Volume I
Capítulo 19: Jantares e Dificuldades
Trevor andava pelas ruas sem um sentido certo; pensava em nada e em tudo. Tinha a aparência de um órfão de guerra, uma criança assolada pela fome e a perda repentina de tudo que um dia chamou de lar. A espada nas mãos dava o toque final. Vagou por algumas horas pela cidade que não dormia. Diversos comerciantes gritavam pelas ruas, aventureiros iam e voltavam de seus afazeres, famílias passeavam pelo setor comercial; no entanto, ninguém se atrevia a perguntar o que o garoto tinha. Era comum que jovens no mesmo estado de Trevor rondassem por Qudu, que era uma cidade com base forte em suas guildas de aventureiros.
— Ei, você é amigo de Valkyrie, não?
Trevor virou-se para a voz, não a reconhecendo.
Era um rapaz alto, com os cabelos tão verdes quanto uma esmeralda de qualidade. A julgar por sua postura, era um aventureiro. E por suas cicatrizes, um bem experiente.
— Eu já te vi lá em casa. — O homem portava uma lança de aparência cara e vestia partes de uma armadura de cota de malha pálida. Suas expressões lembravam as de Valkyrie. — O que aconteceu com você? Você tá um caco.
— Eu... não sei. — Trevor estava lutando para encontrar palavras.
— Você tem o olhar de quem acabou de tomar uma decisão. Vamos, você precisa de um banho. — O homem agarrou a mão livre de Trevor, levando-o consigo.
—
Já dentro do portão da propriedade, o garoto nada mais pôde fazer senão seguir o ritmo. Andaram por longos minutos, para onde quer que fossem. Depois de algum tempo, Trevor deu-se conta de que estavam entrando em algum lugar.
— Boa noite, senhor. Que alegria ver que retorna bem! Como foram as missões? Vejo que adquiriu um escravo — um elfo ainda por cima! — Disse uma criada para o rapaz que ainda segurava a mão de Trevor.
— Quê? Não, eu o encontrei no setor comercial; acho que é amigo de minha irmã. Onde Valkyrie está? — O rapaz forçara Trevor a sentar-se em uma poltrona muito confortável.
— A senhorita não está em casa; aparentemente, tomou gosto pelo forte do Rei.
— A Valkyrie? No forte? Ela não larga o osso. — O rapaz levou a mão direita à têmpora. — Enfim, dê um banho no garoto e o alimente. Parece que tem passado fome.
— Como desejar, senhor.
— Eu não quero… sem fome…
— Você não está em condições de decidir algo. Andem. — O rapaz apontou para as criadas.
O banho foi longo. Duas criadas cuidavam de Trevor, por vezes soltando um elogio que mais parecia uma ofensa, como: 'Tá vendo? Ele ainda é bonito se você limpar bem' ou 'Agora você está ficando bonito'.
Trevor ganhou roupas novas e foi ordenado que esperasse pelo jantar. Nunca reparara de verdade na casa de Valkyrie. Era mais bonita até que a de Allastor.
Talvez fossem os gostos diferentes das duas famílias, mas o forte passava uma sensação de conforto que se sente na casa dos avós em férias não tão memoráveis, mas que você se lembra por anos. Parte da casa de Valkyrie fora decorada por seu pai, Bjorn. O homem gostava de exibir troféus de guerra, datados da época de que sentia mais saudades. Na maior sala da mansão, uma espada era exibida ao centro, em uma espécie de caixão de vidro ornamentado. A espada, outrora pertencente ao grandioso Aspher Haruto, pai de ambos Jin e Bjorn, era agora o maior tesouro da mansão. Sendo tão poderosa nas mãos do grande general, foi passada às mãos de Bjorn logo após sua morte.
O outro irmão não demonstrou interesse em quase nada do testamento de seu pai, o que fez com que a coleção de Bjorn fosse gigantesca. Teoricamente, a Fênix de seu pai lhe pertencia, mas, desde a morte do general, a fiel ave não renascera de seu poleiro, sendo assim deixada em paz para descansar no mesmo lugar que seu valoroso dono.
— Você fica melhor quando toma banho. — O homem encontrou Trevor encarando a gigantesca coleção de Bjorn.
— E você sem a armadura e a lança.
— É. Imagino que sim. Não era bem a profissão que eu queria ter, mas é a que quero agora. Por que você estava rondando como se tivesse visto sua família ser morta?
— Eu não sei. Acho que parte de tudo foi a fome. Por que me ajudou?
