventureiros que morrem em uma dungeon deixaria vocês surpresos. — Allastor julgava com olhares Elise deitada no chão.
— Pera! Vocês vão também? — Valkyrie perguntava em meio à sua alegria.
Espera um pouco. Falar com nossos pais? Eu… não posso fazer isso. Com que cara eu enfrentaria a vergonha de voltar até lá?
— Estávamos pensando em escolher uma que não pudesse nos matar, mas não seria tão boa se o que visamos é evoluir. — Jin me encarou por muito tempo. O homem estava mais magro do que nunca, a cor de suas bochechas voltara, mas a cicatriz em forma de bolha continuava ali. Tinha olheiras enormes, e me doía o peito ver o esforço que fazia para manter um forçado sorriso. Uma coisa me deixava feliz: seu olhar continuava o mesmo, era um olhar suave.
— O pirralho vai? — Vi Elise se sentar com inesperada animação.
— Espero que sim. Seria um desperdício se algum de vocês não fosse. — Jin respondeu com um olhar de canto.
Bom, realmente seria. Pelo visto, vou ter que pelo menos avisar aqueles dois. Enquanto pensava nisso, vi Valkyrie sair correndo para fora do salão de treinamento. Acho que não ouvi o que ela disse ter ido fazer, mas, julgando pela reação de todo mundo, ela iria falar com Reid.
Despedindo-me dos adultos, guardei as espadas de treinamento, chutei nosso boneco de treinos umas duas vezes e saí do salão; subindo as escadas, cheguei ao salão principal do forte real. Lá, vi uma combinação não muito comum de pessoas reunidas: Cynthia, Lotus, Maria e Valkyrie. Era sempre muito engraçado ver a Valky perto da Lotus. Ela fica travada, sem reações, e responde como uma boneca. O que mais me deixou surpreso foi ver a Lotus aqui. Quer dizer, não é qualquer pessoa que pode entrar aqui.
— Ah, e aí, Trevor, né? Reid fala muito de você. — Lotus estendeu a mão direita para mim, e eu a aceitei.
Não posso negar, a garota tinha um aperto de mãos bem firme; dava para ver também que treinava como uma condenada.
— Isso. Me perdoe, estou todo suado.
— Que nada. Isso só mostra o quanto se esforça, e eu aprecio isso. — Dava pra ver por que Reid achava a garota bonita. Aquele sorriso era perigoso.
— Então, como estávamos dizendo, Lotus. Não é bem um castelo dos contos de fadas, mas é nosso e fazemos o possível para mantê-lo em sua glória. — Cynthia não parecia a mesma de sempre, mas era uma rainha, sabia lidar com todo tipo de gente. Atrás dela, vi uma Maria muito alegre.
— Que isso, Cynthia. É magnífico! No império, somente o Imperador teria direito a algo tão lindo. Geralmente, até mesmo os comandantes regionais ficam em casas simples. — Cynthia ficou levemente corada com a resposta de Lotus, dando a ela um grande sorriso.
Cynthia era bem apegada ao seu forte. Isso era algo que ficava evidente sempre que você via as escadas que levavam ao subsolo. Eram limpas semanalmente, mesmo que quem as usasse fossem pessoas que não poderiam ligar menos.
— Bom, eu aprecio a hospitalidade, mas quem me chamou foi o Reid, e não o vejo aqui. — Observar Lotus era, em poucas palavras, engraçado; todos, exceto Valkyrie, sempre sorriam perto dela.
— Bom, digamos que Reid tenha se trancado em seu quarto. Gostaria de tentar falar com ele? — Maria tinha realmente tomado gosto pela garota, algo que não era tão incomum.
As duas garotas subiram as escadas principais, rumo ao quarto de Reid. Valkyrie ficou sem reação com toda a cena.
— Você não seria a melhor das rainhas, tem que fingir estar gostando das pessoas, ao menos. — Brinquei com minha amiga.
— Você não consegue ver? Ela fica… fica escolhendo o que dizer, fica escolhendo o que as pessoas querem ouvir.
— Você está exagerando, uns dias atrás você mesma elogiou o esforço de Cynthia. — Pisquei de relance para a rainha.
— Muito obrigada! Agora, se me permitem, meu marido precisa de minha ajuda. — Vi a mulher descer as longas escadas que levavam ao salão de treinos.
