Volume I
Capítulo 20: Escolhas
— Ótimo! Levante a guarda, Reid! Trevor, percebeu que ele nunca defende pela esquerda? Aproveite-se disso! Reid, use mais os seus pés. Você pensa demais; faça e depois pense! — Allastor bradava instruções aos garotos, que estavam absortos em um treino de combate livre.
Em um canto, Valkyrie balançava uma espada de ferro comum, coisa que odiava, mas, para que participasse do treinamento, teria que obedecer às condições propostas tanto por Jin quanto por Allastor.
Basicamente, o treinamento consistia em três matérias: Esgrima, Magia e Tática, com os nomes sendo autoexplicativos. Esgrima era ensinada por Allastor no começo das manhãs; Magia era ensinada à tarde por Jin; e Tática era ministrada pelos dois homens. Inúmeros homens pagariam rios de dinheiro por tal treinamento, pagariam até mesmo por uma só aula com os dois, mas aqui estavam os três garotos, recebendo isso de graça.
Quando perguntados, Jin e Allastor responderam ser óbvio que estivessem recebendo tal treino.
— Vocês são o futuro. É lógico que os mais instruídos — Jin apontou para Allastor e para si — repassem o que sabem.
— É! Não é como se fôssemos perder o que já sabemos, mas não se enganem! Conta pra eles, Jin.
— Bom, eu esperava que um tempo já teria se passado até termos esta conversa. — O homem ajeitou-se em sua cadeira. — A Trégua entre Qudu e o Império não vai durar muito.
Os três garotos tiveram reações diferentes. Reid ficou bem surpreso, levando uma das mãos à boca. Valkyrie não demonstrou muito, mesmo que estivesse igualmente surpresa. Trevor, no entanto, deu de ombros. Aspher já lhe tinha avisado sobre o Império.
Jin deu uma leve tossida. — Allastor e eu já prevíamos isto. Então, estamos tomando providências. Vocês três são o que gostamos de chamar de plano reserva. Maria se negou, antes que nos perguntem. — O homem deu uma leve risada, apontando para Allastor. O gigante confirmou. — Não queremos que vocês assumam a cidade, mas sim que lutem contra as garras do Império. Deixem que alguém seja o rei e ajam pelas sombras.
— Deixa eu ver se entendi… vocês estão insinuando que o Império vai tentar matar vocês, não? — Reid levantou a mão, com o rosto impassível.
Valkyrie e Trevor não demonstraram choque, indicando que chegaram à mesma conclusão.
— Bom. Sim e não.
— Pois é. Eles vão tentar, mas os únicos neste continente que conseguem nos matar estão aqui nesta sala. — Allastor concluiu a fala de Jin.
Trevor achou que estavam falando deles próprios, mas decidiu não indicar o ego inflado de seus mestres.
— E Maria? Ela ainda será a rainha, não? — A garota de cabelos de fogo indagou.
— Bom… não. Minha nobre filha decidiu que, se algo fosse tentado contra nossas vidas, ela faria de sua vida uma constante vingança.
— Do modo que falam, é quase como se tivessem certeza de que não vão estar aqui… — O elfo deixou escapar.
Reid sabia por que tomaram a abordagem. Na verdade, já tinha isso em mente há muito tempo. Jin era, provavelmente, o mago mais poderoso do mundo; Allastor, o espadachim. Suas vidas estavam em constante perigo. Obviamente, não era um qualquer que desafiasse os homens. Se algo acontecesse — e, pelo modo que estavam agindo, iria acontecer —, seria grande; bem grande.
— Valkyrie! Mais duzentas; coloque seu coração nesses balanços! — A instrução de Allastor fora recebida com pesar, mas não ignorada.
Quanto ao combate em curso, Reid estava muitos níveis acima de Trevor, graças às semanas de prática que tivera logo após voltar para Qudu. Era uma luta quase unilateral, com Reid por vezes destruindo a espada de madeira de Trevor. Algumas vezes, Allastor via Reid crescer com ego, então rapidamente o colocava em seu lugar — não com violência, mas sim com instruções para Trevor. Nessas vezes, Trevor conseguia igualar a luta.