— Você me lembra minha mãe. Acho que, quando te vi lá, sem rumo, pensei que a tinha encontrado.
— Sua mãe é uma elfa? Achei que vocês fossem todos humanos.
— Sou meio-elfo; meus irmãos, não. — O homem apontou para as orelhas pontudas. — Sou o filho de um relacionamento condenado. Minha mãe sumiu logo depois do meu nascimento; meu pai ficou abalado, mas me criou igual aos outros.
— Sinto muito por sua mãe.
— Por que sentiria? Prefiro acreditar que ela está viva; desse modo, minha vida é menos pior.
Trevor encarou o homem por algum tempo; não percebera até agora que era um meio-elfo.
— Está sentindo nojo? — O homem perguntou, apontando para seu rosto.
— Quê?! Não. Eu só… nunca vi um meio-elfo antes; você é igualzinho a mim. — O garoto andou em volta do homem.
— Bom, eu diria que sim, mas sinto que viverei metade do tempo. — O homem mostrou as palmas das mãos, que estavam grossas de calos. — E que minha magia é medíocre; tive que me agarrar à única coisa que me sobrara: o esforço. A lança me tratou melhor que a magia.
— Pelo que Valkyrie tinha me dito, sua casa valoriza isso, não?
— Não posso negar isso. Tenho regalias que nem o mais talentoso dos meus irmãos possui. Meu pai é um homem justo. Um homem justo que sofreu muito na vida. Não o julgo. Se eu tivesse que criar tantos filhos, também falharia em alguns pontos; surpreende-me que ele ainda continue como general de guerra. — O homem agarrou a mão de Trevor, pegando-o de surpresa. — Suas mãos mostram que você treina; bastante esforço foi colocado. Imagino que seja uma espada.
Trevor corou levemente com a inusitada atitude. Olhando para as próprias mãos, percebeu que o homem não mentia; até agora, havia dado tudo de si. Ser reconhecido era ótimo.
— Perdão! Eu não quis te assustar. — O homem recuou, largando as mãos de Trevor.
— Não me assustou, eu só… fiquei surpreso. Sim, é uma espada, aquela que eu carregava. Estive treinando por algum tempo.
O homem encarou Trevor no fundo dos olhos.
— Você já matou.
Era uma afirmação; o homem piscou e voltou sua atenção para a coleção.
— Como você sabe?
— Consigo perceber. Aquela inocência tola no seu olhar já não está presente. Não perguntarei sobre, mas sinto muito por ter manchado sua alma.
— Ela não é tola.
— Como?
— Não é uma inocência tola, sei que você também sente falta dela.
O homem ficou sem palavras, contemplando por muito mais tempo do que deveria a coleção de seu pai.
— Está vendo essa lança na parede? — O homem apontou para uma belíssima lança feita de adamantino anão puro, que estava pendurada na parede próxima a uma armadura de aparência surrada. — Meu avô matou mais de trezentos homens com ela. Onde está meu avô agora? A lança continua aqui.
— Não entendi…
— Não é uma inocência tola, você tem razão. Invejo aqueles que possuem poucas preocupações na vida e não precisam manchá-la. É isso que uma criança é. — O homem avançou em direção à lança. — Meu pai ofereceu-me esta lança com a condição de que eu mate a traidora Aline, a mesma que fugiu para o outro continente. Dizem que Jin teve piedade dela duas vezes desde a traição. Teve-a em suas mãos e demonstrou mais do que aquela traidora nojenta jamais sentiu.
— Você tem muito peso no coração. Não gosto disso.
O homem de aparência surrada olhou novamente para o garoto.
— Você não me olha com nojo. Por quê?
— Já te olharam com nojo? Sinto muito por isso.
O garoto levou a mão esquerda às costas do homem, dando um leve tapinha de conforto. Eram costas muito fortes; Trevor percebeu, com o tato, que eram também costas muito machucadas.
— Você é uma criança muito interessante. — O homem disse, enquanto soltava uma gargalhada.
— Qual seu nome? — Trevor indagou.
— Aspher Vyke. Pode concluir que foi meu pai quem escolheu o nome.
— Sou Trevor. Abandonei o nome Evergreen.
— Bom, Trevor. Vamos nos vestir; temos um jantar para participar. — Aspher puxou o garoto pelas mãos. — Tenho diversos ternos no meu closet. Talvez tenha um do seu tamanho; meu pai ama presentear ternos aos filhos homens.
— Eu não sei se posso aceitar. — O garoto disse.
