Sinph Star Brasileira

Autor(a): SoulPeak


Volume I

Capítulo 21: Talvez você só devesse fingir

— Ele é inteligente, Jin. Você tem certeza de que ele não percebeu? — O homem tomou um grande gole de uma caneca de madeira.

 

— Eu sei que ele é inteligente, Bjorn. Duvido que não suspeite, mas ele é do tipo que falaria imediatamente se soubesse. Ele lembra ela nesse sentido. — O homem nada tomou. Estava em um estado digno de pena.

 

— Você realmente não sabe como curar essa coisa? Me dói o peito quando te vejo assim, irmão. Maldito seja o dia em que você foi para aquela vila.

 

— Eu… não sei. Já tentei de tudo. Talvez tenha algo no país sagrado de Morruns, mas duvido que me ajudariam de bom grado. — Uma tossida acompanhada de sangue. — Aliás, você já deve ter percebido que tem que ser ele.

 

— Desde o primeiro dia, irmão. Realmente não tem outro jeito? Digo… ele é só uma criança. Eu… ou talvez, até mesmo Allastor faríamos, se você nos pedisse. — O homem estremeceu com a ideia, desviando o olhar sincero de Jin.

 

— Você tem uma família e Allastor não pode; o afetaria mais do que pensa. Obrigado por se oferecer. Para ser sincero, se pedisse o mesmo para mim, duvido que eu concordaria em fazer.

 

— Não me entenda mal, irmão. Ainda não concordo. — O homem virou seu copo. — Preferiria dizimar Morruns se fosse para te curar. Allastor disse o mesmo. É cruel o que está fazendo com o moleque. Eu nunca poderia.

 

— Precisa ser ele, Bjorn. Não me orgulho de nada. Espero que não pense tão pouco de mim. — Mais tosse sangrenta. — E como anda a vida?

 

— Bom… Aspher continua me surpreendendo. Trouxe um garoto para casa, do completo nada.

 

— E o que tem? O garoto é um hóspede ruim?

 

— Pelo contrário, é um bom garoto. É só que eu sempre esperei que Aspher trouxesse uma garota para casa.

 

— Ah, meu irmão. Aspher sempre deu sinais de que não se interessava por mulheres humanas. Acredito que a maioria dos elfos pensa o mesmo. Acha que ele tem interesse no garoto?

 

— Não. Eles têm uma relação de irmãos, então duvido que seja o caso, mas me fez perceber.

 

— E o que você faria se Aspher fosse realmente homossexual?

 

— Eu não tenho ideia. Quer dizer… ele é meu filho antes de tudo e eu o amo.

 

— Então, ele continuará sendo o filho que ama, gostando de garotos ou de garotas, não?

 

— Claro! Não me entenda mal, Jin. É só que no meio em que vivemos o diferente é tratado com agressividade; imagine o que falariam se Aspher Vyke fosse homossexual.

 

— Aspher é um garoto muito capaz, mesmo sendo novo. Deixe que ele corte alguns pescoços se isso fizer com que respeitem suas preferências. O mais importante, no entanto, meu irmão, é o apoio em casa. Imagine que no lugar em que você mais se sente seguro você é tratado como um total estranho por aqueles que deveriam te apoiar.

 

— É... realmente. Bom, a vida é dele, pode tomar suas decisões. E como vai Valkyrie?

 

— Ela está indo bem. Tem grande potencial em magia. A esgrima precisa de muita atenção, mas Allastor não quer colocar o orgulho de lado. — Mais uma tossida.

 

— Ela sempre odiou as aulas de esgrima. Me surpreende que ela esteja aceitando agora. — O homem se endireitou na cadeira. A dupla estava em uma taverna da parte nobre da cidade, reservada somente para a Elite.

 

Uma garçonete estava uma pilha de nervos em um canto da taverna. Sempre que Jin tossia, ela tinha que se controlar para não lhe oferecer ajuda, mas já tinha sido negada duas vezes.

 

— Você sabe que vão tentar matar nós três, não sabe? — Jin limpava o sangue com um lenço bordado em preto.

 

— Sei. Duvido que Allastor vá cair. Você já tem seus planos e eu preciso pensar no que fazer até lá.

 

— Bjorn. Olhe nos meus olhos. — Jin apontou para sua cara. — Prometa para mim que não vai se entregar.