O placar de treino estava, agora, quarenta e sete a cinco. Você imaginaria que, com um placar desses, o jovem Trevor perderia a vontade de lutar, mas estaria completamente enganado. O elfo nunca lutara com um Reid tão bom; era animador. Em sua cabeça, ganhara cinco vezes contra o seu melhor amigo, que tinha mais futuro que ele em esgrima; não perdera quarenta vezes. Reid, por sua vez, estava gostando de recuperar um pouco de seu orgulho, após ser tantas vezes humilhado por Jin e Allastor. O amigo parecia se mover em câmera lenta e estava sempre deixando a guarda exposta. Não gostava, mas, ocasionalmente, via-se com ego para dar e vender. Mas ei: um homem tem que ter seu orgulho.
— Reid! Largue a espada, apenas desvie. Trevor! Não deixe fácil para ele.
O garoto lançou instantaneamente a espada de treino para um canto da sala, fazendo Trevor congelar brevemente até entender as ordens recebidas. Allastor fazia isso recorrentemente. "Em batalhas de verdade, por vezes sua arma não estará com você; fique vivo até lá."
O trabalho de pés de Reid melhorava constantemente. De primeira, o garoto achara que o homem o odiava, mas, com o tempo, tomou gosto pela coisa. Trevor atacava com tudo de si, acertando ocasionalmente as canelas de Reid com um barulho engraçado. Na maior parte das vezes, Reid dançava com o amigo, desviando de golpes e mais golpes. Trevor não deixava a raiva subir à cabeça, mantendo o foco no que fora instruído: acertar Reid.
Valkyrie não tinha nível para duelar com os garotos, afinal, nunca sequer tinha se interessado por espadas. Em seus treinos, passava as horas invejando o combate dos garotos enquanto balançava sua espada. Allastor parecia não se importar, mas, se não gostasse do que via, Valkyrie balançaria a espada mais tantas vezes.
No entanto, nas aulas de magia, Reid era o que menos tinha resultados. Se comparado a seus amigos, diria que andava a passos curtos. Valkyrie era a melhor do trio. Sua magia de fogo evoluía constantemente. Em questão de ranques, Reid era o único que ainda não chegara ao nível intermediário. Trevor tinha um tipo próprio de magia: bi-elemental, de natureza e água. Reid seguia pelo caminho de fogo, com um potencial em eletricidade.
Jin dava suas aulas de maneira prática, não se limitando à escrita. No primeiro dia de aulas, todos foram testados para ver que rumo o homem poderia seguir. Reid sabia algumas magias básicas, como a bola de fogo, brasas e uma espécie de esfera incandescente que servia como fonte de luz; o garoto recebeu elogios pela rapidez de seus cânticos, mas, fora isso, nada era impressionante. Valkyrie, no entanto, sabia essas magias e mais; seu maior trunfo era a magia de nível avançado Chuva de Chamas, uma variante do feitiço de água Dilúvio. Na verdade, as bases dos dois eram iguais, mudando só o cântico. Trevor estava explorando seus dois elementos; era o com maior teto dos três, mas encontrava dificuldades quanto à magia de água. O Dilúvio era um feitiço de nível intermediário, mas tinha um processo complicado para aprendizes. Primeiro, você precisava reunir mana em ambas as mãos, apontar para o céu, entoar seu cântico, condensar a mana, espalhar pelo céu e liberar. O mais importante era o passo de condensar a mana; se não fosse bem feito, você acabaria com uma pequena chuva no lugar do dilúvio.
O professor evitava usar magia perto dos garotos, mas, volta e meia, era necessário que o fizesse, tanto para demonstrar fundamentos quanto para ensinar em si. Até mesmo Allastor sabia algumas magias, mas estas eram todas relacionadas a suporte em combate, lançando-as ocasionalmente a si mesmo.