— Você não está em condições de negar; vamos achar um terno para você.
O quarto de Aspher era gigantesco. O maior quarto que Trevor já vira. Uma cama do tamanho de uma mesa de jantar ficava no centro. A decoração lembrava muito uma floresta, tal qual o antigo quarto do garoto. O closet era da dimensão de sua cozinha, em sua antiga casa. Diversos ternos foram provados. Ternos pretos, verdes, vermelhos e até roxos.
Depois de uma hora, chegaram a um vencedor: um terno vermelho-sangue, de aparência muitíssimo cara. Os sapatos eram de couro de salamandra-panteira e tinham uma cor esverdeada. Pensaram em vestir gravatas, mas desistiram depois de uma empregada achar desnecessário.
— E agora, a parte mais importante: um relógio e algumas joias. — Aspher parecia muito feliz com toda a situação. Por vezes, via-se sorrindo ao vento.
— Eu não acho que posso…
— Eu já disse que não tem problema; que serventia têm todas essas roupas depois que eu me for? Vamos, escolha um relógio. — O homem deixou cair na cama uma caixa bem grande contendo dezenas de relógios de aparência cara. — Escolha o que você mais gostar.
Foram longos minutos admirando a linda coleção. Volta e meia, Trevor achava ter se decidido, apenas para ver um relógio de que gostava mais. Aspher gostava muito das reações de Trevor. Nunca tivera amigos que pudesse trazer para casa; gostava da experiência.
— É este! Você tem certeza de que posso pegar emprestado? — Finalmente escolhera um: um relógio de ouro pálido, incrustado com pequenas "flores" feitas de diamantes nas pétalas e safiras nos botões. Um artesão muito competente devia ser responsável por isso.
— Ótima escolha! Combina com você. — Elogiou Aspher enquanto vestia um relógio feito de ouro escuro incrustado com rubis. — Agora, vamos para os brincos e as correntes; quero ver como você vai reagir.
— Reagir? Como assim?
O homem bateu duas palmas, e três criadas entraram no quarto carregando o baú mais lindo que Trevor já vira, todo ornamentado em ouro, com alguns detalhes que se assemelhavam à decoração da casa dos pais de Trevor.
— Comprei esse baú de um duende artesão. Tenho que admitir que foi muito caro, mas é um ótimo trabalho. Venha, escolha seus brincos; você também tem furos nas orelhas. — Disse o homem, apontando para sua orelha esquerda.
O baú estava minuciosamente organizado, dividido por grupos de materiais: prata no fundo do baú, ouro comum acima, ouro especial e então os de joias. Trevor não gostava de brincos muito chamativos; decidiu ficar nas camadas mais baixas. Aspher escolheu pares variados, formando uma espécie de "salada". Escolhendo quatro pares de ouro, dois para cada orelha, Trevor estava pronto.
— Isso foi muito divertido! Devíamos fazer mais vezes.
— Realmente. Foi muito divertido. — Aspher estava trajando as mesmas cores que Trevor, mas em tamanhos maiores. O homem era mais alto e mais forte que Trevor.
— Agora, vamos discutir um plano. — As empregadas guardaram o baú no armário mais próximo de Aspher. — Como hoje é um jantar essencialmente especial, devemos nos preparar.
— Especial? Como assim, um plano? — O garoto decidiu não se sentar, temendo amassar o lindo terno que trajava.
— Hoje, uma delegação do Império vem à cidade. Aparentemente, vão retomar os bons modos com nosso reino. Allastor odeia o Império, mas está disposto a tentar. — Aspher fez sinal de silêncio quando Trevor começou a falar. — Allastor tem seus motivos para odiar o Império; não sei quais são, mas parece algo antigo. Como você já deve ter estudado, nosso reino é independente graças a Allastor. Sua força lhe rendeu essa posição, então o Império nunca veio atrás. — Aspher parou de falar, levantou-se e pegou um livro em sua cabeceira. — Acredito que, hoje em dia, o Império é a maior força de nosso continente: unir e conquistar, algo assim.
— Quando você diz "bons modos", o que isso quer dizer?
— Quer dizer que vão tentar nos incluir em suas forças. Impressiona-me que não tivessem tentado antes; nosso reino é bem famoso por seus guerreiros. Allastor sempre deixou a cidade em livre circulação; quaisquer raças poderiam ir e vir, até mesmo os demônios que não fossem da raça Snoqx. O Império não é tão magnânimo. Eles travam guerras de raças há mais tempo do que se é documentado.