 

— Eu… não ia. — O homem tinha um olhar confuso, se perguntando se ficara tão óbvio.

 

— Eu te conheço, provavelmente pensaria em se entregar para que vivêssemos. Eles não planejam negociar; se você se entregar, será morto do mesmo jeito. Proteja os seus filhos e fique vivo, fuja. — Jin percebeu o olhar de raiva de Bjorn. — Fugir não é sempre um sinal de fraqueza ou desonra. Em uma guerra, fugir pode ser uma estratégia.

 

— Como pode falar tão levemente sobre sua própria morte? Você não tem medo de morrer?! — O homem bateu na mesa com a palma de sua mão esquerda, gerando um choque.

 

— Bjorn. Sinceramente, todas as vezes em que lanço uma magia, a dor que sinto é agonizante. Até a mais simples delas é o suficiente para eu desejar a morte. Essa coisa que me assola, essa maldição, já me trouxe dor o suficiente. Perdi muitos a quem amei. Sente-se. — Jin tossia, enquanto Bjorn continuava em pé.

 

— Jin, não cometa o mesmo erro que nosso pai.

 

— Eu não entendi. Qual deles?

 

— Caixões podem até escutar, mas eles não respondem. — O homem levantou-se, dando as costas ao irmão, e saiu.

 

Jin olhou cabisbaixo para as costas largas do irmão; Bjorn sabia onde a ferida mais doía. Com um suspiro e uma última tossida repleta de sangue, levantou-se, deixando uma moeda de ouro na mesa como forma de pagamento. A garçonete correu para limpar a mesa, surpreendendo-se com as duas moedas de ouro deixadas ali. Bjorn fizera o mesmo que Jin.

 

 

No forte, Trevor estava mais do que concentrado em seu treino. Sua respiração era sua prioridade; sua mana, o princípio do treinamento.

 

— O primeiro passo para se sair da mediocridade é saber respirar. Pode parecer bobo, mas a maioria das pessoas não sabe respirar do modo certo. Primeiro, concentrem-se no ritmo em que seus pulmões trabalham. — Allastor estava sentado sobre suas pernas, a fim de demonstrar. — Agora, pensem nesse ritmo como algo físico, uma engrenagem que vocês têm que manter girando. Imaginem que seu treino é a maneira de manter a engrenagem girando mais eficientemente.

 

Os três estudantes imitavam a posição de Allastor; todos tentavam seguir as instruções.

 

— Esqueçam sua mana! Isso pode até parecer com o processo de purificar seu núcleo, mas, se fizerem igual, vão desmaiar rapidinho. — Allastor levantou-se, observando os três com os olhos fechados. — Ótimo! Mantenham este ritmo.

 

— Isso… isso aqui é bem cansativo. Até quando teremos que continuar assim? — Trevor indagou ao homem.

 

— Por toda a sua vida. Essa é a maldição de um mestre espadachim.

 

Gemidos de desânimo foram compartilhados pelos alunos.

 

— Como se já não bastasse a aula de Jin.

 

— Pois é! Temos que suprimir nossa mana enquanto mantemos a respiração? Quem foi o louco que pensou nisso?

 

— Mesmo que suprimir a mana seja mais difícil, a respiração somada é loucura.

 

— Escutem. Os melhores fazem isso dormindo; vocês deveriam se concentrar mais. Com o tempo, vocês lutarão enquanto suprimem sua mana e mantêm uma respiração decente. Como Jin já explicou, esconder sua mana pode não parecer muito honrado — e eu concordo, até certo ponto. — Allastor sacou sua espada e jogou-a para cima. — Mas a maioria das pessoas mede seu poder assim; exibir sua quantidade de mana pode ser benéfico só até certo ponto. Esconder sua mana lhe proporciona a incrível arte de não chamar a atenção. — A espada flutuou sobre o ombro direito de Allastor. — Uma espada como essa, flutuando assim, me consome muita mana. Mas uma magia como essa não tem uso em uma batalha de espadachins; como escondo minha mana todo o tempo, nunca se espera algo assim de mim. — O homem fechou os olhos, agarrou o cabo de sua espada, condensou mana e então soltou uma técnica na direção vazia da câmara de treinos. A espada soltou um reflexo de si mesma, cortando o chão e destruindo uma prateleira. — Esta técnica é assim. Como podem ver, não precisei entoar cânticos nem nada parecido, mas isto vem com a experiência. Tarefa de casa de hoje: tentem manter a respiração até enquanto dormem.