No momento, o trio estava sentado em uma sala não muito grande do forte Real. Jin e Allastor estavam em pé diante de uma mesa com uma maquete de um campo de batalha. Diversos bonecos estavam postos na mesa; alguns se assemelhavam a magos, e a maioria era de soldados. Frente a eles estava um grupo de três pessoas: bonecos de Valkyrie, Reid e Trevor. Todos os bonecos pareciam vivos, mexiam-se e faziam movimentos de respiração; alguns até afiavam pequenas espadas que lembravam palitos de dente. Quem controlava os bonecos era Jin, com sua magia; todos os duzentos.
— Então, quem poderia me dizer qual a parte mais importante de uma guerra?
Reid levantou a mão. — O número de soldados.
— Certo. Alguém mais?
— A capacidade dos líderes. — Valkyrie respondeu prontamente.
— Certo. E você, Trevor?
O garoto quietou-se, pensativo. Qual era a coisa mais importante em uma guerra? — A moral das tropas?
— Certo. Primeiro, não existe uma resposta certa, então gostei do que ouvi. Sim, o mais básico de uma guerra é o tamanho dos exércitos; guerras não se lutam sem homens, e isso está diretamente ligado à capacidade dos seus líderes. Nenhum soldado daria sua vida por um tolo ou por um idiota. — O homem moveu os três bonecos líderes na maquete para marcharem bobamente, enquanto eram vaiados por seus soldados. — A moral das tropas é igualmente importante. Antes de tudo, soldados são pessoas, e pessoas são complexas; se estão animadas para lutar uma guerra pelo simples fato de lutar, então algo está errado. Precisam de um motivo, uma convicção concreta ou lúdica o suficiente para que até mesmo o pensamento de morrer por ela valha a pena. — Novamente, ele voltou-se para a maquete, agora fazendo os líderes darem uma espécie de discurso para suas tropas, gerando assim uma gigantesca onda de aprovação por meio de socos ao ar e vivas. — Nossas aulas vão ter o objetivo de fazer com que as pessoas achem que suas vidas têm mais valor que a delas, mas não por serem reis ou por terem dinheiro. Entendem?
Todos os três assentiram. Era inegável que tudo daquela aula era impressionante, desde a maquete até o modo como os dois homens falavam. Experiência era algo que nem todos os generais de guerra tinham, pois muitos não chegavam a viver depois de suas missões.
— Bom, tudo o que Jin falou é verdade. Não quero que achem que me tornei um rei por acaso. Antes de tudo, eu era um soldado comum, jogando-me em batalhas sem parar. Tenho que admitir que não sabia bem pelo que lutava naquela época. Acho que só gostava da sensação de lutar contra a morte. Hoje em dia, eu varreria reinos por minha família sem nenhum peso em meu coração.
Fazendo instantaneamente um boneco parecido com Allastor, Jin jogou-o na maquete. Primeiro, todos os soldados ficaram com medo. O boneco de Allastor era proporcionalmente tão alto quanto ele, e musculoso também. Depois de alguns segundos, o boneco deu um berro e sacou sua espada para cima, gerando uma onda de vivas e aprovação.
— Allastor é um caso à parte. Os soldados orbitam em volta dele, pois, além de ser ridiculamente forte, é carismático. As pessoas ficam bem mais confiantes se tiverem alguém como Allastor do seu lado do campo de batalha. Olhem para o lado inimigo. — Um bonequinho que parecia um batedor voltava correndo para seu acampamento. Com uma careta, ele contou quem vira do outro lado, fazendo com que quase imediatamente a moral das tropas baixasse, incluindo a de seus líderes. — Eu mesmo já pude ver a reação das tropas ao terem Allastor do seu lado. A parte de ele ser um rei deve ter algo a ver com o sentimento de inclusão dos plebeus. "Oh, nosso rei está lutando na linha de frente, por que eu não lutaria?" Nesse sentido, não se comparem a ele.
