Volume I
Capítulo 18: Por Ventura
— Jin, você conheceu minha mãe, né? — Reid perguntara ao homem em um dia não tão memorável de sua primeira semana juntos, logo após o incidente do Devastador.
— Eu... eu conheci, sim.
— E como ela era? Quer dizer, antes de eu nascer. — Reid carregava uma parte da bagagem da dupla enquanto caminhava, seguindo Jin.
O homem pensou por bastante tempo antes de responder ao garoto.
— Ela era como o sol, em um mundo de neve eterna.
— Quê?
— Ela foi a pessoa mais alegre que eu já conheci; era contagiante. Por vezes, via-me sorrindo ao vê-la, sem nem mesmo perceber.
— Nossa... lembro-me de todas as vezes em que vi minha mãe realmente alegre.
— E como ela era, pelo que se lembra?
— Minha mãe era bem forte, mas sempre chorava no banheiro. Muitas vezes ela falava que nós dois deveríamos estudar para não acabarmos como ela. — O garoto parou de falar por um longo minuto. — Pergunto-me se ela sabia que queríamos ser ao menos metade do que ela foi.
— Você se lembra de quantas vezes disse que a amava?
— Como assim? Não, não lembro de todas.
— Então ela sabe.
O garoto quietou-se confuso, tentando digerir toda a conversa.
— E você? Lembra-se de todas as vezes que disse que amava seu pai? — O garoto perguntou, enquanto caminhavam sob um lago, com a magia de terra de Jin.
— Ah, sim, lembro-me. Mas duvido que ele tenha escutado; o caixão em que descansou era particularmente grosso.
O som da água corrente era como uma terapia; ver a água passando por debaixo de seus pés fez Reid pensar, mais uma vez, em seu passado.
— Sabe, eu sei que disse que odiava meu pai, mas espero que algum dia ele me procure. Sabe... pra pelo menos tentar me explicar o porquê. Me dar um motivo; sempre achei que a culpa fosse minha.
— Eu sei que algum dia ele vai aparecer e você talvez consiga entender o que se passou na cabeça dele.
— Queria ter esse poder, não posso prometer que vou entender, mas sei que vou tentar.
— Só de pensar assim, você já está em um caminho de mudança. Só espero que não seja tarde.
— Eu também. — O garoto olhou para os céus. — Jin, vai chover.
—
— Anda, Trevor! Você vai ficar aí o dia todo? — Reclamou Valkyrie enquanto batia na porta do quarto de Trevor.
— Olá, Valkyrie. Sim, vou ficar aqui quanto tempo for necessário; preciso saber como é. — Trevor disse, abrindo a porta pela metade e colocando a cabeça para fora.
— Isso é estupidez! Você está se forçando a isso; ele não tinha escolha!
— Isso só me dá mais motivos para tentar; não vou conseguir me sentir em pé de igualdade com ele se não conseguir nem mesmo fazer isso. Até mais ver. — O elfo fechou a porta, deixando a garota encarando uma linda porta de bétulas entalhadas.
— Eu vou contar para os seus pais!
— Vá em frente, eles não podem me fazer mudar de ideia; além de tudo... eles já tentaram.
A garota ficou da mesma cor de seus longos e ruivos cabelos.
— Então eu vou contar a ele! Você quer que eu diga a Reid que seu melhor amigo está se forçando a passar fome?
Trevor não respondeu de imediato; pensou brevemente.
— Tenho certeza de que Reid entenderia; ele fugiu de casa para virar um aventureiro, vai entender.
A garota desistiu de tentar convencer o amigo, saindo da casa e indo direto ao forte do Rei de Qudu. Como ambos ficavam na parte alta do reino, o caminho não tomou mais do que alguns minutos. Chegando aos portões, os guardas já estavam mais do que cansados de ver a garota; ora, passava mais tempo ali do que na própria casa.
— Senhorita Vyke, creio que o garoto Reid esteja em treinamento. Vai encontrá-lo no subsolo. — Disse um guarda pomposo, de armadura completa feita de placas de aço.
— Obrigada!