 

— Uau! Isso não é vento, então o que é?

 

— É uma imagem da espada, meio que um futuro do golpe, embora eu ache que envolva vento. — Reid respondeu a Trevor.

 

— Ótimo! Hora da aula prática. Valkyrie, você já está apta para treinar com Trevor. — Allastor limpava sua própria bagunça. — Mas não espere muito; proíbo vocês de se segurarem, então você vai perder muitas vezes. — O homem deu um tapinha gentil nas costas de Valkyrie. — Sua evolução é contínua, então continue tentando.

 

Os lábios da garota se transformaram em um contagiante sorriso. Estava esperando por isso por vários dias, desde que Reid a elogiara depois de um treino memorável que tiveram sozinhos. Obviamente, quando se falava de esgrima, Valkyrie não conseguiria lutar contra nenhum dos dois. Trevor treinava com Reid, que, por sua vez, treinava com Allastor e Jin.

 

— Obrigada! Não vou decepcionar. — A garota curvou-se agradecendo.

 

— Sei que não vai. Agora, Trevor, você ganhou o direito de desafiar Reid para um combate real. Vai gastar seu direito agora?

 

— Com certeza!

 

Reid levantou suas sobrancelhas em um breve pensamento confuso. Não perdera para Trevor nesta semana.

 

— Certo. Usarão espadas de treino feitas de metal. Ganha quem tirar a espada do outro. Sem golpes letais; nossa curandeira solicitou-me severamente que assim fosse. — Allastor levantou as mãos, afastando Valkyrie do raio de combate. — Preste atenção em Trevor, Valkyrie. Ele será seu parceiro por algumas semanas.

 

Os garotos já estavam mais do que acostumados com seus duelos. Trevor evoluiu bastante com este treinamento. Reid abraçara a humildade desde que quase perdera uma perna em um de seus duelos. O elfo assumira uma postura centrada, com sua espada elevada à altura de seu ombro; era uma postura de reação. Reid assumira uma postura elevada acima de sua cabeça; iria para a total ofensiva. Allastor chamava esta postura de "Postura dos Tolos". O homem não acreditava em posturas que se dedicavam a finalizar lutas com um único golpe. Allastor sempre fora criticado por enrolar lutas. Na verdade, o homem não as enrolava por ego; queria que o guerreiro que o desafiara morresse mostrando tudo de si.

 

— Comecem!

 

A luta acabara com tanta rapidez que ficou até difícil para Valkyrie raciocinar o que acontecera. A espada de Reid estava caída no chão, junto a uma poça de sangue; ao seu lado, uma mão. Valkyrie entrou em desespero; a mão no chão não pertencia a Reid. Trevor estava sem reação, olhando sem entender para o lugar em que costumava ter sua mão. Olhando para o chão, viu a espada de Reid, sua mão com pequenos espasmos e muito sangue. Quando Reid tomou a iniciativa, atacou para derrubar sua espada em um rápido golpe; temendo isso, o garoto, por instinto, defendeu com sua mão esquerda, levando à situação atual. Só não conseguia entender por que a espada do amigo estava no chão, e não a sua.

 

— Você está bem?! — Reid correu em sua direção com um olhar de culpa na face.

 

— Eu… estou bem, na verdade, nem está doendo. Agradeceria se chamassem a curandeira.

 

Valkyrie correu freneticamente até a porta.

 

— Reid! Venha aqui. — Allastor tinha uma expressão irritada.

 

— Eu não queria cortar a...

 

— Por que desistiu do combate? Largou sua espada instantaneamente.

 

— Eu… eu não pretendia cortar a mão do meu amigo!

 

— Ele não morreria por isso. Estamos em um lugar de simulação com uma curandeira capaz; desde que não cortem os pescoços ou perfurem seu coração, não tem problema. Afinal, é só um treino.

 

— É só um treino?! Como pode falar algo desse jeito, vendo ele ali morrendo lentamente? Ele é meu amigo! — Reid elevou o tom de voz, claramente prestes a perder o controle.

 

— Você não pode fazer algo assim em um combate real. Se fosse qualquer outro espadachim, sua cabeça estaria no chão, não sua espada. Não vacile, Reid! Você não pode morrer.