No mesmo momento, o bonequinho de Allastor jogou-se sozinho sobre o campo de batalha, invadindo o acampamento inimigo e gerando uma onda de caos. O verdadeiro Allastor tinha brilhos nos olhos, e Jin levava uma mão à têmpora.
— Allastor está vivo, então podem imaginar como situações como essa se resolveram. Com algum tempo, a informação de que um rei se lançava a assaltos sozinho se espalhou. Então, o que acham que Allastor fez?
— Começou a levar homens com ele.
— Parou?
— Ele continuou, mas levava um mago com ele…
Jin voltou sua atenção para a garota ruiva. — Sim. Vejo que você já ouviu as histórias. Allastor conseguiu convencer um mago estúpido a se jogar no meio de um campo de batalha. Um mago tão estúpido que me surpreende que ambos não tenham morrido.
— Ele não era tão estúpido. Salvou minha vida tantas vezes que nem consigo me lembrar de todas. E veja onde essa estupidez o trouxe. Estamos aqui, sentados e ensinando. — Allastor deu uma pequena risada.
— Eu nunca soube que o mago das histórias era você, Jin…
O homem criou outro boneco, jogando-o na maquete. Esta versão de Jin era muito diferente: seus cabelos estavam muito mais longos, e ele andava curvado, com um ar de tristeza. Assim que viu a figura de Allastor lhe dando uma gargalhada, a figura pareceu melhorar e até ria junto.
— Bom, creio que na época eu estava tentando fazer um nome, mas não pegou. — O homem deu de ombros. — Agora vamos começar a aula.
A coisa toda durou umas três horas, deixando o cérebro dos garotos doendo tanto quanto seus músculos. Reid não conseguia parar de admirar os homens; inegavelmente, sabiam muito. E não eram de todo mal ensinando; perguntavam constantemente se os garotos estavam entendendo.
Valkyrie fizera do forte sua casa; já Trevor… bom, ele estava morando com o irmão de Valkyrie, Aspher. O garoto disse que, quando mencionou que procuraria um aluguel barato no bairro residencial, o homem se sentiu insultado, obrigando-o a morar em sua casa, e que, se alguém fosse contra, teria que passar por ele. Reid não sabia bem que tipo de pessoa Aspher era. Sabia, no entanto, que era o irmão mais velho de Valkyrie e uma figura muito respeitada no reino. Trevor parecia muito bem, e, depois de sair de casa, fora o homem quem o tirara do poço. Reid fez uma nota mental: deveria agradecer a Aspher.
Cynthia mandara que os empregados preparassem um dos quartos de hóspedes para Valkyrie. A garota vivia tanto pela propriedade que parecia óbvio que ganhasse um. Seu quarto rapidamente assumira sua personalidade. Era bem decorado, e a cor rosa era vista muitas vezes, fosse pelos tapetes ou cortinas, ou até mesmo pelo jogo de lençóis que trouxera de casa. Poeira era constantemente visto dormindo naquela cama.
— Acho que vou comprar uma espada nova.
— Verdade. Você não tem uma, né? — Valkyrie estava deitada em sua cama, enquanto Reid deitara com a cabeça na direção oposta.
— Não. Espadas são bem caras, então nunca me preocupei em adquirir uma antes. Esses dias, Allastor disse que sua espada é uma extensão de seus braços. Isso me deixou pensando se deveria comprar uma.
— Hum… bom, Allastor deve saber quem faz boas espadas, e, se você mencionar ele, pode conseguir um preço bom.
— Tem razão. — O garoto sentou-se, olhando para a garota. — Você já deve saber, mas eu e Trevor não queremos saber dessa coisa de ser rei ou algo do tipo. E você?
Valkyrie também se sentou. — Eu quero. — Ela disse sem hesitar.
— Então nós vamos te ajudar.