Desceu então pelas longas e escuras escadas que levavam aos níveis inferiores do forte. Estavam bem limpas para escadas tão pouco usadas, mas Cynthia sempre fora perfeccionista quanto ao estado de seu forte. A porta do salão de treinamento pessoal de Allastor era feita de madeira maciça e pesava no mínimo duas toneladas, mas, para a sorte da garota, estava entreaberta, com uma fresta de luz escapando de dentro da sala.
— De novo, você defendeu por cima, corte esse vício bobo!
— Eu já tinha dito isso a ele!
— Então é um vício burro.
As vozes vinham de dentro do salão. Pareciam mais animadas do que irritadas. Valkyrie ficou meio indecisa se entrava agora ou não, ficando ali na porta, parada.
— Entre, garota Vyke!
— Entre, Valkyrie!
Disseram as vozes ao mesmo tempo.
— Olá, eu queria conversar com...
— Com Reid. Ele está ali, descansando. — Jin apontou com a cabeça para o garoto deitado, sem camisa e bufando no chão.
— Reid! Sua namorada veio te ver; pare de fingir estar cansado. — Allastor riu para Jin, que apenas lhe correspondera com um sorriso.
— Par... — O garoto reunia forças para se levantar. — Parem com isso!
— Reid, preciso falar com você... em particular.
Allastor inflou o peito, mas, para sua decepção, foi interrompido por Jin.
— Vamos, Allastor, creio que já basta de treino por hoje; preciso de sua opinião sobre algo.
O Rei nada mais fez, apenas largou um gigante sorriso para Reid enquanto seguia Jin para fora do salão.
— Tem que ser agora, Valk? Eu preciso de um banho; eles não estão pegando nada leve comigo. — O garoto se secava com uma toalha enquanto falava com Valkyrie. — Meus olhos são aqui em cima.
— Eu não tava olhando! — A garota conseguira ficar ainda mais vermelha. — É o Trevor. Ele tá passando fome de propósito!
— Ué. De propósito? Os pais dele não são bem de vida?
— Sim! Desde que você disse que já tinha ficado duas semanas sem comer, ele tá com isso na cabeça.
— Hmm. Pior que faz alguns dias que ele não vem aqui. Quantos...
— Três dias, pelo que a mãe dele disse.
— Ah, sim.
— Você só vai falar isso? Seu amigo está passando fome e você não vai impedi-lo?
— Escuta, Valkyrie. Como você disse, é de propósito. Não é necessidade; ele pode comer quando quiser, e a mãe dele disse que são só três dias. No momento, o corpo dele tá consumindo toda a gordura que armazenou daqueles pudins. Quando isso acabar, aí é que vem a fome de verdade. Além do mais, elfos são bem orgulhosos.
A garota ficou sem reação ao escutar aquilo, ficando com o mesmo semblante de sempre que Reid falava de seu passado.
— Se você chorar, eu vou te abraçar todo suado. — Reid começou a caminhar para cima da garota com os braços abertos.
— Sai! Que nojo! — A garota saiu correndo e gritando do salão.
Reid subira direto para o banho, enquanto Valkyrie fora para seu lugar preferido: a cama de Reid.
— Sabe, de vez em quando eu esqueço que você não mora aqui. — Reid estava deitado no chão de seu quarto, jogando uma bola de pano para cima.
— Cala a boca. O que eles estavam fazendo com você? Vi você quase morrendo no chão. — A garota estava sentada, com o gato de Reid, Poeira, em seu colo.
Poeira era um gato cinza que Reid encontrara roubando do açougue pessoal de Allastor. Os empregados planejavam dar cabo dele e teriam conseguido se Reid não tivesse intervindo. Desde então, os dois passavam a maior parte de seu tempo juntos no quarto do garoto.
— Eles estão revezando esgrima e magia, e, quando acho que estou tendo uma evolução, os dois vêm pra cima ao mesmo tempo. Olha aqui. — Reid apontou para um hematoma no pulso esquerdo, que tinha forma de maça e cor escura. — Isso foi quando tentei atravessar a aura de Allastor com minha espada; minha mão foi decepada.
— Mentira! E o que mais?