 

— O que você sabe sobre isso?! E se eu não quiser ser essa droga de "Mestre Espadachim"? Se eu tiver que viver uma vida miserável para ser um pouco melhor que os outros, eu tô fora. — O garoto virou de costas, deu um olhar considerativo à mão de seu amigo e rumou em direção à porta, deixando ambos sozinhos. Passou por Valkyrie, que corria com a curandeira em seu flanco.

 

Enquanto colocava a mão em seu devido lugar, a curandeira soltava frases como "Sinceramente, Allastor." ou "Eu o avisei." Valkyrie observava a cena com certo receio.

 

— Por que Reid saiu?

 

— Estava confuso com a própria força. — Allastor tinha uma expressão indecifrável.

 

— O que realmente aconteceu? — Valkyrie encarava fixamente o homem.

 

Allastor contou tudo para a garota.

 

— Mas você não pode esperar que ele levasse na boa, quero dizer, são amigos desde sempre.

 

— Entendo o lado dele, mas Trevor está bem. Reid não pode agir assim sempre que algo acontecer. Coisas assim são normais com guerreiros capazes. Ele tem um futuro brilhante pela frente; é o melhor aprendiz que já tive. — Allastor soltou um lento suspiro. — Poderia conversar com ele por mim?

 

— Vou tentar.

 

— Olhem! Minha mão voltou ao normal. Que sensação louca!

 

— Você teve sorte de o mestre Reid lhe dar a graça de um corte limpo com uma espada tão cega. — A curandeira estava com um humor bem ruim; odiava ver crianças se machucarem.

 

— Vão indo, preciso ter uma conversa bem longa com nossa querida salva-vidas. — Allastor soltou entre os dentes para os garotos, de um modo que só eles pudessem ouvir.

 

Os dois subiram as longas escadas do subsolo até a parte mais nobre do forte. No meio do caminho, Trevor contava para Valkyrie como era a sensação de perder a mão. Inegavelmente, não era algo que se podia sentir todo dia e ainda rir disso.

 

— Sabe, tecnicamente, você ganhou, não?

 

— Quê? Nem fodendo. Perdi minha mão.

 

— Mas a espada no chão não era sua. Aceite sua vitória.

 

— Bom, eu não vou. Pelo menos pude ver o quanto Reid se importa comigo. — As bochechas do elfo coraram.

 

Subiram até o quarto de Reid, encontrando um Poeira muito dorminhoco deitado na cama do garoto, mas nada de Reid. Era bem previsível; mesmo que Reid gostasse de seu quarto, não era o lugar aonde ia para se acalmar. Os dois garotos seguiram rumo ao lugar preferido do amigo: a horta do castelo.

 

Não era bem impressionante, somente algumas ervas de cozinha usadas diariamente pelos servos do castelo. Reid gostava da sensação de paz que o lugar proporcionava, sendo raramente visitado por alguém que não seus visitantes habituais. Em um canto, debaixo de uma árvore, um garoto estava deitado, olhando para o céu. Pensava em algumas coisas sem chegar a conclusões satisfatórias. Sua respiração seguia um ritmo lento e constante; seu peito subia e descia suavemente. O vento balançava constantemente as folhas das árvores, trazendo consigo uma brisa refrescante. O garoto fechou os olhos, esperando um sono gostoso.

 

— Oi, você quer conversar?

 

Reid abriu os olhos para encontrar dois pares o encarando.

 

— Sinceramente, não.

 

— Então não conversaremos. Chega pro lado, quero um pouco dessa sombra.

 

Ficaram ali os três, sem nada dizer, somente encarando o lindo céu que os agraciava. Passada mais de uma hora, Reid quebrou o silêncio.

 

— Foi mal pela mão.

 

— Tá tranquilo, sei que você não fez de propósito. A curandeira disse que foi bom que você deu um corte limpo.

 

— Me pegou de surpresa você reagir tão rapidamente. Você está melhorando bastante.

 

— Ah, depois de um tempo, seria estranho se eu não o fizesse. — Trevor sorriu para o amigo.

 

— Allastor me contou sobre a conversa que vocês tiveram… — Valkyrie se sentou.

 

Reid continuou deitado.

 

— Você não vai… sabe, desistir, né?