Algo que tenho guardado para mim é que Reid, por algum motivo, sempre se aproxima de garotas bonitas. É um pensamento bobo, mas já deve ser a quarta de quem ele se aproxima. Até mesmo na academia, ele aparecia aleatoriamente com uma amiga nova. Essa Lotus também, do exato nada, ela se aproxima dele. Acredito que seja muito fácil se tornar amigo de Reid, ele é bem sociável. Isso me deixa com um pouco de ciúmes, mas não é como se fosse ruim, ele nunca faz nada com elas mesmo.
Em meio a pensamentos, vi-me parado em frente à porta do dito-cujo. Algo que não posso negar é que o quarto de Reid sempre fora muito maneiro. Era lotado de coisas das quais Reid gostava. O que mais me chamava atenção era um pequeno local de treino, contando com um boneco de treinamento que ele conseguiu trocar por algumas aulas de esgrima para o filho do curador real. O quarto em si não era impressionante, mas a sensação de paz que passava era bem agradável.
— Oi, Reid, é o Trevor, posso entrar? — Bati três vezes na porta.
Não escutei nada. Bati mais algumas vezes, um pouco mais assiduamente.
— E aí. — Reid estava sem camisa, suado e respirando profundamente. Tinha uma toalha em seu ombro. Reid mudara muito com o tempo. Antigamente, ele era tão magro que não podia deixar de pensar que passava fome. Agora, seu abdômen era de dar inveja; acho que ele mesmo não percebeu isso.
— Cê tava treinando? — Perguntei, examinando com meus olhos todo o corpo de meu amigo. Infelizmente, ele estava agora com a mesma altura que eu.
— Ah, a gente estava. Lotus apareceu do nada, então decidimos treinar. — Reid coçou a cabeça.
Do nada? Ela não havia dito que fora Reid quem a chamou? Estranho.
No quarto, Lotus e Maria treinavam sem armas, uma contra a outra. Parecia mais uma lição do que uma luta, por assim dizer. Maria escutava os conselhos atentamente. Lotus respirava tranquilamente, nem uma gota de suor.
— E aí, Trevor! Bom te ver de novo.
— Oi… Lotus.
Reid fechou a porta depois que entrei, jogou-se no chão e depois começou a fazer flexões. Ocasionalmente eu não entendo esse cara.
— Então, cara, eu queria conversar contigo.
— Fala aí. — Eu só conseguia ver as costas um tanto definidas de meu amigo subindo e descendo.
— Você tá melhor?
— Melhor? Eu estava ruim?
— Ah, cê sabe do que estou falando.
— Ah, sim, melhorei. Acho… acho que estou de boa. Vou voltar aos treinos na próxima semana. — Algo que me chamou a atenção foi que, pelo canto dos olhos, pude ver Lotus escutando atentamente nossa conversa.
Bom, Reid era esse tipo de pessoa, eu acho. Me assusta como ele pode mudar tão rapidamente.
— Você deveria conversar com os adultos.
— Eu vou, pode ficar tranquilo. Não sou mais uma criança, não posso deixar coisas como essas me afetarem.
Fiquei sentado na cama de Reid. Por algum motivo, era bem confortável, não posso mais julgar Valkyrie por viver aqui. O treinamento não era bem intensivo: de um lado, Reid pulava corda, e no outro, as garotas socavam o boneco de treino. Não consigo acreditar que Reid prefere isso a treinar comigo. Levantei-me, dei um aceno para todo mundo e fui embora.
No meio do caminho, observei algumas empregadas me encarando. Bom, não temos muitos elfos por essas bandas, mas qual é?! Vocês me veem toda semana. Deixando o forte para trás, segui em direção à propriedade dos Vykes, minha "casa", se assim posso dizer.
No meio do caminho, vi uma multidão caminhando. Não parecia um grupo de aventureiros, pareciam… pessoas normais. Uma tristeza indescritível pairava nos olhos daqueles que vinham na frente. Aproximei-me mais um pouco. No meio da multidão, meu coração saltou. Cerca de cinco homens carregavam um caixão preto, entalhado com imagens de espadas. Nenhum dos homens vestia uniformes militares — o que em si não deveria dizer nada, mas, em Qudu, somente soldados eram enterrados nesse tipo de caixão. Junto à multidão, todo tipo de gente estava presente: ricos, pobres, soldados, crianças e até mesmo o sacerdote da cidade.