— Mestre Jin lutou com esgrima e magia ao mesmo tempo hoje. Acho que, se ele quisesse, teria me matado em milésimos. Enquanto isso, Allastor me atacava com golpes simples usando uma espada de treino. Você chegou tarde; a curandeira que eles contrataram da guilda de aventureiros já tinha ido embora.
— Você não acha que isso tá sendo intenso demais?
— De modo algum! Fui eu quem pediu por isso. E eu até consegui acertar um golpe em Mestre Jin hoje! — O garoto contou radiante.
— Sei...
— Ah, cala a boca.
O som de vozes veio de fora do quarto; provavelmente eram os empregados limpando o salão.
— Você não vai entrar em nenhuma academia? Papai quer que eu vá pra Escola das Presas de Ferro.
— Essa escola não é aquela pra ricaços?
— Eu acho que sim.
— Pessoalmente, eu não tenho ideia. Quero ficar com o Poeira para sempre! Não é, seu vagabundo?! — O garoto se levantou e furtou Poeira do colo de Valkyrie. O gato espreguiçou-se nas mãos do garoto e soltou um breve miado.
— Sabe, tá ficando tarde... — Disse Valkyrie despretensiosamente.
— Eu já pedi para que as empregadas não tirassem o colchão; tá debaixo da cama, acho até que o Poeira dorme ali.
— E é por isso que a gente se dá tão bem.
A garota tirou o colchão debaixo da cama e deitou-se.
— Agora que eu lembrei de te perguntar: como é na sua casa?
— Eu não gosto muito de lá; parece que eu tenho que ficar pisando em ovos o tempo todo. Aqui eu posso ser eu mesma. Acho que o único legal lá é o Aspher.
— Que merda. Deve ser uma sensação horrível.
Os dois ficaram ali, olhando um para o outro.
— Vou pedir uma escova de dentes pra você amanhã.
— Que atencioso, mas não precisa; meu pai pediu para que eu fosse para casa, devido ao jantar que a família vai prover.
— Ah, é. Jin me falou desse jantar. Allastor falou que iria me conseguir uma noiva.
— Você morreria de tédio; aquelas garotas são tão... básicas. Meio que dá pra saber o tipo só de olhar.
— Talvez você tenha razão.
Poeira revezava com quem dormia, hora com Reid, hora com Valkyrie. O gato parecia não se decidir, mas algo era certo: ele era o único tendo uma boa noite de sono. Reid tinha pesadelos todas as noites; eram raras as vezes em que conseguia dormir mais de três horas seguidas, então passava a maior parte do tempo acordado. Agora, estava acariciando Poeira, que dormia tranquilamente em sua cama. Ficou assim por algum tempo, até ouvir pequenos barulhos.
— Valk? — Sussurrou o garoto.
Nenhuma resposta, mas os sons não cessaram.
— Valk, você tá acordada?
A garota estava inquieta, deitada no colchão de casal; parecia estar tendo um pesadelo muito mais intenso que Reid.
— Valk! Acorda.
A garota acordou subitamente, quase aliviada por sair daquele transe.
— Você tá suada, pesadelos?
— Como você sabe? — A garota limpou o suor da testa com as mangas da camisa.
— Eu também tenho. Chega pro lado. — O garoto deitou-se ao lado de Valkyrie.
— Você também tem? Com que frequência?
— Mais do que eu gostaria. Quer falar sobre os seus?
— Enquanto estávamos atrás de você, um grupo de bandidos nos parou no meio da estrada. Jin nos ajudou a superar nosso medo, mas eu e Trevor matamos alguém.
— Ah... sinto muito...
— Não sinta, eu sabia que uma hora ou outra esse dia iria chegar; quer dizer, meu pai é quem é, eu teria que matar em algum momento. — A garota desviou o olhar de Reid. — Desde então eu o vejo toda noite, aquele olhar de dor e desespero.
— Vocês os enterraram?
— Sim, enterramos.
— Não vou mentir pra você dizendo que vai esquecer isso algum dia, mas melhora com o tempo. Depois de alguns anos, você se lembra só de um vulto da memória.
— E você? Por que tem pesadelos?
Reid não respondeu. Achava que, se contasse a verdade, a visão que a amiga tinha dele iria mudar. Contou somente uma meia-verdade.