Aquilo pegou a garota de surpresa. Achou que seria repreendida, mas sempre sonhara em ser rainha. Desde o começo de sua vida, Valkyrie se sentia impotente com a posição que tinha.
— Vocês não precisam fazer isso…
— Não precisamos, mas vamos.
Reid ficou ali, olhando nos olhos de Valkyrie. O garoto nunca se viu como um rei; achava que atraía atenção demais. Trevor disse que, se pudesse ser um ministro, estaria de bom tamanho; então, se o sonho de sua amiga fosse se tornar uma rainha, eles a ajudariam de bom grado. Duvidava que fossem conseguir tão facilmente, mas poderiam tentar.
— Obrigada… — Uma lágrima escorreu dos lindos olhos da garota. — Obrigada de verdade. — E outra, outra e depois várias.
— Quê?! Pra que você tá chorando? — Reid ficou severamente confuso; achou que estivesse fazendo algo legal… um clique veio à sua mente. Não eram lágrimas de tristeza. Eram de felicidade, tais quais as que ele mesmo deixou cair quando ganhou sua irmã. — Tá… tá tudo bem. Eu estou aqui. — O garoto passou uma mão ao redor da garota, puxando-a para um abraço.
Com um pequeno esforço para parar de chorar, Valkyrie olhou nos olhos do garoto. — Você melhorou nisso. — Então sorriu, apertando ainda mais o abraço. Ficaram ali por algum tempo. — Sabe, você nunca disse qual é o seu sonho. Se importa de me contar?
— Eu… eu sempre quis comprar uma casa pra minha mãe, comprar roupas novas para minha irmã, levá-las a um restaurante que tinha no bairro rico. — O garoto parou de falar. — Hoje eu só quero enterrá-las em um cemitério digno, sem ser em uma vala. Elas não merecem isso.
Valkyrie, de algum modo, apertou ainda mais o abraço, soluçando baixinho, enquanto quase se fundia com o garoto. Reid só aceitou tudo; não conseguia mais chorar. Ficou ali parado, sem uma expressão digna. Julgava-se muito por isso, mas, sempre que se lembrava de sua família, as lágrimas não vinham, mesmo que o sentimento que elas traziam o acompanhasse.
— Você não precisa se culpar por não chorar. — Valkyrie disse, soltando-se do abraço depois de longos minutos.
— Não? Eu… pra falar a verdade, nem sei mais o que sinto. É como se uma adaga bem fina atravessasse meu coração, mas minha mente não encontra uma válvula de escape. Ela apenas… aceita, e eu fico sem reação, enquanto espero que ela se vá.
— Isso é um sinal de que você ainda sente a perda. Eu juro que vou te ajudar com o seu sonho. Vamos encontrar um lugar lindo para elas.
— Obrigado.
Os dois sorriram.
— Agora, seria bom dormirmos. Tente não parecer muito feliz saindo do quarto de uma dama tão tarde… — A garota deu um pequeno sorriso. — As pessoas podem criar teorias.
— Acho que já criam. Vejo você amanhã, nobre dama. — O garoto fez uma pequena reverência pomposa, seguida de uma pequena risada.
Reid saiu do quarto, fechando a porta enquanto passava. O corredor estava mortalmente quieto, o que era lógico, já que era madrugada. Dirigindo-se para seus aposentos, sentia algo estranho no ar, mas não sabia dizer o quê.
Jin estava em um canto, mortalmente parado; não queria que Reid pensasse que o homem o espionava ou algo do tipo. Simplesmente estava passando e acabou escutando a conversa dos garotos.
— Eu sou um lixo. — O homem falou tão baixo quanto pôde. Felizmente, Reid não notara sua presença, graças à sua capacidade de suprimir a mana. — Todos esses anos e eu estive preso em minha própria mente. Eu deveria estar lá.
Foi uma noite bem longa para o homem.