Hipnotizado, vi-me sendo guiado pela marcha dos presentes. O cemitério de Qudu era um lugar muito… cheio. Era expandido com muita frequência. Do momento em que adentramos o cemitério, demorou mais de trinta minutos até que chegássemos à cova aberta.
— Meus irmãos. Acredito que todos nesta multidão saibam quem foi Rigori, o Anjo; mas, para aqueles que não o conheciam, Rigori foi um herói. Com dez anos, Rigori se alistou para a guerra. Nesta guerra, Rigori nunca sequer chegou a machucar ninguém. Salvando mais de noventa soldados, ele foi o melhor médico de guerra que este reino já viu. Mais tarde, após uma vitória na guerra, Rigori voltou para Qudu, abrindo uma clínica que tratava quem quer que fosse, de graça. No começo, todos viam o homem como um louco. A multidão reunida aqui diz o contrário. Eu mesmo só estou vivo para cuidar de meus filhos porque esse… — A voz do homem vacilou em meio a um engasgo choroso. — Esse herói nunca desistiu de mim. Peço aos deuses que pelo menos este único santo possa voltar para o seu reino. — O homem desceu do pequeno palanque de madeira posto ali perto.
Uma onda de aplausos se iniciou. Muito tempo se passou com o som daqueles aplausos.
— Eu gostaria de dizer minhas palavras, se me permitirem. — Uma mulher não mais velha que vinte anos subiu ao palanque. — Rigori foi meu mestre. Tudo o que tenho a honra de ter aprendido foi graças a ele. Por vezes, vi-o chorar por não poder fazer nada quando perdia um paciente. Infelizmente, a alma de meu mestre se danificava com certa frequência; mas acredito que todos os que estão aqui reunidos o viam como o santo que era. Nunca negou atendimento a nenhuma pessoa. Pobre, rico, bastardo, prisioneiro de guerra; todos. — A mulher caiu no choro, descendo do palanque, sendo abraçada por uma criança.
Eu não tive reação alguma, somente observava enquanto mais e mais pessoas subiam ao palanque para prestar suas homenagens. Eu nunca conheci este homem, mas aqui estava, sentindo uma perda como a de um familiar. Após um homem gigantesco fazer seu discurso, os outros homens baixaram o caixão. Encerrando assim o ciclo de mais um grande homem. Enquanto jogavam terra no buraco, dois homens usavam pás comuns. Em Qudu, era tradição enterrar aqueles honrados sem magia.
Com um susto, vi um homem se destacar na multidão. Era Allastor. Não usava sua coroa. Também não carregava a sua espada. Estava vestido como uma pessoa comum. Enquanto abria, com certa facilidade, caminho dentre a multidão, as pessoas se assustavam com muita frequência. Quando chegou ao lado de onde estava enterrado Rigori, Allastor se ajoelhou e começou a rezar. Muitos ficaram sem reação com a imagem. Alguns se ajoelharam, seguindo o exemplo, e outros começaram a chorar. Eu mesmo fui um desses.
Cerca de vinte minutos tinha se passado. Allastor se levantou e veio em minha direção.
— Grande homem, este.
— Eu não o conheci. — Vi a expressão de Allastor com maior atenção. O homem estava pleno. Uma ponta de tristeza pairava sob seus olhos.
— Foi ele quem salvou Cynthia e Maria, quando ela entrou em trabalho de parto. Nunca consegui retribuir o favor. Sempre que tentava, ele me dizia para ajudar quem mais precisava, e eu assim o fazia. No fim, a única coisa que consegui fazer foi lhe dar permissão para a clínica deixar de ser clandestina. Acho que nunca me esquecerei daquele sorriso. — O homem se deu um tapa fraco no peito esquerdo. — Até mais, Trevor.
O homem seguiu em direção à saída do cemitério. Senti minhas bochechas queimarem e minha visão ficar turva. Algumas lágrimas caíram, sem que ao menos as notasse. Inconscientemente, segui o caminho que Allastor tomou, saindo assim do cemitério. Quando me dei conta de onde estava, meu coração disparou. Estava na porta do lugar que um dia chamei de lar. Aquela porta entalhada não me era desconhecida.
Fiquei ali parado, encarando-a por longos minutos. Levantei a mão, tentando reunir coragem para bater. Não consegui. Como pensei, sou fraco demais. Enquanto me virava para sair, um barulho me trouxe de volta. A porta fora aberta.