— Eu estou esquecendo da minha irmã. A voz dela, o sorriso, os olhos... Essas coisas estão se perdendo com o tempo.
— Que coisa horrível... Vocês eram muito unidos?
— Sim, éramos, sim. Eu sempre quis irmãos, então, quando ela nasceu, eu pude finalmente fazer o que as crianças faziam: brincar de esconde-esconde, pega-pega e essas coisas.
— Eu também sempre quis fazer isso... meus irmãos parecem mais meus concorrentes a chefe da família do que outra coisa. — A garota ficou mortalmente quieta. — Você acha que consegue me falar de como elas...
— Não, eu acho que não consigo...
— Tudo bem, não precisa se forçar. — A garota abraçou Reid e descansou a cabeça em seu peito. — Obrigada.
— Pelo quê?
— Por ser assim. Sabe, na primeira vez que nos vimos, eu achei que você era um filho perdido de Allastor.
Os dois caíram na risada. Até chegaram a acordar o pobre dorminhoco do Poeira.
— Bom, considerando que Allastor parece um armário, não consigo entender de onde você tirou isso.
— Pois é, você estava bem desnutrido na época, mesmo, mas vai saber... Maria não é muito parecida com ele.
— E o que você tem com a Maria? Desde o começo, não parece que vocês se gostam muito.
— Eu sempre tive ciúmes dela; ela sempre foi rodeada de amigos mesmo sendo nobre.
Poeira começou a mordiscar um dos brinquedos que Reid tinha lhe dado.
— Sabia que Allastor e Cynthia sempre quiseram ter mais filhos? Maria também sempre quis ter irmãos. Agora que Jin e eu estamos morando aqui, todos os três parecem mais felizes.
— Falando em Jin, aquela mulher... ela foi embora?
— Elise? Ela foi, mas disse que voltaria em breve.
— Aquela mulher é estranha.
— Você tem um pé atrás com todo mundo, né?
— Eu aprendi a ser assim.
Reid sequestrou Poeira, colocando-o no meio dos dois.
— Você acha que consegue dormir agora?
— Não se atreva a levantar; dorme aqui hoje.
— Daqui mais um tempo, o Poeira não vai caber aqui nesse meio.
— Nem você. Parece estar comendo fermento; viver com Allastor tem feito coisas.
— Eu vi você olhando; da próxima, tenta disfarçar melhor.
— Cala a boca, eu olhei só de reflexo.
Reid ficou sem saber o que falar; Valkyrie estava bem gelada.
— Eu vou falar com o Trevor amanhã, mas você sabe como ele é; quando algo entra na cabeça dele...
— Tá bem.
Os três dormiram ali, pacificamente, sem pesadelos. Logicamente, Poeira saiu depois de algum tempo, sabe-se lá para onde.
O dia amanheceu nublado. Geralmente Reid levantava-se cedo, mas hoje não sentiu vontade de treinar, talvez por seu corpo estar quebrado das semanas de treinos incessantes, ou talvez por gostar de não ter nada em sua mente, algo raro de acontecer. Levantando-se, Reid deixou Valkyrie dormindo ali no colchão. Parecia uma pessoa completamente diferente enquanto dormia: suas feições sempre tão acentuadas ficavam neutras, como as de um gato. Reid achou até cômico que ela se parecesse com Poeira enquanto dormia; no entanto, duvidava que se safasse de um carinho na barriga somente com um arranhado.
Seguindo direto para o banheiro que tinha em seu quarto, Reid tomou um banho mais do que gelado, escovou os dentes e colocou as roupas mais confortáveis que conseguiu encontrar. Depois, desceu direto para tomar café da manhã. Na mesa, já se encontravam Allastor, Jin e Cynthia, tendo uma breve conversa enquanto comiam. Allastor comia um verdadeiro prato de café da manhã: vários ovos, bacon e bananas cozidas jaziam em seu prato. O homem tinha adquirido um gosto pelas bananas quando Reid as apresentou. Cynthia comia uma salada de frutas, e Jin tomava um chá verde enquanto se servia de um melão.
— Bom dia, pessoal. — Disse Reid enquanto se sentava.
— Bom dia, Reid. — Os três responderam ao mesmo tempo.