Reid entrou em seu quarto, trancou a porta, apagou as velas e jogou-se em sua cama. "Eu preciso mesmo ficar mais forte?" Não tinha ambições convictas como Valkyrie e Trevor, que exigiriam que ficasse mais forte. Era certo dizer que não sonhava em ser Allastor ou Jin; logicamente os respeitava, mas não era idolatria.
Fora uma noite bem curta para o garoto: sem sonhos ou pesadelos, um breve saltar de tempo.
Acordando com uma mente mais limpa, o garoto tomou um banho congelante, escovou os dentes e despediu-se dos primeiros fios de barba que lhe agraciavam; depois de uma conversa com Maria, percebeu que eram realmente ridículos. Usando uma navalha, levou menos de dez segundos.
Descendo para tomar seu café matinal, viu que Valkyrie já estava de pé, conversando com Cynthia. Parecia uma conversa normal, sem muitas expressões. Valkyrie se ofereceu para pagar por sua estadia, mas fora quase um insulto para a rainha. Aparentemente, Bjorn e Cynthia eram uns dos poucos cientes do segredo, fora os alunos e professores. Desde o início do treinamento, Cynthia vinha agindo estranha com os garotos, principalmente com Reid. Por vezes, via-se sendo perguntado se estava feliz ou se não tinha outra vontade. Também havia o olhar da mulher, quase de pena e despedida. Reid não entendia muito bem o motivo, mas imaginou que fosse o medo da mulher de ficar com uma casa mais vazia depois do treinamento.
— Bom dia. — Todos sentados à mesa acenaram com a cabeça para o garoto. Algo estava estranho; faltava alguém…
— Sou só eu ou essa mesa está mais vazia? — Valkyrie soltou.
— Jin ainda não desceu. As empregadas que cuidam da lavanderia disseram que, quando entraram no quarto dele, o homem estava com uma cara horrível. Disseram sentir até cheiro de bebida. — Allastor disse ao grupo.
— Bebida e Jin? Não são palavras que combinam. — Cynthia complementou.
— Ele tem uma mente muito forte para quebrar seu código assim; vou falar com ele. Ah, se Aspher Haruto estivesse vivo! Daria sua fortuna para ver Jin bebendo. — O grande homem levantou-se da mesa e saiu.
— Aspher bebia muito? — Reid perguntou a ninguém em particular.
— Pelo contrário. O homem odiou a bebida por toda a vida, mas, no final, abraçou-a de peito aberto. Dizem que bebeu até a morte. Por isso Jin odeia tanto a bebida. Depois de uma vida inteira, Aspher ficou viciado em poucos meses. — Trevor explicou, baseando-se nas histórias que lia e também no conhecimento que Aspher Vyke compartilhara. Trevor chegara mais cedo, pois estava animado para convidar os amigos.
— Agora faz sentido por que ele só bebe suco nas festas. — Valkyrie teve uma realização. — Quais os planos para nosso dia de folga?
— Aspher quer me levar a uma cachoeira que ele descobriu; estão a fim de ir conosco? — Trevor perguntou animado.
— Eu topo! Amo nadar. — A garota bradou com alegria no rosto.
— Hoje não vai dar. Combinei de treinar com a Lotus. — Reid coçou a cabeça. Definitivamente gostava de nadar, mas fizera uma promessa.
— Aquela Lotus? Cara, eu já te disse que ela é problema. — O elfo soltou sem rodeios.
— Só porque ela é do Império não quer dizer que devemos julgar cada um igualmente. Além disso, é só um treino.
Valkyrie ficava mortalmente quieta sempre que Lotus era citada. Não confiava nem um pouco na garota; parecia sempre estar dizendo o que os outros queriam ouvir.
— Então se divirta. Vamos, Trevor, temos que ir a uma cachoeira. — A garota puxou o elfo pela gola.
— Olha, Reid, tome cuidado; não revele muito para a garota. Pode não ser o caso, mas o Império não é flor que se cheire. — Cynthia estava sentada, encarando o garoto.
— Eu sei, vou lembrar disso.