 

— Eu não sei. Ultimamente, vi-me pêgo em pensamentos que não me deixavam discordar do que já pensava. Esse sonho, essa coisa de ser um mestre, não é meu. — Reid espreguiçou-se. — A pior parte é que eu não sei qual sonho é meu de verdade; talvez as consequências de escolhas de merda tenham me trazido até aqui.

 

— Você não precisa pensar demais. Não é divertido treinar?

 

— Bom, é, sim, mas eu não gosto da sensação de machucar meus amigos.

 

— Cara, são coisas que não se tem como evitar. Lembra daquela vez em que eu te tirei um dedo? Eu não queria, mas aconteceu. — Trevor sentara-se.

 

— É. Talvez você tenha razão. — O garoto quietou-se, absorto em pensamentos. — Acho que não vou realmente desistir, mas eu não quero te machucar de novo.

 

— Agradeço a consideração, Reid, mas, se você me subestimar, eu vou ficar com raiva. Quero que leve nossas lutas com a mesma seriedade de sempre; caso contrário, nunca vou evoluir.

 

— Pois é. Agora eu vou treinar contra o Trevor, então, se você parar de lutar com ele, não vou aprender com todo o potencial.

 

— Sinceramente, você vai sofrer bastante nas mãos dele. Tente manter sua mente firme.

 

Valkyrie deu um soquinho no ombro de Reid e levantou-se da posição sentada.

 

— Vou tomar banho. Vejo vocês no jantar.

 

Os dois garotos ficaram ali, deitados.

 

— Você quer me dizer algo? — Reid tinha os olhos fechados, mas conhecia Trevor o suficiente para saber quando seu amigo estava inquieto.

 

— Eu… bom, é que… sabe. — O elfo estava bem nervoso.

 

— Sabe que pode me dizer qualquer coisa.

 

Com um suspiro, o garoto reuniu toda sua coragem.

 

— Olha, eu preciso de um conselho.

 

— Um conselho… imagino que ele não envolva esgrima ou magia. Pode perguntar, quem sabe eu consiga ajudar?

 

— Reid, você é meu melhor amigo, não é?

 

— Acredito que sim.

 

— É sim! Agora… como posso dizer isso? Estou gostando de uma pessoa.

 

— Você? Que surpresa. Que tipo de gostando?

 

— Gostando de verdade.

 

— Oh! Uau.

 

— O que é tão impressionante?!

 

— Sei lá. É que você nunca demonstrou interesse em nenhuma garota… não é uma garota, né?

 

— Erm… bom, você… sabe.

 

— É algum cara que eu conheça?

 

— Calma, vamos esclarecer algumas coisas. Primeiro, eu já senti interesse em garotas também. Só que eu não te falava.

 

— Ah, entendi. Então você gosta da pessoa em si, e não do sexo?

 

— Exato! Se eu sentir algo pela pessoa, é o que importa; quer dizer, até fico confuso. Na verdade, eu já tive uma namorada há algum tempo.

 

— Que legal! Então? Qual era o conselho?

 

— Você tá de boa com isso?

 

— Eu? Você é meu amigo, claro que tô de boa. — Reid deu uma risada provocativa. — Você achou que ia se livrar de mim só com isso? Vai ter que tentar mais.

 

Trevor deu uma risada aliviada.

 

— Obrigado, Reid.

 

— Tá, quem é o cara?

 

— Aspher.

 

— O Aspher não é bem mais velho que você? — Reid lembrava-se vagamente da aparência de Aspher.

 

— Ele tem dezenove e eu tenho dezesseis. Em termos de elfos, isso não é nada.

 

— Olha, eu sei que você já é um adulto e tudo, mas o Aspher parece muito mais vivido que você.

 

— Bom, ele é...

 

— Hum… eu não gosto dessa diferença de idade, mas vocês são elfos. Ele gosta de você?

 

— Na verdade, os sinais que ele mostra são confusos. Raramente conversamos sobre esse tipo de coisa.

 

— Bom, eu tenho catorze anos, não vou ser de grande ajuda.

 

— Na verdade, eu não quero fazer nada no momento, então só de saber que você me apoia já é suficiente.

 

Reid sentou-se, encarando o amigo.

 

— Só tenha certeza primeiro se o que sente é amor, mas também não espere a morte da bezerra.

 

— Certo. Vamos jantar?

 

— Vamos.