Reid se serviu de um prato modesto, majoritariamente composto de bananas cozidas, algo de que gostava muito. O item só se tornou algo recorrente no forte por capricho de Cynthia para com o garoto.
— Então... a garota dos Vykes dormiu aqui de novo, não? — Allastor perguntou enquanto tomava uma senhora caneca de café feito há poucos segundos.
— Sim, ela dormiu.
— Sabe, hoje, quando uma empregada entrou no seu quarto para entregar a lavanderia, ela viu algo interessante... — Cynthia soltou de maneira arrastada.
— Nós queremos conversar sobre a relação que vocês dois têm. — Jin foi direto ao ponto.
— Você é um estraga-prazeres. — Disseram Allastor e Cynthia ao mesmo tempo.
— Relação? Nós somos amigos. — Reid respondeu sem saber o que queriam dizer. Comeu uma grande garfada de bacon e bananas; o sabor agridoce era maravilhoso.
— Amigos não dormem abraçados na mesma cama... nesse caso, no mesmo colchão. — Jin devolveu, terminando seu melão.
— Ela estava tendo pesadelos, e geralmente dormir com alguém ajuda. E ajudou. Vão me dizer que vocês nunca tiveram pesadelos?
— Olha, não precisa ficar na defensiva; se você está dizendo que não tem nada demais, então nós acreditamos em você. — Disse Allastor, dando um sorriso ao garoto. — Só tome cuidado com os empregados; para rumores se criarem, basta uma pessoa.
— Entendi... mas não tem nada rolando; nós só estamos nos ajudando. Acho que ontem foi a primeira vez que tive um sono tão bom. — Reid bebeu um gole de café. — Esse café está diferente; tem mais gosto de fruta.
— Aí está um homem de bom gosto! Eu sabia que você iria perceber, Reid! — Exclamou Cynthia para Allastor e Jin ao mesmo tempo. — Eu tomei a liberdade de mudar o café entregue ao forte. Esse aí vem de uma fazenda conquistada recentemente por nossos homens. Nada de trabalho escravo! Nós compramos o café. — Disse Cynthia ao ver a expressão de desconfiança de Reid.
— Ele é melhor que o outro; acho que consigo me acostumar. Então, estamos conversados sobre a Valk?
— Estamos. — Os três disseram ao mesmo tempo.
— Ah, e obrigado por conversarem assim comigo e não me tratarem como criança. — Reid ficou meio envergonhado.
— Nenhum de nós o vê como uma criança, Reid. Como poderíamos? Você já viveu mais coisas que a maioria dos adultos. — Jin respondeu.
— Nenhuma criança é tão forte quanto você; ontem você até mesmo acertou o Jin! — Allastor deu uma gargalhada.
— A Valkyrie ainda está dormindo? Vou pedir para que uma das meninas leve alguns itens para ela. — Cynthia perguntou a Reid enquanto Allastor ria de Jin.
— Sim, acho que ainda está. O Poeira não parece se incomodar com ela dormindo no colchão dele.
— Você sabe que o jantar de hoje é bem importante, não? — Cynthia acompanhava Reid pelo corredor que levava ao seu quarto. O corredor era bem amplo e continha diversos quadros que decoravam as paredes feitas de pedra de limo. Alguns móveis mais refinados eram encontrados de vez em quando, cortesia de Cynthia. Se dependesse de Allastor, pinheiros de ferro fariam parte de tudo naquele forte.
— Eu não quero ir. Esses jantares são sempre cheios de abutres e curiosos. A história de eu ter fugido já deve ter se espalhado há muito.
— Bom, boa parte dos convidados estará lá por causa de Jin e da comitiva do condado de Bartrid. Acho que, se você evitar os holofotes, poderá se divertir. — Cynthia deu um tapinha de consolação nas costas de Reid. — Além do mais, evite ser visto por Allastor; ele falou sério sobre lhe arranjar uma noiva, estava até me pedindo conselhos.
— Ele não... — O garoto considerou um pouco. — É, ele faria algo assim mesmo. — Reid levou a mão esquerda à testa. — Ele parece esquecer de que não sou um nobre; não pode oferecer minha mão assim.