— Filh… quer dizer, Trevor? — Artêmia estava com uma expressão de choque estampada em seu rosto.
Eu não consigo olhar nos olhos dela. Que droga.
— Eu… tava só de passagem, não vou incomodar vocês. — Eu olhava para os meus pés o tempo todo.
— Oh… entendo, tudo bem…
— Quem está na porta, Artêmia?
Vi a imagem de meu pai se projetando atrás de minha mãe.
— Tito? Você voltou!
O homem correu para me abraçar; pude ver lágrimas brotando em seus olhos.
— Você voltou mesmo! Eu sabia que voltaria, eu não disse, Artêmia? Meu menino voltou! — Meu pai pulava de alegria, sem largar o abraço. Ele era mais alto e forte que eu, então basicamente me levantava junto. — Você está tão forte, Tito! Por onde andou?
— Eu estive treinando.
— Esse é meu Tito! Sabia que não tinha ficado parado. Vamos, entre!
— Não, pai. Eu não vou ficar muito tempo.
A expressão de meu pai mudou completamente.
— Você vai entrar nessa casa, por bem ou por mal. — Meu pai apontou para a porta em que minha mãe estava.
— Tá bem, se for só um pouco. — Percebi estar fazendo biquinho. Porra, eu ainda tenho oito anos?
— Ótimo! Amor, ainda temos pudim? — A expressão de alegria intensa voltara ao rosto de meu pai.
— Eu comprei, caso ele… voltasse. Vou pegar!
A casa continuava a mesma de sempre. Nada fora mudado, pelo menos pelo que pude ver, ainda não entrara em meu quarto. Estávamos sentados no sofá da sala.
— Então? Tem algo a dizer para a gente? Para a sua mãe? — Meu pai tinha os braços cruzados. Eu sabia que ele não estava bravo nem nada.
Olhei para a minha mãe. Ela tinha olheiras bem grandes. Seus olhos estavam inchados. Cara, eu fiz merda.
— Me desculpem.
— Te desculpar pelo quê, exatamente?
— Me desculpem por agir como uma criança.
— Você é nossa criança, não tem problema agir assim. Só tenha o bom senso de ser claro. Achamos que nos odiava ou qualquer besteira dessa.
— Certo.
O clima ficou bem pesado naquela sala.
— Onde você está ficando? Quer dizer, você tem um lugar, né? — Foi minha mãe quem perguntou desta vez.
Contei para os dois toda a história, deixando de fora alguns detalhes; não queria que se preocupassem ainda mais. Levou cerca de vinte minutos para terminar. Minha mãe tinha uma cara que só pude julgar como de tristeza, mas meu pai parecia muito animado.
— Então você é um pupilo de Allastor e Jin! Deus do céu. Talvez você consiga mesmo recuperar aquele vilarejo.
— Eles estão te cobrando algo? — Minha mãe era assim quando algo envolvia humanos: um pé atrás, sempre.
— Não! Eles não cobram nada. Na verdade, eu deveria pagar, mas me disseram que não era nada que dinheiro pudesse resolver.
— Oh…
O resto do encontro não foi muito diferente; meu pai parecia muito animado por me ver — quer dizer, ele sempre fora esse tipo de pessoa. Já minha mãe, digamos que ela seja uma pessoa mais complexa. Levantando-me, comecei a andar em direção à porta.
— Pra onde você vai? — Desta vez, os dois perguntaram ao mesmo tempo.
— Eu… tenho uma vida agora, sabe? Tenho deveres, tenho coisas.
— Eu pensei…
— Trevor. Olhe nos meus olhos e prometa que vai voltar ao menos uma vez por mês. — Os olhos de minha mãe eram bem firmes.
— Dois.
— Certo, dois então. Filho, não nos abandone, por favor.
Minha mãe não chorava tão facilmente; era estranho vê-la chorando na minha frente. Qual é? Eu não sou uma pessoa tão ruim assim.
— C... certo. — Engoli em seco. — Eu prometo. — Abracei minha mãe e fui abraçado pelo meu pai.
Voltei para a propriedade dos Vykes; não demorou muito, porque ficava no mesmo bairro. De relance, vi uma animada Elise arrastando um triste Jin pelas ruas do bairro. Não acho que eles saibam, mas fica bem claro que são amantes; surpreende-me que Reid não tenha percebido a relação que os dois têm. Pelo menos, Jin sorria mais quando estava com Elise. Antes de virar uma esquina, vi-os entrar em um restaurante bom.