Não levou muito tempo para chegar até a praça da cidade; caminhando lentamente, levava no máximo cinco minutos do forte até ali. Reid carregava consigo duas espadas de treinamento e nada mais. Vestia trajes pretos feitos de peles de ratos-moleiros, uma espécie predominante em um vilarejo ao oeste. Não era luxuoso, mas fora um presente de Trevor. Na praça, Lotus estava sentada em um dos bancos. A praça em si era a definição da palavra "tranquila". Não era fabulosa, mas tinha diversas árvores frutíferas e alguns bancos de pedra.
— Olha só, um sobretudo! Alguém está querendo se exibir. — Soltou a garota quando bateu os olhos em Reid. — Se tivesse me avisado que iríamos mostrar nosso jogo, eu viria mais bonitinha. — Apontou para seu uniforme militar padronizado. — Bom, acho que a coisa mais bonitinha que tenho é um par de brincos que ganhei.
— Mas suas orelhas não são furadas.
— Pois é, né? — A garota caiu na gargalhada.
A risada dela era contagiante, fazendo com que o garoto também não parasse de rir.
— Mas as suas são, né? Quando você as furou? Doeu muito? Você furou sozinho? Me ajuda a furar as minhas?
— Eu… calma. — O garoto ficou sobrecarregado com as perguntas. — Eu furei sozinho, foi de boa. Posso te ajudar. — Reid tirou o sobretudo, revelando a espada que trouxera. — Hoje vamos treinar.
— Que fofo, você acha que sou fraca, por isso trouxe uma espada de madeira…
— Não, calma. Eu só tenho espadas de treino. — O garoto coçou a cabeça, meio envergonhado.
— Pfft! Hahaha, como assim?! — Pequenas gotas de lágrimas corriam pelos lindos olhos da garota.
— Bom, a maioria dos plebeus nunca sequer encostou em uma espada de verdade. Não é como se pudessem, também. Aventureiros de nível baixo têm que se contentar com cutelos ou machados farpados.
— Bom, você tem razão, mas você não é um plebeu. E, julgando pela sua proximidade com o rei, achei que já tivesse ganhado uma espada.
— Bom, eu nunca pedi uma, na verdade. Você já conheceu o rei do Império?
A garota desviou o olhar. — Bom… não temos um rei no Império. Somos uma democracia, então cada distrito tem seu líder. Nunca conheci o líder da minha área; Logan nunca deixou. — Os olhares não se encontravam.
Reid levou uma das mãos ao rosto de Lotus. A garota ficou sem cor.
— Olhe nos meus olhos quando conversarmos; você desvia muito os seus olhares. — Aquilo pegou até mesmo Reid de surpresa. O que diabos ele estava pensando? Claro, os olhos de Lotus eram lindos, mas que porra de atitude era essa? O garoto ficou sem reação por algum tempo, encarando a garota, que tinha um rosto corado.
— Tá… bom. Então me olhe nos olhos também; gosto dos seus, eles são sempre bem firmes. Os seus olhares, digo. — Lotus imitou a atitude de Reid, levando uma das mãos ao rosto do garoto. — A gente tá perdendo o foco.
— Sim, vamos treinar!
Os dois foram para um canteiro vazio no fundo da praça; diversas crianças gostavam de brincar de duelar ali, e era um lugar decente para uma arena de duelos improvisada.
— Eu não tenho uma espada de treinos, só uma de verdade. — Um sorriso meio desanimado pairava no rosto da garota.
— Não se preocupe, eu tenho duas. Pega. — Uma espada foi lançada ao ar, caindo na mão da garota.
— Uau, que conveniente. — Podia-se ouvir algo cortando o ar enquanto Lotus balançava a espada.
— Então, sem querer ser presunçoso, vamos definir as regras.
— Presunçoso, você diz… tudo bem, então. Primeira regra: nada de golpes baixos.
— Certo. Segunda regra: sem aura de batalha, somente técnica pura com a lâmina.