— Ele sabe que você não é um nobre. Você é aprendiz do Jin, e, por aqui, isso já basta. Enfim, evite topar com ele; não deve ser difícil, já que ele não dará nenhum discurso. — Os dois estavam parados em frente à porta do quarto de Reid.
Reid entrou no quarto e não encontrou nem Valkyrie nem mesmo Poeira. Decidiu sentar-se em sua cama. Jantares eram, de muitas formas, valiosos, tanto pelas oportunidades de contato quanto para a imagem que se tinha no reino. Famílias importantes eram convidadas e, consigo, traziam suas demandas e ofertas.
— Reid? Você não estava aqui quando acordei, então eu tomei a liberdade de tomar um banho. — Valkyrie saiu do banheiro com Poeira em seu encalço. — Tome cuidado, acho que você pode perdê-lo pra mim.
— Ele não é doido de me largar. Cynthia mandou estes itens pra você, parece que tem até perfume. — Reid mostrou a cesta que trouxera consigo. — Parece que ela gosta de você.
— Ela é uma querida. Sabe, não acho que você use, mas o que você acha desse perfume? — Perguntou Valkyrie, mostrando o pescoço depois de passar o perfume que Cynthia lhe dera.
Reid deu uma boa fungada que deixou a garota surpresa.
— Tem cheiro de flores, aquelas roxas que ficam do lado de fora da cidade. Achei cheiroso.
A garota passou mais algumas borrifadas.
— A propósito, seu cheiro natural é muito bom, não precisa usar perfume. — Valkyrie disse de passagem.
— Ah, é? Ontem, no salão de treinamento, você não pareceu gostar muito.
— Por favor, você estava imundo, é diferente.
Reid pegou o frasco da mão de Valkyrie e deu-se algumas borrifadas de perfume.
— Você quer passar na casa do Trevor?
— Eu já passei lá ontem; minha paciência não me permite ir hoje de novo.
— Então eu te vejo depois. — Reid começou a andar em direção à janela de seu quarto.
— O que você tá fazendo? Reid? — A garota ficou confusa; Reid andava cada vez mais para a janela.
O garoto simplesmente se jogou da janela, a quase vinte metros do chão, deixando Valkyrie desesperada.
— REID! REID, CARALHO! — Em seu desespero, Valkyrie correu em direção à janela, apenas para ver um Reid já no chão, rindo para ela.
— Pula! Eu te pego! — Gritou Reid para a garota.
— Seu filho da puta! Eu achei que você tinha se matado! — Os cabelos da garota perdiam em grau de carmim para a face.
A garota ficou ali, espumando de raiva por alguns segundos, até recuar da janela, saindo do campo de visão de Reid. O garoto, achando que ela desceria pelas escadas, virou-se para começar a andar, até que escutou um grito agudo de uma desesperada Valkyrie se jogando da janela. Em um momento de descrença, Reid instantaneamente virou-se e fortaleceu todos os músculos do corpo com mana, esperando apanhar a garota. A cena toda pareceu durar horas, quase que em câmera lenta. Em um baque mudo, Valkyrie caiu em segurança — e em muito desespero — nos braços abertos de Reid. Seu coração estava em toda sua capacidade, palpitando mais vezes por segundo do que jamais estivera.
Reid não conseguia esconder o sorriso de extrema surpresa que tinha. Achava que Valkyrie jamais pularia; só tinha gritado para que pulasse, esperando fazer-lhe raiva. A garota tinha alguns parafusos a menos na cabeça, tal qual ele.
— Você é louca.
— Obrigada por me pegar.
Os dois se olharam com os olhos arregalados, até escutarem uma voz vinda por detrás dos dois.
— Eu tenho quase certeza de que esse não era o uso que achei que teria a técnica que lhe ensinei. — Allastor tentava forçar uma expressão de descontentamento, mas claramente achava a situação muito engraçada.
— Qual a utilidade de saber fazer isso e não poder usar para coisas assim? — Reid largou Valkyrie, liberando a mana que reunira. — Magia não serve só para lutar.
— Bom, ela não serve. Não diga a Jin que lhe ensinei isso; quero que você o acerte de novo mais tarde. — Allastor deu uma piscadela para o garoto enquanto se afastava a passadas largas.