— Cara, que elfo bonito. — Dois garotos cochichavam, sem se ligar muito para o volume de sua conversa.
Era ruim não termos muitos elfos por Qudu, mas pelo menos não éramos iguais aos anões. Dava para contar nos dedos quantos anões viviam na cidade. Dentro da propriedade, fui direto para a entrada da direita. Era a mais próxima de meu quarto. Hoje, nenhum empregado me parou, tampouco nenhum membro da família. Era incomum; geralmente, sempre tinha alguém por aqui.
Meu quarto era no segundo andar, consegui-o porque Aspher quis que assim o fosse. Seu irmão mais novo tinha se tornado um aventureiro de alta classe e fora viver sua vida; agora, eu tinha um quarto. A relação de Aspher com seus irmãos era bem engraçada. Ele não era o mais velho, mas era o mais respeitado. Dentre os dez filhos de Bjorn, Aspher era o terceiro na linha de sucessão. Eu nunca me atrevi a comentar, mas Bjorn gostava muito do ato de fazer filhos. Valkyrie era a sétima. A maioria dos filhos não morava aqui; Bjorn apoiava qualquer um deles a seguir sua vida, menos as mulheres. As mulheres eram assunto para a esposa de Bjorn, que escolhia o futuro de suas filhas. Ainda bem que só tiveram três filhas, duas das quais já tinham ido viver suas vidas. Se não me engano, a mais velha, Rosa, fugiu para ser uma curandeira no oeste do continente.
— Que cansaço…
Decidi tomar um banho bem lento. Morar na casa dos Vykes significava ter um banheiro com água quente no seu quarto. Um luxo que nem mesmo o forte de Allastor podia proporcionar; quando Reid quer tomar banhos quentes, ele tem que esquentar a água de uma banheira com sua magia de fogo.
Em meio ao banho demorado, a imagem de Rigori veio novamente à minha mente. A morte realmente pega todo mundo, mesmo que seja uma pessoa boa. Quero morrer assim. Com muitas pessoas no meu enterro. Quero ser lembrado por coisas boas, mas suponho que vou ser uma pessoa ruim para algumas. Esses pensamentos de morte são horríveis. De um modo ou de outro, você vai se arrepender de algo.
Saindo da banheira, sequei-me e instantaneamente joguei-me em minha cama. Devo ter dormido por algumas horas quando escutei um bater na porta.
— Trevor? Você continua acordado?
— Uhum!
Aspher entrou no quarto. Estava em suas roupas casuais, sem ternos nem nada. Parecia mais tenso que o normal.
— Terminamos a reunião da família.
— Ah, tinha me esquecido disso. E então?
Aspher se sentou na borda de minha cama.
— Meu pai decidiu recomeçar a guerra com o outro continente.
Ok. Isso me pegou de surpresa.
— E o que isso significa?
— Todos os filhos capazes foram chamados. Vamos para a guerra, cada um com seu batalhão.
— Parece até que você tá se despedindo…
— Fui nomeado o líder do exército invasor. — As costas de Aspher estavam tensas como rochas.
— Não…
— Meu pai me concedeu esta honra. Valkyrie brigou com ele, mas ele persistiu.
— Aspher, você sabe que ser o líder de um exército quer dizer que a cabeça mais estimada é a sua, né?
— Bom, é uma guerra, Trevor. Minha cabeça é igual à de qualquer outro soldado.
— Não! Você só pode estar brincando… ele basicamente te condenou à morte!
— E se ele não tiver? E se essa for a minha chance de me provar?! Eu sempre esperei por isso.
Não tinha como discutir com Aspher, ele já tinha se decidido. Só veio me avisar.
— Me prometa que, não importa o que acontecer, você não vai morrer.
— Trevor, que tipo de líder eu seria se não entregasse minha vida por meus homens? Allastor é quem é porque não se escondeu.
— Você não é Allastor! Você é Aspher Vyke.
— Você não entenderia, é só uma crian…
— Não se atreva! Você não tem esse direito. — Levantei da cama e fiquei na frente de Aspher. — Olha, não quero ter na minha memória uma briga como última recordação. Então trate de ganhar essa guerra.
Aspher se inquietou, provavelmente tinha uma resposta na língua, mas decidiu que não valia a pena.
— Eu vou ganhar.
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