 

 

O clima na mesa de jantar estava tão denso quanto uma parede. Jin estava presente e aparentava uma melhora em sua saúde. Allastor estava estranhamente quieto, sem risadas ou piadas. Na mesa, estavam Reid, Trevor, Valkyrie, Cynthia, Maria, Jin e Allastor. Maria entrara de férias hoje, então voltara do internato de sua academia. Uma banda de um boi fora inteiramente assada para este jantar, afinal, era aniversário de Jin. O próprio homem não demonstrava muito entusiasmo na coisa toda. Na verdade, ele não demonstrava muito nessa semana. O olhar que tinha era de alguém muito doente. Sua cicatriz na bochecha voltara e estava bem mais visível que antes.

 

Reid comprara um presente para Jin: um livro chamado "Artes Plásticas e Pensamento Crítico". Tinha uma capa de couro meio surrada, mas Jin ficou verdadeiramente feliz com o presente. Allastor lhe dera um bracelete de ouro-sangrento, que não fora tão bem recebido quanto o livro, mas lhe rendera um abraço. O bracelete devia ser bem caro, já que fora um presente conjunto de Cynthia, Maria e Allastor. Valkyrie e Trevor se juntaram e lhe deram um vaso de cerâmica que compraram de um comerciante local. Era um vaso gracioso, pintado à perfeição com um lago rodeado por uma montanha e com ricos detalhes em um ganso específico. Jin amara o vaso, o que rendeu um sorriso envergonhado dos garotos.

 

Depois de algumas horas, uma das servas da cozinha trouxera um bolo meio modesto para a mesa. O padeiro estava fora da cidade e as empregadas tiveram que se virar nos trinta, tentando fazer um bolo pela primeira vez. Honestamente, estava muitíssimo gostoso: com um recheio de creme e massa branca, era enfeitado com glacê azul. Reid não pôde deixar de notar pequenos abacaxis no recheio.

 

Jin exibia um reconfortante sorriso enquanto conversava com Maria sobre sua vida acadêmica. Reid decidira retirar-se mais cedo. Sem se despedir de ninguém, subiu ao seu quarto e trancou a porta ao passar. Deitando-se em sua cama, percebeu o que estava fazendo. Poeira veio ao seu encontro, ronronava audivelmente. O gato estava engordando com rapidez, o que não era um problema.

 

 

Já na mesa de jantar, Jin conversava com Allastor. As crianças já tinham ido deitar-se; só restavam Cynthia, Jin e Allastor.

 

— Diga-me, Allastor, o que aconteceu?

 

O homem soltou um suspiro.

 

— Reid cortou uma das mãos de Trevor em uma luta de treino. Desistiu da luta.

 

— Sei. Vendo como estavam próximos, posso acreditar que não fora por uma briga.

 

— Conversei com ele, Jin. O garoto tem potencial, mas é... ele lembra você no começo.

 

— Fraco? Sem expectativa de vida?

 

— Com falta de confiança! Ele é muito emotivo.

 

Jin suspirou e levou uma mão até sua testa.

 

— Diga-me, Allastor. Quantos anos tem Reid?

 

— Isso não é...

 

— Diga-me.

 

— Catorze.

 

— Ótimo. Agora, diga-me: com catorze anos, Allastor, o que você estava fazendo?

 

— Eu entendi, tá bom?! É só que eu não consigo ver alguém com tanto potencial se abalar com coisas bobas como essa.

 

— Olha, eu sei que só quer o melhor para Reid. — Jin olhou brevemente para Cynthia. — Mas ele não é seu filho, Allastor. Se não quiser mais treiná-lo, diga.

 

— Somente um idiota desistiria de treinar Reid. Tá bem, vou tentar ser mais compreensivo. É difícil lidar com eles. São crianças muito promissoras.

 

— Que bom que pensa tão bem deles. Enfim, como estão indo as aulas nesta pequena ausência que lhes proporcionei? — Jin comia mais um pedaço de bolo.

 

— Valkyrie começará a treinar com Trevor. Trevor tem melhorado, mas vai ter que se esforçar muito para alcançar Reid. Não gosto disso; Reid está ficando com um ego muito alto. Precisa de alguém do nível dele.

 

— E quem você sugere?

 

— Talvez a esquentadinha.

 

Jin, obviamente, já havia pensado nisso.

 

— Na verdade, eu já tinha pensado nisso. Elise chega em alguns dias.

 

— Ótimo. Presumo que ela vá trazer a espada.

 

— Certamente.

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