— Então, acha que Allastor vai aceitar?
— Sem chances. Allastor é um homem esperto o suficiente para ver por trás das coisas. Meu pai acredita que o Império tem segundas intenções; Jin disse há algum tempo que, em breve, eles tentariam comunicação conosco e que deveríamos ficar de guarda alta.
— Jin? Como ele poderia saber?
— Jin, meu avô e meu pai. Todos faziam parte do Império; meu avô, em especial.
O garoto ficou olhando para Aspher, pensando no que ouvira.
— Enfim, sobre nosso plano: quero que fique de olho em tudo, qualquer coisa estranha. Obviamente, evite álcool; você não é um bom bebedor.
As orelhas de Trevor ficaram muito vermelhas. Aspher lembrava-se do garoto apagando na formatura da academia.
— E, o mais importante, divirta-se. — O homem levantou-se e encarou um espelho de aparência cara. — Acha que esse relógio combinou? Acredito que um feito de esmeraldas cairia melhor no contraste.
— Você está lindo. Eu só escolheria brincos dourados; eles ressaltam seu cabelo.
— Boa observação.
—
Mais tarde, o jantar estava sendo realizado na propriedade dos Vykes. Como era muito grande, cabiam tantas pessoas quanto se quisesse convidar. Hoje, em especial, o jantar estava sendo realizado nos jardins da propriedade. Levaram-se algumas tantas horas de preparação: fazer a comida, comprar as bebidas, organizar as mesas, o palanque de honra e esses tipos de coisas. Até mesmo uma orquestra fora contratada. Não tocavam o tipo de música mais animada, mas era mais como uma música agradável de se escutar quando o assunto morria em uma conversa.
Festas de nobres eram, em sua essência, campos de batalha, mas sem armas e magia. O carisma e as habilidades sociais reinavam por aqui. Nobres menos importantes eram, com toda certeza, os mais interessados em festas como essas; casar algum de seus filhos com uma casa mais forte era o objetivo mais comum. Allastor conseguira seu casamento em um desses eventos, com a ajuda de Bjorn.
A informação de que uma delegação do Império estaria presente despertou muito interesse de todo o reino, especialmente dos nobres. Até mesmo os plebeus sabiam que ter Jin Haruto, Allastor, o Vermelho, Bjorn, o Urso Prateado, e o Império em um só jantar não significava nada bom.
O palanque de honra estava lotado. Em seu centro, Allastor jazia em seu traje real, com sua coroa imponente. À sua esquerda, Bjorn, trajado em um terno branco, sapatos pretos e com uma cara de cansaço. O homem trabalhava muito, mesmo sendo quem era. À sua direita, o enviado do Império, um homem moreno de aparência respeitosa, lembrava um avô que já vira muitas batalhas, mas agora se focava em seus netos. Tinha várias cicatrizes no rosto, em especial uma no olho esquerdo, que o deixara cego. No mundo dos guerreiros, cicatrizes eram medalhas, a prova de suas batalhas e vitórias. Trajava roupas muitíssimo chiques: uma espécie de robe vermelho nos ombros, um uniforme militar, e diversas medalhas jaziam em seu peito. Segurava uma bengala, mesmo sentado. Atrás dele, o resto de sua delegação deixava um contraste engraçado se comparada aos convidados de honra mais à esquerda. Todos usavam uniformes militares, menos chamativos do que o de seu líder e com menos medalhas no peito, mas pareciam animados.
Reid estava atrás de Bjorn; fora posto ali contra sua vontade, e Jin fora o culpado. Com ele estavam Valkyrie, Trevor, toda a família de Bjorn, Cynthia, Maria e Jin. Reid estava vestindo uma das roupas de Jin: uma espécie de robe azul com detalhes dourados, tinha o cabelo amarrado em um rabo de cavalo e usava um cordão de prata — seu traje fora um pedido de seu mestre. Jin, por sua vez, usava um robe vermelho com detalhes de nuvens prateadas e tinha um rabo de cavalo bem maior; com seus cabelos pálidos, usava um cordão de ouro e portava uma espada na cintura. Geralmente, não se permitiam armas em festas como essas, mas quem iria impedir o homem? Allastor não parecia se incomodar.
No momento, o Rei conversava suavemente com o homem à sua direita; estavam rindo de algo. Reid sabia que eram amigos pelo que ouvira da conversa. Aparentemente, lutaram juntos na guerra e se separaram depois da instauração do novo Império. O convidado parecia ser uma pessoa muito racional, e, ao contrário de seus amigos, queria estar ali.