— Oho! Gostei dessa. Só quero que não fique bravo comigo quando eu te derrotar. — Um sorriso malicioso percorria os lábios rosados da garota.
— Penso o mesmo, mas não vou pegar leve com você. — Uma sensação de excitação preenchia o peito de Reid. Sentia aquilo sempre que ganhava o direito de desafiar Jin para um duelo.
Com um passo para o lado, ambos sacaram suas espadas de madeira. Encarando-se, Reid não podia deixar de notar que Lotus ficava ainda mais fofa quando estava concentrada; mordia os lábios de leve. Será que ele mesmo fazia algo do tipo em suas lutas? Enquanto pensava nisso, Lotus avançou com extrema velocidade, balançando sua lâmina na vertical em direção ao seu pescoço. Tendo tempo só para erguer a lâmina e bloquear, Reid recebeu um recuo bem grande no corpo.
— Você fica fofinho enquanto avalia seu oponente!
A garota avançou mais uma vez, dessa vez atacando diversas vezes seguidas, deixando espaço somente para o garoto se esquivar. Um corte por baixo, pela direita, seguido de outro instantaneamente, e então um pela esquerda. No último, a garota esticou a espada até o máximo que pôde, visando pegar o olho direito do garoto.
— Você é boa. — Não era nada comparada a Jin ou Allastor, mas estava a níveis astronômicos de Trevor. Sem perceber, Reid começou a gostar de tudo aquilo, sorrindo enquanto se esquivava dos golpes.
Dando um passo para trás, Reid levantou sua espada; carregando um golpe vertical, fez a finta e atacou pela direita. — Bam! — Aquilo pegara a garota de surpresa; atingida no flanco direito, ela recuou rapidamente.
— Ei! Isso não vale! Você luta como um covarde. — Lotus tinha um biquinho.
— Quê?! Como assim? Foi só uma finta.
— Fintas são coisas de covardes!
Reid tinha uma cara perplexa. Como assim? Fintas não eram coisas de covardes; não por essas bandas, pelo menos.
— Lotus… pode ser que você seja uma má perdedora? — Um sorriso malicioso surgiu em seu rosto.
— Eu… não sou não! Você é um digníssimo covarde!
Dessa vez, foi Reid quem tomou a iniciativa. Jogando-se em direção a Lotus, não esperava que fosse pegá-la de surpresa. Dito e feito: a garota já tinha a guarda fechada, esperando o golpe. Reid levantou a espada pela esquerda, fingiu que daria outra finta, fazendo a garota se defender por baixo, e atacou pela esquerda. — Bah! — A garota ajoelhou-se, processando o golpe.
Lágrimas minúsculas podiam ser vistas nos cantos dos olhos da garota. — Você é mau.
Reid ajoelhou-se ao lado da garota e fez carinho na sua cabeça; ela pareceu não se incomodar com o ato.
— Você quer que eu pare de usar fintas?
Lotus olhou nos olhos de Reid; olhos marejados o encontraram. Parecia estar se esforçando bastante para tolerar a dor.
— Não. Preciso aprender. — Disse com um biquinho. — E me desculpa… por te chamar de covarde. Nossa esgrima não tem essas coisas. — A garota desviou o olhar antes de dizer a última parte.
— Tá doendo, né?
— Muito. — O biquinho aumentou ainda mais. — Você não tem dó de mim? — Uma voz manhosa foi assumida.
— Tenho um pouco, mas, se eu não te levasse a sério, você me odiaria.
— Você… tem razão.
— Vamos parar por aqui e continuar outro dia. — Reid ofereceu uma mão à garota.
Lotus aceitou, levantando-se.
— Na próxima, você tá fodido.
— Estou ansioso por isso. — Reid sorriu maliciosamente.
— Tá a fim de tomar um sorvete? Logan nos deu folga hoje. — A garota estava segurando o ombro de Reid.
— Vamos, gosto de sorvete.
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