— O que ele quis dizer com isso?
— Eu te disse que acertei o mestre Jin. Foi uma única vez e sem dano algum? Sim, mas eu acertei. — Respondeu, abrindo um enorme sorriso.
— E o que ele te ensinou?
— É segredo. — O garoto fez sinal de silêncio. — Vamos até a casa de nosso amigo teimoso.
O caminho até a casa de Trevor era bem curto, alguns minutos de caminhada. Passaram em frente à escola local e ao armeiro. Armeiro esse que tinha vendido a agora destruída túnica de couro para Reid.
O garoto bateu na porta, sendo quase que imediatamente atendido.
— Olá, Reid. Como tem passado?
A mãe de Trevor era, em poucas palavras, a mulher mais bonita que Reid já vira; seus longos e sedosos cabelos de cor âmbar balançavam ao vento, tinha feições finas e um olhar frio. Era um tanto mais alta que Reid, mas isso não o incomodava.
— Olá, senhora Artêmia; acredito que bem, como a senhora está?
— Ah, eu estou bem; acredito que veio por causa de meu filho. — A mulher olhou para além do garoto. — Olá, Valkyrie, vejo que ainda não desistiu.
— Eu trouxe reforços. — A garota cedeu, com um leve sorriso que fora correspondido pela elfa.
— Entrem. Uma pena meu marido não estar aqui agora; ele adora quando os amiguinhos de Trevor o visitam. O trabalho de Centuri o deixa bem ocupado de vez em quando. — A mulher deu um leve suspiro. — Como já devem saber, Trevor ainda está naquela ideia de passar fome.
— Sim, viemos por causa disso. A propósito, ainda tem algum pudim daqueles?
— Claro, meu marido os acha muito doce, e eu desprezo o sabor que têm; por capricho a Trevor, nós sempre compramos muitos, até mais do que deveríamos.
— Preciso de um.
— Eu pego para você.
A mulher se levantou do sofá na sala de visitas e foi para a cozinha. Voltou rapidamente com um pudim em um prato, juntamente com uma colher.
Reid pegou o prato e foi direto para o quarto do amigo. Bateu na porta e foi quase que imediatamente atendido.
— Oi, Reid, vejo que Valkyrie lhe contou tudo. Temo que um mero pudim não possa quebrar minha determinação. — O garoto deu um leve balançar de desaprovação com a cabeça.
— Isso aqui? Não. Não é pra você, sai do meio. — Reid entrou pela porta, sendo seguido por Valkyrie.
O quarto de Trevor era uma exata personificação de seus gostos. Com móveis feitos de bétulas-turquesas e as paredes pintadas de verde, o quarto tinha uma sensação de paz. Ao centro do quarto, um local para meditação estava montado, e era ali que o garoto passara a maior parte de seus dias. Ao canto, em uma parede, duas espadas estavam encostadas; uma estava fora de sua bainha para ser limpa. Sua cama era decorada com diversos bichos de pelúcia, alguns de cores bem chamativas. No teto, uma pintura impressionante de um céu quase sem nuvens.
Reid sentou-se na cama do garoto e começou a comer o pudim. Tanto Trevor quanto Valkyrie ficaram muito confusos.
— Você veio aqui para comer? — Perguntou uma Valkyrie muito confusa.
— Eu vim aqui para ver meu amigo e acontece de eu gostar de um bom doce.
Trevor deu de ombros e sentou-se em seu círculo de meditação.
— Então, Trevor, quantos dias?
— Quatro.
— Vou ser sincero: não quero te impedir, mas também não quero que continue. — Reid terminara de comer seu pudim. — Você acha que vai mudar seu pensamento depois de passar fome?
— Acho. Preciso, na verdade.
— Então está bem; quando você terminar, quero que passe lá no forte. Mestre Jin e Allastor querem que você entre no treinamento. — Reid virou-se para Valkyrie. — Você também. Só que eu acho que você vai ter um treinamento diferente.
— Você tá brincando! — Os dois disseram ao mesmo tempo.