— Sabe, Allastor, quando me enviaram aqui, pensei que seria uma viagem sem sentido. — O homem disse ao Rei, levantando uma mão à altura da cabeça, fazendo seus homens pararem de falar imediatamente. — A imagem que eu tinha em minha memória de você é bem diferente da realidade.
— Sei do que fala. Não é o primeiro a reagir assim. Minha memória de você também é diferente. Você costumava ser tão mais enérgico. — Allastor fez o mesmo movimento que o homem para calar os seus.
— Acredito que o tempo não poupa nem mesmo os maiores guerreiros, amigo. — O homem fez o mesmo movimento, e seus subordinados, tais quais robôs, prostraram-se.
— O tempo é um remédio amargo; acredito que seja uma forma de nos dizer que a certeza da morte nos cerca. A mudança que traz é a recompensa. — Allastor não fez o mesmo movimento que o homem. Sabia que, se mandasse, todos se ajoelhariam, mas não precisava disso.
— Podemos começar? Meus homens fizeram uma longa viagem, e dói em minha honra admitir que são tão fracos. — O homem disse, olhando para trás.
— Como quiser. Bjorn.
O Urso Prateado levantou-se de repente. Fazendo uma reverência a seu rei, virou-se em direção aos convidados. O jardim estava apinhado de gente; a maioria era uma massa de nobres insignificantes, mas aqui e ali podia-se ver futuros promissores. Algumas auras se destacavam entre a plateia. Em especial, uma de cor vermelha queimava intensamente; Bjorn não conseguiu ver o rosto, mas, quando bateu os olhos de relance, a aura se retraiu.
— Boa noite. — O homem pigarreou, vendo que a maioria não parara suas conversas. — Jin, faria o favor?
O homem acenou prontamente com a cabeça e, erguendo a mão esquerda para os céus, soltou uma magia engraçada: uma espécie de magia de fogo que imitava lindos fogos de artifício, o que, por sua vez, chamou a atenção de todos os presentes.
— Obrigado. — Bjorn disse ao irmão, virando-se para a plateia. — Boa noite! Me chamo Bjorn Vyke, filho do grande general Aspher Haruto e irmão do poderoso Jin Haruto. Agradeço a presença de todos nesta noite. O motivo de nossa pequena reunião… — Bjorn virou-se para o convidado da noite. — …é a presença do lendário general de guerra Logan, O Blindado.
O homem levantou-se lentamente de seu assento, sendo ovacionado por uma vigorosa salva de palmas e alguns conhecedores mais dedicados, que gritavam para o comandante. Depois de um minuto de palmas, o homem sentou-se novamente em seu lugar.
— O senhor Logan é enviado pelo Império, juntamente com sua delegação. Agora que suas apresentações foram concluídas, passo a palavra para o convidado da noite.
Muito lentamente, o homem levantou-se; ninguém aplaudiu desta vez, todos o olhavam com expectativa. O homem segurava-se em sua bengala enquanto estudava a plateia.
— Boa noite. Meu objetivo, com esta viagem, é garantir melhores termos com seu reino. Fui enviado por meu comandante e aprecio a confiança que têm em mim. Tempos sombrios se aproximam, e precisamos nos unir. — O homem parou de falar, deixando suas palavras assentarem nas mentes dos aqui presentes.
— Como bem sabem, estamos em uma gigantesca e extensa guerra com o outro continente, e, por mais que eu gostasse de resolver de forma amigável, já passamos desta fase. Muitos morreram, e muitos morrerão. O objetivo principal da noite é anunciar que o Império e Qudu farão tratados de não agressão e cooperarão entre si para garantir um futuro melhor.
Uma onda de vivas e aplausos enérgicos irrompeu pelo jardim. Logan deixou que se estendesse por algum tempo. Quando finalmente parou, ele continuou sua fala.
— E, como demonstração desta nova era, o Império abrirá suas fronteiras para Qudu, e cessaremos os ataques. Qudu, por sua vez, fará o mesmo. Esperamos que isso seja apenas o começo; muito mais está por vir. Tenham todos uma boa festa. — Logan sentou-se, ignorando a nova salva de palmas.
Reid não sabia bem o que pensar sobre a notícia. Qudu era conhecida por não se dar bem com o Império; agora, de repente, se aliariam? Seus amigos pareciam bem com a notícia. Trevor ria com um rapaz alto de cabelo verde. Valkyrie fazia biquinho para uma piada dos dois, mas parecia se divertir. Jin não tinha emoções expostas na face, mas olhava para a nuca de Logan, fuzilando-o com o olhar.
A festa seguiu-se sem muitos problemas; Reid desviava o quanto podia dos olhares de Allastor, seguindo a dica de Cynthia. O homem parecia cada vez mais encontrar Reid escondido. Conseguiu manter-se assim por algum tempo, até que, infelizmente, fora encurralado pelo rei na mesa de assados.
— Sabe, Reid, tenho a impressão de que está me evitando. — O rei, para nenhuma surpresa de Reid, estava acompanhado de uma garota da idade do garoto. A garota usava um uniforme militar e, se comparada com seus companheiros, tinha muito menos medalhas no peito. Tinha uma feição dura, com cara de poucos amigos, mas era no mínimo bonita.
— É impressão sua, meu Rei. O que manda? — Reid não pôde fugir desta vez; a mesa estava lotada, não lhe dando espaço para uma fuga.
— Quero que conheça alguém. Esta mocinha se chama Lotus. — O homem apontou para a garota, que fez uma reverência curta. Seus olhos analisavam Reid sem parar. — Ela é um prodígio do Império e parecia muito ansiosa para te conhecer. — O Rei deu uma risada e afastou-se, deixando-os juntos.
— Olá, eu sou o Reid… Reid Star. — O garoto estendeu a mão. Não parecia que Allastor a tinha apresentado como pretendente; decidiu baixar a guarda.
— Eu… sou a Lotus, prazer em te conhecer. — A garota apertou a mão. Os dois analisaram-se ali mesmo. Ambos se impressionaram com as mãos um do outro.
— Uau, você treina bastante. — Reid examinou mais minuciosamente a mão da garota; nem mesmo Trevor tinha uma palma daquele jeito.
— Você também! — Os olhos de Lotus eram de uma coloração que Reid nunca vira, tão lindos como ametistas, mas brilhavam como pérolas. Seus cabelos eram curtos, mais curtos que os de Reid, e tinham uma coloração castanho-perolada. Seu físico não era impressionante, mas era o que se esperava de alguém que treina por anos. Sua pele estava mais para uma coloração pálida.
Os dois ficaram se olhando por um tempo. Reid nada mais conseguiu dizer; era óbvio que a garota não era uma maga.
— Você também treina com a espada?
— Ah, bem, eu vivo da espada, sabe? — A garota levou uma das mãos à cintura, apenas para se lembrar de que sua amiga não fora permitida no jantar. — Não temos tantos magos no Império, então os que temos têm sua vida bem valorizada. Para o resto… — A garota apontou para o próprio rosto. — Só nos resta nos destacarmos com a lâmina.
— Você não usa magia?
— Ué, não. Você usa? — Confusa, a garota indagou, pendendo o pescoço levemente.
— Sim. — Reid nunca mais parara para pensar sobre isso, mas magia realmente não era tão comum como pensava.
— Uau! Me mostra?! — A face da garota se iluminou, e seus olhos brilharam ainda mais; um sorriso surgiu em seus lábios. Reid só conseguiu perceber que ela tinha todos os dentes.
— Acho que hoje não dá.
— Ah… certo, tudo bem, então.
— Lotus! Estamos indo para a pousada. Lembre-se de que não está em casa. — Um dos homens de uniforme militar chamou a garota.
— Sim, senhor! — Com uma breve reverência, a garota desviou-se do olhar de Reid. — Acho que seria melhor eu ir também.
— Bom, boa noite. — Reid estendeu a mão direita e ofereceu um tímido sorriso.
Com um pequeno biquinho, a garota aceitou o aperto de mãos. — Até mais ver, Reid Star. — Dando-lhe as costas, seguiu o grupo fardado. Todos pareciam felizes com a mudança de paisagem, mas talvez fosse só o sorriso de Lotus que se destacava.
—
Fora da propriedade, um grupo trocava informações quase roboticamente. Em especial, uma garota falava energicamente.
— Então?
— Alvo confirmado. — A garota deixou um involuntário sorriso escapar. — Parece meio desconfiado de estranhos, mas não agressivo.
— Ótimo. Todos sabem seus papéis. Não façam nada que decepcione o Palor. Misturem-se, deixem Logan agir e então façam o seu. Fim da reunião.
— Sim, senhor! — Foi ouvido em um beco não tão escuro do setor residencial.
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