— Não estou; Jin disse que seria melhor que treinássemos juntos. Allastor aceitou com a condição de que seguissem à risca tudo que fossem instruídos.
— É claro que sim!
— Calma. Primeiro, olhem meu braço; eu o perdi só de tentar atravessar a aura de Allastor. Vocês precisam pensar com calma.
— Cala a boca. Você ainda tá com ele; a curandeira deve ser boa. — Trevor soltou.
— Ela é, mas é estranho. A sensação de ver a mão se costurando com magia é assustadora.
— Cala a boca; se eles a contrataram, deve ser porque ela dá conta. — Valkyrie estava bem animada com a ideia de treinar com os dois.
Trevor ficara sem reação; sua cabeça não sabia o que fazer.
— Vamos, Valkyrie. Trevor ainda tem alguns dias de desafio. Até mais ver.
Trevor estava cada vez mais estranho. Seu rosto estava muito magro; suas bochechas há muito tinham perdido a gordura normal. Seu olhar era de cansaço, e tinha olheiras que davam pena de se ver. O garoto nunca fora o mais orgulhoso dos elfos, mas saber que seu amigo Reid conseguia lembrar das duas semanas em que passara fome como uma irrisória lembrança havia despertado algo em Trevor.
Quais foram os piores dias de sua vida? Quando fora expulso de sua terra natal? Quando perdeu um irmão que nunca havia sequer conhecido? Quando sentiu a dor de ver seus pais chorarem com medo de serem mortos? Nunca foi de se comparar, mas eram, em sua opinião, experiências pífias se comparadas às que Reid já tinha vivido. Sabia que era errado. Reid já dissera uma vez que sua alma doía todas as vezes que algum dos dois se comparava com ele.
Levantando-se, Trevor foi ao canto em que pousavam suas espadas. Agarrou o seu presente de aniversário e deu-lhe uma boa olhada. Assim como Jin lhe dissera, era uma ótima espada. Pensar que já havia ceifado uma vida deu um grande arrepio na espinha do garoto. Fora tudo tão rápido; quase não tivera tempo de processar. Agora, somente uma lembrança vaga do homem cujo futuro ceifara pousava em sua mente. Óbvio que era um fora da lei, mas o garoto acreditava que quase todo mundo merecia uma segunda chance — ou, no caso daquele homem, talvez uma quarta ou quinta.
Uma batida na porta trouxera-o de volta ao mundo real. Uma voz doce que conhecia muito bem.
— Oi, querido. Você está bem?
— Oi... — Uma pausa aconteceu em seu cérebro. Estava bem? — Mãe, o que eles disseram? Sabe, quando eles saíram.
— Disseram que você estava começando a parecer doente e que eu deveria lhe dar mais água. São bons amigos, meu filho; você é importante pra eles.
O garoto nada disse. Realmente eram bons amigos; será que ele merecia tamanha amizade? — A senhora pode entrar, se quiser.
A mãe de Trevor abriu a porta; não suportava o estado em que seu filho estava.
— Oh, meu nenê, vamos, pare com isso. Você é tão lindo; não faça isso consigo mesmo. Seu corpo não merece isso. — A mulher acariciava o rosto do filho.
— Diga-me a verdade, mãe. — O garoto parou a mão da mulher. — Eu sou um substituto, né? Uma réplica falha dele. Você me olha como se eu fosse uma coisa que aprendeu a gostar.
— Do que você está falando? Sobre quem?
— Meu irmão. Eu era cego demais para enxergar: todas as vezes que vocês diziam que ele era melhor que eu em algo, todas as vezes em que vocês fingiam rir. Eu só precisava confirmar. E, julgando por sua reação, não estou errado.
Trevor se levantou, agarrou a espada que tinha comprado e deixou a que os pais lhe deram de aniversário. Não era nada comparada à outra, mas era sua, comprada com seu próprio dinheiro.
— Eu não odeio vocês nem nada, mas eu preciso seguir meu rumo, pensar um pouco no que quero para a minha vida. Até a próxima, Artêmia. Dê minhas despedidas a meu pai.
A cena toda deixou a mulher sem qualquer reação; não sabia nem mesmo como respirar. Quando recobrou os sentidos, o garoto já havia partido.
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